Quarta-feira, 6 de Dezembro de 2017

Nós, os homens

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XI

 

O ser humano é versátil e inverosímil, se calhar quanto mais a primeira, tanto mais a segunda! Se esta história se tivesse passado com um amigo meu, mesmo de infância e íntimo, eu achava que ele me estava a contar isso mesmo: uma história, mas passou-se comigo. Só a posso escrever porque se a contar a alguém, as pessoas vão pensar que eu estou a contar uma história e não é disso que se trata.

 

A gaja não batia com o baralho todo, embora eu nunca percebesse qual era a carta que lhe faltava, decididamente o Ás de copas não estava lá, mas havia muitas outras.

Na primeira noite que passámos juntos avisou-me, antes de adormecer, que no dia seguinte tínhamos de acordar cedo, 8h30, porque tinha um jogo de badminton. Concordei, achando que aquilo era uma brincadeira porque a menina era divertida que chegasse para dizer coisas deste tipo.

 

No dia seguinte acordo com o despertador, por estúpida coincidência, à hora exacta que ela me tinha avisado. A menina salta da cama para a banheira sem hesitação e eu percebo então que, afinal, era a sério. Tentando não fazer um drama e aproveitar o bom das coisas más, comecei a pensar que roupinha ela iria vestir! Se uns calções brancos ou aquelas sainhas às pregas, lisas à frente e de trespasse, muito curtas em que se vêem as cuecas quando apanham as penas. Depois pensei se vestiria collants transparentes ou meias até aos joelhos e excluí rapidamente as duas hipóteses pensando que o estilo dela se encaixava muito mais nos soquetes com uma ou duas riscas cor-de-rosa. Depois pensei no cabelo. Será que leva totós ou vai meter uma faixa de feltro elástica na testa como os jogadores profissionais?

 

- Ainda aí estás? Despacha-te, não posso chegar atrasada, o meu parceiro não joga sem eu chegar!

Que cabeça a minha! Nisto dos desportos a dois, não se pode nem faltar nem chegar atrasado porque a prática de um depende da presença do outro. Havia de me explicar isto um dia, muito mais tarde, quando eu tive o atrevimento de lhe dizer que, uma vez por outra, se calhar, podia faltar para estar mais tempo comigo. Como é que eu lhe podia pedir uma coisa destas! Eram práticas muito antigas, faziam parte da sua vida!

 

Ela tinha uma capacidade inédita de me dizer de mil e uma formas que eu não fazia parte da sua vida, que a nossa relação não era uma prática a dois e por isso podia-se faltar e chegar atrasado, sempre.

Por exemplo, um café depois do almoço era com frequência sinónimo de tomado às 6h da tarde e eu tinha de a receber com um sorriso nos lábios, não pude vir antes ou atrasei-me um bocado, era só o que dizia. Claro que pedia desculpa baixinho, num timbre quase imperceptível.

Eu aguentava aquilo tudo num exercício de testar os meus limites ou o quanto gostava dela, ou as duas coisas.

Quando se chega a este ponto, está-se completamente perdido! Eu estava assim, sabia e não mudava nada para ser diferente. Sabia que se mudasse uma vírgula, a perdia para sempre e eu isso não suportava sequer pensar quanto mais arriscar.

Acabei por me levantar da cama e não assistir ao ritual de a ver vestir porque não havia tempo, era domingo de manhã e ela não se queria atrasar

Dirigiu-se então à cozinha para tomar o pequeno-almoço, leve por causa do jogo, chá e torradinhas com pouca manteiga ou bolachas, não me lembro bem. Sentou-se calmamente, como se tivesse acordado de uma noite perfeitamente normal e fosse para o trabalho, um dever a que não podia faltar. É claro que educadamente me perguntou o que é que eu queria tomar: nada, obrigado.

 

Aquela negação funcionou para mim como a defesa da honra, nunca saberei explicar isto, mas naquele momento se me tivesse sentado à mesa com ela a tomar o pequeno-almoço era o mesmo que ter aceitado uma nota pelos serviços prestados. Fiquei ali sentado a olhar para ela, surpreendido com a agilidade daquela rotina. Nenhuma referência à noite que tínhamos acabado de passar juntos e que, pelo menos comigo, era a primeira vez que ela tinha dormido.

 

Enquanto ela se alimentava com aqueles vulgares nutrientes, a mim só me vinha à cabeça o exacto momento em que o meu corpo foi projectado para fora do sistema solar, em que senti visceralmente o perder da gravidade, o sair da órbita, no preciso instante em que o meu corpo deslizou no dela e a palavra fi-nal-men-te, entrecortada, era deglutida e saboreada e deixei completamente de sentir o meu corpo para só sentir o dela, numa comunhão de corpo, o dela, e alma, a minha.

E quando instantes depois não resisti e quis partilhar com ela este momento, a meio do êxtase com que estava na descrição, ainda no recobro das forças, ela interrompeu-me dizendo, com um ar condescendente:

- Pronto, está bem.

Como quem diz, poupa-me os detalhes! E eu calei-me e fiquei a sentir sozinho o que podia ter sido a dois, mas se ela não queria saber, que direito era o meu de lho impor?

 

As pessoas têm sempre uma razão oculta para fazerem o que fazem e era este o princípio que me regia para eu ultrapassar tudo e não lhe levar nada a mal, pelo menos enquanto isso me fosse suportável.

Quando se gosta muito, adia-se isso ao limite, embora ele chegue inevitavelmente. Fica por saber se quanto mais tarde melhor ou pior. Isso, nunca havemos de o saber, não temos termo de comparação ou referência para isso, é simplesmente a nossa vida.

 

Depois do pequeno-almoço ofereceu-se para me dar boleia, uma vez que a minha casa ficava a caminho do complexo desportivo para onde ela se ia dirigir. Aceitei. Quando cheguei a casa enfiei-me na cama e dormi aquilo a que se chama o sono dos justos. Nunca percebi muito bem este conceito, mas acho que é aquilo a que se chama quando um gajo depois de uma noite mal dormida se enfia na cama enquanto a namorada vai jogar badminton!

Namorada é uma forma de dizer! Eu pertenço àquela cambada de otários que quando andam com uma gaja com quem têm uma relação mais íntima pensam que a podem chamar assim.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                        

Cristina Pizarro

 

 

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Quarta-feira, 29 de Novembro de 2017

Nós, os homens

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X

 

As melhoras da morte, traiçoeira, já todos ouvimos falar!

Era uma no cravo e outra na ferradura! A menina continuou no mesmo registo e eu continuei a aguentar aquilo até ao dia em que me passei completamente da cabeça! Era previsível, aquilo era uma bomba-relógio desde o início, um aneurisma, podia rebentar a qualquer momento e quando rebentasse era fatal.

Um homem não é de pau! Fartei-me de ser o segundo plano, o brinquedo nas mãos da menina, o boneco, a marioneta, o palhaço de serviço.

Disse-lho, em bom português, para que não houvesse dúvidas! E a menina reagiu da pior maneira: não reagindo, dizendo que o silêncio era uma resposta!

 

Como?! Eu não tinha nada contra a senhora sua mãe, que ela nunca me tinha apresentado porque isso fazia parte da sua intimidade a que eu nunca tive direito a ter acesso, e por isso não a pude mandar para a dita que a pariu. Também não a pude mandar pecar, não fosse ela, geniosa como era, pôr-me logo nessa noite o par dos tais que fazem comichão na testa de qualquer homem!

A única palavra que me saiu a seco, pois que tinha engolido toda a minha saliva, foi: Não!

Pouco mais do que isso acrescentou. Dejá vue, a cena repetiu-se. Reagiu como se eu a tivesse ofendido, exactamente como da outra vez e o motivo era o mesmo. Eu pedia-lhe mais tempo para estar com ela e ela entendia aquilo como se eu a estivesse a insultar. Mas que cena era esta?

Burro como sou, ou não tão inteligente como ela, só percebi à segunda: arrogância, pura e simples!

 

A menina achava-se perfeita e não aceitava que ninguém fizesse o menor reparo ao seu comportamento pois que ela era intocável. Pior do que isso, eu tê-lo feito levantando ligeiramente a voz foi considerado pelo seu ego como uma afronta. Quem é que eu pensava que era? Não se atreveu a perguntar, mas lia-se perfeitamente nos seus olhos. A reacção foi tão desajustada, tão desproporcionada, que rondou os contornos do ridículo! Não fosse eu o visado e tinha-me rido à gargalhada!

Quando percebi, depois de várias tentativas falhadas, que o seu orgulho ferido nunca iria perceber o que eu lhe tentei dizer, decidi pedir-lhe desculpa. Fi-lo várias vezes e ela nunca me respondeu.

Como o silêncio para mim não é uma resposta, obriguei-a, ou implorei-lhe não sei muito bem, a dizer-me: acabou, para que eu finalmente percebesse como é que era o meu dia seguinte, porque nem esse respeito eu lhe mereci, de ela o dizer voluntariamente!

Se não fosse assim, parvo como sou, ainda hoje estava à espera que o telefone tocasse!

 

Nesta fase da vida em que me encontro, já posso afirmar que consigo perdoar tudo, umas coisas são mais fáceis do que outras. A crueldade, coloco-a na lista das mais difíceis.

Mas foi pena, eu gostava da garota que me fartava e tratava-a assim por graça porque embora ela fosse mais nova do que eu, tinha mais dezassete anos do que eu!

Mas isto, nós, os homens, nunca havemos de perceber, porque tem a ver com uma sensibilidade que só nós, as mulheres, é que temos! E daí, talvez não, porque nestas coisas da alma, nós, as mulheres, enganamo-nos tanto ou mais do que nós, os homens!

 

 Cristina Pizarro

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Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017

Nós, os homens

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IX

 

E a história é, mais ou menos, esta; embora a história não seja, realmente, esta! Isto para dizer que deliciosamente me enganei e que afinal as coisas, estatisticamente com probabilidade reduzida de acontecerem, acontecem. Isto das ciências exactas sempre fez para mim todo o sentido. Embora sempre tivesse vivido rodeado de pessoas de letras que afirmavam convictas que a matemática que aprendemos na escola não servia para nada, eu sempre achei que ela era o princípio de tudo e questionava-me, nos dias de chuva, como é que havia cursos superiores e se tiravam inclusivamente licenciaturas sem que a disciplina básica e fundamental constasse dos respectivos currículos académicos! Mas nessa altura eu já tinha percebido que o mundo não era perfeito e que se Deus tinha feito as coisas à sua imagem e semelhança, o exemplo escolhido não tinha sido dos melhores, o que só reforçava, mais uma vez, a minha ideia de que nada era perfeito. A não ser ela! Pois está visto que quando se ama, as coisas são perfeitas e a prova disto era, inexoravelmente, a matemática. Pois não é evidente, os números pares, divisíveis com resto zero, o mínimo múltiplo comum, a prova dos nove, o simples menos por menos dá mais! Até a linguagem que eu usava a tinha ido beber não à disciplina de Língua Portuguesa, mas à da ciência exacta, pois que utilizava com um sabor peculiar palavras como: integral, exponencial, radical, infinito, equacionar, solução, resultado, eixo de simetria, conjunto, incógnita, potência, e não me chocaria mesmo nada se alguém me descrevesse a paixão entre duas pessoas como correspondência biunívoca!

 

Surpresa das surpresas! Então não é que ela gostava mesmo de mim! Vi-o finalmente escrito nos seus olhos, quando me olhou em silêncio e me percorreu o corpo com a ponta dos dedos e se ria como uma criança com cócegas, só porque eu lhe tocava de leve, como o vento sopra nas manhãs de primavera e foi então que eu me senti, não ridículo, mas parvo por não ter percebido aquilo desde o inicio! Enquanto eu debitava parágrafos inteiros, ladainhas a dar com um pau, contava a história dos reis e das rainhas, enumerava os sinónimos todos do dicionário, acrescentava letras a palavras e palavras a frases, resumia o último livro de prosa que tinha lido, lhe declamava de cor os poemas de amor que tinha memorizado sem querer, absorto pelo sentido das palavras, lhe descrevia ao pormenor o filme que tinha visto na véspera e a peça de teatro que tinha escrito para ela, ela sorria para mim e dava-me um beijo! E eu feito palhaço ainda perguntava estás-te a rir de mim? e ela continuava a sorrir e dizia estou-me a rir para ti!

 

E foi só depois de algum tempo que eu comecei a perceber que embora eu tivesse sido feito à imagem e semelhança de Deus, com todos os defeitos que Ele tinha, no caso dela o modelo em que Ele se tinha inspirado era outro, ou então aquilo tinha-lhe saído completamente ao lado ou, na melhor das hipóteses, ela era filha do padeiro, do vizinho ou do carteiro!

 

E foi bonito, no dia em que ela me lançou como um projéctil para fora do sistema solar e eu percebi que a trajectória da Terra era a mais patética de todas as dos planetas que viajavam em satelitismo solar. E foi no momento em que perdi a consciência, ao atravessar a atmosfera e me senti quase um lunático e posso dizer por hipérbole matemática e não como recurso expressivo de português que os dois hemisférios do meu cérebro colidiram ou mudaram definitivamente de posição, como imagem num espelho plano, ou a similitude dos gémeos mais que a semelhança que só a mãe distingue, também eu sabia que depois daquele reboliço dentro do meu crânio provocado pela diferença da pressão atmosférica e da outra, as coisas nunca mais regressariam ao lugar onde antes tinham estado! E era como se os meus neurónios, ou o que restava deles, estivessem em maresia e eu queria manter aquele estado de coisas por teimosia, tentando evitar a agonia que o meu corpo em desequilíbrio sentia. Nessa altura o eixo de simetria também já se tinha dobrado, todo eu era um acrobata, um contorcionista. Os 206 ossos continuavam lá dentro, mas já não formavam aquilo a que se chama esqueleto!

E eu completamente à toa, não sabia se queria ficar ou partir, fugir ou esconder-me, desaparecer ou definitivamente ser! Fosse como fosse, no mesmo instante, as palavras tinham deixado de me fazer sentido, não me diziam nada, não me levavam a parte alguma e eu queria ir a algum lado, eu tinha uma necessidade premente de ir a qualquer lado e não era nem com palavras, nem por elas, nem para elas, nem através delas.

Foi nesse sublime momento que a olhei da forma mais profunda que me lembro de alguma vez a ter olhado, fixamente, olhos nos olhos e definitivamente lhe perguntei:

- 2+2?

E ela disse:

- 4!

E foi aqui que o milagre se repetiu, mas ao contrário, o vinho transformou-se em água. Pura, transparente, cristalina! Percebi então que mais importante do que a língua que falamos é falarmos a mesma. E não interessa se dizemos muito ou pouco, basta dizermos o bastante, é suficiente. E também não faz sentido andar a medir sentimentos que sentimos com escalas e unidades diferentes, comparando coisas incomparáveis porque é tanto o erro de comparação como o de medição.

A única coisa que faz sentido é ser, querer, estar, fazer, sentir, ver, amar, sorrir e outros verbos que naturalmente nos correm nas veias sem pensar muito.

 

Aprendi com ela que tudo é muito mais simples do que parece, que tudo parece muito mais irreal do que é e que tudo é antes de ser, porque antes de se ter consciência, as coisas já existem sem nós sabermos e é uma delícia depois abrir os braços para as receber, as acarinhar, as afagar e, finalmente, as partilhar.

Bem-haja.

 

 Cristina Pizarro

 

 

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Quarta-feira, 15 de Novembro de 2017

Nós, os homens

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VIII

 

E foi mais ou menos isto o que se passou.

Ela era muito nova para perceber que embora o mundo não acabasse amanhã, como se fartou de me dizer, podia perfeitamente acabar amanhã, porque isso era sempre uma coisa que não sabíamos no dia de hoje e enquanto eu sabia isso, ela não. Por isso, para ela, coisas tão importantes como o amor, os beijos, as festas e a paixão, podiam esperar e para mim não.

 

Também as palavras não ditas podiam ficar por dizer, embora fossem sentidas e eu, com aquela panca da escrita e dos livros, dependia delas como droga, não vivia sem elas e entrava com frequência em síndroma de abstinência só porque a menina nunca me tinha dito a palavrinha mágica que tem um hífen entre o o e o t. E tinha depois reacções completamente atípicas, aberrantes e idiossincráticas que ainda por cima tinha que lhe explicar depois, porque a estas sim, a menina reagia e não gostava e achava-se no direito de conhecer a causa, a razão, a origem e um dicionário de sinónimos que se eu não me safasse racional e logicamente daquilo -que a menina era dotada de inteligência que bastasse, ou não fosse assim e eu nunca me tinha interessado por ela, embora também fosse bonitinha que bastasse, estes pormenores dão sempre jeito e confessá-los só nos fica bem- nem sequer havia dia seguinte, independentemente de o mundo acabar ou não, é que nem sequer saíamos dali.

 

E foi mais ou menos isto o que se passou.

Eu fazia-lhe as vontadinhas todas. Estava disponível quando a menina queria, para o que ela queria e onde ela queria e não me sentia nada mal por isso, exactamente ao contrário, sentia-me completamente feliz, pois se o que eu queria era estar com ela sempre, queria lá saber do quando, do para e do onde!

E sentia-me bem nessa entrega e também sentia que ela se entregava nessas alturas, só que depois de se entregar a mim ela regressava a si e era aí que nos separávamos, porque eu entregava-me a ela e não voltava para mim!

 

E foi mais ou menos isto o que se passou, embora na realidade eu saiba que nunca vou saber exactamente o que se passou, porque se formos conscientes, temos lucidez bastante para assumidamente saber que as coisas podem ter parecido assim e terem sido completamente diferentes, porque esta coisa da prespectiva de cada um e do ângulo de visão vencem sempre qualquer lógica que parece haver.

Uma vez até lhe cheguei a dizer isto, na esperança de que aquela cabecinha se abrisse e despertasse para aquilo que eu achava que era o essencial, mas ela olhou para mim de forma inconsequente e riu-se perdidamente, como se o que eu tivesse acabado de dizer fosse o maior disparate do mundo! Não era, havia um pior, mas eu nunca lho disse. Achei que ela não merecia!

 Cristina Pizarro

 

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Quinta-feira, 9 de Novembro de 2017

Nós, os homens

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VII

 

Na verdade, eu até nem me podia queixar! Ela estava quietinha no seu canto, tinha sido eu a ir ter com ela, eu é que armado em parvo tinha dito o que não devia e feito o que não podia!

 

Ela tinha a cabeça toda arrumadinha, exceptuando o facto de não saber o que sentia por mim e não o conseguir dizer nem assumir. Eu, ao contrário, tinha tudo num caos, exceptuando o facto de a amar perdidamente e querer estar com ela todo o tempo do mundo.

 

Dizem os livros que o amor é uma complementaridade, uma treta é o que é! Aquilo cada vez funcionava pior, tinha começado num processo de sedução que eu tinha iniciado e que funciona sempre bem, por definição, e a partir daí era uma no cravo e outra na ferradura!

Quando as coisas corriam bem, a mim parecia-me a última refeição dos condenados à morte!

 

Eu tinha vários problemas!

Um deles identifiquei-o quando fui ao sapateiro levar uns sapatos que tinha há dez anos e de que gostava tanto que não os conseguia pôr no lixo, embora estivessem rotos.

Um dia descobri um artista de sapatos que transformava velhos em novos e quando lá cheguei disse-lhe:

- O senhor já alguma vez se apaixonou por uns sapatos?

- Não, eu quero é que sejam confortáveis!

Ora aí estava o que a mim não me bastava. Os que lhe levava também eram confortáveis, mas não era só por isso que eu os tinha guardado. Era fundamentalmente, ao menos também, por serem bonitos.

Deixei-os lá e ele transformou-me os sapatos confortáveis nuns bonitos e que também eram confortáveis.

Pensei então que não sofreria tanto se procurasse nas pessoas o que ele procurava nos sapatos: que fossem confortáveis.

Era isto que me faltava: ser prático e era isto que a menina tinha!

Eu devia pensar, em relação às pessoas, para que é que me servem? e responder simplesmente para me serem confortáveis, porque é com elas que eu ando.

Não temos que nos apaixonar pelo que é confortável! São características diferentes que podem e devem existir em grandezas ou conceitos diferentes.

Podemos apaixonar-nos por uma ideia, um projecto, um pensamento, qualquer coisa que dependa de nós. Isto é saudável! Já é doentio quando nos apaixonamos por qualquer coisa que não depende de nós, que não está nas nossas mãos controlar, pois que se os outros não quiserem, como é que ficamos? Passemos à frente o palavrão, mas não é agradável, nem confortável.

 

Os nossos pés vão andar quilómetros e acabarão por ficar cansados, desgastados, calejados, provavelmente com algumas feridas. Em determinados pontos vai-nos sair a pele, vão sangrar, as unhas dos pés vão partir. E depois, quem é que nos vai tratar deles? Não podemos levar os pés ao sapateiro, não há nenhum artista de pés que possa transformar velhos em novos!

 

Cristina Pizarro

 

 

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Quarta-feira, 1 de Novembro de 2017

Nós, os homens

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VI

 

A coisa até nem tinha corrido mal se eu não tivesse estado já daquele lado. Se eu ainda fosse para lá, tinha-me deixado deliciosamente ir, mas eu já vinha de lá!

 

Eu sabia exactamente o que ela sentia e o que ela não sentia e esta segunda parte doía. Mas isto ela não sabia e eu não dizia porque me protegia.

 

Aquela coisa do preciso de estar sozinha não era senão um apetece-me estar sem ti e ela dizia estas coisas sem perceber que eu as entendia exactamente como ela as sentia e pelas mesmas razões e achava aquilo uma vingança do destino, uma maldição, quase como uma justiça do além, embora eu achasse uma enorme injustiça aquilo que a providência estava a fazer comigo porque eu não tinha culpa nenhuma de, desta vez, eu estar apaixonado e da outra não! Ora agora quem não estava era ela e eu estava a apanhar pela medida grande!

 

E ela a perguntar-me se eu percebia e se aceitava isso e eu com uma consciência danada daquilo tudo, a comer e a não gostar e sem nenhuma hipótese de reverter a situação pois que isto dos sentimentos está dentro de nós e ou se têm ou não se têm e eu tinha e ela não.

 

E ela continuava a olhar para o relógio a horas certas enquanto eu perdia completamente a noção do tempo e dizia que já era tarde, quando a mim me parecia que tinha acabado de chegar!

 

E ia-se embora com uma facilidade, a do dever cumprido, que me deixava completamente indignado, a mim que me considerava preparado para estas relações adultas, em que cada um faz o que tem a fazer, sem qualquer compromisso e depois vai à sua vida!

 

E quando ela começava as frases por já não somos duas crianças, eu sentia um arrepio na espinha e pensava, mas que disparate é que ela agora vai dizer! E com esta introdução a conversa prosseguia e eu comportava-me como se fosse um verdadeiro adulto, embora muitas vezes o que me apetecesse era chorar no seu colo e pedir-lhe para não se ir embora.

 

Tinha-o feito uma vez e a coisa tinha corrido bastante mal, nem cheguei a perceber bem porquê, a menina sentiu a sua privacidade invadida e que eu, de alguma forma, estava a tentar dominar o tempo que era dela, como se o tempo ou o espaço fossem coisas ou grandezas que nos pertencessem, das quais nós, simplesmente seres humanos, nos pudéssemos apropriar, num acto de posse completamente desajustado, arrogante e altivo!

 

Tive que lhe pedir desculpa como se a tivesse insultado ou ofendido, pois que a reacção era muito próxima da tida nestas situações. E novamente nada disto me era estranho pois que já tinha feito exactamente as mesmas figurinhas e percebia agora, finalmente, porque motivo ou, melhor dizendo, porque falta dele! Se não fosse eu o sofredor, até achava piada a isto. Como as coisas se viram contra nós para que finalmente as possamos entender!

 

E era, não diria engraçado porque eu não achava piada nenhuma a isto, mas, peculiar talvez como ela não se apercebia disto! Ou, apercebendo-se do meu mal-estar e incomodando-se com isso, achava que não estava nas suas mãos fazer nada para o impedir. Em circunstâncias normais, eu diria que ela era tola, mas definitivamente não era disso que se tratava e era exactamente isso que me assustava: não sendo tola, ela não alterava um milímetro da sua vida ou do seu comportamento para me agradar, se isso não fosse uma coisa que lhe apetecesse particularmente. Não sei caracterizar esta atitude e isto incomoda-me, escapa-me ao controlo do meu entendimento, deixa-me inseguro, ansioso, angustiado e chateia-me profundamente nos dias em que preciso dela e não a posso ter!

 

O que me irritava mais era não saber lidar com isto! Na realidade eu sabia muito bem o nome que isto tinha, mas se o pronunciasse, tomava consciência dele e depois tinha de agir em conformidade, porque a um homem na minha idade e na minha condição não lhe é permitido outra coisa e como não queria arriscar, equacionava o problema de outra forma.

 

Tinha basicamente duas hipóteses: ou me afastava ou fazia de conta, fiz de conta.

 

Afinal era melhor tê-la assim do que não a ter e depois havia sempre a hipótese, estatisticamente possível, mas improvável, de eu estar enganado!

 

Cristina Pizarro

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 02:49
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Quarta-feira, 25 de Outubro de 2017

Nós, os homens

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V

 

E a vida continuava, para ela. Para mim, não havia vida sem ela! A urgência do amor, por exemplo, era uma coisa de que ela não tinha consciência. Não sei se esta característica era comum às mulheres, em geral, ou se era uma particularidade desta a quem o meu coração se tinha, de forma involuntária, entregue. A minha experiência nesse campo não me permite tirar conclusões a este nível, até porque sou uma pessoa cuidadosa, nada dado a psicologias de grupo nem a generalizações precipitadas e também porque estou convencido de que aquela atitude obedece a um perfil que é característico, não do género feminino nem sequer da espécie humana, mas da pessoa em si.

 

Quantas vezes dou por mim a pensar, mas do que raio é que ela tem consciência? E era um vazio, o que me vinha à cabeça! Vivia de improviso permanente, não planeava nada, nem o instante seguinte, nem a palavra que dizia, nem o acto irreflectido. As coisas até nem lhe corriam mal e eu ainda não tinha percebido se a questão era o factor sorte ou se ela era um génio. Tinha a alma demasiado perturbada para poder ver com clareza, mas tinha a consciência límpida de que iria até ao meu limite, o momento a partir do qual eu não aguentaria nem mais um capricho. Ainda tinha consciência de outra coisa, é que isso me ia acontecer de um momento para o outro e de forma radical e tinha em relação a isso, medo por mim e por ela. Por mais cabeça no ar que ela fosse aquilo ia-lhe custar, pagaria o preço da sua inconsciência e eu não era má pessoa e essa situação não me agradava, mas não podia evitá-la, estava nas mãos dela, não nas minhas, mas ela não percebia e eu por todas as tentativas que já tinha feito e por todas as que ainda ia fazer, ela nunca havia de perceber, estava-lhe no sangue!

 

Mas tinha pena, dávamo-nos bem, quando estávamos juntos, dávamo-nos mesmo bem! O sorriso dela era contagiante e eu sentia-me como se tivesse renascido, como se me tivessem dado uma segunda oportunidade de viver o que julgava perdido para sempre, coisas que me tinham escapado, das quais eu tinha passado ao lado sem ver e agora via tudo! E mostrava-lhas a ela e ela não as via e eu achava aquilo um desperdício e um desfasamento e apetecia-me rachar-lhe a cabeça ao meio e gritar-lhe, para que ela me ouvisse e ela não ligava nenhuma, nem sequer me respondia às mensagens urgentes que eu lhe deixava no telemóvel e dizia-me até amanhã como se o que eu dissesse pudesse esperar! Se ela fosse parva, eu até a desculpava, mas não era e era por isso que eu achava aquilo tudo preocupante!

 

E às vezes vinha-me um cansaço súbito e uma vontade de me afastar daquilo tudo para não sofrer depois o que podia sofrer agora, assim um escolher a dor por antecipação numa escolha irracional ou por opção, iludindo de forma adulta o meu conceito de liberdade enraizado. Mas o coração falava sempre mais alto e andava ali a arrastar a asa na esperança ingénua de que um dia a direcção do vento mudasse e me levasse o veleiro ao meu porto de abrigo. Como? Se não tinha um motor de bordo?

 

Cristina Pizarro

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 00:32
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Quarta-feira, 18 de Outubro de 2017

Nós, os homens

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IV

 

Um dos maiores problemas das mulheres é a depilação. Nós, homens, lidamos bem com os pêlos. Eu, pelo menos, acho que os tenho todos no sítio certo. Mesmo aquelas pequenas aberrações de ter dois ou três a sair do mesmo folículo piloso, vulgo poro, acho que se trata de uma questão de cidadania que eu respeito. Se conviverem bem uns com os outros, que diferença me faz que saiam todos do mesmo sítio ou de locais diferentes?! Até porque numa superfície de 1,80 m de altura e 85 kg de peso, converta-se em área, só de lupa é que isto se notava e não é, apesar de tudo, esse o caso!

 

Acho que o Criador sabe o que faz, ou o que fez, partindo do princípio, errado ou não, de que Ele só fez o primeiro casal e depois nos entregou à sexualidade tradicional, tradicional agora, na altura isto havia de ser o futuro!

 

Seja como for, as mulheres estão convencidas de que Deus se distraiu quando estava a fazer a primeira e lhe colocou pêlos em zonas erradas. Puro erro de cálculo! Não queria entrar em pormenores que estas coisas são delicadas, mas chegam a ponto de ficar carecas em zonas que supostamente foram bem pensadas para ter pêlos. Uma coisa é um gajo com a idade, ou por características genéticas, começar a perder o cabelo e vai daí disfarçar a coisa com um rapar da cabeça, pois sempre é melhor andar para aí armado em careca do que em calvo! Até porque isto tem uma lógica, é dos carecas que elas gostam mais, diz a canção. As figurinhas que nós fazemos para agradar ao sexo oposto! Sim, que nós somos assumidos, não andamos para aí a vender o argumento de que nos arranjamos para nós! Nós arranjamo-nos é para elas, nem fazia sentido outra coisa, somos parvos ou quê? Isto de andar às compras dá uma trabalheira do caraças, para além da perda de tempo e do gasto inútil de dinheiro. Se andássemos lavadinhos e com as partes pudibundas tapadinhas, era o suficiente. Só tínhamos que nos preocupar com o calor e com o frio.

 

Elas não, sujeitam-se a coisas hilariantes! Aquilo deve doer como tudo, o buço, as sobrancelhas, as axilas, as virilhas, as pernas, o rabo e do resto já falei. Tudo por nossa causa! Não é que não nos faça bem ao ego e à auto-estima, uma mulher sujeitar-se a maus-tratos para agradar a um homem! Fica por explicar a luta pelos direitos iguais e outras tretas com que nos enchem a cabeça nos dias em que estão com o período. E não é que aquela coisa lhes dá todos os meses! Nesta parte talvez concorde com elas, o Criador estava distraído, pois havia alguma necessidade?! Decidindo ter filhos bastava uma vez por ano, que a decisão é séria, não é coisa que se pense este mês quero ter, este mês já não! Valha-me Deus! Quero dizer, tudo menos isso!

 

E isto até podia não ter importância nenhuma se não tivesse consequências em nós, é que se calha de a esteticista ter um casamento e desmarcar a depilação da menina, nós é que estamos lixados, assim de forma subtil, para não dizer um palavrão! E se fosse isso, até não tinha importância nenhuma, mas isto sou eu a falar, porque a consequência é exactamente o contrário: não estamos. Agora só para a semana, a não ser que a menina esteja tão desesperada como nós e vá à farmácia ou ao supermercado comprar aquelas tiras de auto-mutilação que conseguem o mesmo efeito.

 

Mas isto é só um desabafo, para compensar o ridículo do que em que nos transformamos por causa delas!

 

Fazemos tudo, salvo o papel de otários e mesmo assim funcionamos como as companhias de seguros: em letras pequeninas temos as condições especiais, a que recorremos, não em regime de excepção, mas sempre que as condições normais não funcionam!

 

E as condições normais quase nunca funcionam, aquela coisa de que as mulheres são como os carros: têm todas os botões no mesmo sítio, só para quem nunca conduziu um Porsche, um Jaguar ou um Maserati! O que é que estes carros têm a ver com os outros veículos de quatro rodas?! Eu nunca tive nenhum, por razões unicamente económicas, que outras poderia haver, mas tive um amigo que tinha um stand de automóveis e quando eu lhe fazia favores e me perguntava como é que eu te hei-de compensar?, acto contínuo, lá íamos nós experimentar o último modelo da tecnologia alemã, inglesa ou italiana que ele tinha disponível. E agora estou mesmo a falar de carros, aquilo é que eram máquinas, um gajo até se assustava quando, em poucos segundos, os ditos atingiam o nível da descolagem! É pecado um homem matar-se a trabalhar uma vida inteira e nunca conseguir juntar dinheiro para ter um brinquedo destes!

 

Mas dizia eu que vamos fazendo cedências aos caprichos das mulheres, e o que elas inventam, meu Deus, para nos porem a trabalhar para elas! Até cenas de ciúmes com o colega de trabalho com quem almoçamos há quinze anos! Se há coisa que eu nunca admitiria a ninguém, a não ser, lá está, por uma mulher por quem estivesse perdidamente apaixonado, é que alguém desconfiasse que eu era gay! Maluco como sou e com os dois bem no sítio, em peso e dimensão, era bem capaz de combinar com o meu colega de trabalho fazer-lhe algumas festas durante o almoço enquanto estava a ser espiado. Punha até a hipótese de lhe dar um beijo na boca depois do café, desde que ele alinhasse, só para me divertir com aquela cena! Não me caía nada ao chão, não era menos homem por isso e divertia-me à brava.

 

Mas quando o assunto é mulheres, nós comportamo-nos como uns cordeirinhos! Se elas gostam de azul, a gente veste-se de azul, mesmo que seja a cor que a gente mais odeia. Que mais nos faz?! Quando nos dão uma prenda, preocupa-nos por acaso o papel da embalagem?! Elas ficam todas contentes e nós também! Então não é bom ver aquela felicidade estampada num rosto tão bonito, só porque escolhemos a sua cor de camisa preferida! Camisa, pólo ou t-shirt, elas é que mandam, afinal aquilo tudo é para despir ao fim de algumas horas, que diferença é que nos faz?

 

Mas o Porsche é uma coisa fora de série! Eu que até não sou um gajo nervoso, quando me sentei ao volante daquela coisa e ela se pôs a andar comigo fiquei com pele de galinha! É que a diferença é essa: há carros que nós conduzimos e carros que nos conduzem a nós! Continuo, verdade verdadinha, a falar de carros, e o Porsche é um dos carros que nos conduz a nós. Perdoem-me a comparação, mas eu acho aquilo um carro inteligente e não ficava nada chocado se criassem o Dia Internacional do Porsche, e acho que fazia todo o sentido falar em direitos iguais e outras coisas que as minorias defendem porque aquilo é uma minoria deliciosa!

 

Mais ainda, se eu me sentar num Porsche vestido de azul ou de branco, ele anda da mesma maneira! Tem características próprias, sei que se trata apenas de um carro, mas tem sensibilidade e personalidade! Reage de imediato ao toque do pedal, não pergunta porquê, onde estiveste, com quem, não faz de conta, não amua, pura e simplesmente interage!

 

Vou-me esfolar a vida toda, mas ainda não perdi a esperança de ter uma coisa destas dentro de casa, perdão, à porta de casa!

 

Cristina Pizarro

 

 

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Quarta-feira, 11 de Outubro de 2017

Nós, os homens

 nos-homens-1-b

 

III

  

Na realidade, e esta conclusão só a tirei muito mais tarde, a diferença de sexos não é assim tão grande!

 

O que se passava é que ela era muito mais nova do que eu. E não falo propriamente em anos, mas em experiência de vida. Aquelas coisas por que passamos, boas ou más, e que nos vão amadurecendo, ela ainda não tinha passado por elas. Ainda não tinha sido mãe, nunca tinha passado por um casamento que tinha fatalmente terminado, etc., etc.

 

De forma que aquilo que eu considerava uma sorte, como ter tropeçado nela num dos dias da minha vida, para ela não passava de um acaso. Tinha sido eu, mas podia ter sido outro qualquer.

 

A menina tinha uma agenda semanal preenchidíssima. Entre trabalho e lazer, tudo era importante e não abdicava de nada para estar comigo. E eu respeitava aquele horário rígido como se aquilo fosse uma organização militar e obedecia como um cordeirinho, embora nunca tivesse fundado o MEEH, a conselho do meu grande amigo.

 

Sempre que ela precisava de tempo extra, retirava-o dos nossos encontros. Olhava para o relógio em alturas que me deixavam desconfortável, mas acabava sempre por compreender. É claro que não se podia chegar atrasado a um jantar com hora marcada, fosse com quem fosse, ou a uma partida de badminton num domingo de manhã!

 

Não podemos ser egoístas nos relacionamentos, sob pena de perdermos as pessoas que amamos. Eu, ao contrário dela, já sabia disto por experiência própria pois tinha perdido a mãe das minhas filhas exactamente porque não tinha achado aceitável que ela fizesse o que lhe apetecia e desse cabo da minha vida e da das minhas filhas em simultâneo. Não soube partilhar o egoísmo da pessoa com quem vivia e por isso fiquei sem ela. Agora não ia cometer o mesmo erro, a menina fazia o que lhe apetecia e eu ficava à espera dela!

 

Havia de chegar um dia em que ela pensaria como um homem ou tivesse a minha idade ou as duas coisas e talvez aí compreendesse o que era realmente importante. Estas coisas, não adianta muito insistirmos nelas ou tentar precipitá-las, têm de vir de dentro para que depois se possam instalar de uma forma mais confortável.

 

 

Na realidade, e esta conclusão só a tirei ainda mais tarde, a diferença de sexos e de idade não era assim tão grande!

 

O que se passava é que eu gostava muito mais dela do que ela de mim. Era por isso que ela não sentia aquela necessidade premente de estar comigo, aquela urgência do que não se pode adiar, aquele querer agora porque depois pode ser tarde!

 

Estas coisas não se explicam, ou se sentem ou não! Nem sequer adianta muito dizer que nós as sentimos assim porque há sempre o argumento contrário de que há muitas formas de dizer as coisas ou que as pessoas sentem de maneira diferente. Como é que ainda há gente neste século que se atreve a dizer coisas destas! Como se nós fossemos alguns otários e não soubéssemos que a forma mais simples de dizer as coisas, é dizê-las e a forma mais simples de as sentir, é senti-las, independentemente de haver 1001 formas de umas e outras!

 

E é exactamente aqui que eu perco a paciência, com os homens e com as mulheres, que neste aspecto eu não distingo sexo nem idade, nem sequer experiência de vida, é quando me fazem de estúpido.

 

Mas até para isto há solução. Se a coisa para nós for séria, denunciamo-la, se não for fazemo-nos de estúpidos também, até a coisa ser séria e nessa altura denunciamo-la.

 

É talvez aqui que percebemos, em função de como a coisa corre a partir daqui, se andámos a perder ou a ganhar tempo. Seja em que caso for, é pacífico. Nunca vos conseguirei descrever a sensação que me provocou a cor daquela sangria com champanhe e morangos, naquela noite no bar!

 

Divinal, talvez seja a palavra que mais se aproxima!

 

E a inteligência talvez consista nisto: em determinar a altura certa, o momento exacto em que decidimos deixar de fazer de estúpidos! Digo-vos já que deve ser das coisas mais difíceis de determinar. É relativamente fácil fazer de conta, fingir que não se passa nada, que está tudo bem, então não? Um sorriso nos lábios, a anedota certa no momento crucial! Quem é que não é capaz de uma coisa destas?

 

O problema surge quando a gente começa a exigir que nos levem a sério, quando começamos a achar que merecemos dos outros o mesmo respeito que temos por eles, quando reclamamos para nós os direitos da “Declaração Universal dos Direitos Humanos”.

 

Eh pá, mas o que é que te deu, perdeste o sentido de humor ou quê? Assim não tem graça!

 

Cai-se em desgraça! Um gajo passa de estúpido a inteligente e perde a graça!

 

Ralações humanas, aqui sem gralha nenhuma no português!

 

Cristina Pizarro

 

 

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Quarta-feira, 27 de Setembro de 2017

Nós, os homens

nos-homens-1-b

 

I

 

E ela a falar-me do existencialismo ateu e eu a dar conta que a minha perna estava a tocar na dela e a sentir o telemóvel sem som a vibrar no bolso das calças ou as chaves do carro, não sei bem, mas qualquer coisa vibrava no bolso das calças e a pensar que me apetecia fazer amor com ela ali mesmo, naquele espaço tão agradável e segurava o copo da cerveja, não sabia já qual o número e olhava para a cor da sangria dela com os morangos misturados no champanhe numa combinação perfeita como preliminares de qualquer coisa que teria um desfecho óptimo. E pensava que apesar de ser uma pessoa séria e nunca dada a estas coisas, conseguiria naquela noite amá-la mesmo ali, no meio daquela gente toda, ignorando espaço e tempo e perguntava-me a mim mesmo se na hora da verdade conseguiria alhear-me a esse ponto, sentindo-me só eu e ela no meio da multidão! E como eu achava que sim!

 

Passou-me pela cabeça confessar-lho, como se tivesse um padre à minha frente, mas nesse dia eu já tinha cometido outras gafes e fiquei calado, não fosse dar tudo a perder só porque o álcool ou a testosterona, que vinha a dar no mesmo para o efeito, me estava a toldar as ideias.

 

Então não é que à hora do jantar ela me perguntou se eu não tinha reparado que ela tinha ido arranjar o cabelo, no exacto momento em que comia um cheesecake de framboesa e eu a olhar para o licor vermelho a escorrer naquela montanha branca e a pensar, Deus me perdoe, como seria bom se a minha língua percorresse aquele líquido sublime, mas …

 

Claro que sim, que tinha dado conta, mas como é que se pode dizer a uma mulher que se gosta dela mesmo com pêlos e despenteada?! E mesmo que se tenha coragem para dizer isso, ela nunca vai acreditar em nós, no máximo vai dizer que somos uns queridos, embora pense que somos uns palermas, como é que se pode gostar de uma mulher com pêlos e despenteada?!, mas vai ficar sempre com a certeza íntima de que não somos honestos.

 

Em boa verdade, não cheguei a perceber se ela sentiu ou não a minha perna a roçar na dela, quando estávamos no bar, porque o discurso continuou e não fez nem uma vírgula nesse momento, mas as mulheres são mesmo assim, fingem tão bem que nunca conseguimos distinguir se é uma coisa ou outra, diria até que é coisa impossível de saber, se isto fosse coisa que existisse.

 

E depois o erro seria monumental, porque se lhe dissesse naquela altura que a desejava, ela ia concluir que eu não estava com atenção nenhuma ao que ela estava a dizer, embora as mulheres falem sempre para elas e não para nós, nunca perdoam a falta de atenção. Nunca tomaria como um elogio que eu estava era perdidamente apaixonado e que a desejava a toda a hora, até num bar, enquanto ela bebia champanhe com morangos. Porque as mulheres são mesmo assim, dão uma importância infinita a pormenores sem interesse nenhum e quando lhe dizemos que não conseguimos viver sem elas, elas aproveitam para marcar a depilação.

 

E, verdade seja dita, o existencialismo ateu até é um tema que me é querido, mas não àquela hora, por favor, nem naquele lugar onde temos de falar alto para nos fazermos ouvir. As mulheres são de um despropósito pontualíssimo! Chego a pensar, porque sou fã da sua inteligência, que fazem isto de propósito para testar o limiar da nossa irritabilidade.

 

Mas a coisa já tinha passado das marcas muito antes do jantar. Então não é que na exposição da tarde eu me tinha esquecido de a apresentar ao artista!

 

Esquecido é a pior forma de o dizer, como é que eu me ia esquecer da pessoa que, sem eu saber como ou perceber porquê, tinha acabado de mudar a minha vida?!

 

O que tinha acontecido é que eu me tinha entusiasmado no reencontro com um amigo a quem não via há algum tempo e no ombro de quem tinha chorado a perda da mãe das minhas filhas e agora estava ali à sua frente, feliz, acompanhado daquela que julgava ser a razão mais óbvia do meu sorriso, da minha alegria e até da razão com que o tinha abraçado como se dissesse, sem dizer, voltei! Mas isto é uma coisa que as mulheres nunca hão-de perceber! Por mais que a gente lho explique, é uma pura perda de tempo! O nosso passado, por mais cruel que tenha sido, nunca é o presente delas! Elas têm de estar sempre em primeiro lugar.

 

De forma que, quando o entusiasmo do reencontro passou, ela já estava amuada como uma criança mimada e tinha motivos para isso. Como é que eu fui cometer uma falha daquelas! Afinal eu não tinha ido lá sozinho! Afinal eu é que me tinha comportado como uma criança que tinha ficado órfã. Por isso pedi-lhe desculpa, mas não resultou. Nunca resulta com as mulheres. Se for com os homens, a gente faz os disparates e se reconhece os erros, se se arrepende e pede desculpa, passamos à frente, mas as mulheres são mais exigentes, com elas temos de ser perfeitos, à imagem e semelhança de Deus. Por isso fiquei com uma dor no peito, uma mágoa, não pelo que fiz, mas pela dor que lhe causei, pelo sofrimento que lhe incuti. Afinal, que diabo, era uma questão de educação. Básico mesmo!

 

E quando, depois do bar, a fui levar a casa, a minha vontade era de lhe dizer que gostava de passar a noite com ela nem que fosse para a ver dormir, sentar-me no sofá que provavelmente teria no quarto e esperar que o sono viesse enquanto ela mergulhava na profundidade dos sonhos que uma mulher sempre tem e a que um homem, por mais esforço que faça, nunca terá acesso porque elas não nos deixam entrar nessa intimidade que acham que lhes pertence e que nós nunca havemos de entender porque somos limitados mentalmente. A maior parte delas, está convencida que somos a preto e branco, fabricados em série e que temos espermatozoides na cabeça em vez de neurónios. Não digo que em certos momentos a coisa não seja verdade, como naquele momento no bar em que ela segurava no copo de sangria e me falava no existencialismo ateu.

 

O certo é que não fui capaz, dei-lhe um beijo, acompanhei-a à porta e quando cheguei a casa, peguei no telemóvel sem som que tinha no bolso das calças e que continuava a vibrar.

 

Quem seria, àquela hora?!

 

À noite não consegui dormir, não estava satisfeito com o meu desempenho, que diabo, afinal do que é que eu tinha medo?!

 

No dia seguinte arranjei um pretexto qualquer para me encontrar com ela e armado em machão perguntei-lhe se queria namorar comigo, metade-metade, meio a sério, meio a brincar, que um homem na minha idade também já não lida muito bem com estas coisas. E eis então o que eu não estava minimamente à espera: ela disse-me que ia pensar na proposta e ria-se como uma criança a quem lhe tinham acabado de contar a mais engraçada das anedotas.

 

Claro que, para um homem que tinha andado na guerra em que as balas vêm de todos os lados e o instinto de sobrevivência nos permitiu isso mesmo, o estar ali àquela hora, eu ri-me também e perguntei-lhe de quanto tempo é que precisava para pensar, ao que ela respondeu, sem pensar, que para responder a isso também precisava de tempo.

 

Em circunstâncias normais eu tinha-a mandado à fava sem sequer me dar ao trabalho de lhe dizer isso, mas o problema era que as circunstâncias eram completamente anormais, pois que eu estava completamente apaixonado por ela e assumi, acto contínuo e mais uma vez, que eu não sabia era fazer as coisas!

 

Onde é que eu tinha a cabeça? Como é que alguém diz isto a uma mulher sem sequer lhe levar um ramo de rosas ou outra pirosada qualquer?! Como é que um homem nesta idade abre o coração a uma mulher sem qualquer resguardo, sem qualquer protecção?! Não, de facto eu andava a pedi-las, eu punha-me a jeito, como muito bem dizia um grande amigo meu.

 

E agora, o que é que fazia? Mas a coisa não ficou por aqui, eu ainda consegui fazer pior. Depois disto ainda a convidei para passar férias comigo. Aí ela disse de imediato que sim, mas eu não reagi. No estado de anestesia em que estava, aquilo soou-me a uma brincadeira de gosto duvidoso.

 

No dia seguinte, perante a ausência de notícias, não resisti a perguntar-lhe se ainda estava a pensar na minha proposta e foi aí que a minha auto-estima se estatelou definitivamente no chão, como se tivesse caído de um 12º andar. Respondeu-me que ainda não tinha tido tempo para pensar! Tinha acabado de me responder, sem ela dar conta ou exactamente ao contrário, com um plano diabólico para eu dar conta. Com as mulheres nunca sabemos se estão a pensar no mesmo que nós ou no seu contrário ou até nas duas coisas ao mesmo tempo, que elas conseguem proezas que nem o mais inteligente dos homens é capaz de equacionar. Comecei a perceber o jogo. Aquilo era uma roleta russa modificada, tinha nas seis câmaras do revólver, seis balas, um verdadeiro jogo de azar. A primeira acabava de ser disparada. Agora a escolha era minha, ou ficava para assistir à carnificina ou dava o jogo por terminado. Se quisesse continuar a jogar, a única coisa que podia fazer para salvar o que restava da minha dignidade era mudar as regras do jogo. E foi o que fiz. Poker, foi a opção. Com sortinha, saia-me um par de ases, se não fosse com ela era sem ela!

 

Disse-lhe que deixasse lá, que eu retirava a proposta. É claro que não respondeu, orgulho de mulher ferida é pior que erva daninha! Aquilo já tinha ido longe demais, do meu lado claro está. Então faz algum sentido oferecer de comer a quem tem fome e o outro dizer que vai pensar! É porque terá provavelmente fome de tudo menos daquilo que nós lhe estamos a oferecer e eu não tinha mais para dar, a não ser aquela coisa estranha que me fazia olhar fixamente para o copo de sangria com morangos e champanhe que ela tinha na mão, naquela noite no bar e pensar como seria bom tê-la nua nos meus braços e cobri-la de beijos até gastar a saliva, a minha e a dela. E a porcaria do telemóvel que não parava de vibrar e eu já o tinha desligado não sei quantas vezes!

 

 

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Segunda-feira, 2 de Fevereiro de 2009

Cristina Pizarro - "Poesia - uma fase de vida"

 

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Não há muito tempo, passeando os olhos pelos livros das estantes de uma livraria da cidade dou de caras com uma imagem dum quadro do Mestre Nadir Afonso. Pensamento primeiro, era com certeza mais uma obra em livro do Mestre ou sobre o Mestre, mas logo de seguida dou com o nome de Cristina Pizarro e o título Poesia: Uma fase da vida.

Claro que além de fixar olhares no livro, em instantes já estava nas minhas mãos, pois não só a imagem da capa não me era estranha, como também o nome da autora era do meu conhecimento, mas seria a mesma Cristina Pizarro, aquela da colheita dos anos 60 que eu conhecia dos tempos do Liceu!? – Consultada a contracapa, todas as dúvidas ficaram desfeitas, era a mesma Cristina, aquela do tempo de Liceu e de quem eu, já há mais de 20 anos não via e pouco ou nada sabia da sua vida, muito menos que fosse poetisa. Dá-nos a vida estes momentos de encontros e que nos faz regressar no tempo, ao tempo do Liceu em que muitos dos grandes momentos das nossas vidas aconteceram, momentos  que pela certa não fazem parte do nosso currículo profissional, porque de tão grandes que foram, só têm lugar no currículo das nossas vidas, daquele que se vai fazendo destes grandes momentos que guardamos para todo o sempre num cantinho do nosso coração.

Gosto sempre destes regressos aos tempos do Liceu, que pela certa também são tempos de juventude, de quando era tempo de fazer amigos, dos primeiros amores e desamores, dos grandes sonhos e projectos, de aprender também, mas de poesia, de música e da arte feita de coisas simples e momentos breves e intensos.  Por isso eu ainda gostar tanto do Liceu e por isso, eu lamentar tanto a morte do jardim das Freiras, onde quase todos estes momentos aconteciam.

Foi bom ter encontrado a Cristina em poesia e que me traz à recordação um punhado de amigos e conhecidos dos quais já não vejo ou não sei há quase 30 anos com os quais foram passados muitos e grandes momentos.

.

.

Sobre a poesia da Cristina Pizarro nada digo, aliás nada digo da poesia em geral,  seja de quem for, pois a poesia é assim e, também eu subscrevo aquilo que ela diz no final do prefácio desta “Poesia: uma fase de vida” :

 

“Mas, se ao começar a ler não sentirdes nada parai, escrevei em vez de ler. Ser-vos-á mais útil e compreendereis a verdadeira dimensão da poesia”.

 

Eu li até à última página e continuo a ler quando me apetece, pois um poeta e um livro de poesia é assim, nunca está lido, vai-se lendo quando nos dá na gana e é sempre uma nova leitura e um novo momento de poesia que acontece.

 

Obrigado Cristina pela surpresa da poesia e desculpa andar distraído e só agora encontrar os teus livros e a tua poesia.

 

Cristina Pizarro nasceu em Chaves, em 1964. Em 1990 licencia-se em Ciências Farmacêuticas – Análises Quimico-Biológicas pela Faculdade de Farmácia da universidade do Porto. Em 1994 obtém, nesta Faculdade, nova licenciatura em Farmácia de Oficina e Hospitalar. Em 1999 efectua uma Pós-graduação em Análises Clínicas.

É especialista em Análises Clínicas pela Ordem dos Farmacêuticos.

Em 2003 publicou o seu primeiro livro “Profissão: Palhaço”

Em Dezembro de 2004 publica o seu segundo livro, este que hoje vos deixo “Poesia: Uma fase da vida”, cuja capa é ilustrada com o quadro de Nadir Afonso, “Le rêve”, de 2002.

 

Ficha Técnica:

 

Autor: 

PIZARRO, Cristina

Título: 

Poesia : uma fase da vida / Cristina Pizarro

Edição: 

1ª ed

Publicação: 

Vila Nova de Famalicão :  Amores Perfeitos,  2004

Descrição física: 

117 p. ; 21 cm

Colecção: 

(Amores perfeitos.  Poesia)

ISBN: 

ISBN 972-8621-85-X

Nº do Depósito Legal: 

PT|219690/04 

CDU: 

869.0-1 Pizarro, Cristina

Cota: 

0-8-201  BMC  533956

   

Tipo de Documento: 

Texto impresso

País de Publicação: 

PT|Vila Nova de Famalicão

 

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