Com a crise que atravessamos era um bom momento para analisar também as más políticas que nos conduziram até ela. Poderão dizer que a crise não é só nossa, pois não, mas as más políticas de muitos anos agudizaram-na. Eu, por cá, costumo dizer que tudo começou com o comboio(s), quando em vez de se modernizar a nossa rede ferroviária se optou por construir a torto e direito IP’s e autoestradas, em detrimento dos comboios e da sua modernização. Os grandes interesses, sempre os grandes interesses dos poucos que os podem ter, interesses do b€tão como se apenas no betão estivesse o desenvolvimento de um país. Grandes interesses de alguns que pobres e remediados têm de pagar.
Fico-me por aqui em lamentos para ouvidos moucos e, apenas o fiz, porque duas das imagens de hoje têm diretamente a ver com esse comboio que nos roubaram, um dos primeiros roubos que ao longo dos anos se viriam a repetir…
Ficam memórias desse comboio mas também imagens daquele que ao longo de alguns quilómetros o acompanhava no seu trajeto e se deixava atravessar precisamente em Curalha. Claro que é do Rio Tâmega que vos falo.
Sempre que posso dou um pulinho ao nosso mundo rural à caça de fotografias. Quando o tempo não é muito, tenho que me ficar pelas terras mais próximas de Chaves e que convidem sempre a uma fotografia.
O nosso Rio Tâmega, embora não com tanta saúde como desejaríamos, vai convidando sempre para umas imagens, mas se lhes juntarmos as quedas de água e os moinhos, então aí o convite terá que ser obrigatoriamente aceite, mas não só, pois também os pormenores da envolvência convidam sempre a um clique.
Claro que se falamos em Rio Tâmega e moinhos temos que obrigatoriamente ir para a Curalha, uma freguesia que está na lista negra das freguesias a abater com a reforma administrativa anunciada. Há dias, o PJ, dizia-me que tinha uma promessa de que Curalha estaria fora da lista, mas como a promessa era de político e eles (políticos) fazem questão de não as cumprir com toda a lata e desvergonha, mais vale que os de Curalha não baixem os braços na sua luta de manutenção de Freguesia.
Mas isto até são contas de outro rosário, porque hoje o que quero mesmo é deixar-vos as imagens e que sabe se não abrem o apetite a uma visita, daquilo que se vê da estrada mas que quase nunca se para se descer até ao rio para deleitação dos pormenores. Acreditem que por muito breve que seja a visita, vale a pena, claro, isto contando que é amante das coisas bonitas que a natureza oferece e a sua urbanidade lho permite. Mesmo se não permitir, contrarie-a e vá por aí.
Em Curalha temos ainda o extra de um autêntico museu do nosso velho e saudoso “texas” que embora seja propriedade privada, porque felizmente ainda há gente que gosta e se preocupa com as nossas memórias e património, preservando-as e cuidando-as, podem ser vistas da estrada ou do caminho de acesso a um dos moinhos sem ter que invadir propriedade privada. É um regalo para o olhar e para a saudade, pena que não saia da estação a todo o vapor, porque, como já aqui foi contado, quem o poderia permitir não o quis e todos lamentamos, mas, infelizmente enfim, já lhe conhecemos a raça rafeira, e tal como diria o outro, sem ofensa para os cães.
É Sábado de Páscoa. Os últimos folares vão ao forno e o cabrito ou cordeiro já está em estágio de alguidar para amanhã bem cedo ir ao forno, já sem a preocupação da bênção das casas, pois a cerimónia ao longo dos anos de implantação das modernidades foi-se perdendo.
Mas não foi só a tradição da bênção das casas que se perdeu. O tradicional ramo que ia a abençoar no Domingo de Ramos, com ramos de oliveira e alecrim, para mais tarde, em dias de trovoada, ajudar Santa Bárbara com a queima de alguns ramos abençoados. Esta tradição ainda se vai mantendo, só que agora, o ramo, é da florista da esquina. Vale a intenção mas perde-se a tradição.
Também os autos da paixão, esta semana já aqui mencionados, são coisas do passado, pelo menos os mais famosos que levavam até eles umas boas centenas de “peregrinos” em gesto de apreciação da representação mais popular que conheci, pois ainda tive a sorte de em pequeno ver o auto da paixão de Curral de Vacas. Claro que não esqueço do de Curalha que até ficou até bem mais afamado que o das Terras de Monforte e tudo graças a Manoel de Oliveira ter feito de um dos autos o seu Acto da Primavera (1962), um filme documentário, longa metragem que ainda hoje é uma das obras contemporâneas do cinema etnográfico que viria a inspirar outros realizadores a realizarem trabalhos idênticos.
Foram-se perdendo algumas das tradições religiosas ligadas à Páscoa. Tenho pena que algumas se tenham perdido mas em tudo o restante, gosto mais da Páscoa actual, pelo menos é mais alegre e com muito menos medos da Igreja que ao longo da ditadura e do estado novo se impunha a um povo maioritariamente ignorante com os medos e temores a Deus em que na Páscoa (quinta-feira à tarde e sexta-feira santa) eram mais acentuados e forçosamente a Páscoa tinha de ser triste e penitente, jejuar sem comer era uma graça a Deus, ouvir música (com excepção da clássica – vá-se lá saber porquê) quase era pecado, festas, fossem quais fossem, essas além de pecado era uma afronta a Deus. Só mesmo no Domingo de Páscoa é que a alegria e sorrisos podiam regressar aos rostos.
Hoje ficam imagens que nada têm a ver com a Páscoa, mas são imagens das duas aldeias onde em tempos se realizavam autos da paixão: Curalha e Curral de Vacas.
Boa Páscoa.
Ao passar recentemente pela travessa da Trindade vi afixado um cartaz que anunciava a realização de um Auto da Paixão em Vilarandelo. De imediato veio-me à memória várias freguesias do concelho de Chaves, onde este evento se efectuava, com apreciável afluência de público que se deslocava de grandes distâncias e até de notáveis personalidades das letras que vinham presenciar in loco a representação da Paixão de Cristo, por simples aldeãos, a maior parte sem “grandes luzes”, no entanto pela tradição, alguns dos personagens eram representados há dezenas ou centenas de anos por pessoas da mesma família, assim como se transmitia por gerações e na mesma família o ensaiador que conservava religiosamente umas folhas de papel nos quais se registavam os diálogos do auto, também conhecido por Auto da Primavera.
Desconheço se as pessoas conhecem que um dos mais famosos cineastas do País, e patriarca do cinema em Portugal, refiro-me a Manuel de Oliveira, teve o primeiro reconhecimento internacional com um prémio no Festival de Veneza, precisamente com a filmagem do Auto da Primavera, feito em Curalha e representado por alguns dos seus habitantes.
Perdoem a referência, e sem qualquer ânimo de publicidade, mas as vestimentas pertenciam à Agência Esteves e não figuram nos créditos ou genérico do filme.
Tive muito gosto, já adolescente, de ajudar a vestir alguns personagens femininos, como a Verónica, escolhida naturalmente pela qualidade de voz e que na maior parte das vezes coincidia com a minha idade e com uma beleza campestre, a que era difícil resistir, tanto mais que eram elas a solicitar mais uma prega em locais extremamente sensíveis … na maior parte das vezes aproveitava-me das dificuldades de fixar o alfinete, para efectuar várias tentativas, a que elas nunca reclamaram e pareciam deliciadas, o que me valeu alguns esgares dos namorados, também personagens, como a prometerem que no final do auto o crucificado seria eu … mas felizmente nunca tive problemas!
Falar dos autos é falar das procissões que antes se organizavam, à semelhança de outras localidades.
No meu tempo creio que usei todas as fardas, desde anjo até Cristo, com uma cabeleira que me provocou tamanha exacerbação, que estive a ponto de pendurá-la na cruz e seguir de cabelo descoberto.
Melhor sorte teve o meu irmão que, pelos vistos, apenas servia para soldado romano!
Também, pela única vez, na festa de Vila Verde, que fez de São João, não só deixou fugir o cordeiro, como por pouco fica com o cu ao léu, na tentativa de recuperar o ovino rebelde!
Mário Esteves
Moreiras

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Moreiras, Chaves, 3 de Setembro de 1990
Uma ara pagã romana acolhida à preservadora protecção católica da desfigurada igreja matriz, que foi românica nos bons tempos, e um velho e decrépito casal de lavradores desdentados a secar previdentemente milho na varanda de um solar desmantelado, ainda ufano da monumental chaminé que o coroa a testemunhar a opulência da cozinha senhorial de outrora, deram-me hoje o ensejo de recapitular a lição há muito decorada e às vezes lamentavelmente esquecida: que a perenidade da fé é indiferente à circunstância do sacrário , e o império da fome à natureza das bocas.
Miguel Torga, in Diário XVI
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Curalha

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Chaves, 28 de Agosto de 1990
Subida penosa ao castro da Curalha . Descobri Portugal sofregamente, em pecado de gula. Agora, arrasto-me por ele em penitência.
Miguel Torga, in Diário XVI
Curalha, antiga estação da CP
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Castelo

Pereira de Selão

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Rio Tâmega (Moinho de Curalha)


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Embora já todas as aldeias tivesse passado aqui pelo blog, há ainda algumas (poucas) às quais devo um post alargado. Infelizmente este inverno não tem sido muito convidativo para a fotografia e confesso que estou sem material fotográfico para trazer aqui as aldeias em falta. Esta falta abre-me a porta para uma nova rubrica no blog dedicado às aldeias, uma rubrica que há muito andava para trazer aqui e que se irá chamara simplesmente “a preto e branco”.
Pois neste novo espaço só cabem fotografias a preto e branco, às vezes (quando muito) com uma nesga de cor. Será um espaço dedicado simplesmente à fotografia, com apenas duas ou três palavras de embalar e, só caberão aqui as fotos que não couberam no post da respectiva aldeia, aquelas fotos das quais eu gosto, mas que por falta de espaço não puderam entrar na devida altura.

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Será mais uma oportunidade para mais uma volta por todas as aldeias, algumas, até mais que uma vez desde que haja fotos que eu considere dignas deste novo espaço.
Fotos que eu gosto e não couberam no respectivo post e o velho fascínio pela fotografia a preto e branco, que sem cor, sempre teve o seu encanto.
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Estes Domingos “a preto e branco” irão alternar com os posts normais de domingo dedicados a uma aldeia e também estarão aliados à falta de tempo ou de material, como é o caso de hoje em que se aplica a ambas as condicionantes, principalmente porque ontem foi dia (ou melhor – noite) da blogosfera flaviense. Pela certa que irão perceber isso pelos próximos posts da blogosfera cá da terrinha e não só.
Espero que gostem deste novo espaço “a preto e branco”.
Até amanhã!

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Localização:
A 6 km de Chaves, localiza-se a Sudoeste da cidade junto à margem direita do Rio Tâmega, desenvolve-se ao longo da EN 103 e junto ao nó da A24 que adoptou o nome da freguesia, sendo hoje uma das principais portas de entrada da cidade para flavienses residentes, mais à frente explico o porquê.
Confrontações:
Confronta com as freguesias de Redondelo, Soutelo, Valdanta, S.Pedro de Agostém e Vilela do Tâmega, no entanto entre Curalha e estas duas últimas freguesias há o Rio Tâmega a separá-las.
Coordenadas: (Largo da Igreja)
41º 42’ 55.77”N
7º 31’ 26.34”W
Altitude:
Variável – entre os 350m e os 430m
Orago da freguesia:
Santo André
Área:
9,13 km2.
Acessos (a partir de Chaves):
– Estrada Nacional 103 ou A24.
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Aldeias da freguesia:
- Curalha (única aldeia da freguesia)
População Residente:
Em 1864 – 283 hab.
Em 1920 – 405 hab.
Em 1940 – 567 hab.
Em 1950 – 693 hab.
Em 1960 – 681 hab.
Em 1981 – 531 hab.
Em 2001 – 518 hab.
Em termos populacionais é uma freguesia que contraria a tendência do despovoamento da maioria das freguesias do concelho, pois e embora nas últimas décadas os Censos demonstrem que tem perdido população em relação ao ano de 1950, a linha de tendência para Curalha indica-nos um aumento de população.
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Principal actividade:
- Actualmente a agricultura com regadio, natural ou em estufas. Em tempos outras actividades existiram por Curalha, uma delas ligada à Estação dos Caminhos de Ferros e às mercadorias destinadas ao Barroso, outra, aliada ao Rio, aos moinhos e à moagem de cereais, existindo ainda (aparentemente em bom estado) os respectivos moinhos.
Particularidades e Pontos de Interesse:
São vários os pontos de interesse desta freguesia, começando por aquele que na minha opinião é o mais importante e interessante em termo das história, ou seja o Castro de Curalha cuja descrição poderão ver no post dedicado a Curalha, com link no final do post. Tão importante e interessante como esquecido e abandonado que está. É certo que nos últimos anos cuidaram-se os acessos até ao Castro, mas apenas isso, pois de resto o Castro está entregue a si próprio e sem qualquer informação no local que deixe aos visitantes o devido resumo histórico para fazer jus à sua importância.
O Museu do Comboio é outro dos seus pontos de interesse, embora não seja museu e até seja propriedade privada, mas é um autêntico museu onde o proprietário do espaço da antiga estação, não só recuperou e preserva o antigo edifício da estação, como mantém parte da linha e nela está a reconstituir um comboio completo, com a máquina a vapor, e as devidas carruagens de passageiros e de carga. Tudo isto feito com muito amor e custos que mantém bem viva uma recordação do passado. Um autêntico museu do comboio. Um bem haja para o proprietário em preservar assim importante a memória de outros tempos em que Chaves, o concelho e Curalha tinham comboio.
O núcleo e o casario da aldeia é outro dos pontos de interesse, mas para conhece-lo há que abandonar a estrada nacional e entrar nele. De interesse e também a nível de construções e obras de arte, são a ponte do antigo comboio sobre o Tâmega, se um só arco e em granito, bem como os antigos moinhos que bem poderiam fazer parte daquele museu vivo a que às vezes me refiro, do roteiro dos moleiros e dos moinhos, que sem dúvida seria um dos pontos de interesse e turísticos do concelho. Mas para isso era preciso que os verdadeiros xerifes da cidade tivessem ideias de interesse para o concelho e aperceberem-se que o nosso concelho é um concelho rural onde a sua ruralidade há muito que devia estar explorada, agro-turismo, penso que é assim que se chama, ou seja, agricultura + turismo, sem esquecer o grande aliado do termalismo que um dia até já se quis regional. Mas claro que isto é trabalho e de muitos anos, que não rende a curto prazo em resultados eleitorais…entretanto vai-se promovendo o despovoamento… e apostando no cavalo coxo e tão distraídos andam, que nem sequer se deram conta que por cá não há touradas e muto menos, corridas de cavalos. Desculpas para Curalha por este devaneios ou desabafos, pois Curalha até é freguesia que nem merece recados, exceptuando o tema “Castro”, onde a Junta de Freguesia também deveria ter o seu orgulho e os seus interesses.
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Linck para os posts neste blog dedicados à freguesia:
- CURALHA



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