12 anos

Sexta-feira, 23 de Junho de 2017

Discursos Sobre a Cidade

GIL

 

ABÉSPORAS

 

Na terra escrava do Planalto pouca há que medre!

 

Tirando o centeio – ancestral gramínea da palha e do pão que fazia a cama da gente e dos bitchos e atulhava as arcas de castanho para as invernias – e a batata, vinda das américas em meados do séc. XVI, para alívio da castanha e da bolota, pouco mais se aveza na imensidão áspera dos corgos do Brunheiro.

 

Nesta senda, as ceifas, pelo agosto, e o arranque dos tubérculos em setembro, eram empreitadas que davam pelos peitos a uma mula! Dias duros, contudo, dias de festa pela alegria da colheita.

 

A gente pobre, carregada de fome, suor e cansaço, no final de cada jornada ainda reservava forças para a folia. Gente feliz que, com tão pouco, inveja quem hoje se diz infeliz com tanto! Admiro aquela gente antiga que, de barriga vazia, sabia sorrir e dar-se!

 

Recordo, com nostalgia, a alegria dos ranchos de segadores regressando a casa pelo crepúsculo: gadanho às costas, dedeiras a pender da baraça que fazia de cinto, camisas rotas e encardidas, calças de cotim remendadas, socos de pau de amieiro muito gastos, carpins de lã de ovelha empastelados, chapéu de palha roído pelo sol, poeira da palhoça enfeitando os ombros, barba de oito dias, caras enfarruscadas pelas gotas que escorriam abundantemente das testas e se misturavam com o pó da terra, mãos grossas como a casca do carvalho negral!... E, apesar do magro soldo que os atraía desde a Terra-Quente, ainda se astrebiam a amanhar um bincelho e a enfeitá-lo com flores do campo, para oferecer à patroa Carolina.

 

E vinham cantando:

Bimos de segar centeio

Com o gadanho na mão

Biba o Sr. Antoninho

Que é um patrão

 

P’ra mais de cem pousadas

Seguemos hoje no Belão

Amanhê segaremos mais

Em bindo o garrafão

 

Ó senhora cozinheira

O seu caldo cheira bem!

Deiamos uma malguinha

Por alma de quem lá tem!

 

Depois da ceifa vinha a acarreta, quase sempre feita à ajuda pelo povo da aldeia. Emedava-se o centeio na eira e aguardava-se vaga da malhadeira do Ti Jaime da Amoinha Nova, para separar o grão da espiga. Enquanto não se malhasse, andava-se com o coração num tchitchelo por causa do perigo de um incêndio que podia, muito bem, deixar o Carregal na penúria o ano inteiro. A propósito recordo os sermões do Paizinho aos fumadores, para que não o fizessem na eira. Persuadia-os, ano após ano, com um incidente trágico da Grande Guerra, a que assistiu, de um cigarro mal apagado nas trincheiras de Neuve Chapelle que matou três dezenas de camaradas. Muitas vezes chegava mesmo a açobar-lhes os cães para ver se agarravam medo e iam estripar cigarros para outras bandas! Todavia, a eira era o lugar mais apetecível do Carregal e, apesar do cuidado do Ti Moreiras, sempre se ia fumando, à escapula, à beira das medas do pão! Mas que ele não visse!

 

Seguia-se a saga da malhada. Uns escangalhavam a meda o botavam os molhos p’ra riba da malhadeira, outros ajudavam a encafuar a palha na máquina para a apartar do grão, outros escolhiam a palha mais ajeitadinha, o colmo, para encher os xaragões e outros empalheiravam. Um trabalho infernal pela canícula, pelo barulho do trator que movia a malhadeira e pelo pó que se levantava no ar.

 

Mas é mais de um episódio relacionado com o arranque da batata canibeque que vos quero falar nesta novela.

 

Para o arranque do Ti Moreiras não bondava a gente do povo. Por isso, em inícios de agosto, nas feiras de Carrazedo, o velho combatente cuidava de prover a mão-de-obra necessária, para numa semana bimbar os batatais. E vinha gente de muita banda: da Dorna, de Vale do Galo, de S. Cibrão de São João de Corveira, sei lá!.. Dependendo da franqueza do ano agrícola, vinham, quase sempre, para mais de dez homens, gente habituada ao trabalho duro do cabo da sachola de ganchos de sol a sol. O trabalho menor ficaria por conta da gente da terra: o espanar da rama, a apanha, o ensaque e o transporte até ao armazém. Os forasteiros alvezes vinham da seco, outras d’amolhado. Quando o patrão os alimentasse, ganhavam menos, bem entendido, mas tinham comida e vinho à tripa forra! Os da terra, à ajuda, vinham sempre d’amolhado. E não faltava quem trabalhasse, pois o patrão tinha a fama de tratar bem!

 

Assim, mais ou menos pelas sete da matina, matabichava-se.

 

O Ti Moreiras estendia duas mantas de farrapos sobre o carro de bois, punha uma cesta com nozes e outra com figos secos. Numa pequena giga de vime meia dúzia de bolas de trigo de três cantos. Encafuado num estadulho, o pipo da aguardente, que passava, uma única vez, pelos queixos de todos. Depois, distribuíam-se as tarefas. Cada arrancador pegava num rego, seguido pelos outros em escada. O patrão punha-se em frente deles, cuidando que as batatas fossem bem arrancadas e nada ficasse para o rebusco e ainda que as sacholas cavassem fundo para não as rachar. Os mais novos espanavam a rama para soltar as canibeques e as mulheres apanhavam. Outros vazavam as cestas nos sacos de serapilheira que iam sendo cozidos com agulha e baraça à medida que se fossem enchendo.

 

Por volta das dez horas, vinha o almoço. O rancho parava cerca de meia hora. Comia-se uma lisca de cimo-de-pá, um cibito de queijo ou carne gorda da pá, rijada, com um carolo de pão. Dois golos de vinho, do de Cova do Ladrão, de um pipo que passava de boca em boca. Estavam assim carregadas as baterias para mais três horas de trabalho.

 

Pela uma e meia, mais coisa menos coisa, quando pela coroa das giestas piorneiras se visse a giga do jantar, estendia-se um fardo de colmo na poula contígua à leira do arranque, à sombra das carvalhas. Por cima punham-se umas mantas de trapos sobre as quais se espalhavam alguns pratos fundos de louça preta de Nantes. Depois, dos alguidares que vinham na giga, vertia-se nos pratos fundos o cordeiro estufado que exalava um cheiro de fazer crescer água na boca. Noutros caçoulos, botavam-se as cachas das batatas cozidas. Cada trabalhador recebia um garfo de ferro e uma côdea de pão. Do mesmo prato, cada um servia-se dos nacos de carne à velocidade com que os deglutisse. Muitas vezes, o prato da carne enchia-se de saltões cinzentos que infestavam a poula e se agitavam com aquele movimento desusado, mas isso pouco importava, já que se constava que os bichos não gostavam de cordeiro guisado!

 

No Carregal, por essa ocasião, vivia um paisano que era escornado por todos. Esse repúdio tinha a ver com a mania que ele tinha de larpar como um lambão! Gostava muito de ir à ajuda para o Ti Moreiras porque enchia as ventas! Era o Faustino da Rabiça, mais conhecido por Tranglimanglas, um brutinho, mouro de trabalho! Sabia tão-somente comer e trabalhar! Trabalho não lhe faltava, comida sim e, quando a apanhasse a jeito, até se afogava! Por isso, todos faziam pouco dele. Contudo, o moço, de tão ingénuo, alinhava em todas as maroteiras e desafios que lhe lançassem, desde que lhe cheirasse a morfes!

 

Ora, desta vez, o cordeiro estava tão bom que o bardina comeu com tal sofreguidão que deixou os parceiros mais próximos quase a apitar!

 

Pagá-las-ia o lambuzão!...

 

O Gripino, um dos que apenas lambeu os ossos do anho, pensou-a bem! Conhecia ali no Corgo umas velhas tocas de raposa, abandonadas, onde era costume as vespas fazerem ninho. Vespas bravas, cuja ferradela punha qualquer um a ganir, fosse gente ou fosse bicho! Que o digam as pobres vacas do Guilhermino que, há alguns anos, agradando uma leira próxima, foram atacadas sem dó nem piedade! Os pobres animais, em desespero, desinvestiram giestal adentro jungidas e com a grade de arrasto. Foi o cabo dos trabalhos para as tirar de lá!

 

Ora, durante a sesta que se fazia mais ou menos até às três da tarde, o Gripino lembrou-se de desafiar o Rabiça a desentocar os raposinho novos que dizia ter enxergado a entrar nas velhas tocas. Se o conseguisse, os bichos haveriam de fugir ó p’ra cima - sim, porque lobo ou raposa nunca foge ó p’ra baixo temendo que as tripas lhe saiam pela boca - e seriam apanhados à sacholada. Depois, bastava irem de aldeia em aldeia com os raposos mortos pedir ovos que fariam um bom petisco, juntando-lhes as boieiras apanhadas nas pescoceiras armadas nos montículos de terra qua as ratas faziam nos lameiros de pasto.

 

− Ó Faustino, vais ao toco grande com esta aguilhada, metesia quanto possas. Os raposos, picados pelo ferrão, vão desinvestir por esta rodeira direitos a nós. Com as sacholas limpemos-le o saramplo. Mas tens de esguiçar bem senão eles não saem. Amanhê, domingo, bamos aos ovos com os raposos mortos e vais ver que nos enchemos deis. Depois cacemos umas boieiras no Belão com as pescoceiras e faremos uma tainada. O binho pago-o eu!

 

Com o sentido na comida, o Tranglimanglas nem hesitou. Que alinhava!

 

Pegou na aguilhada e nem se deu conta que todos arreganhavam os dentes com o que adivinhavam que iria acontecer!

 

Saltou a parede do giestal contiguo à touça onde jantaram, chegou aos tocos da raposa e toca de escarafunchar com a aguilhada no toco mais largo. Não tardou que o vespeiro, que dormiria a sesta, se agitasse e lhe caísse em cima como mosca no mel!

 

Ah…homem de mil diabos!

 

Desesperado, largou a aguilhada e, a berrar como um cabrito-montês, saltou a fugir por entre as giestas piorneiras para espanar às ditas. Contudo, quanto mais corria e espanejava, mais elas o filavam!

 

Da touça, entre a galhofa, alguém lhe berrou:

 

Bota-te ao poço, lambão, bota-te ao poço!...

 

Nem pensou duas vezes. Correu e mergulhou de cabeça!

 

Entes morrer afogado do que comido pelas abésporas! − pensaria o infeliz!

 

Não sabia nadar. A sorte é que o poço tinha pouca mais de um metro água, pela secura daquele verão!

 

Tiraram-no a pulso, pendurado numa corda carral. Parecia um cristo!

 

Vinha a esbagoar!

 

O poço safou-o das feras, mas não de umas esmoucadelas e, sobretudo, dos inchaços e do gozo dos companheiros!

 

Nos dias seguintes, parecia um bombo!...

 

Todavia, passado aquele episódio, voltou a ser o lambareiro de sempre!

 

Não lhe serviu de lição, embora doravante não pudesse ver as abésporas!...

 

Pudera!

 

Gil Santos

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Sexta-feira, 26 de Maio de 2017

Discursos sobre a cidade

GIL

 

PAPA HÓSTIAS

 

O maio de 66 vinha quente como lume!

 

A natureza explodia em toda a sua pujança e de cada lura recendia vida.

 

Todavia, o maio de 66 trazia o diabo no ventre com as sementes da mudança. Um tempo de escacholar um mundo cristalizado nas mais retrógradas convicções. Adivinhava-se um mundo novo com o peace and love dos hippies, as minissaias das cachopas a fazer furor e os estudantes a cerrarem os cartapácios bafientos nas bibliotecas e a agitarem as massas com a bandeira da liberdade!|

 

Por mim, nas mais tenras primaveras (nove) tudo passava ao lado. Encarcerado no seminário de Vila Real, não se permitia, sequer, que percebesse as nuances deste mundo outro. Tolhido pelo culto de um tradicionalismo bacoco e pelo peso absurdo das normas, ansiava os finais dos períodos letivos como o doente a cura. E invejava cada voo rasante dos andorinhões pela liberdade da fuga para a minha querida terra.

 

O junho dobrava a esquina do tempo e a salvação adivinhava-se prestes.

 

Contudo, havia ainda um duro fardo a suportar porque o rabo da vaca é sempre o mais duro de esfolar. Apesar de embalado por esta esperança na libertação, os dias pareciam séculos e não mingavam à velocidade da avidez com que os riscava no calendário como os prisioneiros fazem na parede do degredo do cárcere.

 

As tarefas, naquela casa, repetiam-se numa monotonia absurda de enlouquecer. O despertar às sete e a missa da manhã em jejum. Depois um pequeno-almoço de leite em pó, horrível, e uma carcaça com manteiga industrial de sabor a sabão macaco. A seguir as aulas nas salas inóspitas dos corredores sem fim. Depois o almoço, o mais das vezes de farinha de pau, qual massa betuminosa de colar às paredes. A seguir uma curta sesta e depois o malvado salão de estudo. Por fim o recreio das cinco, o lanche de trigo recesso e um cibo de queijo, as orações do fim tarde, a ceia e o recolher.

 

Só muito esporadicamente esta rotina era quebrada pela escala de ajudar à missa, que me calhava de mês a mês. Tocou-me num qualquer dos dias do final de maio de 66 esta tarefa de fazer de sacristão. Disso vos falarei hoje.

 

Este trabalho até era agradável pois libertava-nos no dia anterior de meia hora de salão de estudo para preparação da missa do dia seguinte. Constava de providenciar toda a logística que o santo ofício exigia. Tratar de ver se havia hóstias que chegassem, água e vinho nas galhetas, livros abertos nas respetivas páginas das leituras do dia, etc.

 

Ora, na tarde do dia anterior pedi dispensa ao Prefeito que vigiava o estudo para ir preparar a capela. Concedeu-ma. Uma alegria que me salvava do latinório da malvada Initia Latina.

 

Cheguei à capela, fui para a sacristia, escolhi a paramentaria verde, como mandava a cartilha, a estola e a casula. Na capela preparei o cálice, com a pala e a patena, bem como o sanguinho e o corporal. Coloquei na credência o manutérgio e o missal aberto nas orações do dia. Sobre o altar, na estante, coloquei o lecionário aberto nas leituras e salmos e treinei duas vezes o que me calhava ler. Depois, abri o sacrário para verificar se a âmbula tinha hóstias consagradas que chegassem. Estava completamente vazia. Fui enchê-la à lata que as costumava ter de reserva, vazia estava também.

 

Vi que havia gato!

 

Para cúmulo, depois de encher a galheta da água, quando me preparava para verificar a do sangue de cristo vi que estava igualmente escoucada. Fui saber da garrafa de vinho de missa para a encher e encontrei-a igualmente vazia. Estanhei aquela penúria de pão e vinho e desconfiei que ali haveria coisa! Procurei o Prefeito para lhe dar conta das falhas, solicitando a reposição.

 

Quis ele lá saber!

 

Imediatamente me acusou de ter consumido, à socapa, aqueles produtos e em consequência, como era hábito, fui chamado ao Reitor e levei uma malha valente!

 

De facto, era muito difícil explicar esta penúria, uma vez que quem ajudou à missa desse dia solicitou a reposição, o que aconteceu. Soube-o tempos depois. Como soube também que três salafrários, dos mais velhos, ter-se-iam raspado do recreio, sem que o Prefeito se apercebesse, e foram à capela merendar! Da água da galheta não quiseram os sacripantes saber!..

 

Apesar disso, as que tinha levado já ninguém mas tirava e por isso mantive o silêncio não viessem outras mais pesadas!...

 

Revoltei-me e para mim jurei vingança.

 

— Deixassem que a escala os pusesse naquele serviço e eles haveriam de ver com quantas palhas se capavam grilos! — Pensei eu.

 

Não tive coragem, nem tempo para me vingar. Meses depois fui convidado a não renovar a matrícula no seminário!

 

Fiquei com a fama e sem o proveito.

 

Tivesse-o, sequer ao menos!

Gil Santos

 

 

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Sexta-feira, 19 de Maio de 2017

Discursos sobre a cidade

SOUZA

 

CENTENÁRIO DA PARTIDA DO 1º BATALHÃO DO RI 19

PARA A FLANDRES-GRANDE GUERRA

 

 

Numa publicação, saída na Revista nº 50 do Grupo Cultural Aquae Flaviae, dávamos conta não só do contexto nacional deste conflito como referíamos a participação dos militares do Regimento de Infantaria 19 (RI 19) na Grande Guerra.

 

No próximo dia 23, por ocasião dos 100 anos da partida do 1º Batalhão do RI 19 para a Flandres/grande Guerra, será lançado, pelas 18 horas, na Biblioteca Municipal de Chaves, o livro da nossa autoria Grande Guerra - Enquadramento Internacional.

 

Cartaz A4.jpg

 

Deixamos aqui aos nossos(as) leitores(as) as singelas palavras do Prefácio que, em 2015, escrevíamos:

 

“Quando nos debruçamos um pouco, e refletimos, sobre a Grande Guerra - o acontecimento mais marcante à entrada do século XX - vemo-la como um enorme terramoto, que abalou e transfigurou, de uma forma profunda e determinante, a Europa, continente dominante e hegemónico em todos os setores da atividade humana - social, cultural, científico, técnico, económico e financeiro.

 

Era uma Europa aristocrática, arrogante, imperialista, ciosa do seu poder, orgulhosa do Progresso, que julgava sempre incessante e ilimitado, e que dominaria tudo quanto à face da terra existisse.

 

À superfície, na placidez desse mundo, fervilhava uma sociedade que, cuidando de viver no melhor dos mundos, gozava a sua Belle Époque.

 

Tudo isto simplesmente se passava à superfície.

 

As principais «placas» em que aquele mundo assentava (império inglês, alemão, francês, austro húngaro e russo, e o moribundo otomano) começavam a movimentar-se. E seus movimentos pressagiavam um fin de siècle em que tudo poderia deixar de ser como dantes.

 

A era da Razão e do Progresso, científico e tecnológico, sem limites, iria dar lugar à ubris, à loucura e catástrofe.

 

Bastava agora apenas um simples movimento em qualquer ponto mais sensível de uma das «placas» para tudo começar a desmoronar-se.

 

E, inopinadamente, num remansoso verão em que as classes possidentes e dirigentes vão de férias, a banhos, um outro banho, de sangue, começa a acontecer!

 

Sarajevo foi o epicentro desse enorme terramoto que, em longas e profundas ondas de choque, se alastrou por toda a Europa e pelas áreas desse mundo por ela dominado.

 

Uma Europa ébria, incontida, cega às consequências das sucessivas decisões que se iam tomando, lançando, em massa, toda uma geração de uma juventude promissora, na fornalha de aço que a metralha, que veio com o Progresso, gerou.

 

Era o princípio do fim de uma civilização a quem faltou o bom senso e a lucidez para pugnar pela construção de uma sociedade outra, numa convivência pacífica de povos”.

 

O Mundo e a Europa em que hoje vivemos foi moldado pela Grande Guerra (I e II Guerra Mundial).

 

Cremos que as palavras por nós escritas há dois anos têm pleno cabimento nos tempos por que passamos, exigindo de todos nós, numa sociedade tão outra que criámos, mas com os mesmos velhos problemas, melhores mecanismos de controlo, muita mais clarividência e lucidez, não só para evitar as calamidades que por várias áreas do Planeta proliferam, como para vivermos numa sociedade sem hegemonias e na aceitação igual e plena das diversas diferenças, do outro diferente.

 

Só assim é que o sacrifício e as vidas perdidas dos nossos antanhos de há 100 anos terão algum sentido e valido a pena.

 

António de Souza e Silva

 

 

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Sexta-feira, 28 de Abril de 2017

Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos

GIL

 

O RACIONAMENTO

 

O Marcelino Pão e Vinho andava lazarado!

 

Ele bem escancarava a gaveta do meio da mesa de castanho da cozinha, mas do pão, que antes guardara, nem migalhas! Restava a velha faca do Palaçoulo, gastinha de o cortar.

 

A barriga andava-lhe colada às costas. Deixara há muito de roncar com a fome. Valia-lhe a pena, o Marcelino não tinha como a forrar!..

 

A única coisa que lhe ia valendo era o caldo que sofregamente engolia alapado no escano da cozinha. Um caldo sem unto, bem entendido, feito de cardos apanhados nos lameiros ou nas bordas húmidas dos caminhos.

 

Na primeira metade da década de 40, a tísica arrasou meia nação. E se isso não bastasse, ainda veio a fome negra que esterzicou meio mundo.

 

Bem razão tinha o Velho (filho de Santa Comba Dão) quando, com paternalismo irónico, afirmava:

 

― Portugueses, livro-vos da guerra, mas não vos livro da fome!...

 

A guerra mundial estoirara em 39, o mesmo ano em que tivera fim a guerra civil de nuestros hermanos que lhes impôs o generalíssimo e os colocou em agonia!

 

Perante tais factos e não estando ameaçada como em catorze — pelo menos diretamente — a posse do império colonial e nem tão pouco a independência nacional pela ganância dos castelhanos, Salazar acamaleou! Ora arreganhava os dentes aos camones, nossos parceiros seculares, interesseiros, ora piscava o olho ao Adolfo e ao Benito, já para não falar das relações, quase íntimas, que estabeleceu com Bahamonde. E assim levou a água ao seu moinho. Encheu o bornal da nação de barras de ouro, algum de proveniência duvidosa, e os cofres da finança de notas paridas pela exportação de conservas e de volfrâmio. Ao Zé Povinho castigou-o de fome e de miséria, coisa a que, a bem dizer, já estava afeito!

 

No que respeita à guerra, formalmente e a bem da nação, Portugal declarou a neutralidade a 1 de Setembro de 1939, tendo assinado com Espanha o Tratado de Amizade e Não Agressão a 17 desse mesmo ano. Desta forma permitia manter-se a Ibéria ausente da guerra.

 

Contudo,

“no Foreign Office começam a surgir duas leituras sobre a neutralidade portuguesa, decidindo-se o reexame das relações com Portugal e estudando-se medidas de retaliação económica, algumas das quais, como a suspensão de venda de carvão sob pretexto da falta de tonelagem portuguesa para o transporte, são postas em prática. É neste contexto que se insere a chegada a Lisboa de David Eccles, enviado por Londres para tentar ultrapassar as dificuldades existentes e para negociar uma nova e mais drástica versão do acordo comercial de guerra. A 13 de Julho de 1940, sob proposta do ministro de guerra Hugh Dalton, o gabinete britânico aprova a aplicação do sistema de racionamento aos dois países ibéricos. A 31 de Julho é publicado o Decreto de Represálias que institucionaliza o bloqueio do continente Europeu e o controle na fonte. Estas medidas tomadas pelos ingleses e mais tarde seguidas pelos norte-americanos inserem-se numa vasta política de guerra económica que através do bloqueio económico visava a intercepção das linhas de abastecimento ou de exportação das potências continentais sem tal suserania marítima que por sua vez provocavam a asfixia económica e derrocada do esforço militar do inimigo. Do outro lado as potências do Eixo em vez de imporem um contra-bloqueio anti-britânico precupavam-se sobretudo em furar e interceptar as linhas vitais de abastecimento das Américas para a Grã-Bretanha. (sublinhado nosso)[1]

 

Ora, este quadro forjou alguns anos de forte controlo sobre a produção agrícola, a produção industrial e o comércio. Os agricultores tinham de dar a sua colheita ao manifesto. Alguns, para não a terem rezistada, escondiam-na, ou enterravam parte dela, para depois a consumir, trocar, vender ou até mesmo oferecer. Escapando ao controlo da autoridade, este uso, para grande risco de quem o praticava, alimentava o contrabando, permitindo que alguns comessem e outros enriquecessem à tripa-forra. Para além do mais, nas cidades, vilas e aldeias, cada pessoa tinha direito a umas tantas senhas por mês que lhe permitiam levantar o sustento mínimo nos postos, criados para o efeito, ou mesmo nos comércios.

 

Muita gente ainda recorda esses tempos passados de madrugada nas intermináveis filas das quais, o mais das vezes, se regressava de mãos a abanar. Mas as necessidades eram de tal ordem que valia a pena arriscar e sofrer pela sobrevivência. Muitas vezes, sobretudo nas cidades, de que a capital era particular exemplo, as famílias com muitos filhos matavam a fome com a Sopa dos Pobres, vulgo Sopa do Sidónio. Este caldo era feito sobretudo de massa, feijão ou grão e um cheirinho de carne, evidentemente da mais reles. A Sopa do Sidónio constitui-se como a tábua de salvação dos mais pobres. Muitas vezes eram as próprias crianças que a recolhiam, carregando-a em baldes como a lavadura para os recos!

 

Porém, mesmo perante tanta penúria, o povo não perdia o humor e, como se a música enchesse barriga, ouvia-se cantarolar estas rimas pelas vielas da Ribeira do Porto:

 

Saudades tenho saudades

Em ver o azeite a brilhar

O bacalhau com as batatas

Que fugiu para não voltar

 

Saudades tenho saudades

Desses tempos em que eu ia

Por uma quarta de açúcar

Gritar à mercearia

 

Saudades tenho saudades

Desses tempos que lá vão

Que eu passava o dia inteiro

Lá na bicha do carvão

 

Saudades tenho saudades

Em ver os rapazes novos

Com uma cara de parvos

Por comerem trouxas d’ovos

 

Claro que a Princesa do Tâmega não fugia à regra. Contudo, estou que de uma forma menos severa, uma vez que sendo uma terra com marcas muitos fortes de ruralidade e uma veiga fertilíssima, sempre ia tendo pão!

 

Na rua do Sol havia uma padaria cuja proprietária também tinha forno de cozer. Mas apenas estava autorizada a fazê-lo duas vezes por dia, uma de manhã e outra à tarde. Por isso, constituíam-se longas filas à sua porta até que o pão se esgotasse. Raro era o dia em que não havia zaragata e um ou dois esmoucados! Mas o forno também cozia à socapa, desde que houvesse farinha! Depois, pela porta do cavalo, à calada, serviam-se duas espécies de pessoas: as muito pobres por caridade, e as muito ricas por ganância! Daí que na sua casa ao Postigo, a Marquinhas da Mó tivesse, sob o sobrado, numa espécie de cave secreta, reservas clandestinas de farinha para cozer fora da mãe!

 

Perante tanta penúria, conseguia a farinha através de um esquema, bem urdido, que o marido Carlão cozinhou. Carlão, um emigrado que tomou o nome do lugar de berço, era um homem bom e honesto, dado a boas e mui úteis relações com os agricultores da veiga e da montanha. Eles dependiam da sua forja nas Longras para aguçar as relhas dos arados, as ceitouras e os gadanhos, bem como as sacholas do arranque. Assim, nos dias de feira, com as encomendas deixavam coleiros de centeio ou de trigo para a paga do serviço. Esse cereal, escapado ao controlo dos fiscais, era rilhado a desoras nas mós da azenha do Agapito e alimentava a masseira e o forno da Marquinhas.

 

O negócio andava de vento em popa até que o Zé da Pinta, um sacripanta de maus fígados a quem Marquinhas teria negado um casqueiro, deu com a língua nos dentes. Não demorou uma semana que o casal não tivesse os fiscais à perna. Foram-se à residência e meteram o focinho nos mais recônditos cantos. Felizmente não toparam o alçapão que dava acesso à cave e que se encontrava sob os seus pés quando entraram pela porta principal. O dito cujo estava tão perfeito que nem às tábuas se encontrava emenda! Também foram cheirar à padaria. Mas aí toparam apenas rapaduras de massa e alguns alguidares de Nantes com fermento para a levedura da próxima fornada! Porém, esta ação de fiscalização teve os seus efeitos. Carlão temeu pela sua liberdade e deixou de arriscar tanto, pelo menos nos moldes em que o fazia.

 

A uma das famílias pobres que o casal ajudava pertencia o tal Marcelino Pão e Vinho. Ele era conhecido pelo acrescento não porque tivesse a ver com o filme que os espanhóis haviam de rodar em 1955, baseado na obra de José María Sánchez, mas porque o moço, com os seus dezasseis anos, se gabava de sobreviver tão-somente com uma côdea de pão e um caneco de tintol. Carlão tratou de o empregar para engendrar uma outra maneira, mais segura, de continuar o tal negócio. Falou com seus pais. O que Marcelino teria de fazer era andar de noite pelas aldeias, recolhendo o cereal negociado por baixo de mão com os lavradores nos dias de feira. A única condição que lhe impunha era a de que nunca dissesse, caso fosse apanhado, para quem trabalhava. Como paga encher-lhe-ia a casa de pão cozido e oferecia-lhe a montada no fim da campanha.

 

Aceitaram!

 

Ao lusco-fusco seguia para as aldeias, visitando os clientes que o patrão lhe indicasse. Chovesse que nevasse, pela madrugada regressava com os alforges cheios. Durante o dia ajudava na panificadora e em casa. Peneirava, amassava, tendia, aquecia o forno, enfornava e até debulhava as batatas se preciso fosse!

 

Andava como um sino naquele mester! Papo cheio, d’acavalo para aqui e para acolá. Que mais queria?! A mula fartava-a nas bordas do Tabolado. Depois do serviço acomodava-a nos fundos da oficina de mestre Carlão. A coisa estava a correr bem para ambos os lados. O forno da Marquinhas da Mó fumegava noite e dia. Saía tanto pão pelas senhas do racionamento como pela tal porta do cavalo. Mas, como não há bem que sempre dure, um dia a coisa deu no olho!..

 

Anoitecia com a promessa de chuva grossa anunciada por nuvens negras trazidas pelo vento galego. Corria o mês de março de 43. O Tâmega ia grosso pelo inverno chuvoso daquele ano. O Marcelino aparelhou a mula. Nessa noite tinha muito caminho para calcar e íngreme. Mestre Carlão havia negociado cinco arrobas de trigo com o senhor Antoninho Moreiras do Carregal. Dezassete quilómetros Brunheiro acima e outro tanto ó p’ra baixo esperavam o coiro do Marcelino e os cascos do muar. Para o caminho, botou ao bornal um carolo de centeio e pendurou às costas uma bota de viño do de Anelhe. Para riba foi montado na besta, para baixo à pata. Chegou pela meia-noite a casa do Ti Moreiras. Ajeitou o saco de serapilheira sobre a albarda da mula e à pressa mastigou uma lisca de presunto. Botou abaixo uma pichorra do de Cova do Ladrão e ala que se faz tarde, Brunheiro abaixo!

 

Chegou à cidade pela aurora. Fez-se à ponte de Trajano. Estava deserta. Quando ia a meio do tabuleiro aproximaram-se, a galope, vindos do Arrabalde, dois Guardas da Nacional Republicana. Cercaram-no, perguntando-lhe:

 

 Que leva bocência em cima da albarda dessa mula?!

O Marcelino, habituado às curvas da vida, não se intimidou e respondeu com ar de desprezo:

 

― São rosas senhores, são rosas!

 

Os Republicanos, não gostando da brincadeira, preparavam-se para apear de cassetete em punho para umas arrochadas. A mula do Marcelino, imobilizada junto às grades da ponte, derriçava nas ervas da borda do passeio. Antes que os guardas se arreassem dos cavalos, o Marcelino, vendo a sua boa, vai-se à mula e espeta-lhe a ponta da navalha antre coxas. A coitada, quando sentiu a naifada, protestou num arraial de cracóvios, de zurros e de parelhas! E tinha razão! As montadas dos Guardas assustadas, levantaram-se nas patas da frente e espetaram os ditos cujos com os cornos no rio. Livres do contrapeso, fugiram daquela alma do diabo, à toda, para os lados da Madalena!

 

Dos guardas nunca se avezou qualquer notícia! A última vez que Marcelino os viu arfavam como sapos à tona da corrente do Tâmega, agarrados aos ramos dos amieiros das bordas do Jardim Público. Estou que para além da molha e do cagaço, nada de mal lhes teria acontecido!..

 

Sei é que o saco do trigo foi parar, direitinho e intacto, à cave do Carlão!

 

Sei também que o Marcelino, montado na mula, pôs-se ao fresco para Tamaguelos, ainda nessa manhã. Por lá se quedou até que o incidente foi esquecido.

 

Regressou já muito depois do fim da guerra para nos contar a sua estória!

 

Gil Santos

 

[1]Cf. http://migre.me/vXMLF, em janeiro de 2017

 

 

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Sexta-feira, 7 de Abril de 2017

Discursos Sobre a Cidade

SOUZA

 

POLÍTICA, EMOÇÕES E MUDANÇA

 

Os «motores» dos aparelhos partidários e dos diferentes movimentos de cidadãos estão começando a «aquecer» para o próximo «embate» eleitoral - as eleições autárquicas.

 

Embora, por decisão pessoal, estejamos afastados da luta direta pela disputa dos lugares nos diferentes órgãos autárquicos do nosso concelho, tal circunstância não nos inibe, muito pelo contrário, que façamos uma pequena reflexão e teçamos algumas considerações, sobre a luta política que aí vem, para aqueles leitores que nos leem e se interessam pelo fenómeno político e as suas pelejas eleitorais.

 

Temos vindo dizendo, ao longo dos nossos escritos, e particularmente nesta rubrica Discursos sobre a cidade, que falta a Chaves - cidade e seu Município - uma visão de futuro que galvanize os flavienses e os faça «arregaçar as mangas» para as tarefas ingentes de um novo porvir.

 

Independentemente das diferentes personalidades e competências, que vão estar, até perto do final do ano, no palco da luta política para os órgãos autárquicos, exige-se lucidez, atenção à noção da realidade que nos cerca, dos interesses e necessidades sentidas pelas populações e pelo território que elas habitam. Sabendo que o espaço de manobra que as autarquias têm é muito curto e estreito, problemático e não isento de dificuldades.

 

Em primeiro lugar, pelos enormes constrangimentos financeiros, particularmente a difícil situação financeira do Município de Chaves. Em segundo lugar, pela periférica e interioridade em que o concelho se encontra. O modelo de desenvolvimento que, nas últimas décadas, temos seguido em Portugal, abortada a regionalização e frustrada a construção de Cidades Médias, capazes de reter os fluxos migratórios das gentes do meio rural para as cidades do seu hinterland, a hegemonia do económico sobre a função política, quer a nível internacional, quer europeu, quer nacional, levou a que o fenómeno da globalização, de cariz neoliberal, lançasse a maioria dos nossos jovens, e promissores recursos humanos, para as áreas metropolitanas do litoral do país e, muito mais grave ainda, para a eterna diáspora a que desde a época de Quinhentos nos habituámos, descurando-se, assim, a valorização do nosso «terrunho». Em terceiro, e último lugar, face ao pano de fundo assinalado, subjaz a questão crucial a que os intervenientes na luta política autárquica se devem preocupar: como darmos esperança e desenvolver um território praticamente deserto no meio rural, onde os seus «maiores» - poucos já, infelizmente -, que aí se encontram, se limitam a aguardar pela sua «última chamada», e uma população citadina, sem engenho e arte, descrente, e incapaz de encontrar soluções que concitam uma melhor qualidade de vida para as suas gentes, limitando-se, quem nos representa, muitas das vezes, a delapidarem recursos financeiros, em fazer e desfazer obras, sem que se vislumbre qualquer objetivo e estratégia credível para o futuro.

 

Esta realidade, que sucintamente acabamos de referir, é dura. Muito dura. Simplesmente, na luta que aí vem, vai passar um pouco ao lado da retórica e dos discursos que os diferentes «quartéis-generais», em termos de campanha, estão preparando.

 

Há que lutar, segundo Josep Ramoneda, para que os partidos políticos e seus agentes interiorizem o cumprimento de três das suas principais funções: a de representação efetiva dos seus representados, que não a de interesses económicos que, muitas vezes, lhes andam aliados, bem assim a da suas cliques partidárias; o recrutamento de quadros competentes para governar e, por último, o reconhecimento dos cidadãos, não como simples figurantes no palco da política, mas como autênticos atores políticos.

 

Daniel Innerarity, na sua obra A Política em Tempos de Indignação, a certa altura, adverte-nos que não nos devemos admirar pelo facto de a política estar cheia de retórica, quiçá perto da dissimulação e demagogia. Na verdade, diz, não podemos confundir política com ciência, pois, enquanto a ciência procura a verdade; na política, o jogo é o que que é mais correto, oportuno, justo, viável, económico, etc.. E adianta que “a verdade só tem lugar na política no seio de uma pluralidade de valores em conflito dentro do qual se decide o que é que é correto”, sendo, por isso, natural que os diferentes agentes e atores políticos avaliem de modo diferente os mesmos factos e, consequentemente, cheguem a conclusões diferentes (não da verdade) mas daquilo que é correto, de maneira também diferente.

 

Innerarity afirma que a questão da verdade ou da mentira não passa de “uma embrulhada [no campo político] formada pela cumplicidade de alguns políticos hipócritas, uma cidadania que nem sempre quer que lhe digam a verdade e uns meios de comunicação que dariam cabo de quem dissesse a verdade”. É, por isso, que este contexto obriga a que, permanentemente, os políticos estejam à defesa e a movimentarem-se na ambiguidade e na polarização de posições, tanto mais que, principalmente os meios de comunicação social, praticamente não oferecem espaço para a discussão equilibrada, “seduzidos como estão por aquilo que gera escândalo e dissensão”.

 

O que podemos e devemos esperar dos discursos e propostas dos nossos políticos (e candidatos a políticos) é algo, no nosso entendimento, mais exigente do que ouvir a verdade, outrossim qual a mensagem de esperança?

 

Na campanha eleitoral que se avizinha, esperamos que os nossos políticos (e candidatos a cargos políticos autárquicos), nas suas diferentes retóricas, tenham em conta, essencialmente, uma coisa: independentemente das propostas ou soluções que acharem as mais convenientes e corretas para as nossas gentes e o desenvolvimento do nosso território, que saibam agir com emoção, usando o valor dos sentimentos das pessoas para lhes concitar esperança nas suas vidas.

 

É necessário que os sentimentos, as emoções e a política não se excluem e que estejam ao serviço da renovação da democracia, tanto mais que as autarquias, e os seus representantes, são os que mais perto estão das respetivas populações e dos seus efetivos problemas de vida.

 

Estamos com Innerarity quando diz que “a política e o sentimento não se excluem mutuamente”, muito pelo contrário. As emoções estão presentes em todos os âmbitos da vida e em todas as ações. Como o nosso grande cientista António Damásio diz “não há conhecimento sem emoções”. Os sentimentos e a racionalidade não são qualidades que se excluem. Ambas são práxis sociais e ambas são formas específicas de conhecimento. Os sentimentos não são reações com origem no mais profundo e irracional das pessoas e que irrompem daí para o espaço público. Os sentimentos não podem ficar enclausurados numa esfera privada. A esfera pública é também um âmbito igualmente legítimo para exibir emoções. Sem populismos, sectarismos e (pseudo) políticos carismáticos.

 

Os contendores vencedores no próximo combate autárquico serão aqueles que, para além das suas propostas, consideradas pela maioria as mais corretas, atendendo aos enormes constrangimentos e bloqueios a que Chaves e o seu concelho está sujeito, forem capazes de, sobretudo, mobilizarem para o seu campo, a maioria dos recursos emocionais das pessoas, combatendo os seus medos e dando-lhes esperança.

 

Só com esta estratégia é que a retórica política será eficaz, canalizando as emoções sociais, tornando-as construtivas.

 

Esperamos, sinceramente, que os nossos políticos e candidatos a autarcas sejam capazes de ocupar efetivamente o espaço público, saírem das quatro paredes das suas estruturas, transformadas em salão para intelectuais ou, tantas vezes, pseudointelectuais. E, sem encenações populistas, saiam às ruas da cidade e entrem pelos campos das aldeias, descendo até ao coração das pessoas, levando-lhes uma nova mensagem, uma nova esperança, rumo a uma verdadeira mudança.

 

O que aconteceu no passado não muito longínquo, no nosso concelho?

 

Não ganhou o populismo e a arrogância.

 

Ganhou quem, ao sol e à chuva, ao frio e ao vento, de noite e dia, soube sair do conforto dos seus sofás e, pela cidade e pelos campos, batiam à porta das pessoas, ou iam ao seu encontro, nos seus lugares de «culto» e, num aperto de mão, ou num abraço, olhos nos olhos, com a sua retórica e propostas lhes inspiravam confiança.

 

E ouvia-se dizer pela cidade e nas nossas aldeias: ”aqueles são «bons» rapazes. Vou votar neles!

 

Independentemente do cabal cumprimento das três funções políticas acima enunciadas, é preciso trazer de novo para a política a verdadeira e positiva dimensão dos sentimentos e das emoções.

 

Com elas, a competência, os valores, as convicções, as esperanças, e o que é mais correto para as pessoas e para as suas terras, tornam-se mais percetíveis e humanamente mais credíveis.

 

Só assim é que a mudança, a verdadeira mudança, acontecerá!

António de Souza e Silva

 

 

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Sexta-feira, 24 de Março de 2017

Discursos Sobre a Cidade

GIL

 

Flatulências

 

Corria o ano de 1975. A população, em geral, andava embriagada ainda pela liberdade inesperada que abril de 74 precipitara. A população, em geral, e os alunos do Liceu Fernão de Magalhães, em particular.

 

Pese embora não ter estoirado aquilo a que pouco tempo mais tarde viria a chamar-se escola de massas, o Liceu de Chaves já abarrotava de gente que procurava a educação como trampolim para um mundo outro. Um mundo diferente do que havia vivido a geração precedente, num Estado que se dizia Novo, mas que era quase tão velho como quem o desenhou.

 

Contudo, como sempre e em todo o lado, havia quem funcionasse ao arrepio da normalidade. Muitos não se reviam naquela escola afastada da realidade social. Uma escola que, apesar de tudo, apenas respondia às expetativas de uns poucos. Pese embora saber-se que um qualquer curso superior proporcionava emprego seguro, para lhe chegar era preciso dinheiro e muita resiliência para vencer os escolhos de uma escola dura, que, muitas vezes, nada queria saber de quem a frequentava.

 

E, se muitos viam na escola o passaporte para uma vida que os seus pais não puderam ter, muito outros olhavam-na como uma arena onde se exorcizavam diabos e frustrações. Nada queriam com os livros, as sebentas, as sabatinas e a mania dos professores!

 

Da mesma forma, muito como hoje, a realidade familiar de cada aluno era muito diversa. Havia famílias instruídas que proporcionavam berços de oiro, enquanto outras nem de feno. Muitas vezes, os exemplos e as vivências de casa colidiam com as da escola provocando anomias de difícil (di)gestão.

 

Por esta altura, o Liceu de Chaves, tinha turmas levadas do diabo. Gente que fazia negra a vida de qualquer professor, por muito profissional que fosse. Depois, parece que o demo juntava os salafrários a dedo, redundando em autênticas matilhas de predação com comportamentos muitas vezes caricatos.

 

É de um deles que vos venho falar nesta pequena estória.

 

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Em 1975, a turma xpto do 5º ano era levada do catano!

 

Havia professores que, apesar de tudo, conseguiam lidar com estes índios em relativa paz. Outros sofriam a bom sofrer. Algumas aulas eram autênticos circos romanos. Contrariados, por natureza, alguns alunos faziam das aulas um martírio contínuo e para que o tempo passasse em delírio, pintavam a manta. Enquanto pudessem faltar vai que não vai, em estando tapados obrigavam-se a trocar o roço do Tabolado pela sala de aula, o que era catastrófico!

 

No entrudo, eram os peidos chocos e as bichas de rabiar; no natal, os confetes e as serpentinas; na primavera, os grilos e as cobras de água; noutras ocasiões outras coisas variadas. O importante era que a aula fosse divertida e o professor não pudesse lecionar matéria.

 

Ora, certa ocasião, esgotadas as inovações, alguém da turma se lembrou de promover um concurso de flatulência. Arranjaram-se os patrocinadores, elaborou-se detalhadamente um regulamento, definiu-se um júri, o prazo e os prémios.

 

Seria pela segunda quinzena de maio que o concurso começou, pois lembro-me que já apareciam as primeiras cerejas na velha praça das Longras.

 

Aquilo era um foguetório de rebimba o malho, nalgumas ocasiões pior do que o do arraial de Valpaços. E tanto se soltavam os rapazes como as raparigas, pois nesta altura as turmas já eram mistas[1]. Era de toda a forma e feitio: silenciosos e inodoros, abafados e fedorentos, sonoros, fininhos, longos, curtos, altos, baixos, sei lá!.. Aquilo ia progredindo em luta renhida.

 

Era vulgar que quando o professor se virasse para o quadro alguém estourasse sussurrando:

 

Trocaide-me este por miúdos!.. — Não demorava muito que aquela nota se transformasse em moedas.

 

Isto andava a ser insuportável, até que uma professora decidiu queixar-se ao Reitor.

 

Sem saber bem o que fazer, o Reitor decidiu convocou para uma reunião a Encarregada de Educação do campeão, Antenor Barracuda, um gargalhote de maus fígados.

 

Depois de uma abordagem d’amodinho, sem que a mãe tivesse entendido patavina do introito, o Reitor lá se atirou à coisa de forma mais grave:

 

— Saiba Vª Exª que o seu Antenor se anda a portar muito mal nesta escola!

 

— Pois sim senhor Reitor, vai satchar batatas que se cose!

 

— Mas sabe a senhora, exatamente, o que o malandro anda por aqui a fazer?

 

— A apalpar o rabo às raparigas de certo! O macaco sai ao pai! Saiba bossa senhoria que o meu home era lubado do catancho, num se le escapaba um rabo de saia! Mula que se le arreganhasse!...

 

— Não, não é nada disso minha senhora, ele anda a soltar flatulências nas aulas, o que tem causado graves problemas, quer aos professores quer aos colegas!

 

Flatuquê, senhor Reitor? Quer o senhor dezer que o filho da p*** escope p’ró tchão?

 

— Nada disso, senhora, são flatos, flatos que ele solta, à tripa forra, na sala de aula!

 

— Bossemecê é que me cose, não estou a perceber nada do que me diz. Quer ber que o rapaz fala mal na escola, ou andará a mija no recreio?!

 

O Reitor, espumando de raiva, atalhou:

 

— Ó minha senhora, peida-se nas aulas!..

 

Porra, que alíbio! Pensei que era coisa pior! Peidará, peidará, deve ser das cereijas que tenho lá no quintal. Come-as quentes, o sacripanta e depois não é capaz de os arrebater! Saiba o senhor que ele faz o mesmo à mesa e o meu Antóino está sempre a dezer para o deixar cagar à bontade que também se alebeia!..

 

1600-cerejas.jpg

 

O Reitor descorçoado levantou-se e desandou, deixando a mãe a ruminar sobre a gravidade do assunto!

 

Ontem como hoje!

 

Já estou como dizia Aleixo:

 

Descreio dos que me apontam

uma sociedade sã,

isto é hoje o que foi ontem

e o que há de ser amanhã!

 

Gil Santos

 

[1]Decreto-Lei 482/72, de 28 de Novembro

 

 

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Sexta-feira, 24 de Fevereiro de 2017

Discursos Sobre a Cidade, por Gil Santos

GIL

 

SAPATINHO DE VERNIZ

 

 

A luz daquele final de tarde de 21 de maio de 1966, coava-se pelas vidraças surradas do salão de estudo do seminário de Vila Real, como pelas claraboias das cozinhas fumadas de um qualquer tugúrio do Brunheiro. Triste e doentia, aquela luz, apesar de tudo, transportava-me, nas minhas viçosas primaveras, para um mundo distante, carregado da nostalgia que me salvava daquele sufoco de gramar um longo período letivo afastado das touças e dos outeiros do Carregal.

 

O meu canto, no Planalto, alumiado pela candeia a petróleo e coberto por telha vã, era um palácio, quando comparado com aquela babilónia, miserável, onde me encarceraram.

 

As janelas imensas de meio arco; os corredores longos, gelados e decorados de azulejos azuis até à minha altura; os cheiros horrendos a cera queimada; a sotaina dos padrecos e a disciplina sólida e irracional, eram degredos que tolhiam a minha alma cândida de ave de arribação. A tristeza, a solidão, a ausência de casa e dos amigos, faziam-me verter lágrimas de sangue e renegar, cada vez com mais veemência, aquela vocação que me talharam!

 

Tirando o recreio, sempre curto, e os passeios pela cidade e arredores de que lembro a Timpeira com saudade, tudo o resto era um martírio, na verdadeira e mais crua acessão da palavra.

 

Lembro ainda outro momento de fuga, constituído pela obrigatoriedade do confesso semanal com o diretor espiritual, o padre Gilberto. Um santo homem que não deveria ter lido todos os livros a que os cânones daquele maldito seminário obrigavam! Tolerante e bom conselheiro, livrava-nos, por algum do tempo, do suplício da sala de estudo. Eu era adepto fervoroso dos confessos, não porque me preocupasse com remissão dos pecados que não tinha, mas para ouvir as palavras sábias e amigas daquele homem, bafo quente na frigidez daquela casa.

 

Vivi dois longos anos de sofrimento naquele forte ocre! Um edifício sóbrio, medonho, na altura o maior da cidade. Um casarão, diziam que com tantas janelas como dias tem o ano e que conseguíamos ver do mais longínquo lugar onde nos levassem os nossos passeios domingueiros.

 

Mas aquele sábado entardeceu com a esperança de um passeio inédito no dia seguinte ao Monte da Forca. Um sítio de que muito ouvira falar, mas que não conhecia. Pensava eu que por lá encontraria, ainda, a mesma forca que, na Idade Média, tiraria a vida aos sacripantas das redondezas! Mesmo o nosso professor de música, o bendito padre Minhava, com quem aprendi a marcha de Vila Real, da sua autoria, e que ainda hoje lembro, falou um dia das estórias de horror que se teriam vivido naquele lugar malvado.

 

Chegava, enfim, o dia de o conhecer.

 

Ao tempo, para se estudar no seminário de Vila Real, penso que seria o mesmo em todos os outros, era necessário recolher um enxoval completo. Todas as peças, desde os lençóis às peúgas, eram marcadas com um número de ordem para que não fossem trocadas pelas lavadeiras. O meu era o 64. Do enxoval fariam parte muitas coisas, porém, a que melhor lembro era o fato preto, a gravata da mesma cor e uns sapatinhos de verniz. Lembro também um par de botas, à medida, que meu pai mandou fazer ao sapateiro Vila Real da Rua Direita. Aquele fato usava-se, somente, nos dias de festa e nos passeios ao exterior. Quando os aspirantes a padrecos percorriam, perfilados, as ruas da cidade, pareciam pinguins e eram motivo de chacota. Como se já não bondassem os flagelos intramuros, de que se destacavam as sabatinas de latim do padre Santos, que me chegaram a pôr as nádegas negras com uma pequena vara de marmeleiro, ainda era preciso que os paisanos lá fora, continuassem a nossa tortura!..

 

Por falar da vida intramuros, permitam-se-me três regos ao enviés:

 

As rotinas diárias eram rígidas e meticulosamente preparadas, duríssimas. Às sete despertava-se, passado meia hora ia-se à missa, depois ao pequeno-almoço e, até ao meio dia, às aulas. Das catorze às dezassete, para a sala de estudo e, depois de meia hora de recreio, ao terço. Às sete e meia era a janta, às oito e meia, as orações da noite e, às nove, dormitório.

 

A mim e a muitos, o que mais custava era suportar aquelas três malditas horas na sala de estudo. A vontade de estudar já não era muita e as matérias como carne gorda, por isso, cada um arranjava a melhor maneira de se safar. Ainda para mais, o salão de estudo era percorrido de lés a lés por um padre vigilante que não parava um segundo.

 

Certa ocasião, não me lembro bem como, arranjei um livro do Patinhas, ainda a preto e branco. Meti-o debaixo da Initia Latina e, quando o padre estivesse longe, eu ia-me deliciando com as estórias do avaro. Às tantas, não sei se pelo entusiasmo da leitura se pelo silêncio dos pés de lã do padre, sem que me apercebesse, aproximou-se por trás. Deu com o livro aos quadradinhos! Levei semelhante cachaço que aterrei, de cabeça, em cima da carteira. Como se não bastasse, fui arrancado do lugar e espancado, sem dó nem piedade, para servir de exemplo. Foi tamanha a surpresa e o pânico, que me soltei por cima e por baixo e tive de ir para a barrela. Estive dois dias na enfermaria, convalescendo!

 

De outra vez, foi no banho. O sábado de manhã era destinado ao chuveiro para lavagem das catotas! No rés-do-chão, junto ao refeitório, havia amplos balneários, com cabines individuais fechadas, que davam para um átrio, percorrido por um vigilante. Naquele sábado, calhou ao padre Benício a missão da vigia. Porém, tinha-lhe constado que alguns seminaristas, pouco amigos da água, não tomariam banho. À entrada da cabine, o padre entregava uma lisca de sabão macaco a cada um que deveria ser devolvido à saída. Alguns, entravam, fechavam a porta, abriam o chuveiro, molhavam a cabeça e nada mais. Ora, eu achava piada àquele sabão, porque depois de o usar para escarolir a cabeça, o cabelo chiava quando percorrido pelos dedos húmidos. Sinal de limpeza no meu ingénuo ponto de vista!

 

Naquele dia, saí da cabine e coloquei a sobra do sabão na caixa que o padre sustentava. O Benício abordou-me:

 

— Ora então é este o menino que não toma banho?!

 

— Tomei, sim, senhor padre – defendi-me, passando os dedos sobre o cabelo.

 

— Vê, senhor padre, o meu cabelo até chia!..

 

Quis lá o presbítero saber daquele argumento que nem conhecia, levei para peras!

 

Falando em recreio, a hora do dia mais esperada, como disse, acontecia por volta das dezassete, coincidindo com a hora da merenda. Esta constava de um pão com um cibo de queijo ou uma fatia de marmelada, que se recolhia à saída de um cesto de vime que pousava sobre um banco. Fazíamos fila e ordeiramente cada um tirava o seu bocado. A controlar estava um padre, para fazer cumprir a regra de que não se olhasse para o cesto para que não fosse possível escolher o carolo maior. A verdade é que a larica era muita e os bocados de tamanho muito diferente.

 

Ora, um certo dia, não sei se por o almoço ter sido a maldita farinha de pau com carapau frito, que eu detestava, ou por outra coisa qualquer, saí para o recreio com uma fome de rato. Quando me aproximei do cesto, não resisti e olhei para catrapiscar o cibo maior.

 

Pois isso!

 

Levei tamanho limpa-queixos que mergulhei em cima do cesto, espalhando o pão pelo chão. Fiquei sem merendar. E, como se não bastasse, fui de castigo rezar o terço para a capela, como se isso enchesse barriga!

 

Mas não se pense que o seminário só tinha coisas más. Havia o hábito de levar os seminaristas a comer ao refeitório dos padres no dia em que faziam anos. Dois dias antes de 21 de maio, tocou-me a mim. Não sei ao certo se a comida seria melhor do que a nossa, sei é que sabia pela vida! E o melhor de tudo é que, independentemente da idade, permitiam que bebêssemos um copo de vinho, não sei se para treinar já para o santo ofício a acontecer anos mais tarde! Naquele dia, lembro-me, apenas, de ter saído do refeitório dos padres com tal carraspana que, no recreio das cinco, nem na bola acertava!

 

Retomemos a lavoura no dia que dá corpo a esta estória.

 

Então, naquele domingo de 22 de maio de 1966, após o almoço, saímos acompanhados de um padre e de um grupo dos mais velhos, em direção ao tal Monte da Forca. De fatinho, gravata e sapatinho de verniz, estaríamos mais preparados para ir a uma qualquer missa na Sé, do que para o meio dos tojos e da carqueja do Monte da Forca!

 

Lá fomos, por veredas e calçadas. Chegamos após hora e meia de caminho.

 

Da forca, que eu esperava encontrar, só mesmo a imaginação, de resto pinheiros bravos e giestas piorneiras.

 

Nada!

 

Não sei o que teria passado pela cabeça do (ir)responsável padreco que nos acompanhava, mas decidiu que haveríamos de descer o monte, ladeiro, a corta-mato, em direção ao Cabril que atravessaríamos numa ponte manhosa para retomarmos o caminho de volta.

 

Assim foi.

 

Lá fomos nós, monte abaixo, uns atrás dos outros. O chão estava estrumado de agulheta seca, autêntico visgo para os sapatos de sola que escorregavam, provocando tombos de meia-noite. O meu fatinho preto, como os da maioria, chegou ao fundo numa rodilha.

 

Depois de algumas peripécias engraçadas, chegamos ao sopé, junto do rio, e deparamo-nos com um obstáculo muito difícil de transpor. Tratava-se de um talude alto, quase a pique, que não se compadecia em ser descido com os tais sapatinhos escorregadios. A estratégia do padre foi a de que nos descalçássemos, atirássemos os sapatos para o caminho, paralelo ao rio, onde um dos mais velhos os apararia. Esse caminho que levava à ponte, era muito estreito e o Cabril, três metros abaixo, corria impetuoso pelas águas primaveris.

 

Tudo correu às mil maravilhas…até à minha vez. Cá em cima, descalcei os meus sapatinhos, nos quais tinha tanto empenho, e atirei o primeiro que foi apanhado com relativa facilidade pelo quintanista Adruzilo. O segundo, não sei se por ser mal atirado, se pelas mãos de cebola do apanhador, caiu ao rio e seguiu na corrente, primeiro à tona e, depois, afundando-se para não mais ser visto.

 

Um sarilho!

 

Dali a Vila Real segui a manquitar com um pé descalço e outro calçado. No meio da cidade, disfarcei no meio dos companheiros. Ninguém deu por nada.

 

Chegado ao seminário, fui diretamente ao gabinete do Reitor Libânio Borges, acompanhado do Prefeito que pelo caminho desfiava as culpas sobre o que dizia ser o meu laxismo.

 

Bem eu o entendi!

 

Paguei a injustiça da irresponsabilidade dos outros com quatro lambefes no focinho!

 

Que raiva!

 

Aos meus pais evitei contar, para não levar mais!..

 

No dia seguinte, levaram-me a uma sapataria e encabaram-me os pés nuns sapatinhos, novinhos do trinque, de verniz, dois números acima para que não deixassem de servir em crescendo!

 

Ainda hoje estou para saber quem os teria pago, se os responsáveis do seminário de Vila Real se os meus pais, com o valor camuflado no recibo das propinas!..

 

Fui expulso do seminário passados dois anos, ainda hoje estou para saber porquê!

 

Bendita a hora!

 

Gil Santos

 

 

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Sexta-feira, 3 de Fevereiro de 2017

Discursos Sobre a Cidade - por António de Souza e Silva

SOUZA

 

O LEGADO DE NADIR AFONSO ARQUITETO

 

Somos filho da Galáxia de Gutenberg. Nascemos no culto do Livro e da sua Leitura. Por muito que o digital nos apele a seguirmo-lo, não prescindimos, na leitura, no sentir da textura das folhas de um livro, no seu manuseamento constante.

 

Daí que, quando nos deslocamos de Chaves para outros centros urbanos de maior dimensão, não deixamos de frequentar uma boa livraria - que infelizmente por cá não há! E saber das novidades editoriais, nos livros que vão aparecendo nas áreas que mais gostamos, e investigamos, e nos prendem a nossa atenção e curiosidade.

 

Desta feita, num dos escaparates de uma delas, na cidade Invicta, fomos dar com um livro, editado no verão passado pela editora Caleidoscópio, com o título «Arquiteturas-Imaginadas: Representação Gráfica Arquitetónica e ‘Outras Imagens’. Desenho [...] Cidade [...] Lugar».

 

Trata-se de um conjunto de textos (1º volume), de vários autores, que tiveram por base um Projeto de Investigação, criado em 2009, com a designação do título do Livro, do Centro de Investigação em Arquitetura, Urbanismo e Design (CIAUD), da Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa, FA/Lisboa, Fundação para a Ciência e Tecnologia, FCT, coordenado cientificamente por Pedro António Janeiro, o editor deste 1º volume, de coletânea de textos.

 

De um relance de olhos ao índice, fizemos uma leitura transversal ao conteúdo dos diferentes autores. Sem desprimor, e enorme importância dos restantes, despertou particularmente a nossa curiosidade dois textos: um, de Michel Toussaint, «Nadir Afonso e a Arquitetura»; o outro, de Sylvio Barros Sawaya, «As Decisões que constroem o Espaço Humano».

 

Pelo primeiro, para além de nos dar o percurso do artista/arquiteto flaviense Nadir Afonso, correndo as sete partidas do Mundo e trabalhando nos ateliers dos arquitetos mais famosos do seu tempo, em projetos que hoje marcam e fazem parte da História da Arquitetura moderna, como Le Corbusier e Oscar Niemeyer, somos informados que “o discurso de Nadir Afonso coloca a Arquitetura e a Arte em mundos diferentes, mas não deixa de se centrar na proporção e harmonia, no entanto [continua Michel Toussaint, seguindo o pensamento de Nadir Afonso], só a Arte no seu isolamento é capaz de assegurar tal. Sob este ponto de vista, Nadir Afonso situa-se na continuidade do pensamento estético desde o século XVIII com Kant, com a separação concetual entre Arte e Técnica, entre Arte e Utilidade, entre Arte e Ciência”. E, mais à frente, continua Michel Toussaint, transcrevendo uma parcela de pensamento de Nadir, ínsita na obra «Mecanismes de la Création Artistique»: “No ato artístico a forma resiste pela sua proporção sensível e no ato técnico ela resiste pela sua estrutura racional. O indivíduo que se propõe ser ‘artista técnico’ força as formas a um jogo duplo que o desenvolvimento progressivo das suas funções diferentes torna insustentável”. No fim do seu artigo Michel Toussaint, a propósito do projeto de uma igreja escreve da seguinte forma o pensamento de Nadir: “Na conceção de toda a obra técnica está aí, sim, a grande contradição a resolver: enquanto as estruturas funcionais, empurradas pela ciência, avançam, as estruturas tradicionais, empurradas pelos ‘destinos espirituais’, puxam para trás. E sobre Gaudi, o arquiteto catalão cujas obras são hoje grande atração turística em Barcelona [Nadir Afonso] afirma: «Não, Gaudi não foi um ‘arquiteto genial’. Querendo ser um arquiteto e um artista ao mesmo tempo, Gaudi falhou numa e noutra dessas atividades. A arquitetura de Gaudi, ‘essa escultura habitável’ que Le Corbusier ele próprio admirava tanto, não é finalmente nem escultura, nem ‘habitat’». Só a extravagância pôde sustentar, mais de meio século, as suas obras»” E Michel Toussaint conclui que “Nadir Afonso não quis mais jogar  (...) [este ] insustentável ‘jogo duplo’, quis terminar com o [seu] ‘verdadeiro martírio’ e voltar à pureza da sua escolha inicial [antes de entrar no curso de Arquitetura]: ser artista. Por isso, abandonou a arquitetura [como profissão]”.

 

Entretanto, Nadir Afonso, enquanto se degladiava com o ‘seu verdadeiro martírio’ - entre ser Artista e /ou Arquiteto, fazendo uma opção em função daquilo que pensava o que eram estas duas áreas, deixou-nos, como arquiteto, nove projetos, sendo a fábrica de panificação (Panificadora de Chaves) uma das obras mais emblemáticas, precisamente localizada na sua terra natal, Chaves.

 

Mas não é do legado desta obra que hoje nos motivou à escrita sobre Nadir, o Arquiteto.

 

Hoje, muito sucintamente, queremos falar do «Anteplano de Urbanização da Cidade de Chaves», por ele coordenado, em 1965, e que acaba por culminar, definitivamente, a sua carreira como arquiteto.

 

Teria todo o interesse que, em futuras iniciativas do Museu de Arte Contemporânea Nadir Afonso, se procedesse a um ciclo de conferências subordinado ao tema «Repensar o Urbanismo na cidade de Chaves», tendo como mote aquele Anteplano, historicamente bem situado.

 

Refere Michel Toussaint: ”Como não podia deixar de ser, assentou a proposta de plano na descentralização, isto é, na criação de novos núcleos habitacionais com alguma autonomia, separados do Centro Histórico por áreas verdes inscrevendo-o no modelo das cidades satélites proveniente das doutrinas de Hebzener Howard, conhecido tanto por Le Corbusier, como pela disciplina urbanística em Portugal, nomeadamente a partir da presença de De Groër, arquiteto urbanista convidado por Duarte Pacheco.

 

A ideia de zonamento, ou seja, da constituição de zonas funcionalmente especializadas, está igualmente plasmada neste plano, defendida como basilar pela Carta de Atenas, documento escrito por Le Corbusier [...]. E, entendendo que a «ossatura das cidades é o traçado das suas ruas» como Nadir Afonso escreveu no Anteplano, organizou-o de acordo com as vias existentes, mas não seguindo a predeterminação de um modelo «radiocêntrico, ramificado ou em xadrez». O rio Tâmega e a sua Veiga, bem como as Águas Termais, são aqui defendidas como uma das bases económicas do futuro, não deixando de preconizar a indústria como outra perspetiva de desenvolvimento no horizonte de 20 anos [...]. Afinal este trabalho inscreve-se nos saberes e práticas urbanísticas da época em Portugal e apresenta-se já não apenas como um plano que define as formas dos edifícios e espaços exteriores em desenho, mas aposta sobretudo para um esquema de ordenamento do território da cidade existente e a sua expansão com um regulamento que orientaria as intervenções nesse território [...].

 

Bem pregou Frei Tomás!...

 

O que assistimos a seguir, e fundamentalmente depois de 76 do século passado, com a gestão autárquica do PPD, de Branco Teixeira, foi à subversão total de tudo quanto este autor, cidadão flaviense, preconizava!...

 

Hoje, volvido meio século sobre este trabalho de Nadir Afonso, que desenvolvimento e ordenamento territorial temos na nossa cidade?

 

Será que planeamos, ordenamos e desenvolvemos a nossa cidade, como muito bem diz Sylvio Barros Sawaya, tendo em linha de conta que “é, a todo o instante, que o espaço humano, gerando afirmação do que entende como sendo e do que deseja ser, uma fala social em que a sociedade concreta ali localizada se manifesta através dos gostos, das afeições, das necessidades e anseios, deixando traços inscritos no próprio espaço falando da sua vida e indicando um devir”?

 

As consultas públicas, quando as há, são meros proformas. E os cidadãos são verdadeiramente ostracizados acerca do que se passa e se faz na sua cidade. E, mais ainda, do que se vai passar, nos seus espaços vitais, quer sejam públicos, quer privados.

 

Estamos com Sylvio Barros Sawaya quando fala ser necessário explicitar, de antemão, todos os aspetos que vão levar à modificação do espaço público e privado da cidade onde «habitamos», através do projeto que se vai encomendar, ouvindo previamente os diferentes pontos de vista do(s) cidadão(s). Caso assim não aconteça, o projeto que se encomenda transforma-se numa decisão aleatória, não partilhada e distante da efetiva participação da sociedade, das suas comunidades e seus indivíduos.

 

Quantos projetos encomendados a técnicos para o ordenamento e desenvolvimento do território flaviense tiveram a participação social na conceção do mesmo?

 

É que uma decisão sobre qualquer projeto para a cidade, a nossa cidade, o nosso ‘habitat social’, deve basear-se numa audição prévia à decisão da encomenda do projeto. Trata-se de uma atitude sábia, consequente e harmoniosa, diz Sylvio Barros Sawaya, que vai depois tornar o projeto querido e participado por aqueles a quem se destina para nele estarem todos os dias, usufruindo do seu espaço, de qualquer natureza que seja - público ou privado. Quando um espaço é querido e partilhado por quem o habita, o usufrui, ou simplesmente gosta de o contemplar, não se transforma num corpo estranho à nossa vivência quotidiana...

 

Infelizmente não é isso que, pelas nossas bandas, todos os dias se passa. Exemplos? Não faltam!...

 

Intervir num espaço, em especial de uma cidade, não é apanágio exclusivo daqueles a quem confiamos, pelo voto, os destinos dos espaços que «habitamos». É de todos nós. Que, por isso, devemos ser ouvidos antes de qualquer intervenção. E partilharmos na execução dos mesmos. Porque não estamos aqui simplesmente em presença da elaboração ou execução de uma obra de arte, mas de um espaço que se destina a ser «habitado», usufruído, por todos. Quem não entender isto que siga outras áreas, deixando a política, a arquitetura ou o urbanismo, ou o que quer que seja, e que tenha a ver com o espaço onde a sociedade e as comunidades se desenvolvem e o Homem vive. E, tal como aconteceu sabiamente com Nadir Afonso, mude de rumo. Sejamos honestos!

 

Na verdade, estamos com Nadir - Arquitetar, Urbanizar e Ordenar não é a mesma coisa que Arte.

São, positivamente, duas atividades bem diversas uma da outra. Que exigem visões e posturas diferentes sobre a realidade.

 

Ordenar e gerir um território exige-se não só competência, sensibilidade social mas, acima de tudo, cultura efetivamente democrática, em que a abertura à participação cidadã - isenta do faz de conta e de pequenos ditadores - é a chave decisiva para o sucesso do desenvolvimento e bem-estar das populações que ocupam um determinado espaço - aquele onde a nossa vida, individual e coletiva, se desenrola e acontece.

 

António de Souza e Silva

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Sexta-feira, 27 de Janeiro de 2017

Discursos Sobre a Cidade, por Gil Santos

GIL

 

LÁGRIMAS DE SANGUE

 

Naquela ocasião as palavras vertiam-se-me como água em cesto roto. Por muito que as peasse, remedavam cabras doidas entre penedos e galgueiras. E eu, na ingenuidade das minhas verdes primaveras, permitia-as soltas, selvagens e libertinas.

 

Às segundas já ansiava os domingos. Aguardava-os como o renovo a água da rega. Os dias do senhor eram mágicos. Pela matina assistia à missa, no templo românico de Santa Leocádia. Acordava de madrugada e saía do Carregal aos primeiros acordes do galo. Sapatinho engraxado, calça vincada e camisa alva de terylene. Três quilómetros, à pata, que pouco custavam, pese embora a lama do inverno ou o pó do estio. Ouvir as larachas do padre Luís, era uma desobriga que se impunha, para expurgar os pecados, o mais das vezes veniais, e atestar a alma de fé. A liturgia pouco mais durava do que o concerto de um rouxinol num qualquer silvado. Não estivéssemos afeitos à obrigação, inconsciente, do culto e saíamos de Santa Leocádia menos católicos do que chegáramos!

 

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A igreja matriz, onde ainda se diz a missa, é um respeitável templo do século XII, classificado como monumento nacional desde 1961[1]. Com a fachada principal singela, e sem ornamentos, ostenta um campanário simples, com duas ventanas e respetivos sinos. O maior usa-se para chamar os fiéis à oração e para tocar a sinais. É baloiçado por uma grossa corrente de ferro que com o tempo lavrou fundo canyon na padieira da porta principal. O mais pequeno toca apenas a rebate, no caso de incêndio ou de outras desgraças.

 

O exterior da igreja, rude e sóbrio, é de granito nu, aparelhado e muito musgado. O telhado de duas águas. As paredes laterais, no cimo, são rematadas de um lado e de outro, com temíveis gárgulas, que afugentam os atoleimados e as almas penadas. A parede nascente, contrária à entrada principal, apresenta uma seteira ricamente trabalhada. Para mim, a jóia da coroa! Ao lado direito, encontra-se o cemitério, construído no tempo da reforma dos cabrais. O jazigo da família Morgado, à entrada do lado esquerdo, visitava-se, invariavelmente, para um padre-nosso por alminha de quem lá estava. A igreja é circundada por um adro amplo. Junto à porta lateral, a sul, um sarcófago de pedra encosta-se a à parede servindo de poiso aos homens antes do santo ofício. Uma dezena de degraus, muito gastos pelo uso e pelo tempo, dão acesso ao adro, desde o terreno fronteiro, onde um pelourinho de pedra, muito torto, testemunha a antiguidade do conjunto. Ao interior da igreja o acesso faz-se exclusivamente pela porta lateral do lado esquerdo. Somente em dias de festa, casamentos ou funerais se escancara a principal.

 

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O espaço interior é pesado e misterioso. As paredes, antes caiadas, deixam hoje ver antiquíssimos frescos que um restauro recente deu à luz. O chão, de soalho de castanho, muito gasto, mostra um vasto conjunto de sepulturas e pedras tumulares. A única nave tem teto de madeira e é fechada por um arco triunfal abundantemente lavrado. O altar principal, para lá do arco em ogiva, é de talha dourada, muito simples, em que são protagonistas cachos de uva e os anjos papudos. Para cá do arco os altares secundários. Os do lado esquerdo estão dedicados não me lembro bem a que santinhos. O do lado direito à figura tenebrosa (que Deus Nosso Senhor me perdoe!) do Senhor dos Passos. Esta imagem mexeu sempre muito comigo. De tamanho natural, o Senhor ajoelha-se ao peso do lenho. Veste túnica roxa, atada à cintura por uma grossa corda de sisal. O seu tamanho desusado, a sua expressão de sofrimento e a feridas no rosto, marcaram-me! Nunca o consegui encarar sem que me sentisse agoniado. Hoje mesmo, ainda evito encará-lo! Abaixo da porta lateral, portanto mais longe de Deus, quiçá um castigo pelo pecado original, as mulheres de lenço ou de véu e xaile de merino. Acima os homens. Bancos não havia. Quem se quisesse alapar que levasse um moutcho de casa. Alguns assim faziam. O meu falecido avô, António Moreiras, como carpinteiro que era, não só construiu um, devidamente estofado de serapilheira para si, como para a minha avó um genuflexório que também servia de assento.

 

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E assim se consumiam as manhãs de domingo. Terminavam, invariavelmente, com um lauto almoço de coelho estufado, frango de churrasco, engordado com os saltões das poulas das Padanas, ou com leitão no forno de lenha, quando as recas pariam para lá da capacidade de os vender. No tempo da caça, coelho bravo ou perdiz na brasa, com molho verde!

 

As tardes passava-as em Fornelos nas tropelias da meninice: jogando ao fite, ao rou-rou, fabricando cestinhas com parentes ou ouvindo estórias, quando o tempo não permitia ares livres. Contudo, o que mais me fascinava era a pregação!

 

É desta atividade que vos falo!

 

Desde tenra idade, alguém me topou faculdades oratórias invulgares. Acho que as ganhei ouvindo as pregações. As festas rijas não passavam sem um pregador, como as de hoje sem uma banda! Estes clérigos, sofistas, cobravam gorda maquia, e empanturravam-se, à tripa forra, na mesa das famílias mais abastadas. E eu ficava a ouvi-los, extasiado, o tempo que fosse, contrariando o que seria normal que era andar atrás das canas dos foguetes. Bebia-lhes as palavras, os gestos, bem como as demais ênfases da pregação, com avidez inusitada.

 

O meu sonho era um dia ser pregador!

 

Sonhava subir, devidamente paramentado, a um púlpito e fazer chorar os seixos da calçada como o padre Salgado fazia chorar as velhas beatas. O púlpito, para mim, tinha uma áurea mágica! Quanto mais alto fosse melhor! Mesmo hoje, se visito um templo, procuro sempre o púlpito e imagino-me desde lá puxando pela fé dos crentes. Os púlpitos, há muito abandonados, fascinam-me!

 

(púlpito)

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Então, a partir dos meus quatro anos, comecei a não ter papas na língua, nem vergonha na cara! Falando pelos cotovelos, rebuscava, nos recônditos da memória, ainda viçosa, coisas que não lembravam ao diabo! Quando não, inventava, com a mesma facilidade com que o melro inventa as melodias que canta. Daí que, primeiro em família e depois em público, viesse a dar em aspirante a pregador. Não havia festa íntima que não fechasse com uma pregação de natureza religiosa ou profana, mas sempre puxando ao sentimento. A um canto da sala, sobre a cadeira mais alta da casa, relatava a vida de um santo ou de uma santa que a minha avó Carolina me tivesse lido da Cruzada ou do Avé-Maria, ou outro qualquer acontecimento que tivesse escutado na rádio ou tivesse observado em qualquer lugar. Dizem, as más-línguas, que não ficava a dever nada aos melhores pregadores da época, salvo seja!..

 

Em público comecei, lembro-me bem, em Fornelos, teria uns cinco anos. Esta povoação, ínfima, situa-se no limite do concelho de Chaves, confinando com o de Valpaços no Alto da Cruz, a apenas dois quilómetros. Aldeia natal da minha família materna, este lugar da freguesia de Santa Leocádia, juntava sempre muito povo nas tardes de domingo, não sei se por ser atravessado pela estrada nacional 314 que de Chaves conduz a Murça por terras de Montenegro, se pelo vinho da adega do Ti Balele que se escancarava para todos. A verdade é que a partir de dada altura começou a juntar ainda mais povéu, estou que para ouvir o tal aspirante a pregador. O Ti Morgado era o chefe de cerimónia. Quando sobre a parede poente do adro da capela se projetasse a sombra do edifício, fazia-ma subir. Emplouricado naquele púlpito improvisado e olhando a gente desde o céu, destravava as palavras que se evadiam em catadupa. A pregação durava e eu sentia-me o rei de uma festa em os crentes me escutavam com mais atenção do que ao padre Luís na igreja de Santa Leocádia! E eu puxava à lágrima quanto pudesse!

 

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Assim aconteceu durante alguns anos. Raro era o domingo em que não havia sermão. Apenas a borrasca ou a neve do inverno me tiravam daquele púlpito, desde o qual terei subtraído muitas almas ao regaço de belzebú!..

 

Certa ocasião, com sete anos, fui de visita a uns parentes de Almeidinha, um pequeno lugar da vetusta freguesia do Jarmelo, situada para os lados da cidade da Guarda e a caminho de Vilar Formoso.

 

Impõe-se aqui um parêntesis para situar o leitor na história desta freguesia, com referência à obra de Leite de Vasconcelos.

 

«[Jarmelo] tinha honras de Couto com muitos privilégios no tempo do nosso primeiro rei D. Afonso Henriques, que lhe deu foral em Coimbra após o início do seu reinado. D. Manuel deu-lhe de novo foral em Santarém, no dia 1 de Junho de 1510. Em 1755 já estava desabitada, tendo apenas algumas casas, a da câmara e cadeia e mais duas moradias para dois beneficiados, além de três igrejas.

 

Nascera por má sina no Jarmelo, Pero Coelho, que foi gentil-homem da corte de D. Afonso IV - o Bravo, pai de D. Pero. Era filho de Estevão Coelho e de D. Maria Mendes Petite, que foi avó de D. Eleonora d'Álvini, esposa do Santo Condestável. Imensamente ricos, os pais de Pero Coelho deram ao jovem uma educação esmerada.

 

Pois foi justamente para o Jarmelo que Inês de Castro, amada de seu filho D. Pedro, foi desterrada a conselho de Pero Coelho. Ali seria vigiada com rigor. Então D. Pedro em mortal ânsia, não comia não dormia, não parava um momento, e buscava por toda a parte até que descobriu a sua Inês. E com mil cautelas e embustes, às escondidas, foi vê-la de noite, a cavalo, envolto na treva de uma longa capa negra. O corcel levava as ferraduras pregadas às avessas para assim despistar os seus perseguidores. Filou-a e trouxe-a por caminhos calçados de luar, à garupa do seu alazão e foi pousá-la em recônditos paços, no meio de jardins e fontes a cantarolar em tanques de azulejos esmaltados [em Coimbra].

 

Ora, quis a política desse tempo que três fidalgos, um dos quais Pero Coelho, invocando especiais razões de interesse para a grei e para o rei, praticassem o bárbaro assassinato de Inês de Castro na Quinta das Lágrimas em Coimbra, no dia 7 de janeiro de 1355. [Apenas] dois anos depois foram justiçados, bem mais cruelmente, dois dos assassinos. A Pero Coelho foi-lhe arrancado em vida o coração pelo peito. Ao outro foi-lhe arrancado pelas costas.

 

[Em retaliação] Pedro, nesse mesmo ano, ordenou que fosse completamente arrasada a vila do Jarmelo, o que se fez em virtude de nela ter nascido Pero Coelho. Depois da vingança de el-rei D. Pedro, determinou que no Jarmelo não ficasse pedra sobre pedra e que se salgasse o terreno, num gesto decisivo de maldição e extermínio. Excetuou-se porém uma pedra, tosca por sinal, onde os minúsculos pezinhos de Inês pousavam ao montar e desmontar o seu corcel de caça, a [pedra de montar]. Determinou-se que ela vencesse uma tença, de 5 reis por dia, segundo o vulgo à memória “daquela que depois de morta foi rainha”. Foi o próprio D. Pedro que ao visitar pela derradeira vez aquele lugar para ele sagrado e tão saudoso, dissera, num misto de ódio e de tristeza:

 

- Adeus Vila do Jarmelo, adeus pedra de montar, enquanto o mundo for mundo dinheiro hás-de ganhar!

 

E quando mais tarde deixou de se cobrar a tença estipulada, foi essa falta suprida pela caridade amorosa e sentimental da gente humilde das choupanas de colmo, únicas casas que então havia, cavando-se na mesma pedra uma caixa de esmolas, onde os fiéis antes ou depois da missa, iam botar alguns ceitis.

 

Hoje o Jarmelo não é sequer um povoado. Ninguém habita as suas casas totalmente desmoronadas. As muralhas da antiga vila, esfarrapadas e dispersas no cimo da alta colina pedregosa e abrupta, provocam-nos a saudade que é natural sentir-se por um varão ilustre, ao atentarmos nos despojos à maneira de Hamlet.

 

Ali resta apenas a lenda, nuvem vaporosa que sempre fica pairando nos lugares santificados pelas tragédias de amor!»

 

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Escutei, pela primeira vez, esta trágica história de Inês num dos serões dessa estada, contada pela matriarca da casa. Provocou-me grande curiosidade. Gravei-a nos mais ínfimos pormenores para ocasião oportuna. Estava certo que o próximo sermão não andaria à volta de um tema religioso, mas do drama de Inês de Castro.

 

Assim foi!

 

No domingo que se seguiu, após a missa na igreja paroquial do próprio Jarmelo, o Ti Morgado guindou-me ao descanso mais alto da escadaria da torre sineira que é exterior à igreja de S. Miguel. A gente que deixava a missa juntava-se, curiosa, à volta da torre para ver o que é que um pimpolho de palmo e meio, de calções e suspensórios, teria a dizer lá do alto! Mesmo o prior, já desparamentado e de sotaina, estava curioso para ver onde paravam as modas!

 

Comecei de largo! Papagueei o amor e a tragédia nos seus mais ínfimos pormenores, indo muito para lá do que ouvira. Pintei o quadro o mais negro que pude. E quantas mais lágrimas se soltavam dos olhos piscos das velhinhas, mais me empolgava no relato. Escaquei a louça que pude, mas deixei tudo em pratos limpos! Durou mais de meia hora aquele sermão profano. Terminei-o com o célebre dito de D. Pedro:

 

Adeus Vila do Jarmelo,

adeus pedra de montar,

enquanto o mundo for mundo

dinheiro hás-de ganhar!

 

Arranquei uma ovação mais forte do que a de Tony Carreira ao acabar o Sonho de Menino. Estou que se teria ouvido até na Serra da Estrela!..

 

Senti-me empertigado por ter sido capaz de contar a histórica trágica de Inês de Castro no próprio sítio onde ela teria estado e para as pessoas de lá!

 

− O rapaz tem jeito para pregador! − Diziam as pessoas que não se cansavam de parabenizar a família!

 

Para ultrapassar o estatuto de aspirante e poder ser pregador a sério, mal completei a 4ª classe em 1966, fui para o seminário de Vila Real.

 

Malfadada hora!

 

Dei-me tão mal na imensidão daquele casarão amarelo!

 

Chorei lágrimas de sangue pelos cantos!

 

Lá conheci o padre Max, que faleceu na Cumieira a 2 de abril de 1976. Dele levei muita pancadinha; o padre Minhava, grande músico e compositor, autor da bela marcha de Vila Real que aprendi e ainda hoje canto com nostalgia; o padre Gilberto, santo homem, diretor espiritual; o padre Hélder, responsável pela paróquia de Santa Maria Maior em Chaves; o padre Santos que me obrigava, à força do marmeleiro, a deglutir o intragável latim e tantos outros, que prefiro nem recordar!..

 

Estive lá ano e meio, afastado da minha infância livre!

 

Sim, porque que eu cresci aos ninhos, sentindo o cheiro do feno e da carqueja; aprendendo a assobiar com o melro e o rouxinol; fazendo-me gente à força dos nevões; sentindo o uivo do vento norte cortado por navalhas do sincelo; fabricando os meus próprios brinquedos; insultando o vento suão; fazendo dos dias infinitos escola e das noites estreladas sonhos; vendo parir a reca e a burra e a vaca; botando a cria ao monte e indo cá botá-la; jungindo parelhas de bois galegos e atrelando-os ao arado; sentindo o cheiro do esterco e da terra lavrada; vendo raposas e lobos e texugos; aparelhando cavalos e galopando na poeira dos caminhos; capando grilos e sacrificando saltões e lagartixas; estudando as formigas, os cágados, as abelhas e as vacas loiras; armando pescoceiras e fazendo magustos com fronças húmidas; rasgando calças a subir às cerdeiras; abrindo buracos em penedos para fazer vinho de amoras; sentindo nos pés descalços a força telúrica do Brunheiro; adoecendo e sarando com rezas e mezinhas; chamando as plantas, os animais, os lugares, as pessoas e os caminhos pelos seus nomes próprios; aprendendo palavras que já não se usam e expressões que já não se ouvem; enfim, fazendo os meus benditos sermões!

 

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Afortunadamente, vá-se lá saber porquê, fui convidado a abandonar o malogrado seminário.

 

Fim de suplício!

 

Naquela casarão ninguém me deu oportunidade de ser pregador!..

 

Foi um desgosto de morte para a minha avó Albertina! Dizia que quando me ordenasse, mandaria matar duas vitelas, encomendaria uma camioneta de arroz e outra de açúcar e convidaria a freguesia inteira de Santa Leocádia para ouvir o meu sermão numa festa no Lameiro Grande!..

 

Nem tudo se perdeu!..

 

A vida, afortunadamente, concedeu-me, em parte, o privilégio de ser pregador. Pois enquanto mo permitam, o meu púlpito continuará a ser o da sala de aula e os fiéis ouvintes os meus pacientes alunos!

 

Gil Santos

 

[1] Decreto nº 44075 publicado em 5 de dezembro, no DR 281/61 série I.

 

 

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Sexta-feira, 6 de Janeiro de 2017

Discursos Sobre a Cidade

SOUZA

 

O IMPOSSÍVEL É POSSÍVEL!

 

Entrámos num novo ano. E, nestas alturas, é comum fazer-se balanços e enunciarem-se novos ou renovados desejos e aspirações.

 

Não estamos hoje virados para fazer balanços e, especificadamente, elencar desejos ou aspirações. Tal, como diz o velho ditado, seria, muito provavelmente, «chover no molhado».

 

Ao longo desta rubrica, temos vindo a falar, e a por o dedo na ferida, daquilo que consideramos serem os males que temos e vemos, reiteradamente, reproduzirem-se em Chaves.

 

Os representantes do poder local que temos sentem-se incomodados quando lhes tocamos na ferida. E, demagogicamente, chamam-nos «os do deita abaixo», ou, não raras vezes, «intelectuais da treta», que só sabem criticar, não apresentando soluções.

 

Percebemos o seu incómodo, sinal da mais completa incompetência quanto aos lugares que ocupam.

 

Não nos compete, individualmente, encontrar e apresentar soluções. Talvez, um pouco, contribuir para fazer diagnósticos.

 

Não acreditamos em políticos heróis, com soluções (individuais) na mão, milagrosas. Pois não as há! Há, isso sim, uma outra maneira de fazer política. Com mentes verdadeiramente abertas. Que aceita as diferentes diferenças. E que conta com todos. Que constantemente insiste e apela a uma maior participação cívica dos cidadãos na construção da sua polis. Sem a crónica doença da partidarite e do compadrio.

 

Temos recursos que nos podem levar longe na escala do desenvolvimento local e na qualidade de vida dos cidadãos.

 

Temos, felizmente, embora poucas, boas práticas privadas que nos fazem acreditar que uma outra cidade e concelho podemos construir e acreditar.

 

Temos a fé que muitos (principalmente jovens) flavienses, desgostosos do rumo da sua cidade, deixem de considerar o seu berço demasiado pequeno e provinciano, e regressem ao seu lar para participarem numa nova construção da nossa terra.

 

Se bem que o que vemos movimentar-se não nos dá grandes esperanças e alegrias, contudo, continuaremos a pugnar por este grande objetivo - voltar a por Chaves no mapa de Portugal e da região em que se integra.

 

Sabemos que no passado demos cartas. Sabemos também das dificuldades e dos entraves que a sociedade global em que vivemos coloca os pequenos territórios e, ainda por cima, quando situados na periferias das periferias. Sabemos o que a grande maioria dos leitores que nos lê nos diz ou, para consigo, pensa: «mais um sonhador!».

 

Que assim seja. Mesmo assim não deixamos de sonhar.

 

Sonhar como o nosso grande poeta maior transmontano (alto duriense), Miguel Torga, quando, nas suas visitas frequentes à nossa terra flaviense para tratar os seus achaques, nas Termas de Chaves, 4 anos antes de deixar de estar entre nós, escrevia no seu último Diário, depois de ter abanado com o pessimismo de um flaviense, seu interlocutor:

 

Chaves, 26 de Agosto de 1991 - Não é possível...

 

- Ó rapaz, acaba-me lá com essa ladainha do possível! Fala-me do impossível triunfo do teu clube. Da impossível moderação alcoólica do teu pai, da impossível atenção oficial às legítimas aspirações desta tua cidade natal. Vê se olhas a vida de uma vez para sempre sem muros à volta da imaginação”.

 

Eis, pois, aqui, o nosso desejo para 2017: que aquilo que julgamos como impossível seja possível!

 

Só assim é que a verdadeira dimensão humana efetivamente se realiza...

 

António de Souza e Silva

 

 

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Sexta-feira, 23 de Dezembro de 2016

Discursos Sobre a Cidade

GIL

 

AS MANHAS DO CITOTE

 

Abel Apolinário era Citote no tribunal da comarca.

 

Nascido em finais do século XIX, nos corgos do Brunheiro, assentou praça no 19 quando fez vinte primaveras. Rude como as fragas que o pariram, não lhe poderia ter calhado melhor sorte. O serviço militar trouxe-o à cidade e abriu-lhe as portas a um mundo novo. Foi o rei da mandingança, no velho quartel do castelo.

 

Do Brunheiro vinha afeito a carolos de centeio ressesso e a caldo de tresontonte, sem pingue e, por conseguinte, não era biqueiro! No quartel, rancho e casqueiro era comida de lorde!..

 

Aprendeu a ler e a escrever na Escola Regimental e, por isso, foi graduado em Soldado Arvorado. A necessidade fê-lo guitcho e a mobilização para a Grande Guerra foi a melhor desgraça que lhe poderia ter acontecido. Sorteado para França, em Agosto de 1917, de onde pensava não regressar vivo, partiu, à pata, com os demais, numa madrugada, carregado como um ouriço-cacheiro para Mirandela, a fim de apanhar o comboio para Bragança e mobilizar com o 30.

 

Daí a três dias embarcou, no Cais de Alcântara, rumo a Brest, na segunda semana de setembro. Durante os três dias e as três noites da viagem, a bordo do navio Inglês Flavia, cuidou de morrer de tanto vomitar.

 

Malvada Biscaia que o ia tchimpando!

 

Entre lixo, mulas e machos, pulgas e percevejos e muito sofrimento, chegou a Brest mais morto do que vivo. E foi uma sorte ter lá chegado, porque muitas vezes teve de meter cortiças ao peito pela ameaça de ir ao fundo à conta dos submarinos alemães.

 

Depois foram mais três dias de comboio até à Flandres, onde comeu o pão que o diabo amassou!

 

Passou muita fome e muito frio.

 

Andou dias e dias ensopado.

 

Foi pasto de pulgas, piolhos e carrapatos.

 

Escornou camones e franceses.

 

Limpou o sebo sei lá a quantos boches, por quem tinha um ódio figadal fabricado pela propaganda de guerra.

 

Organizou patrulhas de combate, de reconhecimento e de escuta.

 

Atirou birilaites (very lights) sem conta.

 

Esfourou-se todo a cortar prego!

 

Rilhou arame farpado e excomungou a Terra de Ninguém, a que os camaradas chamavam Avenida Afonso Costa.

 

Cantarolou o Fado do Cavanço, nas noites de luar, para esconjurar o medo!

 

Comeu latas e latas de corneed-beef e bebeu o chá das cinco, feito com a água quente do cano de arrefecimento da Luísa. Mas nunca lhe chaldrou! Antes queria batatas e couves regadas com um fiozito de azeite e um copo de tinto. Chá era para as senhoras e para os pandeleiros dos beefs, como ele dizia!

 

Desviou muito feijão vermelho, batatas e pencas das quintarolas dos paisanos.

 

Assobiou às donzelas francesas, mas não foi capaz de conquistar o coração de nenhuma, apesar de dominar o patoi como poucos.

 

Arreganhou os dentes dos escoceses a quem chamava mademoiselles de tranché.

 

Visitou por diversas vezes o Drapeau Blanc em Merville pelas buscates. Era o único consolo que lhe restava naquela guerra excomungada. Nem sequer pensava no risco de uma sífilis que o tolhesse. Teve sorte, nem sífilis nem gonorreia. Não havia bitcho que o penetrasse!

 

O roulement punha-o seis dias nas linhas da frente e outros tantos na retaguarda. No front, entrincheirado, resistia à fúria da metralha, à doença, ao medo, ao frio e à fome. Na retaguarda, para esquecer, embebedava-se nos Estaminets!

 

Mas, aquela maldita madrugada de 9 de abril ia sendo a sua derradeira!

 

Escapou por obra e graça da Virgem Maria de quem era aturado devoto.

 

Integrado na célebre Brigada do Minho, no 8 de Braga, caiu prisioneiro dos alemães pelas 6 da manhã de 9 de abril de 1918. Engrunhadinho numa cova de morteiro, semienterrado na lama, viu chegar um boxe rude que lhe encostou a baioneta ao peito dizendo:

 

Hund, werden sie trinken kaffee nach Deutschland!

 

Não percebeu nada, nem lhe interessou perceber! Aquelas palavras foram a sua salvação! Levantou as mãos, tão alto quanto pôde e rendeu-se:

 

Sui bom prisionére, sui bom prisionére, salve moi good boxe!

 

Andou três dias e três noites a enterrar alemães mortos nessa Batalha de La Lys. Depois foi com mais 6 500 camaradas para a Citadelle de Lille, onde ficou três dias a pão (pouco) e água. Dali partiu para Friedrischsfeld de onde o separaram dos oficiais e o mandaram por diversos campos ao longo do vasto império alemão.

 

Sobreviveu à miséria dos campos de prisioneiros, à raiva dos alemães e às baionetas das Mausers. Mas da fome, negra, não se livrou, pese embora a misericórdia dos prisioneiros franceses que lhe davam a sopa de beterraba que não comiam.

 

A Grande Guerra acabou a 11 de novembro de 1918 e ele regressou à nação pátria apenas em fevereiro de 1919, escanzelado!

 

As peripécias da guerra e do cativeiro marcá-lo-iam ainda mais do que o próprio gás mostarda dos alemães.

 

Fixou residência em Chaves e não mais quis saber da aldeia que o viu nascer. Visitava-a apenas em dias de festa e para receber a paga dos favores que fazia. Casou e arranjou emprego no tribunal da comarca como Oficial de Justiça ou de Diligências como alguns, poucos, sabiam dizer. Para a maioria era o Abel Citote e para outros, os mais marotos, simplesmente o Piçote!

 

Um ótimo emprego aquele e ainda para mais num lugar tão importante. Uma ocupação em que chegava a ganhar, por fora, mais do dobro do seu salário!

 

Dada a iliteracia do povo, a complexidade e o temor dos assuntos da justiça, qualquer amigo, ou conhecido que se enrolasse no tribunal passava, invariavelmente, pelo Piçote. Do favor prestado saía com as mãos bens untadas, mesmo quando nem uma palha mexia!

 

Tinha a tenda bem armada o sacripanta!

 

Por tal, gozava de grande prestígio junto dos conterrâneos planálticos. Quando ia pela aldeia, os vizinhos até se engaliavam para que aceitasse um copo e uma lisca de presunto nas suas adegas!

 

Ora, o Ti Gregório Floriano tinha uma desavença antiga com o vizinho Higino Catrapisca, por causa de uma passagem para umas leiras de cultivo. O Gregório era proprietário de uma touça encravada entre a estrada nacional e a cortinha do Higino que fora herdada de seu sogro. O Catrapisca, para poupar caminho, quando queria aceder à propriedade, atalhava por uma rodeira que atravessava a touça a meio. Gregório, reclamava o direito do seu uso exclusivo e queria privá-lo da dita passagem. Aquele ateimava, reclamando a servidão de passagem.

 

Não havia maneira de se entenderem!

 

O assunto vinha-se arrastando há anos e pelos arrufos crescentes, adivinha-se que pudesse acabar mal! O Higino era das felpas do diabo. Todos o temiam. Andava quase sempre armado e metido em zaragatas. Já tinha, inclusivamente, estado preso por esmoucar os de Loivos na festa do Fernandinho! Por isso, o Gregório, cortava-lhas e então começou a ponderar recorrer ao tribunal para lhe tirar pela justiça o que não se atrevia a tirar-lhe de outra forma.

 

Mas como é que o havia de fazer?

 

Teria, certamente, de recorrer aos serviços de um advogado.

 

Consultou o Dr. Fagundes Seitouras que depois de ouvir o caso o esclareceu de que se tratava de um direito de servidão e como tal o Higino, uma vez que não tinha alternativa para acesso à cortinha, o poderia fazer através da touça. Mas que se ele quisesse, que ainda assim, meteria o caso em tribunal e deixaria que fosse o juiz a decidir. Pagou a consulta e pediu-lhe alguns dias para pensar.

 

Foi almoçar à casa de pasto do Horácio no Tabolado, onde era cliente habitual. Por sorte, ou azar, cruzou-se com o Apolinário no repasto. Conhecido de longa data, Abel convidou-o para a sua mesa e mandou vir uma bacalhoada que o Gregório fez questão de pagar! Depois de uma conversa de ocasião sobre o tempo e as sementeiras, entre umas azeitonas quartilhadas de Brunhais e meio quartilho para fazer boquinha, veio à liça a questão da passagem.

 

Que não se fintasse na treta do Fagundes que apelidou de grande bigairista! Ele mesmo lhe arranjaria um bom advogado com a garantia de que o caso se resolveria a seu favor. Para o efeito mexeria os cordelinhos no tribunal!

 

Feito com o Dr. Donzílio Carrapiço, prontificou-se a marcar-lhe uma consulta para dar andamento ao processo. Que viesse no dia de feira falar com o tal, que tudo se haveria de ajeitar.

 

Assim foi!

 

No dia aprazado lá estava Gregório no escritório do Carrapiço. Marcaram uma visita ao local. Donzílio observou a propriedade de um lado e do outro, analisou caminhos e carreiros alternativos, escrevinhou breves notas e botou a sentença: Que tinha toda a razão! Higino não tinha nada que passar pela sua propriedade, uma vez que havia outras hipóteses de acesso. Contudo avisou que a causa não lhe ficaria muito barata, uma vez que se tratava de um processo complexo e de muitos custos. Cinco contos de reis em aceitando a sua intermediação!

 

Gregório, fazendo fé nas garantias do Citote, aceitou.

 

Claro que a ida do avogado à aldeia não passou despercebida ao Higino, que logo tratou de dar os passos necessários para contrariar o que o outro pudesse estar a congeminar. Aproveitou uma feira e consultou o amigo Piçote. Que tinha toda a razão. Cabia-lhe o direito a passar pela touça do Gregório sim senhor e este não o poderia impedir com base no direito de servidão. Ele próprio manobraria os cordelinhos no tribunal para que a decisão lhe fosse favorável. Mas que consultasse um advogado amigo que lhe trataria das papeladas e em conta. Que fosse ao Dr. Adérito Acúrcio e que dissesse que ia da sua parte!

 

Assim fez!

 

Que sim que tinha toda a razão e que facilmente ganharia a questão, mas que lhe custaria cinco contos de réis.

 

Aceitou!

 

O caso deu entrada no tribunal mas demorou a ser resolvido. Passados meses o juiz decidiu-se pelo tal direito de servidão e deu razão ao Higino.

 

Gregório ficou possesso e foi pedir contas ao Piçote. Raposa matreira, atirou com o fardo para a incompetência do Carrapiço.

 

— Um bigairista esse Donzílio! Nada sabe de leis e anda a enganar meio mundo. Não ganha uma questão o filho da puta! Eu só lho indiquei porque o caso era muito fácil e ele leva barato, além do mais eu tinha a coisa mais ou menos controlada no tribunal, mas correu mal. O bandalho meteu a pata na poça defendendo que havia alternativas de passagem, quando de facto, pelos vistos, só ele é que as viu! Mas deixe estar que o filho de uma cadela sarnenta não há de comer mais ovos que eu ponha! E quanto à passagem, amigo Gregório, deixe lá o Higino passar pela rodeira, ao fim e ao cabo pouco prejuízo lhe dá, assobalha-lhe apenas gestas e tojos!..

 

Como de facto, o Gregório nunca tinha pensado que o prejuízo daquela passagem era, afinal, ínfimo e, além do mais, não era tão frequente quanto isso!..

 

Que se fodesse o Higino e mais os cinco contos!

 

Mais valia a paz entre os vizinhos do que todas as giestas e tojos do mundo!

 

 

— Ó Ti Apolinário vamos, mas é, comer umas alheiras com grelos ao Horácio que hoje quem paga sou eu! (mal ele sabia com que dinheirinho!).

 

Gil Santos

 

 

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Sexta-feira, 2 de Dezembro de 2016

Discursos Sobre a Cidade

SOUZA

 

DA ORGANIZAÇÃO URBANA (OU PLANEAMENTO URBANO)

AO DISPARATE DA NOVA INTERVENÇÃO NO LARGO DAS FREIRAS

 

Não nascemos em Chaves. Optámos, contudo, por fazer dela a nossa cidade, a nossa terra.

 

Tendo família já aqui a viver, e estudante na capital do distrito, quando adolescente, costumávamos vir, pelo período do Natal, Páscoa e Férias Grandes, a Chaves. E, com efeito, deliciávamo-nos o palpitar que, naquela altura, no designado Largo das Freiras, se vivia. Era uma mistura interessante de estudantes, professores, tropa, forasteiros e flavienses comuns que, circulando entre o Bar Aurora e o Café Sport, tendo como linha de articulação a Rua de Santo António, davam movimento, cor e vida àquele local. Por ali, tudo quanto a Chaves dissesse respeito, acontecia.

 

Hoje, está tudo completamente mudado. E temos pena, nostalgia, saudade de um lugar que antes era a imagem de marca da sua cidade e atualmente se encontra despido e sem vida. Alguns apontam o dedo aos que, na sua opinião, são os causadores deste tamanho assassinato urbanístico – os senhores do poder local.

 

Gostaríamos, aqui de participar nesta discussão à volta do Largo das Freiras e do verdadeiro disparate das obras que, neste momento, estão ali a ser feitas, ou seja, um arranjo cosmético, dizemos nós, que não vai trazer mais vida ao local. Enfim... Como o dinheiro é de todos nós, que infelizmente não o controlámos efetivamente, displicentemente passamos aos nossos autarcas um cheque em branco para, na nossa cidade, fazerem o que muito bem entendem.

 

Da nossa parte desejamos acarear e trazer a este já longo debate a nossa perspetiva. Por duas ordens de razões: a primeira, porque sempre nos interessaram as questões ligadas à geografia, urbanismo e planeamento, por gosto e também por razões profissionais; a segunda, porque reputamos de importância fundamental que discutamos a nossa cidade e opinemos sobre a sua evolução, o que dela queremos. Todos.

 

Segundo supomos saber, a intervenção feita naquele local foi no âmbito do Programa Polis. Temos para nós que, salvo raras e honrosas exceções, a grande maioria das intervenções deste Programa visa(ra)m aquilo a que designamos como a obtenção da cidade espetacular ou monumental. Mas, muitas vezes, estas intervenções levam à perda da noção de lugar ou, como diz Carla Narciso, na sua obra Espaço Público – Desenho, Organização e Poder, do genius locci, provocando a dispersão de grupos sociais que até ali exerciam as suas atividades, quer profissionais, quer de lazer.

 

Ou seja, não nos pareceu ter ali havido uma intervenção urbana equilibrada, no pressuposto da “compreensão das diferentes escalas territoriais de inserção, nos processos de reestruturação, nos elementos arquitetónicos, na morfologia urbana existente e nas tradições” (Carla Narciso, ob. cit.).

 

Estamos de acordo ainda com aquela autora quando, no mesmo passo, diz que as intervenções urbanas não devem significar uma perda da cidade, mas sim uma melhoria social e estética. Mas frisa. Na obtenção deste desiderato é igualmente necessário a participação das comunidades locais nas discussões e intervenções a serem implementadas.

 

Não sabemos se os meios de consulta pública, para além dos que a lei estipula e prescreve, foram implementados e levados a cabo de uma forma verdadeiramente participativa. Circunstâncias várias da nossa vida impediram-nos a presença em Chaves naquela altura.

 

Hoje em dia é frequente vermos uma cidade, e os seus espaços públicos, como se fossem uma simples mercadoria. Que é de todos, mas usufruído por muitos poucos. É uma lógica de produção e reprodução do sistema económico que aí está em vigor.

 

Os espaços públicos que antes eram destinados à sociabilização, o verdadeiro espaço vivenciado, como define Henri Lefebvre, convertem-se na representação de um espaço artificial, desligado dos residentes e usuários, onde não se considera as tradições e as identidades locais, onde a escala do projeto não corresponde à escala do ser humano.

 

As atuais estratégias de desenvolvimento compreendem a cidade como uma comunidade onde existe uma vida local e lugares requalificados.

 

Infelizmente, o conceito utilizado tem sido o da requalificação através da arquitetura/espetáculo para ser exibida, gerando uma verdadeira teatralização e/ou turistização do espaço público.

 

O que importa, nesta forma de fazer cidade,  é a diferenciação e a capacidade de ilusão que as obras provocam na sua passagem, desprendidas da  vivência e do quotidiana das pessoas que aí vivem, traduzindo-se, assim, num aniquilamento do lugar.

 

É certo, como dizem Borja & Forn, em Políticas da Europa e dos Estados para as Cidades, que o maior desafio do planeamento urbano contemporâneo é aumentar o potencial competitivo das cidades no sentido de responder às procuras globais e atrair recursos humanos e financeiros internacionais. Mas, de acordo com vários exemplos que temos assistido, o planeamento tem sido feito à margem da cidade, com total esquecimento das pessoas que ocupam e vivem nesses espaços.

 

O que, infelizmente, se pretende é construir uma cidade cujos seus espaços cativem o olhar do forasteiro ou turista ou que, em termos mais gerais, propicie uma atratividade em termos económicos, no conserto de uma sociedade totalmente rendida ao mercado, transformada em verdadeira mercadoria, em que as pessoas que a habitam, na grande maioria dos casos, são esquecidas.

 

E é bem certo que muito políticos e técnicos se esquecem que o espaço público tem como objetivo principal a apropriação pelo ser humano, seu habitante habitual.

 

O projeto de arquitetura deve dirigir-se aos anseios e aspirações da população que dele vai usufruir, otimizando características fundamentais à sua apropriação. Estes devem possuir características próprias e identitárias que mantenham relações de proximidade e até mesmo de afeto com os mesmos.

 

Desta forma, no que à intervenção do arranjo do Largo das Freiras diz respeito, somos a considerar que poderemos, eventualmente, estar não em presença da ativação ou da (re) construção de um património dos flavienses. Pelo contrário, assistimos à  morte de um legado patrimonial, com fortes poderes de identificação simbólica. Que não lhe conferiu nova vitalidade, como seria de esperar. E presumimos que aquela intervenção tenha sido feita com base, quase exclusiva, na representação meramente económico-turístico, baseada na moda, e na redução dos espaços públicos a mera mercadoria, numa lógica neoliberal.

 

Mas, na nossa modesta opinião, não se pode apenas apontar o dedo aos autarcas, apesar de termos de debater e por em causa a visão que o poder político tem sobre o território sobre o qual exerce poder.

 

O poder municipal é o principal impulsionador do espaço público e, em particular, ao nível das cidades pequenas e médias. Pela forte concentração do poder e/ou pela maior visibilidade que ele pode ter”, o resultado destas intervenções podem induzir a persuasão do voto. Basta considerarmos as sucessivas inaugurações de parques, praças e jardins em plena época eleitoral.

 

Desta forma, o espaço público reflete a corporificação da preocupação e da capacidade especial da autoridade e, deste ponto de vista, surge como um produto personalizado que compromete o voto. A pressão ao nível dos técnicos é claramente elevada ao conceito de arranjo e assim destitui o espaço de uma forma que o deve caracterizar e individualizar. (Sobarzo, em A Produção do Espaço Público: da dominação à apropriação). É, positivamente, nesta altura, é o que estamos a observar pela nossa cidade, com especial incidência no dito Largo das Freiras.

 

Mas também temos de entender a dinâmica das cidades e dos seus ocupantes. E de refletir sobre a(s) nossa(s) identidade(s) e apropriação (ões) dos lugares feita pelos cidadãos pertencentes a uma determinada comunidade.

 

As cidades não são estáticas. Têm espaços que desempenham funções. Funções que servem os seus habitantes e os quais delas se apropriam. A forma como as vivem, e delas se apropriam, distingue-as dos demais. E tornam-se, assim, elementos identificadores específicos de uma determinada comunidade. Que querem preservar, pois são o seu selo, a sua marca distintiva. Mas a circunstância dos constantes gritos ou desta revolta que, ao longo do tempo, temos visto espelhado à volta deste assunto relacionado com o Largo das Freiras, não reflete esta dinâmica, ou seja, o ir às razões porque aqui chegámos. Parece-nos mais um saudosismo, que não atende e entende a dinâmica dos lugares, em particular das cidades.

 

E, chegado aqui, algumas perguntas deixamos no ar:

  • Será que houve novas centralidades que desempenharam esta função?
  • Até que ponto o Largo das Freiras era efetivamente um verdadeiro espaço público de convívio, partilha, e porque não dizê-lo, de exercício efetivo de cidadania, a partir de determinado momento da história da nossa cidade?
  • Porque os flavienses deixaram de se identificar com aquele lugar como património da sua cidade ao ponto de permitirem este estado de coisas?
  • Será que o novo arranjo, que, em nosso entendimento, não passa de um verdadeiro disparate, onerando mais o erário público, irá restituir ao flaviense do século XXI, a função identitária que tinha? O que verdadeiramente se pretende com este novo arranjo? O que os flavienses querem, desejam? Foram ouvidos para o efeito?
  • Será que Chaves tem massa crítica suficiente para fazer face aos senhores todos poderosos do poder político-partidário autárquico, imbuídos de uma mentalidade mercantilizada da coisa pública, quiçá, não raras vezes, pela nossa passividade, senhores do quero, posso e mando, fazendo, na prática, o que lhes dá na real gana?

 

Nas discussões, e em particular quando está em causa o bem público, não podemos ser redutores: temos de abrir o enfoque da nossa visão para ver as coisas. Não há apenas o eu e os outros. Há também o nós.

 

E nós, flavienses, discutimos e opinamos pouco sobre o nosso espaço público. Pouco nos preocupamos com a criação e preservação dos lugares de convívio, partilha, socialização e identidade local.

 

Narcisicamente é-nos mais cómodo partilhar e conviver através das redes sociais!

 

Mas todos sabemos - e está provado -, que estas redes são lugares pobres de efetiva partilha, de criação de socialização e convívio e nulo na construção de identidades genuínas.

 

Aproximam-se aí as eleições autárquicas. Vemos algumas forças políticas - e muito bem - movimentarem-se e discutirem o futuro da nossa cidade e do nosso mundo rural. Mas esta preocupação e discussão deve ser genuína, ou seja, não deve ser feita apenas na aproximação dos períodos eleitorais. Tem de ser assumida pelos flavienses - instituições e pessoas - como uma prática quotidiana, fundamental para uma verdadeira construção e desenvolvimento do nosso território concelhio, em que a nossa qualidade de vida, de acordo com uma nova visão e de um novo modelo de desenvolvimento dos nossos territórios para o século XXI.

 

A cidadania não tem lugar apenas nos dias em que somos chamados a votar. Exerce-se todos os dias, ao nível das mais diversas formas de organizações dos cidadãos, que compõem e habitam um determinado espaço.

 

António de Souza e Silva

 

 

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Sexta-feira, 25 de Novembro de 2016

Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos

GIL

 

A COVA DO LADRÃO

 

A gente do Planalto é amiga do vinho, não porque tivesse aprendido, na doutrina, que representa o sangue de um Cristo que todos amam, mas, sobretudo, porque aquece o corpo nos dias de vento galego e dá ânimo nos trabalhos mais pesados da labuta.

 

Honra lhe seja feita que tem gosto!

 

Todavia, nem todos têm bom bober!

 

Se nuns, a pinga, aflora a boa disposição, noutros faz emergir o mau feitio, a ruindade e os maus fígados. Era o caso do Belardo Manca Mulas, Abelardo Terebentino de batismo. Lavrador remediado não se abalançava a assucar uma lavoura ou a aricar uma leira de pão, sem escoucar uma remeia. Depois, quem nas pagava era a Androsinda, uma mula nascida do cruzamento, improvável, do cavalo do Paranhos com a burra do Beiças, nas touças do Corgo. A coitada não só tinha de puxar pela relha do arado para escacholar a terra dura, como ainda de arrastar o pingueiro do bandalho. Como se não bastasse, ainda lhe arreava forte e feio com a aguilhada a cada virada de rego. A infeliz, tornava sempre ao escontra e, por isso, a vara zunia-lhe, cruelmente, riba lombo, quando não era o ferrão a rasgar-lhe os quartos de cima a baixo! Porrada de criar bicho!| Tanto assim que numa ocasião, escamado com a besta, assentou-lhe labrestada tamanha com um estadulho, numa pata traseira, que a deixou derreadinha para o resto da vida!

 

Em tempo algum o conheci sóbrio!

 

Dizia-se, à boca cheia, que bondava uma golada de água do Prado para que ficasse como uma poça! Espetava os queixos na bica, indejava o bojo e das borras de tresontonte ficava como havia de ir! O sacripanta gabava-se de aviar uma remeia por dia, não estando quente, no estio tchimpava duas!

 

1600-seixo (187)

 

O vinho sempre foi a melhor pomada para muitas das maleitas das gentes do Planalto. Porém, em terra tão madrasta, não se colhem uvas. Por isso, quem pudesse, tinha uma vinha nos fundões de Cobladrão, como se dizia, cujos socalcos, soalheiros, ajudavam a criar fruto de alto gabarito. Quem não tivesse rincão que o produzisse, tinha de se desembrulhar, pois sem vinho é que não se podia viver! E nem que faltasse o pão para a ceia, para tintol haveria de se ajeitar dinheiro! Alguns faziam das tripas coração para que o generoso lhes alumiasse o serão ao borralho, nas noites escuras da meseta, bem como os sonhos ao recolher com as galinhas. Nalguns tugúrios, estou que, alumiaria mais o vinho do que a luzes mortiças das candeias a petróleo, ou as labaredas das fronças da giesta branca crepitando nas lareiras!

 

O Ti Moreiras do Carregal tinha uns socalcos em Cova do Ladrão. Eram a menina dos seus olhos, autênticos altares marianos, de cuja Virgem era aturado devoto por tê-lo poupado à morte, quase certa, na Grande Guerra. Gastava mais tempo na vinha, do que em todas as touças, poulas ou soitos que tinha à porta de casa. Esta fazenda era a sua salvação e a do povo do Carregal. Quase todos os vizinhos se desunhavam para o ajudar nos trabalhos da vinha. Sabiam que para além da frequência com que o pipo lhes passava pelos queixos, nas podas e nas cavas, também avezavam generosos canecos ao longo do resto do ano.

 

O catano era o míldio, quando atacava a desatempo deixava o Carregal na penúria!

 

Quase não havia semana em que o Ti Moreiras não visitasse Cova do Ladrão, apesar de distar mais de duas léguas. Montado na Feiticeira, lá ia do Carregal à Torre, daí ao termo de Moreiras, chegando à Costeira, a parte mais penosa da jornada. Encosta ingreme do Brunheiro, a Costeira, ligava o Planalto ao vale do Seixo que recebendo os benditos raios austrais, estava protegido de norte pela portela do Peto.

 

1600-escariz (136)

 

Da vinha colhiam-se raros frutos: pavias, amêndoas e figos, mas principalmente uvas que fazia um vinho que em anos bons até alumiava numa candeia, não falando dos cachos de mesa que perduravam o ano todo, pendurados às cambalhotas, com barbantes, nos caibros da sala de jantar.

 

A colheita era uma festa para toda a aldeia.

 

Preparava-se durante semanas: cestos vindimos lavados, tesouras da poda afiadas, dornas empertigadas, tonéis escarolidos e lagares e lagaretas esfregados para receberem o mosto.

 

No dia aprazado, posto com muita antecedência, o povo juntava-se na estrada de Carrazedo pela madrugada. Chegava o trator do Jaime das Malhadeiras, da Amoinha Nova, irmão do Ti Moreiras, carregavam-se as dornas, os cestos a merenda e o povo.

 

Para muitos, era a única viagem que faziam durante todo o ano.

 

Dali partiam para France, passavam Lagarelhos e no Peto arrouçavam para o Seixo. Aí deixavam a nacional enveredando por um caminho manhoso de terra e buracos que conduzia à capela de Cova do Ladrão onde se estacionava. O atrelado, com as dornas, receberia os cestos de uvas alombados pelos homens por carreiros e portelos.

 

Pelo número de dornas cheias adivinhava-se a produção do ano. À noitinha, finda a saga, regressava-se em festa. E por cada lugar que se passava, a canalha juntava-se na estrada pedindo uvas. Os trabalhadores atiravam-nas à rebatina para gáudio da pequenada. Chegava-se ao Carregal, quase sempre noite escura. À luz da candeia vazavam-se as uvas no lagar de perpianho. Depois, até alta madrugada, pisava-se o vinho. Os homens descalçavam socos e carpins, tiravam as calças e de ciroulas arregaçadas lavavam as pernas em água fria, numa bacia de folha com uma lisca de sabão macaco. Depois entravam no lagar. Era uma noite espetacular. Cantavam, bebiam vinho velho e punham ao léu a vida alheia. A noite e o trabalho só terminavam quando ao Ti Moreiras lhe parecesse. Nos dias seguintes e enquanto o vinho fervia, baixava-se a cortiça com um arcanho próprio para que fervesse no bagaço e ganhasse cor. Muitas vezes andei para cair ao lagar, atordoado pelos vapores do mosto. E quantas outras, às escondidas do paizinho, ia beber vinho doce por uma palhinha de centeio!

 

Lembro-me de um ano em que um incidente, estúpido, estragou o vinho, sem que, apesar de tudo, se cometesse o sacrilégio de o botar fora! Conto:

 

O trabalho de mastragar as uvas com os pés ia a meio e os pisadores, já estavam bêbados como cágados! Numa das bordas do lagar, sobre uma prateleira manhosa de pinho, pousava a candeia a petróleo que alumiava a noite de trabalho. Num exacerbar de entusiasmo, o Marcolino Tresmundes, enquanto fingia virar uma chula minhota, estou que sem querer, pinou a candeia para dentro do lagar. O Ti Moreiras ficou em pânico.

 

Tirou a candeia o mais depressa que pôde mas não evitou, ainda assim, que se derramasse parte do petróleo. Para aquela gente desprezar o vinho era um pecado mortal mais expressivo do que quantos adultérios se cometessem numa vida! Por isso, todo o ano, bebeu-se a pisorga a saber ao petróleo, mas ninguém se queixou!

 

Enquanto rapazote, fiz muitas viagens, com o meu avô António, a Cova do Ladrão. Ele gostava de me levar com ele, dizia que o distraía. E eu gostava de o acompanhar, não só porque me sentava à garupa da Feiticeira, agarrado à crina, como tinha oportunidade de ouvir muitas das suas vivências na Grande Guerra, coisa que me fascinava.

 

E então puxava por ele:

 

− Ó paizinho, o sítio da guerra, na Flandres, era como este aqui, com penedos, caminhos e montes?

 

− Não mou filho, lá o terreno era praino e alagadiço. A lamice chegava a dar-nos pelo joelho. Às vezes, quando fazia muito frio, o pingo do nariz ficava em carambelo. E quando íamos mijar, antes do serritcho chegar ao chão, já estava em pedra. A miséria era tanta que os piolhos do corpo eram brancos e tamanhos como tchicharros!..

 

− Então não tomavam banho?

 

− Ó se tomávamos, quase todos os dias e de chuveiro, era um luxo, mas só quando chovia!..

 

− E como dormiam?

 

− Quase não dormíamos e se algum passasse pelas brasas, tinha de proteger as orelhas porque os leirancos eram tantos que, se pudessem, ratavam-no-las! Mas um dia, quando cresceres, deixo-te ler um livro que eu escrevi sobre a minha vida na guerra. Aí saberás muitas outras coisas.

 

Mal eu sabia que anos mais tarde, teria a feliz dita, não só, de a conhecer, como de a estudar e, ainda, de a dar a conhecer a tantos outros em sua honra e em honra de tantos que, como ele, sofreram as sevícias de uma beligerância inexplicada e injusta!

 

1600-seixo (181)-1

 

E lá íamos felizes acavalo, um porque tinha ouvinte para as suas estórias e outro porque as ouvia e construía imagens fascinantes e curiosas que haveriam um dia de frutificar.

 

Ao chegar à Costeira apeávamos. Temia meu avô que a égua tropeçasse e nos botasse de cangalhas, o que era perigoso. A meio da ladeira parava, sempre no mesmo lugar, não só para descanso da besta como para me contar a mesma estória, mil vezes repetida. Naquele sítio havia uma laje de granito no meio da rodeira, no centro tinha uma concavidade em forma de ferradura da qual saia um veio de granito escarlate. Assim me contava:

 

− Vês Gilinho, esta cova em forma de ferradura neste penedo? Foi a marca deixada pela burrinha de Nossa Senhora quando andava a dar a volta ao mundo pelos pecadores. Chegou aqui muito cansada. A burra pôs a pata da frente sobre esta laje e escorregou. Para não pregar com a Virgem no chão, enfincou a ferradura com tanta força que a enterrou na pedra, partindo a pata redondinha. Da bouba escorreu algum sangue que ainda se pode ver naquela mancha vermelha. A Virgem Nossa Senhora, para premiar a burrinha e para não ter de continuar a pé, guiou-lhe milagrosamente a pata. Passando por Loivos, a burrinha, pediu ao povo que construísse, em Cova do Ladrão, uma capelinha em honra do milagre. Sim, porque nesse tempo os animais falavam!

 

Assim foi!

 

Encantava-me aquela história, repetida tantas vezes. Parecia-me sempre nova com inventados pormenores. E quando olhava para a singela capelinha de Cova do Ladrão, imaginava o quadro de Nossa Senhora e da burrinha descendo a Costeira e conversando sabe-se lá de quê.

 

− Como é importante a minha terra − pensava eu − que até mereceu uma visita da Virgem Mãe muito antes da Cova da Iria!..

 

Depois chegávamos à vinha, o mais das vezes, apenas para a inspecionar.

 

1600-uvas

 

No tempo em que o bago já pintasse, o paizinho fazia questão de que comêssemos, antes da volta, um cacho das uvas sem grainha que colhia de uma latada à porta do pardieiro que servia de abrigo nos dias em que os trabalhos não permitissem regressar a casa. E que uvas aquelas!.. Curioso é que nunca deixava de cortar um generoso cacho para a Feiticeira. Sobre uma manjedoura, a égua, até fazia lume com os dentes!

 

− Apesar do bitcho não ter alma e não poder beber um copo, sequer ao menos, que larpe uma uva de Cova do Ladrão antes que ela faça o binho. Bitcho que é bitcho também gosta de coisas boas! Além do mais como é que alombaria connosco Costeira acima sem comer nada?..

 

− Belas palavras as do paizinho e generosas!

 

Coisas do vinho e da vinha!

 

Gil Santos

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Sábado, 5 de Novembro de 2016

Discursos sobre a cidade - Por António de Souza e Silva

SOUZA

 

BREVE REFLEXÃO SUSCITADA PELA FEIRA DOS SANTOS

 

Razões de natureza pessoal imponderáveis impediram-nos de, na quadra dos Santos, estarmos em Chaves.

 

Pelo que temos respigado nas redes sociais, perdemos pouco ou nada.

 

Desde longa data que vimos defendendo o repensar a Feira dos Santos. E de um papel mais interveniente, profissional e criativo por parte dos comerciantes de Chaves.

 

Aliás, não se entende muito bem apenas existir uma associação que congrega os comerciantes e da forma como está constituída: em primeiro lugar, encontramos uma amálgama de «ofícios» - comerciantes, industriais e serviços; por último, do Alto Tâmega, como se, a nível do Alto Tâmega e Barroso, houvesse uma homogeneidade tal que dispensasse a caracterização e a autonomização de cada «ofício» por cada cidade ou vila.

 

Na nossa modesta opinião, em termos dos diferentes «ofícios» para o Alto Tâmega e Barroso, a ACISAT (Associação de Comerciantes, Industriais e Serviços do Alto Tâmega), de tantos representar - ou querer representar -, não representa efetivamente ninguém, a não ser os seus Corpos Gerentes.

 

Trata-se unicamente de uma nomenclatura que não gera dinâmicas proactivas no seu seio. E, pior ainda, exibindo apenas uma pura e simples imagem (pública?). Fazendo-nos crer ser muito dinâmica, mas, praticamente, de costas voltadas para os seus associados, ou estes para ela, sendo, por isso, pouco intervenientes e raramente chamados à participação construtiva do papel dos seus «ofícios» na construção das suas cidades e vilas nas quais se integram.

 

Mas, mais que tudo isto que vimos dizendo, - repete-se -, na nossa modesta opinião, de observador externo, que procura estar um pouco a par do que se passa na sua cidade - ou talvez os seus meios de comunicação não funcionem eficazmente -, o «pecado mortal» da ACISAT foi, (e creio que ainda é), o ter-se tornado refém, «cativa» ou prisioneira», do poder político, especificadamente do autárquico, ao longo de sucessivas vereações.

 

Uma associação, que para dinamização do comércio local, pede e «aceia» as receitas do uso do solo público pelos feirantes, na Feira dos Santos, para a iluminação «artística» das ruas do Centro Histórico da cidade na quadra do Natal, - e não é ele tão pouco dinheiro -, ipso facto, deixou de ter qualquer autonomia e verdadeiro poder reivindicativo junto dos poderes públicos autárquicos. Encontra-se sempre condicionada perante ele. Porque aquele dinheiro é de todos os munícipes e não exclusivo da associação.

 

E, porque de justiça e honestidade se trata, temos aqui de fazer o nosso mea culpa por esta coresponsabilidade! Mas não nos deve condicionar e deixar-nos calado, porque errar é humano e o mais importante é saber reconhecer o erro e fazer «inversão de marcha». Para bem de todos. Particularmente dos comerciantes flavienses.

 

Gostaríamos de ver nos nossos comerciantes flavienses uma outra postura: mais dinâmica, interventiva, enfatize-se, uma vez mais, proactiva. Que tivessem em devida conta que o comércio, enquanto atividade predominantemente urbana, para além da sua função económica e funcional, comporta uma dimensão social e artística que pode desempenhar um papel chave no planeamento das cidades.

 

Vemos com enorme tristeza, neste fazer a cidade, o que, pela passividade de todos, deixamos construir, numa das entradas principais da nossa cidade, na dita Rotunda do Raio X.

 

Nada temos contra as grandes superfícies, ou suas afins. Gostaríamos que os nossos comerciantes tivessem envergadura económica e poder reivindicativo para evitar o atentado urbanístico que naquela Rotunda existe e persiste. Uma cidade que, a uma das suas principais entradas (ou saídas) apresenta dois grandes «mamarrachos», sem o mínimo de qualidade arquitetónica. Uma vergonha! E, mais uma vez, para um deles, o nosso meu culpa pelo descuido e, consequente, corresponsabilidade. Infelizmente, ao longo destes anos todos, pouco aprendemos com os erros que cometemos, quando o território urbano, tal como as pessoas, não pode ser subsumido a mera e pura mercadoria, ao gosto do mais comezinho mercado capitalista.

 

É também com enorme tristeza que vemos a passividade dos nossos comerciantes, em particular, e dos flavienses, em geral, em deixarem as nossas ruas serem palco de «hordas» que para aqui vêm na Feira dos Santos.

 

Não estamos contra o facto de todo e qualquer cidadão, com a atividade de feirante, venha a Chaves «cuidar» da sua vida. Ficamos tristes por vermos que, em vez de os recebermos, com organização e critério, somos, pelo contrário, «invadidos». Porque, ao longo dos anos não cuidámos de espaços dignos para exercerem a atividade comercial e de dispor de superfícies que, nesta quadra, pudesse também ser usufruída por quem aqui vem para ganhar a sua vida. Na verdade, não somos verdadeiros anfitriões!

 

A Feira dos Santos, tal como acontecia antigamente, já não é maioritariamente dos comerciantes flavienses que vendiam os seus produtos para o nosso mundo rural, flaviense, do Alto Tâmega e Barroso e Galego (transfronteiriço), na hora de estes venderem os seus produtos e aqueles lhes fornecerem os de que necessitavam para as novas colheitas. Esta é a génese da nossa Feira. Daqui vem a nossa tradição. Foi com estes intervenientes que a nossa cidade prosperou e cresceu, se foi construindo.

 

Que palavra hoje os nossos comerciantes têm? Efetivamente têm-na? Como a afirmam?

 

Porventura a cidade que temos apresenta alguma importância significativa como fator de desenvolvimento e atração?

 

Ora, está provado que um dos intervenientes/atores fundamentais do desenvolvimento das cidades está ligado ao desenvolvimento do comércio. Que nos diga o Porto da segunda metade do século XIX e da primeira do século XX!

 

É necessário e urgente que os comerciantes flavienses apareçam e deem a cara pela sua cidade! O seu planeamento, estruturação e ocupação dos diferentes espaços públicos é de todos os flavienses, entre os quais os comerciantes têm uma palavra importante a dizer. Sempre com eles!

 

É urgente que os nossos comerciantes entendam que há uma nova visão sobre o relacionamento entre o comércio e a cidade. A nova política das cidades deve ter uma nova perspetiva - olhar o papel que o comércio pode representar não só para os negócios mas, principalmente, para a coesão da cultura urbana e a qualificação do espaço público, que dá acesso e atratividade aos diferentes negócios.

 

Como alguém já dizia, o facto de vivermos atualmente numa aldeia global, levou a pensarmos as nossas cidades como «os nossos bairros». E, aqui, a cultura tem um papel preponderante na gestão das cidades. Ela está intimamente ligada à identidade e ao desenvolvimento dos territórios, às nossas raízes. Por isso, é importante sabermos rececionar o legado que os nossos antepassados nos deixaram, sabendo vivê-lo e transmiti-lo às gerações vindouras, preservando o património cultural, na sua forma tangível como intangível. E a Feira dos Santos deve ser assumida como tal, também.

 

Neste enquadramento, defendemos, na esteira de um nosso mestre (Santos Solla), que uma cidade, e nomeadamente a cidade de Chaves, não deve ser contruída para turistas, mas com turistas, encarando a atividade turística como uma atividade mais na cidade, ou seja, não de uma maneira mono funcional, senão poli funcional e multi funcional, evitando, assim, os riscos de uma economia urbana de excessiva dependência face ao turismo; defendemos também que, ao entendermos a arte pública como um conjunto de práticas que, sob o ponto de vista urbano, têm como missão «embelezar a cidade», que se deve aproximar a arte contemporânea dos cidadãos, - construindo uma imagem da cidade apelativa, atrativa, com nítidos proveitos também para os negócios -, mas mantendo viva a tradição da «comemoração» e do resgate da memória dos personagens, pessoas e lugares de uma cidade, que nós, desgraçadamente, tão pouco soubemos cuidar!

 

Para este desiderato, nada melhor do que o espaço «imaterial» do Museu de Arte Contemporânea Nadir Afonso, o arquiteto/pintor, para estabelecer pontes, concitar diálogos, transformando-o num centro de excelência de reflexão, também sobre a nossa cidade e o seu futuro. Com todos. E em especial com os flavienses seus principais usufruidores. Tendo como grandes atores/intervenientes os nossos comerciantes, porventura a necessitarem de uma maior sensibilização para esta nova tarefa.

 

Doutra forma o Museu de Arte Contemporânea Nadir Afonso, como obra e com obras materiais de valia, não passará de um simples «depósito de obras». Mas morto de vida. Porque não olha para a vida, para a cidade e para todas as outras formas de arte - quer as tradições populares, performances, outras «imersões» artísticas ou obras de arte propostas por artistas de vanguarda -, verdadeiramente enquadradas em todas as atividades ou eventos da cidade, como a Feira dos Santos, dando-lhe Vida.

 

Serão estas iniciativas que delimitarão e criarão uma espécie de inédita crença de herança cultural e estética na cidade, dinamizando-a em todas as suas vertentes, transformando, desta forma, o Museu de Arte Contemporânea Nadir Afonso verdadeiramente inserido no verdadeiro espaço urbano público flaviense, subjazendo à vida quotidiana dos seus cidadãos.

 

Deverá ser esta a sua verdadeira, útil e nobre função. Com dividendo para todos. Criando uma cidade viva e atrativa, dinâmica, não apenas para os negócios, mas para todos aqueles que, na pacatez de uma cidade média, podem usufruir de uma boa qualidade de vida, com diversidade cultural e boa convivência social.

 

Sem o desempenho deste papel fundamental, o Museu de Arte Contemporânea Nadir Afonso transformar-se-á numa enorme e pesada herança para os nossos vindouros.

 

 

António de Souza e Silva

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Sexta-feira, 7 de Outubro de 2016

Discursos sobre a cidade - Por António de Souza e Silva

SOUZA

 

CHAVES - COM COROA MAS SEM TRONO

 

Na véspera de mais um périplo fotográfico com os amigos do costume para o Barroso, acabámos de ler - o que desejávamos já tê-lo feito há mais tempo - a última obra do nosso saudoso escritor transmontano - Bento da Cruz.

 

Embora não estejamos totalmente de acordo com Bento da Cruz quando afirma «o Barroso é um Paraíso, o único ou um dos poucos que ainda existem à face da terra», estamos, contudo, com ele quanto ao fascínio que as terras barrosãs têm sobre qualquer «estrangeiro» curioso, quando visitadas e calcorreadas.

 

Mas, para conhecer o Barroso não basta apenas visitá-lo ou calcorreá-lo. Nem, tão pouco, fazer longas paragens, convivendo com os seus nativos, residentes. É necessário conhecer a sua história - a sua profunda história -, o ter sido intérprete e ator da vida dos seus muitos lugares. Em suma, é preciso ter a alma barrosã.

 

E foi aqui que Bento da Cruz, como grande escritor que foi, efetivamente se distinguiu.

 

Mais ninguém soube retratar o Barroso, nas suas diferentes paisagens - as naturais e as humanas, das suas gentes - do que ele. Na simplicidade e nudez das palavras do seu povo; na crueza e ardura das suas vidas; na frieza, solidão e agrura da sua terra.

 

Se obras como Hemoptise, Planalto em Chamas, Ao Longo da Fronteira, Filhas de Loth, Contos de Gosto Frio, O Lobo Guerrilheiro, O Planalto de Gosto Frio, Histórias da Vermelhinha, História de Lana-caprina, O Retábulo das Virgens Loucas, A Loba e a Lenda de Hivan e Bellkiss, constituem um conjunto de retábulos, desenhados com a mestria da palavra, e que nos apresentam, no seu conjunto, a límpida imagem, tão bem representada do país barrosão, na comemoração dos seus cinquenta anos de vida literária, ocorrida em 2009, Bento da Cruz deliciou-nos com mais um - «A Fárria».

 

Vale a pena citar as suas primeiras palavras, ínsitas no Preâmbulo desta obra: “Neste ano da graça de 2009, em que faço oitenta e quatro anos de idade e cinquenta de vida literária, duas coisas peço aos deuses. Mais algum tempo no reino dos vivos, entre os quais, apesar de tudo, me sinto bem, e lucidez suficiente para não publicar mais nada. Estou a ficar velho (...)”.

 

Pelos vistos, os deuses concederam-lhe a «graça» que lhes pediu: faleceu em agosto do ano passado com noventa anos e, na verdade, não publicou mais nenhuma obra. A Fárria foi a última.

 

Se bem que não seja, porventura, a sua magnum opus - na qual, na nossa modesta opinião, O Lobo Guerrilheiro se distingue -, nem por isso A Fárria é menos importante.

 

Em toda a trama de A Fárria já se pressente positivamente que a velhice e a presença da morte começava a cavar fundo na alma de Bento Cruz, dando-nos conta que estamos perante uma obra de «despedida», tal qual a do seu amigo e personagem Silvério Silvestre.

 

Mas a prosa continua lúcida, a palavra cristalina, com o enredo a prender-nos a uma leitura feita de uma só assentada.

 

Mas não foi para falarmos desta obra que pegámos na caneta para escrever este «discurso». Apenas serve de pano de fundo para as poucas linhas, melhor dizendo, perguntas, que vamos rabiscar. Porque, a certa altura da sua leitura, damo-nos connosco a perguntar: que importância Chaves, a dita capital do alto Tâmega e Barroso (embora agora, em certos «foruns», já lhe tenham cortado o Barroso) para as minas da Borralha e Salto, em especial, e Montalegre, em geral?

 

Chaves, nesta obra, aparece-nos aqui e ali circunstancialmente. Para os barrosões da década de 40 do século passado até hoje, os verdadeiros centros de atração das suas gentes eram as Terras de Basto, com Cabeceiras à cabeça, a cidade minhota de Braga e o litoral, representada pela Póvoa de Varzim. Está é uma realidade que o rigor dos números e a frieza da estatística nos apresentam.

 

Contudo, os flavienses, porventura alguns de «peito inchado», acham que a sua cidade é a capital do Alto Tâmega e Barroso.

 

Mas, perguntamo-nos: o que Chaves fez e tem feito para, como possuidor dessa coroa, merecer tal trono?

 

Que fizemos, ao longo dos anos, em termos de atratividade, para trazermos Montalegre para a órbitra flaviense?

 

Mutatis mutandis, perguntamos ainda: e o que se passa com os restantes concelhos que integram o Alto Tâmega e Barroso - Vila Pouca de Aguiar, Valpaços, Ribeira de Pena e Boticas?

 

Provavelmente, à exceção de Boticas, com uma dimensão, em termos de gentes, comparável a uma ou duas freguesias (rurais) das maiores de Chaves, para onde está virado Valpaços? Para Chaves ou Mirandela? E Vila Pouca de Aguiar? Para Chaves ou Vila Real? E Ribeira de Pena? Não estará mais no coração das Terras de Basto?

 

Administrativa e politicamente, estes seis concelhos, dizem os nossos políticos locais, constituem uma verdadeira unidade territorial, sólida e coesa.

 

Assente em que bases?

 

Na qualidade da rede viária que os une a Chaves, especificadamente na que a liga a Montalegre e Valpaços? Na economia atrativa e florescente que Chaves possui? Nas instituições culturais ou na programação cultural dinâmica que Chaves oferece com verdadeiro desígnio regional? Nos serviços desconcentrados da Administração Central que Chaves tem? Na sociedade civil flaviense forte, com visão estratégica e horizontes de vida e futuro para oferecer aos nossos jovens, já poucos, e que dia a dia se «esvaem» ou para o litoral ou para uma nova diáspora?

 

Para um simples e atento observador, cada concelho do Alto Tâmega e Barroso vai tratando da sua vidinha, como sabe e pode. Mesmo que cada um cuide de ter as mesmíssimas e mais diversas instalações públicas - não se cuidando da escassez dos recursos -, totalmente subaproveitadas, e com manutenções caríssimas, ou leve a cabo idênticos eventos, muitos deles sem verdadeiro impacto local, quanto mais regional ou nacional, na tentativa de dinamização das respetivas economias locais, não tirando nenhum deles - em particular a sua presuntiva rainha -, qualquer lição tirada da «parábolas dos vimes»!

 

Chaves, enfatize-se, tem a fama de ser a capital do Alto Tâmega e Barroso, ou seja, ter uma coroa, mas, na realidade, onde assenta o seu trono?

 

António de Souza e Silva

 

 

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