Sexta-feira, 1 de Dezembro de 2017

Discursos Sobre a Cidade

SOUZA

 

NOVAS POSTURAS E MENTALIDADES AUTÁRQUICAS PRECISAM-SE!

 

No nosso último Discurso, nesta rubrica, falando a propósito das ideias e princípios básicos que devem presidir aos processos políticos, a certa altura, dizíamos que uma das ideias prendia-se com o facto de que a “era” dos políticos e líderes providenciais tinha acabado e que a política e o desenvolvimento das sociedades, e seus respetivos territórios, não se fazia unicamente com personalidades individuais, por muito sábias ou carismáticas que fossem. Assenta nas instituições que se têm e na sua renovação.

 

Num outro Discurso, publicado o ano passado, também nesta rubrica, sob o título «Desenvolvimento do Alto Tâmega – As nossas Interrogações», a propósito dos pilares onde assenta o desenvolvimento local (territorial), apresentávamos o esquema que aqui, mais uma vez, recolocamos:

 

desenvolvimento.jpg

 

Fonte: Bramanti; (Retirado de Cerqueira)

Os processos de desenvolvimento territorial - Da base ao ponto de chegada

 

Não vamos falar dos quatro pilares em que assenta o desenvolvimento territorial; nem tão pouco nos dois eixos em que os mesmos se devem articular, aliás de importância fundamental para qualquer processo de desenvolvimento e, consequentemente, para a consecução e sucesso dos territórios e regiões ganhadoras, no plano do desenvolvimento.

 

Concentremo-nos hoje essencialmente naquilo que o autor do esquema chama de Densidade Institucional, a base essencial em que os quatro pilares assentam, falando particularmente na sua articulação com o conceito de governância (ou governança).

 

O conceito de governança surgiu a partir das reflexões conduzidas principalmente pelo Banco Mundial. “tendo em vista aprofundar o conhecimento das condições que garantem um Estado eficiente”.  A capacidade governativa não seria avaliada apenas pelos resultados das políticas, mas também pela forma como o poder é exercido.

 

Com base neste conceito de governança, duas questões merecem aqui destaque. A primeira, é a ideia de que uma boa governança é um requisito fundamental para um desenvolvimento sustentado, que incorpora não só crescimento económico como também equidade social e direitos humanos; a segunda, tem a ver com a questão dos procedimentos e práticas de «governo» na prossecução das suas metas, adquirindo aqui relevância aspetos como o formato institucional do processo decisório, a articulação público-privado na formulação de políticas ou, ainda, a abertura maior ou menor para a participação de todos os setores da sociedade.

 

O município de Chaves está integrado nas NUTS III – Alto Tâmega – um acrónimo de “Nomenclatura das Unidades Territoriais para fins estatísticos, sistema hierárquico de divisão do território em regiões”.

 

Com base nesta divisão estatística, e neste sistema hierárquico de divisão do território, para efeitos de desenvolvimento do Alto Tâmega (e Barroso), apesar de até já haver uma Associação de Municípios do Alto Tâmega (AMAT), canalizando melhor os diferentes fundos, particularmente os Comunitários, como alias por todo o país aconteceu, até se criou uma outra estrutura – no caso vertente para o Alto Tâmega – a Comunidade Intermunicipal (CIM).

 

A CIM do Alto Tâmega até mandou elaborar uma «Estratégia Integrada de Desenvolvimento Territorial – Alto Tâmega».

 

Consultámos o website da CIM – Alto Tâmega.

 

Dos seus órgãos, constam:

  • Assembleia Intermunicipal. De 2013 a 2017, apenas existe uma ata – a da Eleição da Mesa;
  • Conselho Intermunicipal, a mesma coisa;
  • Secretariado Executivo, liderado por um ex-Presidente de Câmara, começou a sua atividade em 2014. Desde 2014 até à presente data, este Secretariado Executivo efetuou 93 reuniões. Numa visão muito sumária destas 93 reuniões, outra coisa não se fala senão em “Pontos da situação”; “Criação de Website”; “Logotipo”; “Preparação de Informações a prestar”; “Assuntos de Interesse”; “Planos de Atividade e Orçamento”…

Conselho Estratégico para o Desenvolvimento Intermunicipal do Alto Tâmega. Tratando-se de um órgão consultivo, eis o conjunto das entidades que o compõem:

  • ACISAT
  • ADRAT
  • AECORGO
  • AGRUPAMENTO DE ESCOLAS DE RIBEIRA DE PENA
  • AGRUPAMENTO DE ESCOLAS DE VALPAÇOS
  • AGRUPAMENTO DE ESCOLAS DE VILA POUCA DE AGUIAR
  • AGRUPAMENTO DE ESCOLAS DR. ANTÓNIO GRANJO
  • AGRUPAMENTO DE ESCOLAS DR. BENTO DA CRUZ
  • AGRUPAMENTO DE ESCOLAS DR. JÚLIO MARTINS
  • AGRUPAMENTO DE ESCOLAS FERNÃO DE MAGALHÃES
  • AGRUPAMENTO DE ESCOLAS GOMES MONTEIRO
  • AGRUPAMENTOS DE CENTROS DE SAÚDE DO ALTO TÂMEGA E BARROSO
  • ASSEMBLEIA MUNICIPAL DE BOTICAS
  • ASSEMBLEIA MUNICIPAL DE CHAVES
  • ASSEMBLEIA MUNICIPAL DE MONTALEGRE
  • ASSEMBLEIA MUNICIPAL DE RIBEIRA DE PENA
  • ASSEMBLEIA MUNICIPAL DE VALPAÇOS
  • ASSEMBLEIA MUNICIPAL DE VILA POUCA DE AGUIAR
  • AUTORIDADE NACIONAL DE PROTEÇÃO CIVIL- CDOS – VILA REAL
  • CÂMARA MUNICIPAL DE BOTICAS
  • CÂMARA MUNICIPAL DE CHAVES
  • CAMARA MUNICIPAL DE MONTALEGRE
  • CÂMARA MUNICIPAL DE RIBEIRA DE PENA
  • CÂMARA MUNICIPAL DE VALPAÇOS
  • CÂMARA MUNICIPAL DE VILA POUCA DE AGUIAR
  • CAPOLIB
  • CENTRO DE EMPREGO E FORMAÇÃO PROFISSIONAL DO ALTO TÂMEGA
  • CENTRO DISTRITAL DE SOLIDARIEDADE E SEGURANÇA SOCIAL DE VILA REAL
  • COMISSÃO DE COORDENAÇÃO E DESENVOLVIMENTO REGIONAL DO NORTE
  • COOPBARROSO
  • COOPERATIVA AGRICOLA DE VILA POUCA DE AGUIAR
  • DESTACAMENTO TERRITORIAL DE CHAVES DA GNR
  • DIREÇÃO REGIONAL DE AGRICULTURA E PESCAS DO NORTE
  • DIREÇÃO REGIONAL DE CULTURA DO NORTE
  • ESCOLA PROFISSIONAL DE CHAVES
  • ESCOLA SUPERIOR DE ENFERMAGEM DR. JOSÉ TIMÓTEO MONTALVÃO
  • GRUPO UNICER
  • INSTITUTO POLITÉCNICO DE BRAGANÇA
  • IPSS -SANTA CASA DA MISERICÓRDIA DE VILA POUCA DE AGUIAR
  • MAIS BOTICAS- ASSOCIAÇÃO EMPRESARIAL BOTIQUENSE
  • PSP DIVISÃO POLICIAL DE CHAVES
  • REGIMENTO DE INFANTARIA Nº 19
  • REPRESENTANTE DO SECTOR ECONÓMICO DO MUNICÍPIO DE CHAVES
  • REPRESENTANTE DO SECTOR ECONÓMICO DO MUNICÍPIO DE MONTALEGRE
  • REPRESENTANTE DO SECTOR ECONÓMICO DO MUNICÍPIO DE RIBEIRA DE PENA
  • REPRESENTANTE DO SECTOR ECONÓMICO DO MUNICÍPIO DE VALPAÇOS
  • REPRESENTANTE DO SECTOR SOCIAL DO MUNICÍPIO DE CHAVES
  • REPRESENTANTE DO SECTOR SOCIAL DO MUNICÍPIO DE MONTALEGRE
  • REPRESENTANTE DO SECTOR SOCIAL DO MUNICÍPIO DE RIBEIRA DE PENA
  • REPRESENTANTE DO SECTOR SOCIAL DO MUNICÍPIO DE VALPAÇOS
  • SANTA CASA DA MISERICÓRDIA DE BOTICAS
  • SOLVERDE
  • TURISMO DO PORTO E NORTE DE PORTUGAL
  • UNIVERSIDADE DE TRÁS-OS-MONTES E ALTO DOURO.

Este Conselho nunca reuniu, que se saiba.

 

Se a «Estratégia Integrada de Desenvolvimento Territorial – Alto Tâmega» era um Documento fundamental sobre o qual os diferentes órgãos da CIM - AT se deveriam preocupar e debruçar, consultando o seu website, e analisando as atas dos diferentes órgãos, como demos conta, só nos apetece exclamar: Uma Vergonha!

 

O que foi feito das diferentes propostas e ações do dito Documento «Estratégia Integrada»?

 

Que estratégia de comunicação a CIM – AT tem para com todas as instituições e munícipes do Alto Tâmega (e Barroso)?

 

Não brinquem connosco!!!

 

Onde é que pára um dos “slogans” da ACISAT, consubstanciado numa das suas ações/palestras - «Pouca gente, muita terra, grandes projetos»?

 

Como se pode atrair investimentos se o maior recurso/investimento, que são as gentes do Alto Tâmega e Barroso, estão arredadas não apenas do processo decisório como fundamentalmente daquilo que se passa (e do que se pretende) para e no Alto Tâmega e Barroso?

 

Num outro Discurso nosso, sob a designação «Onde pára a Comunidade Intermunicipal do Alto Tâmega (e Barroso)», observávamos que o Documento «Estratégia Integrada» apontava para a abordagem de uma estratégia integrada de desenvolvimento que privilegiava um processo abrangente e participado, envolvendo ativamente os atores do território, procurando um impacto positivo na região.

 

Tudo não passou de palavras. Que ficaram mortas nas folhas do Documento «Estratégia Integrada».

 

Por estas paragens, a “estratégia” parece-nos ser outra.

 

Para que aquelas palavras fossem arrancadas aquele Documento e tivessem vida, era necessária uma nova postura, de profundo e profícuo diálogo entre as diferentes instituições que atuam no território do Alto Tâmega (e Barroso). Batendo muita “pedra”, concitando o diálogo, chegando a acordos.

 

Que é o mesmo que dizer que a estratégia de desenvolvimento para o Alto Tâmega e Barroso não só depende da capacidade dos atores, mas fundamentalmente das instituições das quais eles são simples representantes, em ordem a uma efetiva participação nas tarefas do desenvolvimento territorial. A isto se chama Densidade Institucional.

 

O que no Alto Tâmega e Barroso presenciamos no passado, fundamentalmente dos seus atores principais na estratégia de desenvolvimento integrado, tendo em conta cada município, não é outra coisa senão comportamentos autocentrados, como se hoje em dia fosse possível viver numa verdadeira autarcia, que, infelizmente, o nosso sistema político-eleitoral propicia!

 

Senhores repetentes Alberto Machado, Amílcar Almeida, Fernando Queiroga, Orlando Alves, e recém-chegados, Nuno Vaz e João Noronha, respetivamente Presidentes de Câmara dos Municípios de Vila Pouca de Aguiar, Valpaços, Boticas, Montalegre, Chaves e Ribeira de Pena, - principais responsáveis pelo motor do desenvolvimento local, que são as vossas instituições -, se continuarmos com esta postura institucional, o Alto Tâmega e Barroso, e concretamente o nosso Município de Chaves, não vai a lado nenhum!

 

Não é só de novas caras que o Alto Tâmega e Barroso precisa é, essencialmente, de outras e novas mentalidades.

 

Se não as renovarmos não chegaremos a lado nenhum!...

António de Souza e Silva

 

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 00:00
link do post | comentar | favorito
|  O que é?
Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017

Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos

GIL

 

Pior a emenda que o soneto

 

No Planalto do Brunheiro, monte sobranceiro à veiga de Chaves, nada medra que não seja centeio e batata. Terra verdadeiramente fria, é varrida pelos ventos gelados que se entalam entre o Larouco e a Padrela. Mesmo o pinheiro bravo tem dificuldade em crescer naquelas terras onde Deus parece nunca ter passado. De arvoredo, só o carvalho negral e o castanheiro encontram guarida, emprestando um verde triste à paisagem.

 

Pelos Santos semeava-se o centeio que havia de se ceifar no estio. Por março, a batata que se arrancava em setembro. A atividade agrícola resumia-se quase exclusivamente a isto, não sei se por falta absoluta de condições para outras riquezas se por inflexibilidade cultural para outras oportunidades. Sei é que quase toda a vida se organizava em função do ritmo destes parcos haveres. Um tempo confrangedor mais próximo da Idade Média do que do Porto!

 

À volta do Carregal, na pujança da primavera, a paisagem desenhava-se no verde viçoso das searas centeias e na cor térrea do solo lavrado, onde irrompiam as primeiras folhitas das canibeques. Mesmo a passarada, por estas paragens, adiava quanto podia o impulso da procriação, aguardando que os carvalhos se vestissem da folhagem necessária para rebuçar os ninhos, o que só acontecia por finais de abril. Andar aos ninhos, por esse tempo, ou aos níscaros por outubro, eram os passatempos preferidos da rapaziada.

 

1600-casa-candeias (316)

 

A ganapada, que frequentava a escola de Adães, a cerca de três quilómetros que se venciam a pé, no regresso das lições do Mestre Matos, não perdia a oportunidade de procurar uns ninhos de gaio, de melro ou de rola. O Nano, o Gripino, o Taleta, o Marcelino, o Adérito, o Tone Fisgas e eu próprio, competíamos na busca daquelas preciosidades, guardando o segredo o mais que podíamos.

 

Em Adães morava o Ti Temporão, padrinho do Tone. Este visitava-o uma única vez no ano, nas vésperas do seu aniversário. Fazia-o porque sabia que, invariavelmente, lhe cairia uma moedita de cinco paus. Não falhava! Neste ano, vá-se lá saber porquê, em vez dos cinco marréis da praxe, choveram sete e quinhentos. Uma fortuna para o tempo. Porém, o Zé Paranhos, pai do Tone, sabendo da franqueza do compadre, extorquia o metal ao miúdo para torrar em vinho na taberna do Antero.

 

Naquela ocasião, no regresso da escola e na confusão da brincadeira, o Tone nunca mais se lembrou do tesouro que transportava na algibeira. Pelo caminho, passando no Belão, havia uma enorme leira de centeio do Ti Moreiras. Numa borda da seara, um enorme castanheiro dava guarida, todos os anos, a um casal de gaios que aí plantava um repimpado ninho. Quase sempre os gaios desaninhavam sem que a rapaziada lhes chegasse. Isso andava a fazer uma confusão danada ao brio passareiro dos mais afoitos.

 

Ora, nessa manhã, o Nano afirmou a pés juntos que vira o gaio com o cibo no bico a ir para o castanheiro. Por isso determinou que tinham de topar o ninho!

 

O castanheiro era frondoso, imenso, e para encontrar o dito cujo, foi preciso pisar todo o centeio à sua volta. Foi até necessário que alguns se rebolassem pelo chão para verem melhor por entre a folhagem densa. Deu-se com o ninho, mas o pior foi o que aconteceu depois

 

1600-carregal (3)

 

O centeio, à volta do castanheiro, ficou assobalhado de forma irrecuperável e os sete e quinhentos sumiram do bolso do Tone. Procurámos, voltámos a procurar, e das moedas de caravela nem o rasto!

 

A solução foi cortar o centeio para ver se apareciam. Ceifou-se, mas nada!

 

Em frente da leira morava a Tia Maria Simoa que, fazendo jus ao seu estatuto de cusca, apreciou toda a obra.

 

Quando o Ti Moreiras deu com o estrago e se pôs em campo, logo a Tia Maria lhe segredou o nome dos autores. O Ti Moreiras foi ter com o pai do Tone Fisgas e, confrontando-o com a realidade exigiu o pagamento dos estragos. Foi acordada a importância de quinze escudos e com desconto, uma vez que o neto do Ti Moreiras também estava envolvido!

 

Coitado do Zé Paranhos! Nesse ano não só perdeu o direito ao presente de aniversário do rebento, como ainda teve de desembolsar o que não tinha para pagar as traquinices do pimpolho!

 

Em vez de matar a sede na tasca do Antero afagou-a num estadulho da acarreta que estendeu pelo lombo do Tone.

 

Claro que não lhe daria o mesmo gozo do tintol da tasca do Antero! ao Tone muito menos, pois passou uma semana de molho!

 

Coisas da vida!

Gil Santos

 

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 00:00
link do post | comentar | favorito
|  O que é?
Sexta-feira, 3 de Novembro de 2017

Discursos Sobre a Cidade

SOUZA

 

A POLÍTICA AUTÁRQUICA E O DESENVOLVIMENTO FAZ-SE COM TODOS

 

Em termos autárquicos, e aqui pelo nosso burgo flaviense, acabou-se um ciclo político de se estar na política e fazer política. Pelo menos assim pensamos que tenha acontecido.

 

É um novo elenco, oriundo de uma outra família política, que atualmente ocupa as cadeiras do poder na nossa cidade e no nosso concelho – o PS.

 

Fazemos parte dessa família política. Mas, de acordo com uma nossa decisão já antiga, apenas demos a cara pela candidatura do PS, aparecendo numa ou noutra manifestação de rua, na campanha. Já cumprimos o nosso dever cívico. Foram 30 anos: 20 na oposição e 10 no poder! Bem ou mal – foi como pudemos e soubemos -, trabalhámos de uma forma honesta e empenhada. Mas não nos cansamos de repetir que a passagem dos homens pela política é uma atividade efémera, transitória.

 

Nestes últimos tempos, e nesta mesma rubrica, delineámos algumas ideias e princípios básicos que devem presidir aos processos políticos. Três ideias chave quisemos transmitir.

 

A primeira, mais do que a competência (que cada político individualmente deve ter) e a racionalidade das posições, propostas e decisões políticas, a emoção, o sentimento e os afetos devem sempre estar presentes (sem demagogia!). Já o nosso grande cientista António Damásio, na sua primeira obra «O erro de Descartes», afirma que foram os afetos e as emoções que levaram ao aparecimento do homo sapiens.

 

A segunda ideia prende-se com uma constatação histórica. Hoje, mais do que nunca, a era dos políticos e líderes providenciais acabou! Não há líderes providenciais. A política e o desenvolvimento das sociedades não se faz unicamente com personalidades individuais, por muito sábias ou carismáticas que sejam. Assenta nas instituições que se têm e na sua renovação.

 

A terceira ideia consiste na chamada de atenção que, numa sociedade tão globalizada, heterónima e heterárquica, tão diversa, e com tantas diferenças, independentemente das ideias e dos valores pelos quais cada um, ou em grupo, individualmente se bate, deve imperar o princípio, sempre, do bom senso, que implica a construção do diálogo e da partilha de opiniões, em ordem à construção de acordos.

 

Só entendemos a democracia no exato exercício desta postura. Sem ela, tudo o mais não passa de pura impostura!

 

É neste entendimento e nesta atitude que, esperamos, o trabalho dos nossos eleitos se desenvolva.

 

Não concordámos com a legislação que, desde há muitos anos, rege a vida e as instituições autárquicas; não concordamos com o enorme espartilho da gestão do nosso pequeno território em tantas autarquias, levando a que os nossos autarcas se transformem nos novos “caciques” do século XXI; não acreditamos que as mudanças de que o nosso território, e as suas gentes, precisam tenham como protagonistas principais, ou quase exclusivos, os senhores presidentes de câmara; acreditamos que a política e o desenvolvimento do nosso país faz-se com todos, com novas mentalidades, novo modelo de desenvolvimento, enfim, com novas posturas!

 

Por isso, aqui deixamos aos nossos leitores uma pequena reflexão de um politólogo (Daniel Innerarity), que tanto admiramos, quando nos fala do excesso de personalização da política. Passemos a citar:

A outra fonte de alheamento em relação aos processos de aprendizagem coletivos é a excessiva personalização da política. A relação entre processos e pessoas, instituições e indivíduos, já deu muitas voltas na história das nossas democracias. Oscilámos entre a tese de Marx, segundo a qual são as massas quem faz a história, e a contrária, segundo a qual é aos grandes líderes que devemos as principais transformações políticas. O século XX das patologias do carisma político (…). Finalmente, parece ter-se estabelecido um personalismo banal que substitui o forte perfil ideológico pela inflexão pessoal, que chama a atenção para os traços pessoais do líder como explicação da sua capacidade de sedução política.

 

Numa democracia de perceção, a competição política articula-se nas pessoas que incarnam ou simbolizam os projetos rivais. Daí a importância, seguramente excessiva, que atribuímos à eleição dos líderes ou à sua demissão, deixando para segundo plano tudo o resto. Passamos tanto tempo a lamentar-nos porque os políticos não se demitem quando deveriam que, no momento em que o fazem, desencadeiam-se umas expetativas exageradas, como se a mudança de pessoas produzisse efeitos mágicos nas organizações e na política em geral.

 

 

As instituições conhecem e exercitam diversas estratégias para mudar tudo de maneira a conseguir que nada mude. Uma das mais recorrentes consiste em substituir pessoas, como se os problemas tivessem sempre a sua causa numa incompetência pessoal e a sua solução dependesse da renovação daqueles que se encarregam delas [Que palavras tão certeiras, dado o momento por que passamos!]. Sendo a renovação de pessoas imprescindível em muitas ocasiões, a verdade é que nem todos os problemas políticos são causados pela permanência das pessoas nos cargos nem se deve esperar da sua saída todas as soluções para tudo. A renovação pode ser aparente ou tática; pode supor, inclusive, uma deterioração, pois qualquer mudança está ameaçada por essa possibilidade. Do mesmo modo, também a substituição geracional não constitui uma mudança de ideias e estilos; por vezes, o sucessor é uma versão mais bisonha do mesmo, com menos experiência e, portanto, mais propenso para a arrogância [E como nós, por cá, tivemos tão bom exemplo!].

 

Tratando-se de assuntos políticos, o argumento que coloca todo o peso na substituição de uma pessoa por outra tende a perder de vista o fundo do problema. As mudanças de fundo só podem ser levadas a cabo de maneira eficaz através de um longo processo de mudança nas organizações. As modificações políticas com algum alcance são sempre modificações institucionais, no estilo, no diagnóstico, na competência e nas regras do jogo que ficam plasmadas num modo generalizado de atuar [sublinhado nosso]. Aquilo que a política exige hoje é menos uma substituição de pessoal que uma mudança de mentalidade que se traduza em procedimentos institucionais mais de acordo com a nova realidade das nossas sociedades. O movimento de pessoas não assegura novidade alguma quando as atitudes de fundo se mantêm; os substitutos acabam por ficar prisioneiros das mesmas rotinas porque os costumes costumam ser mais poderosos que as boas intenções. (…) O que precisamos (…) [é ] de inovações políticas, algo que tem mais que ver com a configuração de um sistema político inteligente do que com um suposto governo dos melhores”.

 

Sistema político inteligente esse que conte mais com o exercício e a participação (tendencialmente generalizada) de todos os indivíduos, entendidos como cidadãos, empenhados na construção da sua polis, e de todas as instituições.

 

Sinceramente, muito gostaríamos que os nossos políticos – quer principalmente os que estão nas cadeiras do poder, quer os da oposição – e todos nós, (ou individualmente falando, ou integrados nas diferentes instituições da sociedade civil) tivéssemos em devida conta estas palavras e esta ponderada reflexão.

 

António de Souza e Silva

 

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 01:27
link do post | comentar | favorito
|  O que é?
Sexta-feira, 27 de Outubro de 2017

Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos

GIL

 

NA TASCA DO RAMADA

 

Almerindo Preguiceiro era um vagabundo!

 

Nem sabia nem queria fazer nada. Passava os dias a derringar polaina de tasca em tasca, amanhando conversas de ocasião com os parceiros copofónicos ou a tainar com outros da sua igualha.

 

O bandalho nasceu com o rabo virado para a lua, como soi dizer-se. Foi plantado nas poulas do Toucedo pelo sotaina da aldeia e apesar de não o ter perfilhado, nunca lhe negou sustento para o fazer homem. Contudo, saiu-lhe a porca mal capada. O rapaz cresceu bem estrumado e bem regado, medrou, mas descambou e deu vadio. Sua mãe, uma cabaneira pobre, pasto de muitos por necessidade, não tinha dúvidas quanto à paternidade do rebento e, com propriedade, lá sabia porquê!

 

De calças de peitilho e alças, rachadas no rabo, aprendeu temperano os prazeres do non far niente e passava os dias na gandulice. Da escola retirou pouco proveito uma vez que eram mais os dias em que se baldava, roubando castanhas ou indo aos ninhos, do que aqueles em que sentava o traseiro nas velhas carteiras do mestre Matos. Ainda assim, aprendeu a juntar algumas letras, a assinar o nome e a fazer meia dúzia de contas, sobretudo de somar e de multiplicar.

 

Gargalhote, assentou praça no dezanove e aí refinou as manhas de viver à pala dos outros. Incólume a castigos mais duros, passou à peluda quase virgem. Regressou ao ninho materno ainda mais salafrário do que o havia abandonado.

 

Prestes cogitou botar casa. Carecia, para isso, de parceira que lhe aprouvesse. Havia de ser asadinha, trabalhadeira, boa parideira e com mão para a cozinha. Contudo, sendo bem conhecido pelas moças das redondezas, as mais ajeitadinhas e com dois dedos de testa fugiam-lhe como o diabo da cruz. Apesar de bem-parecido, aquela veneta de detestar o trabalho fazia com que chaldrasse somente a quem não queria. Por isso teve de topar parceira em aldeia longínqua onde ninguém lhe conhecesse o sestro.

 

Após fuçar alguns meses pelos mais recônditos lugarejos, acabou por catrapiscar a Tchica Sarilheira, também ela originária de cabaneira pobre. Todavia, a moça era dotada de algumas das qualidades que lhe convinham. Era trabalhadeira e uma aturada dona de casa, no entanto tinha um defeito de fabrico que a privara de melhor partido, nasceu com uma gâmbia mais curta e manquitava um cibo. Nada com que o sacripanta não pudesse bem.

 

A boda, suportada pelo padrinho, abade da freguesia, foi de arromba. Uma vitela no espeto, meia pipa de vinho do de Cova do Ladrão e uma fornada de pão, para que todos enchessem as bentas à conta do casório do Almerindo. Mal eles sabiam que afinal quem pagava a boda era a côngrua a que por serem católicos apostólicos romanos estavam sujeitos!...

 

A vida a dois corria bem, tanto assim que passado nove meses a terra festejava já o primeiro rebento do casal.

 

Todavia, aquele vício da calaçaria estava a encher de sofrimento a Sarilheira. Era por demais! O Preguiceiro, à ajuda, em chaldrando-lhe o patrão, ainda ia bolindo nem que fosse somente meio-dia. De tarde descansava na massadoura do prado. De resto para si não fazia nada, esperando que a mesa se compusesse com o que a desgraçada da mulher ganhava nas magras e raras jeiras que pudesse alcançar. Fome, a bem dizer, não passaria pois a mulher era diligente e paciente ao ponto de conseguir que não lhe faltasse o caldo. Agora mimos, só mesmo os das tainadas com os amigos, o mais das vezes na tasca do Ramada. Queimava, nestas andanças, os míseros tostões que pudesse juntar. E não lhe perdoava, pelo menos uma vez por mês tinha tainada e bebedeira certa.

 

Quando o peixeiro passava pelo lugar com sardinha, quase sempre recessa, a Tchica lá fazia um esforço por botar meia dúzia para o marido, no entanto tinha de lhas estripar muito bem que o biqueiro não as comia com tripas e muito menos fritas. Tinham de ser assadas na brasa e bem regadas com azeite e vinho dos mortos.

 

Ora um dia, ali pelo São João, quando o povo diz que a sardinha pinga no pão, o Ramada encomendou uma canastra delas para uma sardinhada servida ao final da tarde de um sábado, para meia dúzia de comensais dos da igualha do Preguiceiro.

 

Enquanto comiam e bebiam à tripa-forra a Tchica Sarilheira calhou de passar no caminho, de regresso da sacha de uma leira de batatas que o Sr. Prior lhe havia encomendado. Quando se apercebeu do festim, parou debaixo de um caramanchão fronteiro que a rebuçava e pôs-se à escuta dos dezeres do marido.

 

― Ó Niceto, bota aí mais uma sardinhita, que elas estão bem boas!

 

― Tu és um lambão Almerindo, comes mais do que nós todos. Pudera, não lhe comes as tripas, mamas só os lombinhos, por isso, enquanto nós comemos uma, tu lerpas três… Fosca-se, só comes mais alguma se for com as tripas!

 

Para não ficar mal,

 

Bota cá mas é a sardinha que essa vai com tripas e tudo.

 

A Tchica acabara de ouvir o que faltava para lhe tirar a biqueirice.

 

Que esperasse!

 

Passado oito dias o sardinheiro voltou e a Sarilheira comprou meia dúzia delas. Preparou-as para assar mas de uma forma especial. Num almofariz esmigalhou muito bem algumas malaguetas bravas que faziam bufar o mais pintado! Misturou-lhe um pouco de azeite e encafuou a mistela na tripa das sardinhas que tocavam ao parceiro. Salgou-as e estavam prontas para a brasa.

 

Almerindo chegou para a janta, alapou-se no escano e reparou que as sardinhas assavam no braseiro com as tripas, tal como ele não gostava.

 

Reclamou.

 

― Olha lá ó estojo, num te disse já que não gosto de sardinhas com tripa! Parece que és burra!...

 

― Ó meu querido maridinho, aqui é como na tasca do Bento Ramada, comes e calas!...

 

Ele ligou os fios e percebeu a deixa!

 

Calou moreta e esperou que as sardinhas lhe caíssem no prato.

 

A muito custo lá as foi roendo.

 

Quando chegava à parte da barriga torcia-se todo.

 

Ele suava, ele bebia, ele botava a língua de fora, bufava, contudo, para não dar parte de fraco, calava-se como um rato!

 

Dali por diante deixou de ser biqueiro e fosse o que fosse que lhe caísse no prato morria! Todavia, das sardinhas nunca mais quis ouvir sequer falar!

 

Abençoada Thica!

 

E isto é o que se sabe!

 

Quantas outras biqueirices não lhe teria curado aquele pobre anjo, na intimidade das paredes de pedra solta do casebre em que viviam?

 

Uma coisa perecia certa, à medida que os anos passavam, Almerindo arrepiava caminho e se pudesse viver cem anos, haveria de ser um homem exemplar tal como seu pai que só cobrava batismos e funerais a quem se olvidasse de lhe untar as barbas pelos sarrabulhos!

 

Gil Santos

 

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 01:48
link do post | comentar | favorito
|  O que é?
Sexta-feira, 6 de Outubro de 2017

Discursos sobre a cidade - Por António de Souza e Silva

SOUZA

 


O PRIMADO DA POLÍTICA

- DO DESPERTAR AOS “NOVOS” ACORDAR -


 
No rescaldo das Eleições Autárquicas 2017, em especial para os novos protagonistas que no espaço do Município de Chaves vão desempenhar funções autárquicas, e tendo como pano de fundo a “crise” que se vive no estado espanhol, ao nosso lado, concretamente na Catalunha, gostaríamos de deixar aqui algumas palavras, fruto de uma reflexão já feita, em 12 de outubro de 2012, num Congresso Internacional de Animação Sociocultural.

 

O mundo em que vivemos está a pedir que o reinterpretemos.

 

Exige-nos que contemplemos a política de uma forma não convencional. Que abramos os olhos para uma realidade muito mais complexa.


 
Neste mundo, que parece mais complexo e incompreensível que os anteriores, compreender é um bem escasso.

 

Noutras épocas, interpretar a realidade era uma perda de tempo, uma distração das exigências da praxis. Agora é um modo de atuar sobre a realidade, uma verdadeira e ingente atividade humana.


 
A sociedade multicultural, como é aquela em que vivemos, facilitada pelos novos media que o Homem criou, não sobressai pela sua unidade, outrossim pela sua dispersão.
 
Encontramo-nos hoje precisamente perante um esgotamento da hierarquia como princípio ordenador das sociedades. Em que política deve passar da hierarquia para a heterarquia; da autoridade direta para a conexão comunicativa; da posição central para a composição policêntrica; da heteronomia para a autonomia, da regulação unilateral para a implicação policontextual.
 
Sociedade esta que terá de estar em condições de gerar o saber necessário – de ideias, instrumentos, procedimentos – para moderar a sociedade do conhecimento que opera de maneira reticular e transnacional.
 
A tarefa fundamental da política e do estado na sociedade do conhecimento pós-capitalista e pós-territorial é a coordenação e mediação dos sistemas sociais tão complexos, experientes e dinâmicos que excluem um comando estatal autoritário.
 
As tarefas do estado modificaram-se decisivamente numa sociedade que não permite um governo direto, centralizado, hierárquico e autoritário, mas contextual, heterárquico e discursivo.
 
Temos, pois, de modificar em profundidade o nosso modo de conceber a política.

 

Se a teoria clássica da política se preocupou com a ordem, a estabilidade, a integração e a planificação, hoje é mais necessário e urgente interessar-se pelo inverosímil, pelas diferenças e pelos processos dinâmicos. A política deve aprender a dar-se bem com um futuro que já não é objeto de adivinhação nem algo planificável, mas uma coisa fundamentalmente incerta que, apesar disso, temos de antecipar.
 
Vivemos num mundo sem épica ou, pelo menos, no qual as narrativas épicas perderam plausibilidade e capacidade de mobilizar.

 

A política agora situou-se no espaço humano, demasiado humano, sem sublimidade, sem verticalidade, no qual nada está absolutamente protegido da crítica, da erosão do tempo ou da crescente complexidade social.
 
Não estamos perante a necessidade de reideologizar a política, mas de configurar projetos e decisões com base no reconhecimento de que dispomos de um saber limitado e falível.

Se as ideologias fechadas pretendiam certezas absolutas, o nosso desafio hoje consiste em estabelecer programas pós-ideológicos que sejam, ao mesmo tempo, normativos e conscientes da sua própria contingência.
 
“O único consenso que tem alguma possibilidade de êxito é o reconhecimento da heterogeneidade dos desacordos”, dizia-nos o falecido Z. Bauman, o teorizador da sociedade líquida.
A pretensão de transformar a política em responsável pela obtenção de um consenso geral que supere as distinções ideológicas e sistémicas já não é sustentável em sociedades policontextuais, que não se articulam de maneira centralista ou hierárquica.
 
Da política não se deve esperar nem a solução definitiva de todos os problemas nem a salvação das nossas almas, mas algo de muito mais modesto, mas não menos decisivo do que o que proporcionam outras profissões muito honradas.
 
Na transição de uma sociedade heroica para uma que já o não é, torna-se necessário elaborar uma nova cultura política que ensine tanto a apreciar a política como a não lhe pedir o que ela não pode garantir.
 
Contudo, apesar de nunca ter estado tão limitada na sua margem de atuação, a política também nunca foi tão decisiva como hoje.
  
As sociedades modernas, que já não adquirem o seu conhecimento do futuro por meio de interpretação dos sonhos nem atuam vicariamente na figura de uma pessoa em que confluem visão e poder, têm de adquirir o conhecimento e atuarem coletivamente por meios dos correspondentes processos de investigação e deliberação coletiva. Como sociedades abertas, estão condenadas à aprendizagem coletiva. Não podem confiar que as coisas sejam resolvidas por outros ou aconteçam sem que se fazer nada.
 
Entre as coisas que já não são o que eram salienta-se a ideia de um progresso linear, necessário, irreversível e contínuo, baseado na certeza de que nada é insuperável nem nada há que possa resistir à vontade de transformação.

O esgotamento desta ideia moderna de progresso é uma característica fundamental do nosso tempo.
 
Uma vez que se deu este esvaziamento da ideia de progresso, que tipo de futuro produzimos na nossa sociedade? Quais são as consequências políticas da crise da ideia de progresso?

A política não é atualmente movida por projetos que suscitem a esperança coletiva nem por antevisões do futuro especialmente prometedoras. Não é por acaso que o desencanto em relação à política coincide com o momento em que o futuro se converteu numa categoria problemática.
 
Há atualmente um profundo pessimismo a respeito da capacidade humana de configurar seja o que for, e muito menos por meio da política. O novo fatalismo reflete o desvanecimento da esperança política despertada pelas utopias liberais e socialistas, herdeiras de grandes narrativas progressistas, que vêm das Luzes.
 
Esta perda de energia antecipatória manifesta-se no facto de que as nossas democracias carecem de projetos utópicos, de missões ou conceções de justiça, de horizontes globais. Os grandes visionários foram substituídos por políticos que gerem as inevitáveis constrições do presente. E onde melhor se revela esta redução de esperança é no facto de a política se mobilizar mais pela rejeição do que pelo projeto, mais pela desconfiança do que pela adesão.

 

E foi nisto que a Europas se tornou, levando à prolongada crise pela qual passamos, persistindo em viver e gerir as diferentes sociedades que a integram com fórmulas do passado, de todo ultrapassadas, não atendendo efetivamente à nova sociedade, global e da informação, em que vivemos. Apesar dos grandes ”crânios” que nos governam. “Crânios” que outra coisas não são, e como muito bem se diz, tecnocratas, que pouco têm de políticos!
 
Todavia, a crise de uma determinada conceção do progresso não deveria implicar a crise do progresso como tal.
 
 
O que hoje faz falta são projetos elaborados com base numa imaginação do futuro desejável, embora esse futuro não possa já ser projetado com uma necessidade mecânica e tenha de ser mais imprevisível e controverso.
 
Em vez de se proclamar que «outro mundo é possível», mais vale imaginar outras maneiras de conceber e atuar sobre este mundo. Devemos, pois, ser mais modestos.
 
Temos, pois, de mudar este estado de coisas. Com visão e paixão. Porque a política sem visão perde-se na azáfama quotidiana e acabamos por chegar onde realmente não queríamos.

 

Mas, se lhe faltar paixão, a política mostra-se incapaz de fazer frente à fatal resistência aos factos, fatalmente acomodando-se, sem chegar aonde se tinha proposto.

 

O que hoje está a acontecer na Catalunha é, manifestamente, a falta de visão e paixão do futuro que a Europa e a Espanha, como Estado fortemente centralizador, tiveram e têm.

 

Por manifesta falta de diálogo. Por verdadeira incapacidade de saberem gerar acordos numa sociedade em mudança profunda, respeitando as diferenças e as diversas identidades.
 
Atendendo à magnitude dos problemas com que somos confrontados e que exigem uma ação coletiva, nunca o primado da política foi tão necessário. Se não pudermos resolver esses problemas por meio da política, não poderemos resolvê-los de nenhuma maneira.
 
O futuro já não é construído lutando contra os que defendem o passado, mas sim também contra os que parecem ser pelo futuro mas que o defendem mal.
 
Devemos pugnar por uma política de otimismo e de esperança num tempo em que a confiança na configurabilidade do futuro se encontra debilitada.

 

Na esteira de Daniel Innerarity, “do que necessitamos é de uma política que faça do futuro a sua tarefa fundamental, uma política empenhada em impedir que a ação se transforme em reação sem significado e que o projeto se degrade no idealismo utópico”.
 
É a ausência de projeto que nos submete à tirania do presente. O movimento contemporâneo, a incessante adaptação à mudança que nos é exigida, é vivido segundo uma lógica da sobrevivência, não da esperança. À força de se explicar que «as grandes narrativas» morreram, o lugar delas foi ocupado pela defesa dos «direitos adquiridos».

 

O vazio deixado pela imaginação do futuro foi preenchido pela preocupação do instante. E onde não se prepara o futuro a política limita-se a gerir o presente.

 

E o resultado, pelos acontecimentos que nos entram pela porta dentro através do media, estão bem à vista!

 

É na prevenção de choques e dissabores futuros que deixo aqui aos novos detentores do poder autárquico e responsáveis pelas decisões quanto ao futuro do nosso Município as palavras com que acabávamos o nosso discurso do mês passado, em período eleitoral:

 

“Qualquer sonho político só é realizável em colaboração com os outros que também querem [e devem] participar na sua definição. Os pactos e as alianças põem em evidência a necessidade mútua de uns e de outros. O poder deve ser sempre uma realidade partilhada. E a convivência democrática deve proporcionar muitas possibilidades, embora imponha também muitas limitações.

 

A ação política implica, assim, sempre transigir, acordar. Desta feita, quem abordar todos os problemas como uma questão de princípio. Quem utilizar constantemente a linguagem dos princípios, do irrenunciável e do combate está condenado à frustração e ao autoritarismo.

 

Aqueles que forem incapazes de entender a plausibilidade dos argumentos da outra parte não conseguirão pensar, e muito menos atuar, politicamente.

 

É esta a postura, de diálogo, pactos, consensos e acordos sobre o futuro de Chaves, numa sociedade tão complexa e de rumo tão incerto e de fortes constrangimentos [a que a autarquia está sujeita], que se espera desta candidatura do PS (…)”

 

Que, com esta vitória, as nossas esperanças não sejam desfraldadas!


António de Souza e Silva

 

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 00:22
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito
|  O que é?
Sexta-feira, 1 de Setembro de 2017

Discursos sobre a cidade - Por António de Souza e Silva

SOUZA

 

 

DA (IN)COMPETÊNCIA ATUAL A UM NOVO ACORDAR

 

Já falta menos de um mês para as Eleições Autárquicas.

 

Trazemos, por isso, aqui a esta rubrica, o nosso modesto contributo sobre a política e o nosso estado de alma quanto ao posicionamento que temos quanto aos dois principais contentores, no quadro das eleições para o Município de Chaves.

 

Fomos, no passado, responsável por setores da política autárquica flaviense. Apesar de alguns erros cometidos - que sempre os há em quem tem a obrigação de decidir - orgulhamo-nos de ter contribuído para o desenvolvimento do nosso concelho.

 

Há vinte anos que deixámos a vida político-partidária ativa. Por opção pessoal, depois de termos passado vinte anos na oposição e dez no poder. Achámos, naquela altura, que devíamos passar o testemunho a outros, face a uma atividade, quando tomada a sério, tão responsável e fatigante. E porque sempre entendemos que a atividade político-partidária é passageira, efémera e, quando nos órgãos, desempenhando funções públicas, cumprimos um dever cívico como cidadãos que somos, numa sociedade democrática.

 

Apesar de sermos militante do Partido Socialista, nada nos inibe, como cidadão e flaviense, ter opinião e sermos, às vezes, crítico quanto às políticas que o Município levou, e leva, a cabo, independentemente de quem está no poder. Na verdade, antes de sermos militante de um partido, somos, em primeira mão, cidadão português e flaviense.

 

Temos consciência de, em vinte anos, que muita coisa mudou. Principalmente na forma como os cidadãos se posicionam quanto à política e à atividade dos seus agentes.

 

É discorrendo sobre tudo isto que, auxiliado por um autor que tanto apreciamos no que escreve (Daniel Innerarity), aqui fica o nosso Discurso deste mês.

 

I

 

Vivemos em tempos de descontentamento. Descontentamento também, e principalmente, com a política. Boa parte desse descontentamento com a política tem a ver com o contraste entre aquilo que se quer e aquilo que se pode. Quando comprovamos a quantidade de fracassos dos governos, costumamos cometer o erro de pensar que se devem à sua incompetência - e apenas a ela - sem nos apercebermos ao mesmo tempo de que eles se devem, em grande medida, a certas expetativas que alimentámos em relação à política e que esta já não pode satisfazer.

 

É preciso atendermos que o Estado (central e periférico), como forma heroica da história envelheceu. Como garante do bem comum está sobrecarregado. Como benfeitor da sociedade carece de recursos. Como centro de governo já não se vê perante uma periferia mas perante um exército de outros centros.

 

O descontentamento com a política é, assim, compatível com o facto de se lhe exigir mais do que aquilo que alguma vez se esperou dela. Mas, não tenhamos dúvidas, nos tempos por que passamos, de extrema complexidade social: - não podemos exigir políticos providenciais com políticas e soluções salvadoras e que governar é uma operação que se realiza com certezas escassas, que exige uma delimitação rigorosa do possível, no meio de uma autoridade contestada e com recursos escassos.

 

O mal do nosso sistema político é que caiu na armadilha da omnipotência sugerida pelos meios de comunicação social, entretanto convertida na regra da competência entre os agentes políticos que se acusam mutuamente de não terem feito o suficiente.

 

Daí a nossa chamada de atenção para os partidos com vocação de governo: prometer o que não podem cumprir é tão letal como dar a impressão de que não fariam as coisas de forma diferente da que os seus rivais fazem.

 

Muita gente não acredita na política. Por sua vez, nunca ela foi tão necessária como hoje em dia. Daí a nossa pergunta: existirá ainda, apesar de tudo, alguma possibilidade de politizar, de fazer política, algo que tem sempre a ver com a diferença e a alternativa? A nosso ver, há três grandes oportunidades para o debate ideológico nas quais faz sentido levar a cabo uma certa repolitização das nossas sociedades, como seja:

 

  • Dar uma maior importância às qualidades pessoais dos representantes, ou seja, personalização da liderança, em que a confiança, a credibilidade, a honestidade ou a competência são o que marca a diferença, e não os discursos ideológicos abstratos, bem assim as questões de estilo e qualidade democrática - transparência, participação, responsabilidade.
  • Entender a complexidade e a transformação dos novos conflitos, ou seja, estar atento à transformação de conflitos novos.
  • Aceitar as nossas limitações quando se trata de controlar os resultados económicos, identificar as possibilidades que se nos oferecem num espaço economicamente condicionado, que costumam ser mais do que aquelas que estamos acostumados a reconhecer, ou seja, viver com novas possibilidades no contexto de políticas económicas fortemente condicionadas e ter em atenção que já não são só as questões do socioeconómico, mas também o cultural e o identitário, com os estilos de vida, a igualdade de direitos e as liberdades pessoais, a que a política deve estar atenta. O conflito converteu-se em algo multidimensional. É preciso dar atenção e expressão a novas reivindicações, a certos movimentos sociais, onde se expressam novas exigências e novas opções políticas. As limitações e os condicionamentos fazem parte da vida política.

 

Infelizmente, hoje a política é o âmbito social que mais impressão dá de paralisação. Deixou de ser uma instância de configuração da mudança para passar a ser um lugar em que se administra a estagnação.

 

A política disciplinou sempre os nossos sonhos, corporizou-os numa lógica política e traduziu-os em programas de ação.

 

Mas tudo mudou...

 

II

 

Olhemos para os principais cartazes dos dois grandes opositores, candidatos à presidência do executivo flaviense. Será que nos dizem alguma coisa?

 

Imagem 01.jpg

 

Naturalmente que somos todos flavienses. E somos todos por Chaves. Que queremos cada vez mais uma Chaves nova, renovada. Mas... de que verdade nos falam? Que trabalho nos apresentam? Competência ao serviço de quê e de quem?

 

Onde está escrita a frase ou o slogan que nos galvanize para a construção de um outro futuro, do nosso porvir?

Estamos perante um Programa plausível? Com agentes políticos que compreendam as profundas alterações no modo de fazer política na sociedade hodierna, que criámos, ou, pelo contrário, continuamos arreigados aos mesmos princípios, métodos e estratégias do passado, dos mesmos clichés?...

 

Definitivamente, a avaliar pelo cartaz, embora tecnicamente bem elaborado, tudo o resto nos deixa indiferentes, céticos, perplexos, sem qualquer linha de rumo que se vislumbre e suscite alguma alteração. É uma continuidade mesclada, ainda por cima, com trânsfugas e pseudoindependentes...

 

Imagem 02.jpg

 

Debrucemo-nos agora sobre o cartaz do PS.

 

Independentemente da cor, a sugerir que a campanha eleitoral é um campo de batalha, que, de todo não nos cativa, gostamos, contudo, do slogan escolhido - Acordar Chaves.

 

Se é bem verdade que a política já não mobiliza as paixões mais do que de maneira epidérmica, isso não quer dizer que as reivindicações que dirigimos à política tenham desaparecido. Muito pelo contrário. Os mesmos que se desinteressam soberanamente pela política esperam dela, constantemente, muitas vantagens e não são menos vigilantes face ao incumprimento das suas exigências.

 

Por isso, o slogan Acordar Chaves, funciona como um apelo, no sentido de nos despertar para a realidade que nos cerca, tornando-nos mais empenhados, alertados, para uma nova postura de construção do nosso futuro.

 

O grande desafio das atuais sociedades democráticas é não deixar tranquilos os seus representantes - aos quais deve vigiar, criticar e, se for caso disso, substituir - sem destruir o espaço público nem o despolitizar.

 

Mas a palavra Acordar deve aqui ser entendida num sentido polissémico.

 

Expliquemos o nosso ponto de vista.

 

Qualquer sonho político só é realizável em colaboração com os outros que também querem participar na sua definição. Os pactos e as alianças põem em evidência a necessidade mútua de uns e de outros. O poder deve ser sempre uma realidade partilhada. E a convivência democrática deve  proporcionar muitas possibilidades embora imponha também muitas limitações. A ação política implica, assim, sempre transigir, acordar. Desta feita, quem abordar todos os problemas como uma questão de princípio; quem utilizar constantemente a linguagem dos princípios, do irrenunciável e do combate está condenado à frustração e ao autoritarismo.

 

Aqueles que forem incapazes de entender a plausibilidade dos argumentos da outra parte não conseguirão pensar, e muito menos atuar, politicamente.

 

É esta a postura, de diálogo, pactos, consensos e acordos sobre o futuro de Chaves, numa sociedade tão complexa e de rumo tão incerto e de fortes constrangimentos, que se espera desta candidatura do PS e que, estamos certos, terá coragem, usando a verdade, com trabalho e competência suscitar um novo porvir para Chaves.

 

 

A sociedade - e particularmente neste  momento que passamos de campanha eleitoral - não é só estruturada pelo direito e pela política, mas também pelos sentimentos e pelas convicções.

 

Esperamos, sinceramente, que esta candidatura toque no coração das pessoas.

 

A democracia configura-se desde sempre como um sistema de confiança limitada e revogável.

 

A mudança é possível e desejável.

 

Não é verdade que as pessoas tenham deixado de se interessar pela política. Vivemos numa sociedade em que se disseminou um sentimento de que todos têm competência para a política; o nosso nível de escolaridade aumentou e todos nos sentimos capazes de avaliar assuntos públicos, de maneira que toleramos pior que nos queiram retirar essa capacidade.

 

Mas devemos atentar ao que deixamos escrito acima!

 

O que cabe nas urnas são as nossas aspirações; o que vem depois - se é que não queremos converter o nosso sonho num pesadelo para os outros - é o jogo democrático que limita e frusta, não raro, os nossos desejos, mas que também os enriquece com as contribuições dos outros. Se alguém conseguisse satisfazer todas as suas aspirações não partilharia da nossa condição humana e muito muito menos da nossa condição política.

 

É com este entendimento, e enquadrado dentro deste espírito, que estamos certo que Nuno Vaz prosseguirá, que nesta hora, mais que nunca, vamos votar no PS.

 

Nas horas decisivas, é necessário estar lá. Nós estaremos, com certeza!

 

 

António de Souza e Silva

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 01:15
link do post | comentar | favorito
|  O que é?
Sexta-feira, 25 de Agosto de 2017

Discursos sobre a cidade - Por Gil Santos

GIL

 

Introito

 

Como diz o ditado “o prometido é devido”.

 

Assim, por falta de tempo e de melhor tema, aproveita-se para este “discurso” um segundo texto da obra de Fernando António Almeida, intitulada “Estórias de Portugal” editado pela Âncora em 2001.

 

A páginas 57 e seguintes, fala-nos dos sete filhos de Maria Mantela.

 

Uma estória comovente que apesar de conhecida vale sempre a pena reler, porque respeita a estórias da nossa terra.

 

CHAVES

 

OS SETE IRMÃOS

(Maria Mantela)

 

O rosto de Maria Mantela ficou de súbito fito. Parado. Toda ela se imobilizou. Petrificada. O rosto inexpressivo. Estático. Como se já não fosse deste mundo. Olhava, é certo, ainda os sete meninos que pasmavam de vê-la. Mas ela já os não via. Olhava um ponto vazio. De resto, todos os presentes se tinham calado, os olhos abertos de espanto. Nunca ninguém vira, em nenhuma das idades do mundo, sete meninos tão iguais...

 

(Eu não sei se o leitor vai acreditar. Eu próprio não sei se prefiro acreditar que este episódio não passa duma daquelas lendas tecidas ao longo dos séculos, em que se vão acumulando pormenores, a que se vão acrescentando detalhes, de que vão surgindo variantes. Então começam, aqui e ali, a proliferar versões diferentes. Os contextos cambiam. Há personagens que se esvaem, outras que ganham corpo. A certa altura o fio comum de que saíram duas versões da mesma estória torna-se irreconhecível. Por isso me vou limitar a repetir a estória de Maria Mantela, tal como ma contou uma imaginativa jovem, viajante ocasional, a quem, contrariando o que tenho por cauto costume, acedi dar lugar no meu carro, num dia de Agosto, de sol intenso, entre Chaves e Vila Real.)

 

«Eu conheci Maria Mantela, Mari Mantela como lhe chamavam. Era uma fidalga orgulhosa que habitava um velho paço enfarruscado nas cercanias de Chaves, à beira dum lugarejo sem nome. Uma daquelas mulheres que, ciente do seu poder junto de criados e dos lavradores pobres seus vizinhos, mostrava continuadamente, na fala e no olhar, no porte e no mais comedido dos gestos, ser a senhora absoluta do minúsculo território que ela tomava por reino.

 

Uma das características de Maria Mantela (já não recordo o seu verdadeiro nome de família, um nome pesado de que ela tanto se orgulhava) era o que hoje designaríamos por puritanismo farisaico. Extremamente exigente para com aqueles que, de algum modo, dependiam dela, não perdia a ocasião de se fazer ver como pedagoga e reformadora dessa tropa de labregos manhosos e maltrapilhos, os súbditos que lhe tinham caído em sorte e que ela profundamente desprezava.

 

Presunçosa, imaginava-se possuída duma sabedoria que ultrapassava os limites das verdades correntes. Impunha conceitos. Ditava normas de conduta que, fora daquele mísero e rústico contexto, não haveriam de provocar nos destinatários mais que o riso e a chacota. Pois bem. Foi numa destas ocasiões em que sobranceria e tolice se aliaram, como em tantas outras vezes, que se iria iniciar o percurso de desgraça de Maria Mantela.

 

A estória sucedeu mais ou menos assim. Estando um dia ambos, ela e o marido, tomando o fresco no balcão de sua casa, eis se aproxima uma mulher, ainda jovem e bonita, com dois filhos ao colo, enroupados num xaile já arruçado. A olhá-la, era para ambos uma desconhecida (ainda que mais tarde a tenham tomado por uma mensageira da ira divina). Lamurienta, mecanicamente lamurienta, num discurso quase encantatório, lamenta-se a pobre viandante da desgraça com que Deus quis prová-la – e ao seu homem e à miséria de sua casa –, fazendo-lhe nascer aqueles dois filhinhos de um só parto. Comove-se, enternece-se com a vista o marido, fulgura-lhe fugidio desejo, lampeja-lhe uma fugacíssima inveja, ele que esperava em vão, havia anos, um só descendente que fosse que lhe prolongasse através das idades o modesto apelido dos Gralhos a que pertencia. A esmola dum gesto de consolo, o arremesso de uma moeda velha, foi bastante para fazer elevar a voz aguda e o corpo esguio de Maria Mantela. «Mulher que concebe duas vezes e pare só uma é porque ajuntou no seu corpo a semente de dois homens!» (Na sequência desta frase, que ela pretendeu solene e pomposa, Maria Mantela parece ter também invectivado a jovem e pobre mãe já noutro registo, utilizando uma linguagem rasteira, palavras que me dispenso de transcrever quando aqui apenas se pretende narrar, para serviço do leitor, uma estória amena, exótica e de bom exemplo.)

 

Entretanto, movendo influências, bajulando primos e parentes (diria Maria Mantela com soberba e algum desprezo por ele, que não fora os seus próximos e seu marido jamais teria alcançado aquele modesto posto de escrivão em terras da India...), peitando gente no Terreiro do Paço, lançava-se Fernão Gralho burocraticamente na aventura oriental. Era tempo. Havia que robustecer o parco património dos Gralhos. É que, pouco após o encontro havido com a jovem mãe pedinte, começaram a tornar-se evidentes os sinais de que o antigo desejo de Fernão Gralho, a sua mais profunda aspiração, iria concretizar-se. Maria Mantela prometia ser mãe.

 

Finalmente provido no cargo, regressa Fernão Gralho de Lisboa para ultimar os preparativos da grande viagem. Por cálculos que mais tarde se fizeram, devia estar o escrivão designado a fazer a travessia do rio Douro quando se deu aquele espantoso nascimento de sete crianças, saídas dum mesmo ventre, o ventre de Maria Mantela. No entanto, a notícia de tal evento só a conheceria o felicíssimo progenitor nas dramáticas circunstâncias que em seguida se relatam.

 

Depois de ter atravessado a ponte romana, resistira Gralho, por qualquer impulso ignoto, à tentação de se dar a conhecer em Chaves na sua qualidade de funcionário do império, não obstante o orgulho que sentia na sua nova condição. Prosseguiu, pois, sem se deter, pelo velho caminho que seguia ao longo do Tâmega. Já avistara as casas palhoças do lugarelho vizinho de seu paço, já entretanto se escondera a negrejada torre detrás dos altos carvalhos, quando de súbito lhe surge pela frente a velha escrava Irene.

 

Não fora o velo de tristeza que o rosto da negra Irene não conseguira ocultar e Fernão Gralho ter-se-ia limitado a receber com alegria a feliz notícia que lhe dava a escrava: Maria Mantela tinha parido uma criança macho antes que terminara de soar a meia-noite da véspera. Reparando então nas duas grandes cestas que a negra carregava, perguntou-lhe seu amo que levava nelas. Respondeu-lhe Irene que uns cachorrinhos que ia deitar a afogar ao Tâmega por mandado de sua senhora.

 

Desconfiou o amo de tal recado, que os olhos de Irene a denunciavam. Ao abrir as cestas deparou-se Fernão Gralho com seis recém-nascidos. Sucumbindo ao peso da sua falsa filosofia, Maria Mantela guardara apenas o primeiro dos meninos que vira a luz. Aos outros dera-lhes o destino dos cachorrinhos rejeitados, deitando-os a afogar. Com rogos e ameaças impôs Fernão Gralho o silêncio à escrava a quem mandou regressar à sua Casa da Torre. Buscou então o pai seis amas naqueles perdidos lugarejos já da parte da Galiza a quem, sob segredo, entregou cada um dos meninos.

 

Dispostas as coisas, tomou caminho do paço. Uma vez em casa, Fernão Gralho deu grandes mostras de alegria diante do nascimento do filho, não deixando que Maria Mantela tivesse a mínima suspeita do que entretanto acontecera. As grandes festas que durante sete dias se fizeram naquela casa serviram igualmente ao festejado pai para despedir-se de familiares, amigos e vizinhos. Era entrado Abril e avizinhava-se a hora do embarque.

 

(Do que passou Fernão Gralho na travessia do golfão, dos perigos constantes com que se cruzou, nada conto ao leitor. Tão-pouco faço fé nas heroicas tropelias cometidas pelo nosso Gralho naqueles Orientes tal que mas narrou a minha ocasional companheira de viagem. Reputo-as de invenção pura, pelo que passo adiante.)

 

Passados seis longos anos, armado com alguns meios de fortuna, regressou Fernão Gralho à terra-mãe. Dilatou-se por um tempo na corte, fazendo valer em vão uns papéis amachucados que o davam por merecedor do reconhecimento pátrio. Enfastiou-se de vénias: ia-lhe minguando o cabedal. A hora, aliás, aproximava-se. Regressou ao seu Trás-os-Montes, mas precatou-se, apesar da pretidão que se lhe havia pegado ao rosto durante a sua estada nas partes orientais. Incógnito, tomou boleto em Verín.

 

De conivência com a preta Irene, sem qualquer aviso, apresentou-se no seu paço lugarenho. Maria Mantela festejava o sétimo aniversário de seu filho Simão. A luz frouxa das candeias alumiava sombria, o negrume dessa noite de 24 de Agosto. A escrava Irene, já tinha ido acordar o menino, prepará-lo para o introduzir no salão onde se reuniam as duas escassas dezenas de convidados seleccionados entre os que mais se prezavam de fumos de fidalguia. Dava a primeira badalada da meia-noite. Um a um, solenemente, todos vestidos por igual, envergando cabaias de seda vermelhas, começaram a dar entrada no salão do paço os sete filhos de Maria Mantela e de Fernão Gralho.»

 

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 01:44
link do post | comentar | favorito
|  O que é?
Sexta-feira, 4 de Agosto de 2017

Discursos sobre a cidade - Por António de Souza e Silva

SOUZA

 

 

POLÍTICA, AUTENTICIDADE E AMIZADE

 

No final dos anos noventa do século passado, o nosso saudoso amigo genebrino oferecia-nos um livro que, na altura, e numa leitura um pouco diagonal entretanto feita, achámos verdadeiramente importante, digno de uma leitura mais atenta. Entretanto, como acontece a muitos livros que compramos, muitas vezes acabam por ficar esquecidos num canto das prateleiras dos livros da casa.

 

Foi o que aconteceu com «Geopolítica do caos», de Ignacio Ramonet, editor do Le Monde Diplomatique, a principal publicação de política internacional dos finais dos anos 90, que catalisou, na opinião de Emir Sader “as visões críticas e alternativas à nova Ordem (…)” desde o derrube do Muro de Berlim e à instauração daquilo a que se passou a chamar a Pax Americana.

 

Em tempo de férias, procura-se, nos cantos esquecidos das estantes, os livros que um dia decidimos que haveríamos de ler com mais atenção. Com a sua leitura, e através deles, tentamos compreender melhor os tempos que passamos.

 

Desta vez, não hesitámos em trazer connosco e ler atentamente a «Geopolítica do caos», de Ramonet.

 

Para além das muitas realidades e diagnósticos que nos apresenta (que hoje, mais que nunca, estão certeiros), perante um mundo e uma sociedade cheia de perplexidades, propõe-nos desafios que, urje, devemos enfrentar.

 

Ramonet, a determinada altura, diz: “Neste contexto de deceções e incertezas em que hoje vivemos, dois novos paradigmas estruturam a nossa maneira de pensar: o primeiro é – comunicação. Esta tendência está a substituir, pouco a pouco, a função de um dos principais paradigmas dos dois últimos séculos: o progresso. Da escola à empresa, da família à justiça e ao governo, em todos os campos e para todas as instituições, eis, daqui em diante, a única palavra de ordem: é necessário comunicar. O outro paradigma é o mercado. Que substitui o da máquina, do relógio, da organização, cujos mecanismos e funcionamento garantiam a evolução de um sistema. À metáfora mecânica, herdada do século XVIII (uma sociedade é um «relógio social» e cada indivíduo exerce uma função útil para o bom funcionamento do conjunto) sucede a metáfora económica e financeira. Daqui em diante tudo deve ser regulado segundo os critérios de «Sua Majestade» o mercado, panaceia última”.

E continua Ramonet: “ na primeira fila dos novos valores: os lucros, os benefícios, a rentabilidade, a concorrência, a competitividade”.

 

As “leis” do mercado tomam o lugar das leis da mecânica (que rege a vida dos astros, do cosmos e da natureza) como explicação geral de movimentos das sociedades.

 

Com efeito, estes dois paradigmas – comunicação e mercado – constituem os pilares sobre os quais repousa o sistema do mundo contemporâneo no seio do qual se desenvolvem, com grande intensidade, as atividades que, como explica Ramonet, possuem quatro atributos principais: planetário, permanente, imediato e imaterial.

 

O modelo central é constituído pelos mercados financeiros que impõem como ciência de referência já não as ciências naturais, a mecânica newtoniana ou a química orgânica, “mas o cálculo de probabilidades, a teoria dos jogos, a teoria do caos, a lógica imprecisa e as ciências do vivente”.

 

Os melhores, ditos especialistas, estimavam que, graças à desregulação, à abolição do controlo do câmbio, à globalização financeira e à mundialização do comércio, a expansão seria perpétua.

 

O enriquecimento fácil foi encorajado e aparecem os novos-ricos aventureiros, alguns deles detentores de mega empresas. A especulação financeira foi encorajada e assistiu-se à apoteose dos golden boys. Ou seja, no âmago do sistema: o dinheiro. E com ele o fenómeno da corrupção, a todos os níveis.

 

Entretanto, incertezas e desordem tornam-se parâmetros fortes para medir a nova harmonia de um mundo em que a pobreza, o analfabetismo, a violência e as doenças não cessam de progredir. Um mundo em que menos de 1/5 dos mais ricos da população dispõem de mais de 80% dos recursos, enquanto mais de 1/5 dos mais pobre dispõe apenas de 0,5%... Um mundo, enfim, em que o montante das transações nos mercados monetários e financeiros representa cerca de cinquenta vezes mais o valor das trocas comerciais internacionais… Um mundo em que, dizendo-se viver, na sua imensa maioria, em regime democrático, se travam intermináveis batalhas eleitorais para conquistar democraticamente o poder, sem muitos destes atores se aperceber que o poder mudou de lugar!... E, mostrando, nessas batalhas, o espetáculo de uma total impotência para mudar seja o que for!...

 

Seres constrangidos a negarem-se constantemente, pois o verdadeiro poder está fora do seu real alcance: está em alhures. Por isso não espanta que surjam expressões, que a muitos escandaliza, mas que exprimem efetivamente a verdadeira realidade – figuras de palhaços na senda política quotidiana… Sem deixarmos de por de fora a hipótese de, infelizmente, alguns desses atores, serem cúmplices de uma farsa da qual só eles são os únicos beneficiários! Exemplos? Para quê? Todos os dias eles nos entram pelos olhos e ouvidos através da toda poderosa comunicação social que, na ânsia do lucro, nos conta, e explora, somente a parte que é útil à sua sobrevivência, em termos de concorrência e mercado, controlado pelos grandes magnates do poder económico e financeiro, cujo paradeiro e nomes mal sabemos onde estão!...

 

Enfim, estamos perante o avanço e a vitória do pensamento único, da pretensão universal dos interesses de um conjunto de forças económicas, em particular, as do capital financeiro internacional. Princípio de tal forma contundente que um marxista distraído não chegaria a nega-lo: o económico leva a melhor sobre o político.

 

A Europa inventou o Estado Providência. Como em nenhuma outra parte do mundo, os cidadãos dos países que constituem a União Europeia beneficiam de uma pensão de velhice, de um seguro-doença, de ajudas à família, de um fundo de desemprego, assim como de prerrogativas de direito do trabalho. Este arsenal de garantias socioeconómicas, conquistadas pelo movimento operário, constitui o âmago da civilização europeia moderna. No fundo, é isso que distingue a União Europeia de outras áreas geopolíticas e, principalmente, de seus concorrentes económicos americanos e japoneses.

 

A lógica da globalização/mundialização e do livre comércio planetário impele a alinhar os salários e a proteção social pelos valores, muito inferiores, praticados nos países concorrentes da região Ásia-Pacífico. E é, na nossa ótica, em nome da eficácia económica, e correndo o risco de quebrar a coesão nacional, que os governos europeus, neste início de século, estão fazendo, ou seja, desconstruindo o edifício social que tanto custou a construir. Porque, afinal, se o dinheiro dos contribuintes não fosse retirado pelos detentores do poder do Estado para ostentarem as suas estranhas, irracionais e megalómanas ambições de permanência do poder e das suas cliques partidárias; se soubessem, com competência, eficácia e eficiência, gerir tal como o faz um «bonus pater famílias», não chegaríamos a este ponto!

 

A performance económica entra em contradição com a cultura e a democracia que, segundo parece, esqueceu a advertência feita, já em 1938, pelo escritor Raymond Queneau: “o objetivo de qualquer transformação social é a felicidade dos indivíduos e não a realização de leis económicas inelutáveis” (negrito nosso).

 

Com a crise económica sobrevém também a cultural, assistindo-se à sua própria agonia. Ao ponto de Edgar Morin afirmar que “estamos entrando numa época em que as certezas se desmoronam. O mundo encontra-se numa fase particularmente incerta porque as grandes bifurcações históricas não foram identificadas, não se sabe para onde se vai!”. O futuro apresenta-se-nos bastante incerto, por que tudo está alterado. Por que estamos na hora de questionar certezas, rever práticas, compreender os novos parâmetros dos tempos presentes.

 

Já, na altura em que Ramonet escreveu «Geopolítica do caos» se dizia: “as sociedades europeias continuam a navegar na modernidade, sem objetivo bem definido e sem uma nítida representação do seu devir”.

Urje, pois, - porque não se pode dispensar – uma reflexão a longo prazo e em profundidade. Será uma loucura, diz aquele autor, se não se fizer. Porque saímos de um universo de determinismo simples e entrámos num mundo que, dia a dia, mais se complexifica e no qual a incerteza, a estratégia e a inovação aparecem fortemente associados. Porque, compreender, é o desafio fundamental. Porque a crise por que passamos é também a nossa incapacidade mental, intelectual, conceitual para, inclusive, medirmos a sua própria dimensão.

 

A sociedade europeia encontra-se não só sem crescimento mas, mais ainda, sem projeto! E, assim, despojados dos indispensáveis pontos de referência culturais e desidentificados, os cidadãos enfrentam a crise atual na pior das condições mentais. E chegamos a tal ponto – porque sem horizontes de referência – que são raros os intelectuais que percebem e concebem o nascimento de novos horizontes coletivos. George Steiner disse: “os meus alunos de outrora tinham todas as janelas abertas para a esperança: era Mao, Allende ou Dubcek, ou o sionismo. Existia sempre um espaço onde alguém lutava para que o mundo viesse a modificar-se. Presentemente, não existe nada disso”.

 

Em contrapartida, a promessa da felicidade na escola, na família, na empresa ou do Estado é formulada pela comunicação toda poderosa. Daí a proliferação, sem limites, dos instrumentos de comunicação, dos quais a internet é o coroamento total, global e triunfal. Quanto mais comunicamos, dizem-nos, mais harmoniosa será a nossa sociedade e maior será a nossa felicidade. A nova ideologia do tudo-comunicação, este imperialismo comunicacional, exerce sobre os cidadãos, desde algum tempo, uma autêntica opressão, subliminar, mas profunda. Durante muito tempo a comunicação foi libertadora porque significava, desde a invenção da escrita e da imprensa, a difusão do saber, das leis e das luzes da razão contra as superstições e os obscurantismos de toda a espécie. Hoje em dia, impondo-se como obrigação absoluta, inundando todos os aspetos da vida social, política, económica e cultural, não passa de uma tirania, que, segundo ainda Ramonet, virá a tornar-se, provavelmente, “a grande superstição do nosso tempo”. Para além disso, a sociedade cede as rédeas ao mercado. Este, tal qual um líquido ou um gás, infiltra-se, penetra em todos os interstícios da atividade humana, convertendo-as à sua lógica. Inclusive, determinados campos que, durante muito tempo, estiveram à margem do mercado, como a cultura, o desporto, a religião, a morte, o amor, etc., estão sendo inteiramente invadidos pela lógica da mercantilização generalizada, da oferta e da procura.

 

Todas as mudanças que estes dois paradigmas – comunicação e mercado – provocaram, desestabilizaram fortemente, de uma forma rápida e formidável, os dirigentes políticos. Estes, na sua grande maioria, sentem-se superados por uma cascata de reviravoltas que modificam as regras do jogo e os deixam, no mínimo, parcialmente, impotentes. E não é por isso que deixam de reclamar, alto e em bom som, uma «modernização» e uma «adaptação» aos novos tempos.

 

Por sua vez, inúmeros cidadãos têm a impressão de que os verdadeiros senhores do mundo não são aqueles que têm as aparências do poder político e de que, praticamente, a totalidade dos Chefes de Estado está superada pelos acontecimentos e não parece estar à altura de enfrentar uma crise – aliás, muitos não chegam sequer a identificar os contornos da mesma.

 

***

 

Perante este quadro que acabámos de pintar, com a ajuda de Ignacio Ramonet, ficámos a refletir, por uns minutos, sobre tudo isto, interrogando-nos: e os presuntivos dirigentes políticos que estão na calha para, no próximo dia 1 de outubro, se apresentarem a sufrágio para conduzirem os destinos do nosso município, estarão eles (as) à altura do desafio que os momentos por que passamos exigem?

 

Há muito que vimos criticando este modelo autárquico, defendendo quais os requisitos que reputamos essenciais para que tal desiderato tenha um mínimo de sucesso.

 

Mas, no essencial, no nosso país, muito pouco muda!

 

***

 

Falemos agora dos nossos “problemas” mais caseiros.

 

Surgiu, há 4 (quatro) anos, em Chaves, um Movimento – MAI (Movimento Autárquico Independente). Confessávamos, na altura, que não gostávamos do nome. E explicávamos que quando se cria um movimento é porque, na sua génese, há algo que o impulsiona para um objetivo bem preciso. Questionando e confrontando princípios e valores que nos levam a conviver e viver na sociedade atual.

 

Reproduzamos parte do texto que, naquela altura, escrevemos:

 

Impõe-se que se questionem certas questões que consideramos pertinentes:

 

MAI, como designação, não será uma pura tautologia? Está à margem dos partidos do arco do poder autárquico que nos tem dirigido, ou é contra eles, ou, ainda, não passa de uma dissidência em relação àqueles? Sinceramente, não encontro justificação para tal nome!

É contra corrente aos partidos do arco do poder em Chaves?

É contra corrente ao pensamento autárquico dominante ou apenas se trata de uma briga, de uma dissidência?

É contra corrente às estratégias dos partidos do arco do poder flaviense, quanto aos seus processos e táticas eleitorais?

Movimenta-se contra quê ou contra quem?

Movimenta-se porquê? E em que sentido?

São mulheres e homens de ação ou reação?

Onde reside, essencialmente, a sua diferença em termos não só éticos e morais, mas também políticos?

Constituem uma nova classe emergente de políticos, diferentes, preparados e aptos para fazer face aos desafios complexos que a sociedade do futuro exige?

Importa-nos mais saber sobre estas questões do que avaliar uma despropositada e incongruente promessa eleitoral: restituir o Largo das Freiras ao seu estado «virginal»” (...).

 

No mesmo texto, logo a seguir, dizíamos:

Somos amigo de alguns membros que integram este movimento. E, obviamente, continuaremos a sê-lo. Porque, apesar de, nesta hora, não estarmos inteiramente com eles, consideramos que aquilo que os move é, apesar de tudo, a ética da autenticidade. Autenticidade entendida na ótica de Charles Taylor quando afirma que «ser verdadeiro comigo mesmo significa ser fiel à minha própria originalidade» (…) e que dá sentido à ideia de «viver a minha vida» ou de «alcançar a minha própria realização»”.

 

No respeito integral pelo outro, sem qualquer recriminação ou preconceito… Porque, como diz ainda Charles Taylor, no seu escrito «A ética da autenticidade»: “num mundo plano, em que se esbatem horizontes de sentido, o ideal da liberdade de autodeterminação passa a exercer uma atração cada vez mais forte. Parece que o fato de escolher pode conferir sentido, fazendo da vida um exercício de liberdade, mesmo quando falham todas as outras fontes de sentido.

 

A liberdade de autodeterminação é, em parte, a «solução por defeito» da cultura da autenticidade, mas é, ao mesmo tempo, a sua maldição, porque reforça o antropocentrismo [nós diríamos mais, o narcisismo, tão característico da sociedade em que hoje vivemos]. Este fato cria um círculo vicioso que nos conduz ao ponto em que o valor mais importante que nos resta é a própria escolha (…) Estas são as tensões e as fraquezas presentes na cultura da autenticidade que, juntamente com as pressões de uma sociedade atomizada, a precipitam para a derrapagem”.

 

Mais adiante Charles Taylor, na esteira de Ramonet, ataca a questão essencial dos nossos dias quando afirma: “o reenquadramento eficaz da tecnologia exige uma ação política comum para reverter o movimento gerado pelo mercado e pelo Estado democrático em direção a um atomismo e um instrumentalismo crescentes. Esta ação comum exige que ultrapassemos a fragmentação e a impotência – isto é, que enfrentemos a preocupação, que Tocqueville foi o primeiro a definir, do perigo do desvio da democracia para o poder tutelar. Ao mesmo tempo, as posições atomistas e instrumentalistas são fatores primordiais para a geração das formas de autenticidade mais degradadas e superficiais; e, deste modo, uma vida democrática vigorosa, empenhada num projeto de redefinição, também teria, neste domínio, um impacto positivo (…) Mas para participar eficazmente neste debate multiforme é preciso compreender o que há de grande na cultura da modernidade, assim como de superficial ou perigoso. Como diz Pascal acerca dos seres humanos, a modernidade é caracterizada pela grandeur assim como pela misère”.

 

Sabemos que vivemos num mundo cada vez mais complexo. Questionando-se e oscilando entre certeza e incerteza, constantemente. Num mundo com seres humanos sempre preocupados em encontrar um sentido para as suas vidas. Tendo sempre presente que nos realizamos, num território concreto, cada vez menos isolados dos demais, como pessoas, juntamente com o outro, tão diferente de nós, mas, simultaneamente, tão igual. É nesta inquietação que o ser humano se realiza dia-a-dia.

 

Sinceramente, nada tínhamos, e sequer hoje temos, contra quem enfileirou, no exercício da sua pura liberdade, por outros caminhos.

 

Contudo, cremos que a maioria desses nossos amigos se deslumbraram pelo paradigma da comunicação, fazendo dela o seu conteúdo e não um meio para veicular princípios e valores pelos quais se deveriam bater.

 

Mais - e perdoem-nos a dureza das palavras -, “venderam-se”, positivamente, ao “mercado político” que, nas suas óticas, mais parecia lhes darem proventos pessoais. Fizeram escolhas verdadeiramente narcisísticas, “traindo”, no essencial, os seus ideais e valores de vida. Não lhes interessa tanto para onde vamos como pessoas e território concreto que somos neste cantinho do Alto Tâmega e Barroso. No fundo, traíram não só os verdadeiros propósitos políticos de como sociedade nos devemos reger como os amigos com quem, embora por vias diferentes, partilhavam e comungavam valores e ideais com vista a um novo porvir.

 

E, como isso não bastasse, pior ainda, convivem agora, alegremente, com aqueles - políticos, acólitos e seus afins - que antigamente estavam do outro lado da barricada e a quem tanto diabolizavam.

 

Enfatizemos que, em democracia, e em liberdade, as escolhas são pessoais e legítimas. Mas, naturalmente, não isentas, numa sociedade democrática e aberta, do escrutínio do contraditório e da crítica.

 

Por isso, esta postura deixa-nos a liberdade de também, numa ética de autenticidade, tão fugidia como a que hoje vivemos, questionarmos o conceito de amizade e das escolhas feitas.

 

Porque há limites!

 

Será que, como acima dizíamos, na esteira de Charles Taylor, o «ser verdadeiro comigo mesmo significa ser fiel à minha própria originalidade» (…) e que dá sentido à ideia de «viver a minha vida» ou de «alcançar a minha própria realização»” é seguindo este “trilho”? Não haveria outros caminhos, que mostrassem uma outra e verdadeira originalidade, em ordem à realização pessoal?...

 

Estamos, desta feita com o que Pascal dizia quando, a propósito dos seres humanos, na modernidade por que passamos, há tanto de grandeza como de miséria!

 

O nosso conceito de amizade não vai na ótica “facebookiana”, tal como Zygmunt Bauman nos falava, de “ligar” e “desligar” quando nos dá na real gana. Falamos de verdadeiro convívio, de partilha, de preocupações comuns como seres humanos e com o nosso terrunho, de um relacionamento verdadeiramente humano, de cara a cara...

 

Pela nossa parte seremos sempre fiéis aos ideários que sempre nos nortearam, à procura constante de um melhor porvir, mesmo que, conjunturalmente, não estejamos de acordo com certos princípios e estratégias seguidas.

 

Sem o deslumbramento e o fascínio que a sociedade da comunicação e do mercado nos procuram “impingir” e que certos políticos e intelectuais da nossa praça tão facilmente ficaram seduzidos e aderiram.

 

António de Souza e Silva

 

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 00:45
link do post | comentar | favorito
|  O que é?
Sexta-feira, 28 de Julho de 2017

Discursos sobre a cidade - Por Gil Santos

GIL

 

Nota Prévia

Passando os olhos por um pequeno livro, esquecido, na estante de uma biblioteca pouco frequentada, dei com os olhos em dois textos que falam da nossa terra.

 

Trata-se de um livro da autoria de Fernando António Almeida, intitulado “Estórias de Portugal” editado pela Âncora em 2001.

 

A páginas 53 e seguintes, o primeiro texto fala-nos de um cerco à nossa cidade, no longínquo século XIV. O segundo dos sete filhos de Maria Mantela.

 

Por se tratar de duas “estórias” da nossa cidade e porque isto das estórias me é particularmente caro, reproduzo o primeiro texto, na íntegra, neste espaço privilegiado dos “discursos”.

 

O segundo fica para depois.

 

A RENDIÇÃO DO ALCAIDE

(O Cerco de Chaves)

 

Em 14 de Agosto de 1385 travam-se de razões em Aljubarrota os exércitos português e castelhano. Vitorioso no confronto, D. João I dirige-se ao Norte do país, a Guimarães, em romaria a Santa Maria da Oliveira, por cumprimento da promessa que fizera antes que entrasse em batalha. Aqui, prepara uma incursão a Trás-os-Montes, para ocupar alguns castelos que se mantinham fieis a D. Beatriz, a filha de D. Fernando e mulher de D. João I de Castela. Era o começo do Inverno.

 

E partiu El-Rei dali com suas gentes e muitos carros com engenhos e mantimentos e com outras coisas pertencentes à guerra. E entrou em Vila Real. E ali juntou a sua hoste e levou caminho de Chaves com intenção de cercá-la. E a festa de Natal teve-a El-Rei numa aldeia chamada São Pedro de Agostém, que é uma légua de Chaves.

 

s.pedro-agostem (358)-1.jpg

 

E dali iam alguns escaramuçar a vila, nas quais escaramuças morreu um cavaleiro que chamavam Álvaro Dias de Oliveira que atolou o cavalo com ele e, não podendo sair, ali o mataram. Mas neste mesmo dia, um João Gil Sapo matou por sua mão três da vila na ponte do lugar, pelo que foi muito louvado.

 

Este lugar de Chaves é uma vila de Portugal na qual estava um bom e honrado fidalgo português chamado pelo nome de Martim Gonçalves de Ataíde. À sua mulher chamavam Mecia Vasques Coutinha, irmã de Gonçalo Vasques Coutinho que esteve na batalha de Trancoso. No lugar estavam cerca de oitenta lanças de bons escudeiros e um número razoável de besteiros e de homens de pé. E tinha vindo também para a vila um cavaleiro galego da terra de Ourense que chamavam Vasco Gómez de Seixas, com trinta lanças e homens de pé e bons besteiros, de jeito que havia assaz de gente para a defesa do lugar. E tinham um trom pequeno e uma cabrita de lançar pedras. Tinham mantimentos em razoável quantidade. Já a água que nascia na vila era enxofrada, como água de caldas, mal-azada para beber, que a boa era a do rio que vai por fora dos muros.

 

Ponte_romana.jpg

 

Como Martim Gonçalves recusou entregar a vila, El-Rei cercou-a e pôs arraial sobre ela. E mandou armar os engenhos e atirar aos muros da vila e ao castelo e quebraram grande parte de duas torres que estavam perto do rio Tâmega. E El-Rei mandou fazer uma bastida, junto da ponte, para defender aquela água e combater a vila, bastida que tinha três sobrados e a que antigamente chamavam castelos de madeira. E a bastida estava forrada de caniços e carqueja, para guardar-se das pedras, e havia nela homens armados e besteiros, de tal maneira que os da vila não podiam tomar água do rio. E por isso El-Rei mandava dar cada dia um cântaro de água a Mécia Vasques, mulher do alcaide do lugar, por amor de seu irmão Gonçalo Vasques.

 

Sendo a bastida guardada daqueles que dela tinham cargo, acertou um dia que era à guarda de Vasco Pires de Sampaio. E estando ele ao serão ceando descansado no arraial, que era um bom pedaço dali, saiu do lugar muita força de gente, muitos com fogo, cada um fazendo o melhor que podia, e apesar dos que a guardavam, antes que os do arraial pudessem acorrer, que era longe dali, puseram-lhe o fogo e a bastida ardeu toda. E dali em diante tomaram os da vila livremente quanta água podiam e queriam.

 

E, vendo como seria má de guardar uma bastida que ali pusesse, mandou El-Rei fazer outra, mais perto do arraial, cerca duma das portas da vila onde estava uma boa torre, mas não tão chegada a ela que lhe pudesse fazer dano. E a bastida era tão forte, assim forrada de traves e caniços e coiros crus, que ainda que um engenho que tinham os de dentro lhe tenha atirado numa noite trinta pedras, de que vinte e sete deram nela, nenhuma lhe pôde fazer dano. Desta bastida, que era mais alta que o muro, não cessavam de atirar com bestas e pedradas àqueles que queriam andar por ele, de maneira que ninguém ousava por aí andar, nem nele estar. Enquanto isso, os engenhos de dentro da bastida atiravam amiúde, de dia e de noite, e derribavam no castelo e na vila muitas casas, e matavam gente e faziam muito dano. Os da vila atiravam com as bestas e com aquele trom e engenho que tinham, mas não era coisa que aos do arraial fizesse dano, ainda que muitas vezes houvesse feridos de uma parte e da outra.

 

chaves-med.jpg

 

E sabei como este cerco que El-Rei ordenou de pôr a Chaves foi bem proveitoso a muita gente desta comarca porque os mais deles estavam à míngua de mantimentos, por causa da guerra passada no tempo d'El-Rei D. Fernando e da vinda de D. Henrique de Castela ao reino. Assim que muitos, por sua vontade, se iam para El-Rei naquele cerco para haverem mantimento. E El-Rei mandava muito amiúde a forragem e entravam pela Galiza oito e dez léguas, à terra de Porqueira e de Sandiães e de Alhariz e outros lugares daquela comarca, com bons capitães à guarda das azêmolas, que sempre iam bem duas mil e às vezes mais. E vinham carregadas de pão e de carne e de castanhas e de nozes e doutros mantimentos e algum pouco de vinho, porque não é terra em que haja muito. E uma vez foram à forragem à terra de Viana de Bolo e quando vinham para o arraial caiu muita neve na serra e tanta que matou muitos homens e moços com frio.

 

Com tantas contrariedades, D. João I teme não conseguir fazer subjugar Chaves, ficando-lhe hostis outros castelos de Trás-os-Montes, como Bragança, Vinhais, Outeiro de Miranda, e outros ainda. Teme-se também que, estando tão perto da fronteira, o rei de Castela decida tentar vir, descercar Chaves. Considera D. João I que deve reforçar o seu exército. Apela então aos principais concelhos do país para que o auxiliem. De Lisboa e Sintra chegam reforços. Pede também auxílio a Nuno Álvares Pereira que se lhe junta em Chaves.

 

Enquanto estas coisas se passavam e algumas outras que não vale a pena dizer, os engenhos não paravam de atirar, de noite e de dia, fazendo muito dano ao lugar. E os da bastida também já começavam a derribar a barbacã desde abaixo e queriam picar o muro. E além disso ordenou El-Rei uma escada de tal maneira como na Espanha nunca antes tinha sido vista para pôr no muro da vila, de que todos se espantavam.

 

Martim Gonçalves, vendo todas estas coisas e receando ser entrado pela força, pois não se podia bem defender, ajustou então que lhe fosse dado o prazo de quarenta dias para que comunicasse com El-Rei de Castela. E, não lhe vindo resposta até esse tempo, lhe entregaria a vila e o castelo e eles sairiam com suas bestas e armas e haveres. E pôs-lhe Martim Gonçalves um seu filho por refém, em como se até aquele dia não fosse socorrido que lhe entregasse o lugar. E mandou à pressa recado a El-Rei de Castela de tudo o que se passava e em como se tinha ajustado.

 

Chaves Medieval.jpg

 

O escudeiro de Martim Gonçalves chegou a Zamora onde El-Rei de Castela estava e chegou tão alta noite que El-Rei repousava já na cama com a rainha sua mulher. El-Rei, como lho disseram, sem embargo de que já repousasse, levantou-se da cama. E, entrou o escudeiro na câmara e contou a El-Rei o cerco e o que acontecera e quanto havia passado Martim Gonçalves até que se ajustara. E El-Rei respondeu que não estava em tal ponto que lhe pudesse acudir como cumpria e que lhe quitava a menagem uma e duas e três vezes. E no outro dia escreveu El-Rei suas cartas a Martim Gonçalves, como lhe quitava a menagem e que se fosse para seu reino, onde lhe faria mercês e daria terras para que vivesse honradamente.

 

Tendo chegado o escudeiro com o recado, Martim Gonçalves, naquele dia em que se acabou o prazo, mandou dizer a El-Rei de Portugal que lhe queria dar a vila e o castelo, havendo já cerca de quatro meses que El-Rei o tinha cercado. Mas, antes disto, tinha ele já mandado sua mulher e filhos para um lugar que chamam Monterrey, que era dali a três léguas. Vasco Gómez de Seixas, que estava com Martim Gonçalves, veio falar a El-Rei à tenda onde estava e despedir-se dele. Martim Gonçalves não lhe quis falar. E no dia seguinte depois do prazo partiram ambos armados e os seus a pé, pois que alguns que tinham bestas tinham-nas fora do lugar. E os homens de pé e os moços davam vozes e apupos, escarnecendo deles, segundo é costume fazerem aos que saem de lugar cercado.

 

São_nun'alvares_pereira.jpg

 

Entrou depois D. João na vila de Chaves e no seu castelo, de que tomou posse. Ouviu missa. Armou cavaleiros. Deu a vila a Nuno Álvares Pereira, que com ele estava. O objectivo era agora Bragança e a ocupação dos outros castelos que ainda tinham voz por D. Beatriz e pelo seu marido, o rei de Castela.

´
publicado por Fer.Ribeiro às 02:20
link do post | comentar | favorito
|  O que é?
Sexta-feira, 7 de Julho de 2017

Discursos sobre a cidade

SOUZA

 

BREVE REFLEXÃO À VOLTA DO ATO ELEITORAL QUE SE AVIZINHA

 

 

 

O poder não pertence a ninguém;

é um lugar vazio ocupado apenas provisoriamente.

 

Daniel Innerarity, «A política em tempos de indignação», Publicações D. Quixote, 2015, p. 173

 

 

 

A democracia é uma forma de organização política da sociedade na qual o conflito nunca é definitivamente reabsorvido na unidade de uma vontade comum.

 

Quem assim o não entender, terá dificuldade em entender a política e mesmo pensar em termos «políticos». Por isso, muitos cidadãos se afastam da política ou dela vociferam veementemente. Mas todos estamos «imersos» nela, não podemos passar sem ela!

 

Vivemos num tempo apelidado de aceleração do tempo, no qual, alguns anunciam já o “fim da política”; outros, face à sociedade complexa em que vivemos e a uma certa ingovernabilidade da mesma, outra coisa não apregoa(va)m que a desregulação da mesma, a capitulação do primado da política, face ao imperativo do movimento económico.

 

Daniel Innerarity enfatiza e pugna que “o nosso grande desafio [consiste] em defender as propriedades temporais da formação democrática de uma vontade política, os seus procedimentos deliberativos, de reflexão e negociação, contra o imperialismo das exigências técnico-económicas e a agitação do tempo dos meios de comunicação”.

 

Aquele autor, quando nos fala a propósito dos tempos em que vivemos, de autêntica aceleração de tudo, nomeadamente das decisões políticas, alerta-nos que “as soluções mais emancipadoras não provêm nem da desaceleração nem da fuga para a frente, mas sim do combate contra a falsa mobilidade [...] O «veste-me devagar que estou cheio de pressa» [negrito nosso] não foi formulado para defender a perda de tempo, mas sim para ganhar tempo”. Mais adiante, justifica seu propósito, quando afirma que a sua “proposta final seria, portanto, uma defesa da importância de se ganhar tempo, não através do incremento da aceleração mas sobretudo combatendo metodicamente a falsa mobilidade. A reflexão estratégica, a perspetiva para enquadrar o instante em limites temporais mais amplos ou a proteção do verdadeiramente urgente são, em última instância, procedimentos para ganhar tempo(sublinhado nosso), porquanto não se trata de não ligar nenhuma ao tempo, ou mesmo, lutar contra ele, outrossim, «utilizá-lo a nosso favor».

 

No nosso antepenúltimo Discurso sobre a Cidade, a certa altura, dizíamos “como darmos esperança e desenvolver um território praticamente deserto no meio rural, onde os seus «maiores» - poucos já, infelizmente -, que aí se encontram, se limitam a aguardar pela sua «última chamada», e uma população citadina, sem engenho e arte, descrente, e incapaz de encontrar soluções que concitam uma melhor qualidade de vida para as suas gentes (...)”.

 

E é importante trazermos aqui à colação a tragédia do passado dia 17 de junho, em Pedrógão Grande, para tornar mais ingente uma pausa, um tempo de espera, para refletirmos sobre que modelo de desenvolvimento queremos para o país: cidadãos, autarcas, instituições, empresas e governo, enfim, todos nós.

 

Porque algo está mal na forma como temos desenvolvido o nosso país até agora. A começar nas freguesias e nos concelhos!... E nada melhor como um período eleitoral.

 

Mas sabemos que o ciclo político que atravessamos não é propício para diálogos profícuos e consensos urgentes. Se bem que a função política seja, essencialmente, o uso da palavra, pois, em política, com a palavra fazem-se coisas; contudo, este não é o momento certo para se dar o devido valor às palavras adequadas. Em períodos eleitorais, infelizmente, as palavras outra coisa não são que verdadeiro ruído...

 

Afirmámos, no outro escrito, que a função da política não é a procura a verdade, mas do razoável.

 

E, mesmo o razoável, no contexto em que vivemos, obriga os políticos a porem-se à defesa, a moverem-se na ambiguidade, porque sabem que os cidadãos, infelizmente, se habituaram a orientarem-se, no campo político, com esquemas de polarização, e os media não oferecem espaço para a discussão equilibrada, porque mais seduzidos pela gestão do escândalo e da dissensão, em ordem à obtenção do lucro das suas «corporações».

 

Vale a pena aqui lembrar as palavras de D. Innerarity a este respeito:

 

Os meios de comunicação social, num momento em que os cidadãos têm tanta necessidade de informação para conseguir formar uma ideia acerca do que se está a passar e para tomar as decisões apropriadas, estão a distorcer a visão das coisas políticas de tal modo que acabam por gerar cinismo e desespero. Esses meios alimentam o desencanto e a desconfiança em vez de explicarem [salvo raríssimas exceções] a normalidade democrática [...] enquanto [estes meios de comunicação social] se apresentam a si próprios, conscientemente ou não, como lutadores heroicos que protegem o público desamparado face aos malvados políticos”. Ora, um espaço político binário é, no fundo, um espaço que se pretende despolitizado.

 

Daí que, na nossa modesta opinião, se bem que necessário, dentro desta mentalidade reinante, o espetáculo que aí vem - a campanha eleitoral -, não vai passar de um antagonismo ritualizado, elementar e previsível, transformando a política num combate em que o que está em causa não é discutir assuntos mais ou menos objetivos - estratégias para o futuro do nosso país e, em concreto, do nosso concelho, mas sim - embora apresentados propostas diferentes e significativas, com princípios e valores diferenciados -, encenar algumas diferenças necessárias para se manter ou conquistar o poder. Não nos parece estarem criadas condições para se efetuar uma verdadeira e consciente escolha. Certos procedimentos político-partidários, tão nossos, e tão nosso caraterísticos, e apegados a interesses, predem o cidadão, não lhe dando espaço de liberdade para se dar e concitar uma autêntica e genuína escolha.

 

Vai, neste sentido, o autor que vimos seguindo quando afirma que “O antagonismo dos nossos sistemas políticos funciona assim porque as controvérsias públicas têm menos de diálogo que de combate para obter o favor do público [...] A comunicação entre atores é fingida, uma mera ocasião para prestigiar aos olhos do público, o verdadeiro destinatário da sua atuação”.

 

Assim, este clima de vivência política e eleitoral, de estilo dramatizador e de denúncia, como afirma o autor que vimos citando, embora mantenha unida a fação dos apaniguados partidários em torno de um eixo elementar, contudo, dificulta, e em muito, a posterior consecução de acordos que vão para além da própria «paróquia».

 

As campanhas, desta forma, proporcionam muito poucas ou nenhumas possibilidades de diálogos construtivos, porque servem fundamentalmente para agudizar o contraste e polarizar, simplificando a escolha que vem depois.

 

Mas, temos para nós que quem se apetrecha com um único argumento da sua radical coerência terá pouco futuro na política. A verdadeira atividade política tem mais a ver com a procura de espaços de encontro, com o compromisso e com o envolvimento de outros, que pesam igual ou diferente de nós.

 

E é esta postura que, sinceramente, esperamos daqueles que se candidatam, nas próximas eleições aos órgãos autárquicos no concelho de Chaves. Principalmente daqueles que estão mais próximos do “arco” de princípios e valores políticos que perfilhamos.

 

Porque, na verdade, defendemos que “Os melhores produtos da cultura política tiveram a sua origem no acordo e no compromisso, ao passo que a imposição ou o radicalismo marginal não geraram quase nada de interessante”. Porque nós queremos um concelho e uma cidade nova, diferente, no panorama das ditas cidades médias do nosso país. E, aqui, uma vez mais, estamos com D. Innerarity quando nos lembra que “Os nossos ideais dizem algo acerca do que queremos ser, ao passo que os nossos compromissos revelam quem somos”.

 

Para não nos tornarmos longo nesta despretensiosa reflexão, partilhamos aqui, mais uma vez, o ponto de vista de Innerarity ao não alinharmos no pessimismo dominante em relação à política. Não porque não encontremos razões de crítica! Mas porque acreditamos que só um horizonte de otimismo aberto, que acredite na possibilidade do melhor, é que nos permite criticar com razão a mediocridade dos nossos sistemas políticos e de alguns dos nossos políticos.

 

Na realidade, o otimismo e a crítica são duas atitudes que se dão muito bem, ao passo que o pessimismo e o puro deita abaixo costuma preferir a companhia da melancolia, do cinismo e da pura maledicência.

 

António de Souza e Silva

 

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 00:14
link do post | comentar | favorito
|  O que é?
Sexta-feira, 23 de Junho de 2017

Discursos Sobre a Cidade

GIL

 

ABÉSPORAS

 

Na terra escrava do Planalto pouca há que medre!

 

Tirando o centeio – ancestral gramínea da palha e do pão que fazia a cama da gente e dos bitchos e atulhava as arcas de castanho para as invernias – e a batata, vinda das américas em meados do séc. XVI, para alívio da castanha e da bolota, pouco mais se aveza na imensidão áspera dos corgos do Brunheiro.

 

Nesta senda, as ceifas, pelo agosto, e o arranque dos tubérculos em setembro, eram empreitadas que davam pelos peitos a uma mula! Dias duros, contudo, dias de festa pela alegria da colheita.

 

A gente pobre, carregada de fome, suor e cansaço, no final de cada jornada ainda reservava forças para a folia. Gente feliz que, com tão pouco, inveja quem hoje se diz infeliz com tanto! Admiro aquela gente antiga que, de barriga vazia, sabia sorrir e dar-se!

 

Recordo, com nostalgia, a alegria dos ranchos de segadores regressando a casa pelo crepúsculo: gadanho às costas, dedeiras a pender da baraça que fazia de cinto, camisas rotas e encardidas, calças de cotim remendadas, socos de pau de amieiro muito gastos, carpins de lã de ovelha empastelados, chapéu de palha roído pelo sol, poeira da palhoça enfeitando os ombros, barba de oito dias, caras enfarruscadas pelas gotas que escorriam abundantemente das testas e se misturavam com o pó da terra, mãos grossas como a casca do carvalho negral!... E, apesar do magro soldo que os atraía desde a Terra-Quente, ainda se astrebiam a amanhar um bincelho e a enfeitá-lo com flores do campo, para oferecer à patroa Carolina.

 

E vinham cantando:

Bimos de segar centeio

Com o gadanho na mão

Biba o Sr. Antoninho

Que é um patrão

 

P’ra mais de cem pousadas

Seguemos hoje no Belão

Amanhê segaremos mais

Em bindo o garrafão

 

Ó senhora cozinheira

O seu caldo cheira bem!

Deiamos uma malguinha

Por alma de quem lá tem!

 

Depois da ceifa vinha a acarreta, quase sempre feita à ajuda pelo povo da aldeia. Emedava-se o centeio na eira e aguardava-se vaga da malhadeira do Ti Jaime da Amoinha Nova, para separar o grão da espiga. Enquanto não se malhasse, andava-se com o coração num tchitchelo por causa do perigo de um incêndio que podia, muito bem, deixar o Carregal na penúria o ano inteiro. A propósito recordo os sermões do Paizinho aos fumadores, para que não o fizessem na eira. Persuadia-os, ano após ano, com um incidente trágico da Grande Guerra, a que assistiu, de um cigarro mal apagado nas trincheiras de Neuve Chapelle que matou três dezenas de camaradas. Muitas vezes chegava mesmo a açobar-lhes os cães para ver se agarravam medo e iam estripar cigarros para outras bandas! Todavia, a eira era o lugar mais apetecível do Carregal e, apesar do cuidado do Ti Moreiras, sempre se ia fumando, à escapula, à beira das medas do pão! Mas que ele não visse!

 

Seguia-se a saga da malhada. Uns escangalhavam a meda o botavam os molhos p’ra riba da malhadeira, outros ajudavam a encafuar a palha na máquina para a apartar do grão, outros escolhiam a palha mais ajeitadinha, o colmo, para encher os xaragões e outros empalheiravam. Um trabalho infernal pela canícula, pelo barulho do trator que movia a malhadeira e pelo pó que se levantava no ar.

 

Mas é mais de um episódio relacionado com o arranque da batata canibeque que vos quero falar nesta novela.

 

Para o arranque do Ti Moreiras não bondava a gente do povo. Por isso, em inícios de agosto, nas feiras de Carrazedo, o velho combatente cuidava de prover a mão-de-obra necessária, para numa semana bimbar os batatais. E vinha gente de muita banda: da Dorna, de Vale do Galo, de S. Cibrão de São João de Corveira, sei lá!.. Dependendo da franqueza do ano agrícola, vinham, quase sempre, para mais de dez homens, gente habituada ao trabalho duro do cabo da sachola de ganchos de sol a sol. O trabalho menor ficaria por conta da gente da terra: o espanar da rama, a apanha, o ensaque e o transporte até ao armazém. Os forasteiros alvezes vinham da seco, outras d’amolhado. Quando o patrão os alimentasse, ganhavam menos, bem entendido, mas tinham comida e vinho à tripa forra! Os da terra, à ajuda, vinham sempre d’amolhado. E não faltava quem trabalhasse, pois o patrão tinha a fama de tratar bem!

 

Assim, mais ou menos pelas sete da matina, matabichava-se.

 

O Ti Moreiras estendia duas mantas de farrapos sobre o carro de bois, punha uma cesta com nozes e outra com figos secos. Numa pequena giga de vime meia dúzia de bolas de trigo de três cantos. Encafuado num estadulho, o pipo da aguardente, que passava, uma única vez, pelos queixos de todos. Depois, distribuíam-se as tarefas. Cada arrancador pegava num rego, seguido pelos outros em escada. O patrão punha-se em frente deles, cuidando que as batatas fossem bem arrancadas e nada ficasse para o rebusco e ainda que as sacholas cavassem fundo para não as rachar. Os mais novos espanavam a rama para soltar as canibeques e as mulheres apanhavam. Outros vazavam as cestas nos sacos de serapilheira que iam sendo cozidos com agulha e baraça à medida que se fossem enchendo.

 

Por volta das dez horas, vinha o almoço. O rancho parava cerca de meia hora. Comia-se uma lisca de cimo-de-pá, um cibito de queijo ou carne gorda da pá, rijada, com um carolo de pão. Dois golos de vinho, do de Cova do Ladrão, de um pipo que passava de boca em boca. Estavam assim carregadas as baterias para mais três horas de trabalho.

 

Pela uma e meia, mais coisa menos coisa, quando pela coroa das giestas piorneiras se visse a giga do jantar, estendia-se um fardo de colmo na poula contígua à leira do arranque, à sombra das carvalhas. Por cima punham-se umas mantas de trapos sobre as quais se espalhavam alguns pratos fundos de louça preta de Nantes. Depois, dos alguidares que vinham na giga, vertia-se nos pratos fundos o cordeiro estufado que exalava um cheiro de fazer crescer água na boca. Noutros caçoulos, botavam-se as cachas das batatas cozidas. Cada trabalhador recebia um garfo de ferro e uma côdea de pão. Do mesmo prato, cada um servia-se dos nacos de carne à velocidade com que os deglutisse. Muitas vezes, o prato da carne enchia-se de saltões cinzentos que infestavam a poula e se agitavam com aquele movimento desusado, mas isso pouco importava, já que se constava que os bichos não gostavam de cordeiro guisado!

 

No Carregal, por essa ocasião, vivia um paisano que era escornado por todos. Esse repúdio tinha a ver com a mania que ele tinha de larpar como um lambão! Gostava muito de ir à ajuda para o Ti Moreiras porque enchia as ventas! Era o Faustino da Rabiça, mais conhecido por Tranglimanglas, um brutinho, mouro de trabalho! Sabia tão-somente comer e trabalhar! Trabalho não lhe faltava, comida sim e, quando a apanhasse a jeito, até se afogava! Por isso, todos faziam pouco dele. Contudo, o moço, de tão ingénuo, alinhava em todas as maroteiras e desafios que lhe lançassem, desde que lhe cheirasse a morfes!

 

Ora, desta vez, o cordeiro estava tão bom que o bardina comeu com tal sofreguidão que deixou os parceiros mais próximos quase a apitar!

 

Pagá-las-ia o lambuzão!...

 

O Gripino, um dos que apenas lambeu os ossos do anho, pensou-a bem! Conhecia ali no Corgo umas velhas tocas de raposa, abandonadas, onde era costume as vespas fazerem ninho. Vespas bravas, cuja ferradela punha qualquer um a ganir, fosse gente ou fosse bicho! Que o digam as pobres vacas do Guilhermino que, há alguns anos, agradando uma leira próxima, foram atacadas sem dó nem piedade! Os pobres animais, em desespero, desinvestiram giestal adentro jungidas e com a grade de arrasto. Foi o cabo dos trabalhos para as tirar de lá!

 

Ora, durante a sesta que se fazia mais ou menos até às três da tarde, o Gripino lembrou-se de desafiar o Rabiça a desentocar os raposinho novos que dizia ter enxergado a entrar nas velhas tocas. Se o conseguisse, os bichos haveriam de fugir ó p’ra cima - sim, porque lobo ou raposa nunca foge ó p’ra baixo temendo que as tripas lhe saiam pela boca - e seriam apanhados à sacholada. Depois, bastava irem de aldeia em aldeia com os raposos mortos pedir ovos que fariam um bom petisco, juntando-lhes as boieiras apanhadas nas pescoceiras armadas nos montículos de terra qua as ratas faziam nos lameiros de pasto.

 

− Ó Faustino, vais ao toco grande com esta aguilhada, metesia quanto possas. Os raposos, picados pelo ferrão, vão desinvestir por esta rodeira direitos a nós. Com as sacholas limpemos-le o saramplo. Mas tens de esguiçar bem senão eles não saem. Amanhê, domingo, bamos aos ovos com os raposos mortos e vais ver que nos enchemos deis. Depois cacemos umas boieiras no Belão com as pescoceiras e faremos uma tainada. O binho pago-o eu!

 

Com o sentido na comida, o Tranglimanglas nem hesitou. Que alinhava!

 

Pegou na aguilhada e nem se deu conta que todos arreganhavam os dentes com o que adivinhavam que iria acontecer!

 

Saltou a parede do giestal contiguo à touça onde jantaram, chegou aos tocos da raposa e toca de escarafunchar com a aguilhada no toco mais largo. Não tardou que o vespeiro, que dormiria a sesta, se agitasse e lhe caísse em cima como mosca no mel!

 

Ah…homem de mil diabos!

 

Desesperado, largou a aguilhada e, a berrar como um cabrito-montês, saltou a fugir por entre as giestas piorneiras para espanar às ditas. Contudo, quanto mais corria e espanejava, mais elas o filavam!

 

Da touça, entre a galhofa, alguém lhe berrou:

 

Bota-te ao poço, lambão, bota-te ao poço!...

 

Nem pensou duas vezes. Correu e mergulhou de cabeça!

 

Entes morrer afogado do que comido pelas abésporas! − pensaria o infeliz!

 

Não sabia nadar. A sorte é que o poço tinha pouca mais de um metro água, pela secura daquele verão!

 

Tiraram-no a pulso, pendurado numa corda carral. Parecia um cristo!

 

Vinha a esbagoar!

 

O poço safou-o das feras, mas não de umas esmoucadelas e, sobretudo, dos inchaços e do gozo dos companheiros!

 

Nos dias seguintes, parecia um bombo!...

 

Todavia, passado aquele episódio, voltou a ser o lambareiro de sempre!

 

Não lhe serviu de lição, embora doravante não pudesse ver as abésporas!...

 

Pudera!

 

Gil Santos

´
publicado por Fer.Ribeiro às 01:12
link do post | comentar | favorito
|  O que é?
Sexta-feira, 26 de Maio de 2017

Discursos sobre a cidade

GIL

 

PAPA HÓSTIAS

 

O maio de 66 vinha quente como lume!

 

A natureza explodia em toda a sua pujança e de cada lura recendia vida.

 

Todavia, o maio de 66 trazia o diabo no ventre com as sementes da mudança. Um tempo de escacholar um mundo cristalizado nas mais retrógradas convicções. Adivinhava-se um mundo novo com o peace and love dos hippies, as minissaias das cachopas a fazer furor e os estudantes a cerrarem os cartapácios bafientos nas bibliotecas e a agitarem as massas com a bandeira da liberdade!|

 

Por mim, nas mais tenras primaveras (nove) tudo passava ao lado. Encarcerado no seminário de Vila Real, não se permitia, sequer, que percebesse as nuances deste mundo outro. Tolhido pelo culto de um tradicionalismo bacoco e pelo peso absurdo das normas, ansiava os finais dos períodos letivos como o doente a cura. E invejava cada voo rasante dos andorinhões pela liberdade da fuga para a minha querida terra.

 

O junho dobrava a esquina do tempo e a salvação adivinhava-se prestes.

 

Contudo, havia ainda um duro fardo a suportar porque o rabo da vaca é sempre o mais duro de esfolar. Apesar de embalado por esta esperança na libertação, os dias pareciam séculos e não mingavam à velocidade da avidez com que os riscava no calendário como os prisioneiros fazem na parede do degredo do cárcere.

 

As tarefas, naquela casa, repetiam-se numa monotonia absurda de enlouquecer. O despertar às sete e a missa da manhã em jejum. Depois um pequeno-almoço de leite em pó, horrível, e uma carcaça com manteiga industrial de sabor a sabão macaco. A seguir as aulas nas salas inóspitas dos corredores sem fim. Depois o almoço, o mais das vezes de farinha de pau, qual massa betuminosa de colar às paredes. A seguir uma curta sesta e depois o malvado salão de estudo. Por fim o recreio das cinco, o lanche de trigo recesso e um cibo de queijo, as orações do fim tarde, a ceia e o recolher.

 

Só muito esporadicamente esta rotina era quebrada pela escala de ajudar à missa, que me calhava de mês a mês. Tocou-me num qualquer dos dias do final de maio de 66 esta tarefa de fazer de sacristão. Disso vos falarei hoje.

 

Este trabalho até era agradável pois libertava-nos no dia anterior de meia hora de salão de estudo para preparação da missa do dia seguinte. Constava de providenciar toda a logística que o santo ofício exigia. Tratar de ver se havia hóstias que chegassem, água e vinho nas galhetas, livros abertos nas respetivas páginas das leituras do dia, etc.

 

Ora, na tarde do dia anterior pedi dispensa ao Prefeito que vigiava o estudo para ir preparar a capela. Concedeu-ma. Uma alegria que me salvava do latinório da malvada Initia Latina.

 

Cheguei à capela, fui para a sacristia, escolhi a paramentaria verde, como mandava a cartilha, a estola e a casula. Na capela preparei o cálice, com a pala e a patena, bem como o sanguinho e o corporal. Coloquei na credência o manutérgio e o missal aberto nas orações do dia. Sobre o altar, na estante, coloquei o lecionário aberto nas leituras e salmos e treinei duas vezes o que me calhava ler. Depois, abri o sacrário para verificar se a âmbula tinha hóstias consagradas que chegassem. Estava completamente vazia. Fui enchê-la à lata que as costumava ter de reserva, vazia estava também.

 

Vi que havia gato!

 

Para cúmulo, depois de encher a galheta da água, quando me preparava para verificar a do sangue de cristo vi que estava igualmente escoucada. Fui saber da garrafa de vinho de missa para a encher e encontrei-a igualmente vazia. Estanhei aquela penúria de pão e vinho e desconfiei que ali haveria coisa! Procurei o Prefeito para lhe dar conta das falhas, solicitando a reposição.

 

Quis ele lá saber!

 

Imediatamente me acusou de ter consumido, à socapa, aqueles produtos e em consequência, como era hábito, fui chamado ao Reitor e levei uma malha valente!

 

De facto, era muito difícil explicar esta penúria, uma vez que quem ajudou à missa desse dia solicitou a reposição, o que aconteceu. Soube-o tempos depois. Como soube também que três salafrários, dos mais velhos, ter-se-iam raspado do recreio, sem que o Prefeito se apercebesse, e foram à capela merendar! Da água da galheta não quiseram os sacripantes saber!..

 

Apesar disso, as que tinha levado já ninguém mas tirava e por isso mantive o silêncio não viessem outras mais pesadas!...

 

Revoltei-me e para mim jurei vingança.

 

— Deixassem que a escala os pusesse naquele serviço e eles haveriam de ver com quantas palhas se capavam grilos! — Pensei eu.

 

Não tive coragem, nem tempo para me vingar. Meses depois fui convidado a não renovar a matrícula no seminário!

 

Fiquei com a fama e sem o proveito.

 

Tivesse-o, sequer ao menos!

Gil Santos

 

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 23:56
link do post | comentar | favorito
|  O que é?
Sexta-feira, 19 de Maio de 2017

Discursos sobre a cidade

SOUZA

 

CENTENÁRIO DA PARTIDA DO 1º BATALHÃO DO RI 19

PARA A FLANDRES-GRANDE GUERRA

 

 

Numa publicação, saída na Revista nº 50 do Grupo Cultural Aquae Flaviae, dávamos conta não só do contexto nacional deste conflito como referíamos a participação dos militares do Regimento de Infantaria 19 (RI 19) na Grande Guerra.

 

No próximo dia 23, por ocasião dos 100 anos da partida do 1º Batalhão do RI 19 para a Flandres/grande Guerra, será lançado, pelas 18 horas, na Biblioteca Municipal de Chaves, o livro da nossa autoria Grande Guerra - Enquadramento Internacional.

 

Cartaz A4.jpg

 

Deixamos aqui aos nossos(as) leitores(as) as singelas palavras do Prefácio que, em 2015, escrevíamos:

 

“Quando nos debruçamos um pouco, e refletimos, sobre a Grande Guerra - o acontecimento mais marcante à entrada do século XX - vemo-la como um enorme terramoto, que abalou e transfigurou, de uma forma profunda e determinante, a Europa, continente dominante e hegemónico em todos os setores da atividade humana - social, cultural, científico, técnico, económico e financeiro.

 

Era uma Europa aristocrática, arrogante, imperialista, ciosa do seu poder, orgulhosa do Progresso, que julgava sempre incessante e ilimitado, e que dominaria tudo quanto à face da terra existisse.

 

À superfície, na placidez desse mundo, fervilhava uma sociedade que, cuidando de viver no melhor dos mundos, gozava a sua Belle Époque.

 

Tudo isto simplesmente se passava à superfície.

 

As principais «placas» em que aquele mundo assentava (império inglês, alemão, francês, austro húngaro e russo, e o moribundo otomano) começavam a movimentar-se. E seus movimentos pressagiavam um fin de siècle em que tudo poderia deixar de ser como dantes.

 

A era da Razão e do Progresso, científico e tecnológico, sem limites, iria dar lugar à ubris, à loucura e catástrofe.

 

Bastava agora apenas um simples movimento em qualquer ponto mais sensível de uma das «placas» para tudo começar a desmoronar-se.

 

E, inopinadamente, num remansoso verão em que as classes possidentes e dirigentes vão de férias, a banhos, um outro banho, de sangue, começa a acontecer!

 

Sarajevo foi o epicentro desse enorme terramoto que, em longas e profundas ondas de choque, se alastrou por toda a Europa e pelas áreas desse mundo por ela dominado.

 

Uma Europa ébria, incontida, cega às consequências das sucessivas decisões que se iam tomando, lançando, em massa, toda uma geração de uma juventude promissora, na fornalha de aço que a metralha, que veio com o Progresso, gerou.

 

Era o princípio do fim de uma civilização a quem faltou o bom senso e a lucidez para pugnar pela construção de uma sociedade outra, numa convivência pacífica de povos”.

 

O Mundo e a Europa em que hoje vivemos foi moldado pela Grande Guerra (I e II Guerra Mundial).

 

Cremos que as palavras por nós escritas há dois anos têm pleno cabimento nos tempos por que passamos, exigindo de todos nós, numa sociedade tão outra que criámos, mas com os mesmos velhos problemas, melhores mecanismos de controlo, muita mais clarividência e lucidez, não só para evitar as calamidades que por várias áreas do Planeta proliferam, como para vivermos numa sociedade sem hegemonias e na aceitação igual e plena das diversas diferenças, do outro diferente.

 

Só assim é que o sacrifício e as vidas perdidas dos nossos antanhos de há 100 anos terão algum sentido e valido a pena.

 

António de Souza e Silva

 

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 00:00
link do post | comentar | favorito
|  O que é?
Sexta-feira, 28 de Abril de 2017

Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos

GIL

 

O RACIONAMENTO

 

O Marcelino Pão e Vinho andava lazarado!

 

Ele bem escancarava a gaveta do meio da mesa de castanho da cozinha, mas do pão, que antes guardara, nem migalhas! Restava a velha faca do Palaçoulo, gastinha de o cortar.

 

A barriga andava-lhe colada às costas. Deixara há muito de roncar com a fome. Valia-lhe a pena, o Marcelino não tinha como a forrar!..

 

A única coisa que lhe ia valendo era o caldo que sofregamente engolia alapado no escano da cozinha. Um caldo sem unto, bem entendido, feito de cardos apanhados nos lameiros ou nas bordas húmidas dos caminhos.

 

Na primeira metade da década de 40, a tísica arrasou meia nação. E se isso não bastasse, ainda veio a fome negra que esterzicou meio mundo.

 

Bem razão tinha o Velho (filho de Santa Comba Dão) quando, com paternalismo irónico, afirmava:

 

― Portugueses, livro-vos da guerra, mas não vos livro da fome!...

 

A guerra mundial estoirara em 39, o mesmo ano em que tivera fim a guerra civil de nuestros hermanos que lhes impôs o generalíssimo e os colocou em agonia!

 

Perante tais factos e não estando ameaçada como em catorze — pelo menos diretamente — a posse do império colonial e nem tão pouco a independência nacional pela ganância dos castelhanos, Salazar acamaleou! Ora arreganhava os dentes aos camones, nossos parceiros seculares, interesseiros, ora piscava o olho ao Adolfo e ao Benito, já para não falar das relações, quase íntimas, que estabeleceu com Bahamonde. E assim levou a água ao seu moinho. Encheu o bornal da nação de barras de ouro, algum de proveniência duvidosa, e os cofres da finança de notas paridas pela exportação de conservas e de volfrâmio. Ao Zé Povinho castigou-o de fome e de miséria, coisa a que, a bem dizer, já estava afeito!

 

No que respeita à guerra, formalmente e a bem da nação, Portugal declarou a neutralidade a 1 de Setembro de 1939, tendo assinado com Espanha o Tratado de Amizade e Não Agressão a 17 desse mesmo ano. Desta forma permitia manter-se a Ibéria ausente da guerra.

 

Contudo,

“no Foreign Office começam a surgir duas leituras sobre a neutralidade portuguesa, decidindo-se o reexame das relações com Portugal e estudando-se medidas de retaliação económica, algumas das quais, como a suspensão de venda de carvão sob pretexto da falta de tonelagem portuguesa para o transporte, são postas em prática. É neste contexto que se insere a chegada a Lisboa de David Eccles, enviado por Londres para tentar ultrapassar as dificuldades existentes e para negociar uma nova e mais drástica versão do acordo comercial de guerra. A 13 de Julho de 1940, sob proposta do ministro de guerra Hugh Dalton, o gabinete britânico aprova a aplicação do sistema de racionamento aos dois países ibéricos. A 31 de Julho é publicado o Decreto de Represálias que institucionaliza o bloqueio do continente Europeu e o controle na fonte. Estas medidas tomadas pelos ingleses e mais tarde seguidas pelos norte-americanos inserem-se numa vasta política de guerra económica que através do bloqueio económico visava a intercepção das linhas de abastecimento ou de exportação das potências continentais sem tal suserania marítima que por sua vez provocavam a asfixia económica e derrocada do esforço militar do inimigo. Do outro lado as potências do Eixo em vez de imporem um contra-bloqueio anti-britânico precupavam-se sobretudo em furar e interceptar as linhas vitais de abastecimento das Américas para a Grã-Bretanha. (sublinhado nosso)[1]

 

Ora, este quadro forjou alguns anos de forte controlo sobre a produção agrícola, a produção industrial e o comércio. Os agricultores tinham de dar a sua colheita ao manifesto. Alguns, para não a terem rezistada, escondiam-na, ou enterravam parte dela, para depois a consumir, trocar, vender ou até mesmo oferecer. Escapando ao controlo da autoridade, este uso, para grande risco de quem o praticava, alimentava o contrabando, permitindo que alguns comessem e outros enriquecessem à tripa-forra. Para além do mais, nas cidades, vilas e aldeias, cada pessoa tinha direito a umas tantas senhas por mês que lhe permitiam levantar o sustento mínimo nos postos, criados para o efeito, ou mesmo nos comércios.

 

Muita gente ainda recorda esses tempos passados de madrugada nas intermináveis filas das quais, o mais das vezes, se regressava de mãos a abanar. Mas as necessidades eram de tal ordem que valia a pena arriscar e sofrer pela sobrevivência. Muitas vezes, sobretudo nas cidades, de que a capital era particular exemplo, as famílias com muitos filhos matavam a fome com a Sopa dos Pobres, vulgo Sopa do Sidónio. Este caldo era feito sobretudo de massa, feijão ou grão e um cheirinho de carne, evidentemente da mais reles. A Sopa do Sidónio constitui-se como a tábua de salvação dos mais pobres. Muitas vezes eram as próprias crianças que a recolhiam, carregando-a em baldes como a lavadura para os recos!

 

Porém, mesmo perante tanta penúria, o povo não perdia o humor e, como se a música enchesse barriga, ouvia-se cantarolar estas rimas pelas vielas da Ribeira do Porto:

 

Saudades tenho saudades

Em ver o azeite a brilhar

O bacalhau com as batatas

Que fugiu para não voltar

 

Saudades tenho saudades

Desses tempos em que eu ia

Por uma quarta de açúcar

Gritar à mercearia

 

Saudades tenho saudades

Desses tempos que lá vão

Que eu passava o dia inteiro

Lá na bicha do carvão

 

Saudades tenho saudades

Em ver os rapazes novos

Com uma cara de parvos

Por comerem trouxas d’ovos

 

Claro que a Princesa do Tâmega não fugia à regra. Contudo, estou que de uma forma menos severa, uma vez que sendo uma terra com marcas muitos fortes de ruralidade e uma veiga fertilíssima, sempre ia tendo pão!

 

Na rua do Sol havia uma padaria cuja proprietária também tinha forno de cozer. Mas apenas estava autorizada a fazê-lo duas vezes por dia, uma de manhã e outra à tarde. Por isso, constituíam-se longas filas à sua porta até que o pão se esgotasse. Raro era o dia em que não havia zaragata e um ou dois esmoucados! Mas o forno também cozia à socapa, desde que houvesse farinha! Depois, pela porta do cavalo, à calada, serviam-se duas espécies de pessoas: as muito pobres por caridade, e as muito ricas por ganância! Daí que na sua casa ao Postigo, a Marquinhas da Mó tivesse, sob o sobrado, numa espécie de cave secreta, reservas clandestinas de farinha para cozer fora da mãe!

 

Perante tanta penúria, conseguia a farinha através de um esquema, bem urdido, que o marido Carlão cozinhou. Carlão, um emigrado que tomou o nome do lugar de berço, era um homem bom e honesto, dado a boas e mui úteis relações com os agricultores da veiga e da montanha. Eles dependiam da sua forja nas Longras para aguçar as relhas dos arados, as ceitouras e os gadanhos, bem como as sacholas do arranque. Assim, nos dias de feira, com as encomendas deixavam coleiros de centeio ou de trigo para a paga do serviço. Esse cereal, escapado ao controlo dos fiscais, era rilhado a desoras nas mós da azenha do Agapito e alimentava a masseira e o forno da Marquinhas.

 

O negócio andava de vento em popa até que o Zé da Pinta, um sacripanta de maus fígados a quem Marquinhas teria negado um casqueiro, deu com a língua nos dentes. Não demorou uma semana que o casal não tivesse os fiscais à perna. Foram-se à residência e meteram o focinho nos mais recônditos cantos. Felizmente não toparam o alçapão que dava acesso à cave e que se encontrava sob os seus pés quando entraram pela porta principal. O dito cujo estava tão perfeito que nem às tábuas se encontrava emenda! Também foram cheirar à padaria. Mas aí toparam apenas rapaduras de massa e alguns alguidares de Nantes com fermento para a levedura da próxima fornada! Porém, esta ação de fiscalização teve os seus efeitos. Carlão temeu pela sua liberdade e deixou de arriscar tanto, pelo menos nos moldes em que o fazia.

 

A uma das famílias pobres que o casal ajudava pertencia o tal Marcelino Pão e Vinho. Ele era conhecido pelo acrescento não porque tivesse a ver com o filme que os espanhóis haviam de rodar em 1955, baseado na obra de José María Sánchez, mas porque o moço, com os seus dezasseis anos, se gabava de sobreviver tão-somente com uma côdea de pão e um caneco de tintol. Carlão tratou de o empregar para engendrar uma outra maneira, mais segura, de continuar o tal negócio. Falou com seus pais. O que Marcelino teria de fazer era andar de noite pelas aldeias, recolhendo o cereal negociado por baixo de mão com os lavradores nos dias de feira. A única condição que lhe impunha era a de que nunca dissesse, caso fosse apanhado, para quem trabalhava. Como paga encher-lhe-ia a casa de pão cozido e oferecia-lhe a montada no fim da campanha.

 

Aceitaram!

 

Ao lusco-fusco seguia para as aldeias, visitando os clientes que o patrão lhe indicasse. Chovesse que nevasse, pela madrugada regressava com os alforges cheios. Durante o dia ajudava na panificadora e em casa. Peneirava, amassava, tendia, aquecia o forno, enfornava e até debulhava as batatas se preciso fosse!

 

Andava como um sino naquele mester! Papo cheio, d’acavalo para aqui e para acolá. Que mais queria?! A mula fartava-a nas bordas do Tabolado. Depois do serviço acomodava-a nos fundos da oficina de mestre Carlão. A coisa estava a correr bem para ambos os lados. O forno da Marquinhas da Mó fumegava noite e dia. Saía tanto pão pelas senhas do racionamento como pela tal porta do cavalo. Mas, como não há bem que sempre dure, um dia a coisa deu no olho!..

 

Anoitecia com a promessa de chuva grossa anunciada por nuvens negras trazidas pelo vento galego. Corria o mês de março de 43. O Tâmega ia grosso pelo inverno chuvoso daquele ano. O Marcelino aparelhou a mula. Nessa noite tinha muito caminho para calcar e íngreme. Mestre Carlão havia negociado cinco arrobas de trigo com o senhor Antoninho Moreiras do Carregal. Dezassete quilómetros Brunheiro acima e outro tanto ó p’ra baixo esperavam o coiro do Marcelino e os cascos do muar. Para o caminho, botou ao bornal um carolo de centeio e pendurou às costas uma bota de viño do de Anelhe. Para riba foi montado na besta, para baixo à pata. Chegou pela meia-noite a casa do Ti Moreiras. Ajeitou o saco de serapilheira sobre a albarda da mula e à pressa mastigou uma lisca de presunto. Botou abaixo uma pichorra do de Cova do Ladrão e ala que se faz tarde, Brunheiro abaixo!

 

Chegou à cidade pela aurora. Fez-se à ponte de Trajano. Estava deserta. Quando ia a meio do tabuleiro aproximaram-se, a galope, vindos do Arrabalde, dois Guardas da Nacional Republicana. Cercaram-no, perguntando-lhe:

 

 Que leva bocência em cima da albarda dessa mula?!

O Marcelino, habituado às curvas da vida, não se intimidou e respondeu com ar de desprezo:

 

― São rosas senhores, são rosas!

 

Os Republicanos, não gostando da brincadeira, preparavam-se para apear de cassetete em punho para umas arrochadas. A mula do Marcelino, imobilizada junto às grades da ponte, derriçava nas ervas da borda do passeio. Antes que os guardas se arreassem dos cavalos, o Marcelino, vendo a sua boa, vai-se à mula e espeta-lhe a ponta da navalha antre coxas. A coitada, quando sentiu a naifada, protestou num arraial de cracóvios, de zurros e de parelhas! E tinha razão! As montadas dos Guardas assustadas, levantaram-se nas patas da frente e espetaram os ditos cujos com os cornos no rio. Livres do contrapeso, fugiram daquela alma do diabo, à toda, para os lados da Madalena!

 

Dos guardas nunca se avezou qualquer notícia! A última vez que Marcelino os viu arfavam como sapos à tona da corrente do Tâmega, agarrados aos ramos dos amieiros das bordas do Jardim Público. Estou que para além da molha e do cagaço, nada de mal lhes teria acontecido!..

 

Sei é que o saco do trigo foi parar, direitinho e intacto, à cave do Carlão!

 

Sei também que o Marcelino, montado na mula, pôs-se ao fresco para Tamaguelos, ainda nessa manhã. Por lá se quedou até que o incidente foi esquecido.

 

Regressou já muito depois do fim da guerra para nos contar a sua estória!

 

Gil Santos

 

[1]Cf. http://migre.me/vXMLF, em janeiro de 2017

 

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 01:30
link do post | comentar | favorito
|  O que é?
Sexta-feira, 7 de Abril de 2017

Discursos Sobre a Cidade

SOUZA

 

POLÍTICA, EMOÇÕES E MUDANÇA

 

Os «motores» dos aparelhos partidários e dos diferentes movimentos de cidadãos estão começando a «aquecer» para o próximo «embate» eleitoral - as eleições autárquicas.

 

Embora, por decisão pessoal, estejamos afastados da luta direta pela disputa dos lugares nos diferentes órgãos autárquicos do nosso concelho, tal circunstância não nos inibe, muito pelo contrário, que façamos uma pequena reflexão e teçamos algumas considerações, sobre a luta política que aí vem, para aqueles leitores que nos leem e se interessam pelo fenómeno político e as suas pelejas eleitorais.

 

Temos vindo dizendo, ao longo dos nossos escritos, e particularmente nesta rubrica Discursos sobre a cidade, que falta a Chaves - cidade e seu Município - uma visão de futuro que galvanize os flavienses e os faça «arregaçar as mangas» para as tarefas ingentes de um novo porvir.

 

Independentemente das diferentes personalidades e competências, que vão estar, até perto do final do ano, no palco da luta política para os órgãos autárquicos, exige-se lucidez, atenção à noção da realidade que nos cerca, dos interesses e necessidades sentidas pelas populações e pelo território que elas habitam. Sabendo que o espaço de manobra que as autarquias têm é muito curto e estreito, problemático e não isento de dificuldades.

 

Em primeiro lugar, pelos enormes constrangimentos financeiros, particularmente a difícil situação financeira do Município de Chaves. Em segundo lugar, pela periférica e interioridade em que o concelho se encontra. O modelo de desenvolvimento que, nas últimas décadas, temos seguido em Portugal, abortada a regionalização e frustrada a construção de Cidades Médias, capazes de reter os fluxos migratórios das gentes do meio rural para as cidades do seu hinterland, a hegemonia do económico sobre a função política, quer a nível internacional, quer europeu, quer nacional, levou a que o fenómeno da globalização, de cariz neoliberal, lançasse a maioria dos nossos jovens, e promissores recursos humanos, para as áreas metropolitanas do litoral do país e, muito mais grave ainda, para a eterna diáspora a que desde a época de Quinhentos nos habituámos, descurando-se, assim, a valorização do nosso «terrunho». Em terceiro, e último lugar, face ao pano de fundo assinalado, subjaz a questão crucial a que os intervenientes na luta política autárquica se devem preocupar: como darmos esperança e desenvolver um território praticamente deserto no meio rural, onde os seus «maiores» - poucos já, infelizmente -, que aí se encontram, se limitam a aguardar pela sua «última chamada», e uma população citadina, sem engenho e arte, descrente, e incapaz de encontrar soluções que concitam uma melhor qualidade de vida para as suas gentes, limitando-se, quem nos representa, muitas das vezes, a delapidarem recursos financeiros, em fazer e desfazer obras, sem que se vislumbre qualquer objetivo e estratégia credível para o futuro.

 

Esta realidade, que sucintamente acabamos de referir, é dura. Muito dura. Simplesmente, na luta que aí vem, vai passar um pouco ao lado da retórica e dos discursos que os diferentes «quartéis-generais», em termos de campanha, estão preparando.

 

Há que lutar, segundo Josep Ramoneda, para que os partidos políticos e seus agentes interiorizem o cumprimento de três das suas principais funções: a de representação efetiva dos seus representados, que não a de interesses económicos que, muitas vezes, lhes andam aliados, bem assim a da suas cliques partidárias; o recrutamento de quadros competentes para governar e, por último, o reconhecimento dos cidadãos, não como simples figurantes no palco da política, mas como autênticos atores políticos.

 

Daniel Innerarity, na sua obra A Política em Tempos de Indignação, a certa altura, adverte-nos que não nos devemos admirar pelo facto de a política estar cheia de retórica, quiçá perto da dissimulação e demagogia. Na verdade, diz, não podemos confundir política com ciência, pois, enquanto a ciência procura a verdade; na política, o jogo é o que que é mais correto, oportuno, justo, viável, económico, etc.. E adianta que “a verdade só tem lugar na política no seio de uma pluralidade de valores em conflito dentro do qual se decide o que é que é correto”, sendo, por isso, natural que os diferentes agentes e atores políticos avaliem de modo diferente os mesmos factos e, consequentemente, cheguem a conclusões diferentes (não da verdade) mas daquilo que é correto, de maneira também diferente.

 

Innerarity afirma que a questão da verdade ou da mentira não passa de “uma embrulhada [no campo político] formada pela cumplicidade de alguns políticos hipócritas, uma cidadania que nem sempre quer que lhe digam a verdade e uns meios de comunicação que dariam cabo de quem dissesse a verdade”. É, por isso, que este contexto obriga a que, permanentemente, os políticos estejam à defesa e a movimentarem-se na ambiguidade e na polarização de posições, tanto mais que, principalmente os meios de comunicação social, praticamente não oferecem espaço para a discussão equilibrada, “seduzidos como estão por aquilo que gera escândalo e dissensão”.

 

O que podemos e devemos esperar dos discursos e propostas dos nossos políticos (e candidatos a políticos) é algo, no nosso entendimento, mais exigente do que ouvir a verdade, outrossim qual a mensagem de esperança?

 

Na campanha eleitoral que se avizinha, esperamos que os nossos políticos (e candidatos a cargos políticos autárquicos), nas suas diferentes retóricas, tenham em conta, essencialmente, uma coisa: independentemente das propostas ou soluções que acharem as mais convenientes e corretas para as nossas gentes e o desenvolvimento do nosso território, que saibam agir com emoção, usando o valor dos sentimentos das pessoas para lhes concitar esperança nas suas vidas.

 

É necessário que os sentimentos, as emoções e a política não se excluem e que estejam ao serviço da renovação da democracia, tanto mais que as autarquias, e os seus representantes, são os que mais perto estão das respetivas populações e dos seus efetivos problemas de vida.

 

Estamos com Innerarity quando diz que “a política e o sentimento não se excluem mutuamente”, muito pelo contrário. As emoções estão presentes em todos os âmbitos da vida e em todas as ações. Como o nosso grande cientista António Damásio diz “não há conhecimento sem emoções”. Os sentimentos e a racionalidade não são qualidades que se excluem. Ambas são práxis sociais e ambas são formas específicas de conhecimento. Os sentimentos não são reações com origem no mais profundo e irracional das pessoas e que irrompem daí para o espaço público. Os sentimentos não podem ficar enclausurados numa esfera privada. A esfera pública é também um âmbito igualmente legítimo para exibir emoções. Sem populismos, sectarismos e (pseudo) políticos carismáticos.

 

Os contendores vencedores no próximo combate autárquico serão aqueles que, para além das suas propostas, consideradas pela maioria as mais corretas, atendendo aos enormes constrangimentos e bloqueios a que Chaves e o seu concelho está sujeito, forem capazes de, sobretudo, mobilizarem para o seu campo, a maioria dos recursos emocionais das pessoas, combatendo os seus medos e dando-lhes esperança.

 

Só com esta estratégia é que a retórica política será eficaz, canalizando as emoções sociais, tornando-as construtivas.

 

Esperamos, sinceramente, que os nossos políticos e candidatos a autarcas sejam capazes de ocupar efetivamente o espaço público, saírem das quatro paredes das suas estruturas, transformadas em salão para intelectuais ou, tantas vezes, pseudointelectuais. E, sem encenações populistas, saiam às ruas da cidade e entrem pelos campos das aldeias, descendo até ao coração das pessoas, levando-lhes uma nova mensagem, uma nova esperança, rumo a uma verdadeira mudança.

 

O que aconteceu no passado não muito longínquo, no nosso concelho?

 

Não ganhou o populismo e a arrogância.

 

Ganhou quem, ao sol e à chuva, ao frio e ao vento, de noite e dia, soube sair do conforto dos seus sofás e, pela cidade e pelos campos, batiam à porta das pessoas, ou iam ao seu encontro, nos seus lugares de «culto» e, num aperto de mão, ou num abraço, olhos nos olhos, com a sua retórica e propostas lhes inspiravam confiança.

 

E ouvia-se dizer pela cidade e nas nossas aldeias: ”aqueles são «bons» rapazes. Vou votar neles!

 

Independentemente do cabal cumprimento das três funções políticas acima enunciadas, é preciso trazer de novo para a política a verdadeira e positiva dimensão dos sentimentos e das emoções.

 

Com elas, a competência, os valores, as convicções, as esperanças, e o que é mais correto para as pessoas e para as suas terras, tornam-se mais percetíveis e humanamente mais credíveis.

 

Só assim é que a mudança, a verdadeira mudança, acontecerá!

António de Souza e Silva

 

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 01:24
link do post | comentar | favorito
|  O que é?

.Fotos Fer.Ribeiro - Flickr

frproart's most interesting photos on Flickriver

.meu mail: blogchavesolhares@gmail.com

.Dezembro 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9


19
20
21
22
23

24
25
26
27
28
29
30

31


.pesquisar

 
ouvir-radioClique no rádio para sintonizar

 

 

El Tiempo en Chaves

.Facebook

Fernando Ribeiro

Cria o teu cartão de visita Instagram

.subscrever feeds

.favorito

. Solar da família Montalvã...

.posts recentes

. Discursos Sobre a Cidade

. Discursos Sobre a Cidade ...

. Discursos Sobre a Cidade

. Discursos Sobre a Cidade ...

. Discursos sobre a cidade ...

. Discursos sobre a cidade ...

. Discursos sobre a cidade ...

. Discursos sobre a cidade ...

. Discursos sobre a cidade ...

. Discursos sobre a cidade

. Discursos Sobre a Cidade

. Discursos sobre a cidade

. Discursos sobre a cidade

. Discursos Sobre a Cidade ...

. Discursos Sobre a Cidade

blogs SAPO

.Blog Chaves no Facebook

.Veja aqui o:

capa-livro-p-blog blog-logo

.Olhares de sempre

.links

.tags

. todas as tags

.arquivos

. Dezembro 2017

. Novembro 2017

. Outubro 2017

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

. Novembro 2005

. Outubro 2005

. Setembro 2005

. Agosto 2005

. Julho 2005

Add to Technorati Favorites