Sexta-feira, 7 de Junho de 2013

Discursos Sobre a Cidade - Por Francisco Chaves de Melo

 

Um verdadeiro “paisagista”.

 

A qualificação estética e ambiental dos espaços ribeirinhos do Tâmega, pode afirmar-se hoje, foi o maior legado que o Presidente da Câmara, Altamiro Claro, ofereceu à cidade de Chaves e aos seus moradores. Felizmente, durante o Governo de José Sócrates, foi possível ver a Cidade engalanar-se como nunca. Na altura, recuperar a urbanidade com intervenções estruturantes no tecido urbano consolidado mostrou-se um caminho que hoje os cidadãos não se cansam de percorrer.


Tinha-se na altura a perfeita consciência de que a gestão do PPD, que antecedeu a Câmara socialista, não ligava aos aspectos essenciais como a qualidade de vida dos flavienses, nomeadamente, a valorização de percursos pedonais e a implementação de espaços verdes para descanso e defesa ambiental adequadas à exigente população de Chaves. Sem dúvida que este investimento contribuiu para um engrandecimento da Cidade, pois, para além da valorização estética, não deixou de ter em atenção a articulação funcional do conjunto das estruturas da cidade.


Está agora à vista de todos que a dinâmica daqueles tempos foi sendo consecutivamente desbaratada pela nova gestão camarária. Esta, sabemos agora, foi perdulária com a herança recebida, gastou, voltou a gastar e, hoje, pode dizer-se, como o povo diz “passaram tudo a tabaco”.


O resultado está à vista: o centro histórico caminha para o esvaziamento e a degradação; o já romano “centro cívico” está a perder conteúdo urbano, o cineteatro, alvo de promessa política fantástica na última campanha eleitoral do PPD, não arrancou. Como o povo diz, gastaram em projetos, mas não conseguiram arranjar um cêntimo para iniciar a obra. É caso para dizer que a mentira tem as pernas curtas. Contudo, como todos sabemos, ela regressa! Claro que travestida!


Afirma-se “ a Verdade”! E praticar, pratica-se?


Ninguém consegue agora negar que o centro tradicional perdeu importância (e os comerciantes o seu ganha pão), o que sob o ponto de vista económico e social é uma catástrofe para a cidade.


Falta à gestão autárquica projecto, visão de futuro, arrojo, capacidade negocial, no sentido de reforçar a nossa Cidade como espaço de vida comercial, lúdica e cultural. Estão, ou não, os dirigentes autárquicos parados no tempo, fora da realidade?


Trata-se agora de preconizar intervenções prioritárias de requalificação do tecido comercial da cidade, de dotar o espaço público de atratividade para os negócios e a criação de emprego associada.

Se assim não for, mais vale que a Câmara se prepare para o contínuo decréscimo de residentes. Isso sim, será motivo de preocupação para todos pois. Com as despesas que acumularam, com os juros e as amortizações das várias dívidas, os poucos que cá ficarem que se preparem pois, o preço da água, do IMI, da recolha dos lixos, entre outros, será um inferno. Mas sobre isso, que não é “paisagismo”, não dizem nada.

 

 

Francisco Chaves de Melo

 

 

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Sexta-feira, 17 de Maio de 2013

Discursos sobre a cidade - Por Gil Santos

 

O vendedor da banha da cobra

 

Juventino de sua graça, levava uma vida flauteada!


De borgeço nada tinha, pelo contrário! Era senhor de uma lábia descomunal. Engrampava o mais pintado!


Cirandava de feira em feira, por esse país afora no seu Citröen Big Fifteen, impingindo a banha da cobra. À quarta não perdia a de Chaves!


Bem parecido, o Juventino possuía um invejável porte atlético. Trajava quase sempre de negro. Casaco lustrado, camisa de colareta, colarinho postiço engomado, calça de risca ao fundo e polaina branca. Calçava bota fina e na cabeça um chapéu de feltro às três pancadas, comprado no mestre Alves da rua Direita.


Lesto no gesto e franco na rima, era dotado de um olhar fuzilante, quase mítico, que inebriava qualquer mortal que se dispusesse a fitá-lo. Cultivava um bigode à Salvador Dali e uma barbicha rala, que lhe emprestavam o ar misterioso que convinha ao ofício.


Pernoitava onde calhasse e ninguém sabia de onde vinha ou onde pendurava o pote! Conhecia Seca e Meca, onde comer à tripa forra, onde a pita punha fora, onde se encontravam as fêveras mais tenras e de melhor tempero e as melhores arganas do bacalhau da Noruega. Enfim, conhecia os mais recônditos lugares que lhe faziam a vida bela!


Contudo, a cidade das águas de Flávio era a sua verdadeira paixão.


Na princesa do Tâmega aparcava o Big Fifteen onde o povo se juntasse. Escancarava a mala de cartão sobre o tejadilho do carro. Emplouricava-se numa banca de três pés e dava início à sua saga. Assim rezava:


− Ó meu pobo, chigou o Juventino, trago aqui romédio, p’rá menina e p’ró menino!


Chegaide-vos ó p’ráqui e topai cura p’ró mal, tanto faz seja de gente, como de qualquer animal!


Reco, reca, cabra ou burra, cabalo baquinha ou touro, cristão de Nosso Senhor ou mesmo até se for mouro!


Tenho dentro desta mala, feito do unto da cobra, um romédio milagroso, que bos cura até a sogra!

E se não acreditaides, povo da minha afeição, chegaide-bos p’rá minha beira, que bos dou a explicação!


P’rás impiges, p’ró mau olhado, ou para um pé todo cagado! P’rás doenças do miolo, ou mesmo p’rá ranheira, esta pomada marela cura até a caganeira!


P’ró saramplo e p’rás bexigas, mesmo até p’rá escarlatina, a desta lata bormelha, é p’rás regras da menina!


Tem a espinhela caída e não sabe o que fazer? Pegue lá, lebe lá esta, que melhor não pode haber!


Comeu, ficou enfartado, é achacado à lombriga, tome então esta latinha, para esfregar a barriga!


Doem-l’as cruzes, o peito, tem pisaduras, berrugas, lebe esta pomadinha, que lhe ebita as sanguessugas!


Tem tremuras e arrepios, peida que nem um boubelo, esfrague então a suas nalgas com este frasco marelo!


Torcicolos, urticária, febre dos fenos, malária, dor de corno ou artrose, saro até a esquelerose!


E mesmo até que à distância, os seus olhos beijam mal, esfrague a menina do olho com o unto deste animal!


Tem insónias, dói-lhe a brilha, caga fininho albezes, tome este romédio santo, que lhe engrossará as fezes!


Tem dor de dentes, ou nerbos, sonha e não queria sonhar, masture este pó com áuga e beba antes de deitar!


Sofre de entorses, terçolhos, nascem-lhe crabos na mão, o romédio é milagreiro, p’ra calquer aflição!


Tome lá pau-de-cabinda, desta caixa cor da prata, masture num copo de tinto, e furará uma lata!


Mija às pinguinhas, nos socos, tem convulsões ao dormir, esfrague no peito a pomada e escusa de se afligir!


A sua filha emprenhou… ó que sorte do catancho, esfrague-lha a bouba com esta, terá logo um desmancho!


Os romédios milagreiros que estou aqui a bender, não custam quinze nem binte, olhe nem dez, benha ber!


Lebe dois, pague só um, estou aqui é p’rá desgraça, e quem quiser levar cinco, ofereço dois e de graça!


Pegue lá meu caro amigo, e outro p’rá’quele senhor, binde pobo, binde todos, pois sois bós o meu pinhor!


E por aí fora!..


A verdade é que vendia quanto levava e quanto mais tivesse!..


O sucesso era tanto e as reclamações tão poucas, que um dia, nos Santos, em plena feira do gado, fez o negócio da sua vida. Assim se conta:


A feira do gado nos Santos, como todos devereis saber, tinha lugar no terreiro do Tabolado e fazia-se a 31 do mês de outubro de cada ano. Portanto, todo o agricultor ou negociante que aportasse à cidade das bandas da margem esquerda do Tâmega, nomeadamente das aldeias do Brunheiro, tinha, inevitavelmente, de atravessar o Tâmega pela ponte de Trajano. Muitos, indo manso o rio, venciam-no pelas poldras que sempre ficava mais perto. Mas só gente, pois os animais não se atreviam a tal façanha. Fora isso, eram largas as centenas que atravessavam a ponte romana todos os santos dias para se fazerem à baixa da cidade.


Certa ocasião, pese embora o Juventino não ser dado a grandes literaturas, pegou, por mero acaso, num velho alfarrábio de história que topou no quarto de numa pensão rasca em Braga. No cartapácio leu que na ápoca medieval, quem quisesse atravessar o Cávado pela velhinha ponte de Prado, ainda que fosse peregrino dos Caminhos de Santiago, teria que pagar uma certa quantia de portagem.


Esta ficou-lhe na ideia!


Assim, numa bela manhã de um 31 de outubro, na dita feira do gado, montou o estaminé ali pela foz do Ribelas, junto a um dos poços das águas cálidas, como habitualmente. Puxou da sua lábia de artista e ainda a manhã não tinha acabado e já o produto estava esgotado. Era a maré propícia ao negócio que há muito sonhava, mas que nunca tinha tido ocasião de realizar. O dia era azado, uma vez que os feirantes tinham os bolsos bem forrados de notas de cem mil réis.


À sua volta, ainda se encontravam alguns matarruanos negociantes, escravos genuínos do vil metal. Verdadeiros mãos-de-vaca, estavam a pedi-las!


Entre o escasso povo, encontrava-se o Terebentino de S. Cibrão, conhecido pela nomeada de caga notas. Homem feito de grossa casca, cismava-se o melhor negociante do Planalto. Gabava-se mesmo de nunca ter sido enganado por ninguém. E cheirando-lhe ao pilim estava lá, qual abutre à roda da carniça.


O Juventino tirou-lhe as medidas e, adivinhando-lhe o bolso untado, lançou a isca:


Binde cá amigos meus, bou-bos agora oferecer, um negócio sem igual, não debeis de o perder!


Não é casa nem é bouça, o que bos quero bender, é simplesmente um negócio que vos fará enriquecer!


Bós bem me conheceis, não estou aqui p’ra inganar, ficará home rico, quem isto quiser comprar!


Quem bier da Madalena, terá que atravessar o rio, de berão fá-lo a báu, de inberno não que está frio!


E se cada um que quiser, a ponte atravessar, tiber à sua antrada uma maquia a pagar?


O dono que for da ponte, home rico há de ficar, e verá a sua conta, dia a dia a aumentar!


E nem que seja um vintém que tenha de se pagar, em apenas cinco anos, é dinheiro até fartar!


Tráz-bos atão o Juventino, um negócio do catano, pois olhai bou-bos bender aquela ponte de Trajano!


Custa apenas trinta notas, e é só p’ra quem quiser, se não fico eu com ela, e é p’ró que der e vier!


Para atiçar o negócio, um seu compincha, de vaquinha, apressou-se a mandar:


Dou-le vinte e cinco notas pela ponte de Trajano!


− Não bendo amigo meu, tem de dar trinta notinhas, isto aqui não são esmolas, que bocê dá às alminhas!


− Trinta notas não le dou, quer binte e sete por ela?


− Amigo, eu não la bendo, por esse preço é não, quem dá binte sete dá trinta, é negócio de ocasião!


O lapardana do caga notas, já tinha feito as necessárias contas de cabeça! O negócio parecia-lhe imperdível. Estava ceguinho como um pincho com o grilo na pescoceira!


− Olha ser dono da ponte de Trajano e poder cobrar por quem a usasse… Fosca-se, é um negócio da China, e nunca tinha pensado nisto. – cogitava Terebentino.


− Vinte e oito dou-los ou! − Mandou sem hesitar!


O da vaquinha atacou com vinte e nove.


O caga notas fechou com as trinta notas do combinado.


Que viesse pelos papéis na próxima feira, que estaria tudo conforme!


Assim foi, passou-lhe as trinta notas de cem mil réis para a mão.


Permita-se um breve parêntesis: uma junta de bois galegos, taludos, custavam, à época, menos de uma nota de cem!


O Juventino, com o pilim no bornal, arrumou a trouxa e pôs-se a milhas.


O Terebentino foi festejar com os amigos para o bar Aviz.


Os descendentes do mão-de-vaca ainda hoje sonham em cobrar uma portagem a quem passe pela “sua” ponte de Trajano.


Sim, porque o caga notas, logo que deu pelo logro, correu, até ao fim dos seus anos, todas as feiras do país à procura do salafrário. Nunca do Juventino avezou a mais precária informação!


Finou-se com o desgosto!


Bem feito, digo eu, pois só um lapouço é que cria poder comprar a milenar menina dos olhos da augusta Aquae Flaviae!


E o leitor pensará:


− Bem mou finto!


E eu, que escrevinhei esta estória, respeito!


 

Olhai que sempre há cada borgeço neste mundo!

 

publicado por Fer.Ribeiro às 03:00
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Sexta-feira, 10 de Maio de 2013

Discursos sobre a cidade - Por Isabel Seixas

 


Banco de jardim

 

Sentada no banco de jardim

Com o tempo emonado

Nem sei de ti nem sei de mim

Nem desta terra, ao fim e ao cabo…

 

Afinal não é jardim

Nem banco

Nem canteiro

É um vaso só pousado

Já sem flores…

Todas hão murchado.

 

Mandaram embora o jardineiro

Disseram-lhe agora é assim

Emigrou o nosso dinheiro

Faça-se à vida ou é o fim…

 

Sem emprego mas cansado

Sem esperança nem ordenado

Pela pátria abandonado

Emigrou pra todo o lado

 

 

Ficou na vala comum

Do povo e trabalho duro

Sem acreditar em nenhum

Que prometa a luz no vão escuro…

 

Esperai por mim poldras e pontes

Ar puro serras e montes

Esperai por mim meus amigos

Das muralhas castelos e abrigos

 

Esperai por mim

Que eu volto sempre, ao meu banco de jardim…

 

De pé

Espero por ti e por mim

Para nos sentarmos juntos no banco de jardim,

Até…

 

Isabel Seixas



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Sexta-feira, 3 de Maio de 2013

Discursos Sobre a Cidade - Por José Carlos Barros

 

ATÉ NÃO FICAR NINGUÉM

 

José Carlos Barros

 

 

Nas pequenas cidades e vilas da província, nas aldeias dos concelhos rurais, incide o mapa de desistirmos de ser um país. Encerram-se, conforme os casos, as escolas primárias, os centros de saúde, as urgências, as maternidades, os tribunais, as finanças, os troços periféricos dos caminhos-de-ferro. E, por arrasto, os restaurantes onde os funcionários do tribunal almoçavam durante a semana, a taberna, a pequena loja de pronto-a-vestir, os cafés onde se tomava a bica depois de almoço ou se bebia uma imperial ao fim da tarde. É toda uma sociedade e é toda uma economia, já de si frágeis, que se desmoronam como se decidíssemos, por inércia, que uma parte substancial do país deixou de valer a pena.

 

Mais ai de quem levante a voz ao governante da tutela que risca mais um serviço público do mapa: incha, toma a palavra e saca de imediato de um Relatório Técnico, como antes se sacava de um pistolo, a apontar-nos à cara as evidências. E os relatórios são evidências cientificamente irrepreensíveis.

 

Lembro-me, em criança, de discutirmos um qualquer estranho fenómeno e andarmos às turras do pode-não-pode-ser. Até que alguém dizia: «mas isto está provado cientificamente». E se estava provado cientificamente é porque era verdade e acabava a conversa.

 

Pois também estes relatórios são científicos. E tão científicos que se baseiam na matemática e na estatística. Ora, como sabemos desde os bancos da escola, contra a matemática e a estatística – couves.

 

E como se fazem e de que constam estes relatórios?

 

A Fulano, 24 anos, média de quinze no curso de Gestão da Católica, assessor do Secretário de Estado, pede-se que faça um relatório sobre o Centro de Saúde da vila Tal. O jovem assessor mune-se dos números das consultas-dia e dos utentes-dia nas urgências, mete-os no Excel e elabora uns gráficos de barras com as modas e as médias. Depois faz as contas aos ordenados do pessoal auxiliar, dos enfermeiros, dos médicos, e aos custos das compressas, do Voltaren, da água canalizada, da electricidade e de manutenção do edifício – para concluir, a negrito, que cada utente do Centro de Saúde da vila Tal, perdida no meio dos montes, desertificada, já quase sem ninguém, custa aos cofres do Estado aí umas vinte e seis vezes mais do que um utente do Centro de Saúde Tal e Tal localizado em Lisboa nas Avenidas Novas. E encerra-se a unidade.

 

Dividindo um pequeno valor da despesa por um número muito pequeno de pessoas – pode, ainda assim, obter-se como resultado um valor relativo com alguma dimensão. E contra o princípio do consumidor-pagador, que se baseia em valores assim relativos – couves.

 

O Secretário de Estado, quando se vê confrontado com as escassas três ou quatro dúzias de pessoas que resistem e ainda vivem na vila Tal, a reclamarem por lhes fecharem o Centro de Saúde – puxa do relatório do assessor e, sorrindo, depois de gargarejar, dispara: «estão a ver os gráficos? É que os números não mentem.» E a gente encarta o estojo, envergonhada desde logo por saber que a cura de um furúnculo nosso custa vinte e seis vezes mais ao Estado, em termos relativos, do que o furúnculo de um utente da Rua João Crisóstomo – ainda que o furúnculo de um e outro resulte da infecção dos mesmos e exactos folículos pilosos.

 

Claro que ao assessor do Secretário de Estado, a começar pelo Secretário de Estado, ninguém pede um relatório a avaliar a percentagem dos impostos do utente da vila Tal que vai directa ao enchimento do buraco dos prejuízos do Metropolitano de Lisboa ou da Refer. É que os milhões desses prejuízos têm uma natureza diversa: é que aí há um interesse Nacional que subjaz ao buraco. E portanto dispensa relatórios.

 

De resto, dividindo X por muitos milhares, o resultado não é assim tão espectacular como isso do ponto de vista relativo, ainda que o X, que representa a despesa, seja relevante.

 

O utente do Centro de Saúde da vila Tal, que entretanto foi encerrado, para curar-se do furúnculo saía antigamente da aldeia e alugava um táxi. E vá lá agora explicar-se-lhe, não havendo relatório, que além do táxi também contribui com os seus impostos para o pagamento das centenas de milhões de euros de prejuízo das empresas públicas de transportes que servem os grandes centros urbanos – tão a jeito para os utentes dos Centros de Saúde da capital usarem quando se deslocam a curar um furúnculo. Isso sobre o assunto não há relatórios. Não é que o jovem assessor, entusiasmado, cheio de vontade de demonstrar os conhecimentos que lhe justificam embolsar a mensalidade da assessoria, o não elaborasse se assim lho pedissem: mas ninguém lho pede porque esse relatório estropiava as narrativas.

 

E é, portanto, assim: contra as verdades científicas dos relatórios que verdadeiramente interessam – couves. E, portanto, em cascata, em dominó, no interior rural fecha-se um serviço público e depois outro – porque isto do princípio do consumidor-pagador está cientificamente provado que dá contas certinhas. E depois, como já não há escolas nem centros de saúde, nem finanças nem tribunais, nem notariados nem agências bancárias – o último a sair apaga a luz.

 

E, pelo menos, alguém, em silêncio, longe do mundo, enfim respira. Porque pelo menos, não havendo luz, já não se paga a factura da electricidade à EDP – em cujo relatório do processo de privatização o jovem assessor, com média de quinze no curso da Católica, se gaba de ter participado com doze gráficos de barras e a redacção de nove páginas justificativas, demonstrando a relevância para os cofres públicos do encaixe financeiro da operação.

 

publicado por Fer.Ribeiro às 05:07
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Sexta-feira, 19 de Abril de 2013

Discursos sobre a cidade - Por António de Souza e Silva

 

SONHAR, É PRECISO!...

 

I


Tamara_junior, no último Discurso sobre a Cidade, de 2012, no final do seu artigo, reproduzia a minha preocupação sobre a nossa cidade e o seu futuro. E, falando a propósito deste blog (CHAVES), dizia: «Preocupa-me que Chaves não tenha pelo menos um blog que reflita, seriamente, sobre a sua cidade e do que para ela desejamos. Com efetiva e entusiástica participação dos cidadãos, amantes da sua terra e da sua história. E interessados na construção de um outro futuro. Porque, só assim, creio sinceramente, é que a classe política que temos se poderá vir a regenerar».


Foram exatamente estas as palavras que proferi e que tamara_junior fielmente reproduziu. E, naquela altura, tal como ainda hoje, continuo a acreditar nelas.


Perdi já a esperança de a classe política se regenerar por dentro. Está tão afastada da realidade – e tão sedenta de poder – que não vê que há mais mundo para além daquele que pisam. Que outro mundo é possível. E que ela nada faz – ou porque não sabe ou por interesses firmemente instalados – para o modificar.


Por isso é necessário que, para além das manifestações, dos protestos e movimentos de contestação cidadã, a palavra dê lugar à ação, que esta tome a dianteira e a primazia em cada cidadão em concreto. Que a palavra e a ação do cidadão comece na concreta comunidade onde se inscreve e se insere. Que seja uma efetiva realidade. Porque é necessário tirar as pantufas e o robe e sair do sofá, (que nos prende à televisão e às novas tecnologias de comunicação e informação, amolecendo-nos e anestesiando-nos com entretenimentos que nos infantilizam e notícias e comentários de pseudoperitos, que outra coisa não fazem senão nos baralhar), e calcemos as botas e vistamos o fato-macaco para pôr mãos à obra. Porque há mais vida para além da crise. Porque a crise só se debelará com outra vida, o mesmo que dizer, outra visão, outra postura, outros (s) modelo (s) e, quiçá, outros protagonistas.

 

II

 

Sou filho da dita geração dos «baby boomers» dos anos 60 e princípios dos anos 70. Adolescentes em final de ciclo e jovens que fizeram mover a sociedade de altura com a sua rebeldia, lutando por causas, inventores da era da «paz e amor». Que lutavam por projetos culturais e ideológicos alternativos, já lançados na década de 50. E, se é certo que se viveu uma primeira fase de inocência e até de lirismo nas manifestações socioculturais, e no âmbito da política, é evidente o idealismo e o entusiasmo no espírito da luta do povo. A partir da 2ª parte da época, dá-se já o início de uma grande revolução comportamental, rompendo os modelos conservadores em amplos setores, nomeadamente com o surgimento do feminismo e os movimentos a favor dos negros e dos direitos humanos. É também nesta altura que surgem os movimentos de comportamento como os hippies, com os seus protestos contrários à Guerra Fria e à Guerra no Vietname, a que muitos lhes chamaram de contracultura. Para já não falar da Revolução Cubana, na América Latina.


É, manifestamente, o apogeu dos historicamente designados 30 anos gloriosos, que vão até meados dos anos 70. Que a ninguém deixava indiferente quer na música com os Beatles, os Rolling Stones, The Who, quer com a música de protesto de Bob Dylan, joan Baez, Peter, Paul and Mary; o aparecimento do rock and rol; de Elvis Presley; de Bob Marley; o Festival de rock Monterrey Pop Festival ou Festival Pop de Monterrey, na California, onde se estreia Jimi Hendrix, Big Brother e Holding Company, com Janis Joplin e Otis Reding; o aparecimento do primeiro álbum dos The Doors - «Light my Fire» e, já no final, em 69, o festival de Woodstock; é o aparecimento da televisão a cores; dos filmes de autores como Jean-Luc Godard, Frederico Fellini, Michelangelo Antonioni, Peter Fonda, Stanley Kubrick; das grandes atrizes e atores como, nomeadamente, Jean Seberg, Anouk Aimée, Anita Ekberg, Brigitte Bardot, Audrey Hepburn, Jane Birkin, Catherine Deneuve, Jane Fonda, Dustin Hoffman, Jack Nickolson, Marcello Mastroianni; são os filmes Blowup, Belle de Jour, Easy Rider, Barbarella, entre muitos outros. São os anos (abril de 61) em que o cosmonauta Yuri Gagarin torna-se o primeiro homem a ir ao espaço e em que o primeiro homem pisa a lua (69), Niel Alden Armstrong. São os anos em que, para mim, adolescente em final de ciclo e da minha primeira juventude, morrem 4 grandes ídolos: Marilyn Monroe (62), cinema; John F. Kennedy (63), política; Martin Luther King (63), líder negro pela defesa dos direitos dos negros e Che Guevara (67), executado na Bolívia.


Os jovens desta geração são influenciados pelas ideias de liberdade «On The Road», livro do beatnik Jack Kerouac, da chamada geração beat, que começa a opor-se à sociedade de consumo vigente.


Foia a partir deste caldo e cadinho de movimentos e cultura, essencialmente jovem, que a sociedade saída dos dois conflitos mundiais se estruturou e desenvolveu. E que nos trouxe também até aqui…

 

III

 

Entretanto a sociedade em que crescemos e nos desenvolvemos era, na sua grande maioria, uma sociedade jovem.


Hoje, mais de 1/5 da sociedade em que vivemos é constituída por pessoas maduras, ditas da terceira idade, entre as quais me começo a incluir.


Somos pois nós a geração dos «baby boomers» que constitui uma grande fatia da sociedade que hoje somos. E, neste correr, uma pergunta me assalta: que é feito dos nossos ideais da juventude, dos nossos valores, da nossa luta, da nossa contestação? Como, e porquê, nos deixámos chegar até aqui?


Emprenhámos, fundamentalmente depois da queda do Muro de Berlim, pela sociedade do consumo; tornámo-nos, com a revolução das TIC (tecnologias da informação e comunicação) mais individualistas, narcisos, acomodados. Deixámo-nos embalar num sonho sem valores e completamente hedonista.


Entretanto os corvos, senhores da alta finança e economia mundial, subterrânea e lentamente, foram-nos "fazendo a cama". E, quando pensávamos que estávamos vivendo um sonho, acordámos de um pesadelo.


E agora, que fazer?


Está bem à vista que não é com os tecnocratas e com os políticos que enxameiam todas as instituições que criámos ao longo destas décadas que sairemos desta crise. A chave está nas nossas mãos. Aliás, sempre esteve!


E, a este propósito, duas figuras/personalidades do final da minha adolescência e primeira juventude, estão cada vez, no meu espírito, mais vivas. Uma, Luther King, pela luta pela igualdade e dos direitos dos negros norte-americanos. Com ele, e como ele, «devemos ter sonhos». Porque sem sonho não há vida humana que se preze. Nem que, por esse sonho, tal como ele, se tenha de dar a vida! A outra figura é John F. Kennedy, não tanto pelo seu exemplo de vida, mas sim pelo seu simples e fundamental pensamento político quando, em campanha eleitoral para Presidente dos Estados Unidos, dizia aos seus concidadãos: «não pergunte o que o seu país pode fazer por você, pergunte o que você pode fazer pelo seu país».


Um exemplo de vida e uma lição política que andaram, e ainda andam, tão arredados do nosso pensamento e da nossa ação, durante décadas, de nós como cidadãos.


Porque se é certo que a política e os políticos são imprescindíveis nas nossas sociedades democráticas, não menos certo que, sem uma verdadeira cidadania, com cidadãos verdadeiramente atuantes e participativos (que não só nos momentos eleitorais) não se constrói sociedade, não há política digna desse nome.


Confiámos demasiado, e durante muito tempo, num estado provedor do Bem-estar social, deixando-o “engordar” demasiado e ser palco de demasiados protagonistas/oportunistas que dele se serviram (e, infelizmente, ainda servem), enquanto nos acantonávamos numa atitude passiva, reivindicadora apenas de direitos e sem quaisquer preocupações de caráter solidário e cívico, que completassem e suprissem as falhas que um estado que se quis todo omnipresente e omnipotente sempre apresenta e não pode suprir. Os resultados estão bem à vista!


Por isso, há que mudar de rumo. Há que voltar a sonhar que uma outra sociedade é possível. Enquadrando, nos seus devidos termos, o papel que cabe ao estado, às instituições da sociedade civil e aos cidadãos. Num diálogo que se deve fazer com caráter de urgência mas, simultaneamente, com a necessária e profunda reflexão que o tema e a situação exige.

 

IV

 

E quem fala do papel do estado – ou da sua redefinição – o mesmo se passa com o das autarquias locais.


Não vale a pena voltar a falar da vergonhosa pseudo-reforma das autarquias que se quedou, simplesmente, na extinção de algumas freguesias. A este tema, já noutro local - http://zassu.blogs.sapo.pt/2655.html - teci algumas considerações.


Queria agora falar das eleições autárquicas que, a passos largos, se avizinham. E gostaria de, a este respeito, formular um conjunto de questões, divididas em quatro temas:

  • Que cidade de Chaves queremos para o futuro, ou seja, com que cidade sonhamos para vivermos e, no futuro, para os nossos filhos? Alguém nos apresentou alguma visão na qual acreditemos e que seja capaz de nos galvanizar e que seja suscetível de nos mobilizar, como flavienses, na sua prossecução? Qual é o discurso reinante dos partidos do arco do poder municipal em Chaves? Promessas? Obras? Empregos? Mas que promessas? Obras para quê e com que dinheiro? E empregos: para quê, com que finalidade, e para quem?

 

  • Falando do mundo rural, parte integrante e essencial da própria natureza flaviense e da sua urbe. Tem sido a nossa ação perante esta parte significativa do nosso território eficaz, no sentido da construção de um mundo rural com efetivo significado para as gentes que nele habitam? Temos a preocupação pela preservação da identidade e da memória de um mundo que foi a razão de ser (e porventura ainda continua a ser) a grandeza da nossa cidade? Que relação intergeracional estabelecemos com as suas gentes? Temos promovido a cidadania ativa e participativa ou, pelo contrário, temos para com estas pessoas uma solidariedade benevolente e pouco promotora da participação da sua população idosa na construção de uma outra comunidade com nítidos proveitos também na construção de uma sociedade flaviense mais dinâmica, quer sob o ponto de vista cultural quer social?

 

  • Que papel efetivo têm, na construção da cidadania e desenvolvimento flaviense, as suas instituições de caráter cultural, recreativo, social, assistencial e económico no concelho? Primam por uma dinâmica própria, autónoma, e as suas ações e atividades refletem o espírito de partilha e de construção de uma sociedade que se quer verdadeiramente livre, democrática e desenvolvida? Ou, pelo contrário, na sua maioria, as suas ações e atividades outra coisa não são, ou representam, senão o braço estendido de um poder tentacular assente nos senhores detentores do poder autárquico e, como tal, dependentes política e financeiramente dele?

 

  • Qual é o perfil dos candidatos que estão prestes a se apresentarem a liderar o nosso concelho? São pessoas idóneas, honestas, honradas, competentes e capazes de pôr a sua terra acima dos interesses do seu partido ou dos seus próprios interesses? São pessoas autossuficientes que acreditam, pela sua ação e influência, serem capazes de desenvolver e mudar o município? Ou, pelo contrário, são pessoas simples e humildes que acreditam só ser possível a mudança e o desenvolvimento se todos nela participarmos como munícipes/atores e, não passando eles (ou elas), e a sua ação, de uma singela, embora importante, intermediação na construção de uma cidade e de um território municipal feito mesmo por todos?

Eis aqui, pois, um conjunto de questões que, reputo, essenciais em termos da dinâmica eleitoral autárquica que se avizinha. Porque estas são as questões que, na minha opinião, são as que importam na hora de escolher um programa (que deve ter necessariamente uma visão e um horizonte credível do que queremos e que, por isso mesmo, desejamos partilhar), uma equipa e um (a) líder.


Será nesta linha pela qual se pautará a minha escolha e, consequente, a minha opção…


E acredito – porque ainda não me esqueci daquilo que foram os feitos da geração que me acompanhou no final da minha adolescência e primeira juventude e que me fizeram homem para a vida – que, no palco da cidadania, seja possível corporizar-se uma nova visão, com novos princípios e novos valores que levem a pôr em prática uma nova metodologia de abordagem e de participação democrática na construção de uma sociedade flaviense moderna, mais desenvolvida, justa e equitativa, no contexto e conserto do território nacional, fazendo jus à sua longa e gloriosa história milenar.


Aprendi, ao longo da vida, que ninguém desenvolve ninguém a não ser nós próprios. Por isso, hoje – ainda mais que nunca – SONHAR, É PRECISO!...

António de Souza e Silva



publicado por Fer.Ribeiro às 03:23
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Sexta-feira, 12 de Abril de 2013

Discursos Sobre a Cidade - Por Francisco Chaves de Melo

 


“O critério da saúde de um governo é, pois, o serviço do interesse geral. O da sua perversão é o primado do interesse particular dos governantes que dificultam a própria finalidade da cidade: o <<viver bem>> em conjunto.”

Aristóteles (384-322 a. C.)

 

 

 

Uma pessoa que governa conforme lhe apraz os que lhe são dependentes, exigindo-lhes obediência passiva convém-nos?

 

Se essa pessoa não tolera que a sua vontade seja contraditada convém-nos?

 

Se os seus olhos viram, se a sua boca relatou, se a sua pena escreveu erros de “lesa-majestade” cometidos por outrem nas mesmas funções, então o que fazer se caiu nos mesmos erros?

 

 

Questiono-vos a propósito da Av. Dom João I (do Raio X para Outeiro Jusão).

Sabeis o motivo pelo qual esta avenida não tem separador central?

Sabeis quem foi que decidiu que esta avenida, projetada para ter duas faixas por sentido tem apenas uma?

É do vosso conhecimento o motivo pelo qual foram plantadas árvores no local destinado ao estacionamento ao longo da avenida?

Disseram-vos quem mandou retirar o separador central?

 

Resposta: Foi a Junta Autónoma das Estradas.

(Dizem-me aqui ao lado que foi António Cabeleira o da ideia de reduzir a Avenida ao mínimo. Digo-lhes que não é possível, que na altura havia muito dinheiro na Câmara deixado por Altamiro Claro, que o país estava ainda bem e que a poupança não era tão necessária como agora com a Câmara endividada até aos olhos)

 

Bem, voltemos ao assunto do <<viver bem>> na cidade. E, viver bem na cidade, é rasgar avenidas em ermos despovoados. Avenidas com 50 metros de largura, separador central de 2 metros, bermas largas à direita e à esquerda de cada uma das duas faixas de rodagem por cada um dos sentidos, baias de estacionamento que dão para veículos e semi-reboques de elevada tonelagem, linha de árvores de um lado e do outro paralelas à avenida sem ocupar os passeios com 5 metros de largura em cada lado da avenida, faixa de circulação de bicicletas ao centro dos passeios. Para tudo ficar bem, foi colocada iluminação urbana neste ermo (dizem-me que com candeeiros luxuosos). Acresce a disponibilidade, a par e passo, de infra-estruturas pré-disponibilizadas para construir uma urbanização de prédios. Claro está que estas avenidas são finalizadas por amplas rotundas no início e no fim.

 

Não pode ser!!! 

 

Na gestão de António Cabeleira nunca tal seria autorizado. Mais, foi provavelmente ele que impediu a despesa na Avenida Dom João I hà 12 anos atrás. Ele não faria agora o que tanto criticou. António Cabeleira não permitiria essa despesa faustosa para servir giestas, raposas e aves. Para servir um local onde não residem pessoas mas que faz sombra a muitas avenidas da capital.

 

Não, António Cabeleira mandaria alargar a rua Joaquim Mazarém em Sta. Cruz/Trindade, onde todos os dias circulam centenas de pais para levarem as crianças da pré e da primária ao Centro Escolar. António Cabeleira resolveria esse problema diário de engarrafamento e estacionamento caótico. Não teria pressa em vender o terreno confinante, sem acautelar área para uma avenida que servisse as crianças da cidade que estudam nessa escola.

 

Dizem-me aqui ao lado para deixar de ser ingénuo, para ver a realidade como ela é. Dizem-me para ir dar uma volta e ver a desmesurada Avenida que se fez do Casino para a Fonte do Leite. Para pôr os olhos nela, e comparar com a Avenida de Dom João I.

 

Vou ver!!

Isso é que vou!

 

Francisco Chaves de Melo

publicado por Fer.Ribeiro às 00:39
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Sexta-feira, 29 de Março de 2013

Discursos sobre a cidade - Por Gil Santos

 

O POÇO DO BELÃO

 

Desde que se descobriram as Américas, uma das principais riquezas do Planalto, para além do eterno centeio, é a batata. O tubérculo, criado na montanha entre as fragas, não tem paralelo no mundo inteiro!


Dizem, com propriedade, que a batata do Brunheiro é a única que se ri quando cozida!


E falo da batata de consumo, porque a de semente, sua irmã, também criada escrava pelos corgos, em apanhando terra gorda e húmida, medra que se farta!


Quase todos de sequeiro, os terrões planálticos são pobres como Jó. Na coroa da serra não se espreguiça rio nem regato, e quem quiser lentura no renovo, para aumentar a colheita, que se desemerde! Abra um poço ou rasgue uma mina que sejam capazes de lhe varar o osso e chegar-lhes à veia. Caso contrário, em anos mais secos, as colheitas estrezicarão à míngua de água.


Ao centeio bonda a água da neve ou a da chuva que Deus manda. À batata também. Mas só para quem se contente com pouco. Quem quiser aumentar o pecúlio que trate de regar!


Fidalgos são os da Veiga que levam a vida derrengando polaina! O Tâmega dá-lhes de beber de graça! Mais ainda desde 1949 com o Açude de Vila Verde.


Da água tratou o Ti Moreiras do Carregal, na campina do Belão. Uma propriedade imensa, constituída por um extenso carvalhal de cuja esgalha se enchia o palheiro para o inverno; por uma touça que dava tojo e sargaço com que se fazia a cama dos animais e se estrumavam as terrinhas de cultivo; por um grande lameiro, guardado para feno pelo S. Brás; por um enorme giestal que o maio pintava das mais alvas cores e por uma terra de lavradio que produzia centenas de rasas de centeio e atulhava o armazém de batata.


O Belão era a menina dos olhos do velho combatente da Flandres, o bem mais precioso que lhe fartava a casa e a cria. Havia, por isso, que o estimar.


Foi nesta senda que se lhe meteu na cabeça mandar abrir um poço que fizesse o renovo mais viçoso. Corriam os anos quarenta.


Justou a obra com o Francisco Mineiro em cinco notas de cem, com garantia de água farta. O especialista, munido de uma gancha de salgueiro, sondou o terreno durante dois dias a fio para dar com o eido à água. O secular detetor inclinou-se quase até ao chão perto de um salgueiro que nascia no centro do Belão. Acertou em cheio na aorta que descia do Cabeço até aos prados de Adães. Porém, levou três longos meses a atingi-la. Até aos dois metros, e enquanto a terra deu em ser mais escura, bem te vai! A partir dali começou a dar saibro cada vez mais duro e pouca água. O desespero era crescente, contudo, passados os 15, a coisa começou a prometer. Aos 18, deu em fraga dura e saltou a dessorar água à fartazana.


Bastava de fundura!


O sucesso foi tal que o patrão Moreiras tratou logo de encomendar, ao mesmo artista, o empedramento do poço, para que não se esbardalhasse.


Mais cinco notas! «Que se cosesse o dinheiro, caraito, o que importava era obra bem-feita!», pensava o anfitrião!


Após mais três meses de labuta, o Mineiro apresentou um trabalho de respeito que ainda hoje pode ser visto!


O catano do poço até metia medo de tão fundo e de tão ancho que era. Mesmo o mais destemido pimpão que se aventurasse a desafiar-lhe as bordas, não evitaria uma tremedeira nas pernas como se estivesse com as maleitas!


Eu mesmo confesso que nunca lhe vi o fundo! Nem mesmo o motor de rega, a vomitar água o dia inteiro, o conseguia escoucar!


Onde acabava o empedrado e começava o saibro duro, crescia um salgueiro bravio no qual o paizinho tinha particular empenho. Até parece que adivinhava (mais tarde se saberá porquê). Certo é que aquela bendita árvore, bem alimentada de água, quase escondia por completo a bocarra do poço, o que o tornava ainda mais misterioso.


Para além disso, mais ou menos a meio, numa frincha entre as pedras, criava um casal de mochos todos os anos. Outro orgulho do proprietário António! De facto, não era para todos poder contar com a preferência da ave da sapiência. Além do mais, dava-lhe um certo gozo poder contribuir para que as noites de lua cheia do Carregal se preenchessem com o misterioso e agoirento pio deste noctívago pássaro. E mais a mais, quem haveria de beber o azeite das luminárias da matriz de Santa Leocádia?..


Poço feito, água a rodos, faltava um engenho que a trouxesse ao batatal. Pensou numa picota, depois numa nora! Porém, ambas as soluções, eram demasiado arcaicas para a visão vanguardista do Ti Moreiras. Lembro que este senhor, sem ser especialmente letrado, já lia o Comércio do Porto que lhe chegava recesso de oito dias. Aliás, foi aí que se deparou com o seguinte anúncio:


Não regue de regador, use antes um motor!

Motor Bernard uma bomba a regar!


Iluminou-se-lhe a alma!


Logo que pôde, encatrafiou-se no Texas em Vidago e parou no Porto. Queimou uma nota de cem na rua dos Almadas. Despachou o Bernard no comboio para Chaves.


Passados alguns dias, recebeu recado que já havia chegado. Jungiu os taludos bois galegos, engatou-os ao carro e tocou para a cidade.


Regressou após um lauto almoço de costeletas em sorça no Sr. Horácio do Tabolado.


Vinha todo croncho com a máquina!


Parou no relógio, em Vilar de Nantes, para o primeiro copo. Juntou logo ali uma dúzia de admiradores. Em Izei, mais de uma dezena, outra no Pêto de Lagarelhos. Em France então foi quase toda a aldeia. No Carregal, nem se fala! Decretou-se até descanso para o dia seguinte por mor de se ver o motor a trabalhar. Tratava-se seguramente de um dos primeiros motores de rega a chegar ao Planalto. Uma coisa que ninguém da aldeia tinha alguma vez visto ou sequer sonhado existir. Por isso, merecia que fosse feriado. Atrevia-me mesmo a dizer que não desmerecia que fosse dia santo de guarda!


Tratava-se de uma máquina enorme e pesada. Nada ficava a dever ao motor da camioneta do Ti Antoninho Morgado de Fornelos!


O Ti Moreiras construíra mesmo uma casa para o acolher no Linhar do Pêto e que ficou conhecida como a casa do motore. Passaria a ser a morada definitiva do Bernard. Ficava por cima de um poço coberto por enormes lajes de granito que servia para regar a horta, a lameira e encher o tanque de lavar. Aí mesmo haveria de ser experimentado pela primeira vez para gáudio da gente da povoação.


No dia aprazado, o povo madrugou e juntou-se, como para uma festa, no adro da capela que era contíguo à casa do motor. Estou que nem a festa do padroeiro S. Bentinho juntara alguma vez tanto povéu!


O Ti Moreiras encheu o depósito do petróleo e meou o da gasolina. Sangrou-o. Meteu a manga no poço e enroscou-a à bomba. De seguida, ferrou o motor. Atarraxou a vela de incandescência, ligou-lhe o cachimbo e com tudo prontinho, encaixou a manivela de ferro no volante, como se fazia para pôr as arrastadeiras a trabalhar antes da descoberta do motor de arranque.


Ordenou ao povo que se afastasse. Deu à manivela com tanta força, mas com tão pouco jeito, que nem o motor pegou nem sequer o volante deu uma volta completa. Tentou segunda vez. Com tal convicção o fez que a manivela, saltando-lhe da mão, foi disparada à cabeça do Gripino. Esmoucou-o, ao mesmo tempo que o Ti Moreiras esfolou os nós dos dedos na pedra áspera do chão. Contudo, nem o Gripino se incomodou com o lanho, nem o Ti Moreiras com a esfoladela! O importante era mesmo que o bichinho trabalhasse!


À terceira foi de vez! O Bernard pegou numa roncadeira infernal. O povo, na expetativa de ver a água a sair, não se continha, soltando expressões de pasmo!


Que maravilha! Uma coisa nunca vista!


A água jorrava cristalina e num caudal apreciável. Tanto que não levou dez minutos a encher o tanque de perpianho.


A experiência estava feita e bem-feita! O motor aprovara!


Para festejar, o Ti Moreiras espargiu figos secos e nozes à rebatina e passou a lingureta da aguardente feita do bagaço das uvas de Cova do Ladrão. Naquele ano era de estalo!


 – Que bebam miúdos e graúdos, festa é festa! – dizia o Ti Moreiras, radiante.


Entretanto, aproximava-se o tempo da rega. Para o efeito, era preciso transportar a avantesma até ao poço do Belão. O Ti Moreiras não perdeu tempo. Também quem sabia fazer tonéis e dornas haveria de dar um jeito a uma carroça que fosse azadinha para o levar.


Meu dito, meu feito!


Botou mãos à obra e não tardou a apresentar uma gerigota carroça escarlate, para atrelar à égua Espuleta. A primeira vez que foi usada resultou tão bem que nem era preciso desmontar o motor para o pôr a trabalhar junto ao poço! Serviço feito, a Espuleta era desatrelada e passava tardes santas pastando à sombra do carvalhido. Que boa vida levava, agora, o animal! Tirando o transporte do patrão para as feiras de Carrazedo ou de Chaves, nada mais fazia do que levar o arcanho para o Belão de manhã e recolhê-lo pelo ocaso.


O batatal até se via medrar!


A colheita de setembro prometia!


O Ti Moreiras, de vez em quando, arrancava um pé aqui e outro acolá para monitorizar a medração. Chegava a contar mais de dez batatas em cada pé e, de uma semana para a outra, quase dobravam de tamanho. De facto, o arranque demonstrou quão eficaz fora o investimento no poço e na rega. Só naquele ano, mais de metade do custo, seria coberto com o acréscimo da produção.


Meteu-se o inverno e com ele o descanso das pessoas, dos animais, das alfaias e das terras. Agora, também do motor.


Chegou o mês de abril. Com ele vieram as águas mil e as primeiras orelhas do batatal. O poço de tão cheio quase transbordava. E mesmo que o verão fosse seco, às batatinhas nunca haveria de faltar o molho.


Assim aconteceu durante alguns anos!


Contudo, a idade não perdoa e o Ti Moreiras, aos setenta, teve de entregar a lavoura ao Fernando, seu filho mais novo, meu ditoso pai.


A partir dos meus cinco anos, muito eu gostava de o acompanhar na rega do Belão! Para além de me sentir um homem grande, ele deixava-me ir em cima da carroça e acavalo no motor. Depois punha-me ao fundo do rego para dar sinal quando a água chegasse. Mal a topasse gritava:


– Torna!


O meu pai virava-a para outro rego. Entrementes, eu cantava tardes inteiras as cantigas da moda, cuja letra se comprava em folhetos aos ceguinhos, no cimo das escadas da velha praça das Longras. Lembro-me da cantiga preferida: ó tempo volta p’ra trás, de António Mourão. O meu pai gostava de me levar. Dizia que o distraia o meu canto de rouxinol!


Fui crescendo e a coisa foi perdendo a graça. Também o corpo já podia com outros trabalhos, pese embora me isentarem quase sempre dos mais pesados.


Teria uns 10 anos, quando, no fim de uma campanha de rega, o Bernard faleceu de acidente. O meu avô António, já muito idoso, teve tal desgosto que pouco mais tempo durou. A estória conta-se em poucas palavras.


Tínhamos lá em casa um estupor de uma égua, a Rola, que tinha um medo inexplicável aos automóveis. Nem precisava de os ver, bastava sentir-lhe o roncar e entrava em pânico. Não importava se estava montada ou atrelada, desinvestia como uma louca campos fora e nem as paredes a detinham. Ora, como para levar a carroça do motor para o Belão era preciso atravessar a estrada nacional, antes de o fazer, era sempre necessário verificar se viria algum carro nas curvas das Padanas, para o lado de France, ou nas do Cabeço, para o lado de Fornelos!


Numa bela tarde do fim de um qualquer junho, depois de dormir a respetiva sesta, decidiu meu pai ir regar para o Belão. Era costume manobrar de marcha à ré para colocar, a preceito, carroça e motor nas bordas do poço. O meu pai, de frente para o dito, deu meia volta ao carro e à Rola e com mão firme, à barbela, foi mandando:


Sasta Rola, sasta! – para a fazer estacionar onde bem queria.


De repente, começou a ouvir-se, ao longe, um ronco surdo de um motor de camião. Era a camioneta das cinco do António Magalhães que fazia a carreira de Chaves a Carrazedo e que, naquele dia, vinha com o escape livre. O som foi-se tornando cada vez mais nítido, até que a égua, apercebendo-se que se trataria de um carro, começou numa agitação incontida a espumar, a remoer os dentes e a querer relinchar!


Temendo o pior, o meu pai tentou sossegá-la e fazê-la avançar.


Não foi a tempo!


Assustada, a besta pôs-se em pé nas patas traseiras. Quando pousou as da frente, recuou com tal impetuosidade que o motor, a carroça e ela própria se precipitaram no abismo.


O motor, pesado, só parou no fundo do poço, onde ainda deve estar. A carroça e a Rola ficaram suspensas nos galhos mais grossos do salgueiro bravo que enraizava nas paredes do poço. O meu pai, muito zangado, ponderou não chamar ninguém e deixar o animal a espernear como merecia! Porém, lá se decidiu e pediu ajuda.


O Carregal acudiu em peso. Com cordas carrais, juntas de bois e a força de braços, lá se conseguiu tirar daquelas proparos o animal e a carroça!


A partir desse dia o veículo teve novo uso!


A Rola foi vendida aos ciganos na feira de Carrazedo.


O motor, jazendo no fundo do poço, nunca seria substituído porque, entretanto, o meu pai mudou de vida. Deixou a lavoura e empregou-se na cidade para dar futuro aos filhos.


O meu avô António faleceu em 1976, quem sabe se de desgosto por ser incapaz de resgatar o Bernard do fundo daquele poço do Belão!


Justificaria, contudo, o empenho que sempre teve naquele bendito salgueiro!

 

Gil Santos



publicado por Fer.Ribeiro às 19:01
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Sexta-feira, 22 de Março de 2013

Discursos sobre a cidade - Por António de Souza e Silva

 


CARTA ABERTA AO SENHOR ARQUITETO CABELEIRA

VEREADOR DA CÂMARA MUNICIPAL DE CHAVES

 

 

Meu caro Arquiteto Cabeleira, Vereador da Câmara Municipal de Chaves:

 

 

Depois de mais de vinte anos na vida ativa político-partidária (dez na oposição e outros tantos na Câmara Municipal de Chaves como vereador – dois mandatos – e mais dois anos como Adjunto do Presidente e Diretor do Gabinete da Cidade, no âmbito do Plano Estratégico da Cidade de Chaves), prometi a mim próprio que deixaria a vida política (partidária) ativa, passando a simples militante de base do Partido Socialista e, unicamente, em termos públicos, as minhas intervenções limitar-se-iam às decorrentes da minha atividade académica, como docente no Pólo de Chaves da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), no Curso de Licenciatura em Recreação, Lazer e Turismo, nas áreas do Planeamento e Desenvolvimento Turístico, ou somente às intervenções puramente de caráter cívico.


Por via desta minha decisão, deixei de fazer parte dos órgãos do meu partido bem assim deixei de participar em órgãos autárquicos, como a Assembleia Municipal.


Encaro a política não como uma carreira mas como um efetivo serviço público prestado pelo cidadão à comunidade em que se insere. E considero que tudo tem o seu tempo, sabendo conhecer a altura de dar lugar a outros protagonistas.


Funciono por projetos, trabalhando com equipas em que acredito.


Esgotado que foi o projeto que levou, pela primeira vez depois do 25 de Abril, o Partido Socialista ao poder autárquico no Município de Chaves, minha missão esgotou-se e, por isso mesmo, vim-me embora.


Como sabe, senhor vereador Arquiteto Cabeleira, como vereador, a minha função não foi fácil. Para além de vereador substituto legal do Presidente da Câmara, tinha sob a minha alçada e responsabilidade os pelouros da Administração Interna, do Planeamento Urbano (área do licenciamento de obras particulares), da Fiscalização Municipal, da Educação e da Cultura.


Norteei-me sempre, nas áreas da minha intervenção direta, por uma isenção absoluta, pela legalidade, pela justiça e pela equidade. E sabe, senhor vereador Arquiteto Cabeleira, que devendo ser esta postura uma atitude perfeitamente normal e absolutamente expectável por todos quantos detêm o poder, nem sempre tal circunstância é tarefa fácil (pois nem sabe quantas vezes tive amargos de boca com alguns militantes do meu partido!).


E admito que, aqui e ali, possa não ter tomado as melhores decisões. Mas creia-me, senhor vereador Arquiteto Cabeleira, que os princípios acima enunciados foram sempre aqueles que, todos os dias, ao me levantar, tinha como meu efetivo dever, como detentor do poder que me advinha da representação que os munícipes flavienses depositaram em minhas mãos, em eleições livres e democráticas.


Não pretendo fazer aqui o elogio da minha atuação como vereador. Compete aos munícipes, que se lembrem da minha prestação, desse juízo a posteriori. Mas sempre lhe direi, senhor vereador Arquiteto Cabeleira, que procurei fazer sempre o meu melhor, repito, com integridade, honestidade, isenção, legalidade, justiça e equidade.


Na área do Pelouro da Cultura e, de um modo especial, nas relações da Câmara com as associações de caráter recreativo, desportivo, sociais e culturais do concelho, procurei, com isenção, não olhando à cor partidária dos membros detentores e responsáveis pelos competentes órgãos de direção e deliberação, propor apoios e conceder subsídios em função de objetivos e critérios concretos, devidamente conhecidos por todos.


Nomeadamente os apoios e subsídios atribuídos às associações de carácter cultural só eram apreciados, e consequentemente votados ou ratificados na Câmara Municipal, sob minha proposta apresentada aquele órgão, nas seguintes circunstâncias:

 

  • Estarem legalmente constituídas;
  • Terem os seus órgãos diretivos e deliberativos legalmente eleitos;
  • Terem as respetivas Contas de Gerência do ano anterior devidamente aprovadas pelos órgãos competentes;
  • Terem Plano de Atividades para o ano em que o subsídio ou apoio era solicitado.

Estes eram os pressupostos, como condição sine qua non, para qualquer apoio ou subsídio solicitado pudesse ser atribuído. E, cumpridos que estivesses aqueles requisitos, o apoio ou subsídio era proposto para ser concedido tendo em conta os seguintes parâmetros:

 

  • Não bastava apenas que as atividades constassem do respetivo Plano de Atividades do ano em que o apoio ou subsídio era solicitado. Aferia-se, também, da real execução das ações e/ou atividades do ano anterior, propostas em Plano anterior, considerando seu efetivo impacto no terreno;
  • E da relevância das mesmas para a dinamização cultural da(s) comunidade(s) do concelho.

Tinha, e tenho ainda, a convicção que não compete exclusivamente à autarquia/Câmara Municipal a dinamização cultural. São as populações e as suas respetivas associações e grupos a quem compete essa tarefa. A dinamização cultural faz-se para eles(as) e com eles(as). Eles(as) têm, assim, a última palavra a dizer.


À autarquia/Câmara Municipal compete-lhe o papel de coordenação e apoio, e, subsidiariamente, de dinamização de áreas ou atividades (necessárias e úteis) que as suas instituições concelhias não consigam levar a cabo, e num determinado momento tidas como oportunas, quer para usufruto (disfrute) das suas populações, quer para projeção do concelho.


Quando assumi o primeiro mandato autárquico, e como responsável pelo setor da Cultura, reuni todas as associações do concelho dando-lhes conta desta filosofia de atuação e, na altura, prometia que iria providenciar, envidando todos os esforços para que as associações do concelho tivessem um espaço seu, próprio, de convivência, partilha e desenvolvimento das suas atividades específicas. Bem como lhes apresentei a minha intenção de lhes apresentar um Programa para que os seus responsáveis dirigentes e/ou associados se pudessem candidatar a ações específicas, quer no âmbito da frequência de cursos de gestão, quer em ações de aperfeiçoamento em áreas necessitadas de dinamização específica.


Por circunstâncias várias, que aqui não vem ao caso escalpelizar, não consegui cumprir com esta minha proposta/promessa. Nem sempre o poder, quando entramos nestas andanças, parece o que é. Confesso que, eventualmente, não tive o engenho, a arte e o saber suficiente para convencer, criar adeptos, e acrescento, sinergias, para levar por diante este meu desiderato. Daí, neste campo, a minha profunda frustração, apesar de muitas outras coisas se terem feito…


Mas creia-me, senhor vereador Arquiteto Cabeleira, face ao que para cima venho dizendo, nunca olhei para os dinamizadores culturais do concelho (individualmente ou em grupo) tendo em conta a sua cor político-partidária. Quando eleitos, a nossa atuação é em prole das populações, de todos, e não do grupo que nos ajudou na conquista do poder. Somos autarcas do concelho. Não somos autarcas de nenhum grupo ou fação.


Daí, senhor vereador Arquiteto Cabeleira, a minha estupefação quanto à postura que teve comigo, numa conversa de corredor, no Pólo de Chaves da UTAD, depois de uma reunião-almoço com a Equipa da Comissão de Avaliação Externa do Curso de Animação Sociocultural.


Estive naquela reunião-almoço de Avaliação Externa do Curso de Licenciatura em Animação Sociocultural não, essencialmente, na qualidade de Presidente da Mesa da Assembleia Geral da Associação de Fotografia e Gravura “Lumbudus” outrossim como orientador de estágio de um aluno do Curso de Animação Sociocultural, membro integrante da mesma. Embora a atividade principal da Associação que representava na qualidade de orientador se dirija para os fans da fotografia (e gravura), tem esta Associação primado pela dinamização de eventos e contribuído para a ocupação dos tempos livres intergerações bem assim na aproximação entre as associações e os povos raianos da nossa área.


E tem sido tal o seu impacto, quer nas redes sociais, onde muitos associados têm ganhos prémios de fotografia, dando a conhecer e promovendo o património e as gentes do nosso concelho, como, inclusive, tem levado quer associados, quer seus amigos e parceiros, trabalhadores que se dedicam ao desenvolvimento comunitário, em associações de desenvolvimento, a frequentarem não só cursos de pós-graduação nas diferentes áreas da Animação Sociocultural, como também outros a frequentarem o Curso de Licenciatura em Animação Sociocultural no Pólo da UTAD.


Em síntese, foi este o testemunho que levei àquela reunião. Testemunho este avaliado muito positivamente pelos membros que integravam a referida Equipa da Comissão de Avaliação Externa do Curso de Licenciatura em Animação Sociocultural.


E mais disse: que, se tivéssemos uma sede própria, mais e melhores atividades se poderiam levar a efeito, não só em prole dos associados como da dinamização de atividades do concelho e da divulgação do mesmo. Contudo, a Câmara Municipal tardava, face às reiteradas diligências e solicitações da respetiva Direção da Associação, quer formalmente, quer informalmente, junto do senhor Presidente da Câmara e respetivos vereadores, já vai para mais de dois anos, a que nos seja dada uma satisfação cabal.


Notei, naquela referida reunião-almoço, que o senhor vereador Arquiteto Cabeleira não apreciou muito este meu “inciso”. Como sabe, senhor vereador Arquiteto Cabeleira, embora me considere um verdadeiro flaviense, com verdadeiro amor à terra que me acolheu, já lá vão 48 anos, onde cresci, onde me casei, onde tive filhos, onde, enfim, fiz a minha vida e onde repousam os restos mortais de meus entes queridos, a terra onde nasci – o Douro – moldou-me, desde o berço, o caráter e a minha personalidade: o que está no coração, está na boca. Sem disfarces e hipocrisias. Muitos poderão ver neste modo de ser um defeito. Eu não considero assim. Entre transmontanos e durienses, gente nascida para além das fragas do Marão, neste Reino Maravilhoso de que Torga nos fala, a coragem e a frontalidade são as nossas armas principais, o nosso húmus com o qual nos fazemos mulheres e homens para a vida, integrando-nos como membros da sociedade.


Frontais. Mas educados. E sinceros.


E foi o que eu fui para consigo, senhor vereador Arquiteto Cabeleira, naquela reunião-almoço!


Agora, o que, repito, me deixou perplexo, e porque não dizê-lo, indignado, quando lhe dizia, no corredor do Pólo da UTAD, à saída da reunião-almoço, que necessitava de conversar mais calmamente para tratarmos do assunto que a Direção da Associação anda há dois anos para tratar com os responsáveis da Câmara, foi a atitude do senhor vereador Arquiteto Cabeleira!


Senhor vereador Arquiteto Cabeleira, confesso-lhe que jamais me passaria pela cabeça aquela sua reação! Porque, se assim fosse, nem sequer lhe abordaria a questão. Porque, em exercício de funções públicas, nunca me passou pela cabeça dar uma resposta como a que o senhor vereador Arquiteto Cabeleira deu – mesmo que a pensasse!


Dizer-me, em síntese, que não esperasse nada da Câmara pois que a autarquia não dava apoio ou ajuda à nossa Associação porque se tratava de uma associação partidária, é uma resposta totalmente descabelada, que em nada dignifica quem na proferiu, porque, para além do mais, totalmente falsa.


Saiba, senhor vereador Arquiteto Cabeleira, que a Associação de Fotografia e Gravura “Lumbudus”, apesar de ter muitos associados que são militantes ou simpatizantes do Partido Socialista tem também, no seu seio, muitos outros pertencentes a partidos diferentes e cidadãos não filiados em qualquer organização partidária.


Chamar à Associação de Fotografia e Gravura “Lumbudus” de partidária é não conhecer, em absoluto, o enquadramento legal das associações partidárias das que o não são!


Mas, senhor Arquiteto Cabeleira, eu julgo ter percebido bem a sua reação/resposta.


Vivemos numa comunidade que não é assim tão grande. Todos nos conhecemos. E sabemos não só o que pensamos como o que dizemos, e aonde.


Porventura o senhor Arquiteto Cabeleira andará “agastado” com os “mimos” que algum membro da nossa Associação o vai presenteando no que diz a respeito particularmente em relação à sua pessoa, como vereador da Câmara, ou ao seu Presidente.


Provavelmente eu também me sentiria triste e, porventura, também agastado com tantas “atenções”.


Sabe, senhor vereador Arquiteto Cabeleira, quando vereador, também vivi uma situação algo parecida.


E sabe qual foi a minha reação? Por ter achado haver matéria para interpor ação judicial contra um tal escrevinhador-mor da nossa praça, recorri, a minhas próprias expensas, para tribunal por forma a ser ressarcido dos danos que aquele suposto “defensor da opinião pública” perpetrou contra a honra e dignidade da minha pessoa. E venci. Mas nem por isso o deixei de considerar como um cidadão e munícipe igual a todos os restantes, tendo, por isso, e da minha parte – e falo exclusivamente da minha parte – um comportamento completamente isento. Bem assim respeito pelo seu trabalho.


E nem sequer me agastei quando duramente criticava a minha atuação como vereador. Vivemos numa sociedade democrática e, cada um, individual ou coletivamente, tem o indeclinável direito de exprimir livremente a sua opinião, mesmo que não nos agrade e desde que não seja, repito, ofensiva da nossa honra e dignidade.


Ora, a mim me parece que o senhor vereador Arquiteto Cabeleira (e Deus me livre pensar que a sua posição – de força – está a condicionar a posição dos restantes membros da Câmara) está, não sei se por má-fé ou simples ignorância, a confundir o que são opiniões e posições pessoais, de alguém individualmente falando, embora membro de uma associação, com a Associação no seu todo.


Diria mesmo que, se é de má-fé, para além de lamentável, é condenável; se se aduz ignorância, demonstra-se uma total incapacidade para o desempenho do cargo.


Poderia, porventura, senhor vereador Arquiteto Cabeleira, encontrar justificativa para a sua resposta se, formalmente, os órgãos da Associação, no seu todo ou um membro qualquer investido na qualidade de seu representante tivesse qualquer reação ou atitude menos simpática para com a sua pessoa, ou sua atuação como vereador, ou para qualquer membro do órgão do qual faz parte. Mas, como muito bem sabe, nada disso aconteceu até agora.


Quem está à frente desta Associação sabe distinguir muito bem o que são relações formais e institucionais, por um lado e, por outro, respeitar as opiniões que cada um, a título individual, exprime como suas, no legítimo direito democrático de expressão de uma opinião livre, sem censuras e ameaças.


Desta feita, senhor vereador Arquiteto Cabeleira, a resposta que me deu, vinda de um detentor de um poder instituído democraticamente, é moral e eticamente condenável. Que nos faz presumir seriamente que, pelo menos um dos seus dirigentes, não está num órgão democrático, por nós eleito, para servir todos os munícipes mas apenas a fação que o ajudou a eleger.


Para além de questionar seriamente qual será o critério de apoio e de ajuda que a instituição Câmara Municipal, da qual o senhor vereador Arquiteto Cabeleira faz parte, tem para com as Associações Recreativas, Desportivas, Sociais e Culturais do concelho….


Pela minha parte, senhor Arquiteto Cabeleira, enquanto as minhas competências como Presidente da Mesa da Assembleia Geral da Associação de Fotografia e Gravura “Lumbudus” mo permitirem, poderá ficar descansado que jamais intentarei qualquer diligência para que a Câmara Municipal de Chaves, da qual faz parte, nos conceda qualquer apoio ou ajuda.


Não necessitamos de ajudas partidárias, às custas do dinheiro de todos nós, mas sim de órgãos que sintam que foram eleitos para servir o concelho e trate a todos os munícipes e grupos por igual, sem distinção de cor ou credo.


Para finalizar, apenas duas palavras mais.


A primeira, para lhe dizer que não alimentarei qualquer polémica política (muito menos  partidária) por via desta minha interpelação que agora estou a tomar. Aqui se acaba o meu apontamento a propósito deste nosso incidente, independentemente da sua eventual resposta, no uso legítimo do contraditório. Veja esta minha reação não como se fora de um militante mas, efetiva e essencialmente, na simples qualidade de um cidadão, no uso legítimo da palavra, e preocupado pelo aperfeiçoamento e pela construção da sua polis.


A segunda, para expressar a minha tristeza e pena, como munícipe – o de vir a ter como candidato à presidência da Câmara do seu concelho proximamente uma pessoa que tem da política uma visão tão distorcida e tão marcadamente partidária.


Confesso que o julgava outra pessoa…

 

António de Souza e Silva

 


publicado por Fer.Ribeiro às 03:03
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Sexta-feira, 15 de Março de 2013

Discursos sobre a cidade - Por Isabel Seixas

 


Cemitérios vivos

 

Olá pai


Espero  por mais um dia 19 e a cidade assume um ar  de seriedade onde os vínculos de amor estão em todos os rostos, todos temos um Pai.


Sinto o teu olhar perdido pelos sonhos que moravam no horizonte do teu futuro ,nos regressos a Bornes em pensamentos fugazes e intensos passando pelo parque das Pedras  pelos binóculos da Tua rua do Sol, por nós...


Sorrio de orgulho à pergunta é filha do Seixas?


Partilho os teus recantos ideais de meditação, aquela árvore do tabulado de onde levantavas voo e mais ninguém te apanhava, as escadinhas que descem para o rio sem direção nenhum barco a não ser o do teu imaginário.


Estava a pensar no que devo oferecer-Te agora que  já não és corpo e só vestes memórias…


Somos  a tua alma viva do sorriso  de esperança que nos deixaste , evocamos-te nas recordações onde há o maior cenário desta cidade que nos acolheu por entre as suas muralhas de pedra e valores.


Houve um tempo em que era basicamente a tua filha e só, a filha do Chiquinho, depois a filha do Seixas, auferia da bonança que tinhas semeado e apreendia que independentemente da paisagem tinhas construído um território de honestidade no trabalho e no amor à família, depois adotaste todos os nossos projetos como teus…


Agora vamos festejar o nosso dia do Pai com as certezas de amor incondicional que sempre nos dedicas e seja em que espaço da cidade for nas caldas, na rua do sol , no arrabalde , nas freiras,  no bacalhau, ou no monumento, vamos estar juntos na brisa de ternura que sempre afaga Pais e Filhos, este ano ofereço-te aquele abraço incomensurável num murmúrio de silêncios, suspiros, eventualmente  lágrimas peregrinas nesse ramo  vivo de saudade com o verde da tua esperança depositada em nós.


Tua Filha


Isabel


 

Isabel Seixas



publicado por Fer.Ribeiro às 23:34
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Sexta-feira, 22 de Fevereiro de 2013

Discursos Sobre a Cidade - Por Francisco Chaves de Melo

 

 

A ciência, a ciência, a ciência... (4-10-1934)

 

A ciência, a ciência, a ciência...

Ah, como tudo é nulo e vão!

A pobreza da inteligência

Ante a riqueza da emoção!

 

Aquela mulher que trabalha

Como uma santa em sacrifício,

Com quanto esforço dado ralha!

Contra o pensar, que é o meu vício!

 

 A ciência! Como é pobre e nada!

Rico é o que alma dá e tem.

 

[...]

 

Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990).

 

 

 

“Rico é o que a alma dá e tem” diz Pessoa. Diz bem, já que cada dia se nota mais que os atuais inquilinos da Câmara mostram menos vontade de dar e mais de receber.


Em primeiro lugar gostam de receber aplausos, ovações, elogios rasgados, honrarias, distinções e considerações mundanas. Não se nota agora que trabalhem com alma pelo bem de todos os flavienses independentemente da cor politica ou dos que lá vão ao beija-mão. (Claro está que quem vai ao beija-mão também não mostra desapego ou vontade de defender o bem comum. Mas, esses munícipes, têm a minha compreensão. Não foram eleitos para defender os interesses coletivos, pelo que, fazem bem em defender o seu interesse individual ou o dos seus filhos e netos.)


Diz-nos a ciência política que uma configuração clientelar da acção política amesquinha o cidadão, pois pode leva-lo a cuidar como legitimo mendigar favores e/ou empregos. (Nesta altura, que o Governo, em virtude das suas ações, gerou um desemprego de jovens acima do 40%, não se poderá estranhar que apareçam muitos na Câmara a dizer que também são do partido).


Em Chaves, nas várias instituições, haverá sinais de acção política clientelar?


Dizem-me que sim. Contam-se casos. Verdade? Mentira? Os flavienses saberão!

 

“O pensar, que é o meu vício”, permite-me encontrar indícios que, por vezes, mas nem sempre, estão para a ação política clientelar, como está o mel para um guloso.


“A riqueza da emoção” que atinge todos os que têm apego à cidade e ao concelho, ocasiona desabafos, palavras suspiradas e alívios. Desabafa-se que são sempre os mesmos, querem mandar em tudo: nos centros de saúde, nas associações e misericórdias, nas cooperativas, nas associações de jovens e na cruz vermelha, nas escolas, nos agrupamentos, nos imóveis públicos e serviços de emprego, na escola profissional, na de enfermagem, nas fundações, nos grupos culturais, nas escolas de música, nas associações de rega, nas de ciclistas, na de caminhantes e de amantes das motas, de pescadores, etc, etc, e tal. É uma tal voracidade (dizem!), que até parece fugir-lhes o mundo. Temo que também neste blog cobicem despachar ou, usando termos de outros tempos, usar o seu lápis azul. Sente-se uma pressão alta, talvez gerada na certeza de perder o controlo, o poder de mandar e desmandar.


Haverá aqui relação com os desassossegos de algum dos candidatos à Câmara nas próximas eleições? A mim não me parece.


“A ciência! Como é pobre e nada!”, como podem pensar que sabem fazer tudo, que podem conduzir todas as instituições da cidade! Se ao menos não conduzissem as finanças e os investimentos municipais para o abismo da dívida já fariam muito. Podiam mesmo até impedir que se pintassem edifícios históricos com cores aberrantes. Uma cor como a escolhida para o antigo Magistério. Foi a “Voz da Juventude” que, na sede, escolheu a cor?

 

Francisco Chaves de Melo



publicado por Fer.Ribeiro às 00:38
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Sexta-feira, 15 de Fevereiro de 2013

Discursos Sobre a Cidade - Por António de Souza e Silva



Reformas estruturais? Sim! Mas primeiro - a reforma das mentalidades

 

Há anos que venho ouvindo dizer aos nossos políticos que Portugal precisa de reformas estruturais.


Se bem me lembro, reforma quer dizer mudança e estrutural quer significar que essa mudança tem a ver com a alteração dos elementos de um determinado sistema, a forma como estão organizados. Certo. Até aqui pura teoria.


Agora, a pergunta que se segue é: por que se tem de mudar? O que se pretende com essa mudança? Quais os benefícios (presentes e futuros) que tais reformas ou mudanças trazem em relação ao(s) sistema(s) que se pretende(m) mudar?


A segunda pergunta: alguém viu algum político explicar a necessidade de qualquer reforma e, consequentemente, os benefícios que as mesmas trazem (traziam) para o país, para o seu território e para as suas gentes?


Sei que sou limitado em muitas coisas. Sei que nem aos calcanhares da lábia da maioria dos políticos que nos governam ( e governaram) chego. Mas façam-me o mínimo de justiça de ser capaz de entender o(s) benefício(s) que uma reforma me poderá trazer!


E, meus caros leitores, de tanto se falar em reformas; de tanta reforma, dizem, ter sido feita ao longo dos anos, o que hoje temos em Portugal? Afinal que benefícios (futuros) retirámos?


A resposta é óbvia – o que se está a ver!...


Sendo assim, das duas, uma: ou alguém nos andou a mentir; ou então houve muita incompetência pelo meio. Ou existirem as duas ao mesmo tempo, ao dizer-se que era uma reforma que não era (talvez algum jeito a algum amigo especial, a algum partido, grupo ou organização) e, assim, o benefício não foi para todos ou para a maiorias dos cidadãos; pelo contrário, foi parar aos bolsos de outrem, numa verdadeiro assalto ao nosso bolso.


E, a propósito de reformas, ditas estruturais, gostaria, nesta rubrica, falar-vos de uma.


Andávamos pelos anos noventa. Estávamos num governo do ultracompetente economista Cavaco Silva, por sinal hoje nosso Presidente da República, que tão bem soube gizar, primeiro, negociar, depois e, finalmente, administrar o caudal de canela e cravo, vindo das novas índias como do oiro vindo dos novos brasis – os euros da União Europeia.


E tinha, no seu  governo, na pasta da Administração do Território, um «valentão», forte, duro e produtivo como uma oliveira. Pois, sim senhor, esse senhor Valente de Oliveira, incapaz de dinamizar o seu ministério para acabar com o regabofe que era o ordenamento do território, mandou para cá para fora uma lei – entendida, pois então, como reforma estrutural – que obrigava os municípios do país que não tivessem Plano Diretor Municipal (PDM) – mais de 95% - que os elaborassem, até 1995, sob pena de, não os tendo aprovados e ratificados, nessa altuta, pelas Assembleias Municipais e pela Assembleia da República, respectivamente, não se poderem candidatar aos fundos comunitários que estavam aí em força.


Não vamos aqui sequer falar das equipas, a maioria contratadas, e grande parte delas sem experiência na elaboração destes instrumentos, nem nas respetivas Comissões de Acompanhamento, obrigatórias, e com um séquito enorme de entidades, quer nacionais quer regionais. Enfim, em tudo quanto ao processo de elaboração deste documento, bem como à racionalização de PDM’s de concelhos limítrofes pois, só isso, dava para tantos contas(os) que nem sei quantos rosários dava para somar!


Fiquemos apenas por um balanço sumário, mas preciso, que, uns tempos mais à frente, por iniciativa do próprio Ministério (e aqui já não me recordo se ainda era o Valentão que lhe estava ao leme) se fez: somados todos os aglomerados do país, plasmados nos respectivos PDM’s, a população portuguesa que, em 1995, era de, mais coisa menos coisa, 10 milhões, em 2005, tempo de vigência dos mesmos, deveria estar nos 40 milhões. Ou seja, criaram-se aglomerados urbanos quatro vezes superiores à população que então o país tinha e ainda hoje tem!


Alguns mais céticos ou menos entrosados nestas questões perguntar-me-ão: qual o prejuízo para o país?


Eu explico só um bocadinho a ver se, no fim, percebem um pouco melhor o fim da fita.


Em primeiro lugar, propiciou-se uma tremenda especulação imobiliária. Com certeza sabem o que isso significa, não? Em segundo lugar, ao dar direito de construção a perímetros de aglomerados excessivamente grandes, sem justificação em função das suas gentes residentes ou das expectativas futuras de novos residentes, obrigava, ipso facto, a que a própria autarquia, nos termos da lei, propiciasse ao local da construção da vivenda ou habitação os seguintes infra-estruturas ou sistemas: estrada até ao local; arruamentos, electricidade; água e saneamento, entre outros menores. Tudo isto às custas da respetiva autarquia onde a obra era implantada, repito, por um direito que o PDM veio conferir aos munícipes proprietários. Em terceiro lugar, e decorrente do segundo, de quem era a responsabilidade de manutenção destas infra-estruturas ou sistemas? A resposta é, como se pode depreender, óbvia: da autarquia.


Quais os benefícios desta propalada e apressada reforma? O que está à vista!...


Para além da já referida especulação imobiliária, que aproveitou, e de que maneira, a uns tantos «patos bravos», sempre sob suspeitas de corrupção; para além dos encargos enormes coma a construção e manutenção daquelas referidas infra-estruturas ou sistemas de apoio às habitações, o que mais me confrange foi o abandono e ruína da maior parte dos nossos aglomerados tradicionais e da consequente destruição da nossa arquitetura tradicional.


E é pena que tudo isto tenha acontecido!


Se dermos uma vista de olhos às reportagens que o autor deste blogue tem feito ao longo destes últimos tempos em todas as freguesias do concelho de Chaves, e seus aglomerados (aldeias), é essa, na realidade, a conclusão que tiramos.


Uma mudança não se faz por simples papel e por decreto. E ainda por cima com a ameaça sobre a cabeça dos autarcas para elaborarem os respectivos PDM’s num lapso de tempo curto para a complexidade de uma operação destas, quando, muitos deles, estavam pouco sensibilizados para esta problemática, sem equipas internas, e, algumas externas, sem o mínimo de preparação e entrosadas nestas lides; tendo, para além do mais, mil e uma entidades, umas, porque objetiva e obrigatoriamente faziam parte das respetivas Comissões de Acompanhamento; outras, porque tinham de dar pareceres vinculativos, a travar, constantemente, o ritmo do trabalho, defendendo cada um a sua «capela».


Mas, mais grave ainda, foi a falta de tempo para dialogarem com as populações e seus representantes, para que as comunidades se transformassem nos verdadeiros atores/participantes ativos do seu PDM, pois era o seu respetivo território, nas suas funções e finalidades, que estava em causa.


Da efetiva participação dos munícipes no seu PDM «encenou-se» uma pressuposta auscultação, assim acontecendo, invariavelmente, por todo o país.


Foi esta a reforma estrutural, necessária e fundamental para o ordenamento do nosso território, que o Valente «crânio» engendrou e cujas consequências ainda hoje estamos a pagar num país que, para além de pouco ordenado, está cada vez mais desgovernado.


Os nossos ilustres políticos esquecem-se, antes de mais, que as reformas se fazem para as pessoas. E, como tal, devem por elas ser entendidas, queridas, desejadas para, no final, terem o êxito que, inicialmente, se desejava. Tudo isto é tão simples! Tão simples que até, por exemplo, um humilde aluno de qualquer curso, como, nomeadamente, de Animação (Sociocultural) aprende logo no primeiro ano que frequenta o respetivo curso.


Mas os nossos políticos ou se esquecem ou então não sabem.


Urge, pois, antes que falem, votem e procurem executar qualquer reforma ou mudança, que primeiro, eles próprios – e porque não? -, regressem aos bancos da escola. Para reformarem, eles sim, a sua mentalidade, compreendendo o que é ser político, ou seja, que é necessário entender e conhecer o seu povo, cada cidadão, no seu lugar, no seu contexto territorial para, depois, lado a lado, trabalharem e empenharem-se no(s) projeto(s) que ambos se comprometem (em campanhas eleitorais) levar por diante. Parecendo, e sendo, sérios!


Doutra forma estes (os políticos) jamais entenderão o povo. E o povo custar-lhe-á a entender os políticos, a não ser em períodos eleitorais em que, numa verdadeira caça ao voto, os vêem simplesmente como exímios histriões. E, neste estado de coisas, o resultado é o que está à vista – um completo e absoluto divórcio entre a população, o cidadão comum, e a classe política.


António de Souza e Silva

 

publicado por Fer.Ribeiro às 04:07
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Sexta-feira, 8 de Fevereiro de 2013

Discursos sobre a cidade - Por Gil Santos

 


AURORA BOREAL DE 38

 

Se já o outono daquele ano de 1937 havia sido de rebimba a malho, o começo do inverno de 38 não lhe ficava atrás, para pior. As vésperas do Natal arrimaram nevão tamanho que andou para esgotar as provisões das baijes de palheiro que se arrecadavam para o tempo frio e mesmo até a carne do enguião que as deveria untar. O gado, miúdo ou graúdo, não saiu das lojes até aos Reis. Valeu-lhe o feno ripado das mêdas. À gente, os guiços de carvalho das rimas dos palheiros.


No que respeita a trabalho, nada mais se podia fazer do que escolher batatas nos armazéns. Os merouços aguardavam, desde o arranque, que lhes apartassem o refugo da semente e esta do consumo. A cria comia o tubérculo refugado. O de consumo alimentaria os longos dias da gente até à colheita de setembro. A batata de semente aguardaria reproduzir-se na terra ávida do março.


O que sobrara do reco curava agora ao fumeiro. De um lado da fuga, os presuntos secavam ao dependuro, um em cada braço da cruzeta de ferro que pendia da trave mestra. Do outro, num mesmo arcanho, defumavam as pás, apartadas por fronças de giesta. O tronco dos penduradouros foi envolto em ramos de tojo bravo por mor da astúcia lambareira dos leirancos.


No Brunheiro, aquela terça-feira de 25 de janeiro acordou límpida como o cristal da Boémia. Já a noite se mostrou tão estrelada que há séculos não se enxergava tão bem a Estrada de Santigo, para os eruditos, a Via Látea. As estrelas da Cassiopeia, piscando o olho às da Ursa Menor, deambulavam embaladas pelo sereno de uma noite quase ártica. Pela manhã, a geada remedava na perfeição a neve. Tolhia quase tudo. As couves de penca nos quinteiros estavam derreadinhas e, de tão castigadas, pareciam já cozidas. Os beirais dos telhados enfeitavam os casebres de luzeiros pingentes de gelo. Pingarelhos que a canalha chupava fingindo rajás. O tanque do prado e a lagareta da bica encrostavam a tona com gelo de furco. As vidraças, congeladas pelo interior, eram agora translúcidas. Os bichos, incluindo os humanos, expeliam golfadas de vapor parecendo o Texas a subir o Reigaz. Mesmo a mijadela matinal nos pátios, estou em crer que chegaria ao estrume já feita em pedra!..


– Ai que catano de barbeiro! – Queixava-se a tia Brilhantina da sua janela para o postigo das comadres.


O sol bem se arreganhava, arrouçando os raios pelos contrafortes da Padrela, mas não havia meio de expulsar aquele martírio.


As escolhedeiras, ajoelhadas em esteiras de fanenco à margem do merouço, enrolavam-se em xailes velhos de merino. Contudo, não conseguiam que as mãos, engaranhadas, atinassem com uma escolha escorreita. Muitas vezes lá botavam uma batata de semente para a cesta da do consumo ou uma de refugo para a da semente, o que punha o ti Antenor possesso. E não era para menos! É que o pobre passou a noite no armazém a alimentar o lume com cibos de carvão de pedra, para que o ouro do planalto não congelasse!


E aquele dia passou-se neste bota e bira: acomodar o gado pela matina, escolher batatas durante o dia e às ladainhas tornar a alimentar a bicharada. Tudo tratado era a hora da ceia, à volta do tição.


Quando o borralho perdesse o fôlego:


– Cama, que estás como uma bola!


Um silêncio profundo instalava-se na aldeia, interrompido apenas pelos esparsos latidos da canzoada ou pelo ruminar dos bichos que pernoitavam sob os quartos dos tugúrios e cujo calor corporal dispensava mais uma manta de papa na enxerga.


O ti Antenor, o Pensador, como era conhecido pela calma que sempre punha na resolução dos problemas bicudos, findo o dia de labuta, foi à mêda ripar uma gabela de feno para distribuir por duas cabras, uma ovelha e dois charoleses que tinha ao ganho. Chegando a casa, para sua incomodação, nem o lume tinha ainda aceso!.. Grunhiu:


Rais te parta na mulher, na vez de acender o lume e pôr o pote p’ró caldo, anda p’raí a dar água sem caneco! Deixa-te tchigar a casa que te hei de encertar o lombo!


E bem capaz disso era ele!


O ti Antenor era um homem duro, temperado pela metralha da Flandres em dezassete e pela fome nos campos alemães de prisioneiros em dezoito. Comeu o pão que o diabo amassou e se já antes das sortes era fino como azougue, o que lhe teria valido a própria vida na miserável Grande Guerra, após a saga bélica transformou-se num verdadeiro filósofo. Aprendeu muito com os emboleques da vida e não havia nas redondezas quem lhe fizesse o ninho atrás da orelha. Como soi dizer-se na terra de cegos, quem tem um olho é rei, por isso, onde estivesse dominava e, o mais das vezes, para se armar ao pingarelho, até botava uns dezeres em franciú ou mesmo em deutsche, sobretudo quando queria engrampar a cambada.


Pois bem, já que a mulher não estava em casa, botou ele próprio mãos à obra. Do eido, amanhou umas fronças secas e uns guiços finos. Partiu os mais grossos no joelho e amontoou tudo sobre o estrafogueiro. Chegou-lhe um palhito, rascado na lixa da caixa das quinas e acendeu o lume. Encostou o pote do caldo. Meou-o com água do cântaro de folha, aparada na bica da mina de Medeiros. Juntou-lhe duas colheres de unto, três olhos de penca, meia dúzia de canibeques, dois punhados de farta-rapazes, quatro coiratos e uns greiros de sal. Condimentos necessários a uma mistela que devolvesse ao corpo, mas sobretudo à alma, o alento subtraído pela labuta e pelo frio.


Ainda o caldo não levantara fervura e já a tia Brilhantina entrava, desaustinada, cozinha adentro. A mulher parecia trazer diabo. Para se fazer ideia, atente-se na obra O Grito de Edvard Munch e ter-se-á a noção aproximada dos ares da Brilhantina. A imagem era tão inusada que, se o ti Antenor ainda tivesse ganas de lhe saltar no lombo, perante este quadro tê-las-ia certamente perdido!


– Ó home da minha bida, estemos na fim do mundo! Anda à baranda ber! O céu alabariou-se e estou que nem Nosso Senhor escapa para nos baler!


Rais te fonha, mulher, tu que ladras??? Estás douda! Se viesse mas é tratar do caldo é que tu eras fina!..


– Anda à baranda, home, anda ber que desgracia!


Como de facto!


O céu, por riba da Sanábria, apresentava-se tão rubro como rubras são as labaredas de uma fogueira de palha! Ondulavam na abóbada uma espécie de cortinas, línguas de fogo, que percorriam o firmamento norte de lés-a-lés. Para maior espanto eram acompanhadas de um som parecido a lenha seca a crepitar no braseiro.


Assombroso, verdadeiramente assustador! Nunca se tinha visto nada igual por aquelas bandas do Brunheiro. Nem visto e nem ouvido, mesmo nas conversas dos aréus aos serões de inverno!


O padre António de S. Cibrão, velhinho e curvado, quiçá pela vida de fidalgo que sempre levou, foi chamado à pressa para esconjurar o aparecido. Mas não se astrebeu. Então, sequer ao menos, que salvasse as almas dos pecadores com a penitência da oração na capela do padroeiro. O povo, temente, para esse ofício seguia-o em procissão. Enquanto caminhavam, uns rezavam em voz alta ao São Caetano bendito, advogado das coisas más e dos males desconhecidos, outros ao patrono S. Bentinho, doutor da Regra, outros à Virgem Maria, nossa senhora e nossa mãe e outros gritavam orações avulsas. Os mais hereges, que os havia, blasfemavam impropérios vários, sem que o prior ouvisse, sob pena de excomunhão.


A capela nunca tinha tido tanta gente junta. Rebentava pelas costuras. Até o Pensador se juntou, mesmo sendo meio ateu, embora crente da máxima de S. Tomé. Acenderam-se quantas velinhas havia pela sacristia e mais as que os paroquianos foram capazes de juntar. Mais por devoção, uma vez que a noite parecia dia com os clarões das línguas de fogo que rascavam o céu.


Toca a rezar!


O padre António começou a desfiar a Litania Sanctorum:


– In nómine Patris et Filii et Spíritus Sancii.

– Amen.

– (…)

– Sancta Maria

– Ora pro nobis.

– Sancta Dei Genetrix;

– Ora pro nobis.

Sancta Virgo virginum,

– Ora pro nobis.

Sancte Michael,

– Ora pro nobis.

(…)


Passou-se a noite quase toda neste latinório infindo, sem que o estranho fenómeno desse de si. Nisto, o Pensador cansado e cheio de bater com a língua no céu-da-boca, dando-se conta de que, afinal, o divino não se astrebia a resolver o problema, desafiou o padre e os leigos, seus irmãos, para uma explicação do tipo científico (a martelo bem entendido!).


Subiu ao púlpito e aí vai disto, Evaristo:


Ó pobo meu, botaide-me atenção! Olhaide qu’inda num é desta que o mundo se fina! Isto é apenas um abiso aos homes de pouca fé. Deus Nosso Senhor fez com que o sol, ao bater do outro lado do mundo no sangue dos mortos da Grande Guerra, se refletisse no firmamento parecendo fogo. Os mobimentos ondulantes a arrumedar as labaredas são os feixes da luz abanados pelo bento fresco das alturas. Mais ou menos como beides quando a araige de maio abana os centeios pela serra. Por isso, prometeide não pecar mais e vereides que tudo amainará. Rematou com veemência como se rezasse:


Ó mou pobo não desanimais, sempre animais!


Meu dito, meu feito!


Mal o povo aceitou refletir, silenciosamente, sobre os seus pecados mortais e rezado o Actus Contritionis, ao mesmo tempo que alvorecia, volatilizava-se dos céus aquela enigmática aparição.


Cada um regressou a sua casa cansado de tanto rezar, mas vivo e com um reconhecimento impagável ao filósofo Antenor.


O Pensador, passado um ano, e calando mureta, percebeu o real significado daquele fenómeno. Não se tratava de uma simples aurora boreal que emigrou, inusitadamente, dos céus escandinavas para os firmamentos do sul. Tratava-se, afinal, do prenúncio de um novo cataclismo mundial, desta feita muito mais sanguinolento do que aquele que em dezassete o ia gaseando!

 

Gil Santos

 

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Sexta-feira, 1 de Fevereiro de 2013

Discursos sobre a cidade - Por Isabel Seixas

 


Arrabalde

Talvez o teu nome confunda

Quem te olha pela primeira vez

Induza em erro e difunda

A cercania da tua altivez…

 

Sempre acoitaste os pasmados

Em verborreias insanas

Em palestras de deuses e diabos

E planos com teias levianas…

 

O teu rosto comercial

Banhado de uma claridade invejável

Traz-nos toda a recordação ancestral

De desejos do progresso sustentável.

 

Sabemos de ti

Por  presentes e passados

Por amantes condenados

Por trabalhadores que  vi

Render-se a ti como escravos

 

Além das tuas casas senhoriais

Escondes subúrbios improváveis

De emoções órfãs de pais

Secretas sórdidas  puras e memoráveis

Acoitaste vetustas liguilhas

Que mais não eram

Senão gritos de liberdade

Dos homens presos por partilhas

De dores que sempre sofreram

De ausências sem dó nem piedade

 

Abraçaste amores impedidos

Por maus-olhados insensatos

Escritos nos anais da moral

De um deus mal amado, com crivos

Quase gratuitos de baratos

Desdenhando valores sem preço

Como arma de arremesso a destilar  mal

 

Ah, mas escreves a história de Chaves

Esculpida em horizontes infinitos

Num espaço onde cabem todos sem entraves

Os de passagem os antigos e os que ainda estão aflitos…

 

Arrabalde

Centro de todas, porque grandes atenções

Capturas sempre mesmo à passagem

O  nosso olhar admirado e debalde

Face à tua indiferença pelas nossas paixões

Capturadas por  ti em mais uma miragem…

 

De qualquer forma, Arrabalde

Mesmo  esse debalde

A tua arrogância

Embalo-me  nos teus braços quando passo e abraço

O passado de encontros que me deixas,

Dos futuros de ontem  já  presentes,

Dos sonhos  dançados, quietos nas sementes,  teu regaço

 

E já  como quem chora a pedir a alegria,

Que sempre nos falta já  no cansaço,

De te ver seminu,  nas ruinas, que bloqueiam espaço

Ao correr suave da justiça alma da poesia…

 

Rendo-me , quando por ti passo

E volto sempre ao olhar do teu abraço…

 

Isabel Seixas



publicado por Fer.Ribeiro às 03:51
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Segunda-feira, 28 de Janeiro de 2013

Discursos Sobre a Cidade - Por José Carlos Barros

 

O Comércio

 

um conto de José Carlos Barros

 

(conclusão)

 

[14. João Ventura]

 

A chegada de Carmen foi de tal modo importante que já nem lhe sei dizer, assim à distância, se foi ela, a emigração, a televisão ou a guerra colonial o que mais transformou a Vila nos últimos anos até a deixar irreconhecível. Não falo dos camiões a descarregar vigas de cimento e perfis de alumínio e dos edifícios pacóvios ou dos loteamentos que avançaram contra os muros antigos das propriedades e as árvores de fruto. Não falo do ostensivo abandono da terra. Não falo da descoberta dos empréstimos bancários como modo de vida. Falo de algo mais profundo que parece ter começado a ruir a partir desse dia em que o doutor Magalhães abriu as portas a uma rapariga supostamente muito jovem e, assim o espero, deslumbrante. Porque, por esse tempo, a beleza era um crime. Carmen, que só muito raramente se deixou ver a atravessar a varanda ou no canto do pátio onde cresce a sempre-noiva, não permitiu nunca que alguém pudesse adivinhar-lhe o rosto escondido por um lenço, descaído até aos ombros, nem o desenho do corpo, diluído por entre roupas negras e largas. Repare como, de um modo geral, é ponto assente a pouca beleza da moça. Assim o fizeram correr as guardiãs da moral, as defensoras dos costumes, os paladinos das virtudes antigas. Carmen atravessara a fronteira. E a fronteira foi sempre uma vil e insinuante sombra derramada sobre os telhados da Vila. Era do outro lado da raia que chegavam os perigos ou a ameaça. Ou o que se desconhece. Foi por aí que chegaram os sete mil e quinhentos soldados de Napoleão que dormiram na Vila e seguiram caras ao Porto deixando atrás de si um rasto de medo e destruição. Foi por aí que chegaram homens e mulheres fugidos à ignomínia de Franco. Mesmo quando o futuro é que estava em jogo, e atravessar a fronteira significava fugir à desgraça, era ainda o choro de quem ficava que marcava os desígnios dessa esperança. Com a chegada de Carmen, como vê, tudo mudou. Desmoronou-se, sobretudo, o castelo impenetrável da moral. Ou, enfim, estilhaçou ligeiramente. A Vila, e só por isso já seria importante você ter começado por aqui com perguntas, voltou a acreditar nas palavras do Vasco. E começou a acreditar que a rapariga, afinal, talvez até pudesse ser deslumbrante. E que da beleza não vem propriamente mal nenhum ao mundo.  Não é um crime. O que significa que, num certo sentido, a Vila pode voltar a acreditar em si mesma. Só é preciso que este mistério, contra as suas indagações e a má-língua do mundo, verdadeiramente permaneça.

 

 

[15. Doutor]

 

O Sousa garante-me que posso confiar na sua discrição. Pois bem. Esclareçamos de vez este mistério. Sente-se, a conversa será longa. Uma parte da história já você conhece. Numa noite chuvosa de mil novecentos e sessenta e sete, depois de ter atravessado a fronteira e correr caminhos de montanha quase desertos, Carmen, cansada e incógnita, chegou à Vila. Como terá oportunidade de ver, e apesar dos seus quase quarenta anos, é duma beleza perturbante. Tínhamos combinado que. Quer dizer: nós tínhamos sido apresentados por. Mas vamos por partes. Vasco, completamente bêbado, regressa a casa e encontra-a deitada no chão. Inconsciente. Nem sei como conseguiu trazê-la nos braços e mantê-la erguida à entrada da porta. Eu estava a dormir, não terei acordado logo. Foi então que. Mas sente-se. A conversa, como lhe digo, será longa.

 

José Carlos Barros

 

publicado por Fer.Ribeiro às 00:08
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Domingo, 27 de Janeiro de 2013

Discursos Sobre a Cidade - Por José Carlos Barros

 

 

 

O Comércio

 

um conto de José Carlos Barros

 

 

(continuação. terceira parte)

 

[12. Sousa]

 

Pois como te hei-de dizer. O Magalhães nunca tocou no assunto. Não ia insistir. Só te posso dizer que a Carmen é de uma beleza perturbante. Não me admiro que o Vasco se não recomponha da visão daquela noite antiga em que a diz ter encontrado desfalecida no meio da rua. Ele é um romântico, já deves saber. Pois acontece que a Carmen, inexplicavelmente, não aparece à janela ou à varanda senão a esconder o rosto e vestida de negro da cabeça aos pés. Riem-se quando o Vasco a descreve. Como é que ele diz? Deslumbrante. As pessoas riem-se. Pois desculpar-me-ás, o assunto é delicado. Bem vês, o próprio Magalhães foi cauteloso quando falou contigo. Calculo que também não tenha tocado em nada que respeite ao passado político. É um homem magoado. Lutámos juntos, conspirámos, arriscámos, tínhamos ideais. Não gosto de dizer ideais porque a palavra remete para a abstracção das utopias. O que nos movia eram coisas muito concretas. A injustiça, a arbitrariedade, a desumanidade disfarçada por uma capa filha da puta de bons sentimentos. Era tudo gentinha excelente. Praticava actos de caridade, rezava a Deus pela saúde dos pobres. Não é que tivéssemos ideais, portanto. Lutávamos por coisas concretas e sabíamos que não haveríamos de mudar o mundo. Nem queríamos mudar o mundo: esperávamos apenas conseguir mexer um cibo nos seus eixos. E incomodávamos. Isso é certo. Mas agora já tudo parece estranho, ridículo. A sacristia venceu-nos. E as pessoas esquecem. Sobretudo o que não chegaram nunca a aprender. O fascismo, por aqui, foi sobretudo silêncio. Não era nada de propriamente palpável, material. Era apenas silêncio. A guerra colonial era um pano muito largo de silêncio quando não era exaltação dos valores pátrios. A emigração era silêncio. A iniquidade era silêncio. A injustiça era silêncio. Fodeu-se tudo em deixa-andar. E quando se foi a ver já nem havia jovens e ficaram apenas os velhos como restos do rame-rame. Repara: até o grupo de futebol acabou. E o doutor Magalhães, claro, sempre incompreendido e a ficar do lado dos vencidos da vida. Porque nada mudou entretanto. O grande sonho desta gente toda passou a ser varrer para debaixo da mesa as migalhas da ruralidade como quem se livra de um incómodo ou de uma vergonha. O sonho passou a ser o comércio e o terciário: abrir um café ou arranjar um emprego nas finanças. E ter uma conta no banco e ter direito a crédito. Um dia esta merda vai dar um estouro que nem uma castanha. Mas ninguém liga. E o doutor desistiu. Com fama de empedernido, insensível, espalha-brasas. Já imaginas o quanto lhe custará falar destas fronteiras mesquinhas que o separam de um povo que tanto julgou amar e por quem se dispôs a arriscar tudo.

 

 

[13. Vasco]

 

É isso, depois de tantos anos, que procuro. O voo dos pássaros no princípio da manhã, os bois sonolentos atravessando a ponte do moinho do Cubo, a avenida de plátanos e seus muros de pedra solta, mulheres regressando à Vila com maçãs e nozes. Procuro o que não existe. A mata de carvalhos a meio do Padrão, as cobras d água caçando peixes nos remansos de Requeixe, as flores d Abril dos negrilhos, os amentilhos dos amieiros debruçados sobre os leitos estreitos dos rios. Como podemos viver tanto tempo com este peso insustentável das ausências. Pergunto. Ninguém responde. Procuro o vinho enterrado nas adegas frescas de saibro e paredes de granito, o choro e o riso, as feiras antes do plástico, os ourives de filigrana, os comerciantes de fazenda e os seus jogos simples de esconder e mostrar. Procuro as raparigas impacientes a galgar os atalhos com roupas novas, o salgueiro na curva da ribeira do Fontão e do mundo. Procuro, portanto, o que não existe nos intervalos de procurar o sinal ou o símbolo de tudo o que se perdeu. Alguém me segreda o nome de Carmen? Por sobre as pedras e a urze, por sobre o alecrim e o odor antigo da terra quando começa a chover, eis que chegam as máquinas e o comércio atravessando campos de cultivo, hortas e lugares. Por sobre as linhas do cadastro, como num movimento em falso, ergue o silêncio muros de cimento, nomes de traição. Chama-se Carmen, assim o dizem. Assim mo dizem a mim, eu que pela primeira vez, deslumbrante, a ergui nos braços contra a chuva e a sombra e contra o que ameaçadoramente regressa com a noite. Ou se perde com a noite. Não tenho lugar nem palavras para esse refúgio. Desde então, simplesmente, a procuro como se a procurasse em mim, em alguma parte de mim, eu que procuro apenas o que não existe. E por isso, em rigor, Carmen, assim se chama, não existe. Ela que, deslumbrante, ficou em casa do facultativo para assistir ao fim de todas as coisas. E para dar um nome a tudo quanto se perdeu. Às romarias, ao acordeon, à avoadinha e aos campos de poila, à banda de música no coreto de madeira, a quanto participa da invenção do mundo. Carmen. A que regressa do outro lado da fronteira para morrer sem rosto e sem nome, indecifrável, e sem fronteiras, do outro lado do mundo.

 

(conclui amanhã)


publicado por Fer.Ribeiro às 01:52
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