12 anos

Sexta-feira, 24 de Março de 2017

Discursos Sobre a Cidade

GIL

 

Flatulências

 

Corria o ano de 1975. A população, em geral, andava embriagada ainda pela liberdade inesperada que abril de 74 precipitara. A população, em geral, e os alunos do Liceu Fernão de Magalhães, em particular.

 

Pese embora não ter estoirado aquilo a que pouco tempo mais tarde viria a chamar-se escola de massas, o Liceu de Chaves já abarrotava de gente que procurava a educação como trampolim para um mundo outro. Um mundo diferente do que havia vivido a geração precedente, num Estado que se dizia Novo, mas que era quase tão velho como quem o desenhou.

 

Contudo, como sempre e em todo o lado, havia quem funcionasse ao arrepio da normalidade. Muitos não se reviam naquela escola afastada da realidade social. Uma escola que, apesar de tudo, apenas respondia às expetativas de uns poucos. Pese embora saber-se que um qualquer curso superior proporcionava emprego seguro, para lhe chegar era preciso dinheiro e muita resiliência para vencer os escolhos de uma escola dura, que, muitas vezes, nada queria saber de quem a frequentava.

 

E, se muitos viam na escola o passaporte para uma vida que os seus pais não puderam ter, muito outros olhavam-na como uma arena onde se exorcizavam diabos e frustrações. Nada queriam com os livros, as sebentas, as sabatinas e a mania dos professores!

 

Da mesma forma, muito como hoje, a realidade familiar de cada aluno era muito diversa. Havia famílias instruídas que proporcionavam berços de oiro, enquanto outras nem de feno. Muitas vezes, os exemplos e as vivências de casa colidiam com as da escola provocando anomias de difícil (di)gestão.

 

Por esta altura, o Liceu de Chaves, tinha turmas levadas do diabo. Gente que fazia negra a vida de qualquer professor, por muito profissional que fosse. Depois, parece que o demo juntava os salafrários a dedo, redundando em autênticas matilhas de predação com comportamentos muitas vezes caricatos.

 

É de um deles que vos venho falar nesta pequena estória.

 

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Em 1975, a turma xpto do 5º ano era levada do catano!

 

Havia professores que, apesar de tudo, conseguiam lidar com estes índios em relativa paz. Outros sofriam a bom sofrer. Algumas aulas eram autênticos circos romanos. Contrariados, por natureza, alguns alunos faziam das aulas um martírio contínuo e para que o tempo passasse em delírio, pintavam a manta. Enquanto pudessem faltar vai que não vai, em estando tapados obrigavam-se a trocar o roço do Tabolado pela sala de aula, o que era catastrófico!

 

No entrudo, eram os peidos chocos e as bichas de rabiar; no natal, os confetes e as serpentinas; na primavera, os grilos e as cobras de água; noutras ocasiões outras coisas variadas. O importante era que a aula fosse divertida e o professor não pudesse lecionar matéria.

 

Ora, certa ocasião, esgotadas as inovações, alguém da turma se lembrou de promover um concurso de flatulência. Arranjaram-se os patrocinadores, elaborou-se detalhadamente um regulamento, definiu-se um júri, o prazo e os prémios.

 

Seria pela segunda quinzena de maio que o concurso começou, pois lembro-me que já apareciam as primeiras cerejas na velha praça das Longras.

 

Aquilo era um foguetório de rebimba o malho, nalgumas ocasiões pior do que o do arraial de Valpaços. E tanto se soltavam os rapazes como as raparigas, pois nesta altura as turmas já eram mistas[1]. Era de toda a forma e feitio: silenciosos e inodoros, abafados e fedorentos, sonoros, fininhos, longos, curtos, altos, baixos, sei lá!.. Aquilo ia progredindo em luta renhida.

 

Era vulgar que quando o professor se virasse para o quadro alguém estourasse sussurrando:

 

Trocaide-me este por miúdos!.. — Não demorava muito que aquela nota se transformasse em moedas.

 

Isto andava a ser insuportável, até que uma professora decidiu queixar-se ao Reitor.

 

Sem saber bem o que fazer, o Reitor decidiu convocou para uma reunião a Encarregada de Educação do campeão, Antenor Barracuda, um gargalhote de maus fígados.

 

Depois de uma abordagem d’amodinho, sem que a mãe tivesse entendido patavina do introito, o Reitor lá se atirou à coisa de forma mais grave:

 

— Saiba Vª Exª que o seu Antenor se anda a portar muito mal nesta escola!

 

— Pois sim senhor Reitor, vai satchar batatas que se cose!

 

— Mas sabe a senhora, exatamente, o que o malandro anda por aqui a fazer?

 

— A apalpar o rabo às raparigas de certo! O macaco sai ao pai! Saiba bossa senhoria que o meu home era lubado do catancho, num se le escapaba um rabo de saia! Mula que se le arreganhasse!...

 

— Não, não é nada disso minha senhora, ele anda a soltar flatulências nas aulas, o que tem causado graves problemas, quer aos professores quer aos colegas!

 

Flatuquê, senhor Reitor? Quer o senhor dezer que o filho da p*** escope p’ró tchão?

 

— Nada disso, senhora, são flatos, flatos que ele solta, à tripa forra, na sala de aula!

 

— Bossemecê é que me cose, não estou a perceber nada do que me diz. Quer ber que o rapaz fala mal na escola, ou andará a mija no recreio?!

 

O Reitor, espumando de raiva, atalhou:

 

— Ó minha senhora, peida-se nas aulas!..

 

Porra, que alíbio! Pensei que era coisa pior! Peidará, peidará, deve ser das cereijas que tenho lá no quintal. Come-as quentes, o sacripanta e depois não é capaz de os arrebater! Saiba o senhor que ele faz o mesmo à mesa e o meu Antóino está sempre a dezer para o deixar cagar à bontade que também se alebeia!..

 

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O Reitor descorçoado levantou-se e desandou, deixando a mãe a ruminar sobre a gravidade do assunto!

 

Ontem como hoje!

 

Já estou como dizia Aleixo:

 

Descreio dos que me apontam

uma sociedade sã,

isto é hoje o que foi ontem

e o que há de ser amanhã!

 

Gil Santos

 

[1]Decreto-Lei 482/72, de 28 de Novembro

 

 

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Sexta-feira, 24 de Fevereiro de 2017

Discursos Sobre a Cidade, por Gil Santos

GIL

 

SAPATINHO DE VERNIZ

 

 

A luz daquele final de tarde de 21 de maio de 1966, coava-se pelas vidraças surradas do salão de estudo do seminário de Vila Real, como pelas claraboias das cozinhas fumadas de um qualquer tugúrio do Brunheiro. Triste e doentia, aquela luz, apesar de tudo, transportava-me, nas minhas viçosas primaveras, para um mundo distante, carregado da nostalgia que me salvava daquele sufoco de gramar um longo período letivo afastado das touças e dos outeiros do Carregal.

 

O meu canto, no Planalto, alumiado pela candeia a petróleo e coberto por telha vã, era um palácio, quando comparado com aquela babilónia, miserável, onde me encarceraram.

 

As janelas imensas de meio arco; os corredores longos, gelados e decorados de azulejos azuis até à minha altura; os cheiros horrendos a cera queimada; a sotaina dos padrecos e a disciplina sólida e irracional, eram degredos que tolhiam a minha alma cândida de ave de arribação. A tristeza, a solidão, a ausência de casa e dos amigos, faziam-me verter lágrimas de sangue e renegar, cada vez com mais veemência, aquela vocação que me talharam!

 

Tirando o recreio, sempre curto, e os passeios pela cidade e arredores de que lembro a Timpeira com saudade, tudo o resto era um martírio, na verdadeira e mais crua acessão da palavra.

 

Lembro ainda outro momento de fuga, constituído pela obrigatoriedade do confesso semanal com o diretor espiritual, o padre Gilberto. Um santo homem que não deveria ter lido todos os livros a que os cânones daquele maldito seminário obrigavam! Tolerante e bom conselheiro, livrava-nos, por algum do tempo, do suplício da sala de estudo. Eu era adepto fervoroso dos confessos, não porque me preocupasse com remissão dos pecados que não tinha, mas para ouvir as palavras sábias e amigas daquele homem, bafo quente na frigidez daquela casa.

 

Vivi dois longos anos de sofrimento naquele forte ocre! Um edifício sóbrio, medonho, na altura o maior da cidade. Um casarão, diziam que com tantas janelas como dias tem o ano e que conseguíamos ver do mais longínquo lugar onde nos levassem os nossos passeios domingueiros.

 

Mas aquele sábado entardeceu com a esperança de um passeio inédito no dia seguinte ao Monte da Forca. Um sítio de que muito ouvira falar, mas que não conhecia. Pensava eu que por lá encontraria, ainda, a mesma forca que, na Idade Média, tiraria a vida aos sacripantas das redondezas! Mesmo o nosso professor de música, o bendito padre Minhava, com quem aprendi a marcha de Vila Real, da sua autoria, e que ainda hoje lembro, falou um dia das estórias de horror que se teriam vivido naquele lugar malvado.

 

Chegava, enfim, o dia de o conhecer.

 

Ao tempo, para se estudar no seminário de Vila Real, penso que seria o mesmo em todos os outros, era necessário recolher um enxoval completo. Todas as peças, desde os lençóis às peúgas, eram marcadas com um número de ordem para que não fossem trocadas pelas lavadeiras. O meu era o 64. Do enxoval fariam parte muitas coisas, porém, a que melhor lembro era o fato preto, a gravata da mesma cor e uns sapatinhos de verniz. Lembro também um par de botas, à medida, que meu pai mandou fazer ao sapateiro Vila Real da Rua Direita. Aquele fato usava-se, somente, nos dias de festa e nos passeios ao exterior. Quando os aspirantes a padrecos percorriam, perfilados, as ruas da cidade, pareciam pinguins e eram motivo de chacota. Como se já não bondassem os flagelos intramuros, de que se destacavam as sabatinas de latim do padre Santos, que me chegaram a pôr as nádegas negras com uma pequena vara de marmeleiro, ainda era preciso que os paisanos lá fora, continuassem a nossa tortura!..

 

Por falar da vida intramuros, permitam-se-me três regos ao enviés:

 

As rotinas diárias eram rígidas e meticulosamente preparadas, duríssimas. Às sete despertava-se, passado meia hora ia-se à missa, depois ao pequeno-almoço e, até ao meio dia, às aulas. Das catorze às dezassete, para a sala de estudo e, depois de meia hora de recreio, ao terço. Às sete e meia era a janta, às oito e meia, as orações da noite e, às nove, dormitório.

 

A mim e a muitos, o que mais custava era suportar aquelas três malditas horas na sala de estudo. A vontade de estudar já não era muita e as matérias como carne gorda, por isso, cada um arranjava a melhor maneira de se safar. Ainda para mais, o salão de estudo era percorrido de lés a lés por um padre vigilante que não parava um segundo.

 

Certa ocasião, não me lembro bem como, arranjei um livro do Patinhas, ainda a preto e branco. Meti-o debaixo da Initia Latina e, quando o padre estivesse longe, eu ia-me deliciando com as estórias do avaro. Às tantas, não sei se pelo entusiasmo da leitura se pelo silêncio dos pés de lã do padre, sem que me apercebesse, aproximou-se por trás. Deu com o livro aos quadradinhos! Levei semelhante cachaço que aterrei, de cabeça, em cima da carteira. Como se não bastasse, fui arrancado do lugar e espancado, sem dó nem piedade, para servir de exemplo. Foi tamanha a surpresa e o pânico, que me soltei por cima e por baixo e tive de ir para a barrela. Estive dois dias na enfermaria, convalescendo!

 

De outra vez, foi no banho. O sábado de manhã era destinado ao chuveiro para lavagem das catotas! No rés-do-chão, junto ao refeitório, havia amplos balneários, com cabines individuais fechadas, que davam para um átrio, percorrido por um vigilante. Naquele sábado, calhou ao padre Benício a missão da vigia. Porém, tinha-lhe constado que alguns seminaristas, pouco amigos da água, não tomariam banho. À entrada da cabine, o padre entregava uma lisca de sabão macaco a cada um que deveria ser devolvido à saída. Alguns, entravam, fechavam a porta, abriam o chuveiro, molhavam a cabeça e nada mais. Ora, eu achava piada àquele sabão, porque depois de o usar para escarolir a cabeça, o cabelo chiava quando percorrido pelos dedos húmidos. Sinal de limpeza no meu ingénuo ponto de vista!

 

Naquele dia, saí da cabine e coloquei a sobra do sabão na caixa que o padre sustentava. O Benício abordou-me:

 

— Ora então é este o menino que não toma banho?!

 

— Tomei, sim, senhor padre – defendi-me, passando os dedos sobre o cabelo.

 

— Vê, senhor padre, o meu cabelo até chia!..

 

Quis lá o presbítero saber daquele argumento que nem conhecia, levei para peras!

 

Falando em recreio, a hora do dia mais esperada, como disse, acontecia por volta das dezassete, coincidindo com a hora da merenda. Esta constava de um pão com um cibo de queijo ou uma fatia de marmelada, que se recolhia à saída de um cesto de vime que pousava sobre um banco. Fazíamos fila e ordeiramente cada um tirava o seu bocado. A controlar estava um padre, para fazer cumprir a regra de que não se olhasse para o cesto para que não fosse possível escolher o carolo maior. A verdade é que a larica era muita e os bocados de tamanho muito diferente.

 

Ora, um certo dia, não sei se por o almoço ter sido a maldita farinha de pau com carapau frito, que eu detestava, ou por outra coisa qualquer, saí para o recreio com uma fome de rato. Quando me aproximei do cesto, não resisti e olhei para catrapiscar o cibo maior.

 

Pois isso!

 

Levei tamanho limpa-queixos que mergulhei em cima do cesto, espalhando o pão pelo chão. Fiquei sem merendar. E, como se não bastasse, fui de castigo rezar o terço para a capela, como se isso enchesse barriga!

 

Mas não se pense que o seminário só tinha coisas más. Havia o hábito de levar os seminaristas a comer ao refeitório dos padres no dia em que faziam anos. Dois dias antes de 21 de maio, tocou-me a mim. Não sei ao certo se a comida seria melhor do que a nossa, sei é que sabia pela vida! E o melhor de tudo é que, independentemente da idade, permitiam que bebêssemos um copo de vinho, não sei se para treinar já para o santo ofício a acontecer anos mais tarde! Naquele dia, lembro-me, apenas, de ter saído do refeitório dos padres com tal carraspana que, no recreio das cinco, nem na bola acertava!

 

Retomemos a lavoura no dia que dá corpo a esta estória.

 

Então, naquele domingo de 22 de maio de 1966, após o almoço, saímos acompanhados de um padre e de um grupo dos mais velhos, em direção ao tal Monte da Forca. De fatinho, gravata e sapatinho de verniz, estaríamos mais preparados para ir a uma qualquer missa na Sé, do que para o meio dos tojos e da carqueja do Monte da Forca!

 

Lá fomos, por veredas e calçadas. Chegamos após hora e meia de caminho.

 

Da forca, que eu esperava encontrar, só mesmo a imaginação, de resto pinheiros bravos e giestas piorneiras.

 

Nada!

 

Não sei o que teria passado pela cabeça do (ir)responsável padreco que nos acompanhava, mas decidiu que haveríamos de descer o monte, ladeiro, a corta-mato, em direção ao Cabril que atravessaríamos numa ponte manhosa para retomarmos o caminho de volta.

 

Assim foi.

 

Lá fomos nós, monte abaixo, uns atrás dos outros. O chão estava estrumado de agulheta seca, autêntico visgo para os sapatos de sola que escorregavam, provocando tombos de meia-noite. O meu fatinho preto, como os da maioria, chegou ao fundo numa rodilha.

 

Depois de algumas peripécias engraçadas, chegamos ao sopé, junto do rio, e deparamo-nos com um obstáculo muito difícil de transpor. Tratava-se de um talude alto, quase a pique, que não se compadecia em ser descido com os tais sapatinhos escorregadios. A estratégia do padre foi a de que nos descalçássemos, atirássemos os sapatos para o caminho, paralelo ao rio, onde um dos mais velhos os apararia. Esse caminho que levava à ponte, era muito estreito e o Cabril, três metros abaixo, corria impetuoso pelas águas primaveris.

 

Tudo correu às mil maravilhas…até à minha vez. Cá em cima, descalcei os meus sapatinhos, nos quais tinha tanto empenho, e atirei o primeiro que foi apanhado com relativa facilidade pelo quintanista Adruzilo. O segundo, não sei se por ser mal atirado, se pelas mãos de cebola do apanhador, caiu ao rio e seguiu na corrente, primeiro à tona e, depois, afundando-se para não mais ser visto.

 

Um sarilho!

 

Dali a Vila Real segui a manquitar com um pé descalço e outro calçado. No meio da cidade, disfarcei no meio dos companheiros. Ninguém deu por nada.

 

Chegado ao seminário, fui diretamente ao gabinete do Reitor Libânio Borges, acompanhado do Prefeito que pelo caminho desfiava as culpas sobre o que dizia ser o meu laxismo.

 

Bem eu o entendi!

 

Paguei a injustiça da irresponsabilidade dos outros com quatro lambefes no focinho!

 

Que raiva!

 

Aos meus pais evitei contar, para não levar mais!..

 

No dia seguinte, levaram-me a uma sapataria e encabaram-me os pés nuns sapatinhos, novinhos do trinque, de verniz, dois números acima para que não deixassem de servir em crescendo!

 

Ainda hoje estou para saber quem os teria pago, se os responsáveis do seminário de Vila Real se os meus pais, com o valor camuflado no recibo das propinas!..

 

Fui expulso do seminário passados dois anos, ainda hoje estou para saber porquê!

 

Bendita a hora!

 

Gil Santos

 

 

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Sexta-feira, 3 de Fevereiro de 2017

Discursos Sobre a Cidade - por António de Souza e Silva

SOUZA

 

O LEGADO DE NADIR AFONSO ARQUITETO

 

Somos filho da Galáxia de Gutenberg. Nascemos no culto do Livro e da sua Leitura. Por muito que o digital nos apele a seguirmo-lo, não prescindimos, na leitura, no sentir da textura das folhas de um livro, no seu manuseamento constante.

 

Daí que, quando nos deslocamos de Chaves para outros centros urbanos de maior dimensão, não deixamos de frequentar uma boa livraria - que infelizmente por cá não há! E saber das novidades editoriais, nos livros que vão aparecendo nas áreas que mais gostamos, e investigamos, e nos prendem a nossa atenção e curiosidade.

 

Desta feita, num dos escaparates de uma delas, na cidade Invicta, fomos dar com um livro, editado no verão passado pela editora Caleidoscópio, com o título «Arquiteturas-Imaginadas: Representação Gráfica Arquitetónica e ‘Outras Imagens’. Desenho [...] Cidade [...] Lugar».

 

Trata-se de um conjunto de textos (1º volume), de vários autores, que tiveram por base um Projeto de Investigação, criado em 2009, com a designação do título do Livro, do Centro de Investigação em Arquitetura, Urbanismo e Design (CIAUD), da Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa, FA/Lisboa, Fundação para a Ciência e Tecnologia, FCT, coordenado cientificamente por Pedro António Janeiro, o editor deste 1º volume, de coletânea de textos.

 

De um relance de olhos ao índice, fizemos uma leitura transversal ao conteúdo dos diferentes autores. Sem desprimor, e enorme importância dos restantes, despertou particularmente a nossa curiosidade dois textos: um, de Michel Toussaint, «Nadir Afonso e a Arquitetura»; o outro, de Sylvio Barros Sawaya, «As Decisões que constroem o Espaço Humano».

 

Pelo primeiro, para além de nos dar o percurso do artista/arquiteto flaviense Nadir Afonso, correndo as sete partidas do Mundo e trabalhando nos ateliers dos arquitetos mais famosos do seu tempo, em projetos que hoje marcam e fazem parte da História da Arquitetura moderna, como Le Corbusier e Oscar Niemeyer, somos informados que “o discurso de Nadir Afonso coloca a Arquitetura e a Arte em mundos diferentes, mas não deixa de se centrar na proporção e harmonia, no entanto [continua Michel Toussaint, seguindo o pensamento de Nadir Afonso], só a Arte no seu isolamento é capaz de assegurar tal. Sob este ponto de vista, Nadir Afonso situa-se na continuidade do pensamento estético desde o século XVIII com Kant, com a separação concetual entre Arte e Técnica, entre Arte e Utilidade, entre Arte e Ciência”. E, mais à frente, continua Michel Toussaint, transcrevendo uma parcela de pensamento de Nadir, ínsita na obra «Mecanismes de la Création Artistique»: “No ato artístico a forma resiste pela sua proporção sensível e no ato técnico ela resiste pela sua estrutura racional. O indivíduo que se propõe ser ‘artista técnico’ força as formas a um jogo duplo que o desenvolvimento progressivo das suas funções diferentes torna insustentável”. No fim do seu artigo Michel Toussaint, a propósito do projeto de uma igreja escreve da seguinte forma o pensamento de Nadir: “Na conceção de toda a obra técnica está aí, sim, a grande contradição a resolver: enquanto as estruturas funcionais, empurradas pela ciência, avançam, as estruturas tradicionais, empurradas pelos ‘destinos espirituais’, puxam para trás. E sobre Gaudi, o arquiteto catalão cujas obras são hoje grande atração turística em Barcelona [Nadir Afonso] afirma: «Não, Gaudi não foi um ‘arquiteto genial’. Querendo ser um arquiteto e um artista ao mesmo tempo, Gaudi falhou numa e noutra dessas atividades. A arquitetura de Gaudi, ‘essa escultura habitável’ que Le Corbusier ele próprio admirava tanto, não é finalmente nem escultura, nem ‘habitat’». Só a extravagância pôde sustentar, mais de meio século, as suas obras»” E Michel Toussaint conclui que “Nadir Afonso não quis mais jogar  (...) [este ] insustentável ‘jogo duplo’, quis terminar com o [seu] ‘verdadeiro martírio’ e voltar à pureza da sua escolha inicial [antes de entrar no curso de Arquitetura]: ser artista. Por isso, abandonou a arquitetura [como profissão]”.

 

Entretanto, Nadir Afonso, enquanto se degladiava com o ‘seu verdadeiro martírio’ - entre ser Artista e /ou Arquiteto, fazendo uma opção em função daquilo que pensava o que eram estas duas áreas, deixou-nos, como arquiteto, nove projetos, sendo a fábrica de panificação (Panificadora de Chaves) uma das obras mais emblemáticas, precisamente localizada na sua terra natal, Chaves.

 

Mas não é do legado desta obra que hoje nos motivou à escrita sobre Nadir, o Arquiteto.

 

Hoje, muito sucintamente, queremos falar do «Anteplano de Urbanização da Cidade de Chaves», por ele coordenado, em 1965, e que acaba por culminar, definitivamente, a sua carreira como arquiteto.

 

Teria todo o interesse que, em futuras iniciativas do Museu de Arte Contemporânea Nadir Afonso, se procedesse a um ciclo de conferências subordinado ao tema «Repensar o Urbanismo na cidade de Chaves», tendo como mote aquele Anteplano, historicamente bem situado.

 

Refere Michel Toussaint: ”Como não podia deixar de ser, assentou a proposta de plano na descentralização, isto é, na criação de novos núcleos habitacionais com alguma autonomia, separados do Centro Histórico por áreas verdes inscrevendo-o no modelo das cidades satélites proveniente das doutrinas de Hebzener Howard, conhecido tanto por Le Corbusier, como pela disciplina urbanística em Portugal, nomeadamente a partir da presença de De Groër, arquiteto urbanista convidado por Duarte Pacheco.

 

A ideia de zonamento, ou seja, da constituição de zonas funcionalmente especializadas, está igualmente plasmada neste plano, defendida como basilar pela Carta de Atenas, documento escrito por Le Corbusier [...]. E, entendendo que a «ossatura das cidades é o traçado das suas ruas» como Nadir Afonso escreveu no Anteplano, organizou-o de acordo com as vias existentes, mas não seguindo a predeterminação de um modelo «radiocêntrico, ramificado ou em xadrez». O rio Tâmega e a sua Veiga, bem como as Águas Termais, são aqui defendidas como uma das bases económicas do futuro, não deixando de preconizar a indústria como outra perspetiva de desenvolvimento no horizonte de 20 anos [...]. Afinal este trabalho inscreve-se nos saberes e práticas urbanísticas da época em Portugal e apresenta-se já não apenas como um plano que define as formas dos edifícios e espaços exteriores em desenho, mas aposta sobretudo para um esquema de ordenamento do território da cidade existente e a sua expansão com um regulamento que orientaria as intervenções nesse território [...].

 

Bem pregou Frei Tomás!...

 

O que assistimos a seguir, e fundamentalmente depois de 76 do século passado, com a gestão autárquica do PPD, de Branco Teixeira, foi à subversão total de tudo quanto este autor, cidadão flaviense, preconizava!...

 

Hoje, volvido meio século sobre este trabalho de Nadir Afonso, que desenvolvimento e ordenamento territorial temos na nossa cidade?

 

Será que planeamos, ordenamos e desenvolvemos a nossa cidade, como muito bem diz Sylvio Barros Sawaya, tendo em linha de conta que “é, a todo o instante, que o espaço humano, gerando afirmação do que entende como sendo e do que deseja ser, uma fala social em que a sociedade concreta ali localizada se manifesta através dos gostos, das afeições, das necessidades e anseios, deixando traços inscritos no próprio espaço falando da sua vida e indicando um devir”?

 

As consultas públicas, quando as há, são meros proformas. E os cidadãos são verdadeiramente ostracizados acerca do que se passa e se faz na sua cidade. E, mais ainda, do que se vai passar, nos seus espaços vitais, quer sejam públicos, quer privados.

 

Estamos com Sylvio Barros Sawaya quando fala ser necessário explicitar, de antemão, todos os aspetos que vão levar à modificação do espaço público e privado da cidade onde «habitamos», através do projeto que se vai encomendar, ouvindo previamente os diferentes pontos de vista do(s) cidadão(s). Caso assim não aconteça, o projeto que se encomenda transforma-se numa decisão aleatória, não partilhada e distante da efetiva participação da sociedade, das suas comunidades e seus indivíduos.

 

Quantos projetos encomendados a técnicos para o ordenamento e desenvolvimento do território flaviense tiveram a participação social na conceção do mesmo?

 

É que uma decisão sobre qualquer projeto para a cidade, a nossa cidade, o nosso ‘habitat social’, deve basear-se numa audição prévia à decisão da encomenda do projeto. Trata-se de uma atitude sábia, consequente e harmoniosa, diz Sylvio Barros Sawaya, que vai depois tornar o projeto querido e participado por aqueles a quem se destina para nele estarem todos os dias, usufruindo do seu espaço, de qualquer natureza que seja - público ou privado. Quando um espaço é querido e partilhado por quem o habita, o usufrui, ou simplesmente gosta de o contemplar, não se transforma num corpo estranho à nossa vivência quotidiana...

 

Infelizmente não é isso que, pelas nossas bandas, todos os dias se passa. Exemplos? Não faltam!...

 

Intervir num espaço, em especial de uma cidade, não é apanágio exclusivo daqueles a quem confiamos, pelo voto, os destinos dos espaços que «habitamos». É de todos nós. Que, por isso, devemos ser ouvidos antes de qualquer intervenção. E partilharmos na execução dos mesmos. Porque não estamos aqui simplesmente em presença da elaboração ou execução de uma obra de arte, mas de um espaço que se destina a ser «habitado», usufruído, por todos. Quem não entender isto que siga outras áreas, deixando a política, a arquitetura ou o urbanismo, ou o que quer que seja, e que tenha a ver com o espaço onde a sociedade e as comunidades se desenvolvem e o Homem vive. E, tal como aconteceu sabiamente com Nadir Afonso, mude de rumo. Sejamos honestos!

 

Na verdade, estamos com Nadir - Arquitetar, Urbanizar e Ordenar não é a mesma coisa que Arte.

São, positivamente, duas atividades bem diversas uma da outra. Que exigem visões e posturas diferentes sobre a realidade.

 

Ordenar e gerir um território exige-se não só competência, sensibilidade social mas, acima de tudo, cultura efetivamente democrática, em que a abertura à participação cidadã - isenta do faz de conta e de pequenos ditadores - é a chave decisiva para o sucesso do desenvolvimento e bem-estar das populações que ocupam um determinado espaço - aquele onde a nossa vida, individual e coletiva, se desenrola e acontece.

 

António de Souza e Silva

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Sexta-feira, 27 de Janeiro de 2017

Discursos Sobre a Cidade, por Gil Santos

GIL

 

LÁGRIMAS DE SANGUE

 

Naquela ocasião as palavras vertiam-se-me como água em cesto roto. Por muito que as peasse, remedavam cabras doidas entre penedos e galgueiras. E eu, na ingenuidade das minhas verdes primaveras, permitia-as soltas, selvagens e libertinas.

 

Às segundas já ansiava os domingos. Aguardava-os como o renovo a água da rega. Os dias do senhor eram mágicos. Pela matina assistia à missa, no templo românico de Santa Leocádia. Acordava de madrugada e saía do Carregal aos primeiros acordes do galo. Sapatinho engraxado, calça vincada e camisa alva de terylene. Três quilómetros, à pata, que pouco custavam, pese embora a lama do inverno ou o pó do estio. Ouvir as larachas do padre Luís, era uma desobriga que se impunha, para expurgar os pecados, o mais das vezes veniais, e atestar a alma de fé. A liturgia pouco mais durava do que o concerto de um rouxinol num qualquer silvado. Não estivéssemos afeitos à obrigação, inconsciente, do culto e saíamos de Santa Leocádia menos católicos do que chegáramos!

 

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A igreja matriz, onde ainda se diz a missa, é um respeitável templo do século XII, classificado como monumento nacional desde 1961[1]. Com a fachada principal singela, e sem ornamentos, ostenta um campanário simples, com duas ventanas e respetivos sinos. O maior usa-se para chamar os fiéis à oração e para tocar a sinais. É baloiçado por uma grossa corrente de ferro que com o tempo lavrou fundo canyon na padieira da porta principal. O mais pequeno toca apenas a rebate, no caso de incêndio ou de outras desgraças.

 

O exterior da igreja, rude e sóbrio, é de granito nu, aparelhado e muito musgado. O telhado de duas águas. As paredes laterais, no cimo, são rematadas de um lado e de outro, com temíveis gárgulas, que afugentam os atoleimados e as almas penadas. A parede nascente, contrária à entrada principal, apresenta uma seteira ricamente trabalhada. Para mim, a jóia da coroa! Ao lado direito, encontra-se o cemitério, construído no tempo da reforma dos cabrais. O jazigo da família Morgado, à entrada do lado esquerdo, visitava-se, invariavelmente, para um padre-nosso por alminha de quem lá estava. A igreja é circundada por um adro amplo. Junto à porta lateral, a sul, um sarcófago de pedra encosta-se a à parede servindo de poiso aos homens antes do santo ofício. Uma dezena de degraus, muito gastos pelo uso e pelo tempo, dão acesso ao adro, desde o terreno fronteiro, onde um pelourinho de pedra, muito torto, testemunha a antiguidade do conjunto. Ao interior da igreja o acesso faz-se exclusivamente pela porta lateral do lado esquerdo. Somente em dias de festa, casamentos ou funerais se escancara a principal.

 

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O espaço interior é pesado e misterioso. As paredes, antes caiadas, deixam hoje ver antiquíssimos frescos que um restauro recente deu à luz. O chão, de soalho de castanho, muito gasto, mostra um vasto conjunto de sepulturas e pedras tumulares. A única nave tem teto de madeira e é fechada por um arco triunfal abundantemente lavrado. O altar principal, para lá do arco em ogiva, é de talha dourada, muito simples, em que são protagonistas cachos de uva e os anjos papudos. Para cá do arco os altares secundários. Os do lado esquerdo estão dedicados não me lembro bem a que santinhos. O do lado direito à figura tenebrosa (que Deus Nosso Senhor me perdoe!) do Senhor dos Passos. Esta imagem mexeu sempre muito comigo. De tamanho natural, o Senhor ajoelha-se ao peso do lenho. Veste túnica roxa, atada à cintura por uma grossa corda de sisal. O seu tamanho desusado, a sua expressão de sofrimento e a feridas no rosto, marcaram-me! Nunca o consegui encarar sem que me sentisse agoniado. Hoje mesmo, ainda evito encará-lo! Abaixo da porta lateral, portanto mais longe de Deus, quiçá um castigo pelo pecado original, as mulheres de lenço ou de véu e xaile de merino. Acima os homens. Bancos não havia. Quem se quisesse alapar que levasse um moutcho de casa. Alguns assim faziam. O meu falecido avô, António Moreiras, como carpinteiro que era, não só construiu um, devidamente estofado de serapilheira para si, como para a minha avó um genuflexório que também servia de assento.

 

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E assim se consumiam as manhãs de domingo. Terminavam, invariavelmente, com um lauto almoço de coelho estufado, frango de churrasco, engordado com os saltões das poulas das Padanas, ou com leitão no forno de lenha, quando as recas pariam para lá da capacidade de os vender. No tempo da caça, coelho bravo ou perdiz na brasa, com molho verde!

 

As tardes passava-as em Fornelos nas tropelias da meninice: jogando ao fite, ao rou-rou, fabricando cestinhas com parentes ou ouvindo estórias, quando o tempo não permitia ares livres. Contudo, o que mais me fascinava era a pregação!

 

É desta atividade que vos falo!

 

Desde tenra idade, alguém me topou faculdades oratórias invulgares. Acho que as ganhei ouvindo as pregações. As festas rijas não passavam sem um pregador, como as de hoje sem uma banda! Estes clérigos, sofistas, cobravam gorda maquia, e empanturravam-se, à tripa forra, na mesa das famílias mais abastadas. E eu ficava a ouvi-los, extasiado, o tempo que fosse, contrariando o que seria normal que era andar atrás das canas dos foguetes. Bebia-lhes as palavras, os gestos, bem como as demais ênfases da pregação, com avidez inusitada.

 

O meu sonho era um dia ser pregador!

 

Sonhava subir, devidamente paramentado, a um púlpito e fazer chorar os seixos da calçada como o padre Salgado fazia chorar as velhas beatas. O púlpito, para mim, tinha uma áurea mágica! Quanto mais alto fosse melhor! Mesmo hoje, se visito um templo, procuro sempre o púlpito e imagino-me desde lá puxando pela fé dos crentes. Os púlpitos, há muito abandonados, fascinam-me!

 

(púlpito)

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Então, a partir dos meus quatro anos, comecei a não ter papas na língua, nem vergonha na cara! Falando pelos cotovelos, rebuscava, nos recônditos da memória, ainda viçosa, coisas que não lembravam ao diabo! Quando não, inventava, com a mesma facilidade com que o melro inventa as melodias que canta. Daí que, primeiro em família e depois em público, viesse a dar em aspirante a pregador. Não havia festa íntima que não fechasse com uma pregação de natureza religiosa ou profana, mas sempre puxando ao sentimento. A um canto da sala, sobre a cadeira mais alta da casa, relatava a vida de um santo ou de uma santa que a minha avó Carolina me tivesse lido da Cruzada ou do Avé-Maria, ou outro qualquer acontecimento que tivesse escutado na rádio ou tivesse observado em qualquer lugar. Dizem, as más-línguas, que não ficava a dever nada aos melhores pregadores da época, salvo seja!..

 

Em público comecei, lembro-me bem, em Fornelos, teria uns cinco anos. Esta povoação, ínfima, situa-se no limite do concelho de Chaves, confinando com o de Valpaços no Alto da Cruz, a apenas dois quilómetros. Aldeia natal da minha família materna, este lugar da freguesia de Santa Leocádia, juntava sempre muito povo nas tardes de domingo, não sei se por ser atravessado pela estrada nacional 314 que de Chaves conduz a Murça por terras de Montenegro, se pelo vinho da adega do Ti Balele que se escancarava para todos. A verdade é que a partir de dada altura começou a juntar ainda mais povéu, estou que para ouvir o tal aspirante a pregador. O Ti Morgado era o chefe de cerimónia. Quando sobre a parede poente do adro da capela se projetasse a sombra do edifício, fazia-ma subir. Emplouricado naquele púlpito improvisado e olhando a gente desde o céu, destravava as palavras que se evadiam em catadupa. A pregação durava e eu sentia-me o rei de uma festa em os crentes me escutavam com mais atenção do que ao padre Luís na igreja de Santa Leocádia! E eu puxava à lágrima quanto pudesse!

 

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Assim aconteceu durante alguns anos. Raro era o domingo em que não havia sermão. Apenas a borrasca ou a neve do inverno me tiravam daquele púlpito, desde o qual terei subtraído muitas almas ao regaço de belzebú!..

 

Certa ocasião, com sete anos, fui de visita a uns parentes de Almeidinha, um pequeno lugar da vetusta freguesia do Jarmelo, situada para os lados da cidade da Guarda e a caminho de Vilar Formoso.

 

Impõe-se aqui um parêntesis para situar o leitor na história desta freguesia, com referência à obra de Leite de Vasconcelos.

 

«[Jarmelo] tinha honras de Couto com muitos privilégios no tempo do nosso primeiro rei D. Afonso Henriques, que lhe deu foral em Coimbra após o início do seu reinado. D. Manuel deu-lhe de novo foral em Santarém, no dia 1 de Junho de 1510. Em 1755 já estava desabitada, tendo apenas algumas casas, a da câmara e cadeia e mais duas moradias para dois beneficiados, além de três igrejas.

 

Nascera por má sina no Jarmelo, Pero Coelho, que foi gentil-homem da corte de D. Afonso IV - o Bravo, pai de D. Pero. Era filho de Estevão Coelho e de D. Maria Mendes Petite, que foi avó de D. Eleonora d'Álvini, esposa do Santo Condestável. Imensamente ricos, os pais de Pero Coelho deram ao jovem uma educação esmerada.

 

Pois foi justamente para o Jarmelo que Inês de Castro, amada de seu filho D. Pedro, foi desterrada a conselho de Pero Coelho. Ali seria vigiada com rigor. Então D. Pedro em mortal ânsia, não comia não dormia, não parava um momento, e buscava por toda a parte até que descobriu a sua Inês. E com mil cautelas e embustes, às escondidas, foi vê-la de noite, a cavalo, envolto na treva de uma longa capa negra. O corcel levava as ferraduras pregadas às avessas para assim despistar os seus perseguidores. Filou-a e trouxe-a por caminhos calçados de luar, à garupa do seu alazão e foi pousá-la em recônditos paços, no meio de jardins e fontes a cantarolar em tanques de azulejos esmaltados [em Coimbra].

 

Ora, quis a política desse tempo que três fidalgos, um dos quais Pero Coelho, invocando especiais razões de interesse para a grei e para o rei, praticassem o bárbaro assassinato de Inês de Castro na Quinta das Lágrimas em Coimbra, no dia 7 de janeiro de 1355. [Apenas] dois anos depois foram justiçados, bem mais cruelmente, dois dos assassinos. A Pero Coelho foi-lhe arrancado em vida o coração pelo peito. Ao outro foi-lhe arrancado pelas costas.

 

[Em retaliação] Pedro, nesse mesmo ano, ordenou que fosse completamente arrasada a vila do Jarmelo, o que se fez em virtude de nela ter nascido Pero Coelho. Depois da vingança de el-rei D. Pedro, determinou que no Jarmelo não ficasse pedra sobre pedra e que se salgasse o terreno, num gesto decisivo de maldição e extermínio. Excetuou-se porém uma pedra, tosca por sinal, onde os minúsculos pezinhos de Inês pousavam ao montar e desmontar o seu corcel de caça, a [pedra de montar]. Determinou-se que ela vencesse uma tença, de 5 reis por dia, segundo o vulgo à memória “daquela que depois de morta foi rainha”. Foi o próprio D. Pedro que ao visitar pela derradeira vez aquele lugar para ele sagrado e tão saudoso, dissera, num misto de ódio e de tristeza:

 

- Adeus Vila do Jarmelo, adeus pedra de montar, enquanto o mundo for mundo dinheiro hás-de ganhar!

 

E quando mais tarde deixou de se cobrar a tença estipulada, foi essa falta suprida pela caridade amorosa e sentimental da gente humilde das choupanas de colmo, únicas casas que então havia, cavando-se na mesma pedra uma caixa de esmolas, onde os fiéis antes ou depois da missa, iam botar alguns ceitis.

 

Hoje o Jarmelo não é sequer um povoado. Ninguém habita as suas casas totalmente desmoronadas. As muralhas da antiga vila, esfarrapadas e dispersas no cimo da alta colina pedregosa e abrupta, provocam-nos a saudade que é natural sentir-se por um varão ilustre, ao atentarmos nos despojos à maneira de Hamlet.

 

Ali resta apenas a lenda, nuvem vaporosa que sempre fica pairando nos lugares santificados pelas tragédias de amor!»

 

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Escutei, pela primeira vez, esta trágica história de Inês num dos serões dessa estada, contada pela matriarca da casa. Provocou-me grande curiosidade. Gravei-a nos mais ínfimos pormenores para ocasião oportuna. Estava certo que o próximo sermão não andaria à volta de um tema religioso, mas do drama de Inês de Castro.

 

Assim foi!

 

No domingo que se seguiu, após a missa na igreja paroquial do próprio Jarmelo, o Ti Morgado guindou-me ao descanso mais alto da escadaria da torre sineira que é exterior à igreja de S. Miguel. A gente que deixava a missa juntava-se, curiosa, à volta da torre para ver o que é que um pimpolho de palmo e meio, de calções e suspensórios, teria a dizer lá do alto! Mesmo o prior, já desparamentado e de sotaina, estava curioso para ver onde paravam as modas!

 

Comecei de largo! Papagueei o amor e a tragédia nos seus mais ínfimos pormenores, indo muito para lá do que ouvira. Pintei o quadro o mais negro que pude. E quantas mais lágrimas se soltavam dos olhos piscos das velhinhas, mais me empolgava no relato. Escaquei a louça que pude, mas deixei tudo em pratos limpos! Durou mais de meia hora aquele sermão profano. Terminei-o com o célebre dito de D. Pedro:

 

Adeus Vila do Jarmelo,

adeus pedra de montar,

enquanto o mundo for mundo

dinheiro hás-de ganhar!

 

Arranquei uma ovação mais forte do que a de Tony Carreira ao acabar o Sonho de Menino. Estou que se teria ouvido até na Serra da Estrela!..

 

Senti-me empertigado por ter sido capaz de contar a histórica trágica de Inês de Castro no próprio sítio onde ela teria estado e para as pessoas de lá!

 

− O rapaz tem jeito para pregador! − Diziam as pessoas que não se cansavam de parabenizar a família!

 

Para ultrapassar o estatuto de aspirante e poder ser pregador a sério, mal completei a 4ª classe em 1966, fui para o seminário de Vila Real.

 

Malfadada hora!

 

Dei-me tão mal na imensidão daquele casarão amarelo!

 

Chorei lágrimas de sangue pelos cantos!

 

Lá conheci o padre Max, que faleceu na Cumieira a 2 de abril de 1976. Dele levei muita pancadinha; o padre Minhava, grande músico e compositor, autor da bela marcha de Vila Real que aprendi e ainda hoje canto com nostalgia; o padre Gilberto, santo homem, diretor espiritual; o padre Hélder, responsável pela paróquia de Santa Maria Maior em Chaves; o padre Santos que me obrigava, à força do marmeleiro, a deglutir o intragável latim e tantos outros, que prefiro nem recordar!..

 

Estive lá ano e meio, afastado da minha infância livre!

 

Sim, porque que eu cresci aos ninhos, sentindo o cheiro do feno e da carqueja; aprendendo a assobiar com o melro e o rouxinol; fazendo-me gente à força dos nevões; sentindo o uivo do vento norte cortado por navalhas do sincelo; fabricando os meus próprios brinquedos; insultando o vento suão; fazendo dos dias infinitos escola e das noites estreladas sonhos; vendo parir a reca e a burra e a vaca; botando a cria ao monte e indo cá botá-la; jungindo parelhas de bois galegos e atrelando-os ao arado; sentindo o cheiro do esterco e da terra lavrada; vendo raposas e lobos e texugos; aparelhando cavalos e galopando na poeira dos caminhos; capando grilos e sacrificando saltões e lagartixas; estudando as formigas, os cágados, as abelhas e as vacas loiras; armando pescoceiras e fazendo magustos com fronças húmidas; rasgando calças a subir às cerdeiras; abrindo buracos em penedos para fazer vinho de amoras; sentindo nos pés descalços a força telúrica do Brunheiro; adoecendo e sarando com rezas e mezinhas; chamando as plantas, os animais, os lugares, as pessoas e os caminhos pelos seus nomes próprios; aprendendo palavras que já não se usam e expressões que já não se ouvem; enfim, fazendo os meus benditos sermões!

 

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Afortunadamente, vá-se lá saber porquê, fui convidado a abandonar o malogrado seminário.

 

Fim de suplício!

 

Naquela casarão ninguém me deu oportunidade de ser pregador!..

 

Foi um desgosto de morte para a minha avó Albertina! Dizia que quando me ordenasse, mandaria matar duas vitelas, encomendaria uma camioneta de arroz e outra de açúcar e convidaria a freguesia inteira de Santa Leocádia para ouvir o meu sermão numa festa no Lameiro Grande!..

 

Nem tudo se perdeu!..

 

A vida, afortunadamente, concedeu-me, em parte, o privilégio de ser pregador. Pois enquanto mo permitam, o meu púlpito continuará a ser o da sala de aula e os fiéis ouvintes os meus pacientes alunos!

 

Gil Santos

 

[1] Decreto nº 44075 publicado em 5 de dezembro, no DR 281/61 série I.

 

 

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Sexta-feira, 6 de Janeiro de 2017

Discursos Sobre a Cidade

SOUZA

 

O IMPOSSÍVEL É POSSÍVEL!

 

Entrámos num novo ano. E, nestas alturas, é comum fazer-se balanços e enunciarem-se novos ou renovados desejos e aspirações.

 

Não estamos hoje virados para fazer balanços e, especificadamente, elencar desejos ou aspirações. Tal, como diz o velho ditado, seria, muito provavelmente, «chover no molhado».

 

Ao longo desta rubrica, temos vindo a falar, e a por o dedo na ferida, daquilo que consideramos serem os males que temos e vemos, reiteradamente, reproduzirem-se em Chaves.

 

Os representantes do poder local que temos sentem-se incomodados quando lhes tocamos na ferida. E, demagogicamente, chamam-nos «os do deita abaixo», ou, não raras vezes, «intelectuais da treta», que só sabem criticar, não apresentando soluções.

 

Percebemos o seu incómodo, sinal da mais completa incompetência quanto aos lugares que ocupam.

 

Não nos compete, individualmente, encontrar e apresentar soluções. Talvez, um pouco, contribuir para fazer diagnósticos.

 

Não acreditamos em políticos heróis, com soluções (individuais) na mão, milagrosas. Pois não as há! Há, isso sim, uma outra maneira de fazer política. Com mentes verdadeiramente abertas. Que aceita as diferentes diferenças. E que conta com todos. Que constantemente insiste e apela a uma maior participação cívica dos cidadãos na construção da sua polis. Sem a crónica doença da partidarite e do compadrio.

 

Temos recursos que nos podem levar longe na escala do desenvolvimento local e na qualidade de vida dos cidadãos.

 

Temos, felizmente, embora poucas, boas práticas privadas que nos fazem acreditar que uma outra cidade e concelho podemos construir e acreditar.

 

Temos a fé que muitos (principalmente jovens) flavienses, desgostosos do rumo da sua cidade, deixem de considerar o seu berço demasiado pequeno e provinciano, e regressem ao seu lar para participarem numa nova construção da nossa terra.

 

Se bem que o que vemos movimentar-se não nos dá grandes esperanças e alegrias, contudo, continuaremos a pugnar por este grande objetivo - voltar a por Chaves no mapa de Portugal e da região em que se integra.

 

Sabemos que no passado demos cartas. Sabemos também das dificuldades e dos entraves que a sociedade global em que vivemos coloca os pequenos territórios e, ainda por cima, quando situados na periferias das periferias. Sabemos o que a grande maioria dos leitores que nos lê nos diz ou, para consigo, pensa: «mais um sonhador!».

 

Que assim seja. Mesmo assim não deixamos de sonhar.

 

Sonhar como o nosso grande poeta maior transmontano (alto duriense), Miguel Torga, quando, nas suas visitas frequentes à nossa terra flaviense para tratar os seus achaques, nas Termas de Chaves, 4 anos antes de deixar de estar entre nós, escrevia no seu último Diário, depois de ter abanado com o pessimismo de um flaviense, seu interlocutor:

 

Chaves, 26 de Agosto de 1991 - Não é possível...

 

- Ó rapaz, acaba-me lá com essa ladainha do possível! Fala-me do impossível triunfo do teu clube. Da impossível moderação alcoólica do teu pai, da impossível atenção oficial às legítimas aspirações desta tua cidade natal. Vê se olhas a vida de uma vez para sempre sem muros à volta da imaginação”.

 

Eis, pois, aqui, o nosso desejo para 2017: que aquilo que julgamos como impossível seja possível!

 

Só assim é que a verdadeira dimensão humana efetivamente se realiza...

 

António de Souza e Silva

 

 

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Sexta-feira, 23 de Dezembro de 2016

Discursos Sobre a Cidade

GIL

 

AS MANHAS DO CITOTE

 

Abel Apolinário era Citote no tribunal da comarca.

 

Nascido em finais do século XIX, nos corgos do Brunheiro, assentou praça no 19 quando fez vinte primaveras. Rude como as fragas que o pariram, não lhe poderia ter calhado melhor sorte. O serviço militar trouxe-o à cidade e abriu-lhe as portas a um mundo novo. Foi o rei da mandingança, no velho quartel do castelo.

 

Do Brunheiro vinha afeito a carolos de centeio ressesso e a caldo de tresontonte, sem pingue e, por conseguinte, não era biqueiro! No quartel, rancho e casqueiro era comida de lorde!..

 

Aprendeu a ler e a escrever na Escola Regimental e, por isso, foi graduado em Soldado Arvorado. A necessidade fê-lo guitcho e a mobilização para a Grande Guerra foi a melhor desgraça que lhe poderia ter acontecido. Sorteado para França, em Agosto de 1917, de onde pensava não regressar vivo, partiu, à pata, com os demais, numa madrugada, carregado como um ouriço-cacheiro para Mirandela, a fim de apanhar o comboio para Bragança e mobilizar com o 30.

 

Daí a três dias embarcou, no Cais de Alcântara, rumo a Brest, na segunda semana de setembro. Durante os três dias e as três noites da viagem, a bordo do navio Inglês Flavia, cuidou de morrer de tanto vomitar.

 

Malvada Biscaia que o ia tchimpando!

 

Entre lixo, mulas e machos, pulgas e percevejos e muito sofrimento, chegou a Brest mais morto do que vivo. E foi uma sorte ter lá chegado, porque muitas vezes teve de meter cortiças ao peito pela ameaça de ir ao fundo à conta dos submarinos alemães.

 

Depois foram mais três dias de comboio até à Flandres, onde comeu o pão que o diabo amassou!

 

Passou muita fome e muito frio.

 

Andou dias e dias ensopado.

 

Foi pasto de pulgas, piolhos e carrapatos.

 

Escornou camones e franceses.

 

Limpou o sebo sei lá a quantos boches, por quem tinha um ódio figadal fabricado pela propaganda de guerra.

 

Organizou patrulhas de combate, de reconhecimento e de escuta.

 

Atirou birilaites (very lights) sem conta.

 

Esfourou-se todo a cortar prego!

 

Rilhou arame farpado e excomungou a Terra de Ninguém, a que os camaradas chamavam Avenida Afonso Costa.

 

Cantarolou o Fado do Cavanço, nas noites de luar, para esconjurar o medo!

 

Comeu latas e latas de corneed-beef e bebeu o chá das cinco, feito com a água quente do cano de arrefecimento da Luísa. Mas nunca lhe chaldrou! Antes queria batatas e couves regadas com um fiozito de azeite e um copo de tinto. Chá era para as senhoras e para os pandeleiros dos beefs, como ele dizia!

 

Desviou muito feijão vermelho, batatas e pencas das quintarolas dos paisanos.

 

Assobiou às donzelas francesas, mas não foi capaz de conquistar o coração de nenhuma, apesar de dominar o patoi como poucos.

 

Arreganhou os dentes dos escoceses a quem chamava mademoiselles de tranché.

 

Visitou por diversas vezes o Drapeau Blanc em Merville pelas buscates. Era o único consolo que lhe restava naquela guerra excomungada. Nem sequer pensava no risco de uma sífilis que o tolhesse. Teve sorte, nem sífilis nem gonorreia. Não havia bitcho que o penetrasse!

 

O roulement punha-o seis dias nas linhas da frente e outros tantos na retaguarda. No front, entrincheirado, resistia à fúria da metralha, à doença, ao medo, ao frio e à fome. Na retaguarda, para esquecer, embebedava-se nos Estaminets!

 

Mas, aquela maldita madrugada de 9 de abril ia sendo a sua derradeira!

 

Escapou por obra e graça da Virgem Maria de quem era aturado devoto.

 

Integrado na célebre Brigada do Minho, no 8 de Braga, caiu prisioneiro dos alemães pelas 6 da manhã de 9 de abril de 1918. Engrunhadinho numa cova de morteiro, semienterrado na lama, viu chegar um boxe rude que lhe encostou a baioneta ao peito dizendo:

 

Hund, werden sie trinken kaffee nach Deutschland!

 

Não percebeu nada, nem lhe interessou perceber! Aquelas palavras foram a sua salvação! Levantou as mãos, tão alto quanto pôde e rendeu-se:

 

Sui bom prisionére, sui bom prisionére, salve moi good boxe!

 

Andou três dias e três noites a enterrar alemães mortos nessa Batalha de La Lys. Depois foi com mais 6 500 camaradas para a Citadelle de Lille, onde ficou três dias a pão (pouco) e água. Dali partiu para Friedrischsfeld de onde o separaram dos oficiais e o mandaram por diversos campos ao longo do vasto império alemão.

 

Sobreviveu à miséria dos campos de prisioneiros, à raiva dos alemães e às baionetas das Mausers. Mas da fome, negra, não se livrou, pese embora a misericórdia dos prisioneiros franceses que lhe davam a sopa de beterraba que não comiam.

 

A Grande Guerra acabou a 11 de novembro de 1918 e ele regressou à nação pátria apenas em fevereiro de 1919, escanzelado!

 

As peripécias da guerra e do cativeiro marcá-lo-iam ainda mais do que o próprio gás mostarda dos alemães.

 

Fixou residência em Chaves e não mais quis saber da aldeia que o viu nascer. Visitava-a apenas em dias de festa e para receber a paga dos favores que fazia. Casou e arranjou emprego no tribunal da comarca como Oficial de Justiça ou de Diligências como alguns, poucos, sabiam dizer. Para a maioria era o Abel Citote e para outros, os mais marotos, simplesmente o Piçote!

 

Um ótimo emprego aquele e ainda para mais num lugar tão importante. Uma ocupação em que chegava a ganhar, por fora, mais do dobro do seu salário!

 

Dada a iliteracia do povo, a complexidade e o temor dos assuntos da justiça, qualquer amigo, ou conhecido que se enrolasse no tribunal passava, invariavelmente, pelo Piçote. Do favor prestado saía com as mãos bens untadas, mesmo quando nem uma palha mexia!

 

Tinha a tenda bem armada o sacripanta!

 

Por tal, gozava de grande prestígio junto dos conterrâneos planálticos. Quando ia pela aldeia, os vizinhos até se engaliavam para que aceitasse um copo e uma lisca de presunto nas suas adegas!

 

Ora, o Ti Gregório Floriano tinha uma desavença antiga com o vizinho Higino Catrapisca, por causa de uma passagem para umas leiras de cultivo. O Gregório era proprietário de uma touça encravada entre a estrada nacional e a cortinha do Higino que fora herdada de seu sogro. O Catrapisca, para poupar caminho, quando queria aceder à propriedade, atalhava por uma rodeira que atravessava a touça a meio. Gregório, reclamava o direito do seu uso exclusivo e queria privá-lo da dita passagem. Aquele ateimava, reclamando a servidão de passagem.

 

Não havia maneira de se entenderem!

 

O assunto vinha-se arrastando há anos e pelos arrufos crescentes, adivinha-se que pudesse acabar mal! O Higino era das felpas do diabo. Todos o temiam. Andava quase sempre armado e metido em zaragatas. Já tinha, inclusivamente, estado preso por esmoucar os de Loivos na festa do Fernandinho! Por isso, o Gregório, cortava-lhas e então começou a ponderar recorrer ao tribunal para lhe tirar pela justiça o que não se atrevia a tirar-lhe de outra forma.

 

Mas como é que o havia de fazer?

 

Teria, certamente, de recorrer aos serviços de um advogado.

 

Consultou o Dr. Fagundes Seitouras que depois de ouvir o caso o esclareceu de que se tratava de um direito de servidão e como tal o Higino, uma vez que não tinha alternativa para acesso à cortinha, o poderia fazer através da touça. Mas que se ele quisesse, que ainda assim, meteria o caso em tribunal e deixaria que fosse o juiz a decidir. Pagou a consulta e pediu-lhe alguns dias para pensar.

 

Foi almoçar à casa de pasto do Horácio no Tabolado, onde era cliente habitual. Por sorte, ou azar, cruzou-se com o Apolinário no repasto. Conhecido de longa data, Abel convidou-o para a sua mesa e mandou vir uma bacalhoada que o Gregório fez questão de pagar! Depois de uma conversa de ocasião sobre o tempo e as sementeiras, entre umas azeitonas quartilhadas de Brunhais e meio quartilho para fazer boquinha, veio à liça a questão da passagem.

 

Que não se fintasse na treta do Fagundes que apelidou de grande bigairista! Ele mesmo lhe arranjaria um bom advogado com a garantia de que o caso se resolveria a seu favor. Para o efeito mexeria os cordelinhos no tribunal!

 

Feito com o Dr. Donzílio Carrapiço, prontificou-se a marcar-lhe uma consulta para dar andamento ao processo. Que viesse no dia de feira falar com o tal, que tudo se haveria de ajeitar.

 

Assim foi!

 

No dia aprazado lá estava Gregório no escritório do Carrapiço. Marcaram uma visita ao local. Donzílio observou a propriedade de um lado e do outro, analisou caminhos e carreiros alternativos, escrevinhou breves notas e botou a sentença: Que tinha toda a razão! Higino não tinha nada que passar pela sua propriedade, uma vez que havia outras hipóteses de acesso. Contudo avisou que a causa não lhe ficaria muito barata, uma vez que se tratava de um processo complexo e de muitos custos. Cinco contos de reis em aceitando a sua intermediação!

 

Gregório, fazendo fé nas garantias do Citote, aceitou.

 

Claro que a ida do avogado à aldeia não passou despercebida ao Higino, que logo tratou de dar os passos necessários para contrariar o que o outro pudesse estar a congeminar. Aproveitou uma feira e consultou o amigo Piçote. Que tinha toda a razão. Cabia-lhe o direito a passar pela touça do Gregório sim senhor e este não o poderia impedir com base no direito de servidão. Ele próprio manobraria os cordelinhos no tribunal para que a decisão lhe fosse favorável. Mas que consultasse um advogado amigo que lhe trataria das papeladas e em conta. Que fosse ao Dr. Adérito Acúrcio e que dissesse que ia da sua parte!

 

Assim fez!

 

Que sim que tinha toda a razão e que facilmente ganharia a questão, mas que lhe custaria cinco contos de réis.

 

Aceitou!

 

O caso deu entrada no tribunal mas demorou a ser resolvido. Passados meses o juiz decidiu-se pelo tal direito de servidão e deu razão ao Higino.

 

Gregório ficou possesso e foi pedir contas ao Piçote. Raposa matreira, atirou com o fardo para a incompetência do Carrapiço.

 

— Um bigairista esse Donzílio! Nada sabe de leis e anda a enganar meio mundo. Não ganha uma questão o filho da puta! Eu só lho indiquei porque o caso era muito fácil e ele leva barato, além do mais eu tinha a coisa mais ou menos controlada no tribunal, mas correu mal. O bandalho meteu a pata na poça defendendo que havia alternativas de passagem, quando de facto, pelos vistos, só ele é que as viu! Mas deixe estar que o filho de uma cadela sarnenta não há de comer mais ovos que eu ponha! E quanto à passagem, amigo Gregório, deixe lá o Higino passar pela rodeira, ao fim e ao cabo pouco prejuízo lhe dá, assobalha-lhe apenas gestas e tojos!..

 

Como de facto, o Gregório nunca tinha pensado que o prejuízo daquela passagem era, afinal, ínfimo e, além do mais, não era tão frequente quanto isso!..

 

Que se fodesse o Higino e mais os cinco contos!

 

Mais valia a paz entre os vizinhos do que todas as giestas e tojos do mundo!

 

 

— Ó Ti Apolinário vamos, mas é, comer umas alheiras com grelos ao Horácio que hoje quem paga sou eu! (mal ele sabia com que dinheirinho!).

 

Gil Santos

 

 

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Sexta-feira, 2 de Dezembro de 2016

Discursos Sobre a Cidade

SOUZA

 

DA ORGANIZAÇÃO URBANA (OU PLANEAMENTO URBANO)

AO DISPARATE DA NOVA INTERVENÇÃO NO LARGO DAS FREIRAS

 

Não nascemos em Chaves. Optámos, contudo, por fazer dela a nossa cidade, a nossa terra.

 

Tendo família já aqui a viver, e estudante na capital do distrito, quando adolescente, costumávamos vir, pelo período do Natal, Páscoa e Férias Grandes, a Chaves. E, com efeito, deliciávamo-nos o palpitar que, naquela altura, no designado Largo das Freiras, se vivia. Era uma mistura interessante de estudantes, professores, tropa, forasteiros e flavienses comuns que, circulando entre o Bar Aurora e o Café Sport, tendo como linha de articulação a Rua de Santo António, davam movimento, cor e vida àquele local. Por ali, tudo quanto a Chaves dissesse respeito, acontecia.

 

Hoje, está tudo completamente mudado. E temos pena, nostalgia, saudade de um lugar que antes era a imagem de marca da sua cidade e atualmente se encontra despido e sem vida. Alguns apontam o dedo aos que, na sua opinião, são os causadores deste tamanho assassinato urbanístico – os senhores do poder local.

 

Gostaríamos, aqui de participar nesta discussão à volta do Largo das Freiras e do verdadeiro disparate das obras que, neste momento, estão ali a ser feitas, ou seja, um arranjo cosmético, dizemos nós, que não vai trazer mais vida ao local. Enfim... Como o dinheiro é de todos nós, que infelizmente não o controlámos efetivamente, displicentemente passamos aos nossos autarcas um cheque em branco para, na nossa cidade, fazerem o que muito bem entendem.

 

Da nossa parte desejamos acarear e trazer a este já longo debate a nossa perspetiva. Por duas ordens de razões: a primeira, porque sempre nos interessaram as questões ligadas à geografia, urbanismo e planeamento, por gosto e também por razões profissionais; a segunda, porque reputamos de importância fundamental que discutamos a nossa cidade e opinemos sobre a sua evolução, o que dela queremos. Todos.

 

Segundo supomos saber, a intervenção feita naquele local foi no âmbito do Programa Polis. Temos para nós que, salvo raras e honrosas exceções, a grande maioria das intervenções deste Programa visa(ra)m aquilo a que designamos como a obtenção da cidade espetacular ou monumental. Mas, muitas vezes, estas intervenções levam à perda da noção de lugar ou, como diz Carla Narciso, na sua obra Espaço Público – Desenho, Organização e Poder, do genius locci, provocando a dispersão de grupos sociais que até ali exerciam as suas atividades, quer profissionais, quer de lazer.

 

Ou seja, não nos pareceu ter ali havido uma intervenção urbana equilibrada, no pressuposto da “compreensão das diferentes escalas territoriais de inserção, nos processos de reestruturação, nos elementos arquitetónicos, na morfologia urbana existente e nas tradições” (Carla Narciso, ob. cit.).

 

Estamos de acordo ainda com aquela autora quando, no mesmo passo, diz que as intervenções urbanas não devem significar uma perda da cidade, mas sim uma melhoria social e estética. Mas frisa. Na obtenção deste desiderato é igualmente necessário a participação das comunidades locais nas discussões e intervenções a serem implementadas.

 

Não sabemos se os meios de consulta pública, para além dos que a lei estipula e prescreve, foram implementados e levados a cabo de uma forma verdadeiramente participativa. Circunstâncias várias da nossa vida impediram-nos a presença em Chaves naquela altura.

 

Hoje em dia é frequente vermos uma cidade, e os seus espaços públicos, como se fossem uma simples mercadoria. Que é de todos, mas usufruído por muitos poucos. É uma lógica de produção e reprodução do sistema económico que aí está em vigor.

 

Os espaços públicos que antes eram destinados à sociabilização, o verdadeiro espaço vivenciado, como define Henri Lefebvre, convertem-se na representação de um espaço artificial, desligado dos residentes e usuários, onde não se considera as tradições e as identidades locais, onde a escala do projeto não corresponde à escala do ser humano.

 

As atuais estratégias de desenvolvimento compreendem a cidade como uma comunidade onde existe uma vida local e lugares requalificados.

 

Infelizmente, o conceito utilizado tem sido o da requalificação através da arquitetura/espetáculo para ser exibida, gerando uma verdadeira teatralização e/ou turistização do espaço público.

 

O que importa, nesta forma de fazer cidade,  é a diferenciação e a capacidade de ilusão que as obras provocam na sua passagem, desprendidas da  vivência e do quotidiana das pessoas que aí vivem, traduzindo-se, assim, num aniquilamento do lugar.

 

É certo, como dizem Borja & Forn, em Políticas da Europa e dos Estados para as Cidades, que o maior desafio do planeamento urbano contemporâneo é aumentar o potencial competitivo das cidades no sentido de responder às procuras globais e atrair recursos humanos e financeiros internacionais. Mas, de acordo com vários exemplos que temos assistido, o planeamento tem sido feito à margem da cidade, com total esquecimento das pessoas que ocupam e vivem nesses espaços.

 

O que, infelizmente, se pretende é construir uma cidade cujos seus espaços cativem o olhar do forasteiro ou turista ou que, em termos mais gerais, propicie uma atratividade em termos económicos, no conserto de uma sociedade totalmente rendida ao mercado, transformada em verdadeira mercadoria, em que as pessoas que a habitam, na grande maioria dos casos, são esquecidas.

 

E é bem certo que muito políticos e técnicos se esquecem que o espaço público tem como objetivo principal a apropriação pelo ser humano, seu habitante habitual.

 

O projeto de arquitetura deve dirigir-se aos anseios e aspirações da população que dele vai usufruir, otimizando características fundamentais à sua apropriação. Estes devem possuir características próprias e identitárias que mantenham relações de proximidade e até mesmo de afeto com os mesmos.

 

Desta forma, no que à intervenção do arranjo do Largo das Freiras diz respeito, somos a considerar que poderemos, eventualmente, estar não em presença da ativação ou da (re) construção de um património dos flavienses. Pelo contrário, assistimos à  morte de um legado patrimonial, com fortes poderes de identificação simbólica. Que não lhe conferiu nova vitalidade, como seria de esperar. E presumimos que aquela intervenção tenha sido feita com base, quase exclusiva, na representação meramente económico-turístico, baseada na moda, e na redução dos espaços públicos a mera mercadoria, numa lógica neoliberal.

 

Mas, na nossa modesta opinião, não se pode apenas apontar o dedo aos autarcas, apesar de termos de debater e por em causa a visão que o poder político tem sobre o território sobre o qual exerce poder.

 

O poder municipal é o principal impulsionador do espaço público e, em particular, ao nível das cidades pequenas e médias. Pela forte concentração do poder e/ou pela maior visibilidade que ele pode ter”, o resultado destas intervenções podem induzir a persuasão do voto. Basta considerarmos as sucessivas inaugurações de parques, praças e jardins em plena época eleitoral.

 

Desta forma, o espaço público reflete a corporificação da preocupação e da capacidade especial da autoridade e, deste ponto de vista, surge como um produto personalizado que compromete o voto. A pressão ao nível dos técnicos é claramente elevada ao conceito de arranjo e assim destitui o espaço de uma forma que o deve caracterizar e individualizar. (Sobarzo, em A Produção do Espaço Público: da dominação à apropriação). É, positivamente, nesta altura, é o que estamos a observar pela nossa cidade, com especial incidência no dito Largo das Freiras.

 

Mas também temos de entender a dinâmica das cidades e dos seus ocupantes. E de refletir sobre a(s) nossa(s) identidade(s) e apropriação (ões) dos lugares feita pelos cidadãos pertencentes a uma determinada comunidade.

 

As cidades não são estáticas. Têm espaços que desempenham funções. Funções que servem os seus habitantes e os quais delas se apropriam. A forma como as vivem, e delas se apropriam, distingue-as dos demais. E tornam-se, assim, elementos identificadores específicos de uma determinada comunidade. Que querem preservar, pois são o seu selo, a sua marca distintiva. Mas a circunstância dos constantes gritos ou desta revolta que, ao longo do tempo, temos visto espelhado à volta deste assunto relacionado com o Largo das Freiras, não reflete esta dinâmica, ou seja, o ir às razões porque aqui chegámos. Parece-nos mais um saudosismo, que não atende e entende a dinâmica dos lugares, em particular das cidades.

 

E, chegado aqui, algumas perguntas deixamos no ar:

  • Será que houve novas centralidades que desempenharam esta função?
  • Até que ponto o Largo das Freiras era efetivamente um verdadeiro espaço público de convívio, partilha, e porque não dizê-lo, de exercício efetivo de cidadania, a partir de determinado momento da história da nossa cidade?
  • Porque os flavienses deixaram de se identificar com aquele lugar como património da sua cidade ao ponto de permitirem este estado de coisas?
  • Será que o novo arranjo, que, em nosso entendimento, não passa de um verdadeiro disparate, onerando mais o erário público, irá restituir ao flaviense do século XXI, a função identitária que tinha? O que verdadeiramente se pretende com este novo arranjo? O que os flavienses querem, desejam? Foram ouvidos para o efeito?
  • Será que Chaves tem massa crítica suficiente para fazer face aos senhores todos poderosos do poder político-partidário autárquico, imbuídos de uma mentalidade mercantilizada da coisa pública, quiçá, não raras vezes, pela nossa passividade, senhores do quero, posso e mando, fazendo, na prática, o que lhes dá na real gana?

 

Nas discussões, e em particular quando está em causa o bem público, não podemos ser redutores: temos de abrir o enfoque da nossa visão para ver as coisas. Não há apenas o eu e os outros. Há também o nós.

 

E nós, flavienses, discutimos e opinamos pouco sobre o nosso espaço público. Pouco nos preocupamos com a criação e preservação dos lugares de convívio, partilha, socialização e identidade local.

 

Narcisicamente é-nos mais cómodo partilhar e conviver através das redes sociais!

 

Mas todos sabemos - e está provado -, que estas redes são lugares pobres de efetiva partilha, de criação de socialização e convívio e nulo na construção de identidades genuínas.

 

Aproximam-se aí as eleições autárquicas. Vemos algumas forças políticas - e muito bem - movimentarem-se e discutirem o futuro da nossa cidade e do nosso mundo rural. Mas esta preocupação e discussão deve ser genuína, ou seja, não deve ser feita apenas na aproximação dos períodos eleitorais. Tem de ser assumida pelos flavienses - instituições e pessoas - como uma prática quotidiana, fundamental para uma verdadeira construção e desenvolvimento do nosso território concelhio, em que a nossa qualidade de vida, de acordo com uma nova visão e de um novo modelo de desenvolvimento dos nossos territórios para o século XXI.

 

A cidadania não tem lugar apenas nos dias em que somos chamados a votar. Exerce-se todos os dias, ao nível das mais diversas formas de organizações dos cidadãos, que compõem e habitam um determinado espaço.

 

António de Souza e Silva

 

 

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Sexta-feira, 25 de Novembro de 2016

Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos

GIL

 

A COVA DO LADRÃO

 

A gente do Planalto é amiga do vinho, não porque tivesse aprendido, na doutrina, que representa o sangue de um Cristo que todos amam, mas, sobretudo, porque aquece o corpo nos dias de vento galego e dá ânimo nos trabalhos mais pesados da labuta.

 

Honra lhe seja feita que tem gosto!

 

Todavia, nem todos têm bom bober!

 

Se nuns, a pinga, aflora a boa disposição, noutros faz emergir o mau feitio, a ruindade e os maus fígados. Era o caso do Belardo Manca Mulas, Abelardo Terebentino de batismo. Lavrador remediado não se abalançava a assucar uma lavoura ou a aricar uma leira de pão, sem escoucar uma remeia. Depois, quem nas pagava era a Androsinda, uma mula nascida do cruzamento, improvável, do cavalo do Paranhos com a burra do Beiças, nas touças do Corgo. A coitada não só tinha de puxar pela relha do arado para escacholar a terra dura, como ainda de arrastar o pingueiro do bandalho. Como se não bastasse, ainda lhe arreava forte e feio com a aguilhada a cada virada de rego. A infeliz, tornava sempre ao escontra e, por isso, a vara zunia-lhe, cruelmente, riba lombo, quando não era o ferrão a rasgar-lhe os quartos de cima a baixo! Porrada de criar bicho!| Tanto assim que numa ocasião, escamado com a besta, assentou-lhe labrestada tamanha com um estadulho, numa pata traseira, que a deixou derreadinha para o resto da vida!

 

Em tempo algum o conheci sóbrio!

 

Dizia-se, à boca cheia, que bondava uma golada de água do Prado para que ficasse como uma poça! Espetava os queixos na bica, indejava o bojo e das borras de tresontonte ficava como havia de ir! O sacripanta gabava-se de aviar uma remeia por dia, não estando quente, no estio tchimpava duas!

 

1600-seixo (187)

 

O vinho sempre foi a melhor pomada para muitas das maleitas das gentes do Planalto. Porém, em terra tão madrasta, não se colhem uvas. Por isso, quem pudesse, tinha uma vinha nos fundões de Cobladrão, como se dizia, cujos socalcos, soalheiros, ajudavam a criar fruto de alto gabarito. Quem não tivesse rincão que o produzisse, tinha de se desembrulhar, pois sem vinho é que não se podia viver! E nem que faltasse o pão para a ceia, para tintol haveria de se ajeitar dinheiro! Alguns faziam das tripas coração para que o generoso lhes alumiasse o serão ao borralho, nas noites escuras da meseta, bem como os sonhos ao recolher com as galinhas. Nalguns tugúrios, estou que, alumiaria mais o vinho do que a luzes mortiças das candeias a petróleo, ou as labaredas das fronças da giesta branca crepitando nas lareiras!

 

O Ti Moreiras do Carregal tinha uns socalcos em Cova do Ladrão. Eram a menina dos seus olhos, autênticos altares marianos, de cuja Virgem era aturado devoto por tê-lo poupado à morte, quase certa, na Grande Guerra. Gastava mais tempo na vinha, do que em todas as touças, poulas ou soitos que tinha à porta de casa. Esta fazenda era a sua salvação e a do povo do Carregal. Quase todos os vizinhos se desunhavam para o ajudar nos trabalhos da vinha. Sabiam que para além da frequência com que o pipo lhes passava pelos queixos, nas podas e nas cavas, também avezavam generosos canecos ao longo do resto do ano.

 

O catano era o míldio, quando atacava a desatempo deixava o Carregal na penúria!

 

Quase não havia semana em que o Ti Moreiras não visitasse Cova do Ladrão, apesar de distar mais de duas léguas. Montado na Feiticeira, lá ia do Carregal à Torre, daí ao termo de Moreiras, chegando à Costeira, a parte mais penosa da jornada. Encosta ingreme do Brunheiro, a Costeira, ligava o Planalto ao vale do Seixo que recebendo os benditos raios austrais, estava protegido de norte pela portela do Peto.

 

1600-escariz (136)

 

Da vinha colhiam-se raros frutos: pavias, amêndoas e figos, mas principalmente uvas que fazia um vinho que em anos bons até alumiava numa candeia, não falando dos cachos de mesa que perduravam o ano todo, pendurados às cambalhotas, com barbantes, nos caibros da sala de jantar.

 

A colheita era uma festa para toda a aldeia.

 

Preparava-se durante semanas: cestos vindimos lavados, tesouras da poda afiadas, dornas empertigadas, tonéis escarolidos e lagares e lagaretas esfregados para receberem o mosto.

 

No dia aprazado, posto com muita antecedência, o povo juntava-se na estrada de Carrazedo pela madrugada. Chegava o trator do Jaime das Malhadeiras, da Amoinha Nova, irmão do Ti Moreiras, carregavam-se as dornas, os cestos a merenda e o povo.

 

Para muitos, era a única viagem que faziam durante todo o ano.

 

Dali partiam para France, passavam Lagarelhos e no Peto arrouçavam para o Seixo. Aí deixavam a nacional enveredando por um caminho manhoso de terra e buracos que conduzia à capela de Cova do Ladrão onde se estacionava. O atrelado, com as dornas, receberia os cestos de uvas alombados pelos homens por carreiros e portelos.

 

Pelo número de dornas cheias adivinhava-se a produção do ano. À noitinha, finda a saga, regressava-se em festa. E por cada lugar que se passava, a canalha juntava-se na estrada pedindo uvas. Os trabalhadores atiravam-nas à rebatina para gáudio da pequenada. Chegava-se ao Carregal, quase sempre noite escura. À luz da candeia vazavam-se as uvas no lagar de perpianho. Depois, até alta madrugada, pisava-se o vinho. Os homens descalçavam socos e carpins, tiravam as calças e de ciroulas arregaçadas lavavam as pernas em água fria, numa bacia de folha com uma lisca de sabão macaco. Depois entravam no lagar. Era uma noite espetacular. Cantavam, bebiam vinho velho e punham ao léu a vida alheia. A noite e o trabalho só terminavam quando ao Ti Moreiras lhe parecesse. Nos dias seguintes e enquanto o vinho fervia, baixava-se a cortiça com um arcanho próprio para que fervesse no bagaço e ganhasse cor. Muitas vezes andei para cair ao lagar, atordoado pelos vapores do mosto. E quantas outras, às escondidas do paizinho, ia beber vinho doce por uma palhinha de centeio!

 

Lembro-me de um ano em que um incidente, estúpido, estragou o vinho, sem que, apesar de tudo, se cometesse o sacrilégio de o botar fora! Conto:

 

O trabalho de mastragar as uvas com os pés ia a meio e os pisadores, já estavam bêbados como cágados! Numa das bordas do lagar, sobre uma prateleira manhosa de pinho, pousava a candeia a petróleo que alumiava a noite de trabalho. Num exacerbar de entusiasmo, o Marcolino Tresmundes, enquanto fingia virar uma chula minhota, estou que sem querer, pinou a candeia para dentro do lagar. O Ti Moreiras ficou em pânico.

 

Tirou a candeia o mais depressa que pôde mas não evitou, ainda assim, que se derramasse parte do petróleo. Para aquela gente desprezar o vinho era um pecado mortal mais expressivo do que quantos adultérios se cometessem numa vida! Por isso, todo o ano, bebeu-se a pisorga a saber ao petróleo, mas ninguém se queixou!

 

Enquanto rapazote, fiz muitas viagens, com o meu avô António, a Cova do Ladrão. Ele gostava de me levar com ele, dizia que o distraía. E eu gostava de o acompanhar, não só porque me sentava à garupa da Feiticeira, agarrado à crina, como tinha oportunidade de ouvir muitas das suas vivências na Grande Guerra, coisa que me fascinava.

 

E então puxava por ele:

 

− Ó paizinho, o sítio da guerra, na Flandres, era como este aqui, com penedos, caminhos e montes?

 

− Não mou filho, lá o terreno era praino e alagadiço. A lamice chegava a dar-nos pelo joelho. Às vezes, quando fazia muito frio, o pingo do nariz ficava em carambelo. E quando íamos mijar, antes do serritcho chegar ao chão, já estava em pedra. A miséria era tanta que os piolhos do corpo eram brancos e tamanhos como tchicharros!..

 

− Então não tomavam banho?

 

− Ó se tomávamos, quase todos os dias e de chuveiro, era um luxo, mas só quando chovia!..

 

− E como dormiam?

 

− Quase não dormíamos e se algum passasse pelas brasas, tinha de proteger as orelhas porque os leirancos eram tantos que, se pudessem, ratavam-no-las! Mas um dia, quando cresceres, deixo-te ler um livro que eu escrevi sobre a minha vida na guerra. Aí saberás muitas outras coisas.

 

Mal eu sabia que anos mais tarde, teria a feliz dita, não só, de a conhecer, como de a estudar e, ainda, de a dar a conhecer a tantos outros em sua honra e em honra de tantos que, como ele, sofreram as sevícias de uma beligerância inexplicada e injusta!

 

1600-seixo (181)-1

 

E lá íamos felizes acavalo, um porque tinha ouvinte para as suas estórias e outro porque as ouvia e construía imagens fascinantes e curiosas que haveriam um dia de frutificar.

 

Ao chegar à Costeira apeávamos. Temia meu avô que a égua tropeçasse e nos botasse de cangalhas, o que era perigoso. A meio da ladeira parava, sempre no mesmo lugar, não só para descanso da besta como para me contar a mesma estória, mil vezes repetida. Naquele sítio havia uma laje de granito no meio da rodeira, no centro tinha uma concavidade em forma de ferradura da qual saia um veio de granito escarlate. Assim me contava:

 

− Vês Gilinho, esta cova em forma de ferradura neste penedo? Foi a marca deixada pela burrinha de Nossa Senhora quando andava a dar a volta ao mundo pelos pecadores. Chegou aqui muito cansada. A burra pôs a pata da frente sobre esta laje e escorregou. Para não pregar com a Virgem no chão, enfincou a ferradura com tanta força que a enterrou na pedra, partindo a pata redondinha. Da bouba escorreu algum sangue que ainda se pode ver naquela mancha vermelha. A Virgem Nossa Senhora, para premiar a burrinha e para não ter de continuar a pé, guiou-lhe milagrosamente a pata. Passando por Loivos, a burrinha, pediu ao povo que construísse, em Cova do Ladrão, uma capelinha em honra do milagre. Sim, porque nesse tempo os animais falavam!

 

Assim foi!

 

Encantava-me aquela história, repetida tantas vezes. Parecia-me sempre nova com inventados pormenores. E quando olhava para a singela capelinha de Cova do Ladrão, imaginava o quadro de Nossa Senhora e da burrinha descendo a Costeira e conversando sabe-se lá de quê.

 

− Como é importante a minha terra − pensava eu − que até mereceu uma visita da Virgem Mãe muito antes da Cova da Iria!..

 

Depois chegávamos à vinha, o mais das vezes, apenas para a inspecionar.

 

1600-uvas

 

No tempo em que o bago já pintasse, o paizinho fazia questão de que comêssemos, antes da volta, um cacho das uvas sem grainha que colhia de uma latada à porta do pardieiro que servia de abrigo nos dias em que os trabalhos não permitissem regressar a casa. E que uvas aquelas!.. Curioso é que nunca deixava de cortar um generoso cacho para a Feiticeira. Sobre uma manjedoura, a égua, até fazia lume com os dentes!

 

− Apesar do bitcho não ter alma e não poder beber um copo, sequer ao menos, que larpe uma uva de Cova do Ladrão antes que ela faça o binho. Bitcho que é bitcho também gosta de coisas boas! Além do mais como é que alombaria connosco Costeira acima sem comer nada?..

 

− Belas palavras as do paizinho e generosas!

 

Coisas do vinho e da vinha!

 

Gil Santos

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Sábado, 5 de Novembro de 2016

Discursos sobre a cidade - Por António de Souza e Silva

SOUZA

 

BREVE REFLEXÃO SUSCITADA PELA FEIRA DOS SANTOS

 

Razões de natureza pessoal imponderáveis impediram-nos de, na quadra dos Santos, estarmos em Chaves.

 

Pelo que temos respigado nas redes sociais, perdemos pouco ou nada.

 

Desde longa data que vimos defendendo o repensar a Feira dos Santos. E de um papel mais interveniente, profissional e criativo por parte dos comerciantes de Chaves.

 

Aliás, não se entende muito bem apenas existir uma associação que congrega os comerciantes e da forma como está constituída: em primeiro lugar, encontramos uma amálgama de «ofícios» - comerciantes, industriais e serviços; por último, do Alto Tâmega, como se, a nível do Alto Tâmega e Barroso, houvesse uma homogeneidade tal que dispensasse a caracterização e a autonomização de cada «ofício» por cada cidade ou vila.

 

Na nossa modesta opinião, em termos dos diferentes «ofícios» para o Alto Tâmega e Barroso, a ACISAT (Associação de Comerciantes, Industriais e Serviços do Alto Tâmega), de tantos representar - ou querer representar -, não representa efetivamente ninguém, a não ser os seus Corpos Gerentes.

 

Trata-se unicamente de uma nomenclatura que não gera dinâmicas proactivas no seu seio. E, pior ainda, exibindo apenas uma pura e simples imagem (pública?). Fazendo-nos crer ser muito dinâmica, mas, praticamente, de costas voltadas para os seus associados, ou estes para ela, sendo, por isso, pouco intervenientes e raramente chamados à participação construtiva do papel dos seus «ofícios» na construção das suas cidades e vilas nas quais se integram.

 

Mas, mais que tudo isto que vimos dizendo, - repete-se -, na nossa modesta opinião, de observador externo, que procura estar um pouco a par do que se passa na sua cidade - ou talvez os seus meios de comunicação não funcionem eficazmente -, o «pecado mortal» da ACISAT foi, (e creio que ainda é), o ter-se tornado refém, «cativa» ou prisioneira», do poder político, especificadamente do autárquico, ao longo de sucessivas vereações.

 

Uma associação, que para dinamização do comércio local, pede e «aceia» as receitas do uso do solo público pelos feirantes, na Feira dos Santos, para a iluminação «artística» das ruas do Centro Histórico da cidade na quadra do Natal, - e não é ele tão pouco dinheiro -, ipso facto, deixou de ter qualquer autonomia e verdadeiro poder reivindicativo junto dos poderes públicos autárquicos. Encontra-se sempre condicionada perante ele. Porque aquele dinheiro é de todos os munícipes e não exclusivo da associação.

 

E, porque de justiça e honestidade se trata, temos aqui de fazer o nosso mea culpa por esta coresponsabilidade! Mas não nos deve condicionar e deixar-nos calado, porque errar é humano e o mais importante é saber reconhecer o erro e fazer «inversão de marcha». Para bem de todos. Particularmente dos comerciantes flavienses.

 

Gostaríamos de ver nos nossos comerciantes flavienses uma outra postura: mais dinâmica, interventiva, enfatize-se, uma vez mais, proactiva. Que tivessem em devida conta que o comércio, enquanto atividade predominantemente urbana, para além da sua função económica e funcional, comporta uma dimensão social e artística que pode desempenhar um papel chave no planeamento das cidades.

 

Vemos com enorme tristeza, neste fazer a cidade, o que, pela passividade de todos, deixamos construir, numa das entradas principais da nossa cidade, na dita Rotunda do Raio X.

 

Nada temos contra as grandes superfícies, ou suas afins. Gostaríamos que os nossos comerciantes tivessem envergadura económica e poder reivindicativo para evitar o atentado urbanístico que naquela Rotunda existe e persiste. Uma cidade que, a uma das suas principais entradas (ou saídas) apresenta dois grandes «mamarrachos», sem o mínimo de qualidade arquitetónica. Uma vergonha! E, mais uma vez, para um deles, o nosso meu culpa pelo descuido e, consequente, corresponsabilidade. Infelizmente, ao longo destes anos todos, pouco aprendemos com os erros que cometemos, quando o território urbano, tal como as pessoas, não pode ser subsumido a mera e pura mercadoria, ao gosto do mais comezinho mercado capitalista.

 

É também com enorme tristeza que vemos a passividade dos nossos comerciantes, em particular, e dos flavienses, em geral, em deixarem as nossas ruas serem palco de «hordas» que para aqui vêm na Feira dos Santos.

 

Não estamos contra o facto de todo e qualquer cidadão, com a atividade de feirante, venha a Chaves «cuidar» da sua vida. Ficamos tristes por vermos que, em vez de os recebermos, com organização e critério, somos, pelo contrário, «invadidos». Porque, ao longo dos anos não cuidámos de espaços dignos para exercerem a atividade comercial e de dispor de superfícies que, nesta quadra, pudesse também ser usufruída por quem aqui vem para ganhar a sua vida. Na verdade, não somos verdadeiros anfitriões!

 

A Feira dos Santos, tal como acontecia antigamente, já não é maioritariamente dos comerciantes flavienses que vendiam os seus produtos para o nosso mundo rural, flaviense, do Alto Tâmega e Barroso e Galego (transfronteiriço), na hora de estes venderem os seus produtos e aqueles lhes fornecerem os de que necessitavam para as novas colheitas. Esta é a génese da nossa Feira. Daqui vem a nossa tradição. Foi com estes intervenientes que a nossa cidade prosperou e cresceu, se foi construindo.

 

Que palavra hoje os nossos comerciantes têm? Efetivamente têm-na? Como a afirmam?

 

Porventura a cidade que temos apresenta alguma importância significativa como fator de desenvolvimento e atração?

 

Ora, está provado que um dos intervenientes/atores fundamentais do desenvolvimento das cidades está ligado ao desenvolvimento do comércio. Que nos diga o Porto da segunda metade do século XIX e da primeira do século XX!

 

É necessário e urgente que os comerciantes flavienses apareçam e deem a cara pela sua cidade! O seu planeamento, estruturação e ocupação dos diferentes espaços públicos é de todos os flavienses, entre os quais os comerciantes têm uma palavra importante a dizer. Sempre com eles!

 

É urgente que os nossos comerciantes entendam que há uma nova visão sobre o relacionamento entre o comércio e a cidade. A nova política das cidades deve ter uma nova perspetiva - olhar o papel que o comércio pode representar não só para os negócios mas, principalmente, para a coesão da cultura urbana e a qualificação do espaço público, que dá acesso e atratividade aos diferentes negócios.

 

Como alguém já dizia, o facto de vivermos atualmente numa aldeia global, levou a pensarmos as nossas cidades como «os nossos bairros». E, aqui, a cultura tem um papel preponderante na gestão das cidades. Ela está intimamente ligada à identidade e ao desenvolvimento dos territórios, às nossas raízes. Por isso, é importante sabermos rececionar o legado que os nossos antepassados nos deixaram, sabendo vivê-lo e transmiti-lo às gerações vindouras, preservando o património cultural, na sua forma tangível como intangível. E a Feira dos Santos deve ser assumida como tal, também.

 

Neste enquadramento, defendemos, na esteira de um nosso mestre (Santos Solla), que uma cidade, e nomeadamente a cidade de Chaves, não deve ser contruída para turistas, mas com turistas, encarando a atividade turística como uma atividade mais na cidade, ou seja, não de uma maneira mono funcional, senão poli funcional e multi funcional, evitando, assim, os riscos de uma economia urbana de excessiva dependência face ao turismo; defendemos também que, ao entendermos a arte pública como um conjunto de práticas que, sob o ponto de vista urbano, têm como missão «embelezar a cidade», que se deve aproximar a arte contemporânea dos cidadãos, - construindo uma imagem da cidade apelativa, atrativa, com nítidos proveitos também para os negócios -, mas mantendo viva a tradição da «comemoração» e do resgate da memória dos personagens, pessoas e lugares de uma cidade, que nós, desgraçadamente, tão pouco soubemos cuidar!

 

Para este desiderato, nada melhor do que o espaço «imaterial» do Museu de Arte Contemporânea Nadir Afonso, o arquiteto/pintor, para estabelecer pontes, concitar diálogos, transformando-o num centro de excelência de reflexão, também sobre a nossa cidade e o seu futuro. Com todos. E em especial com os flavienses seus principais usufruidores. Tendo como grandes atores/intervenientes os nossos comerciantes, porventura a necessitarem de uma maior sensibilização para esta nova tarefa.

 

Doutra forma o Museu de Arte Contemporânea Nadir Afonso, como obra e com obras materiais de valia, não passará de um simples «depósito de obras». Mas morto de vida. Porque não olha para a vida, para a cidade e para todas as outras formas de arte - quer as tradições populares, performances, outras «imersões» artísticas ou obras de arte propostas por artistas de vanguarda -, verdadeiramente enquadradas em todas as atividades ou eventos da cidade, como a Feira dos Santos, dando-lhe Vida.

 

Serão estas iniciativas que delimitarão e criarão uma espécie de inédita crença de herança cultural e estética na cidade, dinamizando-a em todas as suas vertentes, transformando, desta forma, o Museu de Arte Contemporânea Nadir Afonso verdadeiramente inserido no verdadeiro espaço urbano público flaviense, subjazendo à vida quotidiana dos seus cidadãos.

 

Deverá ser esta a sua verdadeira, útil e nobre função. Com dividendo para todos. Criando uma cidade viva e atrativa, dinâmica, não apenas para os negócios, mas para todos aqueles que, na pacatez de uma cidade média, podem usufruir de uma boa qualidade de vida, com diversidade cultural e boa convivência social.

 

Sem o desempenho deste papel fundamental, o Museu de Arte Contemporânea Nadir Afonso transformar-se-á numa enorme e pesada herança para os nossos vindouros.

 

 

António de Souza e Silva

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Sexta-feira, 7 de Outubro de 2016

Discursos sobre a cidade - Por António de Souza e Silva

SOUZA

 

CHAVES - COM COROA MAS SEM TRONO

 

Na véspera de mais um périplo fotográfico com os amigos do costume para o Barroso, acabámos de ler - o que desejávamos já tê-lo feito há mais tempo - a última obra do nosso saudoso escritor transmontano - Bento da Cruz.

 

Embora não estejamos totalmente de acordo com Bento da Cruz quando afirma «o Barroso é um Paraíso, o único ou um dos poucos que ainda existem à face da terra», estamos, contudo, com ele quanto ao fascínio que as terras barrosãs têm sobre qualquer «estrangeiro» curioso, quando visitadas e calcorreadas.

 

Mas, para conhecer o Barroso não basta apenas visitá-lo ou calcorreá-lo. Nem, tão pouco, fazer longas paragens, convivendo com os seus nativos, residentes. É necessário conhecer a sua história - a sua profunda história -, o ter sido intérprete e ator da vida dos seus muitos lugares. Em suma, é preciso ter a alma barrosã.

 

E foi aqui que Bento da Cruz, como grande escritor que foi, efetivamente se distinguiu.

 

Mais ninguém soube retratar o Barroso, nas suas diferentes paisagens - as naturais e as humanas, das suas gentes - do que ele. Na simplicidade e nudez das palavras do seu povo; na crueza e ardura das suas vidas; na frieza, solidão e agrura da sua terra.

 

Se obras como Hemoptise, Planalto em Chamas, Ao Longo da Fronteira, Filhas de Loth, Contos de Gosto Frio, O Lobo Guerrilheiro, O Planalto de Gosto Frio, Histórias da Vermelhinha, História de Lana-caprina, O Retábulo das Virgens Loucas, A Loba e a Lenda de Hivan e Bellkiss, constituem um conjunto de retábulos, desenhados com a mestria da palavra, e que nos apresentam, no seu conjunto, a límpida imagem, tão bem representada do país barrosão, na comemoração dos seus cinquenta anos de vida literária, ocorrida em 2009, Bento da Cruz deliciou-nos com mais um - «A Fárria».

 

Vale a pena citar as suas primeiras palavras, ínsitas no Preâmbulo desta obra: “Neste ano da graça de 2009, em que faço oitenta e quatro anos de idade e cinquenta de vida literária, duas coisas peço aos deuses. Mais algum tempo no reino dos vivos, entre os quais, apesar de tudo, me sinto bem, e lucidez suficiente para não publicar mais nada. Estou a ficar velho (...)”.

 

Pelos vistos, os deuses concederam-lhe a «graça» que lhes pediu: faleceu em agosto do ano passado com noventa anos e, na verdade, não publicou mais nenhuma obra. A Fárria foi a última.

 

Se bem que não seja, porventura, a sua magnum opus - na qual, na nossa modesta opinião, O Lobo Guerrilheiro se distingue -, nem por isso A Fárria é menos importante.

 

Em toda a trama de A Fárria já se pressente positivamente que a velhice e a presença da morte começava a cavar fundo na alma de Bento Cruz, dando-nos conta que estamos perante uma obra de «despedida», tal qual a do seu amigo e personagem Silvério Silvestre.

 

Mas a prosa continua lúcida, a palavra cristalina, com o enredo a prender-nos a uma leitura feita de uma só assentada.

 

Mas não foi para falarmos desta obra que pegámos na caneta para escrever este «discurso». Apenas serve de pano de fundo para as poucas linhas, melhor dizendo, perguntas, que vamos rabiscar. Porque, a certa altura da sua leitura, damo-nos connosco a perguntar: que importância Chaves, a dita capital do alto Tâmega e Barroso (embora agora, em certos «foruns», já lhe tenham cortado o Barroso) para as minas da Borralha e Salto, em especial, e Montalegre, em geral?

 

Chaves, nesta obra, aparece-nos aqui e ali circunstancialmente. Para os barrosões da década de 40 do século passado até hoje, os verdadeiros centros de atração das suas gentes eram as Terras de Basto, com Cabeceiras à cabeça, a cidade minhota de Braga e o litoral, representada pela Póvoa de Varzim. Está é uma realidade que o rigor dos números e a frieza da estatística nos apresentam.

 

Contudo, os flavienses, porventura alguns de «peito inchado», acham que a sua cidade é a capital do Alto Tâmega e Barroso.

 

Mas, perguntamo-nos: o que Chaves fez e tem feito para, como possuidor dessa coroa, merecer tal trono?

 

Que fizemos, ao longo dos anos, em termos de atratividade, para trazermos Montalegre para a órbitra flaviense?

 

Mutatis mutandis, perguntamos ainda: e o que se passa com os restantes concelhos que integram o Alto Tâmega e Barroso - Vila Pouca de Aguiar, Valpaços, Ribeira de Pena e Boticas?

 

Provavelmente, à exceção de Boticas, com uma dimensão, em termos de gentes, comparável a uma ou duas freguesias (rurais) das maiores de Chaves, para onde está virado Valpaços? Para Chaves ou Mirandela? E Vila Pouca de Aguiar? Para Chaves ou Vila Real? E Ribeira de Pena? Não estará mais no coração das Terras de Basto?

 

Administrativa e politicamente, estes seis concelhos, dizem os nossos políticos locais, constituem uma verdadeira unidade territorial, sólida e coesa.

 

Assente em que bases?

 

Na qualidade da rede viária que os une a Chaves, especificadamente na que a liga a Montalegre e Valpaços? Na economia atrativa e florescente que Chaves possui? Nas instituições culturais ou na programação cultural dinâmica que Chaves oferece com verdadeiro desígnio regional? Nos serviços desconcentrados da Administração Central que Chaves tem? Na sociedade civil flaviense forte, com visão estratégica e horizontes de vida e futuro para oferecer aos nossos jovens, já poucos, e que dia a dia se «esvaem» ou para o litoral ou para uma nova diáspora?

 

Para um simples e atento observador, cada concelho do Alto Tâmega e Barroso vai tratando da sua vidinha, como sabe e pode. Mesmo que cada um cuide de ter as mesmíssimas e mais diversas instalações públicas - não se cuidando da escassez dos recursos -, totalmente subaproveitadas, e com manutenções caríssimas, ou leve a cabo idênticos eventos, muitos deles sem verdadeiro impacto local, quanto mais regional ou nacional, na tentativa de dinamização das respetivas economias locais, não tirando nenhum deles - em particular a sua presuntiva rainha -, qualquer lição tirada da «parábolas dos vimes»!

 

Chaves, enfatize-se, tem a fama de ser a capital do Alto Tâmega e Barroso, ou seja, ter uma coroa, mas, na realidade, onde assenta o seu trono?

 

António de Souza e Silva

 

 

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Sexta-feira, 23 de Setembro de 2016

Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos

GIL

 

O CARABUNHAS

 

O Carabunhas, nomeada pela qual era conhecido o prior do Planalto, foi dizer a missa de domingo de Lázaro manco de uma pata, como dizia o Nano da Carregal!

 

─ O que lhe teria assucedido? ─ Inquietavam-se os paroquianos que há muito se intrigavam, alguns invejosos, com as noites atribuladas do clérigo.

 

Mas comecemos por tresontonte!

 

O Carabunhas, de nome próprio Babiano Zebedeu, nasceu, pelos anos trinta, algures no Brunheiro. Pobre que nem Jó, era filho da crujidade! Sua progenitora, cabaneira, foi mãe solteira, sabe ela e Deus de que semente! Diz-se, à boca pequena, que só conhecera um homem na vida e que lhe guardara fidelidade eterna nas touças da Galgueira! E a verdade é que depois daquela gravidez acidental nunca mais alcançou, nem daquele, nem de qualquer outro. O segredo, guardou-o tão bem, que nunca o Zebedeu soube o nome do espermatozoide que o gerou. Também, tanto se lhe dava. Mas, se me permitem uma inconfidência, eu acho que ele desconfiava, mas preferia ignorar. Na sua filiação legal constava paternidade incógnita. Contudo, se os registos se dessem a outras oportunidades e, em vez do pai, perguntassem pelo padrinho, já constaria em nome próprio o de Adalsindo Bota e Meia, pároco da freguesia!

 

O Adalsindo acarinhava o raparigo como se fosse seu filho legítimo. Logo que o achou capaz de pegar na galheta, botou-o a sacristão. O Babiano dava tanto jeito ao ofício que depressa convenceu o padrinho a fazê-lo padre. O velhote anuiu, pensando na sua substituição.

 

Assim, mal concluiu a 4ª classe, em Adães, na escola do mestre Matos, o vigário, a suas expensas, espetou com ele no seminário de Vila Real, às ordens do Reitor Libânio Borges.

 

Durante os anos que levou para ser padre, não caçou uma única raposa. Já marmanjote, durante as férias grandes, substituía o prior com a perfeição de um futuro mestre nas lides da igreja.

 

A sua mãe andava toda croncha com o rapaz.

 

E com razão!

 

O filho haveria de ser o amparo na sua velhice, do corpo, mas sobretudo da alma. Em nada se arrependera de provar a fragância da maia piorneira pelas poulas do Belão! Bendito o pólen que lhe inchou o ventre! E bendita a ajuda do Criador na geração daquele rapaz, que era a menina dos seus olhos!

 

O gaiato teve uma infância livre e farta. Cresceu escorreito, sem fome e sem frio. Abençoado pelo padrinho, fez-se homem em três tempos.

 

Ainda havia de dar muito que falar o sacripanta!

 

Foi o único a estudar em toda a freguesia, para inveja dos filhos dos lavradores mais abastados que se obrigaram à rabiça do arado, mal concluíram os estudos primários.

 

O Babiano era conhecido pela alcunha de Carabunhas porque quando frequentava a escola do professor Matos, levava os bolsos atulhados de carabunhas de azeitona para fustigar as orelhas dos parceiros com uma fisga de elásticos, quando apanhasse o professor distraído. Era um vício excomungado que lhe valeu muita porradinha. Mas valia a pena só para ver os abanos dos parceiros como cerejas! Ficou-lhe a nomeada. E até nem o desgostava!

 

Rezou missa nova na vetusta românica de Santa Leocádia, num verão de meados dos anos cinquenta. À cerimónia ajudaram quantos padres havia nas redondezas e eram muitos! O repasto foi no Lameiro Grande e para toda a freguesia. Meteu três recos no espeto e uma vitela no forno.

 

Foi até lhe chegar com um dedo!

 

Bem, só para os doces, não chegou meia camioneta do Semeão de Carrazedo para transporte do açúcar amarelo!

 

E vinho foram para aí duas pipas!

 

Depois da missa nova do afilhado, poucos anos mais durou o velho Bota e Meia. Bateu a caçoleta feliz por se saber bem continuado. E, de facto, o afilhado saiu-lhe melhor do que a encomenda! Dizem que quem sai aos seus não degenera e este galho não renegou o tronco que o fez!

 

Mulher que se lhe arreganhasse na sacristia cheirava o fanenco!

 

Era certinho!

 

Tanto se lhe dava que fosse solteira, casada ou viúva, era tudo a eito!

 

E mais não digo que me envergonho!..

 

O seu carocha conhecia de cor o recôndito de todos os lugares do Planalto e tanto dormia num palheiro de Vale do Galo, como no Prado do Carregal. E, à medida que o tempo passava, mais desavergonhado ficava o presbítero. O cuidado que a alma penada das suas ovelhas merecia, justificava a azáfama das diferentes pernoitas. Dizia-se à boca cheia, sobretudo no mundo insondável do mulherio, que eido onde o padre poisasse não havia diabo que penetrasse! E com alguma razão, pois dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço, ao mesmo tempo, como dizia o físico! As viúvas, por exemplo, eram as que acreditavam mais piamente nas capacidades curativas do prior, sobretudo as que, em casadas, não tiveram vida que se recomendasse!

 

O homem era levado do catano! Só quem o conheceu!..

 

Claro está que, nos primeiros anos, o povo ainda lhe foi topando graça, mas, à medida que lhe foi medrando o território, os homens começaram a passar, progressivamente, do estado de inveja ao de inquietação.

 

─ Lá que exorcize os diabos das outras, ainda vá que não vá, mas os da minha toco-os eu a bober! ─ Dizia o Beiças, e com razão!..

 

Não demorou muito que a porca torcesse o rabo!

 

Dois dos mais afoitos jovens de Adães prepararam-lhe a estrangeirinha! Apanhassem-no na casa da viúva Cremilda que o haviam de cozer!

 

A casa da Cremilda estava construída numa ladeira. Tinha uma porta única, carral, que dava para um grande pátio. Do lado mais fundo, uma varanda alta que dava para umas hortas nas traseiras. Quem entrasse e não quisesse sair pelo pátio só poderia fazê-lo pela janela da cozinha para a rua ou botando-se abaixo da varanda para a horta.

 

Estava uma noite gelada no Brunheiro! Céu estrelado em janeiro, era geada certa. E começava a esgalhar logo que o sol vencesse o Alvão.

 

Pelas oito, já noite escura, o Carabunhas estacionou o seu Volkswagen azul no largo da escola. Os tais, micaram-no e seguiram-lhe o rasto! O salafrário fora expurgar os diabos à Cremilda. Deixaram-no paramentar e deram-lhe tempo suficiente para que conferisse a penitência que prescrevera à paciente! Seriam umas onze, quando o Estanislau e o Geraldinho embeberam umas sacas velhas de sarapilheira em óleo queimado, para fingirem um incêndio sob a janela da cozinha da viúva, iluminada por uma ténue luz de candeia a petróleo. Um tocaria fogo às sacas e saltando aos gritos de fogo, bateria, em algazarra, na folha da porta carral do pátio, o outro tocaria o sino a rebate para juntar o povo. Com esta manobra esperavam pregar com o padre, de calças na mão, no meio do povo!

 

Contudo, o Carabunhas sabia mais com um olho aberto do que os marlantes com os seus quatro! Não deu parte de fraco, com a calma de um marialva, compôs-se, dirigiu-se à varanda e pulou para a horta. Contava que no final dos quatro metros encontrasse a terra fofa das pencas, porém esperava-o um seixo saliente que lhe ia quebrando o tornozelo. Foi Deus que lho salvou! Enquanto o povéu acudia ao fogo, o padre, cozido às sombras das paredes e entre suores frios e dores horríveis, arrastou-se até ao carro e pôs-se a milhas sem que ninguém o topasse.

 

No dia seguinte, era o domingo de Lázaro, penúltimo antes da Páscoa. O Carabunhas, não querendo dar o flanco, foi dizer a missa, sabe Deus como!

 

Que tinha escorregado nas putas das escaleiras com a geada!

 

Foi a melhor desculpa que encontrou para sossegar a passarinha das beatas mais curiosas.

 

Olha que nenhum homem foi capaz de lhe perguntar pelo sucedido!

 

Cala mureta!

 

Quiseram-no cozer mas quem se cozeu foram eles!

 

Pastor que é pastor, leva vantagem sobre o rebanho.

 

Pudera!

 

Sarado o tornozelo, repetiu-se a festa!..

 

─ Ai quem me dera ser padre! ─ Rezava o Alpoim, na desobriga dos domingos, encostado ao cipreste secular do adro da igreja de Santa Leocádia!..

 

Pois isso, é que naquele tempo valia mais ser padre do que ser doutor!...

 

Gil Santos

 

 

 

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Sexta-feira, 2 de Setembro de 2016

Discursos sobre a cidade - Por António de Souza e Silva

SOUZA

 

Dirigentes políticos lúcidos e esclarecidos, precisam-se!

 

I

 

No final dos anos noventa do século passado, o nosso saudoso amigo genebrino oferecia-nos um livro que, na altura, e numa leitura um pouco diagonal entretanto feita, achámos verdadeiramente importante, digno de uma leitura mais atenta. Entretanto, como acontece a muitos livros que compramos, muitas vezes acabam por ficar esquecidos num canto das prateleiras dos livros da casa.

 

Foi o que aconteceu com «Geopolítica do caos», de Ignacio Ramonet, editor do Le Monde Diplomatique, a principal publicação de política internacional dos finais dos anos 90, que catalisou, na opinião de Emir Sader “as visões críticas e alternativas à nova Ordem (…)” desde o derrube do Muro de Berlim e à instauração daquilo a que se passou a chamar a Pax Americana.

 

Ainda, nas palavras de Emir Sader, que faz a apresentação do livro, saído em 1999, Ignacio Ramonet mostra-nos os traços das “novas relações de poder que se escondem por detrás de aparentes fluxos naturais de bens, de serviços e de informações. Uma fotografia fin-de-siècle que faz jus ao centenário J’acusse, de Emile Zola”. E deixa-nos com este desafio: que cada qual escolha o seu lugar – o banco dos réus ou a procuradoria.

 

O livro «Geopolítica do caos», de Ramonet, para além das muitas realidades e diagnósticos que nos apresenta (que hoje, mais que nunca, estão certeiros), perante um mundo e uma sociedade cheia de perplexidades, propõe-nos desafios que, urje, devemos enfrentar.

 

Diz Ramonet a determinada altura: “Neste contexto de deceções e incertezas em que hoje vivemos, dois novos paradigmas estruturam a nossa maneira de pensar: o primeiro é – comunicação. Esta tendência a substituir, pouco a pouco, a função de um dos principais paradigmas dos dois últimos séculos: o progresso. Da escola à empresa, da família à justiça e ao governo, em todos os campos e para todas as instituições, eis, daqui em diante, a única palavra de ordem: é necessário comunicar. O outro paradigma é o mercado. Que substitui o da máquina, do relógio, da organização, cujos mecanismos e funcionamento garantiam a evolução de um sistema. À metáfora mecânica, herdada do século XVIII (uma sociedade é um «relógio social» e cada indivíduo exerce uma função útil para o bom funcionamento do conjunto) sucede a metáfora económica e financeira. Daqui em diante tudo deve ser regulado segundo os critérios de «Sua Majestade» o mercado, panaceia última”. E continua: “ na primeira fila dos novos valores: os lucros, os benefícios, a rentabilidade, a concorrência, a competitividade”.

 

As “leis” do mercado tomam o lugar das leis da mecânica (que rege a vida dos astros, do cosmos e da natureza) como explicação geral de movimentos das sociedades.

 

Com efeito, estes dois paradigmas – comunicação e mercado – constituem os pilares sobre os quais repousa o sistema do mundo contemporâneo no seio do qual se desenvolvem, com grande intensidade, as atividades que, como explica Ramonet, possuem quatro atributos principais: planetário, permanente, imediato e imaterial.

 

O modelo central é constituído pelos mercados financeiros que impõem como ciência de referência já não as ciências naturais, a mecânica newtoniana ou a química orgânica, “mas o cálculo de probabilidades, a teoria dos jogos, a teoria do caos, a lógica imprecisa e as ciências do vivente”.

 

Modelo central este que, tendo como base o liberalismo, doutrina que não suscita a simpatia maciça dos cidadãos e que, tal como na década 80 com Ronald Reagan, nos EUA, ou no Reino Unido, com Margaret Tatcher, teve então, como hoje em dia ainda com mais intensidade, brutais consequências sociais: agravamento das desigualdades, aumento do desemprego, desindustrialização, degradação dos serviços públicos, deterioração dos equipamentos coletivos… que, segundo as propostas dos monetaristas, todos estes problemas seriam automaticamente resolvidos pela «mão invisível do mercado» e pelo crescimento macroeconómico.

 

Os melhores, ditos especialistas, estimavam que, graças à desregulação, à abolição do controlo do câmbio, à globalização financeira e à mundialização do comércio, a expansão seria perpétua.

 

O enriquecimento fácil foi encorajado e aparecem os novos-ricos aventureiros, alguns deles detentores de mega empresas. A especulação financeira foi encorajada e assistiu-se à apoteose dos golden boys. Ou seja, no âmago do sistema: o dinheiro.

 

Entretanto, incertezas e desordem tornam-se parâmetros fortes para medir a nova harmonia de um mundo em que a pobreza, o analfabetismo, a violência e as doenças não cessam de progredir. Um mundo em que menos de 1/5 dos mais ricos da população dispõem de mais de 80% dos recursos, enquanto mais de 1/5 dos mais pobre dispõe apenas de 0,5%... Um mundo, enfim, em que o montante das transações nos mercados monetários e financeiros representa cerca de cinquenta vezes mais o valor das trocas comerciais internacionais… Um mundo em que, dizendo-se viver, na sua imensa maioria, em regime democrático, se travam intermináveis batalhas eleitorais para conquistar democraticamente o poder, sem muitos destes atores se aperceber que o poder mudou de lugar!... E, mostrando, nessas batalhas, o espetáculo de uma total impotência para mudar seja o que for!...

 

Seres constrangidos a negarem-se constantemente, pois o verdadeiro poder está fora do seu real alcance: está em alhures. Por isso não espanta que surjam expressões, que a muitos escandaliza, mas que exprimem efetivamente a verdadeira realidade – figuras de palhaços na senda política quotidiana… Sem deixarmos de por de fora a hipótese de, infelizmente, alguns desses atores, serem cúmplices de uma farsa da qual só eles são os únicos beneficiários! Exemplos? Para quê? Todos os dias eles nos entram pelos olhos e ouvidos através da todo-poderosa comunicação social que, na ânsia do lucro, nos conta, e explora, somente a parte que é útil à sua sobrevivência, em termos de concorrência e mercado, controlado pelos grandes magnates do poder económico e financeiro, cujo paradeiro e nomes mal sabemos onde param!...

 

Enfim, estamos perante o avanço e a vitória do pensamento único, da pretensão universal dos interesses de um conjunto de forças económicas, em particular, as do capital financeiro internacional. Princípio de tal forma contundente que um marxista distraído não chegaria a nega-lo: o económico leva a melhor sobre o político.

 

A Europa inventou o Estado Providência. Como em nenhuma outra parte do mundo, os cidadãos dos países que constituem a União Europeia beneficiam de uma pensão de velhice, de um seguro-doença, de ajudas à família, de um fundo de desemprego, assim como de prerrogativas de direito do trabalho. Este arsenal de garantias socioeconómicas, conquistadas pelo movimento operário, constitui o âmago da civilização europeia moderna. No fundo, é isso que distingue a União Europeia de outras áreas geopolíticas e, principalmente, de seus concorrentes económicos americanos e japoneses.

 

A lógica da globalização/mundialização e do livre comércio planetário impele a alinhar os salários e a proteção social pelos valores, muito inferiores, praticados nos países concorrentes da região Ásia-Pacífico. E é, na nossa ótica, em nome da eficácia económica, e correndo o risco de quebrar a coesão nacional, que os governos europeus, neste início de século, estão fazendo, ou seja, desconstruindo o edifício social que tanto custou a construir. Porque, afinal, se o dinheiro dos contribuintes não fosse retirado pelos detentores do poder do Estado para ostentarem as suas estranhas, irracionais e megalómanas ambições de permanência do poder e das suas cliques partidárias; se soubessem, com competência, eficácia e eficiência, gerir tal como o faz um «bonus pater famílias», não chegaríamos a este ponto!

 

A performance económica entra em contradição com a cultura e a democracia que, segundo parece, esqueceram a advertência feita, já em 1938, pelo escritor Raymond Queneau: “o objetivo de qualquer transformação social é a felicidade dos indivíduos e não a realização de leis económicas inelutáveis”.

 

Com a crise económica em que, inelutavelmente, estamos, sobrevém também a cultural, assistindo-se à sua própria agonia. Ao ponto de Edgar Morin afirmar que “estamos entrando numa época em que as certezas se desmoronam. O mundo encontra-se numa fase particularmente incerta porque as grandes bifurcações históricas não foram identificadas, não se sabe para onde se vai!”. O futuro apresenta-se-nos bastante incerto, por que tudo está alterado. Por que estamos na hora de questionar certezas, rever práticas, compreender os novos parâmetros dos tempos presentes.

 

Diz Ramonet: “as sociedades europeias continuam a navegar na modernidade, sem objetivo bem definido e sem uma nítida representação do seu devir”. Urje, pois, - porque não se pode dispensar – uma reflexão a longo prazo e em profundidade. Será uma loucura, diz aquele autor, se não se fizer. Porque saímos de um universo de determinismo simples e entrámos num mundo que, dia a dia, mais se complexifica e no qual a incerteza, a estratégia e a inovação aparecem fortemente associados. Porque, compreender, é o desafio fundamental. Porque a crise porque passamos é também a nossa incapacidade mental, intelectual, conceitual para, inclusive, medirmos a sua própria dimensão.

 

A sociedade europeia encontra-se não só sem crescimento mas, mais ainda, sem projeto! E, assim, despojados dos indispensáveis pontos de referência culturais e desidentificados, os cidadãos enfrentam a crise atual na pior das condições mentais. E chegamos a tal ponto – porque sem horizontes de referência – que são raros os intelectuais que percebem e concebem o nascimento de novos horizontes coletivos.

 

George Steiner disse: “os meus alunos de outrora tinham todas as janelas abertas para a esperança: era Mao, Allende ou Dubcek, ou o sionismo. Existia sempre um espaço onde alguém lutava para que o mundo viesse a modificar-se. Presentemente, não existe nada disso”.

 

Em contrapartida, a promessa da felicidade na escola, na família, na empresa ou do Estado é formulada pela comunicação todo-poderosa.

 

Daí a proliferação, sem limites, dos instrumentos de comunicação, dos quais a internet é o coroamento total, global e triunfal. Quanto mais comunicamos, dizem-nos, mais harmoniosa será a nossa sociedade e maior será a nossa felicidade. A nova ideologia do tudo-comunicação, este imperialismo comunicacional, exerce sobre os cidadãos, desde algum tempo, uma autêntica opressão, subliminar, mas profunda. Durante muito tempo a comunicação foi libertadora porque significava, desde a invenção da escrita e da imprensa, a difusão do saber, das leis e das luzes da razão contra as superstições e os obscurantismos de toda a espécie. Hoje em dia, impondo-se como obrigação absoluta, inundando todos os aspetos da vida social, política, económica e cultural, não passa de uma tirania, que, segundo ainda Ramonet, virá a tornar-se, provavelmente, “a grande superstição do nosso tempo”.

 

Para além disso, a sociedade cede as rédeas ao mercado. Este, tal qual um líquido ou um gás, infiltra-se, penetra em todos os interstícios da atividade humana, convertendo-as à sua lógica. Inclusive, determinados campos que, durante muito tempo, estiveram à margem do mercado, como a cultura, o desporto, a religião, a morte, o amor, etc., estão sendo inteiramente invadidos pela lógica da mercantilização generalizada, da oferta e da procura.

 

Todas as mudanças que estes dois paradigmas – comunicação e mercado – provocaram, desestabilizaram fortemente, de uma forma rápida e formidável, os dirigentes políticos. Estes, na sua grande maioria, sentem-se superados por uma cascata de reviravoltas que modificam as regras do jogo e os deixam, no mínimo, parcialmente, impotentes. E não é por isso que deixam de reclamar, alto e em bom som, uma «modernização» e uma «adaptação» aos novos tempos.

 

Por sua vez, inúmeros cidadãos têm a impressão de que os verdadeiros senhores do mundo não são aqueles que têm as aparências do poder político e de que, praticamente, a totalidade dos Chefes de Estado estão superados pelos acontecimentos e não parecem estar à altura de enfrentar uma crise – aliás, muitos não chegam sequer a identificar os contornos da mesma.

 

II

 

Perante este quadro, perguntamos, os os autarcas que nos «governam» estão à altura do desafio que os momentos por que passamos exigem?

 

Há muito que vimos defendendo quais os requisitos que reputamos essenciais para que tal desiderato tenha um mínimo de sucesso.

 

De lá até aqui, o que observamos? Nos partidos, ditos do arco do poder municipal, o que vemos? A mesma estratégia; os mesmos processos; o mesmo discurso, conforme se é poder ou oposição; as mesmas recriminações; as mesmas promessas… Mudam-se apenas as caras – umas mais bonitas que outras, e, o que praticamente conta, é a estética e simpatia pessoal do candidato (a).

 

 

As verdadeiras mudanças, a nova ordem de que tanto hoje necessitamos, não são aquelas que vêm (ou nos impõem) de cima. Elas constroem-se, de uma forma verdadeiramente esclarecida, a partir da base. Porque é aqui que, com uma nova mentalidade, como de uma verdadeira revolução cultural e mental se tratasse, é que estão as pessoas, a verdadeira obra-prima para a construção de um Novo Mundo. Por isso acreditamos naqueles que, a partir da sua aldeia, do seu bairro, da sua cidade e do seu município, procuram, de uma forma democrática, representativa e partilhada, ser capazes de, com os seus pares e vizinhos, lucidamente, empenharem-se nessa nova construção. Porque acreditam que novos mundos são possíveis!

 

Para uma melhor e mais eficaz ação, hoje, mais que nunca, exige-se dos dirigentes políticos uma total compreensão do mundo em que vivemos. Exige-se dirigentes políticos com uma visão esclarecida do mundo que pisamos, deixando para trás os discursos que integram um elenco de promessas eleitorais que, imediatamente, são desmentidas pela realidade e, consequentemente, não cumpridas.

 

Existe, porventura, debate autárquico? Os principais intervenientes desse debate contribuem, com elevação, para o diálogo, compreensão e construção de uma sociedade flaviense mais aberta, informada e partilhada na gestão da coisa pública flaviense, que é de todos nós e, para a qual, todos nós, com maior ou menor grau, contribuímos.

 

Porventura não assistimos, como há dois mil anos, ao mesmo espetáculo que os romanos ofereciam aos seus súbditos - Panem et circenses?...

 

António de Souza e Silva

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Sexta-feira, 26 de Agosto de 2016

Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos

GIL

 

Barbos de escabeche

 

Rais te parta o peixe que está cheio de arganas – queixava-se o pequeno Tibério muito zangado.

– Come d’amodinho mou filho, não se te entrasgue algua espinha e te afogue! – aconselhava a mãe com o mesmo carinho com que tratava o Pécora, o outro mais velho, depois que ficou manquinho de uma perna.

Comiam barbos de escabeche. Foram apanhados nas cordas que o Tibúrcio estendera à socapa no Tâmega. Ele bem sabia que era proibido e que se fosse apanhado iria parar à choldra de S. Neutel a ver o sol aos quadradinhos e com umas arrochadas no lombo. Mas que fosse por Deus e pelos filhos da amásia. A lazeira superava o medo e valia a pena prevaricar só para ter os enteados de tripa forra.

Não havia pai para o Tibúrcio nesta arte de apanhar peixe à corda. Mas só no inverno, porque no verão praticava outra das suas especialidades o peixe ao buraco! Madrugada, ainda o sol se espreguiçava para lá das encostas do Brunheiro e já ele metia pés a caminho para a primeira presa. Chegava, lia o rio que quase sempre corria fraco por estre penedos e ougas floridas. Despia-se até ao pescoço, atava uma saca de rede à cinta, pegava numa vergasta de amieiro e rio acima fustigava a tona da água. Os peixes, ainda endorminhados, encafuavam-se nas luras por baixo das pedras. O Tibúrcio mergulhava, metia a mão e quase sempre apanhava peixe graúdo. Por vezes lá lhe calhava uma cobra de água taluda cuja cabeça esmagava contra um penedo. Outras, algum leiranco de água, perdurado pelas cavilhas no polegar. Mas, tirando isso, era peixe à farta.

A arte da pesca à corda, mais usada no inverno e de preferência quando o rio fosse grosso, era mais cómoda. Ajeitava um decâmetro de corda fina, de braçada em braçada atava-lhe umas pontas de metro de sediela forte. Em cada uma dessas extensões empatava um anzol bico de papagaio. Iscava com minhocas que apanhava na estrumeira do Maneta. Pela noitinha levava o arcanho para o Poço do Leite, um fundão a jusante da Ponte Nova. Atava um calhau na ponta da corda, arrimava-o para a outra margem em diagonal. Esperava que a corrente a esticasse e quando a topasse tensa, atava a outra ponta nas raízes de uma figueira que abraçava a parede sobranceira ao dito poço. Despois, era só esperar que a noite e a voracidade dos ciprinídeos fizesse o resto. Pela matina, antes mesmo que o galo da Pônas acordasse, ia recolher o aparelho. Rara era a vez que não tirasse pelo menos meia dúzia de barbos. Uma farturinha preciosa em tempo de racionamento!

O Tibúrcio era viúvo e sem descendência. Uma tuberculose galopante tirou-lhe a Carminda aos trinta anos, antes mesmo que pudesse conceber. Como soi dizer-se, rei morto rei posto. Não perdeu tempo, aos trinta e um aputou-se com a Chambra, mãe solteira, com dois filhos já espigadotes, o Tibério e o Pécora.

A relação alimentava-se de uma paixão forte, quotidiana. Contudo, a coisa começou a esfriar e veio um tempo em que o Tibúrcio ralas vezes visitava a sua amante. A Chambra estava cada vez menos disponível para o amante no tugúrio onde vivia, após a desgraça de que foi vítima o seu filho mais velho. A infelicidade do Pécora conta-se em duas penadas.

Teria uns seis anos quando numa manhã de janeiro o Chico da Soutília, seu padrinho de batismo, aricava uma campina de centeio, contígua à linha do comboio, ali para a Fonte Nova. Fazia-o com um arado de relha de ferro que uma mula, assustadiça, puxava aos repelões. O rapazeco, que fosse com o cheiro na merenda do padrinho, ou em andar emplouricado no arado, foi atrás dele para a lavra. Gostava que o sentasse abaixo da rabiça, com os pés sobre o timón para andar de landó rego fora. Assim estava a acontecer quando o comboio, na aproximação ao apeadeiro da Fonte Nova, abriu a goelas num estridente silvo. A mula, apavorada, desinvestiu campo afora. O Chico não teve mão nela e o mocinho caiu, entalando a perna esquerda entre a abieca e a lavrada. No movimento tresloucado, um rebo mais aguçado apanhou-lhe a pernita e amputou-a redondinha pelo tornozelo deixando-o manco para o resto da vida.

O que haveria de ser da vida desse rapaz sem uma gâmbia, num tempo em que mesmo com as duas sabe Deus?

Em ordem ao futuro do filho manco, a Chambra, precisava de trocar a paixão do Tibúrcio por alguma outra coisa que desse mais do que barbos de escabeche!

Ora, um amanhado dia do mês dos cucos, quando atravessava a linha do caminho-de-ferro com um jiga de labrestos à cabeça, colhidos na mesma leira onde o seu Pécora perdera o pé, a Chambra ia sendo apanhada pelo comboio. Não fora a mão amiga de um guarda-linha a tê-la salvo e seria morte certa. Ficou-lhe tão reconhecida que no dia seguinte, o tal, já merendava em sua casa. Dali avezaria um dinheirinho certo. Com ele poderia atenuar as dores da família, particularmente assegurar um futuro para o filho manco.

Não esteve com meias medidas, comassim! Deu-lhe a provar o licor de Vénus e fisgou-o pelo beicinho como o outro fazia aos barbos!

Tratava-se de um homem de meia-idade, solteirão, vindo do Douro. Por desgosto, quiçá de amor, pediu para vir trabalhar na linha do Tâmega, aqui para Chaves. Roupa lavada e cama quente levaram-no a viver de porta cerrada com a Chambra e os seus dois filhos.

Com aquele desgosto não pôde o Tibúrcio. Na primeira oportunidade contratou os serviços do Neves o Passador e emigrou a salto para a França. Teve tanta sorte que em pouco mais de cinco anos fez fortuna capaz de lhe alimentar uma velhice sem sobressaltos.

Durante esse tempo a Chambra vivia na fresca ribeira com o duriense e não mais se lembrou do Tibúrcio. Contudo, uma bela manhã do primeiro de agosto, o guarda-linha avisou que entrava de férias no dia seguinte, tomaria o comboio para a sua terra. Visita aos familiares. Assim foi. Evidentemente que se esqueceu de voltar no final das ditas.

Adivinhando a mandingança e achando-se de novo desamparada, a Chambra não perdeu tempo, foi pedir ao Beiças que lhe redigisse uma carta para a França.

Rezaria mais ou menos assim:

 

Crido Tibúrcio:

Espero qestas duas letras te bão topar de boa saúde. Nós por cá estemos bem graças a Nosso Senhor.

Escrebo-te esta p’ra te dezer que não me astrebo a aturar o Tibério e o Pécora. Desde que fostes p’rá França que me relam os dias a pedir barbinhos de escabeche. Eu bem los fazia mas num tenho quem nos pesque. Faltasme tu qeras o pitroil da minha candeia e o luzeiro dos meu olhos. Nunca na bida heide ter home tão asado qemo tu. Dabasme carinho, açaramoabasme os rapazes quando mijavam fora do penico, afagabasme a palha do xaragão quando oupava e olhabasme a pita todos os santos dias para que não pusesse fora. Fostes e hades ser sempre o home da minha bida e o pai que os meus filhos nunca tiberam.

Bolta Tibúrcio da minha peituga, serei o teu aconchego na belhice.

Sem mais que te diga, recebe o afago deste coração empedernido e a promessa de um cibo ardente que te deseja!

Por ti anseio.

Desta que muito to quer!

Chambra

 

A missiva lá seguiu para terras de Bonaparte.

Ainda não era Natal e já à sua porta, na canelha das Caldas, parava um carro de praça a descarregar duas malas de cartão anchas e um pimpão de fato e gravata. Era o Tibúrcio que retornava, agora carregadinho de francos, aos braços da sua amada.

Daí em diante nunca mais faltou o escabeche de barbos naquela mesa. Bem entendido que já não era acompanhado apenas com carolos recessos de centeio escuro, mas com cantos de trigo e outras iguarias que a Chambra trazia, vaidosa, da praça todas os dias de feira.

Viveram felizes. Tão felizes, que até o Pécora teve direito a um pé novo, suponho que de pau de amieiro, que o doutor Fernandes mandou vir de Barcelona. Mancava um pouquinho, mas foi apenas enquanto não se habituou.

O Pécora passou o resto dos seus dias rua Direita acima, rua de Santo António abaixo, a vender cautelas para seu sustento. Não sei se algum dia teria vendido a sorte grande, mas merecia que isso tivesse acontecido.

O Tibério foi chauffer de praça no Arrabalde.

A Chambra e o seu Tibério morreram velhinhos.

Do guarda-linha nunca mais ninguém ouviu falar.

 

Gil Santos

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Sexta-feira, 5 de Agosto de 2016

Discursos sobre a cidade - Por António de Souza e Silva

SOUZA

 

Refundar (reformar) o Estado ou reformular novas regras do «jogo» (político) democrático?

 

I

 

Em período de férias, não se está para muita reflexão e «discursos». Mesmo no mundo do espetáculo, em vez de «estreias», assistimos a «reprises».

 

Pois, connosco, desta vez, acontece-nos o mesmo.

 

Talvez seja pelo excessivo calor a que, neste período, estamos sujeitos, mas, perdoem-me os leitores, desta feita, apetece-nos mais ler que escrever.

 

E, revisitando textos nossos publicados no passado noutra local, reproduzimos, com algumas adaptações, aqui, uma «reprise» de um texto escrito no passado 9 de fevereiro de 2013.

 

Estávamos em pleno «reinado» neoliberal do governo de Passos Coelho e Paulo Portas.

 

 É no contexto deste período que o texto que se segue deve ser lido e interpretado.

 

Contudo, cremos, a atualidade do(s) temas(s) continua a mesma. Consequentemente válida. Tanto mais quando comemoramos neste ano os 40 anos da Constituição da República e do Poder Local.

 

E agora com mais acuidade dada a mudança de novos protagonistas e de “novas esperanças”...

 

II

 

Deixemo-nos de eufemismos, caros políticos – exímios vendedores, de discurso fácil!

 

Agora a palavra reforma do Estado está sendo substituída pela palavra «refundar»?... Não nos soa um pouco a um certo passado, com outras cambiantes?

 

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Vindo de quem vem, tal desígnio até nos parece que outra coisa não é se não a «destruição», pura e simples, do Estado que temos. Mas, se atentos aos protagonistas e ao que sobra do sumo das suas eloquentes e retóricas palavras, a coisa será bem assim?

 

Se não, vejamos:

 

  • A ideia da proposta fala a sério como devem ser organizados os diferentes setores da administração central e periférica?

 

  • A ideia da proposta fala a sério como deve ser gerido o setor empresarial do Estado?

 

  • A ideia da proposta fala a sério como deve ser organizado o território e, consequentemente, gerido, em termos da administração regional e local?

 

É isso que efetivamente se quer, ou seja, acabar com uma administração central assente na palhaçada da lógica de concursos, que de imparciais pouco ou nada têm, para dar lugar aos que são da mesma cor ou à cunha para afilhados, enquanto os reputados candidatos a funcionário e técnicos não entram?

 

Será que se quer acabar com a dança indecorosa dos «boys» e «girls» que enxameiam os gabinetes ministeriais, pagos a peso de ouro e sem qualquer experiência profissional, senão a partidária, enquanto os reputados técnicos da administração pública, pagos por todos nós, são postos numa prateleira (ou vão para qualquer quadro de mobilidade especial, pagos a meia pataca e com o ferrete de já inúteis)?

 

Será que se está a pensar reestruturar os serviços de forma espartana, mas com efetiva lógica de eficácia para as funções que devem desempenhar, trabalhando com eficiência, acabando com os luxos, mordomias e desperdícios?

 

Será que se quer acabar com a maioria dos serviços e quadros da administração pública, encomendando tais tarefas a «empresas amigas», pagas milionariamente, tal como aconteceu com as parcerias público-privadas, por se ter reconhecido total incapacidade da administração pública para levar a cabo as suas funções, congeminando «negociatas» ultra milionárias com grupos e instituições cujo proveito só delas estas retiram, deixando para trás um negro fumo de compadrio e corrupção?

 

Quanto ao setor empresarial do Estado. Já alguém, de uma forma séria, discutiu e assentou que setor empresarial deveríamos ter?

 

Já alguém, de uma forma séria,  exigiu que fossem geridos com verdadeira eficácia, como se de uma verdadeira empresa se tratasse, e não mais uma instituição para colocar os amigos e correligionários do partido, pagos a peso de ouro, para, depois, uma vez mais, sermos nós, com os nossos impostos, a pagar, para além desses ordenados milionários, o preço de ineficiência e consequentes incompetências?

 

Quanto à administração regional e local. Fiquemo-nos apenas pelas autarquias.

 

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Como é possível que, em pleno século XXI, num mundo tão diferente e globalizado como o que hoje em dia temos, continuemos a ter uma organização territorial assente num modelo de meados do século XIX, com mais de 150 anos?

 

Como é possível, numa era do conhecimento, informação e técnica e das ultrassofisticadas  redes de informação, haja o enorme espartilho de autarquias que temos com tão amplas competências e uma complexa organização e gestão de serviços?

 

Será que a mascarada do trabalho que foi feito por este governo (de Passos Coelho e Paulo Portas) de «extinguir», parece, mais de mil freguesias, sem «tirar» um só município ou câmara, foi digno e sério? Será que não foi andar a brincar com todos nós e com o nosso dinheiro, plasmado em impostos de natureza insuportável?

 

Porventura algumas freguesias e municípios hoje em dia já não se justificam que existam. Por isso, essas mesmas, devam ser extintas.

 

Mas somos contra a extinção, pura e simples, das autarquias. Elas têm uma história, adrede a um território que amamos. Tem um passado que deve ser honrado e preservado!

 

Agora o que não podemos é ter, num país tão pequeno, tantas câmaras e tantas juntas de freguesia a serem administradas e geridas com uma carga de órgãos e pessoas que giram à sua volta! Tal situação já não se justifica!

 

Esta forma de gerir o país, assente no sistema político-partidário que temos, levou à perpetuação, tal como nos séculos XIX e XX, do caciquismo local e, com o poder que hoje em dia os municípios (câmaras) têm, a um despesismo incrível e inaceitável, por proliferação, por todo e qualquer canto do país, de obras faraónicas e ineficientes, porque mal dimensionadas, em termos de escala não só territorial com das gentes que servem.

 

Por isso, a reforma do Estado, em termos autárquicos, deveria começar por cima e não por baixo!

 

Ao termos rejeitado a regionalização, demos uma forte machadada na possibilidade de esta situação se poder inverter. Porque a regionalização, entendida também como uma nova forma de administrar e gerir o território, fatalmente teria de abordar a alteração do atual espartilho do quadro autárquico do nosso país.

 

Porque hoje com os meios que a ciência e a técnica põem ao nosso dispor, a escala regional é a mais adequada para administrar e gerir com eficácia e eficiência o nosso território, aligeirando competências e o peso institucional das atuais autarquias, ao lhes retirar as competências dos sistemas e serviços mais complexos, focalizando-as mais nos serviços de proximidade e vizinhança.

 

A regionalização não foi por diante, mas, ao menos, poderíamos ficar por uma solução porventura intermédia.

 

Se bem que a escala seja ainda pequena, mais adequada para a gestação de sistemas intermunicipais, como abastecimento de água, saneamento básico, recolha de resíduos, redes de gás, eletricidade, gestão territorial, etc., o conjunto dos municípios do Alto Tâmega e Barroso poderia ser uma boa base de partida. Assim, porque, a partir desta realidade, não se pegava nestes seis municípios – Boticas, Chaves, Montalegre, Ribeira de Pena, Valpaços e Vila Pouca de Aguiar – e se criava uma única estrutura que substituísse, em termos de efetiva representação democrática, a atual CIM-AT (Comunidade Intermunicipal do Alto Tâmega), que não apresenta, na sua efetiva prática, nenhuma coesão territorial, porquanto, ali, cada autarca se encontra democraticamente legitimado para lutar, única, e quase exclusivamente, pelos interesses do seu próprio concelho, havendo raros momentos de solidariedade?

 

A Comunidade Intermunicipal do Alto Tâmega (CIM-AT) não passa de uma autêntica mascarada!...

 

O que impede que isto se faça? O lobby dos senhores presidentes câmara, como já com a regionalização aconteceu, coadjuvados, muitos deles, com a atuação de alguns centralistas, políticos e opinion makers, defensores acérrimos das «regalias» que o «Terreiro do Paço» lhes dá!

 

E é aqui que tudo bate.

 

Em Portugal jamais se farão reformas a sério enquanto este estado de coisas do nosso sistema político partidário se mantiver. Infelizmente!...

 

Daí se compreende que a reforma do sistema eleitoral não vá por diante bem assim a da organização e gestão do território.

 

Os partidos, de um modo especial os do arco do poder, não a querem porque sabem que, se deixam à sua sorte os seus «caciques»-autarcas, não dispõem de meios no terreno para, na batalha eleitoral, terem sucesso assegurado.

 

Vivemos, manifestamente, num regime partidocrático.

 

Não somos contra a existência de partidos. Muito pelo contrário! Somos pela sua efetiva democratização, plasmada num maior protagonismo dos seus militantes, e não somente do da sua «nomenclatura». Nos partidos que temos vive-se como se estivéssemos num regime de ditadura. Não há efetivamente «direito» a pontos de vista diferentes e divergências, pois o que não faltam são «muftis» para proferirem a sua respetiva «fatwa», sob pena do exercício de verdadeiras «purgas». Sem o amplo debate, resultante de pontos de vista diferentes, divergentes, não há lugar a uma autêntica vida democrática dentro dos partidos (e a maioria dos debates não passam de puras encenações!).

 

O que é fundamental é simplesmente a aceitação do que é essencial num partido, ou seja, a sua matriz fundacional, o que levou à sua existência. Quem, eleitoralmente, em eleições internas verdadeiramente esclarecedoras e livres, sem qualquer constrangimento, vencer, apresentando a melhor leitura da situação e as melhores propostas estratégicas, é quem governa. Os vencidos não são postos de lado. Em função das suas qualidades, vontade e competências, devem lealmente colaborar nas tarefas da construção da alternativa democraticamente vencedora!

 

Numa sociedade em que cada vez mais se valoriza o sujeito como pessoa – ator e fazedor do seu próprio destino -, o nosso sistema político transformou-se numa estrutura opaca, coartando, tanto quanto pode, o papel do cidadão e dos movimentos de cidadãos no palco da cena política ativa.

 

Muitos dos que votam não conhecem as pessoas em quem votam – apenas siglas partidárias.

 

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Se não dermos um espaço muito mais amplo de participação ao cidadão (e movimentos) responsabilizando-os também como agentes-atores, fazedores da polis, quebrando com a hegemonia quase absoluta dos partidos na política, caminharemos para uma sociedade cada vez mais descrente da política, dos políticos, em dessintonia completa com aqueles (as) que, supostamente, os deveriam representar. E, desta forma, está-se a um pequeno passo da perversão do sistema, aliás como dia-a-dia, constantemente, já estamos presenciando.

 

Por isso, dizemos, mais que reformas que, no final de contas, não são mais que paródias do nosso viver coletivo, há que, primeiro, reformular, de uma forma séria e empenhada, novas regras do nosso «jogo» (político) democrático.

 

Se o sistema político não assumir, com autenticidade, a função e o papel dos cidadãos, quer dentro quer fora dos partidos, como indivíduos em palco, da política ativa, responsabilizando-os cada vez mais, ficará porta aberta para o cidadão comum se divorciar por completo da política, aumentando cada vez mais todo o tipo de oportunismos e corrupção (apesar do papel dos meios de comunicação, mas cuja lógica está fora do jogo democrática, pois estes, numa verdadeira lógica capitalista e de mercado, somente atendem ao lucro da notícia), enfraquecendo, inexoravelmente, a vida democrática do país em que vivemos.

 

E, órfãos de uma vida democrática autêntica, nosso país tornar-se-á – como aliás já está acontecendo -, presa fácil das aves de rapina que, a preços da chuva, e com a conivência cúmplice de uns quantos histriões,

 

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e que outra coisa não são senão verdadeiros «vendedores do templo», mas apelidando-se de salvadores da pátria, desbaratam e alienam os nossos recursos, tornando-nos depois presa fácil, «escravos» de um sistema no qual «eles» ditam as regras do jogo e não nós próprios.

 

Quanto a este sistema de coisas, cujo exemplo mais recente são as célebres sanções que os burocratas e alguns “donos disto tudo” nos queriam impor, imitemos o nosso grande artista Bordalo Pinheiro quando, embora noutro contexto, esculpiu esta célebre caricatura.

 

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António de Souza e Silva

 

 

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Sexta-feira, 29 de Julho de 2016

Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos

GIL

 

As cerejas do Planalto

 

Maio é o mês do ano que mais me chaldra, não só por representar o pino da primavera, em que a natureza mostra o máximo vigor da regeneração, como ainda porque foi neste mês que respirei pela primeira vez em terras de Santo Amaro. Além do mais, é o mês em que a Virgem Maria se mostrou aos pastorinhos na Cova da Iria. Mas é também o mês dos burros, por ser a época em que as fêmeas se levantam à cria! É ainda o mês das maias, tempo em que as giestas exibem as suas cores, pintando de amarelo e branco as poulas que, ao longo do ano, se mostraram tristes e cinzentas.

 

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Maio é também conhecido por ser o mês das cerejas. Mas só se for nas terras mais macias da ribeira, porque, a bem dizer, o mês das cerejas na meseta fria era mais o junho e, o mais das vezes, o julho. E era bom que assim fosse, pois enquanto os donos dormiam a sesta, a rapaziada pendurava-se nos galhos das cerdeiras e enchia o fole. O pior é que o fruto quente tendia a amolecer a tripa e era muito comum, por via disso, andar-se de leque por este mês.

 

Ora, é precisamente à volta das cerejas do Planalto que se escreve a estória de hoje.

 

Cerdeiras, no Planalto do Brunheiro, é coisa rara e preciosa. Quem avezar cerejeira que medre, pode dar-se por muito feliz e acarinhá-la quanto possa, pois somente nos recantos mais merozinhos é que ela se dá e frutifica que valha a pena.

 

No pátio da farta casa de lavoura, tinha a família Morgado de Fornelos uma vetusta cerejeira que o ciclone de 15 fevereiro de 1941 cortara pelo trepo. Antiga e de respeitável porte, a árvore era aneira. Tanto frutificava, abundantemente, num ano, como no outro nem os melros alimentava. Era uma árvore centenária que algum antepassado, de quem já se perdeu a memória, teria plantado, em boa hora. A verdade é que no ano em que lhe desse para produzir, constituía um espetáculo de beleza impar. Uma farturinha!

 

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Contudo, a cerdeira era altaneira e não se oferecia por dá cá aquela palha. Era necessário arrojo para lhe montar os galhos mais altos e alcançar-lhe as repas, onde as cerejas eram mais carnudas e reluzentes! Só com a ajuda do sacho do cebolo é que se conseguiam derrear as galhas mais carregadas e colher as melhores cerejas francesas, rubras, carnudas e de sabor intenso.

 

Na casa dos Morgados, uma única pessoa era capaz de tal empreitada. Tratava-se do João Ranzinza, de Vale do Galo, que veio servir ainda com as calças rachadas no rabo. Fisicamente era talhado para o efeito. Parecia uma levandisca de galho em galho, catando as cerejas para uma cesta que descia por uma corda para vazar e subia para tornar a encher. No entretanto, Ranzinza aproveitava para atestar o bornal. Oportunidade única, dada a penúria da época!

 

Muitas das vezes, as cerejas do pátio dos Morgados serviam para pagar favores aos senhores da cidade. Ao médico, pela disponibilidade de uma consulta, ao veterinário, que salvara um boi galego empertigado ou uma vaca afogada e ao advogado que dera bons conselhos sobre um caminho de serventia ou a torna da água no Lameiro Grande!

 

A matriarca da família, oriunda da Invicta, tinha por lá muitos parentes que aproveitavam a fresca do Planalto para passar férias no verão. Vinham no comboio até Chaves e depois subiam os dezassete quilómetros do macadame da encosta do Brunheiro alapados nos bancos corridos montados pelo Soqueiro no carro de bois que se disponibilizava para o transporte até Fornelos, lugar limite do concelho de Chaves, sito nos Cornos do Planalto.

 

1600-fornelos (53)

 

A primavera daquele ano de finais da década de trinta foi muito molhada. A canabeque, semeada em março, apodreceu na terra e teve de ser replantada em abril. O centeio, que se segaria no verão, estava tolheito. Chovera desalmadamente desde março e até ao S. João. Não fosse uma pequena trégua no mês de abril, que permitiu que as flores da cerejeira polinizassem, e não se enxugaria uma cerejinha que fosse. Mas, apesar de tudo, a coisa correu bem e, contrariamente ao que era previsível, foi um ótimo ano de cerejas.

 

Do Porto, costumava vir de férias para Fornelos o Antenor, um velho guarda-freio da Carris, já aposentado, pai da matriarca de Fornelos. Contador de estórias, poeta do improviso e cantador à desgarrada que acompanhava à rabeca, era um homem polido e de grande sapiência. Muito considerado pela idade avançada, o facto de ser tripeiro também lhe conferia um estatuto especial no Planalto. Por isso, os seus conselhos e os seus desejos eram sempre muito bem acolhidos. Vinha a ares, consolidar a cura, milagrosa, de uma tísica que o ia chimpando, mas igualmente com o cheiro nas cerejas do pátio, fruto que ele tanto apreciava. No Porto, lerpava as cerejas de Resende que chegavam a S. Bento no comboio a eram apregoadas pelas ruas da cidade. Todavia, vinham, quase sempre, carregadinhas de bitchos e, além do mais, custavam os tostões que faziam falta para a sêmea. As de Fornelos eram de borla e à tripa forra!

 

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Nesse ano, chegou a meados do mês. A cerejeira do pátio estava pojante. Carregada de pérolas rubras, parecia o andor do S. Caetano pejado de notas de vinte mil-réis. Tentadora, para o comum dos mortais, para o velho Antenor constituía uma espécie de Éden que o levaria, por certo, ao êxtase.

 

No dia seguinte à chegada, pela manhã, solicitou os favores do Ranzinza para lhe encher uma cesta da meia de cerejas. Levaria uns dois quilos, mais ou menos.

 

João, depois de ir tocar a cria ao Belão, subiu à cerdeira. Usou uma escada enquanto não pôde abarcar o tronco, depois foi a pulso. Pendurou ao cinto o tal sacho do cebolo para alcançar os galhos mais finos e colher os melhores frutos. Ranzinza era muito solícito e o amigo Antenor agraciava-o, quase sempre, com dois ou três tostões para tabaco.

 

A cesta ficou cheia em menos de um Padre-nosso.

 

O Antenor esperava a fruta no cimo das escaleiras de perpianho, sentado num velho banco de carvalho. A cesta de vime, cheia, caiu-lhe no colo e ele nas cerejas!..

 

Pediu para que o criado se sentasse ao seu lado, não para as partilhar, mas para dois dedos de conversa atualizando novidades.

 

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Comeu, comeu e comeu. Foi até lhe chegar com um dedo!

 

Regalou-se!..

 

Havia sobrado uma única cereja no fundo da cesta. Antes de a emborcar perguntou:

 

— Ó rapaz, as cerejas terão mourrões?

 

Que não, as cerejas do Planalto não costumavam ter a carne. Mas que a olhasse!

Abriu cuidadosa e demoradamente a última cereja e topou, junto ao caroço, um anafado mourrão branco a rabiar!

 

Virou-se para João e comentou:

 

Fosca-se, Ranzinza, olha se me dá para comer esta!..

 

— Ó amigo Antenor, não teria problemas, os mourrões das nossas cerejas são limpinhos, pois são criadinhos cá em casa!

 

Desta vez os tostões da gorjeta quedaram-se no porta-moedas de couro ensebado do Antenor e o João a ver navios, ao longe, cruzando os horizontes das serras do Barroso!

 

Gil Santos

 

 

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