Domingo, 9 de Outubro de 2016

O Barroso aqui tão perto... Donões

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Iniciava-se o mês de setembro, bem de manhazinha, mesmo assim e mesmo estando nós no Barroso, já estava calor e adivinhava-se um dia bem quente, tal como o foi. Sempre que fazemos as nossas incursões no Barroso via a Vila de Montalegre, há paragem obrigatória na vila para tomar um café. Uma paragem breve para logo fazermos a partida à descoberta de mais algumas aldeias do concelho. Até ao Sr. da Piedade já era território que eu conhecia desde criança, graças à festa do primeiro domingo de agosto, a partir de aí conhecia uma ou outra aldeia. Assim sendo, nesse dia de inícios de setembro decidimos levar as aldeias a eito a partir do Sr. da Piedade, sendo a primeira Donões, que começou logo a surpreender  antes de entrarmos na aldeia, ali ao atravessar o Rio Cávado,  com as vistas de uma silhueta da vila que atraía o nosso olhar, com as torres do castelo a convidar à primeira foto do dia.

 

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Aos nossos pés, meio disfarçado pela vegetação e com o sol da manhazinha a incomodar o olhar, um velho moinho convidada a ficar por ali mais uns momentos em recolha de imagens. Moinho que nos despertou na memória uma das histórias da vermelhinha de Bento da Cruz. História que em tempos já deixámos aqui no blog, mas que não resisto a deixá-la aqui de novo, afinal é para Donões que hoje vamos e a história é de um dos antigos regedores de Donões. Aqui fica então, mas antes, a imagem com a localização da aldeia.

 

mapa-donoes.jpg

 

O Regedor de Donões

 

Um dia o Regedor de Donões andava com as vacas num prado ribeirinho ao Cávado. Era Janeiro e os montes cobertos de neve. Nisto, vê chegar um figuro junto do rio e começar a despir-se.

O Regedor, que andava a limpar uns regos, recostou-se ao cabo da sachola.

— Ó alma perdida! Tu que vais fazer?

O desconhecido fez que não ouviu.

— Não me digas que te queres deitar à água com um frio destes…

O promitente banhista acabou de se despir e foi colocar a roupa em cima de uma pedra.

— Não, catano! — disse o Regedor, virando o rabo à sachola.

Ia já o figurão  a correr para formar o mergulho, cai-lhe o Regedor em cima de sachola em riste.

— Ó filho da puta! Que apanhas alguma pneumonia que te leva o diabo…

 

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Só então o banhista se apercebeu do perigo e fugiu, direito à roupa. Mas não tão lesto que não apanhasse duas derrabadas testes pelas nádegas.

— Eu é que te dou o banho, maluco dos infernos… — gritava o Regedor , correndo e brandindo a sachola atrás do tipo.

Quando o viu longe do rio, regressou para junto das vacas, monologando, com voz incrédula:

— Um homem vê cada um neste mundo…

Dias depois, tinha o citote à porta:

— Assine aqui.

— Que é isto?

— Uma contra-fé.

— Para quê?

— Comparecer no tribunal no dia e hora aí indicados.

— Mas para quê?

— Você lá sabe.

— Se soubesse não perguntava.

— Não fez nada ao juiz?

— Quem?...

 

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O Regedor tirou-se dos seus cuidados e foi ter com o advogado. Afinal, já toda a vila sabia da história: o banhista era o novo juiz da comarca, um morenaço com a mania do desporto ao ar livre. O advogado muito se ria.

— Ora conta lá, João: ele estava mesmo em pelote?

O Regedor coçava a cabeça.

— E agora,  doutor?

— Não te aflijas. Eu trato do caso.

Chega o dia do julgamento, estava o meritíssimo no seu trono, o delegado na sua poltrona, o Regedor de Donões no banco dos réus, a sala cheia de gente.

 

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Pergunta o juiz:

— Sabe do que vem acusado?

— Eu não.

— Lembra-se de, no dia 13 de Janeiro, pelas 11 horas, quando eu me preparava para tomar banho na represa do Moinho Velho, o senhor me ter insultado e agredido?

— Ó raio! Ai ele eras tu? Olha que te não reconheci, catano…

O juiz olhou para o escrivão. O escrivão, que também estava por dentro da marosca, fez o gesto de furar a testa com o indicador, como quem diz: « É maluquinho…»

— Mande lá o homem embora — remata o juiz, após breve hesitação.

 

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É sempre com gosto que deixamos aqui um escrito de Bento de Cruz, um verdadeiro embaixador do Barroso e que embora já não esteja entre nós, deixou uma vasta obra publicada que o imortalizará para todo o sempre. Obra de leitura obrigatória para quem verdadeiramente queira conhecer a fundo o Barroso que vai muito para além das paisagens, onde nos oferece um outro Barroso com gente dentro.

 

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Mas entremos então na aldeia de Donões, que me surpreendeu pela positiva. Aliás poucas são as aldeias do Barroso que não nos surpreendem.

 

A apenas 3 ou 4 quilómetros da Vila de Montalegre sentimos aqui entrar em terras de transição do Alto-Barroso para um outro Barroso mais verde. Aparentemente localizada a Sul da Vila, mas só aparentemente, pois localiza-se ligeiramente mais a Norte que esta, mas as características orográficas que separam a aldeia do Alto Barroso e da Serra do Larouco, parece-me protegerem a aldeia, ali à beirinha do vale do Cávado que se vai prolongando até Sezelhe, mas tudo isto são conclusões minhas, sem qualquer dado ou estudo que as apoiem.

 

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Já alguns escritos e dados a que tive acesso, estes sim apoiados por documentação fidedigna, dizem-nos ser mais uma aldeia que sofre da maleita que afeta a maioria das aldeias transmontanas, o despovoamento, e os números não enganam quando apontam para cerca de 60 habitantes numa aldeia que tem 81 edifícios.

 

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Nas nossas pesquisas há uma coisa que é comum a todos os escritos consultados — a da tríade de artistas dos Pintos, tal como é referido no livro “Montalegre” de José Dias Baptista:

 

“É ver e conhecer a tríade dos Pintos de Donões que tantas obras nos legaram e pedem meças a qualquer artista; são verdadeiras obras-primas que ornam ainda os altares de dezenas de igrejas, desde Montalegre a Chaves, Boticas e Valpaços. Foram exímios escultores, com algumas peças perfeitamente inéditas no nosso meio; foram pintores, douradores de altares e imagens, ensambladores e entalhadores. De todos estes exercícios guardamos espécimes de altíssima qualidade no nosso Concelho. O primeiro, Bento Pinto Júnior (1837-1922) tem obras em Donões, Fírvidas, Peirezes, Sapelos, Pedrário, Montalegre, Travaços, Cambeses e Viade; Domingos José Pinto (1874-1950) deixou obras na Vila da Ponte – a primeira imagem da Senhora de Fátima em Barroso- em Montalegre, Donões, Padroso, Nogueira (Boticas) e Bustelo, Vilarelho e Chaves (todas do concelho de Chaves); António Teixeira Pinto está bem representado nos quatro concelhos acima referidos, sobretudo na pintura e douramento de altares conquanto tenha executado diversas imagens.”

 

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E mais à frente no mesmo livro acrescenta-se:

 

"Os Pintos de Donões (séc. XIX - XX) - Bento Pinto nasceu em 1837; o Domingos Pinto, filho daquele, nasceu em 1874 e o António Pinto, filho deste, nasceu em 1912 e vive na América do Norte. Foram pintores, douradores, escultores e entalhadores, sobretudo de arte sacra, de enormíssima habilidade. As suas obras encontram-se espalhadas pelas igrejas e capelas de todo o Alto-Tâmega e Barroso. É urgente publicar uma monografia que permita dar a conhecer o lavor aprimorado de tanta imagem e distinguir as imensas qualidades de cada autor, entre avô, pai e neto."

 

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E para rematar aqui ficam alguns dos pontos de interesse da aldeia a Igreja de São Pedro, o castro, os moinhos, as capelinhas da Senhora da Peneda e de Santo Amaro onde resistem meia dúzia de sepulturas antropomórficas fixas.

 

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E é tudo, restam os habituais créditos às consultas efetuadas cujas referências aqui ficam:

 

Bibliografia:

“Histórias da Vermelhinha” de Bento da Cruz, Editorial Domingos Barreira, 1991

“Montalegre” de José Dias Baptista, Edição do Município de Montalegre, 2006

 

E ficam também os links para as anteriores abordagens deste blog ao Barroso e suas aldeias:

 

A Água - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-a-agua-1371257

Amiar - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-amiar-1395724

Cepeda - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-cepeda-1406958

Fervidelas - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-fervidelas-1429294

Fiães do Rio - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-fiaes-do-1432619

Frades do Rio - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-frades-do-1440288

Gralhas - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-gralhas-1374100

Lapela   - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-lapela-1435209

Meixedo - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-meixedo-1377262

O colorido selvagem da primavera http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-o-colorido-1390557

Olhando para e desde o Larouco - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-olhando-1426886

Padornelos - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-padornelos-1381152

Parafita: http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-parafita-1443308

Padroso - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-padroso-1384428

Pedrário - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-pedrario-1398344

Pomar da Rainha - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-pomar-da-1415405

Sendim -  http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-sendim-1387765

Solveira - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-solveira-1364977

Stº André - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-sto-andre-1368302

Tabuadela - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-tabuadela-1424376

Telhado - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-telhado-1403979

Travassos da Chã - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-travassos-1418417

Um olhar sobre o Larouco - http://chaves.blogs.sapo.pt/2016/06/19/

Vilar de Perdizes - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-vilar-de-1360900

Vilar de Perdizes /Padre Fontes - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-vilar-de-1358489

Vilarinho de Negrões - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-vilarinho-1393643

São Pedro - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-sao-pedro-1411974

Sendim -  http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-sendim-1387765

Solveira - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-solveira-1364977

Stº André - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-sto-andre-1368302

Vilar de Perdizes - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-vilar-de-1360900

Vilar de Perdizes /Padre Fontes - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-vilar-de-1358489

Vilarinho de Negrões - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-vilarinho-1393643

 

 

 

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