Sexta-feira, 17 de Maio de 2013

Discursos sobre a cidade - Por Gil Santos

 

O vendedor da banha da cobra

 

Juventino de sua graça, levava uma vida flauteada!


De borgeço nada tinha, pelo contrário! Era senhor de uma lábia descomunal. Engrampava o mais pintado!


Cirandava de feira em feira, por esse país afora no seu Citröen Big Fifteen, impingindo a banha da cobra. À quarta não perdia a de Chaves!


Bem parecido, o Juventino possuía um invejável porte atlético. Trajava quase sempre de negro. Casaco lustrado, camisa de colareta, colarinho postiço engomado, calça de risca ao fundo e polaina branca. Calçava bota fina e na cabeça um chapéu de feltro às três pancadas, comprado no mestre Alves da rua Direita.


Lesto no gesto e franco na rima, era dotado de um olhar fuzilante, quase mítico, que inebriava qualquer mortal que se dispusesse a fitá-lo. Cultivava um bigode à Salvador Dali e uma barbicha rala, que lhe emprestavam o ar misterioso que convinha ao ofício.


Pernoitava onde calhasse e ninguém sabia de onde vinha ou onde pendurava o pote! Conhecia Seca e Meca, onde comer à tripa forra, onde a pita punha fora, onde se encontravam as fêveras mais tenras e de melhor tempero e as melhores arganas do bacalhau da Noruega. Enfim, conhecia os mais recônditos lugares que lhe faziam a vida bela!


Contudo, a cidade das águas de Flávio era a sua verdadeira paixão.


Na princesa do Tâmega aparcava o Big Fifteen onde o povo se juntasse. Escancarava a mala de cartão sobre o tejadilho do carro. Emplouricava-se numa banca de três pés e dava início à sua saga. Assim rezava:


− Ó meu pobo, chigou o Juventino, trago aqui romédio, p’rá menina e p’ró menino!


Chegaide-vos ó p’ráqui e topai cura p’ró mal, tanto faz seja de gente, como de qualquer animal!


Reco, reca, cabra ou burra, cabalo baquinha ou touro, cristão de Nosso Senhor ou mesmo até se for mouro!


Tenho dentro desta mala, feito do unto da cobra, um romédio milagroso, que bos cura até a sogra!

E se não acreditaides, povo da minha afeição, chegaide-bos p’rá minha beira, que bos dou a explicação!


P’rás impiges, p’ró mau olhado, ou para um pé todo cagado! P’rás doenças do miolo, ou mesmo p’rá ranheira, esta pomada marela cura até a caganeira!


P’ró saramplo e p’rás bexigas, mesmo até p’rá escarlatina, a desta lata bormelha, é p’rás regras da menina!


Tem a espinhela caída e não sabe o que fazer? Pegue lá, lebe lá esta, que melhor não pode haber!


Comeu, ficou enfartado, é achacado à lombriga, tome então esta latinha, para esfregar a barriga!


Doem-l’as cruzes, o peito, tem pisaduras, berrugas, lebe esta pomadinha, que lhe ebita as sanguessugas!


Tem tremuras e arrepios, peida que nem um boubelo, esfrague então a suas nalgas com este frasco marelo!


Torcicolos, urticária, febre dos fenos, malária, dor de corno ou artrose, saro até a esquelerose!


E mesmo até que à distância, os seus olhos beijam mal, esfrague a menina do olho com o unto deste animal!


Tem insónias, dói-lhe a brilha, caga fininho albezes, tome este romédio santo, que lhe engrossará as fezes!


Tem dor de dentes, ou nerbos, sonha e não queria sonhar, masture este pó com áuga e beba antes de deitar!


Sofre de entorses, terçolhos, nascem-lhe crabos na mão, o romédio é milagreiro, p’ra calquer aflição!


Tome lá pau-de-cabinda, desta caixa cor da prata, masture num copo de tinto, e furará uma lata!


Mija às pinguinhas, nos socos, tem convulsões ao dormir, esfrague no peito a pomada e escusa de se afligir!


A sua filha emprenhou… ó que sorte do catancho, esfrague-lha a bouba com esta, terá logo um desmancho!


Os romédios milagreiros que estou aqui a bender, não custam quinze nem binte, olhe nem dez, benha ber!


Lebe dois, pague só um, estou aqui é p’rá desgraça, e quem quiser levar cinco, ofereço dois e de graça!


Pegue lá meu caro amigo, e outro p’rá’quele senhor, binde pobo, binde todos, pois sois bós o meu pinhor!


E por aí fora!..


A verdade é que vendia quanto levava e quanto mais tivesse!..


O sucesso era tanto e as reclamações tão poucas, que um dia, nos Santos, em plena feira do gado, fez o negócio da sua vida. Assim se conta:


A feira do gado nos Santos, como todos devereis saber, tinha lugar no terreiro do Tabolado e fazia-se a 31 do mês de outubro de cada ano. Portanto, todo o agricultor ou negociante que aportasse à cidade das bandas da margem esquerda do Tâmega, nomeadamente das aldeias do Brunheiro, tinha, inevitavelmente, de atravessar o Tâmega pela ponte de Trajano. Muitos, indo manso o rio, venciam-no pelas poldras que sempre ficava mais perto. Mas só gente, pois os animais não se atreviam a tal façanha. Fora isso, eram largas as centenas que atravessavam a ponte romana todos os santos dias para se fazerem à baixa da cidade.


Certa ocasião, pese embora o Juventino não ser dado a grandes literaturas, pegou, por mero acaso, num velho alfarrábio de história que topou no quarto de numa pensão rasca em Braga. No cartapácio leu que na ápoca medieval, quem quisesse atravessar o Cávado pela velhinha ponte de Prado, ainda que fosse peregrino dos Caminhos de Santiago, teria que pagar uma certa quantia de portagem.


Esta ficou-lhe na ideia!


Assim, numa bela manhã de um 31 de outubro, na dita feira do gado, montou o estaminé ali pela foz do Ribelas, junto a um dos poços das águas cálidas, como habitualmente. Puxou da sua lábia de artista e ainda a manhã não tinha acabado e já o produto estava esgotado. Era a maré propícia ao negócio que há muito sonhava, mas que nunca tinha tido ocasião de realizar. O dia era azado, uma vez que os feirantes tinham os bolsos bem forrados de notas de cem mil réis.


À sua volta, ainda se encontravam alguns matarruanos negociantes, escravos genuínos do vil metal. Verdadeiros mãos-de-vaca, estavam a pedi-las!


Entre o escasso povo, encontrava-se o Terebentino de S. Cibrão, conhecido pela nomeada de caga notas. Homem feito de grossa casca, cismava-se o melhor negociante do Planalto. Gabava-se mesmo de nunca ter sido enganado por ninguém. E cheirando-lhe ao pilim estava lá, qual abutre à roda da carniça.


O Juventino tirou-lhe as medidas e, adivinhando-lhe o bolso untado, lançou a isca:


Binde cá amigos meus, bou-bos agora oferecer, um negócio sem igual, não debeis de o perder!


Não é casa nem é bouça, o que bos quero bender, é simplesmente um negócio que vos fará enriquecer!


Bós bem me conheceis, não estou aqui p’ra inganar, ficará home rico, quem isto quiser comprar!


Quem bier da Madalena, terá que atravessar o rio, de berão fá-lo a báu, de inberno não que está frio!


E se cada um que quiser, a ponte atravessar, tiber à sua antrada uma maquia a pagar?


O dono que for da ponte, home rico há de ficar, e verá a sua conta, dia a dia a aumentar!


E nem que seja um vintém que tenha de se pagar, em apenas cinco anos, é dinheiro até fartar!


Tráz-bos atão o Juventino, um negócio do catano, pois olhai bou-bos bender aquela ponte de Trajano!


Custa apenas trinta notas, e é só p’ra quem quiser, se não fico eu com ela, e é p’ró que der e vier!


Para atiçar o negócio, um seu compincha, de vaquinha, apressou-se a mandar:


Dou-le vinte e cinco notas pela ponte de Trajano!


− Não bendo amigo meu, tem de dar trinta notinhas, isto aqui não são esmolas, que bocê dá às alminhas!


− Trinta notas não le dou, quer binte e sete por ela?


− Amigo, eu não la bendo, por esse preço é não, quem dá binte sete dá trinta, é negócio de ocasião!


O lapardana do caga notas, já tinha feito as necessárias contas de cabeça! O negócio parecia-lhe imperdível. Estava ceguinho como um pincho com o grilo na pescoceira!


− Olha ser dono da ponte de Trajano e poder cobrar por quem a usasse… Fosca-se, é um negócio da China, e nunca tinha pensado nisto. – cogitava Terebentino.


− Vinte e oito dou-los ou! − Mandou sem hesitar!


O da vaquinha atacou com vinte e nove.


O caga notas fechou com as trinta notas do combinado.


Que viesse pelos papéis na próxima feira, que estaria tudo conforme!


Assim foi, passou-lhe as trinta notas de cem mil réis para a mão.


Permita-se um breve parêntesis: uma junta de bois galegos, taludos, custavam, à época, menos de uma nota de cem!


O Juventino, com o pilim no bornal, arrumou a trouxa e pôs-se a milhas.


O Terebentino foi festejar com os amigos para o bar Aviz.


Os descendentes do mão-de-vaca ainda hoje sonham em cobrar uma portagem a quem passe pela “sua” ponte de Trajano.


Sim, porque o caga notas, logo que deu pelo logro, correu, até ao fim dos seus anos, todas as feiras do país à procura do salafrário. Nunca do Juventino avezou a mais precária informação!


Finou-se com o desgosto!


Bem feito, digo eu, pois só um lapouço é que cria poder comprar a milenar menina dos olhos da augusta Aquae Flaviae!


E o leitor pensará:


− Bem mou finto!


E eu, que escrevinhei esta estória, respeito!


 

Olhai que sempre há cada borgeço neste mundo!

 

publicado por Fer.Ribeiro às 03:00
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Sexta-feira, 29 de Março de 2013

Discursos sobre a cidade - Por Gil Santos

 

O POÇO DO BELÃO

 

Desde que se descobriram as Américas, uma das principais riquezas do Planalto, para além do eterno centeio, é a batata. O tubérculo, criado na montanha entre as fragas, não tem paralelo no mundo inteiro!


Dizem, com propriedade, que a batata do Brunheiro é a única que se ri quando cozida!


E falo da batata de consumo, porque a de semente, sua irmã, também criada escrava pelos corgos, em apanhando terra gorda e húmida, medra que se farta!


Quase todos de sequeiro, os terrões planálticos são pobres como Jó. Na coroa da serra não se espreguiça rio nem regato, e quem quiser lentura no renovo, para aumentar a colheita, que se desemerde! Abra um poço ou rasgue uma mina que sejam capazes de lhe varar o osso e chegar-lhes à veia. Caso contrário, em anos mais secos, as colheitas estrezicarão à míngua de água.


Ao centeio bonda a água da neve ou a da chuva que Deus manda. À batata também. Mas só para quem se contente com pouco. Quem quiser aumentar o pecúlio que trate de regar!


Fidalgos são os da Veiga que levam a vida derrengando polaina! O Tâmega dá-lhes de beber de graça! Mais ainda desde 1949 com o Açude de Vila Verde.


Da água tratou o Ti Moreiras do Carregal, na campina do Belão. Uma propriedade imensa, constituída por um extenso carvalhal de cuja esgalha se enchia o palheiro para o inverno; por uma touça que dava tojo e sargaço com que se fazia a cama dos animais e se estrumavam as terrinhas de cultivo; por um grande lameiro, guardado para feno pelo S. Brás; por um enorme giestal que o maio pintava das mais alvas cores e por uma terra de lavradio que produzia centenas de rasas de centeio e atulhava o armazém de batata.


O Belão era a menina dos olhos do velho combatente da Flandres, o bem mais precioso que lhe fartava a casa e a cria. Havia, por isso, que o estimar.


Foi nesta senda que se lhe meteu na cabeça mandar abrir um poço que fizesse o renovo mais viçoso. Corriam os anos quarenta.


Justou a obra com o Francisco Mineiro em cinco notas de cem, com garantia de água farta. O especialista, munido de uma gancha de salgueiro, sondou o terreno durante dois dias a fio para dar com o eido à água. O secular detetor inclinou-se quase até ao chão perto de um salgueiro que nascia no centro do Belão. Acertou em cheio na aorta que descia do Cabeço até aos prados de Adães. Porém, levou três longos meses a atingi-la. Até aos dois metros, e enquanto a terra deu em ser mais escura, bem te vai! A partir dali começou a dar saibro cada vez mais duro e pouca água. O desespero era crescente, contudo, passados os 15, a coisa começou a prometer. Aos 18, deu em fraga dura e saltou a dessorar água à fartazana.


Bastava de fundura!


O sucesso foi tal que o patrão Moreiras tratou logo de encomendar, ao mesmo artista, o empedramento do poço, para que não se esbardalhasse.


Mais cinco notas! «Que se cosesse o dinheiro, caraito, o que importava era obra bem-feita!», pensava o anfitrião!


Após mais três meses de labuta, o Mineiro apresentou um trabalho de respeito que ainda hoje pode ser visto!


O catano do poço até metia medo de tão fundo e de tão ancho que era. Mesmo o mais destemido pimpão que se aventurasse a desafiar-lhe as bordas, não evitaria uma tremedeira nas pernas como se estivesse com as maleitas!


Eu mesmo confesso que nunca lhe vi o fundo! Nem mesmo o motor de rega, a vomitar água o dia inteiro, o conseguia escoucar!


Onde acabava o empedrado e começava o saibro duro, crescia um salgueiro bravio no qual o paizinho tinha particular empenho. Até parece que adivinhava (mais tarde se saberá porquê). Certo é que aquela bendita árvore, bem alimentada de água, quase escondia por completo a bocarra do poço, o que o tornava ainda mais misterioso.


Para além disso, mais ou menos a meio, numa frincha entre as pedras, criava um casal de mochos todos os anos. Outro orgulho do proprietário António! De facto, não era para todos poder contar com a preferência da ave da sapiência. Além do mais, dava-lhe um certo gozo poder contribuir para que as noites de lua cheia do Carregal se preenchessem com o misterioso e agoirento pio deste noctívago pássaro. E mais a mais, quem haveria de beber o azeite das luminárias da matriz de Santa Leocádia?..


Poço feito, água a rodos, faltava um engenho que a trouxesse ao batatal. Pensou numa picota, depois numa nora! Porém, ambas as soluções, eram demasiado arcaicas para a visão vanguardista do Ti Moreiras. Lembro que este senhor, sem ser especialmente letrado, já lia o Comércio do Porto que lhe chegava recesso de oito dias. Aliás, foi aí que se deparou com o seguinte anúncio:


Não regue de regador, use antes um motor!

Motor Bernard uma bomba a regar!


Iluminou-se-lhe a alma!


Logo que pôde, encatrafiou-se no Texas em Vidago e parou no Porto. Queimou uma nota de cem na rua dos Almadas. Despachou o Bernard no comboio para Chaves.


Passados alguns dias, recebeu recado que já havia chegado. Jungiu os taludos bois galegos, engatou-os ao carro e tocou para a cidade.


Regressou após um lauto almoço de costeletas em sorça no Sr. Horácio do Tabolado.


Vinha todo croncho com a máquina!


Parou no relógio, em Vilar de Nantes, para o primeiro copo. Juntou logo ali uma dúzia de admiradores. Em Izei, mais de uma dezena, outra no Pêto de Lagarelhos. Em France então foi quase toda a aldeia. No Carregal, nem se fala! Decretou-se até descanso para o dia seguinte por mor de se ver o motor a trabalhar. Tratava-se seguramente de um dos primeiros motores de rega a chegar ao Planalto. Uma coisa que ninguém da aldeia tinha alguma vez visto ou sequer sonhado existir. Por isso, merecia que fosse feriado. Atrevia-me mesmo a dizer que não desmerecia que fosse dia santo de guarda!


Tratava-se de uma máquina enorme e pesada. Nada ficava a dever ao motor da camioneta do Ti Antoninho Morgado de Fornelos!


O Ti Moreiras construíra mesmo uma casa para o acolher no Linhar do Pêto e que ficou conhecida como a casa do motore. Passaria a ser a morada definitiva do Bernard. Ficava por cima de um poço coberto por enormes lajes de granito que servia para regar a horta, a lameira e encher o tanque de lavar. Aí mesmo haveria de ser experimentado pela primeira vez para gáudio da gente da povoação.


No dia aprazado, o povo madrugou e juntou-se, como para uma festa, no adro da capela que era contíguo à casa do motor. Estou que nem a festa do padroeiro S. Bentinho juntara alguma vez tanto povéu!


O Ti Moreiras encheu o depósito do petróleo e meou o da gasolina. Sangrou-o. Meteu a manga no poço e enroscou-a à bomba. De seguida, ferrou o motor. Atarraxou a vela de incandescência, ligou-lhe o cachimbo e com tudo prontinho, encaixou a manivela de ferro no volante, como se fazia para pôr as arrastadeiras a trabalhar antes da descoberta do motor de arranque.


Ordenou ao povo que se afastasse. Deu à manivela com tanta força, mas com tão pouco jeito, que nem o motor pegou nem sequer o volante deu uma volta completa. Tentou segunda vez. Com tal convicção o fez que a manivela, saltando-lhe da mão, foi disparada à cabeça do Gripino. Esmoucou-o, ao mesmo tempo que o Ti Moreiras esfolou os nós dos dedos na pedra áspera do chão. Contudo, nem o Gripino se incomodou com o lanho, nem o Ti Moreiras com a esfoladela! O importante era mesmo que o bichinho trabalhasse!


À terceira foi de vez! O Bernard pegou numa roncadeira infernal. O povo, na expetativa de ver a água a sair, não se continha, soltando expressões de pasmo!


Que maravilha! Uma coisa nunca vista!


A água jorrava cristalina e num caudal apreciável. Tanto que não levou dez minutos a encher o tanque de perpianho.


A experiência estava feita e bem-feita! O motor aprovara!


Para festejar, o Ti Moreiras espargiu figos secos e nozes à rebatina e passou a lingureta da aguardente feita do bagaço das uvas de Cova do Ladrão. Naquele ano era de estalo!


 – Que bebam miúdos e graúdos, festa é festa! – dizia o Ti Moreiras, radiante.


Entretanto, aproximava-se o tempo da rega. Para o efeito, era preciso transportar a avantesma até ao poço do Belão. O Ti Moreiras não perdeu tempo. Também quem sabia fazer tonéis e dornas haveria de dar um jeito a uma carroça que fosse azadinha para o levar.


Meu dito, meu feito!


Botou mãos à obra e não tardou a apresentar uma gerigota carroça escarlate, para atrelar à égua Espuleta. A primeira vez que foi usada resultou tão bem que nem era preciso desmontar o motor para o pôr a trabalhar junto ao poço! Serviço feito, a Espuleta era desatrelada e passava tardes santas pastando à sombra do carvalhido. Que boa vida levava, agora, o animal! Tirando o transporte do patrão para as feiras de Carrazedo ou de Chaves, nada mais fazia do que levar o arcanho para o Belão de manhã e recolhê-lo pelo ocaso.


O batatal até se via medrar!


A colheita de setembro prometia!


O Ti Moreiras, de vez em quando, arrancava um pé aqui e outro acolá para monitorizar a medração. Chegava a contar mais de dez batatas em cada pé e, de uma semana para a outra, quase dobravam de tamanho. De facto, o arranque demonstrou quão eficaz fora o investimento no poço e na rega. Só naquele ano, mais de metade do custo, seria coberto com o acréscimo da produção.


Meteu-se o inverno e com ele o descanso das pessoas, dos animais, das alfaias e das terras. Agora, também do motor.


Chegou o mês de abril. Com ele vieram as águas mil e as primeiras orelhas do batatal. O poço de tão cheio quase transbordava. E mesmo que o verão fosse seco, às batatinhas nunca haveria de faltar o molho.


Assim aconteceu durante alguns anos!


Contudo, a idade não perdoa e o Ti Moreiras, aos setenta, teve de entregar a lavoura ao Fernando, seu filho mais novo, meu ditoso pai.


A partir dos meus cinco anos, muito eu gostava de o acompanhar na rega do Belão! Para além de me sentir um homem grande, ele deixava-me ir em cima da carroça e acavalo no motor. Depois punha-me ao fundo do rego para dar sinal quando a água chegasse. Mal a topasse gritava:


– Torna!


O meu pai virava-a para outro rego. Entrementes, eu cantava tardes inteiras as cantigas da moda, cuja letra se comprava em folhetos aos ceguinhos, no cimo das escadas da velha praça das Longras. Lembro-me da cantiga preferida: ó tempo volta p’ra trás, de António Mourão. O meu pai gostava de me levar. Dizia que o distraia o meu canto de rouxinol!


Fui crescendo e a coisa foi perdendo a graça. Também o corpo já podia com outros trabalhos, pese embora me isentarem quase sempre dos mais pesados.


Teria uns 10 anos, quando, no fim de uma campanha de rega, o Bernard faleceu de acidente. O meu avô António, já muito idoso, teve tal desgosto que pouco mais tempo durou. A estória conta-se em poucas palavras.


Tínhamos lá em casa um estupor de uma égua, a Rola, que tinha um medo inexplicável aos automóveis. Nem precisava de os ver, bastava sentir-lhe o roncar e entrava em pânico. Não importava se estava montada ou atrelada, desinvestia como uma louca campos fora e nem as paredes a detinham. Ora, como para levar a carroça do motor para o Belão era preciso atravessar a estrada nacional, antes de o fazer, era sempre necessário verificar se viria algum carro nas curvas das Padanas, para o lado de France, ou nas do Cabeço, para o lado de Fornelos!


Numa bela tarde do fim de um qualquer junho, depois de dormir a respetiva sesta, decidiu meu pai ir regar para o Belão. Era costume manobrar de marcha à ré para colocar, a preceito, carroça e motor nas bordas do poço. O meu pai, de frente para o dito, deu meia volta ao carro e à Rola e com mão firme, à barbela, foi mandando:


Sasta Rola, sasta! – para a fazer estacionar onde bem queria.


De repente, começou a ouvir-se, ao longe, um ronco surdo de um motor de camião. Era a camioneta das cinco do António Magalhães que fazia a carreira de Chaves a Carrazedo e que, naquele dia, vinha com o escape livre. O som foi-se tornando cada vez mais nítido, até que a égua, apercebendo-se que se trataria de um carro, começou numa agitação incontida a espumar, a remoer os dentes e a querer relinchar!


Temendo o pior, o meu pai tentou sossegá-la e fazê-la avançar.


Não foi a tempo!


Assustada, a besta pôs-se em pé nas patas traseiras. Quando pousou as da frente, recuou com tal impetuosidade que o motor, a carroça e ela própria se precipitaram no abismo.


O motor, pesado, só parou no fundo do poço, onde ainda deve estar. A carroça e a Rola ficaram suspensas nos galhos mais grossos do salgueiro bravo que enraizava nas paredes do poço. O meu pai, muito zangado, ponderou não chamar ninguém e deixar o animal a espernear como merecia! Porém, lá se decidiu e pediu ajuda.


O Carregal acudiu em peso. Com cordas carrais, juntas de bois e a força de braços, lá se conseguiu tirar daquelas proparos o animal e a carroça!


A partir desse dia o veículo teve novo uso!


A Rola foi vendida aos ciganos na feira de Carrazedo.


O motor, jazendo no fundo do poço, nunca seria substituído porque, entretanto, o meu pai mudou de vida. Deixou a lavoura e empregou-se na cidade para dar futuro aos filhos.


O meu avô António faleceu em 1976, quem sabe se de desgosto por ser incapaz de resgatar o Bernard do fundo daquele poço do Belão!


Justificaria, contudo, o empenho que sempre teve naquele bendito salgueiro!

 

Gil Santos



publicado por Fer.Ribeiro às 19:01
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Sexta-feira, 8 de Fevereiro de 2013

Discursos sobre a cidade - Por Gil Santos

 


AURORA BOREAL DE 38

 

Se já o outono daquele ano de 1937 havia sido de rebimba a malho, o começo do inverno de 38 não lhe ficava atrás, para pior. As vésperas do Natal arrimaram nevão tamanho que andou para esgotar as provisões das baijes de palheiro que se arrecadavam para o tempo frio e mesmo até a carne do enguião que as deveria untar. O gado, miúdo ou graúdo, não saiu das lojes até aos Reis. Valeu-lhe o feno ripado das mêdas. À gente, os guiços de carvalho das rimas dos palheiros.


No que respeita a trabalho, nada mais se podia fazer do que escolher batatas nos armazéns. Os merouços aguardavam, desde o arranque, que lhes apartassem o refugo da semente e esta do consumo. A cria comia o tubérculo refugado. O de consumo alimentaria os longos dias da gente até à colheita de setembro. A batata de semente aguardaria reproduzir-se na terra ávida do março.


O que sobrara do reco curava agora ao fumeiro. De um lado da fuga, os presuntos secavam ao dependuro, um em cada braço da cruzeta de ferro que pendia da trave mestra. Do outro, num mesmo arcanho, defumavam as pás, apartadas por fronças de giesta. O tronco dos penduradouros foi envolto em ramos de tojo bravo por mor da astúcia lambareira dos leirancos.


No Brunheiro, aquela terça-feira de 25 de janeiro acordou límpida como o cristal da Boémia. Já a noite se mostrou tão estrelada que há séculos não se enxergava tão bem a Estrada de Santigo, para os eruditos, a Via Látea. As estrelas da Cassiopeia, piscando o olho às da Ursa Menor, deambulavam embaladas pelo sereno de uma noite quase ártica. Pela manhã, a geada remedava na perfeição a neve. Tolhia quase tudo. As couves de penca nos quinteiros estavam derreadinhas e, de tão castigadas, pareciam já cozidas. Os beirais dos telhados enfeitavam os casebres de luzeiros pingentes de gelo. Pingarelhos que a canalha chupava fingindo rajás. O tanque do prado e a lagareta da bica encrostavam a tona com gelo de furco. As vidraças, congeladas pelo interior, eram agora translúcidas. Os bichos, incluindo os humanos, expeliam golfadas de vapor parecendo o Texas a subir o Reigaz. Mesmo a mijadela matinal nos pátios, estou em crer que chegaria ao estrume já feita em pedra!..


– Ai que catano de barbeiro! – Queixava-se a tia Brilhantina da sua janela para o postigo das comadres.


O sol bem se arreganhava, arrouçando os raios pelos contrafortes da Padrela, mas não havia meio de expulsar aquele martírio.


As escolhedeiras, ajoelhadas em esteiras de fanenco à margem do merouço, enrolavam-se em xailes velhos de merino. Contudo, não conseguiam que as mãos, engaranhadas, atinassem com uma escolha escorreita. Muitas vezes lá botavam uma batata de semente para a cesta da do consumo ou uma de refugo para a da semente, o que punha o ti Antenor possesso. E não era para menos! É que o pobre passou a noite no armazém a alimentar o lume com cibos de carvão de pedra, para que o ouro do planalto não congelasse!


E aquele dia passou-se neste bota e bira: acomodar o gado pela matina, escolher batatas durante o dia e às ladainhas tornar a alimentar a bicharada. Tudo tratado era a hora da ceia, à volta do tição.


Quando o borralho perdesse o fôlego:


– Cama, que estás como uma bola!


Um silêncio profundo instalava-se na aldeia, interrompido apenas pelos esparsos latidos da canzoada ou pelo ruminar dos bichos que pernoitavam sob os quartos dos tugúrios e cujo calor corporal dispensava mais uma manta de papa na enxerga.


O ti Antenor, o Pensador, como era conhecido pela calma que sempre punha na resolução dos problemas bicudos, findo o dia de labuta, foi à mêda ripar uma gabela de feno para distribuir por duas cabras, uma ovelha e dois charoleses que tinha ao ganho. Chegando a casa, para sua incomodação, nem o lume tinha ainda aceso!.. Grunhiu:


Rais te parta na mulher, na vez de acender o lume e pôr o pote p’ró caldo, anda p’raí a dar água sem caneco! Deixa-te tchigar a casa que te hei de encertar o lombo!


E bem capaz disso era ele!


O ti Antenor era um homem duro, temperado pela metralha da Flandres em dezassete e pela fome nos campos alemães de prisioneiros em dezoito. Comeu o pão que o diabo amassou e se já antes das sortes era fino como azougue, o que lhe teria valido a própria vida na miserável Grande Guerra, após a saga bélica transformou-se num verdadeiro filósofo. Aprendeu muito com os emboleques da vida e não havia nas redondezas quem lhe fizesse o ninho atrás da orelha. Como soi dizer-se na terra de cegos, quem tem um olho é rei, por isso, onde estivesse dominava e, o mais das vezes, para se armar ao pingarelho, até botava uns dezeres em franciú ou mesmo em deutsche, sobretudo quando queria engrampar a cambada.


Pois bem, já que a mulher não estava em casa, botou ele próprio mãos à obra. Do eido, amanhou umas fronças secas e uns guiços finos. Partiu os mais grossos no joelho e amontoou tudo sobre o estrafogueiro. Chegou-lhe um palhito, rascado na lixa da caixa das quinas e acendeu o lume. Encostou o pote do caldo. Meou-o com água do cântaro de folha, aparada na bica da mina de Medeiros. Juntou-lhe duas colheres de unto, três olhos de penca, meia dúzia de canibeques, dois punhados de farta-rapazes, quatro coiratos e uns greiros de sal. Condimentos necessários a uma mistela que devolvesse ao corpo, mas sobretudo à alma, o alento subtraído pela labuta e pelo frio.


Ainda o caldo não levantara fervura e já a tia Brilhantina entrava, desaustinada, cozinha adentro. A mulher parecia trazer diabo. Para se fazer ideia, atente-se na obra O Grito de Edvard Munch e ter-se-á a noção aproximada dos ares da Brilhantina. A imagem era tão inusada que, se o ti Antenor ainda tivesse ganas de lhe saltar no lombo, perante este quadro tê-las-ia certamente perdido!


– Ó home da minha bida, estemos na fim do mundo! Anda à baranda ber! O céu alabariou-se e estou que nem Nosso Senhor escapa para nos baler!


Rais te fonha, mulher, tu que ladras??? Estás douda! Se viesse mas é tratar do caldo é que tu eras fina!..


– Anda à baranda, home, anda ber que desgracia!


Como de facto!


O céu, por riba da Sanábria, apresentava-se tão rubro como rubras são as labaredas de uma fogueira de palha! Ondulavam na abóbada uma espécie de cortinas, línguas de fogo, que percorriam o firmamento norte de lés-a-lés. Para maior espanto eram acompanhadas de um som parecido a lenha seca a crepitar no braseiro.


Assombroso, verdadeiramente assustador! Nunca se tinha visto nada igual por aquelas bandas do Brunheiro. Nem visto e nem ouvido, mesmo nas conversas dos aréus aos serões de inverno!


O padre António de S. Cibrão, velhinho e curvado, quiçá pela vida de fidalgo que sempre levou, foi chamado à pressa para esconjurar o aparecido. Mas não se astrebeu. Então, sequer ao menos, que salvasse as almas dos pecadores com a penitência da oração na capela do padroeiro. O povo, temente, para esse ofício seguia-o em procissão. Enquanto caminhavam, uns rezavam em voz alta ao São Caetano bendito, advogado das coisas más e dos males desconhecidos, outros ao patrono S. Bentinho, doutor da Regra, outros à Virgem Maria, nossa senhora e nossa mãe e outros gritavam orações avulsas. Os mais hereges, que os havia, blasfemavam impropérios vários, sem que o prior ouvisse, sob pena de excomunhão.


A capela nunca tinha tido tanta gente junta. Rebentava pelas costuras. Até o Pensador se juntou, mesmo sendo meio ateu, embora crente da máxima de S. Tomé. Acenderam-se quantas velinhas havia pela sacristia e mais as que os paroquianos foram capazes de juntar. Mais por devoção, uma vez que a noite parecia dia com os clarões das línguas de fogo que rascavam o céu.


Toca a rezar!


O padre António começou a desfiar a Litania Sanctorum:


– In nómine Patris et Filii et Spíritus Sancii.

– Amen.

– (…)

– Sancta Maria

– Ora pro nobis.

– Sancta Dei Genetrix;

– Ora pro nobis.

Sancta Virgo virginum,

– Ora pro nobis.

Sancte Michael,

– Ora pro nobis.

(…)


Passou-se a noite quase toda neste latinório infindo, sem que o estranho fenómeno desse de si. Nisto, o Pensador cansado e cheio de bater com a língua no céu-da-boca, dando-se conta de que, afinal, o divino não se astrebia a resolver o problema, desafiou o padre e os leigos, seus irmãos, para uma explicação do tipo científico (a martelo bem entendido!).


Subiu ao púlpito e aí vai disto, Evaristo:


Ó pobo meu, botaide-me atenção! Olhaide qu’inda num é desta que o mundo se fina! Isto é apenas um abiso aos homes de pouca fé. Deus Nosso Senhor fez com que o sol, ao bater do outro lado do mundo no sangue dos mortos da Grande Guerra, se refletisse no firmamento parecendo fogo. Os mobimentos ondulantes a arrumedar as labaredas são os feixes da luz abanados pelo bento fresco das alturas. Mais ou menos como beides quando a araige de maio abana os centeios pela serra. Por isso, prometeide não pecar mais e vereides que tudo amainará. Rematou com veemência como se rezasse:


Ó mou pobo não desanimais, sempre animais!


Meu dito, meu feito!


Mal o povo aceitou refletir, silenciosamente, sobre os seus pecados mortais e rezado o Actus Contritionis, ao mesmo tempo que alvorecia, volatilizava-se dos céus aquela enigmática aparição.


Cada um regressou a sua casa cansado de tanto rezar, mas vivo e com um reconhecimento impagável ao filósofo Antenor.


O Pensador, passado um ano, e calando mureta, percebeu o real significado daquele fenómeno. Não se tratava de uma simples aurora boreal que emigrou, inusitadamente, dos céus escandinavas para os firmamentos do sul. Tratava-se, afinal, do prenúncio de um novo cataclismo mundial, desta feita muito mais sanguinolento do que aquele que em dezassete o ia gaseando!

 

Gil Santos

 

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Sexta-feira, 28 de Dezembro de 2012

Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos

 

 

O Tibúrcio

 

Rais te parta o peixe que está cheio de arganas – queixava-se o pequeno Tibério muito zangado.


– Come d’amodinho mou filho, não se te entrasgue algua e te afogue! – aconselhava a mãe com o mesmo carinho com que tratava o Pécora, o outro mais velho, depois que ficou manquinho de uma perna.


Comiam barbos de escabeche. Foram apanhados nas cordas que o Tibúrcio estendera à socapa no Tâmega. Ele bem sabia que era proibido e que se fosse apanhado no trabalhinho iria parar à choldra do Forte de S. Neutel a ver o sol aos quadradinhos e com umas arrochadas no lombo. Mas que fosse por Deus Nosso Senhor e pelos filhos da amásia. A lazeira superava o medo e valia a pena prevaricar só para ter os enteados de tripa forra.


Não havia pai para o Tibúrcio nesta arte de apanhar peixe do rio à corda. Mas só no inverno, porque no verão praticava outra das suas especialidades o peixe do rio ao buraco! Madrugada, ainda o sol se espreguiçava para lá das encostas do Brunheiro e já ele metia pés a caminho para a primeira presa. Chegava, lia a corrente que quase sempre corria fraca por estre penedos e ougas floridas. Despia-se até ao pescoço, atava uma saca de rede à cinta com uma baraça de sisal, pegava numa vergasta de amieiro e rio acima fustigava a tona da água. Os peixes, ainda endorminhados, estou que com o medo, encafuavam-se nas luras por baixo das pedras. O Tibúrcio mergulhava, metia a mão no toco, e quase sempre apanhava peixe graúdo. Por vezes lá lhe calhava uma cobra de água taluda cuja cabeça esmagava contra um penedo. Outras, algum leiranco de água, perdurado pelas cavilhas no polegar. Mas, Tirando isso, era peixe à farta.


A arte da pesca à corda, mais usada no inverno e de preferência quando o rio fosse grosso, era mais cómoda. Ajeitava um decâmetro de corda fina, da que prende a chiba à estaca. De braçada em braçada atava-lhe umas pontas de metro de sediela 0,60 mm. Em cada uma dessas extensões empatava um anzol bico de papagaio. Iscava com minhocas que apanhava na estrumeira do Maneta, ali para o Raio X. Pela noitinha levava o arcanho para o Poço do Leite, um fundão que havia onde a Ponte Nova tomou alicerces sobre estacas de pinho e onde o filho do Tero Bandeira mergulhava desde o tabuleiro. Atava um calhau na ponta da corda, arrimava-o para a outra margem em diagonal com a corda a reboque. Esperava que a corrente a esticasse e quando a topasse tensa, atava a outra ponta nas raízes de uma figueira que abraçava a parede sobranceira ao dito poço. Despois, era só esperar que a noite e a voracidade dos ciprinídeos fizesse o resto. Pela matina, antes mesmo que o galo da Pônas acordasse, ia recolher o aparelho. Rara era a vez que não tirasse pelo menos meia dúzia dos tais barbos. Uma farturinha preciosa no tempo do racionamento!


O Tibúrcio era viúvo e sem descendência. Uma tuberculose galopante tirou-lhe a Carminda aos trinta anos, antes mesmo que pudesse conceber. Como soi dizer-se, rei morto rei posto. Não perdeu tempo, aos trinta e um aputou-se com a Chambra, mãe solteira, com dois filhos já espigadotes, o Tibério e o Pécora.


A relação alimentava-se de uma paixão forte, quotidiana. Contudo, a coisa começou a afrouxar e veio um tempo em que o Tibúrcio ralas vezes visitava a sua amante. A Chambra estava cada vez menos disponível para o amante no tugúrio onde vivia, após a desgraça de que foi vítima o seu filho mais velho. A infelicidade do Pécora conta-se em duas penadas.


Teria uns seis anitos quando numa manhã de janeiro o Chico da Soutília, seu padrinho de batismo, aricava uma campina de centeio, contígua à linha do comboio, ali para a Fonte Nova. Fazia-o com um arado de relha de ferro que uma mula, assustadiça, puxava aos repelões. O rapazeco, que fosse com o cheiro na merenda do padrinho ou em andar emplouricado no arado, foi atrás dele para a lavra. Gostava que o sentasse abaixo da rabiça, com os pés sobre o timón para andar de landó rego fora. Assim estava a acontecer quando o comboio, na aproximação ao apeadeiro da Fonte Nova, abriu a goelas num estridente silvo. A mula, apavorada, desinvestiu campo afora. O Chico não teve mão nela e o mocinho caiu entalando a perna esquerda entre a abieca e a lavrada. No movimento tresloucado, um rebo mais aguçado apanhou-lhe a pernita e amputou-a redondinha pelo tornozelo. O Pécora ficou manco para o resto da vida.


O que haveria de ser da vida desse rapaz sem uma gâmbia, num tempo em que mesmo com as duas sabe Deus?


Em ordem ao futuro do filho manco, a Chambra, precisava de trocar a paixão do Tibúrcio por alguma outra coisa que desse mais do que barbos de escabeche!


Ora, um amanhado dia do mês dos cucos, quando atravessava a linha do caminho-de-ferro com um jiga de labrestos à cabeça, colhidos na mesma leira onde o seu Pécora perdera o pé, a Chambra ia sendo apanhada pelo comboio que passava. Não fora a mão amiga de um guarda-linha a tê-la salvo e seria morte certa. Ficou-lhe tão reconhecida que no dia seguinte, o tal, já merendava em sua casa. Dali avezaria um dinheirinho certo. Com ele poderia atenuar as dores da família, particularmente assegurar um futuro para o filho manco.


Não esteve com meias medidas, comassim! Deu-lhe a provar o licor de Vénus e fisgou-o pelo beicinho como o outro fazia aos barbos!


Tratava-se de um homem de meia-idade, solteirão, vindo do Douro. Por desgosto, quiçá de amor, pediu para vir trabalhar na linha do Tâmega, aqui para Chaves. Roupa lavada e cama quente levaram-no a viver de porta cerrada com a Chambra e os seus dois filhos.


Com aquele desgosto não pôde o Tibúrcio. Na primeira oportunidade contratou os serviços do Neves e Passador e emigrou a salto para a França. Teve tanta sorte que em pouco mais de cinco anos fez fortuna capaz de lhe alimentar uma velhice sem sobressaltos.


Durante esse tempo a Chambra vivia na fresca ribeira com o duriense e não mais se lembrou do Tibúrcio. Contudo, uma bela manhã do primeiro de agosto, o guarda-linha avisou que ia de férias no dia seguinte, tomaria o comboio para a sua terra. Visita aos familiares. Assim foi. Evidentemente que se esqueceu de voltar no final das ditas.


Adivinhando a mandingança e achando-se de novo desamparada a Chambra não perdeu tempo, foi pedir ao Beiças que lhe redigisse uma carta para a França.


Rezaria mais ou menos nestes termos:

 

Crido Tibúrcio:


Espero qestas duas letras te bão topar de boa saúde. Nós por cá estemos bem graças a Nosso Senhor.


Escrebo-te esta p’ra te dezer que não me astrebo a aturar o Tibério e o Pécora. Desde que fostes p’rá França que me relam os dias a pedir barbinhos de escabeche. Eu bem los fazia mas num tenho quem nos pesque. Faltasme tu qeras o pitroil da minha candeia e o luzeiro dos meu olhos. Nunca na bida heide ter home tão asado qemo tu. Dabasme carinho, açaramoabasme os rapazes quando mijavam fora do penico, afagabasme a palha do xaragão quando oupava e olhabasme a pita todos os santos dias para que não pusesse fora. Fostes e hades ser sempre o home da minha bida e o pai que os meus filhos nunca tiberam.


Bolta Tibúrcio da minha peituga, serei o teu aconchego na belhice.


Sem mais que te diga, recebe o afago deste coração empedernido e a promessa de um cibo ardente que te deseja!


Por ti anseio.


Desta que muito to quer!


Chambra

 

A missiva lá seguiu para terras de Bonaparte.


Ainda não era Natal e já à sua porta, na canelha das Caldas, parava um carro de praça a descarregar duas malas de cartão anchas e um pimpão de fato e gravata. Era o Tibúrcio que retornava, agora carregadinho de francos, aos braços da sua amada.


Daí em diante nunca mais faltou o escabeche de barbos naquela mesa. Bem entendido que já não era acompanhado apenas com carolos recessos de centeio escuro, mas com cantos de trigo e outras iguarias que a Chambra trazia, vaidosa, da praça todas os dias de feira.


Viveram felizes. Tão felizes, que até o Pécora teve direito a um pé novo, suponho que de pau de amieiro, que o doutor Fernandes mandou vir de Barcelona. Mancava um pouquinho, mas foi apenas enquanto não se habituou.


O Pécora passou o resto dos seus dias rua Direita acima, rua de Santo António abaixo, a vender cautelas para seu sustento. Não sei se algum dia teria vendido a sorte grande, mas merecia que isso tivesse acontecido.


O Tibério foi chauffer de praça no Arrabalde.


A Chambra e o seu Tibúrcio morreram velhinhos.


Do guarda-linha nunca mais ninguém ouviu falar.

 

Gil Santos

publicado por Fer.Ribeiro às 02:48
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Sexta-feira, 23 de Novembro de 2012

Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos

 

Os espíritos do forno do Có

 

Em Trás-os-Montes, mesa de pobre ou mesa de rico tem de ter, obrigatoriamente, pão de centeio e isto desde que o homem é homem. E já agora, batata também. Do altiplano dos Andes, o tubérculo chegou para cá do Marão, somente em finais do século XVI. No seu lugar esteve a castanha, esse fruto divino com que o castanheiro nos prenda no arreganho do ouriço. A própria bolota, não a que ceva o porco preto alentejano que é de sobro, mas a que cria o carvalho negral das nossas touças, depois de seca e moída, arremedava a farinha centeia, nos períodos de maior fome. Então, primeiro a castanha, depois a batata e sempre o pão de centeio, foram a base da alimentação das nossas gentes ao longo dos séculos.

 

O grão – e nem é preciso dizer que é do centeio – espargido por essas courelas mirradas, pouco antes dos Santos, germinava, medrando-lhe a palha amaciada pelos nevões. Maduro, pelo alvor do verão era segado, arrumado em pousadas, acarretado, emedado e depois solto da espiga, à força do malho, nas eiras de pedra - alisadas e calafetadas com bosta para que nada se perdesse - por homens fortes, escravos do trabalho de sol a sol. Limpo das arganas pelas brisas das tardes de julho, o centeio era varrido e metido em sacos de serapilheira que depois eram vazados nas caixas do grão. À mistura com o centeio, encafuava-se alvezes a fruta verde para que amadurecesse e as chouriças para que não mirrassem. Ao longo do ano e conforme a precisão, o cereal era recolhido pelo moleiro e moído nas azenhas do Tâmega, ou nas dos ribeiros seus afluentes. O moleiro fazia a ronda pela clientela das aldeias, carregava os coleiros na albarda das bestas de carga, cingia-os com cordas esticadas pelos arrochos e dias mais tarde devolvia a farinha, subtraída, bem entendido, da maquia para seu governo. Esta, depois de peneirada, apartada portanto do farelo que cevava os recos, era misturada com água quente salgada e com o fermento, colhido dum pequeno alguidar de barro de Nantes que tinham deixado cheio, por obrigação, da massa já levedada da fornada anterior. A pasta, depois de bem revolta e batida na masseira, muitas vezes enriquecida até com o suor da testa da amassadeira, que dava ao pão paladar idêntico ao de Padornelos, cuja farinha recebia os aromas do suor do jerico que a carregava em pelo, ia a levedar embrulhada em panais brancos, o mais das vezes de linho. Como soi fazer-se ainda quando se tende, ao dividir a massa em bocados, que serão os pães - note-se que resisti à tentação de lhes chamar boroas – era lavrada uma cruz em cada um e botada a seguinte reza:

 

São Vicente te acrescente

São Mamede te levede

São João te faça pão

pela graça de Deus e da Virgem Maria

um Pai-nosso e uma Avé-Maria.

 

O forno, previamente aquecido pelas labaredas das fronças da giesta branca, estaria pronto a cozer quando o tijolo burro ficasse esbranquiçado. Desviava-se o brasume para as bordas, ranhava-se o forno com um lareiro de ferro, puxava-se algum do borralho para a porta e enfornava-se o pãozinho, com três cruzes feitas com a pá na porta do forno e mais outro dezer sagrado:

 

Cresça o pão no forno

e os bens p´lo mundo todo

paz e saúde ao seu dono

pela graça de Deus e da Virgem Maria

um Pai-nosso e uma Avé-Maria.

 

Duas horas passadas e a forneira tirava o primeiro pão. Batia-lhe com a mão no fundo, como quem toca o adufe e soando a pão cozido desenfornava. O cheiro da fartura enchia o forno e o pão, arrefecido, seguia de giga para a galheira.


Na maioria das aldeias transmontanas, sobretudo nas barrosãs, havia um forno único para serventia de toda a povoação, era o forno do povo. Lugar mítico, tão importante - às vezes mais - do que a própria capela, servia de espaço de convívio ao nível do barbeiro ou da taberna. Aí conversava-se, namoriscava-se, conspirava-se, punham-se uns na lama e outros nos cornos da lua, enfim emprestava-se verdadeiro sentido à vida comunitária. O forno servia até de albergue para almocreves, vadios e miseráveis pedintes que esmolavam de lugar em lugar. Contudo, nem todas as aldeias transmontanas tinham forno do povo. Em Outeiro Seco, por exemplo, não se conhecia esta tradição, o que não quer dizer que não se cozesse o pão, pois também ali é dele que o homem vive. Não sei se por mor de se tratar de uma aldeia da ribeira, mais mimosa do que as de riba, se por outra qualquer razão, o forno do povo, era aqui substituído por muitos fornos de propriedade privada. Claro que nem todas as casas o avezavam. Quem não o tivesse, para cozer, tinha de contratar o serviço aos proprietários, os forneiros, em contrapartida de uma determinada paga. Estes aqueciam o forno, com a lenha fornecida pelo dono da fornada, amassavam a farinha, tendiam e enfornavam o pão.


Nesta povoação de Outeiro Seco havia, como disse, diversos fornos. No bairro do Eiró, os do Joaquim Félix e da Delfina Carreira, no do Penedo, o da Antónia Sanches, um forno muito requisitado, que esteve até na razão da atribuição da nomeada a seu filho José, ainda hoje conhecido como o Zé do Forno. Curiosamente, no do Papeiro, um bairro tão azadinho, não havia qualquer forno. Os seus moradores tinham de recorrer aos dos outros bairros. O mais usado por estes moradores, quiçá por razões de proximidade, era o da Delfina Carreira. Contudo, o bairro do Pontão, talvez por ser o mais populoso, era o que detinha o maior número de fornos. Os mais populares eram o do Canelhas, também conhecido por forno da Tenreira, por a forneira ser a Maria Tenreira, esposa do Canelhas, originária de Vilarelho da Raia, e o do Có, assim conhecido por causa de uma desgraça que ali ocorreu e que passo a contar.

 

Este forno foi desde os igrejos avós propriedade da família Merceana. Pertenceu, em tempos, à Teresa Merceana, que se finou, inexplicavelmente, ainda jovem. Solteira e diz-se que ainda virgueira, faleceu sem descendência, pelo que o dito cujo passou, por herança, para a sua irmã Rita Merceana, casada com Adriano Lara. Durante muitos anos este cadinho do pão foi explorado, em regime de concessão, primeiro pela família Agrela, e mais tarde por Maria Mafalda. Por se situar no centro da povoação, junto ao largo do tanque, espaço nobre da aldeia, onde paravam os forasteiros, o forno fazia as vezes do forno do povo, pois para além de cozer, também servia de poleiro aos pedintes e aos sem-abrigo que mendigavam de terra em terra e que por ali pousavam com alguma regularidade. Nas noites de carambina, esta gente sem eira nem beira, procurava o conforto do calor do forno, nunca negado pela forneira e que tantas e tantas vezes, inclusivamente, lhe aconchegava o bucho com uma côdea ou um cibo de bôla de carne, por alminha de quem lá tinha.

 

Um desses mendigos que regularmente aparecia por lá, diziam que vindo dos cornos do Barroso, ainda que, de certezinha, tivesse nome de batismo, era conhecido na comunidade pela nomeada de Có. O epíteto designava alguém pouco expedito, lerdo da memória, taralhoco no jeito e na fala, que não fechava bem a gaveta, enfim, maluco, na fala do povo que é a que mais nos interessa. Talvez até fosse esta a razão que o impedia de dobrar a espinhela sobre a rabiça do arado. De facto, não servia para assucar uma terra, aricar uma leira de pão, ou até sachar umas batatas, ou um milho que fosse, pois em vez de mondar os sinchos, tolhia as perneiras. Nem mesmo era homem para botar o gado ao monte ou ir cá botá-lo, pois até os irracionais lhe percebiam a falha e desinvestiam giestais adentro, nem precisando de estar com a mosca. Muito menos servia para segar pão. Metessem-lhe uma ceitoura na mão, para não falar dum gadanho afiado, e a cada investida da destra, mesmo com dedeiras, ficaria sem seu dedo da sinistra. Para que vejam, um dia tentou segar, à ajuda, um cesto de erva numa lameira. Se uma vaca parida, que ali pastava sossegada, não se pusesse fina, teria sido ceifada pelas canelas à investida descontrolada da gadanha. Uma desgraça este Có! Servia apenas para mendigar e para os lafraus se divertirem atazanando-lhe a alma pelos lugares.

 

Um dia farrusco, pelo Entrudo, respirava-se, mesmo na veiga, um ar ártico a adivinhar nevão taludo. Se ali era assim, imagine-se o que seria nos altos!.. O Có, para fugir a este inferno barrosão, desceu à ribeira e pousou, uma vez mais, em Outeiro Seco. Chegou pelas ladainhas, já a Maria Mafalda havia enfornado as últimas quinze bôlas das três fornadas que cozera nesse dia, claro para poupar nos guiços - economias de escala à moda do povo! - ora, como dizia, depois da última fornada e enquanto aguardava que o forno arrefecesse, o Có, rilhava um carolo de pão que por misericórdia lhe haviam oferecido. Quando ficou só e vendo a sua boa, encafuou-se, como sempre fazia, dentro do forno para melhor se abrigar do briol. O pobre, era useiro e vezeiro nesta façanha, mas como diz o povo, tantas vezes foi o cântaro à fonte que desta vez deixou lá a asa! O Có, dormia a sono solto e na paz dos anjinhos. Aconchegado pela irradiação do refratário, ressonava regalado. Pela madrugada, meia dúzia de gabirus, após um serão bem bebido de chincalhão, decidiram pregar-lhe um susto. Não é que lhes dá o dianho para tapar a entrada do forno com a porta de chapa! E como se não bastasse, ainda calafetaram as frinchas com a bosta de um caldeiro que tinha sobrado da última fornada do dia. Claro, saiu-lhes a porca mal capada! O que pretendiam que fosse uma brincadeira, pese embora de mau gosto, transformou-se numa tragédia: o Có acordou morto, estrezicou por asfixia! Quem o descobriu foi a Mafalda, pela manhã, quando abriu o forno. Como o infeliz não tinha família, nem quem o chorasse, ninguém reclamou justiça. Assim, o caso, embora configurasse homicídio, acabou impune. Nunca se soube mesmo, quem verdadeiramente tinha sido responsável por aquela desgraça. Por via disso, desde aquela ocasião, o forno passou a ser conhecido por forno do Có.

 

Não sei se me finte, mas diz-se em Outeiro Seco, à boca pequena, bem entendido, que o espírito do infeliz ficou aprisionado naquele forno e por vingança, doravante, embezerra todo o pão que lá se coza!

 

Este forno esteve ainda ligado a outro acontecimento fantástico, relacionado com um mendigo das bandas do Vidago de seu nome Procópio Fina. Este infeliz, além de desafortunado, ainda era apoquentado – dizia-se – pelo espírito de um homem, que teria deixado uma promessa por cumprir e que foi morto pelo couce do cavalo dum militar francês, na segunda invasão em 1809 e que Soult fez entrar por Chaves.

 

Permita-se aqui um parêntesis sobre este mistério dos espíritos:

 

Apesar de haver uma grande contradição no seio da igreja católica sobre esta temática dos espíritos e das almas do outro mundo, algumas delas penadas, o certo é que a Bíblia contém variadas passagens considerando a sua existência. Uma delas é a missão dos doze, ou seja a missão atribuída por Jesus aos doze apóstolos e que diz o seguinte:

 

Jesus enviou estes doze apóstolos, depois de lhes ter dado as seguintes instruções: Não sigais pelo caminho dos gentios, nem entreis em cidade de samaritanos. Ide, primeiramente, às ovelhas perdidas da casa de Israel. Pelo caminho, proclamai que o Reino do Céu está perto. Curai os enfermos, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demónios. Recebestes de graça, dai de graça. Não possuais ouro, nem prata, nem cobre, em vossos cintos; nem alforge para o caminho, nem duas túnicas, nem sandálias, nem cajado; pois o trabalhador merece o seu sustento. (Missão dos Doze (Mc 6,7-11; Lc 9,1-6; 10,1-11)

 

Pois bem, nas suas várias passagens pela aldeia, Procópio também se albergava nesse forno do Có. E sempre que lá pernoitava era assaltado pelo tal espírito, que diziam revelar-se de forma bizarra: primeiro Procópio desmaiava e seguidamente entrava em transe como se estivesse de fuzil em punho, esfaimado, a defender a fronteira de Vila Verde da invasão napoleónica. Era um espetáculo gracioso, bem sei que triste, mas o povéu não perdia pitada e mal soubesse da chegada do Fina, juntava-se no forno para o circo!

 

Será a atração, fatal, que o povo tem pelo que não sabe explicar?

 

Tal facto trazia Outeiro Seco em polvorosa. Foi graças aos dotes da tia Ana Moucha, perita nestes entendimentos, que uma das noites, com as rezas e as mezinhas da praxe, puxou pelos espíritos e conseguiu, para espanto de todos, que a voz da alma penada, usando a gola do Procópio, declarasse, em tom horrendo, andar a penar neste mundo por causa do incumprimento de uma promessa ao bendito São Caetano. Simultaneamente pedia comida e ameaçava.

 

– Dai-me de comer ou matarei este homem – e aquela voz de besta fera, saída das parafundas do inferno, repetia o pedido vezes sem conta.

 

Alguns vizinhos, tralhados de medo, mas piedosos e tementes a Deus, talvez para ganharem indulgências da senhora da Azinheira, benziam-se e rezando o Ato de Contrição, acudiam com pão, lascas de presunto, chouriços, linguiças, vinho fino, folar, se era tempo dele, enfim com o que tinham de melhor para apaziguar aquela alma do cabrunco! E o pobre lá comia regalado o que lhe davam. A voz do chifrudo ia abrandando à medida que o fole do pedinte se ia enchendo, até que parava e o possuído dava de si. Isto repetia-se quase todas as noites da sua estadia em Outeiro Seco. Contudo, a cena começou a inquietar alguns mais céticos que não compreendiam porque é que aquele espírito, excomungado, punha o esmoleiro a comer à tripa forra, mas somente peguilhos!

 

– Olha que p’rá lavadura do caldeiro não vira ele os cornos! – diziam alguns mais hereges.

 

Este espírito malévolo que custava mais à aldeia do que ao próprio mendicante, precisava de ser exorcizado. Daí que um grupo de jovens tesos, composto pelo António Salgado, o António Castro e o Augusto dos Santos, decidisse levá-lo ao São Caetano, para que de uma vez por todas, a alma inquieta largasse aquele corpo e se consumasse o seu descanso eterno.

 

Assim fizeram.

 

Num dia de canícula em finais de julho, antes mesmo do galo cantar, e ainda que não fosse o dia da festa daquele santinho, advogado das coisas más e dos males desconhecidos, a qual se faz no segundo domingo de agosto, os três farsolas montaram o mendigo no Lidador, jerico da tia Ana Barroca, mãe do António Salgado, e lá foram pelo antigo estradão da Torre, até ao bendito santuário milagreiro.

 

Logo que iniciaram a jornada, depararam-se com um constrangimento sério. O mendigo, pouco habituado a montar, não se segurava na albarda. Para ultrapassar essa situação, desarrearam o jumento que ficou em pelo e sentaram o Procópio no seu dorso, atado com uma soga, como se de um molho de carqueja se tratasse. O jerico estava magro como uma cancela e a espinha sobressaía-lhe tal qual os dentes de um traçador!

 

A viagem, pela senda de Ervededo, durou para lá de duas horas. Chegados, deram duas voltas à capelinha e mais três ao santuário rezando as orações exorcistas que a tia Moucha havia encomendado. Cumprido o desejo, o espírito ausentou-se da carcaça do pedinte, agradecendo a libertação com estrondosos e arrepiantes urros. Deixando no ar um estoiro de morteiro e um cheiro acre a enxofre estonado, garantiu-lhes que a partir daquele dia ficaria em descanso eterno. Como de facto!

 

Cumprida a promessa e depois de uma última espreitadela pelo janeluco da capela para se despedirem do santo e lhe agradecerem, matabicharam ganhando forças para o regresso. Chegando à aldeia, os populares ficaram curiosos por o pobre pedinte vir atado ao burro daquele jeito, mas logo quiseram saber como correu a promessa. Contados todos os pormenores, a satisfação foi geral, pese embora a cerúdia que tiveram de colher pelas paredes da aldeia, para curar o rêgo do Procópio que vinha em carne viva de tanto roçar na dentadura do serrote!

 

Se foi por graça do São Caetano, das rezas, ou da provação do infeliz pedinte, não sei. Sei é que ficou livre, doravante, de tais achaques e não mais careceram de o presentear com os mimos de Outeiro Seco. Nunca mais se viu por lá, não fosse, de novo, obrigado a esfolar o cerejo no lombo de um outro jumento escanzelado.

 

Fosca-se!..


Para terminar, permita-se-me uma divagação mal amanhada:


Estou que o espírito que se meteu no corpo do Procópio não seria verdadeiramente o do escoicinhado pelo cavalo do soldado francês, mas o do Có. Quem sabe se para se vingar de forma ainda mais bizarra?

 

Que outras surpresas reservará Có para os de Outeiro Seco!.. ponham-se a pau!


 

publicado por Fer.Ribeiro às 23:26
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Sexta-feira, 19 de Outubro de 2012

Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos

 

ANTÓINO CARPINTEIRO - O CANTADOR

 

Os sinos nos campanários das igrejas e nas capelas do Brunheiro só dobravam quando a força da invernia os agitava, a canalha, nas tropelias, puxava a corda, chamando o povo à oração, tocando os sinais pela morte de algum paroquiano e nos dias da festa do padroeiro. Repicando para lá disso, já se sabia que era para acudir a alguma desgraça. Para lá disso quedavam-se serenos e mudos, testemunhas de seculares estórias.

 

Ao toque desabrido e extemporâneo do sino a gente despertava. Fizesse o que fizesse, num assomo de solidariedade, o povo corria ao adro para saber da novidade. Muito raramente era outra coisa que não fosse um incêndio que amiúde flagelava, sobretudo no estio, estas gentes já tão castigadas pela agrura de uma terra madrasta.

 

Corria setembro de 1939. Fazia um calor de rebimba o malho. E como se já não bastasse ter rebentado na longínqua Europa, no início do mês, outra guerra mundial, recordando a de catorze que tanta desgraça trouxe ao Planalto, também o sino da capela do Carregal, pela hora da sesta do dia 15 saltou a badalar desenfreadamente. Quem o tocava era o Zé da Artura, um moço atarracado que não sei se com o entusiamo ou com o desespero levantava voo sempre que o sino dobrasse a vertical do campanário.

 

Permita-se aqui um interregno para uma pequena divagação. Retomaremos o toque do bronze um pouco mais tarde.

 

Naquele ano o feno, ceifado no cedo pelas gadanhas afiadas, secou nos lameiros sem sequer ser preciso virá-lo com as forquilhas de carvalho. Pelo S. João já atulhava os palheiros para forragem de inverno. Também as segadas se fizeram tempranas. O centeio amadureceu em tempo precoce e antes que o grão se esbanjasse, para gáudio dos pardais e outros que tais, toca a segá-lo, a acarretá-lo, a emedá-lo e a malhá-lo para encher as arcas de castanho das adegas. No início de agosto os palheiros que sobraram do feno eram atafulhados de palha para a cama de inverno dos animais e da gente. Também a lenha, esgalhada antes dos rebentos do março, enchia os telheiros que sobrassem. Lenha que havia de ser tição para conforto dos invernos miseráveis do Brunheiro.

 

Ora, diz o povo que em setembro, mês do arranque da batata, ardem os montes e secam as fontes, e é bem verdade. A de mergulho do Carregal de que se servia o povo há séculos, sita na fraldas da casa do Ti Guilhermino, estava quase escoucada. Para tirar um cântaro de água p’ró caldo era o cabo dos trabalhos. Pois se já nem para fazer o grode chegava, quanto mais para lavar o focinho pela manhã! Bem, mas isso também era o menos, assim como assim, já se estava habituado…

 

Era uma sexta-feira. O Carregal despejara-se, à ajuda bem entendido, para o arranque do Ti Antoninho Moreiras. Todo o homem, mulher ou criança sem ofício rumou nesse dia à campina do Corgo. Uma babilónia como a Tia Carolina gostava de lhe chamar. Era tamanha a leira como a produção de canibeque. Não havia mãos a medir. Tratava-se de uma sorte de sequeiro que enchia a casa. Imagine-se pois se fosse de rega! A azáfama começou pela alva, logo após um matabicho que o Ti Moreiras fazia questão de oferecer a quem o ajudava e que constava de nozes, figos secos e um cibo de aguardente da de Cova do Ladrão. Quando fossem dez da matina, hora do almoço, lá vinha a giga à cabeça da criada. Hora esperada que a fome já apertava!

 

Parava tudo!

 

Um naco de pá de reco rijada, um punhado de azeitonas, um casco de cebola e quatro goladas de vinho pelo pipo, alimentavam mais três horas de labuta. Um rancho de 12 homens empunhando cada um sua sachola de ganchos, distribuíam-se em escada por 12 embelgas. O Ti Moreiras vigiava, à frente, o descuido dos arrancadores para que não rachassem a batata que ficaria a servir apenas para alimentação dos recos e no cedo. Atrás, a canalha, espanava a rama e as mulheres apanhavam os tubérculos reluzentes e viçosos para as cestas de vime. O Ti Joel da Taleta, o doutor como era conhecido, cozia os sacos de serapilheira e contava a produção, não fosse ele, presunçosamente, o mais habilitado da jornada.

 

Pela uma da tarde o sol, impiedoso, cozia os miolos à gente! Hora da janta.

 

- Já lá vinha pela rodeira da Amoinha a Tia Carolininha com o jantar.

 

Parava tudo de novo!

 

As enxadas sossegavam enterradas nos regos para que não lhe secasse o olho. O pó, coado pelas fronças das giestas amainava. Os homens limpavam o suor às fraldas das camisas surradas e as mãos às calças remendadas de serrubeco, as mulheres aos aventais de chita. Estendia-se um molho de palha à sombra de umas carvalhas e sobre ela amareladas toalhas de estopa. Os trabalhadores sentavam-se à roda, cada um armado de garfo de ferro e de um carolo de pão. Da giga saiam pratos fundos de barro preto de Nantes repletos de cordeiro guisado que eram colocados sobre a toalha de onde a onde. Logo se infestavam de graúdos saltões cinzentos da poula vizinha que se espanavam com uma fronça de giesta. Um caçoulo de batatas cozidas e o pipo a correr prestes de boca em boca, sem excluir a dos catraios, bem entendido. Era bota e bira, todos do mesmo prato e até lhe chegar com um dedo! À lauta refeição de guisado de cordeiro do peleiro de Adães, seguia-se uma retemperadora sesta, para retempero do fôlego necessário até ao pôr-do-sol.

 

Retomemos o fio à meada.

 

Preparavam-se então para o tão merecido descanso, quando o sino da capela saltou a repicar desalmadamente.

 

– Ele que será? – questionavam-se sobressaltados.

 

Não foi preciso perscrutar muito para perceber que das bandas do Cabeço se levantavam rolos de fumo em golfadas de vulcão.

 

– É um incêndio em Fornelos malta. Vamos acudir.

 

Uns descalços, outros em carpins e outros encabados em socos serrados, pequenos e graúdos, precipitaram-se em solidariedade para a povoação vizinha. Cada um muniu-se, à passagem pelo povo, do que pôde para valer ao inferno do incêndio. Confrontavam-se com um dos maiores incêndios de que há memória. Ardiam os palheiros e os armazéns da família dos Morgados.

 

Parecia o dia do juízo final!

 

As aldeias ao redor despejaram-se para lá. A fonte mais próxima ficava em Medeiros, a mais de meio quilómetro da aldeia. As mulheres fizeram um cordão humano para que os cântaros da água chegassem mais depressa e com o menor esforço, os homens enchiam-nos e despejavam-nos sobre as chamas. Uns gritavam, outros corriam, outros choravam outros lamentavam-se e outros limitavam-se a observar impotentes. Fosse lá como fosse, aquele incêndio chegava a todos. Os mais pobres teriam certamente um inverno mais negro com a falta da mão solidária dos Morgados.

 

Uma autêntica desgraça! Uma catástrofe que bota abaixo qualquer casa por mais lavoura que tenha!

 

Quando pela noite se fazia o rescaldo restavam apenas as paredes de perpianho calcinadas pelo braseiro.

 

Havia que reconstruir.

 

Foi chamado o Antóino Farruco, o carpinteiro do Carregal, para chefiar as obras que respeitassem à madeira. O Ti Antóino, como era conhecido, era um homem honrado e trabalhador, carregado de filhos tinha a família dos Morgado em grande consideração. No casal trabalhavam filhas e mulher quando preciso fosse. Para si haveria certamente de ter ali para mais de um ano.

 

Para além do profissionalismo que todos lhe reconheciam, o Antóino tinha outra grande virtude: enquanto trabalhava, emplouricado nos caibros e nas traves, cantava como um rouxinol as cantigas da moda do seu tempo. Amigo da pândega, o Farruco não perdia uma festa pelo verão e entre um copo e outro, lá botava uma cantiguita se lhe pagassem o vinho, o que sempre acontecia para o ouvirem. Cantava como canta a cotovia na primavera, planando sobre os giestais. Um encanto de afinação e de oportunidade.

 

E assim levava a vida honradamente entre a enxó, os pregos de meia-galeota e a clave de sol de que nunca ouvira falar!

 

No fim da jorna quando descia o Cabeço desde Fornelos, todo o Carregal sabia que o Ti Antóino regressava ao ninho. Ainda não tinha atravessado o regado do Belão e já se ouvia:

 

Ai ai ai que se arromba o pipo

Ai ai ai que se verte o vinho (bis)

As meninas do Carregal

Andam todas de lencinho

 

Oh zé, oh zé, oh zé,

A dança não é assim

Oh Manel vira-te pró lado

Delaidinha vira-te p’ra mim

 

Sou carpinteiro afamado

Trabalho com alegria

Venho agora de Fornelos

Onde fui ganhar o dia

 

(…)

 

Lembro-me mal da família do Ti António Farruco, contudo, ainda que entre penachos de memória, recordo que a sua mulher a Sra Adelaide, tinha por mim uma grande estima e sempre dois figos secos e uma chouriça do lareiro para me dar quando lhe cantasse os Reis à porta. Fi-lo algumas vezes com a neve pelo joelho e uma lua cheia de prata iluminando a ilusão de um mundo outro!

 

Tempos antigos que a letra das memórias vai eternizando.

 

Gil Santos

publicado por Fer.Ribeiro às 03:20
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Sexta-feira, 14 de Setembro de 2012

Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos

 

Coisas da Grande Guerra

 

A Primeira Grande Guerra entre 1914 e 1918, uma guerra de posições, desenrolou-se sobretudo em solo francês com o estabelecimento da Linha Maginot. Confrontava-se o império Alemão (apoiado pelo império Austro-Húngaro, a Turquia e a Bulgária, formando o Bloco Central) e o resto do mundo. Muitos países mantiveram a neutralidade como foi o caso de Portugal numa fase inicial. Contudo, por força de diversos e complexos factores e contrariamente ao que aconteceu na segunda Guerra Mundial entre 1939 e 1945, Portugal participou na Grande Guerra diretamente, sobretudo para manutenção do seu império colonial, com o envio, só para a Flandres, a partir de Janeiro de 1917, de mais de 56 mil homens.


A declaração de guerra a Portugal teve origem no facto da Inglaterra, nossa histórica aliada, ter pedido, a 9 de Fevereiro de 1916, que aprisionássemos os navios alemães que se encontravam fundeados em portos nacionais[1]. Afonso Costa anuiu ao pedido inglês, aprisionou os navios e forçou a Inglaterra a invocar a aliança e a aceitar a intervenção de Portugal na guerra. A 9 de Março, o ministro alemão Friedrich Von Rosen, entregou no Ministério dos Negócios Estrangeiros a Augusto Soares a Declaração de Guerra contra a nação lusa. Portugal estava formalmente envolvido no conflito, à revelia da vontade inglesa, pouco disposta a conceder-nos um lugar na frente. O exército, apanhado desprevenido, reagiu mal. De imediato se iniciaram os preparativos militares, uma vez que os acontecimentos tinham posto termo às negociações diplomáticas.


Deu-se início o processo de mobilização. Decidiu-se utilizar o Polígono de Tancos para a instrução das tropas. Formou-se, com o apoio financeiro britânico, o Corpo Expedicionário Português – cep, dedicando quase todo o ano de 1916 à sua preparação intensiva. Segundo o plano aprovado pelo Estado Maior, o cep deveria constituir um Corpo de Exército com comando próprio num total de 55 000 efectivos.




O comando de uma primeira divisão de instrução reforçada, com um total de 20000 homens, foi entregue ao general Fernando Tamagnini de Abreu e Silva. Apesar da falta de meios, da inexperiência em contexto de guerra de trincheiras e do pouco tempo disponível para a instrução, conseguiu a preparação básica para a guerra que havia de se completar na Flandres. Este facto constituiu aquilo a que os republicanos guerristas chamaram o milagre de Tancos.


Ao que particularmente nos interessa e que respeita ao Regimento de Infantaria 19 de Chaves, a participação não se encontra autonomizada uma vez que não foi unidade mobilizadora enquanto tal, antes integrou os seus de militares noutros Regimentos, como nos diz Montalvão Machado:


“Nenhum dos Regimentos de Chaves [cavalaria e infantaria] tomou parte directamente em qualquer das campanhas da primeira Grande Guerra Europeia. Porém os seus soldados e oficiais nela intervieram largamente integrando outros batalhões de outros regimentos, e sempre de forma a deixar memorável a sua presença nas diversas frentes da batalha”[2]

 

No entanto e apesar disso, a mobilização das forças deste Regimento, sediado nas atuais instalações do Museu Flaviense, deu-se em quatro momentos:


O primeiro constou da mobilização para Moçâmedes, no sul de Angola, em inícios de Janeiro de 1915. A 17 de Janeiro as praças foram sorteadas, a 24 regressaram do período de gozo de licença, a 28 seguiram para Lisboa, a 31 embarcaram para África e a 31 de Março de 1916 regressaram a Chaves com apenas três baixas.


Muito interessante é o facto de podermos ver em filme o desfile destas tropas sobre a ponte de Trajano em https://sites.google.com/site/zerbadas/de-chaves-a-copenhaga---a-saga-de-um-combatente/portugueses-na-trincheiras




O segundo momento resultou da mobilização do 1º Batalhão para a Flandres que largou de Chaves às 24 horas do dia 21 de Maio de 1917, integrando alguns oficiais e praças regressados da campanha de África no ano anterior. Constituiu o 2º Depósito de Infantaria do cep. Vejamos a Ordem de Serviço nº 139 que no dia anterior mandou publicar o comandante desta unidade, o devoto republicano coronel Augusto César Ribeiro de Carvalho:


regimento de infantaria nº 19

Chaves 20-Maio-1917

Ordem de Serviço nº 130


“Devendo marchar para Vidago amanhã à meia noite o 1º Batalhão dêste regimento, afim de seguir ao seu destino, constituindo o 2º Depósito de Infantaria do cep determino que se observe o seguinte:


a) Amanhã ao toque do recolher as praças comparecerão com o uniforme de campanha (dolman e calção de lã, grevas e 1º barrête) e a essa hora terão já o capote colocado na mochila e dentro desta e no saco, todos os artigos de fardamento que lhes estão distribuídos.


b) Em seguida à chamada, as praças receberão a ração fria, a ração de reserva e o vinho, devendo a distribuição ser feita por secções, afim de se efectuar com a maior rapidês, procedendo-se em seguida á distribuição do café.


c) Às 22h 3om as praças estarão em forma completamente equipadas e conduzindo cada qual o seu saco para fardamento e em seguida conduzidas á parada do quartel, onde o Batalhão se achará formado ás 23 horas.


d) É absolutamente proibida a entrada no quartel, desde o toque do recolher, a indivíduos da classe civil.


e) Comparecerão no quartel ás 23 horas todos os oficiais e sargentos do regimento que não mobilizaram. Comparecerá também a Banda de Música com o uniforme nº 5, afim de acompanhar o Batalhão até fora da vila.


f) Amanha à hora da parada da guarda serão rendidos todos os cabos e soldados mobilizados que estiverem de serviço nas companhias, por praças não mobilizadas, os quais tomarão conta dos artigos em carga nos diferentes alojamentos e pela sua existência ficarão responsáveis.


Os senhores comandantes das companhias mobilizadas mandarão hoje para a secretaria nota do número de praças não mobilizadas de que necessitam para os diferentes serviços.


g) Antes da marcha os senhores comandantes das companhias entregarão relações das praças que faltarem à chamada”[3]

 


Este Batalhão, tal como estava determinado, seguiu de comboio até Lisboa onde embarcou para Brest. O comando desta força estava entregue a um major que era acompanhado por quatro capitães, entre eles o médico Adelino Augusto Fernandes (pai do já falecido Dr. Augusto Fernandes da Casa de Saúde de Santo Amaro), sete tenentes, trinta e um alferes, um sargento ajudante, quatro primeiros sargentos e quarenta e sete segundos sargentos. Desconhecemos o número de cabos e praças. De Brest seguiram para Etaples de comboio onde receberam a instrução em falta para a entrada no front. Quase todo o efetivo foi distribuído por outros batalhões na hora do combate. O Batalhão nº 15 de Tomar teve no entanto, o bom senso de reunir os adidos do 19 num único pelotão. Aí se destacou o célebre soldado Milhões[4].


O terceiro momento prende-se com a segunda mobilização para a Flandres. Esta incorporou o nosso combatente António Pereira dos Santos (meu avô e cuja saga se conta no livro De Chaves a Copenhaga a saga de um combatente) e era constituída provavelmente por apenas dois pelotões[5]. A 29 de Agosto de 1917, os militares foram sorteados e avisados da partida. No dia seguinte, a pé, seguiram para Mirandela, onde apanharam o comboio para Bragança a fim de mobilizar com o Batalhão de Infantaria nº 30 daquela cidade. Aí chegaram a 1 de Setembro, pela uma hora da madrugada. De acordo com os dados constantes da Folha de Matrícula de António, gentilmente cedida pelos serviços do Arquivo Geral do Exército, no dia 1 de Setembro de 1917 “passou ao Regimento de Infantaria nº 30 - Bragança - por ordem do Comando da 6ª Divisão do Exército - Vila Real - fazendo parte do grupo de companhias deste Regimento destinadas a reforçar o CEP.” Foi integrado na Primeira Companhia do 1º Batalhão com o nº 814.


No dia 7, vestiram roupa de mobilizados e no dia seguinte seguiram para Lisboa. No dia 10, pelas 11 horas, chegaram à capital. No dia 12, partiram num vapor inglês para Brest, na Bretanha francesa, onde chegaram a 15. Daí até Ambleteuse, já na Flandres, demoraram três dias de comboio. Aí ficaram até 20 de Novembro em instrução. Nessa data, seguiram para o front e foram adidos a outros batalhões na zona de Neuve-Chapelle.


De acordo com os dados da Folha do CEP, no dia 23 de Novembro, António foi transferido para a 4ª Brigada – Brigada do Minho – onde foi incorporado na 4ª Companhia do 1º Batalhão do Regimento de Infantaria nº 3 de Viana do Castelo, com o nº 584.


Folha do CEP de António Pereira dos Santos

 



Os militares, dispersos por unidades desconhecidas, começaram logo a sofrer, ainda sem tiros nem bombas, as agruras da guerra. O nosso combatente, com muita mágoa, foi parar sozinho a esta célebre Brigada do Minho.


Quantas vezes êsses malfadados combatentes se lamentavam por não verem a seu lado um único graduado ou simples soldado da sua unidade, e, para não lhes faltar a coragem devida naquelas horas nostálgicas, ou talvez para recordar a bravura do seu regimento nas campanhas anteriores, os intrépidos militares do 19, cantavam por vezes, mesmo em plena 1ª linha, este hino que Gastão Souza Dias escreveu com purêza de mestre e êles aprenderam na parada do quartel logo nos primeiros dias de instrução e depois entoavam com veemência nas marchas dos exercícios finais:


Regimento de tanta firmêza,

De tão nobre e leal patriotismo,

Onde é culto esta doce nobrêza

De morrer numa acção de heroismo,

Não existe, não há certamente!

Que seus feitos e altas façanhas

Só são próprias da raça valente

Que nasceu para cá das montanhas.

 

CORO

Dezenove é o seu nome de glórias,

O mais belo da nobre infantaria!

Aumentemos com brava galhardia

Seu legado de tão grandes vitórias!

 

Nós fizemos o Oito de Julho

E mostramos o nosso valôr

Esmagando a traição e orgulho

Dos que á Pátria votavam rancor!

E se alguem preguntar a maneira

Como foi nossa fé triunfante,

Apontemos da nossa bandeira

Suas letras em ouro brilhante![6]

 

O quarto e último momento refere-se ao facto de terem embarcado em Lisboa, em princípios de 1918, com destino ao norte de Moçambique, 1 tenente, 7 alferes, 4 segundos sargentos e 7 cabos. Desconhece-se o número de praças e a data do respectivo regresso.


Não conseguimos afirmar aqui objectivamente que o RI19 se notabilizou enquanto tal. Porém, reconhecemos razão a Palmeira quando afirma:


“Pondo de parte o incomensurável e duplo sacrifício destes modestos defensores do Direito e da Justiça, dignos da mais sincera admiração, alguns bibliógrafos da guerra, ousam afirmar que as glórias praticadas por oficiais e praças dos Depósitos de Infantaria pertencem às unidades onde os mesmos as praticaram. Será assim? A minha opinião é absolutamente contrária, e, sem receio de errar, direi que essas glória pertencem individualmente aos militares que as praticam, e no seu conjunto, são exclusivas das unidades a cujos quadros pertenciam os mesmos militares, não sendo lógico cercear esse direito aos Depósitos de Infantaria, visto que todos os seus oficiais e praças eram apenas considerados em deligência nas unidades em que se iam encorporar na frente”.[7]

 

Em termos globais, as baixas do RI19 cifraram-se em 33 mortos na campanha de Angola e 48 na da Flandres. À sua memória encontramos testemunho nas paredes da Torre de Menagem, precisamente na muralha fronteira à antiga parada do 19, onde juraram fidelidade à pátria estes heróis esquecidos!

A propósito da saga destes combatentes, não queríamos deixar de aqui relatar um episódio curioso contado pelo combatente António e que curiosamente envolve uma notável figura flaviense o Capitão médico Adelino Augusto Fernandes. Assim contava:


“Era a madrugada do dia 11 de Março de 1918. A noite tinha sido de bombardeamento vivo. A primeira linha em Fauquissart estava arrasada. Os mortos eram às dezenas, os feridos gritavam por socorro e os maqueiros não chegavam para todos os que padeciam. Eu estava na linha B, perto do abrigo do comando, onde entretanto tinha chegado o capitão médico Adelino Augusto Fernandes, nascido em Chaves em 21 de Abril de 1876 e que foi mobilizado para a guerra já com 41 anos de idade. Era um nome muito conceituado na cidade de Trajano, como homem e como médico. O capitão deslocou-se da retaguarda por reconhecer que os maqueiros não dariam vazão a tanto sofrimento. Porém, com a pressa de socorrer os infelizes, vinha desprevenido. As botas estavam em mísero estado e o capote tinha ficado no abrigo da retaguarda. Quando eu soube que o capitão Fernandes estava ali para ajudar os camaradas feridos na linha A, fui ter com ele e ofereci-lhe as minhas botas e o meu capote para que ele pudesse deslocar-se em melhores condições. O reconhecimento pelo seu gesto foi tal que no regresso para além de muito agradecimento, o médico tomou nota de todos os meus dados pessoais. Até ao fim da guerra nunca mais tive contacto com o capitão Fernandes. Quando regressei do cativeiro na Alemanha e cheguei à Amoinha, minha terra natal, tinha lá um recado para que quando fosse a Chaves visitasse o então major médico na sua Casa de Saúde em Santo Amaro. Assim fiz. O major mandou chamar o filho Augusto, também ele médico, e depois de lhe contar o sucedido, recomendou-lhe que doravante deveria considerar o senhor Antoninho Moreiras como um grande amigo da família.


O Dr. Fernandes faleceu em 28 de Maio de 1943, com apenas 67 anos, passou o seu filho Augusto a ser o médico da família sem que alguma vez tivesse cobrado um único tostão que fosse, pelos serviços de saúde prestados.”


Abençoada seja a família Fernandes e todos os demais heróis combatentes da Grande Guerra, especialmente os da nossa vetusta terra flaviense.



[1][1] No porto de Lisboa estavam aportados 36 navios alemães e em Setúbal, Porto e Açores 34.

[2]Cf. Júlio M., Machado, Crónica da Vila Velha de Chaves, Chaves, Câmara Municipal de Chaves, 1994, p. 325.

[3]Cf. Carlos Palmeira, A Acção de Infantaria 19 na Grande Guerra, Chaves, Tipografia Mesquita, 1935, pp. 49-50.

[4]Soldado Aníbal Augusto Milhais, nascido em Valongo, Murça, em 9 de Junho de 1895. Em 9 de Abril em Huit Maisons, protegeu heroicamente com a sua metralhadora a retirada de inúmeros patrícios. Foi condecorado com a Ordem Militar da Torre Espada, a Cruz de Guerra de 1ª Classe e a Cruz do Rei Leopoldo da Bélgica, Faleceu em 4 de Junho de 1970.

[5]Dizemos isto com a convicção de que se esta força era comandada por dois aspirantes (Antero Alves e Augusto Dias) tratar-se-ia provavelmente de apenas 2 pelotões cada um comandado por um desses oficiais. Cf. Carlos Palmeira, Ob. Cit., p. 79.

[6]Cf. Carlos Palmeira, A Acção de Infantaria 19 na Grande Guerra, Chaves, Tipografia Mesquita, 1935, pp. 57-58.

[7]Cf. Carlos Palmeira, Ob. Cit., p. 58.

publicado por Fer.Ribeiro às 00:41
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Sexta-feira, 10 de Agosto de 2012

Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos

 

A CARTEIRA

 

Era sexta-feira à tarde. Corria o mês de junho, tempo quente e seco como as palheiras de centeio prontas para a ceifa. Apesar disso, os rios truteiros do Planalto apresentavam um caudal anormalmente volumoso. As águas límpidas e oxigenadas, cantarolando por entre as penedias fizeram um bom ano de trutas. Eu malhava nelas como em centeio verde. Pescava quase sempre sozinho batendo a amostra pelos mais recônditos lugares.


Há anos que o meu amigo presidente mostrava curiosidade por esta arte. Andava mortinho para me acompanhar numa dessas pescarias. Queria afinal observar como viviam e como eram pescadas as trutas pintalgadas de laranja que às vezes lhe oferecia.


─ Vais para o rio amanhã?


─ Vou. Queres ir comigo?


─ Olha que até vou!


─ Bem, então estás pronto lá para as seis da manhã, que eu passo por tua casa. E não te preocupes com a merenda que eu a arranjarei. Já agora, leva roupa adequada. Botas, levo-tas eu. Tenho umas velhas que já não uso e que para uma vez ainda servem.


Havia de ser escolhido o rio Beça, lá para os lados de Secerigo, num dos mais violentos troços do seu percurso de montanha. O presidente, cada vez que eu lhe falava nas dificuldades deste desporto troçava comparando-as com as da caça. Andava mesmo precisado de uma lição!


Chegados ao rio, equipámo-nos devidamente: colete, galochas altas, cana, cacifo e respetiva merenda. Começaríamos a bater ao para cima. Antes porém, experimentado, lembrei-lhe que não deveria ir de manga curta por causa das silvas e dos galhos secos. Ele insistiu em manter as mangas arregaçadas e assim entrámos no rio


A truta, naquele dia, atirava-se de qualquer maneira. Contudo, pegava mal. Com a água límpida, o presidente deliciava-se a observar o comportamento voraz dos peixes. O percurso era crescentemente difícil, mas compensado por uma paisagem selvagem, deslumbrante e pura!


O presidente, biólogo de formação, aproveitava também para observar os excrementos enigmáticos sobre os penedos do leito.


─ São de mamífero, tenho a certeza! Mas de que bicho poderiam ser?


Para lhe demonstrar a dificuldade da pesca à amostra, convidei-o a experimentar um lançamento. Pois isso! A amostra quase não saiu dos seus pés.


─ Muitos anos de treino, meu amigo!..


De máquina fotográfica na mão, ia batendo umas fotografias para a posteridade.


Rio acima, entre o entusiasmo das trutas que pegavam, das que fugiam e das que entravam no cacifo, lá íamos vencendo as dificuldades. Os penedos escorregadios, a travessia frequente do rio, as ladeiras íngremes, os poços fundos, as silvas, os tojos, os fetos e a erva alta constituíam obstáculos de respeito que moíam o corpo e a paciência.


Após sete horas de pescaria, uns bons sete quilómetros de rio, dezassete trutas no bornal e outras tantas fugidas, resolvemos parar. Não havia mais pernas e o presidente estava arrasado. Era hora do regresso. Esperava-nos outro tanto caminho de regresso. Embora fosse quase sempre a descer, o percurso era paradoxalmente ainda mais difícil, porque as pernas já respondiam mal ao esforço.


As botas que lhe havia emprestado eram apertadas. Foi um martírio descer até ao carro, com a unha do dedo grande do pé a ficar cada vez mais negra. Após hora e meia de árduo caminho, esperava-nos no carro o reconforto de quatro cervejolas geladinhas e uma merenda de seco.


Partimos em direção a casa, mais mortos do que vivos, seriam umas seis da tarde.


A meio caminho o presidente apalpou, desesperado, os bolsos do seu colete.


─ O que te aconteceu?


─ Perdi a carteira!... E tinha lá os documentos do carro, os pessoais, cartões de crédito e de débito, para além de cerca de duzentos e vinte euros!...


─ Olha que porra! Então andas com essa documentação toda e esse dinheiro na carteira para quê? E ainda por cima metes-te no rio com a carteira!... Que pacóvio me sais-te!..


─ Sabes onde deve estar? Naquele tanque onde estivemos a beber água. É que eu debrucei-me para molhar a cabeça e a carteira deve ter caído na lagareta.


E lá fomos ao lugar alcandorado sobre o rio nos confins do mundo.


Procurámos, procurámos e nada. O presidente teria que se conformar, uma vez que a estar no rio era impossível encontrá-la não só porque o percurso era longuíssimo como também pleno de dificuldades. Nem sequer valia a pena tentar procurá-la por lá pois era como encontrar uma agulha num palheiro. Além disso, aproximava-se a noite, apesar de se tratar de um dos dias mais longos do ano.


Regressámos. Porém, pelo caminho, consegui convencê-lo a regressarmos no dia seguinte, não estivesse a carteira no sítio onde acabámos a pesca. Aí, havia tirado o colete para se refrescar, colocando-o sobre umas pedras. Poderia muito bem a carteira ter escorregado do bolso!


Domingo, depois de almoço, lá fomos. Mais uns quilómetros nas pernas, mas carteira de grilo!


Pronto, já não havia qualquer esperança!


Apesar de tudo, a presidenta, mulher do dito, encomendou (pelo telefone) um responso à senhora Maria Rabota, a feiticeira da sua aldeia perto da Torre de Dona Chama. A mulher fez a reza e não se tendo enganado garantiu que a carteira acabaria por aparecer. Bem te vai!...


Segunda-feira de manhã o presidente deu início à saga da renovação dos documentos. Uma fortuna e um tempão!


Eu não me conformava!


Na tarde desse mesmo dia, desafiei-o para lá tornarmos. Procuraríamos no rio. Pelo menos descarregávamos a consciência!


Que não, que não fosse maluco! Que era impossível topá-la. Que se conformava.


─ Bem, meu amigo, não queres ir, pois vou eu sozinho.


─ Não sejas tolo, deixa lá a carteira! Antes isso que uma perna partida. Que se lixe!


─ Pois eu vou lá e se o milagre acontecer vais ter que pagar uma mariscada!


─ Não seja por isso!


Cinco da matina, arranquei.


A manhã estava cinzenta, chuviscava. Porém, à medida que ia subindo a serra, o tempo piorava. No rio estava um temporal medonho. Chuva, vento e solidão. Metia medo!


Devidamente equipado e de varapau na mão, comecei a bater rio, pouco passaria das seis e meia. As dificuldades começaram logo uma vez que não sabia exatamente por onde o presidente teria passado. Como haveria de encontrar a carteira?


Só mesmo para malucos, de facto!


Seriam umas sete horas e a esperança já se desvanecia. Todavia, para meu espanto, observava ao longe que qualquer coisa maior que uma truta buliçava na água dum poço do rio. Escondi-me atrás de um penedo observando. Duas lindíssimas lontras caçavam. Estava explicado o enigma dos excrementos do dia da pesca! Rapei da máquina fotográfica para registar esse momento único. Havia anos que pescava naquele rio e nunca tivera a oportunidade de ver tal coisa! O flash ligado, inadvertidamente, espantou os bichos que desapareceram como por magia. Para recordar ficou uma única fotografia.


A busca continuou já quase sem esperança. Era mais por um descargo de consciência. E ainda havia tanto rio para percorrer! A chuva já chegava aos ossos.


Naquele percurso o Beça, algures, tem um poço fundo ladeado por margens abruptas que obrigam a subir aos campos para seguir viagem. Para isso, é preciso vencer uns cinco metros de desnível. Saltar para as leiras por baixo dos arames de uma ramada, o que obrigava a gatinhar. Por ali tínhamos passado no dia da pescaria. O pior era saber precisamente por onde o teria feito o presidente já que havia umas quatro hipóteses de escalada. Tentaria a primeira. Subi. Quando me preparava para vencer os arames, dei de caras com a carteira pousada sobre a erva seca de uma saliência da escarpa.


Não queria acreditar!..


A estupefação foi tanta que nem coragem tive para lhe pegar de imediato. Incrédulo, caí instintivamente de joelhos, rezando!


A chuva caía copiosamente. Eu, de fato oleado e capuz, com as mãos postas, orava em voz alta. Se alguém me visse àquela hora e naquele sítio em tais propósitos haveria de pensar que seria uma alma penada de um outro mundo qualquer. Com razão! De facto não era para menos!


A carteira estava molhada. Mas estava lá tudinho: dinheiro e documentos. Que alegria! Não era só tê-la encontrado, mas também por não ter de fazer o que faltava do rio, de resto o mais difícil. Fotografei devidamente o local do crime, para mais tarde recordar.


Subi à aldeia para chegar ao carro e, encontrando uma velhota pelo caminho, contei-lhe a história. A senhora já sabia da perda. Aliás, a aldeia já sabia toda. Ficou também muito contente e com orgulho de eu ter encontrado a carteira naquilo que era seu.


─ Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo. Venha a minha casa matar o bicho, meu senhor!


─ Não, muito obrigada. Tenho pressa de levar a novidade ao dono.


Na viagem de regresso, pensei na estratégia da entrega!


A primeira coisa que fiz foi mandar uma mensagem sms para criar ambiente. Rezava: Chove muito. Impossível encontrar. Vou desistir. Enviei-a. Foi recebida! Chegado a casa, fui para o computador descarregar as fotografias daquele dia e mais as do dia da pescaria. Construiu duas pastas com elas. Uma com o antes e outra com o depois.


Fui ter com o presidente. Estava, como sempre, no seu local de trabalho. Encostei-me, com um ar de desgraçadinho, à porta do gabinete e disse:


─ Nada pá. Impossível dar com alguma coisa. Tive de desistir. A chuva e o vento não me deixavam ver nada. Olha, pelo menos tentei!


─ Eu não te disse? És burro! Para que é que lá foste? Bem sabias que era impossível dar com ela!


─ Pois! Se ainda, sequer ao menos, pudesse eliminar parte do percurso. Mas queres ver? Eu tenho aqui as fotografias de sábado? Sei mais ou menos onde foram tiradas e nalgumas apareces tu. Vamos ver se conseguimos detetar algum volume no bolso do colete.


Metemos a pen no computador. De facto havia duas fotos onde o presidente aparecia em grande plano. Mas o bolso da carteira estava, em ambas, completamente tapado. Nada!


Depois de alguma discussão, insisti para que abrisse a outra pasta. Queria que visse desfeito o enigma dos excrementos.


Ficou encantado com as lontras. Porém, havia mais dois ficheiros.


Abriu-os.


Não percebeu de repente do que é que se tratava.


Quando, por fim, percebeu, caiu-lhe a carteira, ainda húmida, em cima da secretária. Ficou atónito!


Levou algum tempo a recuperar da emoção. Mas era mesmo verdade. Era a carteira.


Milagre!!!...


Levantou-se e deu-me um abraço sentido!


─ É para veres! Quando eu falar, acredita naquilo que eu te disser. Desistir é morrer. Aprende!


Não sei se a reza da tia Maria ajudou. O que é certo é que com a reza e a minha insistência a carteira acabou por aparecer!


No domingo seguinte estava a família do presidente e a minha, a encher o papo de leitão assado, que é a lagosta de Trás-os-Montes!


Quem pagou, está claro, foi o presidente!

 

Gil Santos

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Sexta-feira, 6 de Julho de 2012

Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos

 

O CABUGUEIRO

 

O Cabugueiro, homem para meio século, morava no Carregal. Era maroto e temido por todos. Vivia à margem da aldeia, numa casa térrea de perpianho e fazia a sua lavoura unicamente com a ajuda da mulher Luísa. Seca, como um pau de virar tripas, era levada do diabo para trabalhar. Apesar disso, as dívidas acumulavam-se e o casal não saía da cepa torta. A colheita nunca chegava para pagar a sementeira. Recusou a França muitas vezes temendo deixar a mulher de poulo! Vivia mal a família do Cabugueiro! No tempo da caça, os seis filhos andavam mais nutridos, porque coelho ou perdiz que lhe atravessasse a mira da caçadeira morria. E, honra lhe seja feita, a criação comia como os progenitores. Era um homem simples e honesto que, apesar dos maus fígados, só se metia com quem o provocasse. Ai isso quem lhas fizesse pagava-as e com língua de palmo, isso era certinho!


O Amadeu, primogénito de uma ninhada de cinco, era filho do Ti Zé Porto fulminado a meia idade por uma tuberculose galopante. Este melro era falso, áspero, vingativo, cruelmente vingativo!... Fazia-as pela calada e com cobardia ferrava o mais incauto. Aparentemente dava-se bem com toda a gente, porém, a aldeia sabia que não era de fiar! Assemelhava-se a um cão que não conhece o dono.


Uma madrugada de um dia quente de junho, o Cabugueiro tornou a água do povo, como lhe cabia naquele dia, para o seu lameiro de pasto. A torna findava ao meio dia a favor do Amadeu. Porém, ainda não eram onze e já o farsola secara o rego ao Cabugueiro virando a água para o seu batatal. Este, que sachava o milho numa leira próxima, passou-se, quando se apercebeu do sucedido! Chamou o Amadeu à pedra do cimo de uma borda alta. O arrufo não passou, naquele dia, de algumas palavras mais azedas. Entre carvalhos e outros impropérios que tais, prometeram o acerto da fatura para mais tarde.


Passados dois ou três dias o Cabugueiro reparou que o Amadeu ao alvorecer se dirigiu para leira do Corgo, acompanhado pelo cão Tirone e de uma mula coxa que comprara a uns ciganos na feira dos Santos e que era objeto de gozo por todo o Carregal. O Cabugueiro ruminou a vingança para aquele dia e entre dentes resmungou para os seus botões:


— Vai ser hoje! No regresso passas em frente à minha casa e vais pagá-las!


Seria meio-dia quando a mula, o cão e o Amadeu regressavam da jorna. Descontraído, de sachola ao ombro, assobiava uma moda de cotovia enquanto os socos abertos, ferrados, marcavam o ritmo nas pedras soltas do caminho. Perto da cabana do Cabugueiro o Tirone bem o avisou mas ele não quis saber. Esperava-o uma caçadeira aperrada. O caminho não tinha volta!


Atão fidalgo foi com esse satcho que me roubastes a água outordia?


Enquanto o abordava, apontava-lhe o trabuco à laia de combatente da guerra dos catorze. O Amadeu, lívido por saber dos fígados do Cabugueiro, media mentalmente o tempo e os passos que o separavam do chumbo da espingarda. As suas mãos calejadas seguravam, como pinças de aço, o rabo da enxada. Os músculos, contraídos pelo medo e pela raiva, preparavam-se para arremessar o sacholo, desviando o tiro e facilitando a fuga. A coisa estava feia e para ganhar algum tempo respondeu:


— Não tinha horas Cabugueiro, mas vira para lá essa merda senão ainda te parto os cornos!


Não deu tempo para mais nada, o indicador da mão direita premia o gatilho quase no limiar do fogo. O Amadeu, adivinhando-lhe o gesto, arrimou com a sachola acertando-lhe com o olho na cabeça, um pouco acima da fonte esquerda. O Cabugueiro caiu redondinho! — Morto, pensou o Amadeu!


De socos na mão e em carpins, saltou a fugir ele e o Tirone. A mula coxa ficou a pastar calmamente numa borda do caminho.


A senhora Luísa, gritando a bandeiras despregadas, mandou o Adérito, filho mais velho, chamar o senhor Fernando, meu falecido pai, que era proprietário do único automóvel das redondezas, para levar o infeliz ao hospital de Chaves. Nessa altura eu, pequenote, tive oportunidade de lhe ver os miolos. Impressionava!


O Cabugueiro foi operado de urgência. Ficou internado uns meses. Graças a Deus e à sua rija têmpera escapou. Da ferida ficou somente uma pronunciada concavidade no caco.


O Amadeu, nessa mesma noite, desapareceu como por mistério. Havia quem dissesse, à boca pequena, que andava fugido por terras de Angola.


Passaram-se alguns anos até que o paradeiro do freguês chegou aos ouvidos do Cabugueiro. Não perdeu tempo, montou na burra e foi dar parte ao posto da guarda de Vidago, mandando prendê-lo. De facto foi apanhado e condenado pelo juiz da cidade de Trajano a cinco anos de prisão que cumpriu integralmente.


O Amadeu, um pouco mais novo que o Cabugueiro, ainda é vivo, e desde aí não consta que se voltassem a desentender!

 

Gil Santos

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Sexta-feira, 18 de Maio de 2012

Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos

 

NEVES O PASSADOR

 

Estava um fim de tarde gelado de um qualquer dia de Janeiro. O céu plúmbeo fazia adivinhar grande nevão. A noite caía célere, era preciso ir cá botar o gado que pastava no lameiro do Belão. O criado encarregava-se disso. O Ti Moreiras enchia o eido de lenha de carvalho. Os potes fervilhavam ao lume na promessa de que o cozido de palheiro afagasse o corpo e a alma.


Tudo, enfim, decorria na santa paz dos dias do Senhor.


Ceava-se já quando alguém bateu, com os punhos, na porta carral de zinco do pátio. Estava escuro como breu.


— Quem poderia ser àquela hora? — Pensava o Ti Moreiras.


O afitrião, envolvendo os pés nuns carpins de merino, aconchegava-os à beira do borralho, sobre umas placas de cortiça, por causa da cinza que o braseiro espargia. Calçou os socos abertos de pau de amieiro e apressou-se escaleiras abaixo para o pátio.


— Quem bate à porta? — Perguntou com voz de sarronco!


— É o Neves, Ti Moreiras. Abra!


O Neves era um moço dos seus trinta anos, filho de um grande amigo de Carrazedo, e que andava permanentemente fugido à pide. Havia alturas em que não aquecia lugar algum. Era passador. Angariava homens lá para a Terra Quente que passava a salto para a França por Vila Verde da Raia e a quem cobrava boa maquia. O Neves tinha a teia bem montada, fazia-os chegar à fronteira, onde, a coberto da noite passavam a salto pelo ribeiro. De seguida, em Feces de Abaixo, entregava-os a um galego que os fazia chegar aos Pirinéus. Tratava-se de um homem sério, ao contrário de alguns seus companheiros de profissão que eram uns salafrários. Uma das formas mais usuais de enganarem os desgraçados emigrantes e que o retrato rasgado veio resolver, consistia mais ou menos no seguinte: os homens vindos dos lados de Mirandela, chegavam ao Planalto estafados das longas horas que, propositadamente, sofriam em cima de apinhadas camionetas de carga que percorriam lenta e penosamente as estradas esburacadas de terra batida. Na borda do Brunheiro, à vista da iluminação da cidade de Chaves, fica uma povoação chamada France. Chegados aí, com a placa da aldeia à vista, mandavam-nos apear. Que haviam chegado a França, que lessem na placa, que lá em baixo era já a cidade de Paris, que dali para a frente teriam de seguir a pé por causa da polícia! Só na manhã seguinte se apercebiam da marosca. Sem dinheiro e sem transporte, muitos deles suicidavam-se, por mor da dívida contraída para emigrarem e que agora não viam jeitos de poder pagar. Outros faziam-se à vida como podiam, angustiados.


Continuando.


Ao entrar no pátio o Neves tiritava, não sei se do frio se do medo!


— Ó Ti Moreiras, vossemecê tem de me safar. A pide anda atrás de mim!


— Sou muito amigo do teu pai, mas sabes que não quero problemas com a polícia. Ficas cá esta noite mas amanhã cedo pões-te a milhas! Sobe. Vem sentar-te e comer qualquera coisa.


Ainda mal se tinham alapado e já voltavam a bater à porta, agora com mais ferocidade.


— São os filhos da puta! — Disse o Neves assustado.


— Não há que saber, ó Carolina, leva o rapaz para a adega e mete-o no tonel grande que está vazio. Eu demoro a abrir.


Chegados à adega, retiraram a portinhola da vasilha e o Neves meteu a cabeça e passou-se para dentro do tonel. O dito cujo havia sido lavado há pouco tempo, no entanto o sarro ainda libertava vapores abafadiços. O Neves, depois de dominar a custo a claustrofobia, encostou os queixos ao bueiro da rolha para respirar ar fresco.


— Quem bate? — Perguntou o Ti Moreiras, com uma voz segura.


— Polícia, abra!


Abriu.


Assomaram à soleira dois pimpões que, mesmo à paisana, não enganavam ninguém. Eram mesmo da secreta.


— Boas noites, meus senhores! A que devo a honra da vossa visita a estas horas da noite? — Perguntou o dono da casa num tom irónico de disfarce. É que o Ti Moreiras foi calejado pela Grande Guerra e só temia a Deus.


— Temos a informação de que vossemecê alberga um criminoso em sua casa. Queremos passar uma busca.

Claro que o Ti Moreiras nem ousou perguntar pelo respectivo mandato. Pudera!...


— Albergo, sim senhor! Eu próprio! Sou criminoso de guerra por ter passado alguns boches à baioneta lá por terras de França! Mas façam favor de entrar e estar à vontade. A casa é vossa!...

Entraram.


Viraram tudo do avesso. Nada.


Contudo, quando revistaram a adega, temeu-se o pior. É que quase dava para ouvir a respiração ofegante do desgraçado do Neves. Porém, o Ti Moreiras não perdeu o sangue frio – olha quem! – Disparou em tom de gozo:


— Vai um copinho meus senhores? Tenho neste tonel uma pinga de arrebimb’ó malho!


— Não senhor, obrigado. Não bebemos em serviço.


Foi a sorte do Neves e provavelmente a do Ti Moreiras!...


Os polícias saíram a espumar de raiva. Pareciam cães com o rabo entre as pernas! Descorçoados!


No dia seguinte, manhã cedo, o Neves foi despachado, já devidamente pensado e recuperado do cagaço da noite anterior.

 

Gil Santos

publicado por Fer.Ribeiro às 18:21
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Sexta-feira, 30 de Março de 2012

Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos

 

O CÃO FOI AMIGO

 

Seria final da Primavera. As cerdeiras no Carregal, porque se trata de terra fria, cobriam-se de frutos luzentes apenas lá para meados de junho. Mas as cerejas, vermelhinhas, tinham dono e a rapaziada não se arriscava muito com medo ao rabo da sachola. É que os donos em sentindo-os por perto dos pomares não se ensaiavam nada em lhe aquecer o motor! Então, à falta de melhor, os rapazes, no pouco tempo livre que o trabalho da terra lhes legava, jogavam ao fite, aos cowboys ou as escondidas nas poulas circunvizinhas.


Eram eles:


O Russo, levado do diabo. Fazia jus ao velho adágio do russo de mau pelo! Fosse qual fosse a brincadeira aprazada ganhava quase sempre!


O Nano, a versão no Carregal do Constantino, de Alves Redol.


O Adérito, filho mais novo do Francisco Milheiro, rapaz pacato e com miolo.


O Mouco, surdo como uma porta mas fino como azougue. Lia ele mais depressa os gestos do que os escorreitos entendiam as palavras.


O Sacholas, assim chamado por ter dois incisivos proeminentes que lhe davam um ar de coelho bravo. Era traçado de rafeiro e mordia sem ladrar.


Com eles nas brincadeiras, andava quase sempre o Círio, o cão do Mouco, um podengo reguila bom para o coelho. Aproveitava para latir sobre o rasto dos láparos que por ali abundavam. No bulício do pega e foge, o Círio abocanhava um coelhito de vez em quando.


Num dia qualquer daquela Primavera e enquanto a rapaziada brincava às escondidas no giestal das Padanas, o cão caiu em cima do rasto de um coelho bravio e não mais descansou enquanto não lhe deu com o eido. Descoberto, o coelhito não teve alternativa senão dar às de vila diogo para ver se se safava. Acossado pelo cachorro, tonto e assustado, enquanto fugia marrou com tal força nas canelas do Nano que caiu redondo a seus pés. Quando o Círio chegou, já o infeliz esperneava com duas espanadelas pelas orelhas. Os rapazes nem queriam acreditar!


O que é que se havia de fazer ao achado?


— Vendia-se!


Assim ficou combinado.


O jogo acabou e, seguidos pelo cão que dava ao rabo tanto como eles, foram pela aldeia oferecendo o bicho aos clientes. A melhor oferta foi da Ti Carolina, matriarca de uma das casas mais fortes do lugar. Sete e quinhentos foi o proveito. Uma fortuna para a época. Jamais tinham avezado tal fortuna!


Precipitaram-se de imediato para a mercearia/tasca do Antero e vai de torrar a massa em dezenas de rebuçados catita, chocolates favorita e galhetas espanholas, não sei de que marca, mas que na altura faziam as delícias da pequenada.


Dividido, equitativamente, o troféu por todos, foram deliciar-se para a manjedoura do Prado, uma grande laje de granito que, à sombra de dois venerandos negrilhos, servia para pensar o gado nas tórridas sestas do Verão.


Debulhando rebuçados, trincando chocolates e rilhando bolachas, os rapazes não repararam que à sua volta gravitava o Círio com olhares de uma tristeza infinita.


— Que grande porra, então o mérito tinha sido todinho meu e nem uma migalhita me calha!.. Esperem pela volta! A vingança serve-se, fria! Deixai-vos ir de novo para o giestal!... Pensava o bicho em cogitações de cão fiel.


Às tantas, sem que nada o fizesse prever, o Adérito, de papo já cheio, lembrou:


— Então e o Círio, coitado, não teve direito a nada, afinal não foi ele que descobriu o coelho?


— Pois foi, — reconheceram todos com grande pesar!


— E agora?


O Nano, puxando dos seus galões de finório e chefe da trupe, ditou a lei que lhe pareceu mais justa:


— Bem, como o cão foi amigo, compramos-lhe um trigo!..


Assim foi.


Parece que quem ficou menos satisfeito com esta solução foi mesmo o Círio, mas teve de aguentar.


Ninguém imagina quanto lhe custaria ter de engolir o pão seco. Ainda bem que era trigo!..


Vida de cão!...

 

Gil Santos


publicado por Fer.Ribeiro às 02:13
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Sexta-feira, 3 de Fevereiro de 2012

Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos

 

O ARNALDO E O VICENTE



O Vicente nasceu a ferros no hospital de Chaves. Andou para morrer, porque não conseguia respirar.


— Salve-se a mãe, disse o doutor Fernandes.


O Vicente, roxo, foi atirado para uma marquesa para morrer. Porém, era forte como um cabrito montês e resistiu. Arfando, como o fole da concertina do Malheiro, o seu peitito de recém-nascido foi alcançando ar devagarinho. Perdeu o arroxeado da pele e pôs-se fino mais cedo do que a própria mãe. Quando a enfermeira se preparava para o amortalhar, deu sinais de vida desatando num berreiro desalmado pela teta. Após a primeira mamada e embalado pelo carinho maternal, adormeceu na paz dos anjos. Cresceu tão robusto que a cada ano que passava parecia ter mais dois. Ainda rapazote e já apresentava um capado que envergonhava qualquer adulto. Servia até de exemplo quando as mães queriam convencer os filhos a comer o caldo:

 

— Come meu filho, para ficares forte como o Vicente!

 

O Arnaldo nasceu em casa. Era filho de uma cabaneira e nunca conheceu o pai. Foi parido e criado na mais triste pobreza. Passou tanta fome que, sem substrato para engrossar, cresceu fino como a vara da mimosa. Mas era cómico o Arnaldo. Aprendeu a rir da miséria da própria vida e da dos outros e tinha tiradas de mestre. Qualquer estória que se contasse na aldeia tinha o Arnaldo como ator principal. E, se algum dia o lugar tivesse interesse turístico, a figura do Arnaldo faria, de certezinha, parte dos seus postais ilustrados! Tal como acontecia com o Vicente, também por vezes as mães, na árdua tarefa de vencer o fastio das crias, recorriam ao exemplo do Arnaldo:


— Come, meu filho, para seres grande como o Arnaldo! Claro está que jamais corriam o risco de invocar os dois nomes ao mesmo tempo sob pena de os rebentos saírem umas abantesmas com a grossura do Vicente e a estatura do Arnaldo!


O Arnaldo vivia do expediente que a sua esperteza lhe proporcionava e do rendimento duma pequena horta legada por herança lá para os lados dos Cáximos. O Vicente, do que davam meia dúzia de leiras à volta do povo.

Contígua à horta do Arnaldo, tinha o Vicente uma vasta propriedade constituída por campo e bouça. Um primor cujo renovo, temporão, enchia de inveja os melhores lavradores. Havia aí um poço de rega que mesmo no pico do Verão tinha água farta. Num rincão dessa propriedade havia um imenso pinheiro inclinado sobre a horta do vizinho. Há muito que o Arnaldo olhava de esguelha para o dito cujo, por lhe ensombrar a hortaliça e não a deixar medrar como devia. Várias vezes pediu a Vicente que o cortasse, mas ele sempre fez ouvidos de marcador!

Um dia, o Arnaldo encheu-se. De manhã cedo, aproveitando o facto de o Vicente ter ido à missa de domingo, pegou num machado e decepou o pinheiro pelo trepo. Atrelando-o à mula, arrastou-o inteirinho para o eido.

Passado uns dias, em ronda ao que era seu, o Vicente deu conta do feito. Não precisou de levantar muita pedra para descobrir o autor. Abordou-o na tasca do Malgudo:


— Ó menino, quem é que cortou o pinheiro da minha bouça dos Cáximos?


A princípio o Arnaldo fez-se desentendido, mas, perante a persistência do inquiridor, lá reconheceu ter sido por causa da sombra lhe tolher a hortaliça.

Porém, tal foi a forma despreocupada e simpática como se desculpou que, perante o Vicente e as testemunhas, nem parecia crime de lesa-pátria!

 

— Pois meu amigo, tens três dias para colocar de novo o pinheiro em pé na minha propriedade!

 

O Arnaldo demorou dois a pensar a solução. Ao terceiro, atrelou outra vez a mula ao tronco e arrastou-o até aos Cáximos.

Pelo caminho ruminava:


— Ai tu queres o pinheiro de pé? Pois vais tê-lo!..


Espetou com ele no poço!

De facto a árvore ficou de pé como sempre esteve, mas agora com os ramos mais pertinho do chão.


O Vicente, perante manifestação de tanta inteligência, perdoou-lhe, limitando-se a contar a estória pelo lugar.

Era mais uma façanha pitoresca que fazia a história daquela aldeia.


publicado por Fer.Ribeiro às 00:55
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Sexta-feira, 30 de Dezembro de 2011

Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos

 

A Malia do Maloco

 

O inverno foi longo e duro. Acabaram as geadas e as carambinas. Foi-se com elas o nevoeiro teimoso, denso e gelado. Tão gelado que por vezes ameaçava tralhar-nos a própria medula! Pegou a chuva. Choveu copiosamente naquele início de Primavera. Os nimbos descarregaram águas mil, dias e dias a fio. Mesmo quando não chovia pegadinho, teimavam as zerbadas, persistentes e frias.

 

Rais parta a chuva, que até os cães bebem de pé! – Queixava-se o Vila Real da rua Direita, que com a humidade não conseguia puxar o lustro como mereciam o estatuto e as botas de meio cano do capitão Adelino Fernandes do dezanove, a que acabara de botar meias solas.

 

O Tâmega, com as bátegas, empertigava a olhos vistos.

 

– Está aqui, está a bober nas Caldas! – dizia o Porrório, aflito, com a ameaça de inundação da loje dos seus requinhos.

 

Contudo, aquela quinta-feira de 12 de Abril de 1935, nasceu excepcionalmente enxambrada. Por isso, os arames dos quintais, das sacadas e dos mirantes, enchiam-se de farrapos a enxugar. Roupa a que as braseiras já não davam vasão. Um dia bom, até para corar na erva do Tabolado.

 

– Toca a aploveital que é sol de pouca dula! Pensava em voz alta a Malia do Maloco. Por isso, manhã cedo, recolheu a roupa suja das clientes, no Postigo, na rua dos Gatos e na do Correio Velho e pela Canelha das Caldas, onde morava, dirigiu-se, de jiga à cabeça, para os lavadouros do Ribelas.

 

A Malia do Maloco, Maria Fabrícia por graça própria, era tida, diga-se injustamente, como calhorda desde que aportou à cidade. Falha da fala, dizia chamar-se Malia, do Maloco explicaremos mais tarde. Sem eira nem beira, na casa dos trinta, Maria Fabrícia veio espavorida de Vale do Galo, nas fraldas da Padrela, onde uma paixão, meio assolapada, lhe ia tirando o pio. Embeiçou-se, aos vinte e poucos, pelo Jacinto da Ambrósia, um homem casado da aldeia vizinha da Dorna. A paixão era de tal monta, que o desgraçado não dava conta do recado, nem em casa nem no ermo! Tanto assim que um dia, a legítima, cansada de tanta abstinência, fez-lhes uma espera na Lampaça. Sabia do dia e da hora, pela mania que o marido tinha de sonhar alto. Então, ajeitou uma vergasta de marmeleiro e na bouça onde os amantes tinham marcado o repasto, acertou quatro lostras no lombo de cada um, que estou certo os teriam deixado mais regalados do que o conforto da cama de fronças onde já não se puderam rebolar!

 

– O Jacinto que se deixe de lérias, há de jejuar muito para lá da Semana Santa e com uma carga de porrada por semana! – Prometia Ambrósia a si mesma.

 

– E a Maria que se pusesse a pau, pois doravante não teria sossego em rincão algum da serra da Padrela. – Insistia.

 

Maria não teve outro remédio senão amanhar a trouxa e fazer-se à estrada. É que a legítima tinha pelo na venta!..

 

Foi parar à cidade de Trajano, onde a mania de ter o que era de outras, poderia ser menos notada. Pousou num pardieiro na Canelha das Caldas, onde o Caninhas a acolheu por misericórdia. Quem sabe se até por outra razão qualquer!..

 

Para além do expediente normal das buscates mais recatadas e discretas, a Malia vivia dos serviços que fazia às senhoras que podiam pagar: lavava, passava, remendava e escarolía. E assim ia governando a vidinha.

 

Não demorou que se embeiçasse pelo Mário Campino, o lôco, como lhe chamavam, por insistirem que tinha os cinco mal aferidos. Sem razão! Campino era um homem valente, de trabalho que nunca conseguiu quem o quisesse. Não porque não fosse até marialva, mas porque veio já com alguma idade, lá onde o toiro se pega, sem nunca ter sido capaz de explicar porquê. Então, quem o conhecia fugia-lhe como o diabo foge da cruz, por temor natural do desconhecido. De facto ninguém sabia onde o homem pendurava o pote! Afora isso, era um bom serás, leal e amigo do seu amigo. Vivia, quase exclusivamente, da acarreta de cântaros de água das Caldas para a Pensão Jaime e para outras casas que lha encomendassem. O curioso é que tinha de mear a banheira de cada hóspede antes que ele recolhesse ao seu quarto. Claro que na hora do banho da manhã a água já estaria fria, então para que ficasse tépida e sem perder o potencial curativo dos minerais, antes que o hóspede acordasse, temperava-a, acrescentando água quente, que recolhia pela madrugada. Era um trabalho duro e apesar de uma ou outra gorjeta, mal dava para forrar diariamente a tripa com um caldito de farta-rapazes. Mas, apesar disso, o Mário até tinha o seu fatinho de ir à missa, oferecido pelo patrão bem entendido, mas que vestia aos domingos e o empertigava pela cidade.

 

O Mário, já tinha topado, ao passar pela Canelha com os cântaros ao samarro, que havia por ali gado novo. Faltava-lhe a coragem, a arte e o engenho para o tocar ao lameiro! Contudo, ao final da tarde de um santo dia, quando subia a calçada, arreado com um almude de água no lombo, micando a dama à soleira, fez-se de mula e simulando um tropeção, espolinhou-se com a vasilha pelo empedrado. Trilhou-se, mas conquistou a compaixão da rainha. Ela levantou-o, afagou-lhe os toutiços e esfregou-lhe as pisaduras com um cibo de vinagre. A coisa pegou! Não demorou uma semana que comesse o caldo de espigos no regaço da Malia. Partilhavam uma casa paupérrima, de uma só assoalhada, térrea, onde a um canto ardiam meia dúzia de guiços, aquecendo a água sem unto de um velho pote. A liteira, no outro canto do tugúrio, fazia lembrar o ninho dos recos. Junto à porta da rua uma mesa de pinho muito bichado, dois bancos do mesmo e um louceiro pendurado na pedra solta da parede com duas malgas e dois pratos encardidos. Era tudo o que tinham e que afinal nem lhes pertencia. A porta esburacada, fechava por fora com uma aldraba de madeira, tipo carvelha, que também servia de puxador, do lado de dentro com uma tranca.

Ora, o Mário Lôco passou a ser hóspede vitalício do hotel da Malia e a coisa andava ferradinha! Tanto assim, que nos lavadouros do Ribelas a Fabrícia quando queria falar dele, já lhe chamava o meu Maloco. Querem ouvi-la?

 

– O meu maloco onte à noute binha doudo, vejam lá que quelia que eu untasse a senisga com um limão que lhe ofeleceu a Ondina legateila na plaça. Diz que oubiu o Rabôto a cagal lélias, dizendo que a mulhel ficava mais gostosinha untada com o limão e então quelia explimental.

 

Uma risada!

 

Pela cidade já ninguém se referia à Malia que não fosse por Malia do Maloco. Era uma pândega e maior ainda quando os galferros contavam aos engraxadores dos quadradinhos do Arrabalde as cenas que ouviam e espreitavam pela velha porta do pardieiro, quando os pombinhos, após o lauto repasto dos espigos, devoravam a sobremesa!

 

– Ai que bem me está a sabel! – repetia o Tone Ranheira, imitando o que ouvia no silêncio das noites de amor na Canelha das Caldas.

 

A coisa tanto andou, tanto andou, que a Malia um dia alcançou. Andava de meia barriga quando, numa noite mais agitada, os lapantins ouviram e espalharam:

 

– Ó Maloco, ó Maloco, tem juízo, olha que matas a cliança!

 

E não é que matou mesmo! A Maria abortou e tal foi o desarranjo que a partir daí ficou machorra. Bem, do mal o menos, antes machorra do que padecer do mal do Chico, irmão da D. Demerciana, que quando lhe parecia, pegava num manhuço de jornais velhos e punha-se a esfregar vigorosamente qualquer passeio, rematando a esfrega com um manguito, gritando:

 

– Viva Portugal e todos os que não me querem mal! Viva, viva, viva!

 

Ou então ser como o Tio Carradas, concorrente do Maloco, que transportava água das Caldas para o Grande Hotel numa carroça puxada por uma mula quase cega, andava com quantas mulheres pudesse, comia caldo de cobra, por mor do reumatismo e chamava-se à gata rabona sempre que lhe calhava pagar a rodada no Faustino.

 

Ou ainda como o trombalouceiro do Ernesto Baldroegas, empachado com os dotes dos improvisos do filho. Bem, já que me lembrei do Baldroegas oiçam lá esta:

 

Um belo Agosto, no arraial da Senhora da Livração em Boticas, reunia-se o povo à volta de dois cantadores que ao desafio não deixavam a sua fama por mãos alheias: de uma banda o Severino, filho do tal Baldroegas, da outra o João Soqueiro. Eram acompanhados à concertina do Malheiro. Então, era bota quadra de um lado e bira quadra do outro, cada um esgalhando quanto podia no parceiro. Já não estavam sós nem os cantadores e muito menos o auditório! Pudera, é que o vinho dos mortos não era para tretas! A coisa estava a ficar quente, quando, para gáudio da assistência anónima, mas sobretudo dos consanguíneos, botaram esta:

 

Do lado do Severino:

 

 

Sou cantador afamado

Sou barrosão de Boticas

E tu que vens do Brunheiro

Olha que aqui não te esticas!

 

 

Resposta:

 

 

Não me cortareis o pio

Com facas nem com cutelos

Pois sou o João Soqueiro

Venho a cantar de Fornelos.

 

Gargalhadas, aplausos e um comentário:

 

– Olha que o filho d’um cabrão do Severino canta bem!..

 

Responde o Ernesto Baldroegas, seu pai, todo inchado:

 

– Canta num canta?.. É mou filho!..

 

– Melhor estivesses calado, lambão!.. – Atira-lhe do outro lado o Zé Pimpão.

 

O Baldroegas, folião do varapau, não tem mais nada, assumindo que o Pimpão achincalhava o rebento, espeta-lhe tamanha bordoada nos queixos, que o desgraçado, sem culpa alguma que não fosse ter aberto a boca, ficou estrumado no terreiro a sangrar como um reco.

 

Não estivéssemos às portas do Barroso!.. Armou-se tamanha zaragata, que acabaram as cantigas, os copos, a música dos de Parafita e ia acabando até o próprio arraial, não fosse a coronhada da Guarda Republicana.

 

 

A Malia do Maloco viveu feliz. Faleceu tragicamente, já velhota, quando pitava lenha no quinteiro de sua casa. Caiu como um passarinho. Acho que morreu feliz, morte santa!

 

– Até para morrer é preciso sorte! – Refletia o Caninhas.

 

Diz o povo entendido que a Maria não esteve no purgatório mais do que meio ano, tempo suficiente para expurgar os pecaditos, os mais deles veniais, que as penitências do padre Hélder não conseguiram limpar nesta vida, e que após esse martírio foi para o céu, interceder pelo amante! Eu não sei, não percebo nada do divino!.. Sei é que foi amada e respeitada pelo Maloco e mesmo na etapa derradeira da vida teve o merecido amparo, com um funeral de rica. Também sei que isso consumiu muito suor das Caldas ao Postigo e do Postigo às Caldas, mas o conforto da vida ao lado da Malia valia isso e muito mais.

 

Vejam lá que até a igreja de Santa Maria Maior tocou sinais na véspera do seu funeral!..

 

– Quem teria morrido? – Perguntavam ao ouvir os sinos.

 

– Foi a Malia do Maloco! – Repetia quem o sabia.

 

– Coitada! Deus lhe perdoe! – Condoíam-se as beatas.

 

Bedeiras, tomaram quando vos arrefecer o céu da boca, irem tão regaladas como ela! Deus a tenha em paz e a deixe estar muito tempo sem nós – dizia o Mário, já não Maloco, depositando três mãos cheias de terra santa sobre o mogno do caixão, enquanto deixava que duas lágrimas teimosas humedecessem a terra fria que havia de cobrir a sua rosa.

publicado por Fer.Ribeiro às 04:24
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Sexta-feira, 18 de Novembro de 2011

Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos

 

Malha minha banda!...

 

Corria o ano de 1949. A Grande Guerra que envolvera o mundo desde 39, soçobrara há apenas quatro anos. A Europa ainda lambia as feridas, em carne viva, do conflito que tanta alma ceifou. Portugal vivia embalado pelas trevas da Constituição de 33. Lavrando, semeando e colhendo, o povinho espremia o torrão pátrio, matando a fome à miséria ao mesmo tempo que se entesouravam onças, do vil metal, nos cofres do Terreiro do Paço. As rédeas da República estavam na mão do velho, nesta ocasião ainda novo, que orientava a governação para o império ultramarino de frente para o Atlântico, que tão grandes nos havia feito e de espaldas para o resto do mundo, fonte de todos os vícios e provações. O lema do orgulhosamente sós, estrangulava os horizontes do império, sufocando os poucos esclarecidos. Era Deus no céu, a Pátria no coração e a Família, pobre mas feliz, na terra. O povo contentar-se-ia com pão e vinho, missinha ao domingo, catecismo e ignorância.

 

Descanso? Quanto menos melhor e boca calada, que os bufos andavam por ai disfarçados de padres ou de regedores, lobos em pele de cordeiro. Calhava de abrires a boca e aterravas de imediato nos calabouços da PIDE, carregadinho de tabefes. É que ovelha que berra, bocada que perde! Que o diga o Virgolino do Grémio da Lavoura que perdeu as unhas dos pés por calar as reuniões clandestinas do Partido.

 

Porrada? De criar bicho. Quem dá o pão dá a criação!

 

Festas? Somente em honra de santinhos e ralas vezes. De quando em vez, um bailarico, meio clandestino, numa ou noutra eira e ao toque do realejo ou da concertina, e viva o velho, o tal!..

 

Namoro? Apenas e só do tipo falei contigo da janela pró postigo!

 

Amor a sério? Somente à escapula e sempre para procriar! Quantos mais filhos mais braços p’rá terra. Eram às rebanhadas!

 

E assim se tocava a sanfona nesta orquestra de Salazar!

 

Era assim Portugal em geral e Chaves em particular. Mesmo a muitas léguas da Lisboa capital, também a cidade de Flávio sofria as réplicas do tsunami que o 28 de maio trouxe à nação de Viriato.

 

 

Mas, apesar de tudo, os flavienses sempre se divertiam a jogar ao fite, a vaguear de tasca em tasca na lambarice das pataniscas do bacalhau do Tenreiro e dos copos do tinto de Anelhe, nas tainadas, pescando Rutilus Macrolepidotus, ruivacos, no Tâmega e bailando as valsas dos Pardais ou os passo dobles dos Canários pelos arraiais e romarias. Esquecia-me de vos dizer que também chupando caramelos do Felecindo de Feces.

 

Bola? Também havia. Somente ao vivo, bem entendido, e não com a abundância de hoje em dia, mas ainda assim vivida com paixão e com bairrismo. Neste empenho o coração dos flavienses estava dividido entre os dois clubes da terra: o Flávia Sport Club e o Clube Atlético Flaviense. O Flávia tinha o eido no Bairro de Santo Amaro, entre a Casa-dos-Montes e a Estrada de Braga, logo depois da linha do comboio, o Atlético ao lado do Forte de S. Neutel. A rivalidade, entre eles era dura e sem tréguas. Quando se defrontavam, a urbe quase entrava em estado de sítio. E se no seu estádio, os do Flávia, curiosamente paravam o jogo para a assistência ver o comboio a passar e o Marião da Molas deixava entrar os golos por essa desconcentração, os de S. Neutel não davam abébias e quem lá caísse morria, salvo seja!

 

 

Até meados da década dos hippies, os flavienses, também se repartiam na afiliação a duas bandas filarmónicas: Os Pardais e Os Canários. Os primeiros ensaiavam na Rua do Sol, os segundos na do Correio Velho. Cada charanga tinha os seus ferrenhos apoiantes que a seguiam por festas e romarias. Quando calhava animarem juntos o mesmo arraial era o cabo dos trabalhos, porque a festa acabava quase sempre à bordoada. Os músicos, de parte a parte, esgaçavam o respetivo instrumento quanto podiam, tocando ao despique quase até à exaustão. Os adeptos engaliavam-se, glorificando as claves de sol, os bemóis e os sustenidos das partituras. Era de caixão à cova! O frenesim só amainava à força das Mauser Vergueiro da GNR. Infelizmente, no último trimestre de 1976, os Canários, por razões várias, perderam o pio e finaram-se, ficando os Pardais até hoje com o monopólio filarmónico da cidade das águas cálidas. Concorrência, só mesmo a que vem de Loivos de Rebordondo ou de Parafita. Mas, honra lhes seja feita, os da aldeia nunca gaitaram tão bem como os da cidade!

 

 

Ora, como dizia, nesse ano de 49, pelo mês dos burros, o mesmo é dizer em maio, estava marcado para o campo de Santo Amaro um grande desafio de futebol a contar para o campeonato da segunda divisão série I, entre o Flávia Sport Club e o Sport Clube de Vila Real. Para além destes dois clubes, militavam ainda nesta série o Clube Desportivo Celoricense, o Atlético Clube Flaviense, o Sport Clube de Mirandela e o Sporting Clube de Lamego. A rivalidade entre os de Chaves e os de Vila Real era de raiz quase ancestral e mesmo até os adeptos do Atlético, nestes dias, eram pelo Flávia e vice versa. O jogo prometia, tratava-se do derradeiro do campeonato e quem o perdesse descia de divisão. Assim, os de Chaves tinham de ganhar à viva força, nem que para isso fosse preciso depenar os fecha a roda na água das caldas como se fazia aos pitos. O jogo estava marcado para as quatro da tarde de um soalheiro domingo e a chegada da malta de Vila Real para as três, ao apeadeiro da Fonte Nova. Não tinha o relógio da mansão dos Braganças badalado ainda as duas e meia e já a estrada de Braga se enchia de adeptos flavienses para apupar os adversários ao longo do caminho que fariam, à pata, até ao campo do Flávia. Faltaria ainda um quarto para as três e já havia quem já escutasse o comboio a apitar partindo da estação de Curalha. Não me admira, a ansiedade era tanta que, como diz o adágio, quem porcos busca, touças lhe roncam! O trem chegou à tabela ao sopé do Monte da Forca. Eram três em ponto quando, esbaforido, estacou no dito cujo. Mal o séquito pôs pé em terra firme, a multidão desfazia-se em apupos de toda a ordem! Mesmo a Landainas, que comandava parte da procissão, parecia enrubescer de vergonha! Dali ao Santo Amaro a multidão acompanhou os alvinegros, minando-lhes o moral com enxovalhos do mais execrável que se possa imaginar. Contudo, os do Corgo e do Cabril mostravam-se rijos e imperturbáveis, não fossem também eles de cá do Marão! Chegados ao campo da bola, dirigiram-se aos balneários para se equiparem, enquanto o público se amanhava nas bancadas que ainda não havia.

 

Assim, pelas quatro em ponto, estando tudo a postos, o árbitro de Braga apitava para começar o encontro.

 

 

Do lado do Flávia alinhavam: o Granjeia, mais conhecido por Redes, Silvino, Alberto Pinto, Raimundo, Armindo e Lila Geraldes, Amâncio, Peseta, Sebastião, Pinheiro e Américo. Ao comando da nau de Flávia, Quina Falcão.

 

Do lado do Vila Real, o leitor que me desculpe, mas sendo flaviense não me preocupei em saber quem eram exatamente os outros. Que Deus me perdoe!..

 

A primeira parte desenrolou-se sem grandes peripécias. Nem mesmo qualquer das balizas perdeu o virgo. E tirando alguns cacetes, alguns joelhos esfolados, e alguns cartões amarelos, ou ainda as bocas dos borrachões que só não chamavam santinho ao árbitro, nem estava a coisa a correr muito mal.

 

A segunda metade começou com o resultado como tinha acabado a primeira, mas com o Vila Real a cair em cima dos de Chaves sem dó nem piedade. Adivinhava-se uma alteração prestes. Com efeito! Uma bola cruzada de trivela, um mau alívio do Alberto Pinto, uma recarga dum jogador pernas de alicate do Vila Real e ei-la no galinheiro, para desespero do Redes! Faltava ainda meia hora para o final da partida, tempo suficiente para a reviravolta, mas a coisa estava a ficar negra. O tempo passava, o golo não aparecia, os jogadores desesperavam e o público não perdoava. Um calvário!

 

Faltariam apenas cinco minutos e o Flávia estava na terceira divisão.

 

Uma vergonha!

 

 

Os de Vila Real, pressentindo o ovo no cu da pita, assumindo o jogo decidido e a manutenção assegurada, quiseram fazer chegar a notícia à sua cidade para que a banda os fosse esperar à estação e se fizesse festa rija. Não era todos os dias que se ganhava aos galegos. Para mandar a notícia usaram um pombo correio que tinham trazido para o efeito. Assim foi, aos oitenta e cinco, rolinho de papel na pata do bicho com os seguintes dizeres:

 

FSC - 0/SCVR-1. Fim. Preparem banda para festa rija. Stop.

 

E lá foi o pombo rasgando os horizontes.

 

Os de Chaves estavam descorçoadinhos de todo. Porém, como presunção e água-benta cada um toma a que quer, não é que aos 87, de um canto marcado por Lila Geraldes o Peseta enfia a redondinha nas malhas dos presunçosos! Uma luz ténue acendeu-se ao fundo do túnel e os de Vila Real entraram em tal tremedeira que ainda não estavam esgotados os noventa e já tinham o dois a um nas ventas! Foi uma jogada de enciclopédia: o Américo pegou no couro no meio campo, sentou dois, driblou o terceiro, meteu em diagonal para o Amâncio, que da quina da grande área aplicou um bico tão azadinho que a bola, descrevendo um arco, deixou o keeper adversário completamente pregado e entrou na baliza!

 

O jogo acabou logo de seguida e o povo parecia possuído com a alegria da vitória. Os de Vila Real meteram a violinha ao saco, o mesmo é dizer o rabinho entre as pernas, sós e abandonados seguiram para o apeadeiro onde desembarcaram e apanharam o comboio de regresso. A banda esperava-os para a festa, porém, nem um acorde quiseram ouvir.

 

- Que fossem tocar para o raio que os parta, os cabrões dos músicos - dizia o capitão da equipa. Não havia música que apagasse a amargura de perder e logo com os galegos!..

 

Em Chaves festa rija noite dentro!

 

O povéu atulhou a Praça General Silveira.

 

 

Os Pardais animavam do lado dos Bombeiros os Canários do lado do Maximino Vila Nova. Antes de irem para a borga, homens e mulheres passavam pelo Faustino acendendo a candeia pr’á folia. Então era ver os Pardais a desfiar tangos em allegro, fazendo vibrar a sua claque. Os Canários respondiam com trechos em rapsódia, para gáudio dos seus. E bota e bira! Bailavam homens com homens, mulheres com mulheres, homens com mulheres e mulheres com homens, todos animados pelo bafo energético do néctar do Faustino. Uma promiscuidade inusada. A euforia era tanta que a Pimponata, uma das moças mais lindas e cobiçadas da cidade, que vestia de rendas e carmim, se atirava naquela noite aos braços de qualquer um, virando tangos e valsas num rodopio de fera com o cio. Tão infernal era a entrega ao macho e à dança, que numa volta mais rodada de la comparcita e sabe-se lá se com o dedo maroto do seu par, a saia deu de si e caiu-lhe redondinha no meio do bailarico! Ficou de combinação ao léu. Alva como a neve, deixava adivinhar, pelos gémeos desnudados, os motivos da tão grande cobiça dos rapazes da cidade.

 

- Para o baile - alguém gritou. E o baile parou!

 

Prestes, uns olhos experimentados notaram-lhe minúsculas, mas abundantes, pintas cor de telha sobre a cambraia da lingerie. Eram cagadelas de pulga, aos milhares!

 

Sua mãe, que botava o mesmo tango com o Riconcas e para minimizar o impacto do incidente, precipitou-se a cobrir a filha com o xaile de fadista que transia. Não sei se por artes do diabo, se por outra qualquer razão, atrás do xaile caiu-lhe também a saia peliçada que na ausência de combinação deixou à luz um coecão de pano alvo do joelho ao umbigo, ainda mais pintalgado das mesmas do que a combinação da própria filha. Foi a desgraça daquela família. Jamais alguém acreditou na candura das rendas dos vestidos das Pimponatas.

 

E a festa assim andava, até que o maestro dos Pardais decidiu botar uma versão (a sua) da Marcha de Chaves. Embora ainda não oficial, a marcha já tinha letra aprovada da autoria da poetisa Maria Nelson, faltava-lhe apenas a música. Contudo, havia dois projetos para a musicar, um do Tenente Correia outro do maestro Carlos Emídio Pereira[1]. Havendo muita hesitação em escolher o melhor arranjo musical para o hino da cidade, o povo foi chamado a votar. Quem o quisesse fazer comprava um talão de voto no bufete da Casa Geraldes, riscava o nome do autor da versão musical que não interessava e depositava o boletim na urna que se encontrava ao balcão daquele café. As votações decorreram e a versão do Emídio, havia de ser anunciada como a vencedora numa verbena do Jardim Público no verão de 1949. Ficou então a Marcha de Chaves com letra de Maria Nelson e música de Emídio Pinto.

 

Como é evidente os Pardais não foram inocentes na iniciativa de tocarem a marcha, meses antes de encerrar o processo de seleção da sua versão musical. O regente Emídio era precisamente o autor daquela versão e encontrava-se à frente desta filarmónica desde o ano de 1948, vindo precisamente de regência dos Canários, onde aliás tinha o pai e dois irmãos como músicos.

 

 

Claro, os Canários, ofendidos, não quiseram ficar atrás. Mal os Pardais findaram a sua gaitada, começaram-na aqueles nos acordes do Tenente. Não tinham ainda acabado e já o Jardim das Freiras estava em polvorosa. Numa banda juntaram-se os dos Pardais, afetos à música do Emídio, do outro os dos Canários, amantes da música do Correia. Mal o homem do bombo deu a última pancada na pele esticada do aparelho, os festeiros engalfinharam-se uns nos outros qual Guerra Peninsular. Os Pardais batiam nos Canários e estes nos Pardais, os que eram pelos Pardais e pelo Flávia batiam nos que eram pelos Canários e pelo Atlético… Bem, a confusão era de tal ordem entre o futebol e a música e entre uma música e a outra música que às tantas já os pais batiam nos filhos, os filhos nos pais, os netos nos avós, as avós nas netas, as tias nas sobrinhas, os sobrinhos nos tios, os maridos nas mulheres, as mulheres nos maridos, as sogras nos genros, as noras nas sogras, as amantes nas legítimas, as legítimas nas amantes, o padre no sacristão e eu sei lá quem em mais quem. Sei é que o Larufas, fã dos Pardais, adepto do Flávia e sócio honorário dos Bombeiros de Baixo, gritava a todo o pulmão da varanda do quartel dos de Baixo:

 

- Malha minha banda!..

 

A GNR só pelas duas da madrugada e a pus de muita porradinha, conseguiu pôr ordem na casa. Esmoucados eram para lá de meia centena e presos mais de cem.

 

Não sei mesmo se aquilo teria ficado por ali, é que o verão e as verbenas vinham ai e o anúncio da versão ganhadora do hino de Chaves prometia mais molho!

 

Claro que no que respeitava à bola, a paz estava assegurada, uma vez que das cinzas do Flávia e do Atlético nasceu, a 27 de setembro desse mesmo ano, o Desportivo de Chaves, sob a presidência do Tenente Teodorico Augusto Palmeira.

 

Ao menos isso!

 

Gil Santos



[1] Carlos Emídio Pinto nasceu em Vidago, a 19 de janeiro de 1917. Estudou em Chaves até 1931, ano em que conclui o Curso de Comércio na Escola Industrial e Comercial Júlio Martins. Em 1927 iniciara a atividade musical na Banda Municipal de Chaves Os Canários, banda onde já tocavam o pai e os irmãos António Maria e João Baptista. Entre 1939 a 1979 dirigiu alternadamente as duas bandas da cidade - em 1939 assumiu a regência da Banda Os Canários onde se manteve até 1948; de1948 a 1964 dirigiu a Banda Municipal Flaviense Os Pardais; de 1964 e 1976 regressou à Banda Os Canários; de 1976 a 1979 regressou à Banda Os Pardais, cessando aí a ativa regência de bandas. A partir de 1940 fundou diversos grupos de música, o Jazz Flávia, o Alegria Jazz, a Orquestra Lusitana, culminando com a formação, em 1960, do quarteto Calypso. Em 1943, com textos de Carlos Branco, Tiago Gomes e Hernâni Carvalho escreveu as músicas para a opereta Sonho de Zíngaro. Em 1944 com textos de José Quintanilha Dias escreve música para a opereta Seja o que Deus Quiser. Em 1945 musicou textos de Quintanilha Dias para a opereta No País dos Sonhos. Em 1946 entrou para a função pública, como funcionário do Liceu Nacional de Chaves, passando em 1948 a exercer funções na Escola Industrial e Comercial de Chaves até 1987, ano da aposentação. Em 1949, com letra do Padre Adolfo Magalhães escreveu a Marcha do Vidago. Nesse ano de 1949 viu ainda eleita por voto popular a Marcha de Chaves com letra de Maria Nelson. Em 1974 com poema de Barroso da Fonte escreveu a Marcha do Desportivo de Chaves. A propósito das comemorações dos XIX Séculos de Chaves escreveu a marcha para banda XIX Séculos. A 11 de junho de 1988 por iniciativa da Rádio Radiante Rádio de Chaves foi alvo de homenagem pública, data em que recebeu da Câmara Municipal de Chaves a Medalha de Prata do Município. Em 1999 a Câmara Municipal de Chaves deliberou atribuir o nome de Maestro Carlos Pereira a um arruamento da cidade. Ao longo dos anos escreveu dezenas de músicas, para grupos corais, orquestras e bandas. Musicou ainda poemas de diversos autores flavienses. Da produção musical estão registados cerca de 80 títulos na Sociedade de Escritores e Compositores Teatrais Portugueses. Após doença, faleceu a 10 de abril de 1994 em Chaves.

Fonte: III volume do Dicionário dos mais ilustres Trasmontanos e Alto Durienses,

coordenado por Barroso da Fonte, Editora Cidade Berço,

 


Nota: As fotos apresentadas são do arquivo do Blog Chaves Antiga e embora pretendam ilustrar o texto com as bandas de música (Canários e Pardais) e os clubes de futebol (Flávia Sport Club e Clube Atlético Flaviense) nele mencionados, as mesmas poderão coincidir ou não com as datas dos acontecimentos relatados.

Fer.Ribeiro

publicado por Fer.Ribeiro às 01:52
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Sexta-feira, 21 de Outubro de 2011

Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos

 

 

O NANO DO CARREGAL

 

O Adriano do Carregal — povoação a umas duas léguas de Carrazedo Montenegro — é hoje rapaz para mais de meio século. Fez a instrução primária comigo em Adães, mas mal aprendeu a ler e a escrever. A contar nunca precisou de aprender!


O Nano era um lafrau que nunca vi doente ou triste!


Descalço e com calças de serrubeco remendadas no rabo, vencia, à pata, como todos aliás, os três quilómetros para a escola como se nada fosse, mesmo nesses invernos em que a neve dava pelo joelho! Da lousa, comprada no início do ano, restava apenas um pequeno caco esbotenado na sacola surrenta que usava à tiracolo. Cadernos, lápis ou esferográficas, qual quê?! Escrevia com um ponteiro minúsculo de ardósia e apagava com a saliva e a ajuda da manga do mesmo casaco que usava desde os seis anos. A merenda era invariavelmente a mesma: um naco esboroado de pão seco de centeio, duro como cornos. No inverno lá ia comendo o coto duma chouricita que algum lhe dava, mas era raro. No outono, vingava-se nos magustos feitos no monte com fronças de giesta branca. Na Primavera, tempo dos ninhos, passava a vida a cucar os ovos aos passarinhos. Topando o ninho chocalhava as pedrinhas para ver se tinham pito. Não lho sentindo fazia um furo na casca e, com uma palha centeia, chupava-lhe a alma. E era vê-lo regalado a lamber as beiças! No verão, safa-se com as pescoceiras. O Nano, não tinha pai na arte de caçar boieiras. Tendo bois no pasto acercava-se deles, aproveitava os montículos de terra que as toupeiras, vulgo ratas, faziam nos lameiros, armava aí o engenho com um saltão de isco e era vê-lo atrás de uma carvalha a espreitar, esperando que a vítima, gulosa, se atirasse ao insecto. Mal a infeliz ave mordia já o arcanho estava armado de novo. Depenado, o bicho, era enfiado numa verga de giesta onde esperava por companheiro. Numa tarde de agosto, o Nano conseguia encabar cambalhota de respeito – para mais de meia centena – e de peito feito atravessava o Prado com ar de herói. Os pais e os irmãos – uns dez – tinham festa rija nessa noite. Aguçando um guiço, espetava cada qual o seu rijão, tisnando-o no braseiro. Era um manjar digno de rei!


Ali pelos Santos, mal as primeiras chuvas se anunciavam, era raro ver o Nano na escola. Avizinhava-se o tempo dos míscaros e aguardava-o muito trabalho. Foçava touças e soutos e, com o faro do porco das trufas, não lhe escapava um cogumelo que fosse. Enfiava-os numa verga de castanho e aí vinha todo contente com duas ou três cambalhotas, como ele dizia. Claro está que os fungos pediam um estufado de carne ou outro qualquer peguilho que não avezava. Por isso ia para a estrada oferecer a mercadoria às pessoas que, raramente, por ali passavam de carro. Ganhava umas coroas que, à parte uns tostões que surripiava para rebuçados, serviam para afogar o pai em vinho.


Era alegre o Nano e fazia-nos felizes.


Quando não havia escola ia com duas ovelhitas ranhosas para o monte. Juntava-se por lá com outros marmanjos e, claro está, a brincadeira tomava o lugar das obrigações. Os animais esquecidos, conhecedores do terreno, procuravam as lambarices no renovo dos campos próximos. E era vê-los contentes a derrotar as couves, o nabal ou o centeio de qualquer vizinho. O Nano não se atrapalhava! Se fizessem queixa ao pai – zeloso de boa educação – e vendo-se ameaçado pela vara de marmeleiro, fugia. Servia-lhe de cama qualquer manjedoura. À fome, como assim, já estava habituado! Um dia, ameaçado de morte pelo pai e tomando a coisa a sério, pisgou-se. Ao terceiro dia ainda não tinha aparecido, pelo que pôs a aldeia toda em polvorosa Vasculharam-se os poços, as minas e os palheiros e nada do mariola. Apareceu ao quinto dia, como se nada fosse, sorrateiro e de boa saúde. Outras vezes, quando não havia que fazer, divertia-se a ordenhar as ovelhas para uma malga feita do carolo de pão centeio e a beber o leite do úbere, ainda quente. E que bem lhe sabia!

Uma dia o Nano ia-me matando. Era pelo Natal, tinha caído um daqueles nevões antigos. Não havia nada para fazer senão jogar ao tchincalhão no palheiro. Era o que fazíamos.


— Vamos aos coelhos! — propôs o Nano.


Era difícil resistir ao desafio e lá fomos uns quatro. Antes, porém, convenceu-me a rapinar umas pedras de enxofre ao meu avô que sobraram do tratamento da vinha de Cova do Ladrão. Palhitos tinha ele. A estratégia consistia em pôr o enxofre a arder no fundo da mina seca dos Cáximos, que afiançava ter coelhos com’ó carvalho. Depois esperava-se à porta que os bichos, espavoridos, saíssem e colhiam-se à paulada.


Lá fomos.


Dois guardavam a entrada e os outros, com uns fatchucos de palha a fazer de tochas, tinham de chegar o fogo ao produto no fundo do minoco. Coube-me a mim e ao Nano esta espinhosa tarefa. Chegados às entranhas da terra, já com a tocha a perder a alma, botámos fogo ao enxofre que ardendo como pólvora punha uma luz fantasmagórica no teto da mina. O fumo era repugnante, tóxico e o pior é que corria mais do que nós para a saída. Sem luz, com a peste a envenenar-nos e a tropeçar a cada passo, foi o bom e o bonito para sair dali!..

Quando chegámos à boca do túnel, vínhamos brancos como a cal.


Coelhos, nem vê-los! O pior era como havia eu de justificar o vermelhão dos olhos e a tosse irritante em casa?

 

Boa te vai!

 

Muitas outras peripécias podia contar deste Nano!..


Eu bem queria, bem tentava, mas confesso que nunca fui capaz de ser como ele!


Quem é que no seu tempo de puto não teve um amigo como este?

 

Hoje, o Nano do Carregal, trabalha lá para as Espanhas. Constou-me que está queimado pelo álcool. Não me surpreende!..


Que saudade eu tenho do Nano, dos ninhos da carriça e da largura do tempo de outro tempo!

Gil Santos

 


publicado por Fer.Ribeiro às 02:50
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