Terça-feira, 18 de Junho de 2013

Intermitências

 

O Nada

 

“Não és nada”. Foi assim que ela lhe disse adeus para sempre.


Na altura, ele não reagiu. Tudo aceitou e tudo passou sem constar, sem marca, sem estudo. Nas semanas seguintes, andou com o pensamento nas nuvens, sem reagir a “nada”, sem medir consequências de “nada”, sem atribuir importância a “nada”, nem mesmo ao arrependimento.


Um dia, viu-a de novo. Ela estava acompanhada. Ele estava só. Ressoaram as últimas palavras dela. “Não és nada…”. Chorou.

 

“Não és nada”. Nisso pensava todos os dias. Estava a morrer.


Na altura, ele reagiu. Nada aceitou e nada passou sem constar, sem marca, sem estudo. Sem dor. Nas semanas seguintes, andou com o pensamento nas nuvens, analisando e medindo os dias, as semanas, ou com alguma sorte, o ano em que estaria junto delas. Duas décadas de excesso e insensatez caíam-lhe agora em cima. Porque não caíam em cima de outro mais irrefletido?


Madeira, Abril 2006 - Fotografia de Sandra Pereira


Um dia, deixou de lamentar a injustiça. Ressoaram os últimos pensamentos dele. “Não és nada…”. Chorou.

 

“Não és nada”. Sabia que apenas seria feliz com dinheiro. Por isso partiu só.


Na altura, ele não reagiu. Tudo aceitou e tudo passou sem constar, sem marca, sem estudo. Tinha apenas um objectivo: alcançar as suas vontades. Nas semanas seguintes, andou com o pensamento nas nuvens, tinha o que queria para ser feliz, mas continuava incompleto, com os apetites insaciados, sempre desejando e somando algo mais à sua vida.


Um dia, regressou ao seu ponto de partida. Ressoaram os últimos sentimentos dele. “Não és nada…”. Chorou.

 

“Não és nada”. Somente filosofia antiga.


Nesta altura, ele chora por tudo e por “nada”, triste, alegre ou emocionado. A melhor recordação que guarda de alguém que ama assenta sempre no momento mais doloroso dos dois. Pois, já disseram os sábios antigos, não é “quando não sou mais nada que me torno verdadeiramente um homem”?

 

Sandra Pereira


publicado por Fer.Ribeiro às 01:13
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Terça-feira, 4 de Junho de 2013

Intermitências



Bilhete de Desidentidade

 

Esta é a história de um homem que queria viajar. Andava atrás dele próprio. Buscava inspiração.


Voava de cidade em cidade. Detinha-se em momentos e logo mudava. Não se prendia a pessoas, ocupações, promessas, nem ruas, nem lugares. Queria constantemente desaparecer.


Respirava inteiro, sentia grande, via magnífico, vivia belo. Tanto que não reparava nos detalhes. E encontrava angústia, encontrava sofrimento. Perdia a identidade…


Sim, esta é a história de um homem que queria existir diferente do que sentia. Andava atrás dele próprio. Buscava uma alma.


Voava de encontro em encontro. Demorava-se nos instantes e logo mudava. Buscava solução, não a encontrava em lado nenhum. Corria mundo, e não reparava nos detalhes. E encontrava angústia, encontrava sofrimento. Perdia a identidade…


Como ele, outros homens, muitos homens. Sorrisos nos lábios, amargura nas almas, todas elas disfarçadas de sorte, justificada por algo superior. Demasiadas histórias idênticas, todas elas com Bilhete de Desindentidade, o documento que tudo valida e carimba, como um passaporte para a inspiração. Entre eles, buscam histórias diferentes, andam atrás deles, correm até chegar ao seu tempo. E encontram angústia, encontram sofrimento. Perdem a identidade…


Fotografia de Sandra Pereira - Parque Industrial de Barcelona, Maio 2013


O homem ri-se.


“O que lhes aconteceu? Pergunte por quem os enganou… Quem os traiu?”, acusa.


Como ele, estes homens sabem que vivem num mundo que não existe e que apenas conservou a violência do fugaz, onde as soluções há muito descobertas já não servem, onde o errado passou a certo, onde o impensável passou a ser escolha única. Então pegam no Bilhete de Desindentidade e partem à descoberta do presente. E os outros? Os que conservam a Identidade? Resistem, como antes, permanecem, como antes. Estacam no presente, fingem que apenas é necessário adaptar as soluções, como antes, e aplicá-las, como antes, à medida que o estado de emergência cresce. E, à sua volta, encontram angústia, encontram sofrimento…


Mas esta é a história de um homem que cospe para o chão, sem reparar no rasto que deixa atrás de si. Está demasiado ocupado a andar à frente de si, não atrás, como acredita firmemente, e nem os detalhes o detêm no caminho para a desidentidade.


O homem ri-se.


“Hoje os detalhes estão diluídos no global. É preciso procurá-los dentro dessa imensidão para os encontrar”, responde.


Nada o poderá livrar. A identidade deste homem está definitivamente perdida, desconhecida, tal como ele, que julga ser livre. E encontra angústia, encontra sofrimento…


Como ele, outros homens, muitos homens. Cada um se concebe à sua própria escala. Esta é apenas a história de um homem que anda à frente de si próprio e sabe que nada é como antes. Não quer carimbos, etiquetas, selos nem detalhes, viaja com Bilhete de Desindentidade. E é tudo.


Ninguém está imune. Como ele, os homens respiram inteiro, sentem grande, veem magnífico, vivem belo. Importam-se com o que não acontece, com o que não fazem, e não reparam nos detalhes do Bilhete de Identidade. E encontram angústia, encontram sofrimento…

 

Sandra Pereira



publicado por Fer.Ribeiro às 03:13
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Terça-feira, 21 de Maio de 2013

Intermitências

 

A Perfeição

 

“A perfeição é um círculo. Onde há anseios. Vontades. Receios. E onde há estátuas móveis. Hoje estalam as nossas origens, e ninguém repara. Os estilhaços espalham-se pelo mundo fora. E você, onde estará amanhã?


Não tema. Nunca alcançará aquilo que tanto imaginou. Alcançará algo totalmente diferente: muito melhor, ou muito pior. Não tema. Se não a encontrar, se continuar perdido, estará mais perto do que os que julgam saber o que querem e para onde vão.


A perfeição é um círculo. Não tente fugir. Gire sempre: rápido quando é convidado, devagar quando deixa de ser bem-vindo. Verá que é violento, mas, no fim de contas, fácil”.


1)    Já conhece a teoria. Não a usa. Não procura a perfeição, nem sequer sabe defini-la, mas preocupa-se sempre muito com o amanhã. Isso quer saber sempre.

 

2)    Não conhece a teoria. Usa-a sem saber. Procura a perfeição em qualquer situação, mas não se lembra do momento em que esteve mais perto de alcançá-la. Tem muito para oferecer. Isso quer dar sempre.

 

“A perfeição é um círculo. Você está forçosamente dentro e precisa de girar, comunicar. Sempre. Interagir, criar conexões e, se necessário, cortar ligações. Recorde-se que para girar dentro dela, primeiro, apenas é necessário aliar-se à natureza, ao básico, o único elo essencial ao Homem. Depois, vem o Ser. Em qualquer caso, não adianta exceder-se demasiado: trata-se de um círculo desumano, onde não existe amanhã.


Barcelona, Maio de 2013 - Fotografia de Sandra Pereira


Não tema. Conte a sua história imperfeita.”


1)    Conta-a ao divino.

2)    Junta-a em teses.

3)    Muda-a constantemente.

4)    Tenta esquecê-la.

5)    Ignora-a.

 

“Continue o teste. Não acerte na resposta, tente antes acertar na ciência ou na arte de bem girar dentro do círculo da perfeição. Faça contas ou invente. Sempre com técnica, é ela que hoje faz girar a roda do mundo, das sociedades, das coisas. Lembre-se também que tudo está em permanente construção (amontoado por partes) ou em evolução (divido por fases). Entretanto, estalam as nossas origens, e ninguém repara. Os estilhaços espalham-se pelo mundo fora”.


1)    Faz contas.

2)    Inventa.

 

“Lembre-se: a perfeição é um círculo, onde há estátuas móveis. Que importa saber onde estará amanhã? Não tema.


Continue o teste”.


 

Sandra Pereira



publicado por Fer.Ribeiro às 02:14
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Terça-feira, 7 de Maio de 2013

Intermitências

 


Uma Pessoa Simples

 

Quando ela mais precisou, ele não estava. Bateu a todas as portas, nenhuma se abriu. Correu todas as ruas, não encontrou a sua. Não viu ninguém. Quando ela não precisava, estava só.


O tempo passou, e nada pode ficar no mesmo sítio, tudo é movimento, avanço, inquietação, evolução. Ela fez uns ajustes, acondicionou-se e adaptou-se.


E depois… sempre que ela mais precisava, ele nunca estava. Já ela, tinha mais tendência para ouvir do que exprimir. Analisava todos os problemas, reflectia sobre a solução de todos os dilemas. A “fórmula mágica” era sempre a mesma: ajustar-se, acondicionar-se e adaptar-se.


Ela pensava sempre no colectivo, no “todos por um”, e no “um por todos”. Os outros não reagiam. Cada um que fosse dono do seu próprio destino, e assumisse as consequências de cada escolha, decisão ou atitude que tomasse. Ponto. Não eram os tempos modernos. Desde o início dos tempos que assim era: o Homem, sem qualquer predestinação ou desígnio divino, lutando contra o seu próprio meio para sobreviver. Mas ela, se pudesse escolher, não teria vivido na Pré-História. Teria vivido na Polis grega, onde tudo era exposto, debatido e sabiamente aplicado a todos.


Fotografia de Sandra Pereira


Ela precisava. Ele não estava. Ela batia a todas as portas, nenhuma se abria. Ao avistá-la ao longe, todos desapareciam. E a ela, só lhe restava ajustar-se, acondicionar-se e adaptar-se. No final, era feliz, pois de tanto procurar o carpe diem, acabava por encontrá-lo… até surgirem novas ansiedades.


Aí, também queria exprimir. Com mais braços, dobra-se melhor o cabo das tormentas. Todos diziam que a compreendiam, que a apoiavam, que estavam aqui para o que ela precisasse. Mas ninguém estendia a mão. Não eram os tempos modernos. Desde o início dos tempos que assim era: o Homem só.


Primeiro ressentia-se. Depois digeria – perdoava - ouvia de novo. Analisava todos os problemas, reflectia sobre a solução de todos os dilemas. Era uma pessoa simples.


O tempo continuava a passar, e nada pode ficar no mesmo sítio, tudo é movimento, avanço, inquietação, evolução. Ela fazia ajustes, acondicionava-se e adaptava-se. Até surgirem novas tormentas…


Não são os tempos modernos. Desde o início dos tempos que assim é. A realidade de hoje é sempre o resumo dos males de um século. Ela é apenas uma pessoa simples.

 

Sandra Pereira



publicado por Fer.Ribeiro às 01:12
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Terça-feira, 23 de Abril de 2013

Intermitências

 

Contratempo

 

Contra o tempo… "Aconteceu enquanto dizíamos que isso não iria acontecer mais. Que estávamos seguros. E então aconteceu".


Foi mais um contratempo. Ninguém cai num buraco, porque às vezes é preciso andar meio perdido para chegar a um sítio realmente diferente. Mas tu não queres pensar nisso...


Contra o tempo… "Trabalhe duro no emprego de hoje ou trabalhe duro para encontrar um emprego amanhã".


Foi outro contratempo. É a crise do cromossoma Y, ou é a crise do cromossoma X. Certo é que todos precisamos de amigos quando nos espera um espancamento. Mas tu não queres pensar nisso…


Contra o tempo… “Os cientistas anunciam ter descoberto uma forma de ler os sonhos das pessoas ao utilizar aparelhos de ressonância magnética para abrir a porta a alguns segredos da mente inconsciente”.



Xangai, 2008 - Fotografia de Sandra Pereira


Foi de novo um contratempo. Entusiasmo demasiado fácil. Entrar em efervescência. Não olhar além das imagens, para os cheiros, as cores, para as traduções, para os significados, as emoções. Não visualizar o que não é visível. Mas tudo tem solução, tu não queres pensar nisso…


Contra o tempo… um indivíduo só. Porque há sempre um lugar vedado a terceiros. Tu seguias a corrente do receio, do acanho, da cobardia, do seguro, do conhecido. Tu não querias pensar nisso. Tudo tem solução, mas não há ponta de irracional em ti.


Foi apenas um contratempo. Hoje viajas. Foges para bem longe de tudo o que já viveste. Não visualizas o que não é visível, mas queres cheirar, queres ver, queres sentir. Com o estômago e o pensamento a darem voltas e mais voltas… quase até ao vómito. Queres significados. Foste atingido por um relâmpago súbito de (ir)reflexão, e o choque foi tão forte que andaste meio perdido. Temeste muito, tremeste mesmo por ti próprio, não visualizaste o que não era visível, mas viajas… até aterrar de vez. Aos poucos, mudas de aspecto, tornas-te sol ou nuvem. Tudo tem solução.


Contra o tempo…

 

Sandra Pereira



publicado por Fer.Ribeiro às 04:49
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Terça-feira, 26 de Março de 2013

Intermitências

 

A Lotaria

 

… E hoje, de quem será a vez?


“Ele tinha a paixão de defender, era um dos melhores a defender os outros”, não se cansava de repetir o sócio. E era. Quando estava na fila, não seguia por rodeios, não lia nas entrelinhas, não baixava o tom. Não autocensurava as acções, e saía-lhe sempre a estrelinha da força. Tornou-se um excêntrico, e a estrela tornou-se decadente. “É triste que alguém tão talentoso como ele não tenha conseguido encontrar os recursos para se defender a si próprio de si próprio…”


Hoje não há censura nem tabu. Foi a vez dele. E hoje, de quem será a vez?


“Ele fazia sempre a sua própria lei, gravitava sempre à volta da própria norma”, não se cansava de repetir a mãe. E era. Nunca chegava a estar na fila, estava sempre no último sítio onde imaginavam que ele estivesse, num paraíso ou numa selva, mas sempre num lugar surreal. Não autocensurava as vontades, e saía-lhe sempre a estrelinha do inesperado. Tornou-se um excêntrico, e a estrela tornou-se decadente. “Se segue a regra, não se auto-satisfaz. E como nunca se auto-satisfaz, segue a sua trajectória, completamente imprevisível, indiferente a tudo, não a todos, mas sem nunca poder ser apanhado por ninguém…”


Hoje não há censura nem tabu. Foi a vez dele. E hoje, de quem será a vez?


"Ele vivia numa época diferente da nossa, num mundo à parte. Era bom homem, mas pobre, coitado, e estava quase sempre só…”, não se cansava de repetir a vizinha. E era. Também não se metia na fila, mas nunca saía do lado dela, não fosse perder alguma sorte ou uma explosão de alegria humana. Não autocensurava o coração, e saía-lhe sempre a estrelinha da compaixão. Tornou-se um excêntrico, e a estrela tornou-se decadente. “É triste que o nosso tempo tenha ficado órfão deste tipo de personagens, com novas formas de compreender a vida…”



Fotografia de Sandra Pereira


Hoje não há censura nem tabu. Foi a vez dele. E hoje, de quem será a vez?


“Ele acreditava que a censura não tinha acabado, que a censura económica era pior do que a de lápis azul. Era um inconformado”, não se cansava de repetir o neto. E era. Insistia em estar sempre na fila, e não entendia porque o queriam pôr de parte, quando só ele sabia como fazê-la andar para a frente. Não, não tinha passado a vez dele. Não, não se tratavam de detalhes burocráticos. Não autocensurava a perseverança, e saía-lhe sempre a estrelinha da “missão cumprida”. Tornou-se um excêntrico, e a estrela tornou-se decadente. “É injusto que, depois de tantas horas de espera, no final não lhe aceitem a senha, coitado…”


Hoje não há censura nem tabu. Foi a vez dele. E hoje, de quem será a vez?


“Ele acredita que hoje só há felizes contemplados, mas esquece-se que é preciso escolher duas estrelinhas para acertar uma vez em 116 531 800 de sortes”, não se cansava de repetir a avó. E é. Hoje não há censura nem tabu. Hoje há só mundos de parte.


Hoje ele vive num mundo onde ninguém faz fila, onde todos gravitam à volta do nada, à procura da estrelinha da excentricidade. Não há autocensura face à imensidão e variedade do tudo que existe, e todos falam por citações, fingindo nem dar por isso. Todos podem ser obscenos, descarados, imorais, indecentes, desavergonhados, e sai sempre a estrelinha do egoísmo. “Tornaram-se todos excêntricos, ele também coitado, e a estrela tornou-se decadente…”


E hoje, de quem será a vez? ...


 

Sandra Pereira



publicado por Fer.Ribeiro às 01:05
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Terça-feira, 12 de Março de 2013

Intermitências

 


Intermitências da Loucura

 

De onde me conheces? Já vi a tua cara, onde a vi? Sorris-me, enquanto caminhas a meu lado. Eu sei que já te vi. Volto a olhar para ti. Adoro pôr a minha mente a viajar no tempo. E quando as faces do teu rosto mudam de cor por acontecimentos minúsculos ou ofensas desmerecidas.


Para que queres tu tentar salvar uma tábua do porão se é todo o navio que se afunda? Eu também já tinha pensado nisso, eu também já dei o primeiro passo para dignificar um naufrágio. Pensei à velocidade dos segundos. 1’ 2’ 3’ Eu vou por aí. 4’ 5’ 6’ Não vou por lado nenhum… 7’ 8’ 9’ Afinal vou por ali!


Porque viras a cara quando me vês colocar o mundo todo num molde em forma de coração? Sei bem o que julgas. Desde criança que vês o frasco de doce que soube a rosa, a violeta, a caramelo, e adoçou sangue e alma, a esvaziar, sem nunca mais voltares a encontrar quem o produziu. Deambulas por pensamentos amargos, “ninguém é obrigado a ser feliz”, não queres saber dos meus delírios, “ninguém é obrigado a amar incondicionalmente”. Condenas-me sem dó nem piedade, sem sentenciar que também tu continuas à procura da loja onde se compra o molde.


Porque que caminhas a passos largos, por que gritas com tanta convicção? Voltas a olhar para mim. Já te conheço, de certeza. O teu olhar já antecipa a tragédia que aí vem. Mas tu segues. Ninguém te fará cair, é certo, mas vais magoar-te. Tem cuidado. Já que vais, não vaciles, nem recues à mínima dor. O navio não vai parar de afundar e tu tomarás sempre a decisão errada para te arrependeres.


Tomar a decisão errada e arrepender-se… tomar a decisão errada e arrepender-se… Também eu penso sempre que irei acertar da próxima. Que a vida é só por si uma lição, como diz o povo... Não te rias. Para dominar uma arte é preciso repetir o mesmo movimento do espírito vezes infinitas. Não desesperes. Temos sempre a vida toda pela frente, até acertarmos na morte.


Foto de Sandra Pereira


Já olhaste para o teu lado? Também vi. Muitos rostos. Todos caminham para o fundo. Não tenhas pena deles. Também eles precisam de caminhar e magoar-se. Também eles precisam de olhar para ti e sentir a tua dor.


Ainda tens voz? Eu já estou cansado. Não queres parar um pouco, só para ver se além vendem o molde em forma de coração? Recusas-te a acreditar em mim. O teu olhar de desdém denuncia a minha loucura. Concordo contigo. Já faz várias horas que caminhas a meu lado, como se não houvesse outro remédio que fizesse efeito.


Eu sei que já te vi. No fundo sabes que somos todos loucos, ou não teríamos nós embarcado todos num navio prestes a ir ao fundo. São cada vez mais os que partem nos botes salva-vidas com rostos de felicidade fingida. Deixá-los ir! Que se lixem todos! Mais vale acreditares em mim.


Voltas a olhar-me de esguelha. O que esperavas que eu fizesse por ti? Não te chega eu caminhar a teu lado? Que mais querias? Bem sei que tens todo o direito de saber onde estarás, com quem estarás e o que o farás amanhã. Juro que pensei nisso, dei passos para tentar dignificar este naufrágio. Pensei à velocidade dos segundos. 1’ 2’ 3’ Eu vou por aí. 4’ 5’ 6’ Afinal vou por ali! 7’ 8’ 9’ Mas que raio de caminho é este afinal?


Não, não me olhes com olhar de desespero. Não vou chorar. Nem de remorso, nem de culpa, nem de tristeza e muito menos de mágoa. Quero que te lixes! Continua a caminhar! Afinal conheces-me ou não?


Não acreditas em mim, porque eu não tenho noção da realidade, dizes tu. Eu sei que no fundo pensas que vou enganar-te como os outros, servir-me da tua ingenuidade, abusar da tua generosidade, violar a tua simplicidade. Tens razão. Mais vale não acreditares em mim, mesmo que saibas que também eu já caminhei a passos largos e gritei com a mesma convicção que a tua, um bocado mais recuado, mas nessa mesma linha de tempo, que para mim já findou. Mudei de linha. Tens razão, nem eu nem a vida temos lição a dar-te. Continua a caminhar. Eu e a minha loucura, afastamo-nos de ti.


Não te vais lembrar mais de mim, e muito menos voltar a sorrir-me antes do naufrágio que não conseguirás impedir. Não importa. Estou certo que tu também sempre me conheceste.

 

Sandra Pereira


publicado por Fer.Ribeiro às 01:42
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Terça-feira, 26 de Fevereiro de 2013

Intermitências

 

O Extraordinário

 

Notícia de última hora: “…Após a explosão, ouviu-se como pedras a cair do céu, ou tiros. A terra tremeu (…) No momento em que o céu se abriu, um vento quente, como saído da boca de um canhão, soprou na aldeia…”. Este é o testemunho de uma das 1200 pessoas que ficaram feridas depois de um meteoro de 10 a 40 toneladas se ter desintegrado na atmosfera, despejando meteoritos na região dos Urais, na Rússia”.


Aconteceu alguma coisa num lugar. Sorte ou azar de quem lá estava. Sabiam eles que cada coisa está ligada a um lugar? Estariam lá se o soubessem? A maioria lamenta, diz que aconteceu alguma coisa extraordinária, mas não encaixou num lugar. É essa a preocupação que se transforma em culpa, depois em mágoa, e finalmente em desgosto.


Notícia de última hora : “É para muita gente uma visão de pesadelo a imagem captada por um jovem, que fotografou milhares de aranhas em levitação no ar em Santo Antonio da Platina, no sul do Brasil. Na verdade, estas espécies que costumam caçar insectos em grupo estavam suspensas em teias que armaram entre postes eléctricos e árvores no meio da rua”.


Aconteceu alguma coisa num lugar. Só isso basta para ser extraordinário. E se existem tantas coisas em tantos lugares, onde deve ser procurada a ligação entre ambos? Na busca da correspondência mais matematicamente harmoniosa, ou cientificamente milagrosa, a maioria desiste facilmente e insiste apenas na mesma coisa, ou no mesmo lugar. E depois lamenta, diz que aconteceu alguma coisa extraordinária, mas não encaixou num lugar. Ou diz que não aconteceu nada, mas que está no lugar certo, à espera do extraordinário. É essa a preocupação que se transforma em culpa, depois em mágoa, e finalmente em desgosto.


Notícia de última hora: “Vítima de uma patologia rara que danificou o centro de detecção do perigo no seu cérebro, uma mulher de 46 anos que nunca sentiu medo está a fascinar uma equipa de neurocientistas, que tenta o tudo por tudo para a assustar. Após várias tentativas, conseguiram finalmente fazê-la entrar em pânico ao administrar-lhe, através de uma máscara, um gaz com 35% de dióxido de carbono, uma taxa 900 vezes superior à da atmosfera. O acto de tentar retirar a máscara foi um instinto de sobrevivência que ela nunca tivera, nem mesmo quando foi ameaçada de morte com uma faca no pescoço”.




Aconteceu alguma coisa num lugar. Pode até nem ser nada de relevante. Se for extraordinário, é fácil identificar: ou fascina, ou assusta. Dois extremos, duas opções, aproximem-se ou afastem-se do perigo. Pior é ficar paralisado e deixar-se sufocar por essa coisa, por esse lugar. É essa a preocupação que se transforma em culpa, depois em mágoa, e finalmente em desgosto.


Notícia de última hora: “Bento XVI renuncia continuar a ser Papa e vai optar por uma vida de isolamento do mundo. Antes dele, quase 600 anos antes, só um Papa tinha renunciado ao poder e à autoridade máxima perante milhões de fiéis. O porta-voz do Vaticano não soube explicar ao certo como as pessoas devem passar a chamar o papa aposentado e também não sabe ainda como será a sua nova vestimenta: branca, usada por papas, vermelha, por cardeais, ou simplesmente preta, usada por padres”.


Aconteceu alguma coisa num lugar. O extraordinário é muitas vezes confundido com loucura. A maioria pensa que sim, que a paz só pode ser loucura. A maioria lamenta, diz que aconteceu alguma coisa, realmente extraordinária, mas não encaixou num lugar decente. No fundo, todos sabem, o extraordinário acaba sempre em dois extremos, a ilusão ou a cobardia. Falsamente inocente, a maioria diz que ainda acredita, que haverá um lugar onde, misteriosamente interligados, acontecerá uma coisa extraordinária, ambos em perfeita sintonia com o que se espera deste mundo. É indiferente que esse lugar seja vasto ou longínquo, próximo ou permanente. O problema é sempre o mesmo: nós, a maioria.

 

Sandra Pereira

 

publicado por Fer.Ribeiro às 03:45
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Terça-feira, 12 de Fevereiro de 2013

Intermitências

 

Os Burocratas

 

“Tem que pagar!”. Não adianta qualquer explicação. “Tem que pagar!”


O seu caso não merecia qualquer atenção especial. [Inédito], [Excepcional], [Extraordinário], [Atípico], [Irregular], [Singular], [Particular], [Peculiar] não eram palavras que pudessem ser carimbadas na primeira página do dossier, nem aplicar-se ao seu caso. Ou a qualquer caso.


Simplesmente não existia um caso especial. Não era justo, não tinha culpa e, se o seu caso era diferente dos outros, não podia ser tratado de forma igual. Já alguma vez tinha aparecido um caso destes? Não há lembrança, mas de qualquer modo só há dois carimbos: Aprovado ou Reprovado.


“Tem que pagar!”. Não adiantava qualquer explicação. “Tem que pagar!”. No fim das contas, pediu o livro de reclamações. E reclamou: “O ser humano sempre soube tirar partido das situações mais melindrosas…Façam novos carimbos ou desapareçam!”.


“Tem que reagir!”. Não adianta qualquer explicação. “Tem que reagir!”


Como saber se a situação merece uma atenção especial? Se é [Inédita] ou apenas [Atípica], se é [Excepcional] ou somente [Singular] … O certo é que é inesperada, uma situação diferente, e o seu ser não tem qualquer reacção programada.


À primeira vista, parece especial, mas poderá deixar de sê-lo. Também poderá tornar-se especial, mas também pode nem sequer chegar a sê-lo. Tudo depende dele.


“Tem que reagir!”. Não adiantava qualquer explicação. “Tem que reagir!”. No fim das contas, pensou que pouco importava a sua atitude, pois haverá sempre uma consequência, seja ela qual for. Cada caso é ou deixa de ser um caso especial. E reclamou: “O ser humano sempre soube tirar partido das situações mais delicadas… Reage ou desaparece!”


Fotografia de Sandra Pereira - "Bolsa de Hong Kong, 2008"


“Tem que ser!”. Não adianta qualquer explicação. “Tem que ser!”


O seu paladar não merecia qualquer atenção especial. Pedia sempre a carne sem molho picante, mas o “pedido especial” aparecia sempre com outro molho, agridoce ou (pior) biológico. Chateava-se. Já tinha dito que não queria nada, que preferia tudo ao natural. Bem sabia que fazia parte do menu, mas não tinha culpa se o seu gosto era diferente do dos outros e não pudesse ser tratado de forma igual. Reclamava. Não era justo. Logo era acusado de falta de tacto.


Gostava do que era genuíno, mas toda a gente parecia entender que a vida sem molhos não era vida. Tudo tinha que ser colorido, sempre saboroso, tudo tinha que ter máscara, disfarce, beleza, sorriso, ser divertido.


“Tem que ser!”. Não adiantava qualquer explicação. “Tem que ser!”. Não precisava de picante nem de agridoce no prato, já o tinha dito da outra vez. Também não precisava que o iludissem com “pratos personalizados”, só porque tinha mais um ingrediente, diferente, mas com o molho e toda a produção convencional, bem longe do natural, afinal o seu único pedido. No fim das contas, deixou de resistir, já que “tem que ser”, mas leu de novo a reclamação. “O ser humano sempre soube tirar partido das situações mais sensíveis… Adapta-se ou desaparece!”


“O balcão de atendimento encontra-se encerrado. Não aceitámos reclamações”.


O seu caso não merecia qualquer atenção especial. Já o sabia, mas teve uma reacção [Espontânea], [Louca], [Irremediável], [Suicida]. Antes disso, pensou numa alternativa a este formato, em que cada caso especial fosse entendido e atendido. Desrespeitou os formulários, os avisos, desobedeceu aos números, às taxas, trocou os horários, as receitas, recusou a [Abertura Fácil], o [Tudo em Um], o [Leve 3, pague 2]. À falta de carimbos, não faltavam etiquetas.


Tentou que nada fosse pago antes de se fazerem as verdadeiras contas e tudo fosse feito antes da regra, da lógica e da razão. Não, não queria picante nem agridoce no prato, já o tinha dito da outra vez. Não, nunca ninguém tratara do seu caso. No fim das contas, teve a reacção [Espontânea], [Louca], [Irremediável], [Suicida]. Antes disso, deixou uma derradeira reclamação no balcão de atendimento: “carimbem os burocratas ou desapareçam!”

 

Sandra Pereira



publicado por Fer.Ribeiro às 02:10
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Terça-feira, 29 de Janeiro de 2013

Intermitências



A palavra certa

 

Palavra certa só há uma. Ela acredita. Uma só palavra pode mudar todo o sentido das coisas.


Em cada momento, só existe uma palavra certa. Toda a sua vida tem sido procurá-la, dar um passo em frente para ver o seu efeito, dar outro atrás para substitui-la. No fundo, exprimir nada mais que a mais pura das verdades.


Ela procura, experimenta, quer muito exprimir a palavra certa para ser o mais justa possível com o que é, mas nunca lhe sai a palavra certa para o momento. Às vezes, sai uma encapotada. A palavra subentendida que, no fundo, quer ser entendida, a palavra de duplo sentido que, no fundo, só tem um sentido. Ela bem sabe, essa é cobarde, é uma semiverdade apenas alcançada pelos mais atentos e ousados, mas mesmo que não seja a palavra certa, pelo menos só chega a quem interessa.


Ela emociona-se com as palavras certas que lê nos livros, com as palavras certas que ouve nos filmes, com as palavras certas que sonha. Daria tudo para sentir o mesmo. Seriam as pessoas e as suas vidas mais interessantes se fossem perfeitas?


Ela muda de lugar. Em nenhum momento acha a palavra certa. Ela muda de pessoas. E no momento em que mais se aproxima, menos acha a palavra certa.


Rende-se. Como toda a gente, ela não emociona ninguém com palavras. Como toda a gente, ela vive através da palavra que ilude, que é a certa para o momento, mas não a verdadeira.


Olhar certeiro só há um. Ele acredita. Um só olhar pode mudar todo o sentido das coisas.


Em cada momento, só existe um olhar certo. Basta substituir “palavra certa” por “olhar certeiro” para, no fundo, exprimir nada mais que a mais pura das verdades.


Fotografia de Sandra Pereira


Ele procura, experimenta, quer muito lançar o olhar certeiro para ser o mais justo possível com o que é, mas nunca lhe sai o olhar certeiro para o momento. Também ele vive com o olhar que ilude, mas não se rende. A vida é só isso mesmo: tentar, errar e voltar a tentar. Seriam as pessoas e as suas vidas mais interessantes se acertassem sempre?


Um dia, ele achou que, quase sem dar por isso, acabara de lançar um olhar certeiro. Não se entusiasmou, já não era a primeira vez. Ela desviou o olhar.


Ele aproximou-se. A uma certa distância…Ouviu a boca dela murmurar uma palavra, mas continuava a desviar o olhar.


Ele aproximou-se mais. Ela barrou-lhe o caminho com o olhar. Ele deu um passo atrás, pronto para substituir o olhar certeiro. Ela disse: “Fica”.


Fora o olhar certeiro para o momento. Fora a palavra certa para o momento.


Ele tentou lançar mais olhares certeiros. Ela tentou exprimir mais palavras certas. Para cada momento. Para todos os momentos.


Cedo compreenderam que afinal não houvera olhar certeiro, nem palavra certa. De novo, tudo não passara de um momento que ilude. Seriam as pessoas e as suas vidas mais interessantes se fossem sempre verdade?

 

Sandra Pereira



publicado por Fer.Ribeiro às 08:30
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Terça-feira, 15 de Janeiro de 2013

Intermitências

 

Exaustão

 

Na vida só duas coisas lhe metem realmente medo. Entrar num círculo que sempre gire ou numa recta que nunca acabe. Até hoje não teve de enfrentar nada parecido, mas não anda em carrosséis (ou grita de angústia), nem conduz em túneis (ou grita de angústia). Sabe que dar parte de fraco não ajuda a sobreviver, mas vacila. Até à exaustão.


Agora. Adia. Aqui. Adia. Amanhã? Adia. Até à exaustão.


Nunca quis usar vermelho. Essa cor quente, ofensiva, que atrai olhar, preconceito e julgamento. Um dia, a máquina de lavar roupa fartou-se do cinza, do neutro, do sorriso acanhado, do olhar cauteloso, tingiu maliciosamente o seu dia e coloriu o seu ser e estar. O vermelho provara ter iniciativa própria. Sabe que ter um problema de atitude (não de aptitude) não ajuda a sobreviver, mas hesita. Até à exaustão.


Quer. Adia. Não quer. Adia. De certeza? Adia. Até à exaustão.


Às vezes, sonha com o carrossel. Gira, porque não quer magoar o outro, mas nunca pára, porque não se quer magoar a si próprio. Também já sonhou com o túnel. Segue em direcção à luz, porque tenta corresponder às expectativas de quem aguarda no final, mas nunca chega, porque quem aguarda, entre a escuridão, nunca vê quem espera. Sabe que, faça o que fizer, será sempre totalmente imperfeito, e prefere apenas deixar o carrossel girar, apenas deixar o túnel continuar. Até à exaustão.


Ir. Adia. Ficar. Adia. Já? Adia. Até à exaustão.



Foto de Sandra Pereira - Dalian, norte da China, Setembro 2008


Só não começou a usar vermelho porque tinge demasiado a realidade, e isso desilude, envergonha, chega mesmo a entristecer até às lágrimas. Mas muitas vezes pensa até onde chegará essa cor que sempre se impõe, ferindo o olhar e o preconceito, em qualquer lugar, às vezes totalmente despropositada (e porque não?), abalando o curso das coisas. Sabe que tem um irremediável problema de atitude, mais difícil de resolver do que a aptitude, mas apenas censura. Até à exaustão.


Construir. Adia. Demolir. Adia. Espera só mais um pouco? Adia. Até à exaustão.


Já viu muitos parar um carrossel. Já viu muitos chegar ao fim de um túnel. Não se recorda de conseguir tal proeza, mas uma vez um carrossel começou a girar infernalmente enquanto andava nele. Foi aí que gritou de angústia pela primeira vez. Não sabia quem ou que força universal o forçava a girar, mas não o tentou parar porque poderia não conseguir ou arrepender-se das consequências. O carrossel continuou a girar infernalmente e alguém teria de pôr fim a este círculo. Enquanto gritava de angústia, pensou no que aconteceria se ninguém o parasse. E o carrossel continuou a girar, a girar, até que a força universal que o forçava a girar o decidisse parar, ou deixar continuar a girar, girar. Até à exaustão.


Na vida só duas coisas lhe metem realmente medo. Primeiro, não se aventura em carrosséis (mas vive num planeta que gira). Segundo, não se deixa desafiar por túneis (mas segue em direcção a um universo infinito). Vacila, hesita, censura. Sabe que, faça o que fizer, sobrevive sempre até à morte, mas face a carrosséis que sempre giram e túneis que nunca acabam, apenas grita de angústia. Até à exaustão.

 

Sandra Pereira



publicado por Fer.Ribeiro às 09:00
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Terça-feira, 1 de Janeiro de 2013

Intermitências

 

Eu vi este Povo a Lutar

 

O que ficou na última fotografia de 2011?


Acreditava-mos nós que bastava acordar dos “palavreados, receios e tempos velozes que entopem e acomodam a mente”. Que “lá fora”, havia “ideias, movimento, voluntários, reaccionários, solidários”. Em 2012, eles acordaram e saíram à rua. Os desempregados, os frustrados, os deprimidos, os inconformados, os idealistas. Metade deles acordou e gritou aos “gatunos” de sonhos e vidas para descerem à rua. A outra metade também acordou, mas calou-se para não perder o pouco que tem num país que já nem “tanga” tem.


Acreditava-mos nós que, regressados “os tempos de demagogias perigosas e de vendedores de ilusões”, haveria quem se unisse em torno de um bom senso colectivo “para recusar discursos paternalistas, moralismos hipócritas, sentidos patrióticos ridículos e nacionalismos baratos.” Em 2012, além da “tanga”, caiu a vergonha num país infantil. Quando as “crianças” se portam mal e insistem em comer bife todos os dias em vez da sopa, tiram-se apoios e aumentam-se impostos. Depois, mandam-se para a cama e contam-se-lhes as mesmas histórias de encantar (só muda o tom de voz) antes de adormecer. E mesmo quando as “crianças” até têm certa razão, quem manda são os pais e estes nunca são castigados. Impotentes face ao autoritarismo paterno, as “crianças” portuguesas nem tentam fazer “birra” ou bater o pé, simplesmente fogem de casa para outro lar que os queira tratar com carinho.


O que ficará na última fotografia de 2012?


Cuidado. Para 2013, em vez da bem-intencionada lista de “boas resoluções”, recomenda-se um bom manual de sobrevivência para tempos hostis. Três conselhos.


Primeiro: Não entrar em pânico. O mundo não vai acabar. O fim do mundo é todos os dias, num ser amado ou num ecrã perto de si. Se não for mesmo o seu. O futuro não está escrito em lado nenhum, porque o ser humano nunca teve capacidade de o prever.


Segundo: Não se deixar enganar. A gente está hoje seriamente ameaçada pela poluição mental. Num mundo global, padronizado e cada vez mais informado com a internet, é difícil ter uma percepção acertada da realidade. O instinto volta a ser decisivo. Na política, nos julgamentos, como em tudo o resto, há que ter cuidado com as (l)imitações.



Fotografia de Sandra Pereira

Terceiro: Ajudar e deixar-se ajudar. Dar tudo e não esperar nada na volta. Aceitar tudo e agradecer na volta. Mas de coração. Lembrar-se sempre que ninguém é bom demais, nem mau demais.


Na última fotografia de 2012, já não cabem “meninos”. As “histórias” já não adormecem tão bem as “crianças” como antigamente. Hoje são muitas as que sofrem de insónias ou acordam a meio da noite atormentadas pelo pesadelo do dia-a-dia. Todas sabem que é preciso partir. Para o desemprego, para o isolamento, para a deportação, para a exportação, para a solidariedade, para a luta. Rumo a 2013, o ano das partidas.


As “crianças” cresceram, mas continuam a seguir as indicações e – até os “Passos” – dos pais. As suas mãos já não sangram tanto como antigamente e as tempestades financeiras aterrorizam-nas mais que as agrícolas, mas ainda não se habituaram à secura e brevidade com que tudo é dito e feito nos tempos que correm. É verdade que hoje a fé não chega e só a esperança vai segurando as gentes. É verdade que hoje tudo é dito e feito com método, técnica, regra e esquadro, mas cada acto humano é sempre uma mistura de ciência e arte. É usar as duas sempre combinadas e resolver o que houver para resolver.


Cuidado com a última fotografia de 2012.


Há que escolher bem o ângulo. O de respeitar a direcção de cada um ou o de forçar outra direcção que conduza a algo melhor. Isto sim é arte.


Há que regular bem a luminosidade. Clarear indiferenças ou sombrear hipocrisias. Isto sim é ciência.

Há sobretudo que abrir a focagem e deixar-se “capturar”. Muitas vezes, precisamos de algo transcendental, inexplicável, além de toda e qualquer razão.


Na última fotografia de 2012, fica mais um desabafo antes de partir. Deixe-se o 25 de Abril onde ele está, sempre esteve e deve continuar a estar. Agradeço com admiração toda a intervenção que ele produziu, mas não é por saudosismo que a lembro, mas pela mensagem que transmite, como se fosse o ADN de um povo. Se o mundo já viu tantas vezes o povo a lutar, e se até em Portugal José Mário Branco já viu este povo a lutar, é porque ele luta mesmo!


Na última fotografia de 2012, o melhor do mundo são as crianças.


 

 


 

Sandra Pereira

publicado por Fer.Ribeiro às 18:48
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Terça-feira, 18 de Dezembro de 2012

Intermitências

 

Um parágrafo

 

“O desafio é simples. Todos os dias da semana, escreva um parágrafo. Escreva o que lhe apetecer. Sem medo! Prometo que não o vou julgar.”


Segunda-feira. É incrível, é mesmo extraordinário, o poder ofensivo dos meios de comunicação social para perturbar o quotidiano das pessoas.


Hoje, enquanto bebo um café, um ecrã – esse omnipresente, qual Deus – atira-me uma notícia sobre a inauguração de um laboratório na Faculdade de Desporto da Universidade do Porto onde se poderá estudar qualquer movimento do corpo. O café continuaria a saber bem não fosse… uma declaração do pró-reitor: “Sem a multiplicidade de abordagens, ficaríamos reféns do unificador”. Feito. Fico com cara de fotocópia o resto do dia e, pior do que isso, com a certeza de que é maquinal.


Terça-feira. É incrível, é mesmo extraordinário, o poder estudado da literatura para perturbar o quotidiano das pessoas.


Hoje, enquanto fumo o último cigarro antes de largar a escravidão laboral, o meu olhar choca com o muro de um edifício em frente. O cigarro continuaria a saber bem não fosse… a frase lá escrita. “O verdadeiro sentido das coisas é não terem sentido nenhum”. Feito. Lá vai esta “fotocópia” a esvoaçar pelos ares até cair ao chão e ninguém reparar nela para a apanhar. E depois, não resisto a googlar a maldita frase, precisamente para lhe descobrir o sentido. Feito. O português Saramago ou como se constrói a liberdade de um descrente. O escritor José Saramago ou como se apanha a felicidade fingida de um cobarde: o Homem.


Quarta-feira. É incrível, é mesmo extraordinário, o poder reconfortante da religião para perturbar o quotidiano das pessoas.


Hoje, enquanto lanço um suspiro a olhar para o céu sem saber porquê, juro a pés juntos que não acredito no destino, mas não consigo deixar de culpar a sorte no que faz e acontece aos homens. Azares da vida.




Quinta-feira. É incrível, é mesmo extraordinário, o poder infligido da política para perturbar o quotidiano das pessoas.


Enquanto tento, em vão, a experiência de evitar um ecrã – esse omnipresente, qual Deus – no trabalho, na rua, em casa, no restaurante, na associação de futebol, acabo, mais uma vez e sempre, a render-me cordialmente, de olhar e pensamento interessado. Feito. Fico com gesto de marioneta o resto do dia e, pior do que isso, com a certeza de que é maquinal.


Sexta-feira. Nós, Deus, Pátria… Falta a família. É incrível, é mesmo extraordinário, esse poder absorvente.


Sempre que penso neles começo a suar. Mesmo a temperaturas negativas. Hoje, testei-me. Pus a minha mão em água gelada até conseguir aguentar. No início custou, mas quando comecei a pensar neles, esqueci-me da minha mão. Doía-me mais a alma que o gelo, mas senti-me bem em, por instantes, voltar a ter a companhia dos que um dia me deram sentido.


Sábado. Ser perfeitamente capaz e falhar. Saber tudo de cor e errar. Querer muito e não agir. Em momentos decisivos. Únicos. Quem passa ao lado do desafio, volta ao “unificador”. O seu caminho nunca será aquele, será outro. Talvez menos completo, talvez com mais sentido. Desconhecer e pensar: o fracasso pode levar à loucura.


Domingo. Odeio-o. A sua única missão é dizer aos outros como se devem comportar. Falar alivia, mas não me resolve. Escrever alivia, mas não me resolve. Apresenta as mesmas “abordagens” para os mesmos problemas e assim constrói um “unificador de sentidos” adaptado a todos. Pois então faça o que deve ser feito. Dê-me uma potente droga antidepressiva e finja que estou no bom caminho. Caso o meu julgamento esteja errado, reprograme o meu cérebro ou mude-me de planeta.


“Está de parabéns porque cumpriu a tarefa que lhe mandei. Como lhe disse, não o vou julgar, mas… não pode preocupar-se tanto com o que lhe acontece todos os dias. Não leve a vida tão a sério, deixe-se andar, tem que ser não é? Vou-lhe dar uns antidepressivos e vai ver que, ao abrandar o ritmo, começa a ver as coisas de outro modo…”

 

Sandra Pereira



publicado por Fer.Ribeiro às 12:09
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Terça-feira, 4 de Dezembro de 2012

Intermitências

 

Memória de peixe-elefante

 

Não consegue fixar nomes, não recorda rostos, não decora números, não se lembra dos detalhes de acontecimentos marcantes, nem de gestos importantes que deviam ser feitos. Tem memória de curto prazo, diriam os cientistas. É como os peixes, vive e esquece.


Admira quem consegue fixar tudo: nomes difíceis de pronunciar, datas históricas, capitais de países ignorados no mundo e números, muitos números, sejam centavos ou biliões. Quem nunca esquece uma vivência passada e recorda a cor do vestido usado pela prima afastada, a conversa de circunstância, o bolo de limão comido durante a tarde e os acontecimentos que abalavam o mundo naquele preciso momento. Tem memória de longo prazo, diriam os cientistas. Uma memória de elefante que dá para realizar um filme, escrever um livro ou ser alguém (para um ou muitos) na vida.


Há quem ache que mais vale memória de elefante que de peixe. Ela só sabe que vive de intermitências, sem confirmar o que aconteceu ao certo e se aconteceu mesmo. Não consegue refazer por si o caminho por onde já passou muitas vezes acompanhada. Não tem sentido de orientação, diriam os cientistas. É como os peixes, vive e perde-se.


Mas antes não fixar nomes do que trocá-los. Assim sempre mantém acesa a esperança no outro de que, um dia, ele será importante para ela. Há quem julgue a sua memória de peixe como um triste alheamento da vida. Pobre dela. Também não se lembra de abraçar quem ama. Nem de falar do que sente. Todos sabem. Toda a gente sabe que vai morrer. Não é emotiva, diriam os cientistas. É como as aves, vive e parte. (O ninho fica).




Não consegue ter memória de elefante. Muita gente, advogando tê-la, inventa factos que nunca aconteceram, palavras que nunca foram ditas, emoções que nunca foram sentidas para tornar uma recordação mais apetecível aos olhos dos outros. Muita gente, tendo realmente memória de elefante, vive amargurada em recordar como era bonito o vestido usado pela prima afastada, como era empolgante a conversa de circunstância sobre o sol bonito que brilhava lá fora, como era saborosa a fatia do bolo de limão caseiro comido nessa tarde, como foi transformador e único aquele dia de 25 de Abril de 1974, pois sabe que esse momento nunca mais voltará. E que nada disto o futuro conseguirá alguma vez igualar. Se tudo só se vive uma vez, apenas uma única vez, então o passado não serve para nada. Ela prefere ser como os peixes, viver e esquecer.


Admira os que vivem com memória de elefante. Fixar detalhes que desordenam os “memória de peixe”, repor a verdade em frente às tais recordações fabuladas, muitas vezes difamadoras e cruéis, que saem da boca de outros, revolucionar e transformar a visão dos que não têm memória. Se tudo só se vive uma vez, apenas uma única vez, então o passado serve para deixar a porta aberta aos que vêm atrás, ao possível, à esperança. Ela bem podia ser como os elefantes, viver e lutar.


Hoje não fixa absolutamente nada. Nem peixe, nem elefante. Não se lembra de quem foi. Se a sua vida foi feliz, preenchida, útil, ou antes aborrecida e polvilhada de sofrimentos variados. Não se lembra das vezes em que foi capaz, em que venceu, em que sentiu orgulho, em que sorriu e disse “valeu a pena”. Não se recorda do que a fez sangrar para avisar outros “desprevenidos”. Não se lembra sequer de quem amou. De quem a sossegou nos momentos de tormenta. De quem lhe deu força para continuar a caminhar. Hoje esbofeteia os que a acompanharam a vida toda com os detalhes íntimos, sórdidos e “socialmente incorrectos” da sua vida. Hoje ignora o que, no passado, diria sem hesitar ser a sua razão de existir. Hoje coze as batatas e chama um rosto, outrora familiar, para almoçar às nove da manhã. Hoje senta-se num banco de jardim e não sabe de onde veio nem para onde vai. É como os homens, vive e morre.

 

Sandra Pereira

 

publicado por Fer.Ribeiro às 04:57
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Terça-feira, 20 de Novembro de 2012

Intermitências - A faca que cortava água

 

A faca que cortava água

 

Através de um corte preciso, era capaz de dividir uma gota de água em duas partes iguais, sem qualquer mistura de substâncias ou que cada parte se dissolvesse em várias outras gotículas. Ao princípio, pensou que era uma habilidade sua que até à data desconhecia. Mais uma faceta de si próprio.


Mais tarde, chegou à conclusão. Tudo é divisível neste mundo. E com essa faca, sem qualquer dom especial, separava e afastava duas partes da mesma substância. Ao princípio, pensou que dividia, judicialmente, de um lado o bom, do outro o mau. Assim era o mundo.


Mais tarde, chegou à conclusão. Quanto mais olhava para as gotas, mais lhe pareciam iguais. Contudo, uma movia-se ligeiramente mais do que a outra, ameaçando dissolver-se em várias outras gotículas e criar semelhantes que iriam semear agitação e mais divisões naquela parte do mundo. A outra ficava quieta, serena e brilhante, obediente. Essa era a gota “boa”, pensou.


Tinha que afastá-las mais. A gota “má” não podia contaminar a “boa”, que continuava, naturalmente, bela e brilhante. A “boa” tinha que permanecer na sua parte do mundo e afastar as más influências, que podiam revelar-se destrutivas. Mais tarde, chegou à conclusão. Tudo tem um sentido neste mundo. Embora tivessem nascido da mesma fonte, por alguma razão não reagiam do mesmo modo ao seu corte preciso, que as dividira, judicialmente, em duas partes iguais.


Mais tarde, chegou a nova conclusão. E se não tivessem mostrado todas as facetas de si próprias? E se ele, ao separá-las, não lhes tivesse dado tempo suficiente ou oportunidade de mostrar a sua verdadeira essência? Desfez-se da faca que cortava água e ambas voltaram a jorrar da mesma fonte.


Rápido chegou o desconsolo quando percebeu que deixara de conseguir distingui-las na fonte comum que dissolve individualismos e oculta detalhes. Como iria saber se as gotas de água que queria consumir todos os dias de consciência tranquila eram totalmente “boas” ou continham substâncias “más”? Voltou a procurar a faca que cortava água.


Estava de novo perante uma gota de água dividida em duas partes iguais, sem qualquer mistura de substâncias ou dissolvida em várias outras gotículas. E de novo uma movia-se mais do que outra, ameaçando dissolver-se em várias outras gotículas e criar semelhantes que iriam semear tormenta e desassossego, enquanto outra ficava quieta, serena e brilhante, obediente.



Fotografia de Sandra Pereira

Ao princípio, deu-lhes liberdade e tempo para se expandirem e mostrar o que estavam predestinadas a fazer na natureza. Afinal podia tratar-se apenas de uma questão de (bio)diversidade e cada uma ser “boa” à sua maneira. Contudo, as suspeitas confirmavam-se: a ameaça de criação de gotículas tornava-se cada vez mais iminente na “má”. Já a “boa”, estava cada vez mais brilhante e vistosa. Quanto a ele, precisava de uma prova definitiva, científica e irrefutável. E se dividisse cada uma em mais duas partes?


A faca voltou a cortar água e, desta vez, estavam à sua frente quatro gotas. A ameaça do “batalhão” de agitadas e conflituosas gotículas mudou de “mundo”. A “boa” tinha uma gémea “má” e a “má” tornara-se menos temível com uma gota naturalmente bela e brilhante a seu lado. Estavam agora em pé de igualdade.


Ao princípio, pensou que se tratava de um defeito da faca que cortava água. Tudo é divisível neste mundo, recordou. E ao lado bom, correspondia certamente o mau, como o preto e o branco, a noite e o dia, o inverno e o verão, o céu e o inferno, o amor e o ódio. Assim era o mundo. Mas cada parte não devia estar sempre do mesmo lado? Para desfazer dúvidas, a faca voltou a cortar água.


De novo, as gotas “boas” e “más” inverteram os papéis. A primeira gota “boa” tinha agora à sua volta mais gotículas “más” que a primeira gota “má”, agora praticamente inofensiva com tantas gotículas brilhantes em seu redor. O dilema piorara. Nem tudo o que parece é, pensou. Também assim é o mundo.


Mais tarde, chegou à conclusão. Ao ser dividida, a gota deixa de ser o que era. Embora idêntica à “gota gémea”, é outra substância. Só que a “gémea”, ao perder dimensão, perde, naturalmente, brilho, já é não tão bela e vistosa. O mesmo pensa a “gémea” da outra. Com o mesmo olhar crítico, desiludido. E reprovador. A “gémea” é a “má” que perdeu brilho e força num mundo em estado bruto, ameaçando mesmo, de vez em quando, desintegrar-se e lançar várias gotículas “más” para, com o intuito de sobreviver, poluir a sua própria natureza. Mas a conclusão é só uma: se ambas brotaram da mesma fonte, porque haviam de ser diferentes?

 

Sandra Pereira


publicado por Fer.Ribeiro às 02:43
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