ATÉ NÃO FICAR NINGUÉM
José Carlos Barros
Nas pequenas cidades e vilas da província, nas aldeias dos concelhos rurais, incide o mapa de desistirmos de ser um país. Encerram-se, conforme os casos, as escolas primárias, os centros de saúde, as urgências, as maternidades, os tribunais, as finanças, os troços periféricos dos caminhos-de-ferro. E, por arrasto, os restaurantes onde os funcionários do tribunal almoçavam durante a semana, a taberna, a pequena loja de pronto-a-vestir, os cafés onde se tomava a bica depois de almoço ou se bebia uma imperial ao fim da tarde. É toda uma sociedade e é toda uma economia, já de si frágeis, que se desmoronam como se decidíssemos, por inércia, que uma parte substancial do país deixou de valer a pena.
Mais ai de quem levante a voz ao governante da tutela que risca mais um serviço público do mapa: incha, toma a palavra e saca de imediato de um Relatório Técnico, como antes se sacava de um pistolo, a apontar-nos à cara as evidências. E os relatórios são evidências cientificamente irrepreensíveis.
Lembro-me, em criança, de discutirmos um qualquer estranho fenómeno e andarmos às turras do pode-não-pode-ser. Até que alguém dizia: «mas isto está provado cientificamente». E se estava provado cientificamente é porque era verdade e acabava a conversa.
Pois também estes relatórios são científicos. E tão científicos que se baseiam na matemática e na estatística. Ora, como sabemos desde os bancos da escola, contra a matemática e a estatística – couves.
E como se fazem e de que constam estes relatórios?
A Fulano, 24 anos, média de quinze no curso de Gestão da Católica, assessor do Secretário de Estado, pede-se que faça um relatório sobre o Centro de Saúde da vila Tal. O jovem assessor mune-se dos números das consultas-dia e dos utentes-dia nas urgências, mete-os no Excel e elabora uns gráficos de barras com as modas e as médias. Depois faz as contas aos ordenados do pessoal auxiliar, dos enfermeiros, dos médicos, e aos custos das compressas, do Voltaren, da água canalizada, da electricidade e de manutenção do edifício – para concluir, a negrito, que cada utente do Centro de Saúde da vila Tal, perdida no meio dos montes, desertificada, já quase sem ninguém, custa aos cofres do Estado aí umas vinte e seis vezes mais do que um utente do Centro de Saúde Tal e Tal localizado em Lisboa nas Avenidas Novas. E encerra-se a unidade.
Dividindo um pequeno valor da despesa por um número muito pequeno de pessoas – pode, ainda assim, obter-se como resultado um valor relativo com alguma dimensão. E contra o princípio do consumidor-pagador, que se baseia em valores assim relativos – couves.
O Secretário de Estado, quando se vê confrontado com as escassas três ou quatro dúzias de pessoas que resistem e ainda vivem na vila Tal, a reclamarem por lhes fecharem o Centro de Saúde – puxa do relatório do assessor e, sorrindo, depois de gargarejar, dispara: «estão a ver os gráficos? É que os números não mentem.» E a gente encarta o estojo, envergonhada desde logo por saber que a cura de um furúnculo nosso custa vinte e seis vezes mais ao Estado, em termos relativos, do que o furúnculo de um utente da Rua João Crisóstomo – ainda que o furúnculo de um e outro resulte da infecção dos mesmos e exactos folículos pilosos.
Claro que ao assessor do Secretário de Estado, a começar pelo Secretário de Estado, ninguém pede um relatório a avaliar a percentagem dos impostos do utente da vila Tal que vai directa ao enchimento do buraco dos prejuízos do Metropolitano de Lisboa ou da Refer. É que os milhões desses prejuízos têm uma natureza diversa: é que aí há um interesse Nacional que subjaz ao buraco. E portanto dispensa relatórios.
De resto, dividindo X por muitos milhares, o resultado não é assim tão espectacular como isso do ponto de vista relativo, ainda que o X, que representa a despesa, seja relevante.
O utente do Centro de Saúde da vila Tal, que entretanto foi encerrado, para curar-se do furúnculo saía antigamente da aldeia e alugava um táxi. E vá lá agora explicar-se-lhe, não havendo relatório, que além do táxi também contribui com os seus impostos para o pagamento das centenas de milhões de euros de prejuízo das empresas públicas de transportes que servem os grandes centros urbanos – tão a jeito para os utentes dos Centros de Saúde da capital usarem quando se deslocam a curar um furúnculo. Isso sobre o assunto não há relatórios. Não é que o jovem assessor, entusiasmado, cheio de vontade de demonstrar os conhecimentos que lhe justificam embolsar a mensalidade da assessoria, o não elaborasse se assim lho pedissem: mas ninguém lho pede porque esse relatório estropiava as narrativas.
E é, portanto, assim: contra as verdades científicas dos relatórios que verdadeiramente interessam – couves. E, portanto, em cascata, em dominó, no interior rural fecha-se um serviço público e depois outro – porque isto do princípio do consumidor-pagador está cientificamente provado que dá contas certinhas. E depois, como já não há escolas nem centros de saúde, nem finanças nem tribunais, nem notariados nem agências bancárias – o último a sair apaga a luz.
E, pelo menos, alguém, em silêncio, longe do mundo, enfim respira. Porque pelo menos, não havendo luz, já não se paga a factura da electricidade à EDP – em cujo relatório do processo de privatização o jovem assessor, com média de quinze no curso da Católica, se gaba de ter participado com doze gráficos de barras e a redacção de nove páginas justificativas, demonstrando a relevância para os cofres públicos do encaixe financeiro da operação.
O Comércio
um conto de José Carlos Barros
(continuação)
7. [Acúrsio]
Sim, trabalhei por lá uns seis ou sete meses. Foi há tanto tempo, já correu tanta água nos rigueiros da serra. Seja como for. Podia contar-lhe coisas terríveis. Como tratava a desgraçada da esposa, por exemplo. Bem, sim, não foi coisa que tivesse visto. Dizia-se, sabia-se. E das raparigas que lá iam para isso, claro, falava-se à boca pequena. Eu mesmo me recordo de uma moça que chegou aí a coberto da noite e do segredo que envolveu a casa. Eles fechados no consultório e a dona Maria escondida no quarto a rezar pela salvação do mundo. Era o que se dizia. Aqui houve dois ou três casos, mas as raparigas deixavam-nos vir. Quem não tivesse posses ou um bom amparo. Isto é como tudo.
[8. Custódio]
As pessoas, na Vila, perderam a memória. O que é normal. Não há memória individual que sobreviva à amnésia colectiva. À Vila foram chegando pessoas de vários lugares e por diferentes razões. Para trabalhar nas finanças ou na caixa, chefiar o posto da guarda ou montar um negócio de reclame luminoso por cima da vitrina larga. Não tinham por aqui raízes fundas. Quanto aos outros, os que tinham raízes, foram aos poucos procurando livrar-se delas como quem se livra de um incómodo. Até absolutamente nada distinguir uns e outros. Por isso mesmo encontrará agora toda esta gente tão babada com os partidos de Lisboa, por exemplo. E tão distantes do que verdadeiramente lhes pertencia ou podia pertencer-lhes. Procure-os no reservado do café bebendo vinho branco de marca a acompanhar pratinhos de cigalas. São poucos os resistentes. Procuram, nostálgicos, o que não existe. E também eles já começam a comer cigalas e também eles começam a nem procurar. E apenas se embebedam e fazem filhos que depois desaparecem daqui para longes terras ou arranjam um emprego na conservatória ou na secretaria da câmara. Agora as fronteiras. Sei lá se as fronteiras existiam, sei lá se as fronteiras existiram. Hoje sei que não existem. Nem as verdadeiras nem as outras. As simbólicas. Desde logo porque somos todos iguais e as fronteiras marcam lugares de diferenças. Vamos todos perdendo a memória e vamo-nos todos perdendo por dentro de nós mesmos como se já nem pudéssemos encontrar-nos num livro de regressos. Olhe-me essa gente do reservado do café a comer marisco congelado e a beber vinho de marca depois de ter vendido as vinhas. Se não estou a exagerar? Sim. O mais certo é que esteja a exagerar e que entre mim e o mundo se tenha já erguido uma inultapassável barreira de gelo e incompreensão.
[9. Mário]
A raia sempre foi um lugar mágico e recorrente. Um lugar de refúgio e protecção. Um lugar de sonho. Para procurar o amor ou fugir ao fascismo ou simplesmente à desgraça a que o mundo rural votou fervorosamente os seus filhos. A raia sempre foi um lugar por onde se transportaram ilusões difusas. Um lugar virado ao sonho mas também um lugar de desgraças. Por ali fugiram tantos emigantes não se sabe de quê. Alguns morreram ou desapareceram entre o comércio de passadores sem escrúpulos e esses caminhos que lhes eram estranhos. Mas agora me interrogo. Onde quererá você chegar com estas conversas sobre a raia? Acha que isso atrasa ou adianta à história do Vasco e da galega que se amantizou com o doutor?
[10. Pedro Mendes]
Não acredite na teoria dos acasos. Carmen veio parar aqui por razões políticas. Para isso serviu a fronteira tantas vezes. Podia contar-lhe muitos casos. Desde a guerra civil. Mas também depois, e então sobretudo em sentido inverso. Agora essa história dos desmanchos e da boa-vai-ela por terras de Espanha. Trocaram-lhe as voltas à narrativa. O doutor Magalhães nunca se alheou da política. Certamente que, por razões políticas, a protegeu. Como acreditar que é ao calhas que alguém vem parar a um sítio destes? Já havia história. Só podia haver. Claro que é isso que corre. Que um acaso a levou a casa do doutor. O acaso de mais uma tosga do Vasco. A encontrar uma rapariga deslumbrante, desfalecida, no meio da rua, às duas ou três da manhã. Ou talvez não. Digo eu. O certo é que o próprio destino tem os seus quês quanto a uma coisa ser consequência de outra como se não pudesse ser de outro modo. Que sabemos nós? Fale com o Sousa. O Sousa acompanhava-o nessas andanças. Verá como a história é diferente da versão de vão de escada que lhe contaram. Não quer dizer, enfim, que não houvesse muito vinho e espanholas de salero fácil à mistura. Lá de quando em vez. Mas eram outras as razões essenciais que os moviam. Nas casas de ambos dormiu muito fugido ao fascismo. Repare como a palavra já parece estranha. Soletre devagar. Fas-cis-mo. Esquecemos tão depressa. E depois essas tretas da mulher do médico. Uma beata de fundo de sacristia feita com o padre e as guardiãs da moral. Posso indicar-lhas a dedo, uma a uma, ainda. Todas juntas não fazem uma. A lançarem boatos desses. Nunca compreenderam, não podiam compreender. Acontece que o facultativo. É curioso. O Vasco diz sempre facultativo. O doutor deve ter deixado correr o boato dos desmanchos. A história acabava por lhe ser favorável. Justificava as movimentações estranhas a meio da noite, por exemplo. Esta é que é a verdade. Fale com o Sousa, o doutor pouco lhe haverá de adiantar. Ou nada. Ficou seco. Desiludido com o rumo que as coisas tomaram, com o rumo que as coisas tomavam. Mesmo em setenta e quatro, enfim. A verdade, de qualquer modo, é que Carmen nunca saiu de casa, não permitiu nunca que ninguém lhe visse o rosto por inteiro. Que pretende ocultar, ou revelar, com este mistério? Ninguém sabe. Penso que ninguém virá a saber. Nem você. Há sempre qualquer coisa que se não desvenda nunca, não acha? Um segredo, um mistério, o avesso de uma evidência permanecem para além do que sabemos e para além de todas as indagações.
[11. Júlio France]
Lembro-me de quando rapavam fome e não tinham uma leira e não amanhavam emprego. Nessa altura eu não era ainda o passador sem escrúpulos mas a tábua de salvação no meio da tormenta. Davam-me prendas, prometiam favores, convidavam-me para apadrinhar os rapazes e dar-lhes o nome. Empenhavam-se, é certo. Mas essas casas que vê agora a erguer-se com telhados suíços, esses carros lustrosos em que regressam, esse nariz erguido a pedir rodadas de grades, é a mim, e a outros como eu, que devem. Porque também nós arriscávamos o futuro. O nosso e o dos nossos. O mesmo com o contrabando, não lhe escondo que fiz muito. Contrabandeávamos as coisas mais incríveis, até enxadas e foices. Mantas e calçado, café e tabaco, cacau e perfumes baratos. E por isso, você não é desse tempo, as raparigas, nos bailes, nas festas, nas bodas, cheiravam todas ao mesmo perfume. Certa vez a minha mulher andou quase três horas em redor da capela de S. Caetano com um saco de contrabando à cabeça. Como se fosse o centeio de uma promessa grande. Eu andava seguido. E então com a guarda republicana a espreitar de um lado e os negociantes a espreitar do outro. Duma outra vez, em princípios de vida, impingiram-me uma remessa de sapatos todos do mesmo pé. O que passei para os vender, na feira da Vila, nos largos das aldeias, com artes e maroscas que só eu sei. Agora, eu que fui preso, que andei fugido pelos atalhos dos montes, sou corrido de passador sem escrúpulos. Por esses mesmos que livrei da desgraça dos trabalhos do campo. Por esses que vê de porta aberta no comércio, de espadinha com cromados puxados a parafina, de casa forrada de azulejos, de esposa no cabeleireiro duas vezes à semana a fazer mises.
(continua amanhã)
Uma árvore e um presépio
José Carlos Barros
GOSTO do Natal ainda que o Natal seja cada vez mais a procura de um lugar que não existe. Gosto do Natal ainda que o Natal seja cada vez mais a imagem de uma impossibilidade. Em Dezembro, ano após ano, procuramos dentro de nós a força que nos ajude a recuperar um lugar ou a aproximarmo-nos dele. Cada vez nos afastamos mais desse lugar. E cada vez nos esforçamos mais por nos aproximarmos dele.
O NATAL é ainda, será sempre, o frio. O frio para que faça sentido acender as lareiras e apeteça chegar a casa e sair de casa com casacos e gorros. A chuva. A geada. Ou a neve: o branco sobre os campos e os passeios e as ruas como o algodão da árvore de Natal. E o presépio: não mais que uma dúzia de pequenas imagens de barro. O musgo disposto cuidadosamente pelo espaço todo: a base. A serradura a desenhar os caminhos. Duas ou três ovelhas. Os reis magos. A cabana a fazer de estábulo. Maria, José, o Menino Jesus. Nessa altura não se discutia ainda se o boi e o burro tinham lugar. O boi que conhece o seu amo. O burro que conhece a manjedoura do seu senhor.
O NATAL é um lugar que fica sobretudo na infância. Descia-se até à curva do rio, subia-se depois pelo estradão de um bosque. Não era ainda o tempo dos pinheiros de plástico: escolhia-se demoradamente a árvore, entre mil, que deixaria de ser uma árvore para passar a ser a árvore de Natal. E é assim: ano após ano. O presépio e a árvore, o cheiro dos fritos e a surpresa dos presentes embrulhados em papel de fantasia, a fogueira na rua, a neve, os pinhões, o jogo do rapa e
o desconhecimento da morte. Isso, sobretudo, era o Natal: o desconhecimento da morte. Porque na mesa do Natal não havia ainda nenhum lugar vazio.
O NATAL é um lugar que fica na infância. Só uma criança conhece o segredo que transforma uma árvore numa árvore de Natal.
Ainda a Feira dos Santos
texto de José Carlos Barros
Não fui à Feira dos Santos. No ano passado também não fui à Feira dos Santos. E, de súbito, é como se a Feira dos Santos começasse a emergir de um lugar concreto e ausente, afastado e próximo, volátil e efémero. É como se a Feira dos Santos, não mais que de repente, passasse a reverter apenas da memória ou da imagem de névoa que traz de longe os objectos que se perderam ou adquiriram um uso diferente.
Este ano não fui à Feira dos Santos. Não vi os ferros espetados nos passeios nem as espias das tendas da Feira dos Santos. Não vi a confusão de gente subindo e descendo as ruas. Não vi as samarras nem o preço dos tachos e das panelas desenhado, às vezes trémulo, às vezes em gótico, num pedaço de cartão canelado. Talvez a Feira dos Santos há muito, em mim, tenha passado a ser apenas o que por um esforço de memória lhe pertence.
Lembro-me: a taberna ficava quase no fundo da aldeia. Na fotografia o boi barroso tinha as fitas vermelhas dos enfeites e numa estante exibia-se o troféu. Era nas Lavradas. Bebíamos vinho numa tarde de Novembro que deixava lá fora o frio das navalhas poisado nas pedras e comemorávamos e falávamos do prémio com o orgulho (a que outros chamam vaidade) de quem vence um prémio na Feira dos Santos.
Lembro-me: rendia-me, fascinado, a olhar a geometria do entrançado quase mágico das varas dos castinçais e a adivinhar a honra do meu avô (isso a que outros chamam vaidade) ao ouvir toda a gente a gabar essa sua arte inimitável. Mas uma vez, na Feira dos Santos, o meu avô viu as mais perfeitas e arrumadas varas. Primeiro não queria acreditar. Depois ficou a conversar com o artesão. Começou logo a chamar-lhe mestre. Partilharam segredos, revelações. E o meu avô, na feira dos Santos, comprou um cesto de carvalho ao artesão da aldeia de Lousa, Torre de Moncorvo. Durante muitos anos, na vindima, era esse o cesto que recebia, num ritual, as primeiras uvas. E o meu avô, invariavelmente, dizia: "Este cesto foi feito pelo José Pulgas. Nunca vi ninguém tão perfeito na arte. Conheci-o na Feira dos Santos".
Como dizer, pois, que este ano não fui à Feira dos Santos? Como dizer que também no ano passado não fui à Feira dos Santos? Eu vou sempre à Feira dos Santos. Eu fui todos os anos à Feira dos Santos.
Juro pela jukebox do Tabolado que estive sempre na Feira dos Santos mesmo nos anos, ou sobretudo nesses anos, em que lá não fui.
Metáfora do nosso tempo
com recurso às golas dos açudes
poema de José Carlos Barros
o mecanismo é o mesmo
nas golas dos açudes
à superfície
é quase invisível o círculo a transformar-se em elipse
mas depois a força helicoidal da massa de água
puxa os corpos para o
buraco da descarga de fundo
como a acção de um íman
sobre objectos metálicos
minúsculos
o mecanismo é o mesmo
pensamos sempre que vemos o que não vemos
é uma tarde vagarosa com
a luz a atravessar os objectos
mas o buraco está debaixo de água e
é imune aos discursos das boas intenções
é refractário à sintaxe
é assim nas golas dos açudes
a hélice invisível puxa-te até ao fundo
primeiro parece apenas uma ligeira rarefacção do ar
depois sentes que a respiração é cada vez mais difícil
no último instante compreendes que
o buraco tem espaço suficiente para passar a cabeça
mas que é impossível
passar o resto do corpo
O QUE TROUXEMOS DE CHAVES
um texto de José Carlos Barros
1.
Antigamente, a gente ia a Chaves fazer o quê? E trouxemos de lá o quê?
2.
Em Boticas, no final dos anos sessenta do século passado, fazíamos cabanas com ramos e folhas dos plátanos no meio da avenida, e era reduzida a probabilidade estatística de termos que desmontá-las para que um automóvel pudesse passar subindo ao Eiró ou descendo a caminho da Vila. Porque quase não havia automóveis fora da estrada que vinha de Chaves ao largo do Toural.
Não era já como nos anos vinte, claro. O jornal de Boticas, por esse tempo, noticiava a chegada à Vila do senhor doutor António Granjo, vindo de Chaves para um dia de trabalho -- ou, o mais certo, para se encontrar e conspirar com os correlegionários políticos na salinha interior da Farmácia Martins. E em letra de forma escarrapachava a data de partida do senhor padre Pedro para as suas férias na Póvoa de Varzim, atenta a relevância, desde logo por raridade, do acontecimento. Claro que não era já assim nos anos sessenta e nos anos setenta. E ir a Chaves, então, era já uma coisa de costume, de rotina, sem lugar a notícias no Echos -- e ia-se já de vacances para a Póvoa ou para a foz do Cávado, em Ofir, sem que isso, não sendo propriamente de frequência desusada, desse lugar a notícias num periódico regional e regionalista.
As crianças andavam na rua. O anexim não se repetia por algum especial gosto em trazer ao quotidiano as manifestaçõs genuínas do folclore: dizia-se
"parece que pariu aqui a galega"
porque de facto éramos às dezenas, os petizes, a correr atrás de uma bola ou a andar de bicicleta pelos carreiros ou a inventar jogos de tarde inteira do género o guarda e o pilha. Não havia internet nem plataformas digitais nem consolas de vídeo. E quando em Junho de 1974 o Sporting venceu o Benfica na Taça de Portugal, eu e o Bau, sem facebook para nos metermos em casa ou no Cyber a enviar mensagens e a fazer comentários e a carregar nos likes, saímos para ao pé da igreja a acenar com duas bandeiras verdes aos poucos carros que passavam.
3.
(Mas já nos estamos a desviar do assunto.)
4.
Compreende-se que não fôssemos a Chaves por dá cá aquela palha. Mesmo os que prosseguiam estudos em Chaves -- e eram poucos os que prosseguiam estudos, e menos ainda os que os prosseguiam em Chaves -- ficavam lá à semana: os vinte quilómetros que separavam a vila e a cidade eram, então, ainda coisa de respeito.
Íamos lá, portanto, fazer o quê? Cada um terá a sua memória própria. A minha -- da infância e do princípio da adolescência -- lembra-me que ir a Chaves se misturava entre a alegria -- e o pé-atrás; entre o fascínio das luzes da Feira dos Santos -- e a chatice do consultório de oftalmologia; entre os sumois na Sissi -- e os corredores velhos do hospital velho e o cheiro a anestesias quando íamos de visita a um familiar acamado; entre o tumulto dos jogos do Desportivo contra o Riopele -- e o terror da cadeira do dentista; entre a euforia lenta de entrar na Ana Maria para comprar um romance ou no quiosque com a ansiedade de ver se a Tele-Semana já estava nas bancas -- e a seca de uma tarde em lojas cinzentas a experimentar as calças e os casacos do inverno.
Depois crescemos. Depois descobrimos a cidade verdadeiramente e nela nos perdemos às vezes ainda com a ilusão que permanece de que era para nos encontrarmos que às vezes mais nos perdíamos. Depois era o liceu e era o amor e eram os primeiros projectos de começarmos a mudar o mundo. Depois era o futebol e a literatura. Depois eram as olaias do Largo das Freiras e os copos de vinho em tabernas escusas. Depois eram os automóveis e a noite, depois era a manhã a nascer por detrás de um monte, depois era o sol do Verão iluminando as paredes dos edifícios como nunca mais nenhum sol iluminou uma rua ou um rosto -- e o nevoeiro tão espesso, dias seguidos, que podíamos moldá-lo e esculpir uma pirâmide efémera ou uma bola quase de cristal com os segredos do mundo lá dentro.
O que fica, tantos anos depois, disto tudo?
Talvez o liceu e a sala dezanove. Talvez um poema publicado num suplemento literário de um jornal da província. Talvez uma árvore no Tabolado, a sua sombra desenhando um perímetro de defesa, e umas mãos que se misturam à procura dos primeiros nomes verdadeiros. Talvez os amigos. Talvez, sempre, os amigos: os amigos que bebiam traçados no balcão corrido do Faustino e vinho em seis tabernas escusas e cerveja em copos de litro numa mesa próxima do rio; os amigos que jogavam à bola no Picadeiro ou no campo do Desportivo nos treinos juvenis de captação; talvez as casas dos amigos onde jogávamos xadrez ou passávamos noites a jogar às cartas ou uma garagem onde dançávamos ao som de um gira-discos. Talvez um baile de máscaras. Talvez um degrau na rua Direita onde enterrámos a cabeça nas mãos a iniciarmo-nos na consciência da possibilidade definitiva das perdas e da estupidez da velocidade. Talvez os matraquilhos montados em barracas com elementos metálicos pintados em letras maiúsculas nas margens do Tâmega. Talvez um baile no Jardim Público. Talvez uma tipografia na Rua de Santo António e o ruído melódico das máquinas de impressão. Talvez as mãos em segredo por baixo da mesa de um bar como se a felicidade não fosse uma coisa assim tão distante como vem descrito nos livros. Talvez o cheiro a gases queimados de um barracão imenso onde apanhávamos a camioneta da carreira. Talvez os bilhetes rasurados onde marcámos encontros clandestinos. Talvez um pio-pardo caçado com invulgar perícia nas traseiras da casa do Santo Amaro. Talvez um quadro do Nadir e um texto do Fernão de Magalhães Gonçalves. Talvez uma conversa literária. Talvez um riso, talvez uma lágrima. Talvez um automóvel com seis pessoas a meio da noite a caminho de Espanha. Talvez uma navalha na cervejaria Romana. Talvez a ilusão de que uma boa parte do mundo -- cidades, estrelas, mulheres -- nos haveriam de pertencer para sempre. Talvez a certeza de que éramos justos e dignos e imensos em todos os crimes que acabávamos por cometer.
5.
É isto, tanto, tão pouco, o que fica de uma cidade tantos anos depois. Imagens vagas, memórias atravessadas por encontros e ausências, pelo sentimento da dádiva, pela incerteza definitiva das perdas.
Porque de Chaves, como quase sempre acontece, trazíamos o que levávamos, levávamos o que trazíamos -- somando-se a isso, e subtraindo-se, tudo quanto éramos ou julgávamos ser.
E depois, quase sempre, regressávamos à Vila na camioneta da carreira ou num automóvel que gostávamos, antes das curvas de Sapelos, de confrontar com a nossa ideia de que os perigos nos haveriam de continuar a acompanhar a vida toda.
E regressávamos, portanto, a Boticas quando fosse o fim da tarde ou a manhã começasse a nascer por cima dos montes.
6.
E só os perigos continuam, ainda, sempre, a acompanhar-nos um dia depois do outro.
UMA VIAGEM
poema de José Carlos Barros
Quando este texto for publicado on-line, falando
de lugares mágicos, espero estar aí, nesses
lugares, a dormir nas margens de um rio
com a ilusão de que, em parte, me é permitido
regressar a mim mesmo e a uma parcela ínfima
dos sonhos que ao mundo não foi ainda
dado roubar-nos. Há um caminho,
primeiro, a percorrer. Antes de chegar
ao Mousse. Antes de chegar ao Mente. Antes
de chegar às margens de um rio onde os
amigos haverão de dormir sob um céu de estrelas
ou ameaçadoras nuvens. E seis árvores, precisamente
seis, haverão de confirmar-nos que poucas
coisas mudam no mundo, e só vagarosamente
mudam, quando apenas nos conformamos
com os milagres do mundo. Haverei, a
caminho, de parar em Mairos. Apenas
para confirmar que uma horta que é um jardim,
ou um jardim que é uma horta, ou uma horta
e um jardim que são simultaneamente
a mesma coisa, continuam acertados com a
meteorologia e as estações, ou acertados
com a imprevisibilidade delas. Talvez aproveite
para beber cerveja neste café a que se chega
por um corredor estreito de cimento. Mas porque
me apetece ficar um pouco sentado cá fora
a olhar um cacto gigante e uma couve, um campo
de milho ou uma sebe de buxo, e essa
arte tão antiga de domesticar as plantas
e misturá-las para nos darem um fruto, uma
sombra mais alargada, uma luz no outono
ou o prazer dos fenómenos. Haverei
de virar à esquerda, a noventa graus. E depois
entrar na capital da batata, no planalto ecológico,
nessa vastidão de campos que são já
da Galiza sem deixarem de ser da Terra Fria,
que são já fronteira sem deixarem de ser
continuidade e aproximação. E aí, em
Travancas, no Café Central, é provável
que beba cerveja. Mas apenas para me sentar
na esplanada e continuar a olhar a cerejeira
que cresce rente a um muro, do lado
direito, na estrada que em seguida me levará
a Argemil e a S. Vicente da Raia. E em
São Vicente, depois de acompanhar o rio
serpenteando sem derivações bruscas, antes
de se olharem, do alto, os vales com os
seus quadriculados amarelos e verdes,
as encostas erguendo-se em modulações
entre o verde e o castanho, é provável
que pare por alguns momentos
e beba cerveja. Mas apenas porque
me há-de apetecer ficar sentado a uma
mesa de pedra, sob uma latada
ampla, a olhar o ondulado das cumeadas
sucedendo-se na distância. Descerei
então em apertadas curvas deixando Aveleda
à esquerda arrumada num pequeno vale
com o xisto quase improvável a sair dos montes
para as paredes das casas. E, enfim, chegarei
a Segirei. Não seria necessário continuar
até Segirei: porque deveria virar à direita
antes de chegar a Segirei. Mas é preciso regressar
às memórias antigas de um café que
já fechou há muito, e às memórias antigas
da cozinha e do pátio e da adega da casa
do Ramiro. Por isso não chego a parar. Sigo
devagar, faço inversão de marcha no espaço
mais alargado da ponte da praia fluvial,
e rumo em sentido contrário, deixando
novamente Segirei e o tempo suspenso da
revelação dos seus nomes. É
esta a viagem: chegar a Pejas. Encontrar
os amigos que me esperam na margem
de um rio. Olhar as seis árvores, precisamente as
seis árvores onde procuro a demonstração
de que o mundo quase não muda, e muda
muito vagarosamente, quando apenas
nos bastam os milagres do mundo. Sentar-me-ei
então em redor de uma mesa de madeira.
E talvez não beba cerveja. Mas vinho. Para
que o vinho possa deixar durante muito tempo
a memória dos encontros, a memória
dos milagres, a memória desse
momento de aparição em que por um instante
breve nos é revelado o mistério de estarmos
vivos em nós mesmos e no coração
dos que não podem deixar de amar-nos para sempre.
José Carlos Barros
Fotografia de Ana Luisa Monteiro
ENSAIO SOBRE O MUNDO RURAL
a propósito de As Verticalidades/Horizontalidades de Barroso,
livro de fotografia de Ana Luísa Pires Monteiro
um texto de José Carlos Barros
Este não é um livro de fotografias. É quase um livro de fotografia. E seria verdadeiramente um livro de fotografia se não tivesse texto.
Porque as fotografias devolvem-nos um único e mesmo olhar. Não é um olhar curioso de quem procura descobrir as coisas e nos dá os resultados dessa busca, dessa curiosidade, desse maravilhamento com as descobertas. Não é o olhar de quem procura tempos e lugares de calendário, de catálogo, esmagando-os em beleza, alegria, grandeza ou exaltação festiva. Não: o olhar que estas fotografias nos devolvem é feito de sedimentação, de coisas desvendadas, de depuração. De lentidão. De uma urgência feita de saber esperar.
E por isso todas estas fotografias são uma mesma e única fotografia.
E que fotografia é essa?
Comecemos pela epígrafe e pelo texto introdutório da autora: um louvor das terras de Barroso, um poema de amor ao Barroso. E olhemos, depois do anúncio deste propósito, as fotografias -- ou a fotografia única que estas fotografias são. O que vemos assim de repente? Abandono, ausência, desolação, devastação.
Fotografia de Ana Luisa Monteiro
Começa por surpreender-nos, pois, necessariamente, esta contradição aparente: como se um hino de amor pudesse ser dado pelos momentos em que esse amor exigiu esforço ou abdicação, e não pelos momentos feitos de alegria e exaltação.
E é essa, a meu ver, a chave do livro, o segredo desta única fotografia que resulta do conjunto de todas.
Vamos por partes.
O que vemos no conjunto de fragmentos que cada uma destas fotografias é, como peças de um puzzle que se desvenda juntando o conjunto das peças?
Fotografia de Ana Luisa Monteiro
A devastação dos incêndios. A cinza e os troncos queimados. As guardas em granito de uma ponte que parece levar a lado nenhum. Degraus que já ninguém sobe. Nomes antigos de lugares como esse de que Torga dizia: "entro nestas aldeias sagradas a tremer de vergonha". Placas direccionais como metáfora das encruzilhadas. Cruzes ou cruzeiros como memórias de crucificação. Um anjo como se fosse um fantasma antigo que já não pudesse proteger-nos. A linha do horizonte separada de nós por uma trama, uma rede, uma vedação. Rebanhos sem pastor. Veredas, caminhos de sombra. Pedras de memórias da morte ou da desistência. Objectos hoje sem uso, ferramentas sem a mão que um dia as justificou. Ruínas, paredes derruídas. Caixas de correio à espera de cartas que já ninguém escreve. O esqueleto de canastros -- imagem negativa, invertida, da abundância. Rara vegetação a emergir da neve sobre os campos. Vãos abertos em paredes de granito a mostrar o silêncio, a ausência, o céu ao fundo como o desenho de uma impossibilidade. Portas fechadas. Uma porta e outra. Uma porta carral. Portas que talvez não mais possam abrir-se para lugar nenhum.
Fotografia de Ana Luisa Monteiro
E nenhum rosto. Nenhuma figura humana.
É isto que vemos. É isto que nos mostra, e deste modo que nos mostra, quem procura mostrar-nos o amor à sua terra.
Esta aparenta contradição é a chave do livro. É a sua força. E está em linha com o que a arte tem de melhor para nos dar: inquietação, interrogação, sobressalto.
Contradição, claro, como se vê, só aparente.
Porque, de facto, o amor não se revela tanto no que nos dá, mas no que nos custa. Porque o amor se revela mais no que nos exige de abdicação do que naquilo que nos dá em sossego e pacificação. Porque o amor se revela mais na capacidade que tivermos de construí-lo, pedra sobre pedra, e menos no que nos devolve sem cicatrizes nem inquietude.
Este é o modo como nas imagens do livro se revela o amor às terras de Barroso que vinha anunciado como propósito na epígrafe e no texto introdutório da autora:
por um lado numa procura do que é essencial, do que é elemental, do que é matricial, do que é já tudo sem ainda o ser. Numa procura de possibilidades, de mundo a haver;
por outro lado através desse jogo de mostrar o que se esconde, ou de esconder o que se mostra.
Regressemos a uma das mais perfeitas metáforas desta fotografia: a das portas; a das portas fechadas.
Na porta fechada somos confrontados com o que está além dela. Ana Luisa, de um modo sage, de uma maneira depurada, sedimentada, enuncia sem dizer, alude sem mostrar. Estas fotografias, portanto, deixam-nos no limiar de uma parede, de um muro, de uma porta fechada: para que seja cada um de nós a descobrir o que lá não está, para que seja cada um de nós a estabelecer a sua própria narrativa. Porque a arte não existe nunca se for sentido único: a arte exige sempre essa partilha, essa procura conjunta dos segredos e dos milagres.
Fotografia de Ana Luisa Monteiro
Não podemos esquecer que a fotografia é hoje a forma artística, digamos, mais democrática. Todos podemos fotografar. Fotografar não exige mais que apontar a máquina e premir um botão. Ora a fotografia, enquanto arte -- e arte maior --, não existe se não for capaz de nos mostrar sobretudo o que lá não está: o que se insinua, o que se adivinha, o que se pressente, o que nos sobressalta de sermos cúmplices dessa procura e desse entendimento.
Mas a autora decidiu que estas fotografias deviam ser acompanhadas por textos. E pediu a familiares, a amigos, que escrevessem um texto para cada uma das fotografias.
Como seria de esperar, a multiplicidade de intervenientes dá-nos uma multiplicidade de olhares: aqui, nos textos, perde-se em unidade -- ganha-se, é certo, em emoções, em cumplicidades.
Os textos são díspares: pequenos apontamentos, textos que procuram acompanhar as fotografias, textos que se impõem por si mesmos independentemente da fotografia. Textos literários, comentários, frases soltas.
E histórias.
Uma delas serve-me para procurar clarificar aquilo que pretendi dizer ao falar destas fotografias, desta fotografia. O texto de Xavier Barreto.
Antes: este livro passava bem sem os textos. Não é preciso explicar o que está por detrás de uma fotografia. O que faz sentido é procurar, perdermo-nos, encontrar um caminho, voltar atrás, regressar de novo aos segredos e interrogações da imagem. Mas o texto do Xavier é um bom exemplo.
Numa das fotografias há uma casa abandonada, de paredes derruídas, feita de ausências, perdas, abandono. E cada um de nós sente o sobressalto, a necessidade de procurar ver o que está além da casa: vidas, segredos, narrativas que nos é possível inventar. Pois Xavier desvenda-nos os segredos desta casa ao contar-nos a história deliciosa de António Afonso. Foi há mais de 150 anos. António estava apaixonado. O pai da noiva, no entanto, não lhe entregou a filha porque António só tinha três vacas. O pai da noiva não lhe entregou a filha para casamento com o argumento de que se precisasse de fazer duas juntas de vacas teria que pedir uma vaca emprestada aos vizinhos. E Xavier conta-nos, a partir deste episódio, toda a história da casa e de uma família ao longo de várias gerações. Mas além da história, além do texto, permanece a imagem sem legenda. E a nós, leitores, fica-nos a possibilidade de, a partir desta imagem assim de novo revelada, reinventar o resto do mundo.
Fotografia de Ana Luisa Monteiro
Os textos, maioritariamente, falam de
ausências ("alimentam-se as ausências", escreve Ana de Almeida Santos),
de solidão ("corpos forjados no tempo encadeado em solidão", nas palavras de Alfonso Láuzara Martinez),
de rudeza, de granito, de dificuldades, de sangue e de lágrimas, de um tempo em que "a solidão da noite te adormeceu no colchão de palha" (cf. Narciso Miranda),
de "cadeias que uniram", como diz J.B.César,
de milagre, de mistério, de tragédia.
Nádia Ferreira pergunta: "que segredos escondem estas paredes?"
E Fátima Vale lembra que "a mão de sangue está marcada em todas as portas".
Minês Castanheira, a propósito de uma escaleira improvável, diz que "fomos feitos para estes lugares de passagem".
Altino Rio vai em busca dessa ideia de património, material e imaterial, e recupera-nos "a porta de serventia".
Em grande parte destes textos o que emerge é isso: o que se perdeu, as casas em ruína, o abandono, o que não é possível recuperar, os impossíveis regressos, a cinza, a fuligem que desistiu de esperar e se desfez em estilhaços, como insiste Hermínio Fernandes.
E a devastação e o desejo (uma já impossibilidade) de que, em vez das árvores depois do fogo, pelo menos permanecesse "a labareda, o vermelho vivo ateado solenemente", como é possível ler num belíssimo poema de Rui Almeida.
É curioso -- talvez por efeito das fotografias que são o ponto de partida destes textos -- como o que prevalece é a associação destes lugares às dificuldades e às ausências e ao abandono -- numa espécie de contraponto à bonomia urbana, ao conforto da urbe, aos seus risos estrídulos.
Curiosamente -- talvez o tempo presente, por entre todas as suas desgraças, nos esteja a ensinar que não é bem assim; que talvez tenhamos que rever a matéria toda; e que talvez não haja outro caminho que não seja o de rever os nossos áridos caminhos antigos. Que talvez, antes de tudo o mais, seja indispensável redefinirmos as nossas prioridades.
Talvez então compreendamos que não iremos a lado nenhum se não regressarmos ao que é essencial. A essa crueza. A esse chão de pedra. A essa pedra da lareira. A esse ramo de árvore. A essa terra inicial e elemental a partir da qual, como numa coisa que se constrói em conjunto, na adversidade, tudo passa a ser possível.
A fotografia de Ana Luisa é isso que procura e nos propõe: um regresso ao que é essencial. A essa elementaridade. Deixando-nos a nós procurar ou adivinhar o que está do outro lado de uma porta fechada. Porque estes retratos mostram-nos sobretudo, ou revelam-nos sobretudo, o que as imagens não mostram mas já lá está inscrito.
Às vezes é no meio dos desastres que as mais inspiradoras e iluminadas luzes se acendem.
A lenda das duas chaves
um texto de José Carlos Barros
[Parte I]
Décio, comandante da Legião Sétima, subiu a escadaria monumental do palácio com a emoção de ser recebido pelo imperador Tito Flávio Vespasiano. Enquanto esperava deram-lhe cerveja num copo alto de vidro. Roma sufocava sob um manto de fogo que o Verão espalhava sobre os telhados e as ruas. Décio bebeu um trago e admirou o milagre da ascensão contínua das minúsculas bolhas límpidas.
O imperador chegou à antecâmara e ficou, divertido, a olhá-lo a erguer o copo à transparência da luz que vinha do pátio.
«Sabes como vou chamar a esta bebida? Imperial. Não te parece um achado? Imperial. A bebida do Império.»
Tito Flávio Vespasiano tinha um afecto especial pelo jovem primo. Abraçaram-se como se o nume do poder os não separasse. Sentaram-se.
«Sabes, Décio? Imaginei que a cerveja, metida sob pressão numa cuba frigorífica, e correndo depois por uma serpentina gelada, haveria de sair cheia de vida quando se accionasse uma torneira de secção reduzida. E deu nisto. Na imperial. Não achas fabuloso?»
Que sim; com efeito.
E continuaram a beber enquanto o imperador lhe contava os pormenores da sua nova obsessão: uma bebida gaseificada, escura, estimulante, feita à base de caramelo, cafeína, açúcar da frutose do milho e goma do fruto da cola.
«Já estou em testes. A imperial e a cola haverão de ser, um dia, os símbolos mais perfeitos de um Império que unificará povos e credos.»
A cerveja muito gelada começou a dar-lhes lassidão, desprendimento. Décio, respeitoso, não se atrevia a perguntar o motivo do encontro. E foi o imperador, erguendo o braço para que trouxessem mais cerveja de serpentina, quem finalmente abriu o jogo:
«Gostava, primo, que aceitasses ser o meu procurador num dos lugares mais remotos e fascinantes do Império. Aí se descobriram águas de saúde. Nada a que a minha imperial possa comparar-se. Águas de Flávio, eis como, em minha honra, o lugar foi designado. Porque a água quente brota da terra para curar todos os males do corpo.»
Décio começou a ver o filme – que é um modo de dizer: o cinema, como a coca-cola, não tinha sido ainda inventado. Bebeu mais uma imperial, a apreciar de novo, fascinado, o emergir das bolhas, e ficou à espera.
E então o imperador Tito Flávio Vespasiano, seu primo, continuou:
«Gostava que fosses o meu procurador em Águas de Flávio. Começarias por abrir um tasco, a que darias o nome de ‘Romana’, onde se venderia imperial em copos de litro. E, com base nas águas quentes que brotam do interior da terra, desenvolverias uma indústria que os séculos futuros haverão de conhecer pelo nome de ‘termalismo’. Claro que a viagem é custosa. O avião, como sabes, não está ainda suficientemente testado. Por via marítima desaconselho: sabes a bronca que andam a dar os nossos navios de cruzeiro. E portanto irias de TGV até à Gália, o que não está mal. Mas depois, com o atraso endémico da península e a treta da bitola ibérica, serias obrigado a prosseguir em comboio a vapor: no Texas, como lhe chamam. Seja como for: os esforços justificam a empresa. Gostaria muito que Águas de Flávio passasse a constar dos mapas do Império. E ninguém melhor que tu, meu caro primo, para o cumprimento deste desígnio. Posso contar contigo?»
Décio pensou por instantes em Lúcia, filha do cônsul Cornélio Máximo. Na sua amada Lúcia. Mas a resposta não poderia ser outra:
«As suas ordens são os meus desejos, Senhor. Hoje mesmo tratarei da logística. Eu e os meus homens, na madrugada de amanhã, estaremos na Estação Central de Fiumicino a tempo de apanhar o TGV para a Gália. E depois logo se verá: essas Águas de Flávio não haverão de ficar no fim do mundo. E o Texas não deve ser um comboio tão mau como se diz.»
[continua…]
A impossibilidade de olhar objectivamente as coisas
José Carlos Barros
Apercebo-me de repente, não mais que de repente, que parece ser-me impossível escrever sobre Chaves sem escrever ficção. Não é propositado: é o contrário disso: uma impossibilidade. Não é um artifício literário: é a incapacidade de olhar objectivamente as coisas.
Fernando Ribeiro escreve sobre o programa deste ano da Feira dos Santos: leio e sou tentado, assim à distância, racionalmente, a dar-lhe razão. E, no entanto, simultaneamente, apercebo-me da nenhuma preocupação que o caso me suscita. Porque a Feira dos Santos, na minha memória dela, nunca teve programa ou teve programa e o programa sempre me passou ao lado.
Apercebo-me de repente, não mais que de repente, que sofro já, irreversivelmente, do síndrome do emigrante. Saí cedo. Os meus regressos são cada vez mais espaçados. E o afastamento levou-me a ser o que julguei durante muito tempo serem os outros com as suas qualidades e os seus defeitos: os que já eram de fora.
O tempo passou a devolver-me a cidade de Chaves como um lugar em que a névoa -- não necessariamente o nevoeiro concreto que descia sobre a urbe semanas a fio quando o Inverno começava a insinuar-se -- se misturou à memória até esborratar as fotografias e as deixar em cima das mesas entre o sépia, os vários tons de cinzento e as pinceladas largas de imaginarmos o que terá sido se a realidade não fosse o que é. E a realidade, assim vista de longe, é tudo menos o que haverá de ser.
A cidade de Chaves começou por ser a cidade para quem era do mundo rural e a cidade fascinava e desiludia. Mas sempre em grande e em grande estilo: à grande e à francesa: desilusões imensas, fascínios de romance.
O que recordo da cidade, o que ainda hoje vivo dela, é essa espécie de concretude feita de ilusão e remorso: magia de ter sido feliz; mágoa de o mundo ser uma esfera tantas vezes fechada contra o seu próprio centro e nos vermos contidos nesse perímetro escuro.
Chaves, tal como posso guardá-la, é ainda o lugar onde o cheiro a gasóleo e o mistério da combustão imperfeita se desenhavam no espaço de uma garagem de camionetas de carreira da Auto-Viação do Tâmega. Chaves é ainda a mesa da Sissi com uma taça de vinho branco e meia dúzia de pasteis em dia de feira. Chaves é ainda o sapo do Faustino e o balcão corrido, com um espelho ao fundo, das girafas da Romana. Chaves é ainda as moelas e as imperiais dos Amigos e a orelha cozida do Kambu. Chaves é ainda o espaço lá ao fundo do supermercado onde os melhores rissóis de camarão do mundo custavam três escudos e quinhentos. Chaves é ainda uma garagem com música numa tarde de feriado que nunca mais haveria de repetir-se. Chaves é ainda a escadaria junto à secretaria do Liceu onde subíamos sabendo que era proibido subir a escadaria do Liceu junto à secretaria do Liceu. Chaves é ainda a cobra d'água apanhada fora do leito do Tâmega entre as ervas encostadas à base do paredão. Chaves é ainda a mesa de matraquilhos na Feira dos Santos e a jukebox onde escolhíamos o disco que nos escolhessem. Chaves é ainda, e sempre, o Jardim Público e os plátanos do Jardim e tudo o que essas árvores acolhiam na sua sombra alargada quando a luz da Primavera se estendia contra o sermos jovens. Chaves é ainda o Largo das Freiras quando no Largo das Freiras havia olaias e as suas flores entre o rosa e o púrpura. Chaves é ainda o Sport, o Geraldes, uma tasca de que não recordo o nome porque me recordo de não ter nome nenhum. Chaves é ainda a jeropiga que sabia a petróleo numa taberna que foi derruída para que o progresso tivesse ruas largas. Chaves é ainda a sala dezanove e a escada, debruada a azulejos brancos, que dava para uma porta fechada que levaria, não sendo proibido, para o varandim do ginásio. Chaves é uma noite no Cine-Teatro. Chaves é ainda a casa do amigo onde ouvíamos a música do comandante Che antes de comermos bacalhau assado. Chaves é ainda a noite a envolver-nos e a fechar-nos desde a Ponte Romana aos Aregos, desde o Tabolado aos Anjos, desde o Santo Amaro a uma taberna da Rua Direita.
Não é possível, hoje, imaginar-me preocupado com os problemas de desenvolvimento que se colocam à euro-região, à inexistência de uma verdadeira sala de espectáculos, aos buracos das ruas, à programação da Feira dos Santos.
Porque Chaves, a cidade de Chaves, não é para mim, não é possível que seja, mais que uma abstracção. Uma abstracção literária. Uma cidade que não posso deixar de ver pelos olhos do emigrante que sou.
Uma cidade que é feita do sol imenso a cair a pique sobre as ruas e os telhados nos meses de Julho. Uma cidade feita de nevoeiro e frio concreto e metafórico.
Chaves é ainda, haverá de ser sempre, a cidade a que chegava na camioneta da carreira, criança ainda, a acompanhar o meu pai para se escolher o design de um folheto composto na tipografia que ficava no lugar onde mais tarde haveria de nascer um café moderno que fazia tostas mistas.
É assim que os emigrantes vêem os lugares onde se perderam e encontraram. E eu, tempo após tempo, sou cada vez mais esse emigrante que julgava serem os outros.
REGRESSOS
dois poemas de José Carlos Barros
SEGIREI
o fumo da lareira já nem sai dos telhados
são onze da noite
não há um único movimento nas
ruas e nos quelhos
a neblina subiu do rio
parece suspensa de fios invisíveis um
pouco acima das
pedras irregulares
do largo
se alguém gritasse
se alguém corresse na encosta com um archote
se alguém viesse à janela a
estender as colchas da infância
talvez o tempo retomasse
vagarosamente
o seu novelo espesso
de labirinto
NÃO DEVIA CHEGAR DE NOITE
não devia chegar de noite a estes lugares
onde tudo o que um dia foi
parece emergir do fundo dos poços dos quintais
eco de outras vozes mais antigas
reverberação insidiosa dos segredos
palavras roídas pelo lado de
dentro das próprias frases
fantasmas vagueiam em
silêncio contra o
fundo indefinido dos pinheiros bravos
o meu avô a colher as maçãs camoesas
e a guardá-las no cesto de vimes entrançadas da
presa das tílias
o táxi do senhor adriano a aproximar-se
vagarosamente da
bomba de gasolina
uma criança
que podia ser eu
a correr de olhos vendados nos
andaimes da obra dos bombeiros
voluntários
a sombra
mancha de óleo nas paredes das casas
cobrindo o alcatrão da estrada do rio
parece encerrar o tempo nas
suas cápsulas
de vidro
e não há um rumor
um único movimento
os ponteiros do relógio da torre parados a
meio da noite
entre as quatro
e as cinco horas
da tarde
in "RUMOR", 2011.
http://casa-de-cacela.blogspot.com
A árvore do amor
um texto de José Carlos Barros
1. É a memória mais forte que me fica quase sempre dos lugares – uma árvore. E são as árvores que melhor desenham os mapas da minha infância, as memórias antigas de um território a que nunca mais poderia deixar de regressar: o salgueiro-chorão da curva do Noro, o espinheiro-da-Virgínia da ponte de S. Cristóvão, a macieira grande de Ribas, os vidoeiros da Relva, os carvalhos a caminho de Carvalhelhos, os plátanos da Avenida do Eiró, as tílias da Presa do padre Pedro e do jardim do Toural, os freixos do Vale, as amoreiras seguindo na direcção do Pardo, os amieiros do moinho do Zé Ventura, os pinheiros do Padrão, a cerejeira do Muro, os sobreiros do Alto da Granja, o cupresso da escola primária, a figueira do pátio encostada à parede da casa da dona Olinda… É um mapa denso. É um território vasto marcado pelo milagre da sucessiva floração, pelo erguer-se impositivo de um tronco, pelo rendilhado de ramos, pelo poder simbólico do que pertence à água, à terra e à matéria volátil do espaço aéreo.
2. E a que vem este relambório? Pois exactamente ao caso de haver um blog sobre as plantas de Chaves que é uma pequena preciosidade – e sobretudo uma dádiva. Claro que gostaríamos que tivesse uma maior actualização – que diariamente nos acompanhasse para que diariamente tivéssemos à nossa beira a luz poisada nas folhas, a sombra desenhada nos passeios, a irrupção de uma flor ou um fruto, o desenho de um arbusto ou de uma árvore das ruas, dos largos, das praças, dos jardins da cidade de Chaves. Claro que gostaríamos que alguém pudesse ser pago a tempo inteiro para nos lembrar que o território, e mesmo o território urbano, é feito em grande parte da presença – real, simbólica – de uma planta que partilha connosco a respiração de um mesmo ar, um mesmo espaço, um mesmo modo de atravessarmos e ser atravessados pela abstracção concreta do arco da idade.
3. Chama-se «Plantas de Chaves» e pode ser acedido a partir do seguinte endereço: http://plantasdechaves.blogspot.com. Talvez não seja ainda um mapa. Ou talvez seja: os mapas são construídos em permanência. A um mapa se acrescenta, dia após dia, uma ilha nova, um desfiladeiro, um pormenor do recorte de um troço litoral, uma enseada de areia, uma estrada, um caminho de pé posto, o talvegue que sobe uma serra a caminho das nascentes.
4. Este – o das suas flores, dos seus arbustos, das suas árvores – deveria ser, por excelência, o mapa sentimental e concreto da cidade de Chaves. Ligando as figueiras dos jardins particulares, recolhidas à intimidade de um pátio, e os hibiscos brancos do Liceu ou as cerejeiras-do-Japão do Jardim do Bacalhau, exuberantes nas suas flores cor-de-rosa; as bagas brancas ou azuladas das fiteiras do Jardim das Caldas e as camélias que, separando as faixas de rodagem com a indiscrição excessiva das suas flores vermelhas, nos levam ao largo do Monumento; os loendros espalhados pela urbe e as magnólias-chinesas dos jardins, com a trama densa dos seus ramos, com esse labiríntico entrançado que nos faz perder e encontrar nos lugares que mais se afastaram de nós ou mais soubemos amar. Como o Largo das Freiras, por exemplo. Que há-de ser sempre – no mapa íntimo dos meus territórios, na memória mais longínqua e próxima do mundo – o lugar onde se desenham as olaias.
5. As olaias. A árvore de Judas, a árvore do amor. A árvore das folhas em forma de coração.
A Rua José Ferreira Chaves
um poema de José Carlos Barros
Senti-me sempre atraído pelas periferias urbanas
por esses espaços de expansão recente
por esses territórios desenhados à parcela
em estiradores dos gabinetes de engenharia
com os candeeiros alinhados em lotes vazios
com os lotes vazios a guardar as fasquias
e os ferrinhos das cofragens e as betoneiras
das construções contíguas
com os arruamentos a procurar ao longo do tempo
esforçadamente
uma lógica mínima de continuidade.
Sempre me senti atraído pela beleza
dos erros de escala das periferias urbanas
pela desordem metódica dos alinhamentos
e das cérceas
pelo encanto das tipologias desencontradas
pela criatividade sem limites de um impasse
de uma escada em ângulo recto com
aproveitamento de casinhas de arrumo com coberturas
oblíquas
de esplanadas de café
cobertas com elementos ondulados de lusalite
de telhados originais com mansardas francesas
e telhas verdes de cimento.
Senti-me sempre atraído por estas periferias urbanas
erguidas contra os manuais do urbanismo
aprendido nas escolas superiores
contra os arquitectos e os paisagistas
contra o bom-senso de burgueses
que sofrem do fígado e da vesícula
e falam mal dos patos-bravos
invocando «a estética» e «o panorama»
como se definissem um sistema moral
imune à intrusão das liberdades retornadas.
Por isso vou subindo
deixando à direita o perímetro murado do quartel
atravessando rotundas
a deixar que me cerque a sedução de
um urbanismo que privilegia estender as moradias em linha
nas artérias de ligação
com as portas e as janelas viradas para a rua.
E então
não bastasse já a Cocanha
um topónimo: José Ferreira Chaves.
As periferias são lugares de romance.
E a Comissão Municipal de Toponímia
provavelmente por um acaso criativo
reunida provavelmente num salão nobre
sem a preocupação das densidades narrativas
acertou na recuperação de um nome.
José nasceu em Chaves
para que o berço e o apelido pudessem coincidir.
Recebeu prémios e homenagens póstumas.
Conviveu com Alfredo Keil
e Teixeira Lopes
com o actor Taborda
e Simões de Almeida.
Diz-se que bebeu copos dissimulados
na Estalagem dos Vales
com el-rei d. Carlos I
e que teve amores furtivos.
Para que esta rua tivesse o nome
de uma personagem de romance
seria importante que José Ferreira Chaves
fosse artista e funcionário público.
Que sentisse na carne a faca do destempero
e da inquietação
que reverte do corte
entre a realidade e a sua nuvem pretérita.
Que pintasse José Estêvão
e Mouzinho da Silveira.
Que regesse uma cadeira de Pintura Histórica.
Que o objecto das suas artes
e das suas preocupações
fossem os retratos
as flores
e as naturezas-mortas.
E finalmente que tivesse um nome de rua
numa zona de expansão recente
feita do prodígio de restaurantes com
uma cozinha de milagre
e esplanadas de matraquilhos e sueca
de pequenas hortas de couve galega e loteamentos
sem espaços verdes
nem lugares de estacionamento
e em que os topónimos das vias envolventes
remetem para Cabo Verde
para Timor e Moçambique
Guiné e Angola
para o exotismo e a fantasia dos lugares distantes
de um Império além
mar.
Para que a expressão «ordem anárquica»
pudesse fazer sentido
e os doentes da vesícula
que não gostam de prédios desalinhados
fossem obrigados a redimir-se
de terem medo das liberdades
mais livres.
É por tudo isto que fiquei com o carro estacionado
em cima do passeio
da rua José Ferreira Chaves
durante duas horas
a respirar o ar puro das periferias urbanas
e a imaginar um mundo em que os artistas
se dedicam à pintura em tela
de flores do campo e
naturezas mortas.
E aos retratos académicos
jágora
que vai dar ao mesmo.
,
.
Nenhum de nós era capaz
um texto de José Carlos Barros
Nenhum de nós era capaz de confessar que a jeropiga sabia a petróleo. Nenhum de nós
deixava transparecer nos músculos do rosto a contracção quase irreprimível que não
chegava a exercer-se por um esforço de vontade e ocultação do sabor do licoroso vinho/
pior que a varinhas enferrujadas de cofragem. Era quando esperávamos no Farragacho a
camioneta da carreira de Chaves às Boticas. Recordo com esse distanciamento próximo
das fotografias a sépia o estaminé a que a designada requalificação urbanística deu
sumiço a meio do que haveria de deixar de ser (assim é o tempo) um extremo quase
metido lá dentro/
do Bairro Vermelho. Bebíamos jeropiga para sermos homens sem o sermos ainda nesse
fabuloso estabelecimento também conhecido se bem me lembro por Malgudo onde se
vendia o Comércio do Porto e havia uma salinha de anexo afeita entre outras tantas
coisas ao sete e meio/
batido durinho nas mesas. A minha vida são hoje tão poucas coisas quando telefono aos
amigos e recordamos a jeropiga que sabia a petróleo e provavelmente não era tão má
como imaginámos e nunca confessámos bebendo-a ainda crianças a querer ser homens/
que lembro como um milagre essas horas à espera da camioneta da carreira num
edifício de memória algures entre o Jardim do Bacalhau e o salão imenso dos bilhares/
a caminho do Santo Amaro.


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