Terça-feira, 6 de Junho de 2017

O Homem Sem Memória em livro

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No dia 19 de agosto de 2010, quando as “Crónicas Segundárias” do Luís de Boticas se despediam deste blog, anunciava a entrada de uma nova crónica de autoria de João Madureira, intitulada «O Homem Sem Memória». Dizia então eu na altura: “(…) crónica que acontecerá aqui todos os inícios das quintas-feiras (…) que em jeito de folhetim, caminhará (pela certa) para mais um romance deste autor.” E assim foi, religiosamente até inícios de 2014, todas as quintas-feiras o “Homem Sem Memória”, não se esquecia, e cá estava ele com mais um capítulo do, agora, livro que no passado domingo foi lançado em Montalegre na Feira do Livro a decorrer naquela vila,  e que dia 16 deste mês, será lançado aqui em Chaves, na Biblioteca Municipal.

 

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 João Madureira com Luis Martìnez-Risco da Fundación Vicente Risco e a Vereadora da Cultura da Câmara Municipal de Montalegre

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Lançamento do livro que se iniciou em Montalegre, e muito bem, pois também é em Montalegre que o “Homem Sem Memória” começa a contar as suas memórias e estórias de criança com muitos adultos à mistura,  vividas nessa vila, ainda antes de passar para a cidade e concelho de Chaves, de se tornar homem, de atravessar uma revolução e muita coisa se passar na República Democrática do Norte, muito antes de acabar os seus dias na República Popular do Sul.

 

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Mas tudo isto é ficção ou talvez não, tal como dizia António Aleixo “P`ra a mentira ser segura/e atingir profundidade,/tem de trazer à mistura/ qualquer coisa de verdade.” Ou como se diz na contracapa do livro “É, sem sombra de dúvida, um espaço de ficção onde cada leitor vai por certo encontrar um ou outro momento que por si poderia ter sido vivido”. Pela minha parte, confesso, que revivi muitos desses momentos como se fossem meus e outros, revivi-os porque fui testemunha deles, ou de outros bem parecidos, que muito bem poderiam ser os mesmos. Foi isto, continuo em maré de confissão, que desde início me ligou ao “Homem Sem Memória” e que criava em mim a ansiedade da espera pelo próximo capítulo, que então no blog só acontecia na semana seguinte. É sem qualquer dúvida um livro que fala de nós e que vão gostar de ler ou reler, pensando naqueles que acompanharam as publicações do “Homem sem memoria” blog.

 

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Em imagens ficam alguns momentos do lançamento de “O Homem Sem Memória” em Montalegre, e não esqueça que no próximo dia 16 deste mês de junho, o livro será apresentado na Biblioteca Municipal de Chaves.

 

 

 

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Segunda-feira, 24 de Abril de 2017

Quem conta um ponto...

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339 - Pérolas e diamantes: O dedo e a Lua

 

Arrelia-me e desconcerta-me a tacanhez e o desplante com que certa gente, e alguma rapaziada de esquerda, critica o Museu de Arte Contemporânea de Chaves. Até porque combater a arte é coisa fácil em meios provincianos. Parece mesmo que dá votos.

 

À falta de melhor argumento, ataca-se a cultura porque dá despesa. Quando oiço estas alarvidades, fico com os pelos em pé. Que até não são muitos, mas… são rijos.

 

Muitos nem sequer se dão ao trabalho de lhe fazer uma pequena visita. Argumentam que os bilhetes são caros, que o edifício custou uma pipa de massa ou que as obras de Nadir Afonso os exasperam. Ou, o que ainda é mais ridículo, que o presidente da Câmara é o António Cabeleira.

 

Fazem-me lembrar os pintores denominados Pré-Rafaelistas que, segundo, Hélia Correia, tinham tanta aversão a Rafael que falavam com desprezo da Transfiguração, chamando-lhe pomposa e antiespiritual, sem no entanto nunca para ela terem olhado.

 

Pelos vistos, não aprenderam nada com o exemplo do Centro Cultural de Belém, hoje a joia da coroa cultural de Lisboa.

 

Fica mal a gente séria e responsável tentar vender estes argumentos comprados aos ressabiados que lustram as cadeiras dos nossos cafés.

 

Depois engalanam-se com prosápia e enfeites argumentativos, tentando evidenciar uma desajeitada modéstia que aprendem sempre muito à pressa, pois as eleições impõem o seu calendário e o candidato anterior foi proveitosamente queimado pelas disputas intestinas dentro do partido.

 

São como os lobos que, a pouco e pouco, se vão orientando na direção de um novo líder da matilha.

 

Correm de um lado para o outro à procura da certeza, sem nunca a conseguirem alcançar.

 

Uma consciência limpa é o melhor travesseiro.

 

Parecem preiteantes mirando-se nas biqueiras dos sapatos estendendo gel pelo cabelo e puxando as mangas do casaco adquirido no Corte Inglês. Por vezes vestem os sucedâneos do burel para se disfarçarem de povo. Viciaram-se na crítica fácil e em criarem uma espécie de mal-estar permanente. Lutam contra as evidências e as emoções como quem luta contra os insetos.

 

Apreciam a regularidade da vida, se possível sem nenhum acontecimento particular. Até os domingos parecem incomodá-los.

 

Cada um faz o que pode. Os idiotas costumam fazer idiotices e os espertos, por vezes, fazem idiotices ainda maiores. Que Deus nos dê paciência.

 

São sempre generosos com a crítica e pouco dados ao elogio. Acham que um pensamento acaba sempre por achar um pensador.

 

A mediocridade é sempre penosa.

 

Aprenderão ao envelhecer que as coisas se tornam simples. E também que não vale a pena alterar os hábitos e os princípios apenas pelo prazer de se parecer moderno.

 

Creio que leram Jacques Lacan e acreditaram que quanto mais formos ignóbeis melhor nos correm as coisas.

 

Cito-lhes de graça Michel Houellebecq: “De qualquer maneira, o amor existe, uma vez que se pode observar os seus efeitos.”

 

Ou então Henri de Régnier: “A solidão não é possível senão em muito jovens, quando temos pela frente todos os sonhos, ou então em muito velhos, quando temos para trás todas as recordações.”

 

E termino com um velho provérbio chinês: “Quando o sábio mostra a Lua, o idiota olha para o dedo.”

 

João Madureira

 

 

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Terça-feira, 4 de Abril de 2017

Exposição de Fotografia na Adega do Faustino

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Não é em vão que se nasce em Trás-os-Montes. Não é em vão que se calcorreiam montes e vales, estradas, caminhos e se cruzam aldeias. Não é em vão que se ama a fotografia e se preza a amizade.

 

Esta exposição é a síntese de três registos diferentes, mas complementares. Podem parecer por vezes desapaixonados. Puro engano. Resultam de três olhares afligidos pelas terras que aprendemos a amar. 

 

Dói-nos este amor? Claro que sim. Dói-nos este inexorável desaparecimento? Evidentemente.

 

Por isso decidimos juntar duas das nossas grandes paixões: a fotografia e o mundo rural.

 

Fazemos aquilo que podemos. Registamos em imagens o que ainda por cá teima em existir.

 

O resultado é esta maneira de celebrarmos a nossa identidade transmontana.

 

Esperamos que gostem.

 

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A partir de hoje e prolonga-se até ao fim fo mês de abril.

 

 

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Segunda-feira, 17 de Outubro de 2016

Quem conta um ponto...

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342 - Pérolas e diamantes: a brincadeira e o brinquedo

 

A vida anda sempre entre o humor e a tragédia, entre a violência e o desejo, entre a virtude e a tristeza. Por vezes acaba numa luta entre a política e a literatura. Ou vice-versa.

 

Há quem defenda que ao escritor deve competir a arte da frase, ao leitor cabe-lhe dominar a arte de a ler.

 

Mas a mim continua a seduzir-me a arte amorosa da política. Afinal quais foram os regimes políticos que, no século XX, legitimaram o seu imenso poder invocando o amor do povo ao seu guia? Foram os regimes totalitários.

 

Kim Yong-Il, o radioso guia norte-coreano, escreveu mesmo um poema realçando essa perspetiva: “Tal como o girassol só pode prosperar voltado para o sol, o povo coreano só pode prosperar levantando os olhos e voltando-os para o seu Guia”.

 

E o amor também nos diz que não devemos recear aprender com os nossos inimigos para amarmos ainda mais o nosso povo.

 

Mao, depois de se encontrar com Nixon e Kissinger, disse a quem o quis ouvir: “Gosto de negociar com pessoas de direita. Dizem o que pensam realmente – não são como as pessoas de esquerda que dizem uma coisa e querem dizer outra.” Há neste desabafo uma verdade profunda. A lição de Mao tornou-se ainda mais pertinente nos dias de hoje do que o foi na altura.

 

De facto podemos aprender muito mais com os conservadores inteligentes e críticos, os que Zizek apelida de não reacionários, do que com os progressistas liberais. Ainda segundo este mesmo filósofo, estes últimos tendem a anular as “contradições” inerentes à ordem existente, que os primeiros se dispõem a reconhecer irresolúvel.

 

Segundo Daniel Bell, o progresso do capitalismo, que tem por sustentáculo a ideologia consumista, está a minar pouco a pouco a chamada ética protestante, que tornou o capitalismo possível. O capitalismo hoje funciona cada vez mais como a “institucionalização da inveja”.

 

No fundo, os progressistas de pacotilha, mais uma vez citando Mao (de facto o veneno combate-se com o próprio veneno), “só levantam o rochedo para o deixarem cair em cima dos pés”.

 

A nós toca-nos fazer real o mito de Sísifo, condenados a repetir sempre a mesma tarefa de empurrar a pedra até o cume da montanha, sendo que, de cada vez que estamos a alcançar o topo, a pedra cai-nos das mãos e rola novamente pela montanha abaixo até o ponto de partida, invalidando completamente o duro esforço despendido no seu transporte.

 

Parece que vivemos no fim dos tempos. Até importamos o tantra da cultura hindu. Nele encontra-se, segundo Slavoj Zizek, «a lógica espiritual do capitalismo tardio», “reunindo a espiritualidade e os prazeres terrenos, a transcendência e os benefícios materiais, a experiência divina e o shopping ilimitado. Propaga a transgressão permanente de todas as regras, a violação de todos os tabus, a satisfação instantânea como via de iluminação; supera o antiquado pensamento «binário», o dualismo do espírito e do corpo, afirmando que o corpo na sua realidade mais material (localização do sexo e do prazer) é a vida real a despertar do espírito. A felicidade resulta do «dizer sim» a todas as necessidades corporais, e não da sua negação: a perfeição espiritual resulta da intuição de que já somos divinos e perfeitos, e não é qualquer coisa que tenhamos de conseguir através do esforço e da disciplina.”

 

Não sei se foi deste caldo de cultura que nasceu a ideia peregrina de atribuir o Nobel da Literatura a Bob Dylan.

 

Devemos sempre desconfiar dos iluminados do costume que se julgam ser a única fonte da verdade. Acontece que a verdade é sempre outra.

 

Tudo isto parece por vezes a nossa casa tão cheia de luz mas esvaziada por essa mesma luz. Clarice Lispector bem nos avisou: Às vezes começa-se a brincar com os pensamentos e, inesperadamente, é o brinquedo que começa a brincar connosco.

 

João Madureira

 

 

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Sexta-feira, 4 de Março de 2016

Discursos sobre a cidade - Por António de Souza e Silva

SOUZA

 

RECORDANDO APRESENTAÇÃO DO LIVRO

 

“CRÓNICA TRISTE DE NÉVOA”

 

 

Arrumando gavetas, sem contar, fomos dar com este texto que, na íntegra, reproduzimos:

 

“Quando começamos a ler Crónica Triste de Névoa e os nossos dedos lentamente vão esfolheando as páginas que a cada movimento nos contam as histórias da história ou nos remetem para o esconderíjio, recôndito, onde o pequeno João nos relata as suas memórias, ficamos com a sensação de que o autor, um flavienese, na ressaca das suas noites de insónia ou nas manhãs de pesadelo, outra coisa não quis senão nos contar uma história de “névoa” para flaviense reviver, ou seja, e como um amigo me dizia, um livro de um flaviense para flavienses.

 

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Os estereótipos representados quer pela figura do Dr. José Fino, quer do Eng. Filipe Pereira, quer ainda do bem conhecido Rosmaninho soam, são familiares para muitos flavienses. E quem é que já não ouviu falar das tertúlias dionisíacas como aquelas do Café Comercial? Aqueles, como eu, que aqui viveram a sua adolescência, nas décadas 60 e 70, outra coisa não ouviam contar!

 

Mas o que torna esta narrativa diferente é a forma sui generis como está arrumada e é tratada. Ou seja, a afronta do opíparo viver durante 12 longos movimentos – ou 12 longos meses - de certos personagens, no recanto de Névoa, na década de 40, enquanto milhões de seres humanos morriam por essa Europa fora e outros, bem junto de nós, pelas ruas de Névoa, mostravam a mais pura pobreza.

 

Este contraste neorealista, por vezes cínico, de retratar a realidade flaviense, servindo-se do palco encoberto, de Névoa, é apenas um pretexto, um artifício usado, ao longo dos doze movimentos da obra para nos interrogarmos sobre a nossa condição humana. As atrocidades da guerra, o pensamento do senhor Oliveira Salazar e até as reuniões de Câmara, presidida pelo medíocre capitão José Borges, para acabar com a pobreza em Névoa, entre outros, outra coisa não são que simples quadros aos serviço desta tarefa: a descrição de cidades sem rosto nas quais a pobreza e miséria moral é bem mais preocupante e degradante do que a pobreza material.

 

E quão bem longe estão os quadros da pobre e miserável Névoa das memórias dos 12 meses vividos em Montalegre e em especial em Ervededo, imersa em ruralidade!... São histórias de vida, tristes, é certo, as do João Domingos e do seu amigo Manuel Fortunato, bem como da avó Maria Fonseca, entre outras, mas autênticas, edificantes, cheias de valor e amor, de um verdadeiro calor humano. São memória as palavras sábias da Maria Fonseca para o pequeno João e a camaradagem e solidariedade entre o Manuel Fortunato e o João Domingos, que jamais deverão ser esquecidas! Num mundo em que cada vez mais se questionam e põem em causa princípios e valores que devem pautar e reger a conduta dos homens e da sociedade, os diálogos entre o pequeno Joazinho e a avó Maria Fonseca são de um enlevo, de uma doçura! Verdadeiramente de encantar!... Obrigam-nos a refletir sobre os verdadeiros e genuínos valores das relações e convivência humana!

 

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 O vale de Chaves mergulhado em névoa

 

O livro Crónica Triste de Névoa é assim, e antes de mais, um genuíno tratado de pedagogia, para além de um verdadeiro ensaio de história de época, de um estudo da sociedade flaviense da década de 40 bem como um verdadeiro estudo de etnografia transmontana, digno de um autor que nunca negou o exercitar activo da cidadania, entendendo que a construção do homem como cidadão se faz pela vivência e partilha dos usos, costumes e tradições, com os seus princípios e valores, nas comunidades que nos viram nascer e nos acolhem.

 

Foi como aprendiz de professor que, em finais da década de 70, conheci João Madureira na então Escola do Magistério Primário de Chaves. Já lá vão vinte e quatro anos!...

 

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João Madureira

 

O meu relacionamento com o João nem sempre foi fácil nem tão pouco linear, apesar de sempre rico de intensidade humana. A sua personalidade não se apreende e “apanha” facilmente. João Madureira, quem é? Apesar de estarmos em presença de uma obra que também nos relata a sua saga familiar, devemos contudo ter sempre presente que a natureza humana é, pela sua específica, polifacetada e transitória condição, sempre difícil de se definir numa simples pincelada. Mas creio que o livro que hoje nos é dado à leitura, em certo sentido, nos levanta essa “névoa” e, por isso, poderemos arriscar. Vejamos se, nas palavras do professor de filosofia, em empolada e acesa cavaqueira no Café Comercial com os seus comparsas, e nas da avó Maria Fonseca. Porventura aqui ele não se deixa “apanhar” e nos levanta, de alguma forma, parte do seu «véu».

 

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 Torre de Ervededo

 

Enfim, que o exercício de altivez apreendido e diagnosticado pela rica e intensa personagem da Maria Fonseca na personalidade do pequeno João redunde em capacidade de ousar uma vez mais em nos deliciar com temas e histórias dos nossos pais e avós mas também sobre temas do mundo que, também nós, ajudámos a construir e que vamos deixar como legado aos nossos filhos. Esse mundo, no dizer de uma conhecida colunista de uma revista semanal, que nos fala, lá fora, do terrorismo, da guerra do Iraque, da política externa americana, da política externa europeia, dos Balcãs, do Médio Oriente, do 11 de Setembro, do Afeganistão, do Presidente Bush, dos Berlusconis e Tony Blairs, da liderança europeia, do caso espanhol, do atentado de Madrid, da economia mundial, do Brasil, do Terceiro Mundo, das novas exclusões sociais, da ciber-sociedade, do problema das televisões e do papel não só informativo mas também formativo, como veículo privilegiado de comunicação que são, dos compromissos internacionais de Portugal, do envio de tropas portuguesas para palcos de guerra, dos miseráveis que constituem a maioria da população mundial, da sida, do fundamentalismo islâmico, das novas religiões; e cá dentro, da sociedade depois do 25 de Abril, do nosso sistema político, se a economia muda ou não, se a qualidade média dos governantes e governos muda ou não; dos média, da justiça, da educação, da cidadania, da saúde, dos direitos humanos. E do pensamento em relação à cultura, às cidades, à ruralidade, à administração pública, enfim, de todos os lugares-comuns da nossa contemporaneidade, do mundo em que vivemos e em que os nossos filhos hão-de viver... Nunca esquecendo, atendendo à especificidade e tristeza do dia que hoje todos vivemos, de reflectir sobre a precaridade da vida e do momento que hoje atravessamos com a morte de um homem que viveu sempre em função das suas convicções e dos seus ideais de solidariedade humana e da convivência entre os povos, como um iminente e convicto europeísta – Sousa Franco!...

 

E aqui não me queria antecipar, como a avó Maria Fonseca para o ronronante Joaozinho, no final desta obra: “Não sei se faço bem em contar-vos estas histórias”!...

 

Pela minha me interrogo se faço bem em estar para aqui a repetir-vos todas estas coisas.

 

Mas... creio que vale a pena!

 

Ler, refletindo, faz falta.

 

Leiam esta obra!

 

E ponham-se também a escrever. Coisas que tenham a ver com todos nós. Com o nosso viver. Porque todos seremos poucos para construirmos um mundo cada vez melhor!”.

 

 

Montalegre, 9 de Junho de 2004

 

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 João Madureira com o Barroso e a Serra do Larouco de fundo

 

Já se aproximam 15 anos que proferimos estas palavras.

 

Os protagonistas são outros. Os acontecimentos também.

 

Mas será que no mundo, no país e, nesta nossa cidade, mudou assim tanta coisa?

 

Não estaremos em presença de uma Europa sem rumo, num país, de certa forma, «amordaçado», e vivendo numa cidade sem rosto na qual a pobreza e miséria moral é bem mais preocupante e degradante do que a pobreza material?

 

Que pena só se poder ouvir e ler, muitas das vezes, a voz e a escritas «de legião de imbecis», que, a todo o custo, nos pretendem reduzir a simples mercadoria, nos media e redes sociais, dizendo e falando de pura banalidades, tal como o recente falecido Umberto Eco enfatizava, fazendo-nos esquecer da escrita que verdadeiramente nos retrata e nos questiona, fazendo-nos pensar como seres humanos!...

 

António de Souza e Silva

 

 

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Segunda-feira, 25 de Janeiro de 2016

Quem conta um ponto...

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274 - Pérolas e diamantes: a serenidade dos sorrisos

 

Continuo a pensar que Jorge de Sena, no seu agreste discurso proferido a 10 de junho de 1977, nas comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, presididas por Vítor Alves, resumiu a alma portuguesa de forma crua, mas real, bem ao jeito dos visionários desprezados pelos medíocres de sempre.

 

Passo a citá-lo, socorrendo-me do livro Vítor Alves – O Homem, O Militar, O Político, de Carlos Ademar: «Continua vivo “esse vício centralista da nossa tradição administrativa”, que, “sem perda da autoridade central”, continua a “manter unido um dos povos mais anárquicos do mundo e o menos realista quando de política se trata (…). Os portugueses são de um individualismo mórbido e infantil de meninos que nunca se libertaram do peso da mãezinha; e por isso disfarçam a sua insegurança adulta com a máscara da paixão cega, da obediência partidária não menos cega, ou do cinismo mais oportunista quando se veem confrontados, como é o caso desde Abril de 1974, com a experiência da liberdade.”

 

Foi com ele que aprendemos o poder de um sorriso sereno.

 

Triste continua a ser o nosso fado. Nos tempos que correm, salvo raras e honrosas exceções, não votamos em alguém. Votamos sempre contra alguém.

 

Esta gente faz sempre o contrário do que dizem os poetas. Por isso é que nunca acertam. Maiakovski avisou: “Primeiro é preciso transformar a vida para cantá-la em seguida”.

 

Cantar por cantar, que o façam os melhores.

 

Costumo encontrar algumas vezes a minha avó passeando no meio dos livros de Gabriel Garcia Márquez. Fico deslumbrado e cheio de saudades.

 

Aparece-me, para meu espanto, vestida com “a escrupulosa serenidade da pessoa acostumada à pobreza”. Quando se lembrava do meu falecido avô João Lorde, evidenciava o seu corpo rígido e seco e “um olhar que raras vezes correspondia à situação, como o olhar dos surdos”. A sua palidez e os seus movimentos “possuíam aquela suave eficácia das pessoas acostumadas à realidade” e revelava sempre “aquela expressão de decorosa simplicidade com que os pobres chegam a casa dos ricos”.

 

Depois ao sétimo dia chove e eu fecho o livro dos salmos tristes. A vida é quase sempre assim. Quase sempre. Quase. Sempre.

 

Eu recordo-me… Amarcord… do lindo caos que se seguiu ao 25 de Abril de 1974, dessa revolução naif onde abundavam as ideias e as quimeras. Também elas murcharam, como os cravos. Agora é tudo de plástico, cravos, comida, ideias e tudo.

 

E depois entrámos na Europa. Bruxelas disse-nos o que tínhamos a fazer. Com a verdade nos enganou. O dinheiro foi distribuído às mãos cheias, mas ao povo chegaram apenas os trocos.

 

Alguma coisa mudou, temos de reconhecer. Os ricos ficaram mais ricos. Os amigos das cores partidárias subiram alto.

 

Atualmente todos achamos que vivemos melhor porque podemos andar num carro em segunda mão que continuamos a pagar ao banco. Os filhos, mesmo os licenciados, vivem às custas dos pais. Uns chamam-lhe progresso, outros crédito.

 

Os que puxam pela memória recordam-se que do 25 de Abril apenas nos resta o feriado. E qualquer dia nem isso.

 

Por hoje termino citando o narrador do romance de Marcel Proust, O Lado de Guermantes, quando semivirado para o seu amigo Robert de Saint-Loup diz: “Cada um é o homem da sua ideia; há muito menos ideias que homens, e assim todos os homens da mesma ideia são semelhantes. Como uma ideia nada tem de material, os homens que só materialmente rodeiam o homem de uma ideia em nada a modificam”.

 

Por tirada tão filosófica, o amigo Saint-Loup «dando-lhe palmadas como a um cavalo que tivesse chegado em primeiro lugar à meta rematou: “Tu és o homem mais inteligente que conheço, sabes”.»

 

Os diplomatas querem saber o que toda a gente pensa, os oportunistas concentram-se em perceber o que as pessoas fazem. Mas só os tolos jogam à roleta.

 

João Madureira

 

 

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Segunda-feira, 11 de Janeiro de 2016

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272 - Pérolas e diamantes: a sensatez e a idiotice

 

 

Por cá é mal entendida, e até condenada, a atitude salutar de mudar de ideias. Aqui nasce-se parvo e morre-se néscio. Mas para se mudar de ideias é necessário tê-las. De outra forma é impossível.

 

O mundo dos sábios divide-se entre aqueles que fazem perguntas idiotas sobre coisas sensatas e aqueles que fazem perguntas sensatas sobre coisas idiotas. Nenhum deles dá respostas válidas. Muitos nem sequer se dignam responder. Limitam-se a inverter a ordem dos fatores.

 

Duas palavras há que se adequam perfeitamente ao tempo que vivemos: “equívoco” e “inconsequência”. Os sujeitos que as impõem são quase admiráveis no seu jeito diabólico.

 

Continuamos a viver prisioneiros de dois fantasmas passados: o do Salazarismo e o do 25 de Abril. Por isso somos um país de oportunidades perdidas. A adesão à União Europeia é disso a prova mais concludente. E quanto ao futuro… bem, o futuro virá claramente carregado de tempestade verbal.

 

Relativamente ao fascismo, convém lembrar as palavras de Gregorio Marañon (Psicologia do Gesto): “A grande lição que a história nos dá cada dia, e que nós nunca queremos aprender, é que nunca existiu tirania que não hajam merecido os que a sofrem. Na realidade, o tirano é sempre o vingador das nossas próprias culpas.”

 

Os poderosos deste mundo prometem, e oferecem-nos, como prenda pelo nosso bom comportamento eleitoral um talhão de terreno na Lua. A nós dá-nos sempre um jeitaço. Aos nossos descendentes, quando o espaço lunar se esgotar, dar-lhes-ão uma leira em Marte, talvez com um poço de água salgada no meio. O seu futuro como proprietários é risonho.

 

Os pobres e desventurados encontram sempre uma pedra para atirar a quem está ainda mais abaixo do que eles.

 

Vai um tempo para cavalos loucos. Os defensores do multiculturalismo serôdio conseguiram que, por exemplo, na Grã-Bretanha seja permitido aos prisioneiros a prática do paganismo nas suas celas, incluindo orações, cânticos, leitura de textos “religiosos” e rituais.

 

Os prisioneiros podem usar mantos sem capuz, paus flexíveis em forma de varinhas mágicas, cálices e pedras rúnicas. Estas práticas infantis e ridículas, segundo o Daily Mail de 18 de outubro de 2005, seguiram-se a uma decisão governamental que permitiu a um marinheiro da Marinha Real ter o direito de executar rituais satânicos e adorar o demónio a bordo da fragata HMS Cumberland.

 

No cerne do multiculturalismo está a peregrina ideia do igualitarismo em que a cultura e o estilo de vida de toda a gente têm igual valia e estatuto moral. Ou seja, a moralidade foi privatizada.

 

Atualmente já não se pergunta “o que está correto?”, mas sim “o que é correto para mim?”

 

São Paulo foi substituído por Jean-Jacques Rosseau. O pecado original deu lugar à doutrina da inocência original. O prevaricador foi substituído pelo bom selvagem.

 

A emergência do individualismo e o ataque feroz à autoridade abriram o caminho para uma ofensiva ainda mais fundamentalista à cultura ocidental. As doutrinas niilistas do pós-modernismo hoje em voga reduziram tudo, sobretudo os conceitos de verdade e objetividade, à ausência de sentido.

 

Os códigos morais da nossa sociedade estão a ser profundamente subvertidos e enfraquecidos à medida que caem todas as barreiras. Por exemplo, grupos anteriormente marginalizados, como as mães solteiras ou os transexuais, transformaram-se atualmente nos árbitros da moralidade.

 

Este tipo de relativismo moral leva a que as pessoas sejam incapazes de fazerem distinções morais baseadas nos comportamentos. Este tipo de equivalência ética transforma-se invariavelmente em inversão moral, desculpando os “grupo-vítima” e culpando a “maioria opressora”. Tentam levar a “luta de classes” para o campo dos costumes.

 

Está claro que todas estas questões devem ser discutidas com moderação. Mas nunca devendo esquecer que a tal moderação deve incluir sempre razoabilidade, veracidade e equidade.

 

O que mais me preocupa é ver por aí os nossos pais ou avós encurralados em prédios dotados de conforto e lindas flores de plástico, que já não se chamam asilos, mas antes casas de repouso ou da terceira idade ou outro eufemismo pelo estilo, gastando o tempo que lhes resta com joguinhos de crianças.

 

Os argumentos para a situação até têm o seu peso: os apartamentos em geral são pequenos, cada geração tem a sua própria maneira de viver, os filhos trabalham e por isso não têm tempo para lhes dispensar os cuidados que necessitam. As instituições que cuidam deles prestam-lhes uma eficiente atenção, por vezes até melhor do que a família pode prestar.

 

Tudo isto é verdade. As pessoas são mesmo carinhosas e os profissionais são competentes e atenciosos. Mas o carinho de uma enfermeira, de um médico e de uma assistente social não compensam a solidão porque passam nem substituem o amor e o carinho familiares. Esse é insubstituível.

João Madureira

 

 

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Segunda-feira, 4 de Janeiro de 2016

Quem conta um ponto...

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271 - Pérolas e diamantes: o capital inútil da inteligência

 

A nossa pobreza ainda não é tão desesperada ou congénita como a dos países latino-americanos (pelo menos a das personagens dos romances neorrealistas brasileiros), conhecida entre nós como pobreza franciscana, mas tem muito a ver com aquele tipo de pobreza confiada na lotaria, no euro milhões e nas raspadinhas.

 

Os remediados apostam mais nas comissões, nas influências, no jogo de bastidores, na má-língua, na hipótese da modesta possibilidade, nas cunhas, recomendações e, na falta disto tudo, na esperança.

 

A nossa pobreza consola-se com a hierarquia e aposta sobretudo em Deus. Mas como todos somos seus filhos, fica-lhe mal escolher um de entre milhões. A isto chegamos com a enorme ajuda dos que nos governaram.

 

No Aleph, Borges, através da voz de um mendigo cego e sábio, dá-nos conta de que “não há geração que não tenha quatro homens justos que secretamente sustentam o universo e o justificam diante do Senhor... Mas onde encontrá-los se andam perdidos e anónimos pelo mundo e não se reconhecem quando se veem e nem eles mesmos sabem do alto mistério que cumprem? Alguém então opinou que, se o destino nos negava os sábios, teríamos que buscar os insensatos.”

 

Esta é a nossa desdita, o de termos escolhidos os insensatos em vez de continuar a procurar os homens justos.

 

Mas estas coisas têm sempre dois pontos de vista, que dependem muito da posição que cada um ocupa na sociedade. Nisso estamos de acordo com Longino que, no seu Tratado do Sublime, refere que o conselheiro de Alexandre o Grande, Parménion, ter-lhe-ia dito que se ele fosse Alexandre aceitaria os termos de paz oferecidos pelo inimigo, ao que Alexandre respondeu que os aceitaria se fosse Parménion.

 

Mas também é verdade que, como muito bem diz o pai de Tristram Shandy, é praticamente impossível assentar duas ideias sobre um assunto sem fazer uma hipálage. E o que é isso?, perguntarão os estimados leitores, como muito bem o fez o tio de Tristram, um indefetível militar de carreira. Ao que o pai de Shandy respondeu: “A carroça à frente dos bois.” Tendo o digno militar, de seu nome Toby, inquirido: “E o que estão os bois a fazer aí?”

 

António Sérgio defendia que a polémica é necessária ao progresso da cultura. Dizia que “o primeiro dever de quem faz críticas é ser crítico (e crítico consigo próprio), como o do guerreiro é guerrear e o do marujo é ser marujo: querer ser crítico e odiar o espírito de livre-exame, é ser marinheiro e ter terror à água”.

 

Luiz Pacheco escreveu um dia que “neste país, de baixo a cima, é tudo acintoso quanto não seja elogioso – que se lixem!”

 

Mas eu ainda sou daqueles que pensam que só os cães têm dono.

 

Dei recentemente uma olhadela ao livro Pessimismo Nacional, de Manuel Laranjeira – por vezes tenho destas depressões intelectuais –, e a sua tese bateu-me fundo. Na sua perspetiva, os portugueses são um povo sem coesão nem consciência cívica, pois a sua única consciência é a “consciência moral do servo”.

 

Atentem nestas suas palavras e depois digam-me de vossa justiça: “Numa terra onde homens de génio como Antero de Quental, Camilo e Soares dos Reis, têm de recorrer ao suicídio como solução final duma existência de luta inglória e sangrenta; numa sociedade onde o pensamento representa um capital negativo, um fardo embaraçoso para jornadear pelo caminho da vida; num povo onde essa minoria intelectual, que constitui, o orgulho de cada nação, se vê condenada a cruzar os braços com inércia desdenhosa, ou a deixá-los cair desoladamente, sob pena de ser esterilmente derrotada; num país, onde a inteligência é um capital inútil onde o único capital deveras produtivo é a falta de vergonha e a falta de escrúpulos…” Afinal, que terra é?

 

O Padre António Vieira explicava: “Se servistes a pátria que vos foi ingrata, vós fizestes o que devíeis, ela o que costuma.”

 

Termino citando Luiz Pacheco: “Revolto-me por coisas de que já tinha obrigação de só rir e pouco”.

 

João Madureira

 

 

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Segunda-feira, 28 de Dezembro de 2015

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A sexualidade das pequenas coisas

 

O meu amigo M. chegou ao pé de mim, sentou-se, pediu um café e pôs-se a bebê-lo como só ele o sabe fazer. O seu porte é distinto, mesmo a tomar café. A sua maneira de o pedir ao empregado, a forma distinta como abre o pacote de açúcar, seja ele uma pequena bolsa rectangular ou cilíndrica, a maneira como o mexe, em movimentos lentos e exactos, como quem desenha uma circunferência com o auxílio de um compasso kern, surpreende qualquer um. Já vi pessoas a deterem-se no acto de tomar as suas bicas por se sentirem verdadeiramente impressionadas com a habilidade e o porte eletivo do meu amigo na execução perfeita do ato de tomar café. Mas, e para o amigo leitor se inteirar melhor do seu prazer, podemos igualmente acrescentar que o meu amigo M. toma a sua bica como se o fizesse pela primeira vez, como quem se regozija com a primeira namorada, como quem saboreia o primeiro beijo ou como quem se prepara para ter a primeira relação sexual.

 

Mas para chegarmos até aí, primeiro vamos deixar falar um pouco o meu amigo. «Caro João, ontem o meu filho chegou a casa com os bolsos cheios de preservativos, como no dia em que pela primeira vez foi à escola e o encheram de rebuçados. Só que desta vez vinha da universidade, da festa de recepção aos caloiros. Além de uma pasta, uma bata, blocos de notas, roteiros, um lista telefónica das Páginas Amarelas, um cordão com aloquete, uma proposta de abertura de conta numa instituição bancária, um cartão multibanco provisório e duas esferográficas, ofereceram-lhe vários e distintos preservativos em embalagens criativas, com distintos sabores, com ergonomias curiosas e mesmo um exemplar luminescente para a parceira, para, mesmo no escuro, saber sempre o que procurar e onde poder encontrar o membro fálico do mancebo sem ajuda do GPS do telemóvel. Ora, caro amigo, mesmo sabendo eu que a distribuição dos preservativos são uma forma de combater as doenças sexualmente transmissíveis, também são como que um apelo a que essas mesmas relações se efetuem. É um pouco como a história do ovo e da galinha. O meu filho mostrou-se desde logo interessado em utilizar tudo o que lhe tinham oferecido no kit universitário, afirmando que por algum lado se deve começar a vida universitária. E que se ela é constituída por sangue, suor e estudo, o melhor é começá-la com as experiências mais aprazíveis. Os psicólogos dizem que ter uma relação sexual no momento da entrada para universidade ajuda a libertar a libido e por isso mesmo é uma forma estimulante de potenciar as relações intergrupais que são essenciais para criar os laços de amizade e integração no grupo. “Representa o mesmo que no teu tempo”, disse ele para mim, “entrar com o pé direito”. Ao que eu lhe respondi: “Essa curiosa expressão utilizávamo-la como um amuleto, um talismã, um esconjuro. Mas dar preservativos como quem distribui rebuçados de distintos sabores e cores aos jovens parece-me um pouco excessivo. Olha, meu filho, lá diz o povo na sua sabedoria, o que não é visto não é lembrado. De seguida atendi o telemóvel e a conversa ficou por ali. Mas não deixa de ser irónica a circunstância de lhe oferecerem o objeto que permitiu o equívoco da sua gestação”.

 

O meu amigo M. foi um jovem adiantado para o tempo. Na época em que nos formámos, um preservativo era a modos como a teoria heliocentrista de Galileu no seu tempo, uma convicção contestada por quase todos. Por isso se fez forte e, numa ida a Lisboa em viagem de estudo, deslocou-se a uma farmácia e pediu um preservativo. Como a farmácia estava a abarrotar com pessoas a solicitar fósforo-ferrero para administrar aos estudantes por ser época de exames, nem sequer lhe pediram para mostrar o bilhete de identidade. A partir daí nunca mais deixou de transportar nos bolsos das calças o seu preservativo de estimação. Demorou foi muito a utilizá-lo. Não porque lhe faltasse a ousadia e a vontade. A ala feminina é que não lhe aparava os lances. Fizesse frio ou calor, chovesse ou nevasse, o meu amigo trazia sempre nos bolsos das calças o lenço, as chaves de casa e o preservativo. Apesar da fortaleza do invólucro, a textura começou a dar de si. Com o passar do tempo, e com a intensidade dos apelos da carne, um dia, um glorioso dia de primavera, o meu amigo conseguiu alcançar os seus objetivos. Passados nove meses nasceu o seu primeiro filho. Quando o questionámos sobre o facto, limitou-se a confessar que o preservativo lhe tinha saído furado. Naquela altura não havia ainda uma lei a exigir que os produtos exibissem o seu prazo de validade.

João Madureira

 

 

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Segunda-feira, 21 de Dezembro de 2015

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270 - Pérolas e diamantes: MRS, caso ou acaso?

 

 

Aí está Marcelo Rebelo de Sousa, o comentarista, no seu máximo esplendor.

 

Ao contrário de Cavaco, que o catapultou para o Conselho de Estado, ele raramente tem certezas e frequentemente se engana.

 

Melhor para ele. Enganar-se é a fórmula perfeita para voltar a tentar.

 

Para além de comentador político, MRS é uma personagem bem ficcionada e promovida pela TVI.

 

Ideologicamente é um vazio, mas possui um trunfo: a sua ambiguidade.

 

É homem para defender uma coisa e o seu contrário. E sempre com ar de quem é entendido em tudo. O homem não consegue definir quem é nem aquilo que é. É sempre aquilo que for preciso que seja.

 

É tão eloquente como um catálogo de vendas de taparueres ou então como a revista promocional da Bertrand. A sua ideologia é silenciosa como convém.

 

O seu máximo valor idiossincrático é uma espécie de mínimo múltiplo comum entre a esquerda, que tolera, e a direita, que lhe serve de pretexto para se candidatar. São estes os seus autocolantes de campanha.

 

Depois de assistir à primeira entrevista de MRS à SIC, e pegando na ideia de uma crónica de Vasco Pulido Valente sobre Cavaco, podemos dizer que o Doutor Sousa falou à populaça na TV. De início, como convém, e pedagogicamente, como é seu timbre e feitio, o Doutor Marcelo não disse nada. Logo de seguida, e de perna cruzada, sentado no sofá, investido de vacuidade, o Doutor Rebelo nada disse. Depois, circunspectamente, o Doutor Sousa não disse nada. E, por fim, afagando o nó da gravata e alisando a sua voz “sinusitoide”, o Doutor Marcelo nada disse.

 

A notória displicência argumentativa do Doutor Rebelo, não lhe permite dizer nada, nem quando faz um esforço enorme para dizer alguma coisa. Mesmo que essa coisa seja, afinal, não dizer nada.

 

Uma coisa deixa claro a quem o ouve: o homem acredita em tudo aquilo que diz.

 

Utiliza as palavras para nos enrolar. Torrentes delas. Mas palavras leva-as o vento. Há um provérbio judeu que diz: Quanto mais forte é o vento mais lixo levanta.

 

Marcelo Rebelo de Sousa esforça-se quase até à exaustão para dar a ideia de um perseguidor da qualidade.

 

Esforça-se para avivar a memória dos mais antigos militantes do PPD. Enumera sempre as virtudes de Sá Carneiro.

 

Claro que até pode afagar o busto do líder carismático do PPD, mas falta-lhe o golpe de asa de Sá Carneiro. E também uma Snu que lhe dê consistência e transmita paixão.

 

Sá Carneiro era um ser invulgar, um homem carismático, uma personalidade superior. Não um catavento mediático, como é conhecido MRS no partido de que diz ser insigne militante.

 

MRS é apenas uma ideia de senso comum, um moralista mediano e um comentador de ténis circunstancial. Fugiu sempre da adversidade para procurar, e refugiar-se, na popularidade.

 

O Doutor Rebelo é um talento eminentemente conjuntural. Tão conjuntural como os livros de campanha.

 

O Doutor Sousa pensa já ter os nossos votos na algibeira. Mas talvez se engane.

 

O Doutor Marcelo nunca poderá ser um presidente essencial (e bem necessitados estamos de um), apenas poderá representar o papel de um presidente acidental.

 

Longe vá o agouro.

 

O Doutor MRS trabalhou afanosamente para ser um caso, pesando permanentemente os argumentos, os livros e os mergulhos.

 

O seu maior defeito, que muitos julgam virtude, inclusive o próprio, é que nunca conseguirá afastar de si a ideia de que sempre viveu mediaticamente da promiscuidade entre política e jornalismo.

 

Com certeza que o seu amigo Ricardo Salgado lhe ensinou que os pobres comem com fome as febras que lhe põem na frente e que os ricos manjam com apetite as lagostas que lhes servem. E que o champanhe se bebe sempre sem sede.

 

O homem tudo fez para ser um caso, mas, por mais que lhe custe, não passa de um acaso.

 

João Madureira

 

 

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Segunda-feira, 14 de Dezembro de 2015

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269 - Pérolas e diamantes: o estrondo

 

Vaidoso, vulgar, manipulador, demagogo, narcisista, cínico, estatista, burocrata, maníaco, altivo, autocrata, despótico, carismático, egocêntrico, justiceiro, pseudo-iluminado, bimbo, banal, curto, limitado, paroquial, parolo, prepotente, medroso, sem brilho, sem dimensão, arrivista, reacionário, obtuso, confuso, cego, surdo, esquálido, interesseiro, inepto, simplista, oportunista, populista, mediano, salazarzinho de subúrbio, imitação barata, vingativo, tosco, arrogante, um bom hipócrita, pequeno, piroso, pusilânime.

 

Desta forma lisonjeira foi Cavaco Silva caraterizado pelo extinto jornal Independente, dirigido então pelo “irrevogável” Paulo Portas e pelo menino do laço, Miguel Esteves Cardoso.

 

Os autores da compilação são os jornalistas Filipe Santos Costa e Liliana Valente, autores do livro O Independente – A Máquina de Triturar Políticos.

 

Desafio os leitores mais ousados a tentarem riscar um único desses atributos imputados ao senhor presidente Aníbal sem que lhes não pese a consciência por estarem a faltar à verdade.

 

De uma coisa temos a certeza, é que tanto Cavaco Silva como Pedro Passos Coelho, bem assim como o inexprimível Paulo Portas, sempre acreditaram que a governação de um país tem de ser de indiferença face ao empobrecimento generalizado dos portugueses, com a ideia peregrina de que o empobrecimento é moralmente bom pois não só purifica como regenera.

 

No fundo, para eles a pobreza é uma virtude… nos outros. O Estado, qual demónio incandescente, tudo o que toca torna impuro. No fundo sentem que a troika, que eles ajudaram a entrar no país, é uma espécie de castigo divino para redimir os portugueses.

 

Contas feitas, o senhor Passos e o inefável Portas, retiraram a centenas de milhares de portugueses cerca de 25% do poder de compra, gente que está longe de poder ser apelidada de remediada. E nem uma palavra de consolo conseguiu transmitir-lhes.

 

Para eles, o desemprego é apenas uma abstração numérica, uma estatística, uma infelicidade, enfim: o destino.

 

Claro que os tempos são duros e o espaço de manobra acanhado, mas, santo Deus, o entusiasmo verbal com que anunciavam a aplicação das medidas mais gravosas era quase obsceno.

 

O Governo anterior caiu com enorme estrondo porque a maioria dos portugueses percebeu que o discurso fleumático de PPC e PP esteve sempre prisioneiro de meia dúzia de generalidades e vacuidades sobre o país, o seu tecido económico e social, cativo de outra meia dúzia de ilusões, refém de convicções pífias sobre receitas económicas e colado a lugares-comuns sobre a necessidade dos sacrifícios.

 

Estou em crer que não sugeriram a flagelação, o látego e o cilício por considerarem que ainda não se encontravam reunidas as condições para a purificação dos portugueses ser aceite sem alguma revolta. Mas vontade não lhes faltou.

 

A sua estratégia assentou sempre no medo, pois sabem que ele é eficaz como garante da passividade. Depois de interiorizado, o medo conduz à ideia da sua inevitabilidade. Mas o medo é também uma arma de dois gumes, quando termina ou enfraquece, potencia a vingança.

 

Manuel António Pina sempre esteve convicto de que um bom verso tem certamente mais hipóteses de durar do que um primeiro-ministro, ou um presidente. Escreveu numa das suas crónicas que “daqui a 50 ou 100 anos, o mais que algum rato de Universidade provavelmente conseguirá dizer sobre Cavaco Silva depois de ter vasculhado em todos os arquivos, é que foi um primeiro-ministro do tempo de Eugénio de Andrade”. Sobre a sua presidência, estou certo de que nem em nota de rodapé algo será encontrado.

 

No fundo, são eles os responsáveis pelo triunfo da mediocridade e da vulgaridade. Os sonhos de liberdade, de justiça e paz estão hoje reduzidos ao tamanho de um cartão de crédito nas mãos dos empresários de sucesso.

 

Os nossos políticos e governantes são como os chefes de uma repartição do Estado. No fundo limitam-se a executar as decisões tomadas por outros.

 

O corretor da Bolsa de Londres, Alessio Rastani, definiu bem o seu sonho de lobo em relação aos cordeiros que somos todos nós: “O nosso trabalho é ganhar dinheiro com a crise. Todas as noites sonho com mais uma recessão”.

 

Faço votos para que o programa do atual governo não seja mais um exercício de ficção. Não quero que o sonho de Alessio Rastani se transforme outra vez no nosso pesadelo.

 

João Madureira

 

 

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Segunda-feira, 7 de Dezembro de 2015

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268 - Pérolas e diamantes: confissões de um provinciano

 

Chegou agora a vez dos intelectuais entrarem em guerra e de usarem as palavras para desencadear os devidos efeitos colaterais na populaça. Exemplo paradigmático é o de Clara Ferreira Alves atirando fogo sobre as elites: “Temos políticos muito ignorantes”.

 

O nosso diário mais popular, o CM, resolveu, por seu lado, disparar sobre o novo executivo de esquerda: “Costa chama cega e cigano para o Governo”. Com prosa tão elevada, não ficava nada mal que o nosso jornal de referência terminasse a tarefa, sugerindo-lhes nós, para a palermice ficar completa, que os seus jornalistas se atrevessem a escrever “preto no branco”: “Monhé lisboeta chama para o Governo negra, cega e cigano”. Assim ficava o recado dado sem as discriminações evidentes.

 

Já agora talvez até não fosse má ideia sugerir (à cautela, pois têm grandes probabilidades de acertar) que no executivo socialista também estão representados os homossexuais, maçons e até judeus.

 

Já o prestigiado escritor espanhol (madrileno?) Javier Marías deu uma entrevista ao ípsilon onde se fez porta-voz de um antiportuguesismo militante e serôdio. Este intelectual castelhano decidiu lançar mísseis balísticos contra o nosso melhor treinador de todos os tempos dizendo: “Mourinho foi o pior que aconteceu ao Real Madrid em toda a sua história. Não só por ser uma personagem venenosa e contrária ao espírito tradicional do clube, mas também por ser péssimo treinador”.

 

Não satisfeito com a tirada assassina, este admirador de Shakespeare, que encontra inspiração para os títulos dos seus livros nas obras do dramaturgo inglês, profetizou: “Tenho a impressão de que este ano, no Chelsea, os jogadores estão a perder de propósito para se livrarem dele.”

 

Afinal os castelhanos ainda não esqueceram Aljubarrota nem a nossa velhíssima aliança com a Inglaterra.

 

Nós por cá, indiferentes às más-línguas e invejas seculares, lá vamos fazendo a nossa vidinha de todos os dias. Como europeus periféricos, quase suburbanos, empenhamo-nos em exercer cabalmente a nossa vocação de compradores fanáticos. Fazer compras, para nós, é como dançar o vira. Aos fins de semana lá vamos para as grandes superfícies dar liberdade à nossa veia consumista.

 

Depois ficamos inseguros e confrontamo-nos com o eterno dilema cristão: Devemos conquistar a felicidade ou deveremos ser infelizes para que os outros possam ser felizes?

 

Gostamos de ficar sentimentais, como sucede com a gente rude. Por isso simpatizamos com os políticos que exibem a sua generosidade, todos falinhas mansas, muito, mas mesmo muito, simpáticos, visitando eleitores pobres e idosos em misericórdias, sorrindo, beijando crianças, cumprimentando toda a gente com o ar mais aprazível do mundo… e desaparecendo logo que as câmaras das televisões se desligam.

 

E apreciamos aqueles comentadores que quando lhe fazem a pergunta que encomendaram ao apresentador do programa respondem sempre que a questão tem várias respostas. De seguida catalogam-nas em A, B e C; sendo que a C vem depois da B e a B logo a seguir à A. Mas também temos de contar com a D, a E e muito possivelmente com a F.

 

São pessoas chatas. Alguns de entre nós, os mais educados, consideram que os Marcelos, os Marques Mendes, os Santanas e os Vitorinos, são chatos, não por quererem, mas porque já nasceram assim. Argumentam que ninguém nasce chato por intenção, tal e qual como não se possui um nariz como o do Pinóquio, ou o do Sócrates, porque nos apetece.

 

Outros, nos quais me incluo, acham que as pessoas são chatas deliberadamente. É uma opção pessoal. O que eles verdadeiramente apreciam é o prazer de ouvir a sua própria voz, quer ela seja nasalada, rápida, arrastada ou simplesmente rrridícula…

 

Nós por cá costumamos dizer que alguém possui tendências artísticas quando diz que leu para aí mais de vinte e cinco livros, que consegue pronunciar Baudelaire corretamente e que sabe distinguir um champanhe Moët & Chandon de uma garrafa de espumante da Raposeira, ou um Brie de um Camembert.

 

Os snobes fascinam-nos. Mesmo os revolucionários que sonham com a sociedade onde todos lerão Shakespeare nos transportes públicos e aprenderão a tocar saxofone ou flauta transversal.

Kipling escreveu que cada um tem o seu medo, ou coisa parecida. O meu medo é esse mesmo: o medo de ter medo deles.

 

Afligem-me porque são pessoas que combinam em doses certas a beleza, a experiência, a vaidade e a crueldade. Tudo isto embrulhado com o papel celofane da ingenuidade.

 

Pobre de mim, que sou tão provinciano.

 

João Madureira

 

 

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Segunda-feira, 30 de Novembro de 2015

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267 - Pérolas e diamantes: o estado das coisas

 

Portugal é um país invejoso. Repare-se por exemplo no tom pomposamente difamatório e hipócrita que tantas vezes carateriza a cobertura televisiva de determinados acontecimentos, ou interprete-se o quão satisfatório é para as pessoas verem os outros portugueses serem humilhados.

 

Tudo isto originado e produzido pela televisão. Umas vezes em direto e outras em diferido. De facto, a vida dos portugueses tem o formato e a qualidade dos folhetins televisivos. É artificial e quase sempre medíocre.

 

O jornalista, e ensaísta inglês, Malcolm Muggeridge referiu esta triste evidência quando se deu conta que “a televisão não foi inventada para tornar os seres humanos desprovidos de conteúdo, mas é uma emanação da vacuidade deles”.

 

Os chineses possuem uma fórmula simpática e inteligente de abençoar as pessoas dizendo: que possas viver em tempos desinteressantes.

 

Quando oiço a gente que pertenceu ao famigerado governo de Passos Coelho e Paulo Portas falar do sucesso da sua governação lembro-me sempre de um meu amigo que quando alguém, muito compenetrado, lhe disse isso se riu tanto que caiu do sofá.

 

Quão admiravelmente eles argumentaram, e argumentam, baseados em factos errados e respondendo sempre num tom que é constituído por duas partes de brincadeira e apenas uma parte séria.

 

Tristram Shandy conta que os antigos Godos da Alemanha se fixaram primeiro na região entre os rios Vístula e Oder. Depois assimilaram os Hérulos, os Rúgios e outros clãs dos Vândalos. Possuíam estes povos o sensato hábito de debaterem sempre duas vezes as coisas de importância para o Estado.

 

Uma vez faziam-no sóbrios e outra bêbados. Sóbrios para que não lhes faltasse prudência e bêbados para que não lhes falhasse o vigor.

 

Dessa forma também agia o pai do opinativo Tristram. Sempre que alguma questão difícil e de maior gravidade necessitava de ser resolvida na família, e para a qual fosse necessária ao mesmo tempo grande sobriedade e grande vigor e determinação, ele reservava a noite de um domingo de cada mês, bem assim como a noite de sábado imediatamente anterior, para a debater na cama com a sua esposa. Desta forma gerou o hilariante Tristram.

 

A isto chamava o senhor, um tanto humoristicamente, os seus leitos de justiça.

 

Mas porque duvidava um pouco da bebida, o progenitor de Tristram Shandy adaptou o procedimento, reservando no entanto toda a filosofia a ele inerente.

 

Em todas as discussões delicadas, quando previa que não conseguia dar um passo sem correr o risco de ter “as suas senhorias, ou as suas reverências” a caírem-lhe em cima, escrevia tudo com a barriga cheia e depois corrigia em jejum. Ou então escrevia em jejum e só depois corrigia com a barriga cheia.

 

Quando escrevia de barriga cheia, fazia-o como se nunca mais tivesse de escrever em jejum enquanto vivesse, isto é, livre das preocupações e dos terrores do mundo.

 

Mas quando redigia em jejum, a história já era completamente diferente, pois manifestava pelo mundo toda a consideração e respeito possíveis.

 

Também eu manifesto pelo mundo toda a consideração e respeito possíveis e “mostro-me dono de um quinhão tão grande (pelo menos enquanto dura o jejum) dessa virtude subalterna da discrição como os melhores de entre vós”.

 

Penso que tal procedimento “vos há de fazer bem ao coração. E à cabeça também, contando que o entendais”.

 

Os políticos que já lá vão, sobretudo Cavaco Silva, mas também o Pedro Passos Coelho e Paulo Portas, fazem-me lembrar Proteu, o Velho do Mar da mitologia grega, que tinha o dom da profecia, mas que mudava de forma sempre que o interrogavam, para evitar responder.

 

Eles são todos tão modestos que dão pena. Tal como o pai de Tristram, vou terminar recorrendo à prolepsis (resposta antecipada a um argumento), referindo que a modéstia – tal como a fome, a sede, ou o sono –, não é boa nem má, ou vergonhosa ou outra coisa qualquer. É apenas uma forma hábil de se referirem a Diógenes.

 

João Madureira

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Segunda-feira, 16 de Novembro de 2015

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265 - Pérolas e diamantes: coisas do Mafarrico

 

A política tem apetência pelas leis da simetria.

Todos sabemos que o diabo, por ser calculista e dissimulado, é muito dado à intervenção política. Por isso é que a gente de direita o encosta à esquerda e o pessoal da esquerda o cola à direita.

De facto, o demónio tanto é um funcionário humilde e cumpridor das ordens que lhe dão sem discutir, acreditando servir a pátria, mesmo praticando as suas patifarias reacionárias, descobrindo estupefacto que aprecia a ordem e a hierarquia, sendo por isso profundamente conservador.

Como, por outro lado, o mafarrico é também um exaltado cidadão que contesta todas as ordens impostas pela sociedade burguesa e os seus lacaios, menos as do diretório partidário a que é fiel, crendo servir o seu povo, mesmo executando os seus desaforos revolucionários, ou libertários, ou igualitários, descobrindo que ama a organização, a comunidade e a Internacional, sendo por isso profundamente progressista.

Tanto a direita como a esquerda são, à imagem e semelhança do seu mestre, velhas raposas matreiras, protagonistas de muitas vitórias e outras tantas derrotas, e também capazes de apresentar as últimas como se das primeiras se tratasse.

A verdade é que Mefistófeles deu sempre uma mãozinha a todos os grandes líderes.

Mas numa coisa temos de convir, agora já não se mune dos velhos instrumentos de tortura e por vezes até agita nas mãos o seu raminho de oliveira.

Estou em crer que atualmente é tão centrista que reza para que a breve trecho seja possível um bloco central em Portugal. E quando o diabo reza é porque já está por tudo. Os extremos que se cuidem. Valha-nos Deus.

O mafarrico é mafarrico porque nunca acredita plenamente em ninguém, nem em Deus, e parte sempre do princípio de que cada verdade contém em si mesma uma mentira.

Foi ele quem nos ensinou que a utopia comunista não residia na teoria mas antes na maneira de a transpor para a prática. Como são disso prova irrefutável os milhões de vítimas contabilizados pelas organizações internacionais.

A submissão, uma vez interiorizada, atrofia o ser humano até ao fim da sua existência. O diabo sabe-o melhor do que ninguém.

O mafarrico não sabe discutir, argumentar e fundamenar. Apenas é capaz de mandar e obedecer.

O diabo é mesmo malvado porque só existe na alma de cada ser humano. Os ataques terroristas em Paris são disso o máximo exemplo paradigmático.

Por vezes transforma-se num insuportável comentador televisivo, ou num dos inenarráveis apresentadores de concursos para mentecaptos ou ainda num dono de televisão que diz prestar um serviço público quando não permite que se difunda mais do que lixo telenoveleiro envolto em papel celofane.

Travestido de personagem bíblica, divaga sobre sermões da montanha, camelos que não entram, com vossa licença, no cu da agulha; sobre parábolas de ricos avarentos que morrem sequinhos como as palhas; no milagre da multiplicação dos pães, dos peixes, dos chouriços e dos tachos, panelas e potes para a gente séria dos aparelhos partidários; nos porcos desalmados que se lançam ao vazio estragando tanto presunto, febras e rojões, questionando o auditório com a irrazoabilidade de para se salvar alguma coisa ter de se perder tanta outra.

Por isso é que o diabo nos tenta com a sua tese de que se Cristo viesse de novo à Terra, a História da Humanidade não sofreria qualquer alteração.

O diabo é tão dissimulado que criou uma espécie de síntese entre a verdade e a sonegação de determinados factos sem nunca se poder afirmar que está a mentir.

Convém não esquecer – pelo menos eu não esqueço – que foram os diabretes da direita neoliberal, liderada por Passos Coelho e Paulo Portas, que durante quatro anos de “ajustamento”, e de forma silenciosa, iniciaram a dissolução dos principais organismos do Estado, estigmatizando os funcionários públicos, cortando forte e feio nos salários, congelando as promoções e progressões nas carreiras, desmotivando de forma intencional e assertiva todos os que trabalham na administração central, regional e local.

Mas parece que chegou o tempo do esconjuro. Não sei é, se os exorcistas são capazes de tamanha tarefa.

Vade retro Satanás!

 

João Madureira

 

 

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Segunda-feira, 9 de Novembro de 2015

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264 - Pérolas e diamantes: quem cala consente

 

É tristemente universal o processo que leva a que a lógica dos interesses se sobreponha quase sempre à lógica dos princípios.

 

Por isso vemos nas televisões cenas comoventes de pais e filhos a chorarem nos aeroportos antes de partirem os voos que levarão os mais jovens para terras onde possam ganhar o pão que a sua ingrata pátria lhes nega.

 

No final das suas vidas dirão como o Príncipe de Ligne que têm tantas pátrias que já não sabem a qual pertencem.

 

E a vida de quem faz alguma coisa tem sempre formas de ser vista e comentada: gentilmente por parte de alguns e maledicentemente por parte da maioria. Mas já estamos habituados ao insulto indolente, impune, venenoso e preferencialmente anónimo.

 

Desses também eu tenho tido a minha parte e não espero que eles diminuam, mas o tempo endurece e o desprezo, como muito bem diz Rentes de Carvalho, é uma arte que se aprende.

 

Somos gente que aprecia o sol, habituada às terras mansas das veigas e dos outeiros, a deixar descer o olhar pelos declives suaves das nossas serras, a observar a mansidão clara dos nossos riachos, a fazer compromissos, a discutir infindavelmente nos cafés assuntos da treta, a passear lentamente nos finais da tarde entre um sorriso e um sarcasmo, a sofrermos com pena dos outros que ainda são mais humildes do que nós. Enfim, gostamos de gemer.

 

Nós por cá reunimos para comer e beber em caprichado desalinho, onde cada um por vezes grita a defesa das suas desvairadas ideias, quase sempre opostas à dos outros, apenas pelo prazer de ver como os outros fazem a sua pragmática ginástica mental para as defenderem. Somos barulhentos, superficiais e também exagerados.

 

Não me interpretem mal. A minha intenção não é distribuir rótulos de bom ou mau segundo as circunstâncias e as conveniências. Nisso são muito bons os outros. Eu exponho o que sinto e vejo, escrevo as minhas observações e até imito opiniões, que são necessariamente unilaterais. E talvez cheias de defeitos. Mas defini-las como maliciosas ou de má-fé é atribuir-lhes propósitos que não podem ter.

 

Há muito que abandonei o mito dos povos amáveis. E o nosso não é exceção. Talvez a lenda sirva como cartaz turístico, mas a verdade é que somos tão amáveis como os outros. Os portugueses apreciam as gracinhas inócuas e as piadas desdentadas.

 

Por cá reinam os burocratas de vistas curtas, mandam os fanáticos dos tachos partidários e governam os homens dos compromissos com a troika. Para conhecer o vilão é meter-lhe o poder na mão.

 

Os de fora consideram-nos um bando de relapsos.

 

E o meio literário continua como no tempo de Alexandre Herculano: um “prostíbulo”.

 

Numa carta a Bulhão Pato, Herculano atacava os que vendiam “a sua integridade moral ao demónio da corrupção”, denunciava “os protegidos e dependentes dos poderosos”, que faziam com que “os homens de espírito independente fossem vistos como uma espécie de leprosos”.

 

Alguém definiu Herculano como “o homem menos cumprimentadeiro de Portugal” porque na sua integridade literária tinha o costume de “medir as palavras pela consciência e não pela conveniência” e por isso se via sujeito ao “martírio”.

 

Num seu texto, Luiz Pacheco afirmou: “Dizer a verdade, toda a verdade, só a verdade, nada mais do que a verdade (a nossa, tão pequenina e tosca, tão atarantada e confusa, por vezes) – que prazer! que suprema ventura! Mas… Falemos em voz baixa. Como sagazmente descobriu o Abelaira, a palavra é de oiro… está tabelada, sobrecarregada de taxas, de imposições, proibitivas, penas pesadas… por isso, às vezes nos sai tão cara… às vezes, ficamos tramados, arriscamo-nos a perder o emprego, sei lá que mais. As palavras são um perigo, comprometem; os silêncios, sim, esses frequentemente compensam, porque quem cala consente, e é isso mesmo que se pretende: o assentimento geral, fundamentado (com otimismo fagueiro) no grande silêncio geral, a paz tumular das consciências.”

 

Os artigos laudatórios que por aí aparecem são quase uma forma de mostrarmos o nosso subdesenvolvimento, sobretudo cultural.

 

Quanto a mim, louvar quase nunca é bem-querer.

 

Desta vez vou mesmo atrever-ma a terminar com a letra do Fado “Cansaço”, eu que não aprecio essa canção típica dos bairros mouriscos de Lisboa: “Tudo o que faço ou não faço / Outros fizeram assim / Daí este meu cansaço / De sentir que quanto faço / Não é feito só por mim.”

 

João Madureira

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 15:46
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