ATÉ NÃO FICAR NINGUÉM
José Carlos Barros
Nas pequenas cidades e vilas da província, nas aldeias dos concelhos rurais, incide o mapa de desistirmos de ser um país. Encerram-se, conforme os casos, as escolas primárias, os centros de saúde, as urgências, as maternidades, os tribunais, as finanças, os troços periféricos dos caminhos-de-ferro. E, por arrasto, os restaurantes onde os funcionários do tribunal almoçavam durante a semana, a taberna, a pequena loja de pronto-a-vestir, os cafés onde se tomava a bica depois de almoço ou se bebia uma imperial ao fim da tarde. É toda uma sociedade e é toda uma economia, já de si frágeis, que se desmoronam como se decidíssemos, por inércia, que uma parte substancial do país deixou de valer a pena.
Mais ai de quem levante a voz ao governante da tutela que risca mais um serviço público do mapa: incha, toma a palavra e saca de imediato de um Relatório Técnico, como antes se sacava de um pistolo, a apontar-nos à cara as evidências. E os relatórios são evidências cientificamente irrepreensíveis.
Lembro-me, em criança, de discutirmos um qualquer estranho fenómeno e andarmos às turras do pode-não-pode-ser. Até que alguém dizia: «mas isto está provado cientificamente». E se estava provado cientificamente é porque era verdade e acabava a conversa.
Pois também estes relatórios são científicos. E tão científicos que se baseiam na matemática e na estatística. Ora, como sabemos desde os bancos da escola, contra a matemática e a estatística – couves.
E como se fazem e de que constam estes relatórios?
A Fulano, 24 anos, média de quinze no curso de Gestão da Católica, assessor do Secretário de Estado, pede-se que faça um relatório sobre o Centro de Saúde da vila Tal. O jovem assessor mune-se dos números das consultas-dia e dos utentes-dia nas urgências, mete-os no Excel e elabora uns gráficos de barras com as modas e as médias. Depois faz as contas aos ordenados do pessoal auxiliar, dos enfermeiros, dos médicos, e aos custos das compressas, do Voltaren, da água canalizada, da electricidade e de manutenção do edifício – para concluir, a negrito, que cada utente do Centro de Saúde da vila Tal, perdida no meio dos montes, desertificada, já quase sem ninguém, custa aos cofres do Estado aí umas vinte e seis vezes mais do que um utente do Centro de Saúde Tal e Tal localizado em Lisboa nas Avenidas Novas. E encerra-se a unidade.
Dividindo um pequeno valor da despesa por um número muito pequeno de pessoas – pode, ainda assim, obter-se como resultado um valor relativo com alguma dimensão. E contra o princípio do consumidor-pagador, que se baseia em valores assim relativos – couves.
O Secretário de Estado, quando se vê confrontado com as escassas três ou quatro dúzias de pessoas que resistem e ainda vivem na vila Tal, a reclamarem por lhes fecharem o Centro de Saúde – puxa do relatório do assessor e, sorrindo, depois de gargarejar, dispara: «estão a ver os gráficos? É que os números não mentem.» E a gente encarta o estojo, envergonhada desde logo por saber que a cura de um furúnculo nosso custa vinte e seis vezes mais ao Estado, em termos relativos, do que o furúnculo de um utente da Rua João Crisóstomo – ainda que o furúnculo de um e outro resulte da infecção dos mesmos e exactos folículos pilosos.
Claro que ao assessor do Secretário de Estado, a começar pelo Secretário de Estado, ninguém pede um relatório a avaliar a percentagem dos impostos do utente da vila Tal que vai directa ao enchimento do buraco dos prejuízos do Metropolitano de Lisboa ou da Refer. É que os milhões desses prejuízos têm uma natureza diversa: é que aí há um interesse Nacional que subjaz ao buraco. E portanto dispensa relatórios.
De resto, dividindo X por muitos milhares, o resultado não é assim tão espectacular como isso do ponto de vista relativo, ainda que o X, que representa a despesa, seja relevante.
O utente do Centro de Saúde da vila Tal, que entretanto foi encerrado, para curar-se do furúnculo saía antigamente da aldeia e alugava um táxi. E vá lá agora explicar-se-lhe, não havendo relatório, que além do táxi também contribui com os seus impostos para o pagamento das centenas de milhões de euros de prejuízo das empresas públicas de transportes que servem os grandes centros urbanos – tão a jeito para os utentes dos Centros de Saúde da capital usarem quando se deslocam a curar um furúnculo. Isso sobre o assunto não há relatórios. Não é que o jovem assessor, entusiasmado, cheio de vontade de demonstrar os conhecimentos que lhe justificam embolsar a mensalidade da assessoria, o não elaborasse se assim lho pedissem: mas ninguém lho pede porque esse relatório estropiava as narrativas.
E é, portanto, assim: contra as verdades científicas dos relatórios que verdadeiramente interessam – couves. E, portanto, em cascata, em dominó, no interior rural fecha-se um serviço público e depois outro – porque isto do princípio do consumidor-pagador está cientificamente provado que dá contas certinhas. E depois, como já não há escolas nem centros de saúde, nem finanças nem tribunais, nem notariados nem agências bancárias – o último a sair apaga a luz.
E, pelo menos, alguém, em silêncio, longe do mundo, enfim respira. Porque pelo menos, não havendo luz, já não se paga a factura da electricidade à EDP – em cujo relatório do processo de privatização o jovem assessor, com média de quinze no curso da Católica, se gaba de ter participado com doze gráficos de barras e a redacção de nove páginas justificativas, demonstrando a relevância para os cofres públicos do encaixe financeiro da operação.
O Comércio
um conto de José Carlos Barros
(conclusão)
[14. João Ventura]
A chegada de Carmen foi de tal modo importante que já nem lhe sei dizer, assim à distância, se foi ela, a emigração, a televisão ou a guerra colonial o que mais transformou a Vila nos últimos anos até a deixar irreconhecível. Não falo dos camiões a descarregar vigas de cimento e perfis de alumínio e dos edifícios pacóvios ou dos loteamentos que avançaram contra os muros antigos das propriedades e as árvores de fruto. Não falo do ostensivo abandono da terra. Não falo da descoberta dos empréstimos bancários como modo de vida. Falo de algo mais profundo que parece ter começado a ruir a partir desse dia em que o doutor Magalhães abriu as portas a uma rapariga supostamente muito jovem e, assim o espero, deslumbrante. Porque, por esse tempo, a beleza era um crime. Carmen, que só muito raramente se deixou ver a atravessar a varanda ou no canto do pátio onde cresce a sempre-noiva, não permitiu nunca que alguém pudesse adivinhar-lhe o rosto escondido por um lenço, descaído até aos ombros, nem o desenho do corpo, diluído por entre roupas negras e largas. Repare como, de um modo geral, é ponto assente a pouca beleza da moça. Assim o fizeram correr as guardiãs da moral, as defensoras dos costumes, os paladinos das virtudes antigas. Carmen atravessara a fronteira. E a fronteira foi sempre uma vil e insinuante sombra derramada sobre os telhados da Vila. Era do outro lado da raia que chegavam os perigos ou a ameaça. Ou o que se desconhece. Foi por aí que chegaram os sete mil e quinhentos soldados de Napoleão que dormiram na Vila e seguiram caras ao Porto deixando atrás de si um rasto de medo e destruição. Foi por aí que chegaram homens e mulheres fugidos à ignomínia de Franco. Mesmo quando o futuro é que estava em jogo, e atravessar a fronteira significava fugir à desgraça, era ainda o choro de quem ficava que marcava os desígnios dessa esperança. Com a chegada de Carmen, como vê, tudo mudou. Desmoronou-se, sobretudo, o castelo impenetrável da moral. Ou, enfim, estilhaçou ligeiramente. A Vila, e só por isso já seria importante você ter começado por aqui com perguntas, voltou a acreditar nas palavras do Vasco. E começou a acreditar que a rapariga, afinal, talvez até pudesse ser deslumbrante. E que da beleza não vem propriamente mal nenhum ao mundo. Não é um crime. O que significa que, num certo sentido, a Vila pode voltar a acreditar em si mesma. Só é preciso que este mistério, contra as suas indagações e a má-língua do mundo, verdadeiramente permaneça.
[15. Doutor]
O Sousa garante-me que posso confiar na sua discrição. Pois bem. Esclareçamos de vez este mistério. Sente-se, a conversa será longa. Uma parte da história já você conhece. Numa noite chuvosa de mil novecentos e sessenta e sete, depois de ter atravessado a fronteira e correr caminhos de montanha quase desertos, Carmen, cansada e incógnita, chegou à Vila. Como terá oportunidade de ver, e apesar dos seus quase quarenta anos, é duma beleza perturbante. Tínhamos combinado que. Quer dizer: nós tínhamos sido apresentados por. Mas vamos por partes. Vasco, completamente bêbado, regressa a casa e encontra-a deitada no chão. Inconsciente. Nem sei como conseguiu trazê-la nos braços e mantê-la erguida à entrada da porta. Eu estava a dormir, não terei acordado logo. Foi então que. Mas sente-se. A conversa, como lhe digo, será longa.
José Carlos Barros
O Comércio
um conto de José Carlos Barros
(continuação. terceira parte)
[12. Sousa]
Pois como te hei-de dizer. O Magalhães nunca tocou no assunto. Não ia insistir. Só te posso dizer que a Carmen é de uma beleza perturbante. Não me admiro que o Vasco se não recomponha da visão daquela noite antiga em que a diz ter encontrado desfalecida no meio da rua. Ele é um romântico, já deves saber. Pois acontece que a Carmen, inexplicavelmente, não aparece à janela ou à varanda senão a esconder o rosto e vestida de negro da cabeça aos pés. Riem-se quando o Vasco a descreve. Como é que ele diz? Deslumbrante. As pessoas riem-se. Pois desculpar-me-ás, o assunto é delicado. Bem vês, o próprio Magalhães foi cauteloso quando falou contigo. Calculo que também não tenha tocado em nada que respeite ao passado político. É um homem magoado. Lutámos juntos, conspirámos, arriscámos, tínhamos ideais. Não gosto de dizer ideais porque a palavra remete para a abstracção das utopias. O que nos movia eram coisas muito concretas. A injustiça, a arbitrariedade, a desumanidade disfarçada por uma capa filha da puta de bons sentimentos. Era tudo gentinha excelente. Praticava actos de caridade, rezava a Deus pela saúde dos pobres. Não é que tivéssemos ideais, portanto. Lutávamos por coisas concretas e sabíamos que não haveríamos de mudar o mundo. Nem queríamos mudar o mundo: esperávamos apenas conseguir mexer um cibo nos seus eixos. E incomodávamos. Isso é certo. Mas agora já tudo parece estranho, ridículo. A sacristia venceu-nos. E as pessoas esquecem. Sobretudo o que não chegaram nunca a aprender. O fascismo, por aqui, foi sobretudo silêncio. Não era nada de propriamente palpável, material. Era apenas silêncio. A guerra colonial era um pano muito largo de silêncio quando não era exaltação dos valores pátrios. A emigração era silêncio. A iniquidade era silêncio. A injustiça era silêncio. Fodeu-se tudo em deixa-andar. E quando se foi a ver já nem havia jovens e ficaram apenas os velhos como restos do rame-rame. Repara: até o grupo de futebol acabou. E o doutor Magalhães, claro, sempre incompreendido e a ficar do lado dos vencidos da vida. Porque nada mudou entretanto. O grande sonho desta gente toda passou a ser varrer para debaixo da mesa as migalhas da ruralidade como quem se livra de um incómodo ou de uma vergonha. O sonho passou a ser o comércio e o terciário: abrir um café ou arranjar um emprego nas finanças. E ter uma conta no banco e ter direito a crédito. Um dia esta merda vai dar um estouro que nem uma castanha. Mas ninguém liga. E o doutor desistiu. Com fama de empedernido, insensível, espalha-brasas. Já imaginas o quanto lhe custará falar destas fronteiras mesquinhas que o separam de um povo que tanto julgou amar e por quem se dispôs a arriscar tudo.
[13. Vasco]
É isso, depois de tantos anos, que procuro. O voo dos pássaros no princípio da manhã, os bois sonolentos atravessando a ponte do moinho do Cubo, a avenida de plátanos e seus muros de pedra solta, mulheres regressando à Vila com maçãs e nozes. Procuro o que não existe. A mata de carvalhos a meio do Padrão, as cobras d água caçando peixes nos remansos de Requeixe, as flores d Abril dos negrilhos, os amentilhos dos amieiros debruçados sobre os leitos estreitos dos rios. Como podemos viver tanto tempo com este peso insustentável das ausências. Pergunto. Ninguém responde. Procuro o vinho enterrado nas adegas frescas de saibro e paredes de granito, o choro e o riso, as feiras antes do plástico, os ourives de filigrana, os comerciantes de fazenda e os seus jogos simples de esconder e mostrar. Procuro as raparigas impacientes a galgar os atalhos com roupas novas, o salgueiro na curva da ribeira do Fontão e do mundo. Procuro, portanto, o que não existe nos intervalos de procurar o sinal ou o símbolo de tudo o que se perdeu. Alguém me segreda o nome de Carmen? Por sobre as pedras e a urze, por sobre o alecrim e o odor antigo da terra quando começa a chover, eis que chegam as máquinas e o comércio atravessando campos de cultivo, hortas e lugares. Por sobre as linhas do cadastro, como num movimento em falso, ergue o silêncio muros de cimento, nomes de traição. Chama-se Carmen, assim o dizem. Assim mo dizem a mim, eu que pela primeira vez, deslumbrante, a ergui nos braços contra a chuva e a sombra e contra o que ameaçadoramente regressa com a noite. Ou se perde com a noite. Não tenho lugar nem palavras para esse refúgio. Desde então, simplesmente, a procuro como se a procurasse em mim, em alguma parte de mim, eu que procuro apenas o que não existe. E por isso, em rigor, Carmen, assim se chama, não existe. Ela que, deslumbrante, ficou em casa do facultativo para assistir ao fim de todas as coisas. E para dar um nome a tudo quanto se perdeu. Às romarias, ao acordeon, à avoadinha e aos campos de poila, à banda de música no coreto de madeira, a quanto participa da invenção do mundo. Carmen. A que regressa do outro lado da fronteira para morrer sem rosto e sem nome, indecifrável, e sem fronteiras, do outro lado do mundo.
(conclui amanhã)
O Comércio
um conto de José Carlos Barros
(continuação)
7. [Acúrsio]
Sim, trabalhei por lá uns seis ou sete meses. Foi há tanto tempo, já correu tanta água nos rigueiros da serra. Seja como for. Podia contar-lhe coisas terríveis. Como tratava a desgraçada da esposa, por exemplo. Bem, sim, não foi coisa que tivesse visto. Dizia-se, sabia-se. E das raparigas que lá iam para isso, claro, falava-se à boca pequena. Eu mesmo me recordo de uma moça que chegou aí a coberto da noite e do segredo que envolveu a casa. Eles fechados no consultório e a dona Maria escondida no quarto a rezar pela salvação do mundo. Era o que se dizia. Aqui houve dois ou três casos, mas as raparigas deixavam-nos vir. Quem não tivesse posses ou um bom amparo. Isto é como tudo.
[8. Custódio]
As pessoas, na Vila, perderam a memória. O que é normal. Não há memória individual que sobreviva à amnésia colectiva. À Vila foram chegando pessoas de vários lugares e por diferentes razões. Para trabalhar nas finanças ou na caixa, chefiar o posto da guarda ou montar um negócio de reclame luminoso por cima da vitrina larga. Não tinham por aqui raízes fundas. Quanto aos outros, os que tinham raízes, foram aos poucos procurando livrar-se delas como quem se livra de um incómodo. Até absolutamente nada distinguir uns e outros. Por isso mesmo encontrará agora toda esta gente tão babada com os partidos de Lisboa, por exemplo. E tão distantes do que verdadeiramente lhes pertencia ou podia pertencer-lhes. Procure-os no reservado do café bebendo vinho branco de marca a acompanhar pratinhos de cigalas. São poucos os resistentes. Procuram, nostálgicos, o que não existe. E também eles já começam a comer cigalas e também eles começam a nem procurar. E apenas se embebedam e fazem filhos que depois desaparecem daqui para longes terras ou arranjam um emprego na conservatória ou na secretaria da câmara. Agora as fronteiras. Sei lá se as fronteiras existiam, sei lá se as fronteiras existiram. Hoje sei que não existem. Nem as verdadeiras nem as outras. As simbólicas. Desde logo porque somos todos iguais e as fronteiras marcam lugares de diferenças. Vamos todos perdendo a memória e vamo-nos todos perdendo por dentro de nós mesmos como se já nem pudéssemos encontrar-nos num livro de regressos. Olhe-me essa gente do reservado do café a comer marisco congelado e a beber vinho de marca depois de ter vendido as vinhas. Se não estou a exagerar? Sim. O mais certo é que esteja a exagerar e que entre mim e o mundo se tenha já erguido uma inultapassável barreira de gelo e incompreensão.
[9. Mário]
A raia sempre foi um lugar mágico e recorrente. Um lugar de refúgio e protecção. Um lugar de sonho. Para procurar o amor ou fugir ao fascismo ou simplesmente à desgraça a que o mundo rural votou fervorosamente os seus filhos. A raia sempre foi um lugar por onde se transportaram ilusões difusas. Um lugar virado ao sonho mas também um lugar de desgraças. Por ali fugiram tantos emigantes não se sabe de quê. Alguns morreram ou desapareceram entre o comércio de passadores sem escrúpulos e esses caminhos que lhes eram estranhos. Mas agora me interrogo. Onde quererá você chegar com estas conversas sobre a raia? Acha que isso atrasa ou adianta à história do Vasco e da galega que se amantizou com o doutor?
[10. Pedro Mendes]
Não acredite na teoria dos acasos. Carmen veio parar aqui por razões políticas. Para isso serviu a fronteira tantas vezes. Podia contar-lhe muitos casos. Desde a guerra civil. Mas também depois, e então sobretudo em sentido inverso. Agora essa história dos desmanchos e da boa-vai-ela por terras de Espanha. Trocaram-lhe as voltas à narrativa. O doutor Magalhães nunca se alheou da política. Certamente que, por razões políticas, a protegeu. Como acreditar que é ao calhas que alguém vem parar a um sítio destes? Já havia história. Só podia haver. Claro que é isso que corre. Que um acaso a levou a casa do doutor. O acaso de mais uma tosga do Vasco. A encontrar uma rapariga deslumbrante, desfalecida, no meio da rua, às duas ou três da manhã. Ou talvez não. Digo eu. O certo é que o próprio destino tem os seus quês quanto a uma coisa ser consequência de outra como se não pudesse ser de outro modo. Que sabemos nós? Fale com o Sousa. O Sousa acompanhava-o nessas andanças. Verá como a história é diferente da versão de vão de escada que lhe contaram. Não quer dizer, enfim, que não houvesse muito vinho e espanholas de salero fácil à mistura. Lá de quando em vez. Mas eram outras as razões essenciais que os moviam. Nas casas de ambos dormiu muito fugido ao fascismo. Repare como a palavra já parece estranha. Soletre devagar. Fas-cis-mo. Esquecemos tão depressa. E depois essas tretas da mulher do médico. Uma beata de fundo de sacristia feita com o padre e as guardiãs da moral. Posso indicar-lhas a dedo, uma a uma, ainda. Todas juntas não fazem uma. A lançarem boatos desses. Nunca compreenderam, não podiam compreender. Acontece que o facultativo. É curioso. O Vasco diz sempre facultativo. O doutor deve ter deixado correr o boato dos desmanchos. A história acabava por lhe ser favorável. Justificava as movimentações estranhas a meio da noite, por exemplo. Esta é que é a verdade. Fale com o Sousa, o doutor pouco lhe haverá de adiantar. Ou nada. Ficou seco. Desiludido com o rumo que as coisas tomaram, com o rumo que as coisas tomavam. Mesmo em setenta e quatro, enfim. A verdade, de qualquer modo, é que Carmen nunca saiu de casa, não permitiu nunca que ninguém lhe visse o rosto por inteiro. Que pretende ocultar, ou revelar, com este mistério? Ninguém sabe. Penso que ninguém virá a saber. Nem você. Há sempre qualquer coisa que se não desvenda nunca, não acha? Um segredo, um mistério, o avesso de uma evidência permanecem para além do que sabemos e para além de todas as indagações.
[11. Júlio France]
Lembro-me de quando rapavam fome e não tinham uma leira e não amanhavam emprego. Nessa altura eu não era ainda o passador sem escrúpulos mas a tábua de salvação no meio da tormenta. Davam-me prendas, prometiam favores, convidavam-me para apadrinhar os rapazes e dar-lhes o nome. Empenhavam-se, é certo. Mas essas casas que vê agora a erguer-se com telhados suíços, esses carros lustrosos em que regressam, esse nariz erguido a pedir rodadas de grades, é a mim, e a outros como eu, que devem. Porque também nós arriscávamos o futuro. O nosso e o dos nossos. O mesmo com o contrabando, não lhe escondo que fiz muito. Contrabandeávamos as coisas mais incríveis, até enxadas e foices. Mantas e calçado, café e tabaco, cacau e perfumes baratos. E por isso, você não é desse tempo, as raparigas, nos bailes, nas festas, nas bodas, cheiravam todas ao mesmo perfume. Certa vez a minha mulher andou quase três horas em redor da capela de S. Caetano com um saco de contrabando à cabeça. Como se fosse o centeio de uma promessa grande. Eu andava seguido. E então com a guarda republicana a espreitar de um lado e os negociantes a espreitar do outro. Duma outra vez, em princípios de vida, impingiram-me uma remessa de sapatos todos do mesmo pé. O que passei para os vender, na feira da Vila, nos largos das aldeias, com artes e maroscas que só eu sei. Agora, eu que fui preso, que andei fugido pelos atalhos dos montes, sou corrido de passador sem escrúpulos. Por esses mesmos que livrei da desgraça dos trabalhos do campo. Por esses que vê de porta aberta no comércio, de espadinha com cromados puxados a parafina, de casa forrada de azulejos, de esposa no cabeleireiro duas vezes à semana a fazer mises.
(continua amanhã)
O Comércio
um conto de José Carlos Barros
1. [Vasco]
Naquela noite fiquei até tarde no café. É certo que lhe tinha bebido bem. Devia ter começado a chover pouco antes de sair. Porque não recordo a chuva senão quando, já perto de casa, tropecei num deslumbrante corpo de mulher. Ninguém, no dia seguinte, e nos dias que se seguiram a esse dia, acreditou nas minhas palavras. Eu mesmo deixei de acreditar. Mas continuo a ver, tantos anos depois, esse rosto de cinema, esse corpo dobrado nos meus braços. Enquanto a erguia sem esforço. Adormecida. Como se não tivesse peso. Como se estivesse a preparar-se para acordar e dançar num espaço sem tempo, no princípio dos tempos. Conversa de bêbado, dirá. Visões que o malte tece. Isso me disseram todos quantos ouviram a minha versão dos estranhos sucessos dessa noite.
2. [Pimentel]
O Vasco é um romântico. Sobretudo quando bebe. Mais ainda na ressaca. Enfim, é um romântico. Nessa noite de meados de novembro de mil novecentos e sessenta e sete parecia que estava a beber de empreitada. Desde as onze, de fio, três ou quatro horas seguidinhas. As mulheres dão-lhe cabo do fígado mais que do coração. Apaixona-se muito e a correspondência é relativa. Acontece que pela primeira vez o rapaz fizera um engate que se dissesse benza-te deus. A prima do Sérgio, recém-chegada de Lisboa. Aquilo era outro andamento. Perfumezinho, decote, saia curta, o cabelo desatado nos ombros. Segue-se que dois dias depois da chegada era vê-los muito agarradinhos no baile do fundo da rua a dançar ao som da grafonola do Albino. Já lhe devo ter dito que o rapaz tem veia poética. Pois imagina. Flores e poemas a rimar, um fio de prata comprado no Inácio, bilhetinhos, prendinhas de namoro. Não que eu não lhe repetisse: deixa-te de paneleirices, menino. Mas nada. Ele fechado em casa a acertar a métrica dos versos e ela no sábado da festa com o Tó Fernandes em aulas de condução. O Vasco, é claro, adoeceu-se daquela parte da alma onde flui a inspiração da lírica. E então recomeçou nos copos. Era sempre assim de tiro e queda, o moço, em se tratando de desgostos de amor. E este, imagine-se, que parecia correspondido. E você agora compreende a razão de ninguém ter acreditado na história do Vasco. Ele fez sempre questão do adjectivo, já deve saber: a história da mulher deslumbrante em que tropeçara às três da manhã quase à porta de casa. Um pifo dos velhos, isso garanto-lho eu. A verdade é que repetia a história com convicção, sempre com os mesmos pormenores, sempre com as mesmas palavras. Isso chegou a dar-nos que pensar. E depois a coincidência espantosa de, subitamente, se dizer que o doutor arranjara empregada de dentro, ou lá que era. Caída do céu, como nos filmes. Pois o Vasco insistia que só podia ser essa mulher que levara a casa do facultativo às três da manhã quando a descobriu no meio da rua. Ele diz sempre o facultativo. O certo é que, a bem dizer, praticamente ninguém pôs a vista em cima à criada do doutor durante o andar de todos estes anos. Eu mesmo a vi uma única vez, ainda assim de relance. Toda vestida de preto, o cabelo desalinhado a fugir-lhe do lenço que tapava parte do rosto. Mas deslumbrante, ora adeus. Nem é o que corre.
3. [Doutor]
O meio é pequeno. Não há nada de estranho ou surpreendente num caso que o não chega a ser. Numa noite de mil novecentos e sessenta em sete, em novembro, ouvi bater à porta. Altas horas da noite, uma noite de chuva. Devo ter demorado, o vento corria nos telhados, não terei ouvido logo. E então aparece-me uma rapariga galega com nome de andaluza. Carmen. Quase desfalecida. A precisar de cuidados médicos. Não soube explicar muito bem como tinha chegado à Vila, não insisti nas perguntas. Ela não se lembrava de nada, ou fazia de conta que não se lembrava de nada. Vai dar ao mesmo. Ficou a convalescer, acabou por ficar. Acresce que. Mas você já deve saber. Carmen não é propriamente deslumbrante. Seja como for. Um médico viúvo não pode ter uma empregada portas adentro. Mesmo que não seja muito bonita. As pessoas falam, é assim o povo. É como lhe digo: acabou por ficar. Nunca fala com ninguém, quase nunca sai de casa, passa o tempo entre a limpeza do pó, a cozinha e a leitura de romances. Lamento, mas penso que o não quererá receber.
4. [Raimundo]
O doutor perdeu a mulher em mil novecentos e sessenta e seis. Agosto ou Setembro. Logo a seguir à festa da Vila. Agosto, portanto. Era uma santa, pode escrevê-lo. Do doutor não direi o mesmo. Bruto como casas, uma pedra no lugar do coração. Estou que nunca olhou um cristão que não fosse de esguelha. Daí já você tira. É assim o mundo, é sempre assim. O mundo está feito de maneira que uma metade sofra sempre pela outra metade. A dona Maria com a caridade dos pobres, as novenas, a luz do Altíssimo, e o doutor na boa-vai-ela em sucessivas surtidas a Espanha. Mulherio, só podia ser. Pois lho digo eu. Dezasseis anos servi naquela casa. E depois a desvergonha de meter portas adentro uma galdéria fugida sabe-se lá de onde. Como as outras que lá iam para o doutor. Cala-te boca.
5. [Joaquim]
Não vá por aí. Aqui as fronteiras não passam de grafismos tirados a tinta da china nas cartas militares. Os próprios marcos, onde e os há, é vê-los cobertos de ervas. As fronteiras são outras. De qualquer modo a verdade é a camada mais profunda de qualquer acontecimento. Não pretenda saber tudo, desvendar seja o que for que passe além da evidência. O Vasco afirma ter tropeçado numa mulher deslumbrante. Pois então tropeçou numa mulher deslumbrante. Agora não comece a fazer filmes. As fronteiras são outras, e essas é que valiam o esforço de procurar esclarecê-las. As fronteiras quotidianas que não vêm nos mapas. As que se erguem entre mim e você. Entre você e o doutor Magalhães. Entre o doutor e as pessoas da Vila. Entre as pessoas e a doente anónima que caiu no consultório do doutor às duas ou três da manhã. Entre essa rapariga, deslumbrante ou não, e o resto da Vila e do mundo.
6. [João Pereira]
É curioso que queira desenterrar um pequeno mistério sem importância do nosso passado recente. Por várias razões. Mas sobretudo porque se tem falado disso desde que você começou por aqui com perguntas. Na café, no barbeiro, na farmácia, no jardim dos correios, as pessoas discutem a chegada de Carmen e a inexplicável teimosia do Vasco em insistir na beleza da moça. Ele próprio não acreditava já numa história que, convenhamos, tinha pouca consistência. Carmen nunca sai de casa. Mas os poucos que a viram, na varanda ou a atravessar o pátio, uma ou outra vez no corredor que leva à sala de espera do consultório, garantem que ela pode ser tudo menos deslumbrante. Estes lugares de província são abstracções territoriais onde nada acontece. As pessoas, aos poucos, vão-se misturando na terra e desaparecem misturadas às raízes apodrecidas dos negrilhos. Onde nada se discute que não seja superficial, irrelevante. A suposta beleza da moça não é coisa de grande importância, acredite. E também pouco importa como ela apareceu ou deixou de aparecer. A grande questão é se o doutor dorme ou não dorme com ela. Esse é o ponto. E isso é que tem ocupado os espíritos desta gente nos últimos catorze ou quinze anos. E se dorme, e é como se não pudesse deixar de dormir, com que frequência o facultativo a assiste. É assim que o Vasco se refere ao doutor. Facultativo. E é isto que verdadeiramente interessa numa terra onde o virgo das raparigas e a graduação do vinho tinto se constituem como temas existenciais. De qualquer modo não deixa de ser uma perspectiva interessante. Não sei. É que a fronteira, aqui, pelo menos aqui, é um traço que divide duas margens iguais de um mesmo rio. Um rio, ainda assim, periférico. Mas não sei. Provavelmente não há uma verdade. Às vezes penso que apenas existem maneiras diferentes de olhar uma mesma coisa, um mesmo acontecimento, uma mesma verdade.
(continua amanhã)
Uma árvore e um presépio
José Carlos Barros
GOSTO do Natal ainda que o Natal seja cada vez mais a procura de um lugar que não existe. Gosto do Natal ainda que o Natal seja cada vez mais a imagem de uma impossibilidade. Em Dezembro, ano após ano, procuramos dentro de nós a força que nos ajude a recuperar um lugar ou a aproximarmo-nos dele. Cada vez nos afastamos mais desse lugar. E cada vez nos esforçamos mais por nos aproximarmos dele.
O NATAL é ainda, será sempre, o frio. O frio para que faça sentido acender as lareiras e apeteça chegar a casa e sair de casa com casacos e gorros. A chuva. A geada. Ou a neve: o branco sobre os campos e os passeios e as ruas como o algodão da árvore de Natal. E o presépio: não mais que uma dúzia de pequenas imagens de barro. O musgo disposto cuidadosamente pelo espaço todo: a base. A serradura a desenhar os caminhos. Duas ou três ovelhas. Os reis magos. A cabana a fazer de estábulo. Maria, José, o Menino Jesus. Nessa altura não se discutia ainda se o boi e o burro tinham lugar. O boi que conhece o seu amo. O burro que conhece a manjedoura do seu senhor.
O NATAL é um lugar que fica sobretudo na infância. Descia-se até à curva do rio, subia-se depois pelo estradão de um bosque. Não era ainda o tempo dos pinheiros de plástico: escolhia-se demoradamente a árvore, entre mil, que deixaria de ser uma árvore para passar a ser a árvore de Natal. E é assim: ano após ano. O presépio e a árvore, o cheiro dos fritos e a surpresa dos presentes embrulhados em papel de fantasia, a fogueira na rua, a neve, os pinhões, o jogo do rapa e
o desconhecimento da morte. Isso, sobretudo, era o Natal: o desconhecimento da morte. Porque na mesa do Natal não havia ainda nenhum lugar vazio.
O NATAL é um lugar que fica na infância. Só uma criança conhece o segredo que transforma uma árvore numa árvore de Natal.
Ainda a Feira dos Santos
texto de José Carlos Barros
Não fui à Feira dos Santos. No ano passado também não fui à Feira dos Santos. E, de súbito, é como se a Feira dos Santos começasse a emergir de um lugar concreto e ausente, afastado e próximo, volátil e efémero. É como se a Feira dos Santos, não mais que de repente, passasse a reverter apenas da memória ou da imagem de névoa que traz de longe os objectos que se perderam ou adquiriram um uso diferente.
Este ano não fui à Feira dos Santos. Não vi os ferros espetados nos passeios nem as espias das tendas da Feira dos Santos. Não vi a confusão de gente subindo e descendo as ruas. Não vi as samarras nem o preço dos tachos e das panelas desenhado, às vezes trémulo, às vezes em gótico, num pedaço de cartão canelado. Talvez a Feira dos Santos há muito, em mim, tenha passado a ser apenas o que por um esforço de memória lhe pertence.
Lembro-me: a taberna ficava quase no fundo da aldeia. Na fotografia o boi barroso tinha as fitas vermelhas dos enfeites e numa estante exibia-se o troféu. Era nas Lavradas. Bebíamos vinho numa tarde de Novembro que deixava lá fora o frio das navalhas poisado nas pedras e comemorávamos e falávamos do prémio com o orgulho (a que outros chamam vaidade) de quem vence um prémio na Feira dos Santos.
Lembro-me: rendia-me, fascinado, a olhar a geometria do entrançado quase mágico das varas dos castinçais e a adivinhar a honra do meu avô (isso a que outros chamam vaidade) ao ouvir toda a gente a gabar essa sua arte inimitável. Mas uma vez, na Feira dos Santos, o meu avô viu as mais perfeitas e arrumadas varas. Primeiro não queria acreditar. Depois ficou a conversar com o artesão. Começou logo a chamar-lhe mestre. Partilharam segredos, revelações. E o meu avô, na feira dos Santos, comprou um cesto de carvalho ao artesão da aldeia de Lousa, Torre de Moncorvo. Durante muitos anos, na vindima, era esse o cesto que recebia, num ritual, as primeiras uvas. E o meu avô, invariavelmente, dizia: "Este cesto foi feito pelo José Pulgas. Nunca vi ninguém tão perfeito na arte. Conheci-o na Feira dos Santos".
Como dizer, pois, que este ano não fui à Feira dos Santos? Como dizer que também no ano passado não fui à Feira dos Santos? Eu vou sempre à Feira dos Santos. Eu fui todos os anos à Feira dos Santos.
Juro pela jukebox do Tabolado que estive sempre na Feira dos Santos mesmo nos anos, ou sobretudo nesses anos, em que lá não fui.
Metáfora do nosso tempo
com recurso às golas dos açudes
poema de José Carlos Barros
o mecanismo é o mesmo
nas golas dos açudes
à superfície
é quase invisível o círculo a transformar-se em elipse
mas depois a força helicoidal da massa de água
puxa os corpos para o
buraco da descarga de fundo
como a acção de um íman
sobre objectos metálicos
minúsculos
o mecanismo é o mesmo
pensamos sempre que vemos o que não vemos
é uma tarde vagarosa com
a luz a atravessar os objectos
mas o buraco está debaixo de água e
é imune aos discursos das boas intenções
é refractário à sintaxe
é assim nas golas dos açudes
a hélice invisível puxa-te até ao fundo
primeiro parece apenas uma ligeira rarefacção do ar
depois sentes que a respiração é cada vez mais difícil
no último instante compreendes que
o buraco tem espaço suficiente para passar a cabeça
mas que é impossível
passar o resto do corpo
Em 25 de Maio de 2009 este blog anunciava o lançamento do romance « O Prazer e o Tédio» de José Carlos Barros (http://chaves.blogs.sapo.pt/390138.html)
Foi com prazer, sem qualquer tédio que dei então a notícia, aliás até me senti honrado em trazer ao blog o José Carlos, amigo desde os tempos de Liceu, colega de blogosfera e colaborador deste blog com o seu “Discurso Sobre a Cidade” mensal.
Assim, pela certa que alguns acompanhantes deste blog teriam estranhado que eu nestes últimos tempos não tivesse trazido aqui novamente o “Prazer e o Tédio”, pois tem sido novamente notícia, agora não apenas o romance mas também o filme em cinema. Se tal não aconteceu foi porque, por razões alheias à minha vontade, perdi a estreia do filme em Boticas e mais tarde em Montalegre, mas principalmente porque queria mais alguma coisa para além da notícia e dessas estreias. Queria o filme em Chaves, não só para que todos os flavienses tivessem a oportunidade de o ver, mas também porque é um filme de flavienses, pois embora o José Carlos seja natural de Boticas, todos lhe conhecem a sua forte ligação sentimental e de amizade à cidade de Chaves, onde fez os seus estudos liceais, para além do realizador do filme, André Graça Gomes, este sim, ser flaviense de nascença.
Pois o filme, « O Prazer e o Tédio», estreia hoje em Chaves, às 21H30 no auditório do Centro Cultural de Chaves e assim, fica aqui o registo do dia de hoje e o prazer de finalmente o poder ver, aliado ao prazer e honra de também o poder divulgar aqui, hoje duplamente ou triplamente honrado, pois autor do romance, realizador do filme, atores e demais intervenientes, e tudo feito com a nossa gente da boa casta transmontana e neste caso também a barrosã de Boticas e Chaves.
Fica a sinopse do filme e mais alguns dados sobre os autores (romance e filme) para os quais recorro ao cartaz do filme em Chaves e àquilo que o “Diário Atual” escreveu aquando da estreia do filme em Boticas.
“Livro e filme contam histórias de amor e desamor num mundo que parece caminhar inexoravelmente para o colapso, para a ruína: o mundo rural. Trata-se de uma narrativa feita a várias vozes, para compensar a dificuldade ou impossibilidade de estabelecer uma narrativa unívoca dos acontecimentos.
Uma das particularidades do filme é ter sido rodado sem recorrer a qualquer subsídio do Estado e interpretado por amadores, na sua grande maioria, residentes no concelho de Boticas.
SINOPSE
Aline, no seu apartamento em Lisboa, revê fotografias da velha Casa a Jusante da Ponte de Arame onde nascera em finais da década de 60 do século XX e que abandonara, de vez, ainda adolescente. Na cidade, o tédio parece submergi-la. Contudo, põe de lado a hipótese de regressar, decidindo, antes, livrar-se o mais depressa possível dessa casa afastada do mundo.
No meio das fotografias, descobre o diário do Engenheiro das Florestas, seu antepassado, que, em 1889, chegara à Vila, empolgado pela ideia de florestar os montes áridos do Barroso, de ali ”criar paisagens”. Este acaso faz abrir gavetas sucessivas da memória, conduzindo à descoberta de episódios cheios de mistério e intriga, de violência e ternura, de generosidade e ressentimento, de prazer e de tédio. Como pano de fundo, o inevitável confronto entre a Casa (significando o que está, para ficar) e o que chega de fora, o que não tem nome e por isso amedronta. Mesmo quando se bebe uma malga de vinho dos mortos, se prova um naco de presunto ou se saboreia um cabrito da Encosta do Voluntário.
A história (que Aline conta) começa no dia distante em que os cães do Pai Ventura morreram afogados na corrente gelada das águas da ribeira do Fontão. Mas podia começar umas décadas depois, nessa manhã de Setembro em que a camioneta de carreira chegou à Vila e encontrou o Lalice desavindo. Ou mais tarde ainda, em 1949, quando um topógrafo de Lisboa foi visto a tirar miras na Ponte Pedrinha e se descobriu que uma mulher deslumbrante o acompanhava. É indiferente.
FANTÁSTICO ACONTECIMENTO SOCIAL
O filme foi produzido, realizado e interpretado por pessoas de alguma forma ligadas à região do Barroso, em especial ao concelho de Boticas. A sua realização foi possível, no essencial, graças ao apoio da Câmara Municipal de Boticas e da Casa da Eira Longa, unidade de turismo rural, bem como a uma forte e espontânea participação da população local.
Muitas dezenas de pessoas e instituições estiveram, de uma maneira ou outra, envolvidas no projeto. Estabelecimentos comerciais, restaurantes, autarquias e cidadãos em nome individual responderam pronta e positivamente ao apelo de apoiarem a realização do filme. O Vidago Palace Hotel, por exemplo, cedeu um velho autocarro dos anos 20, sem o qual teria sido complicado filmar a chegada pela primeira vez à Vila da camioneta de carreira. Todos sentiam que o filme tinha a ver consigo e com a sua terra. Isto apesar de se tratar de um filme de autor e não de um qualquer objeto de promoção turística. Neste contexto, será acertado afirmar que “O Prazer e o Tédio” só se tornou num objeto de arte, depois de ser um fantástico acontecimento social.
O filme será levado a salas de Lisboa, Porto e outras localidades. A primeira será em Montalegre, onde será projetado no Auditório Municipal, no dia 14 de Agosto.
JOSÉ CARLOS BARROS
Nascido em 1963, em Boticas, José Carlos Barros é arquiteto paisagista, mas desde jovem que tem desenvolvido uma ininterrupta e reconhecida atividade literária, mormente no campo da poesia. Ganhou por duas vezes o Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama, um deles premiando o livro Os sete Epígonos de Tebas. Uma Abstração Inútil, Todos os Náufragos e Teoria do Esquecimento são outros livros de poemas da sua autoria.
A sua estreia em prosa deu-se em 2003, com “O Dia em que o Mar Desapareceu”. Anuncia-se para breve a publicação de novo romance.
Em “O Prazer e o Tédio”, José Carlos Barros revela-se também um grande romancista, “um geógrafo, um topógrafo que nos comove com os seus personagens fantásticos” , escreveu Francisco José Viegas.
José Carlos Barros está traduzido em muitos países.
ANDRÉ GRAÇA GOMES
André Graça Gomes nasceu em Chaves, a 23 de Junho de 1985.
Estudou artes plásticas na Escola de Arte e Design das Caldas da Rainha, que concluiu em 2008. Desde aí tem vindo a desenvolver trabalho em diferentes áreas de expressão visual, designadamente em cenografia para teatro, vídeo, pintura e desenho. Entre 2008 e 2012, participou em sete exposições coletivas, incluindo na Bienal de Chaves de 2008. Efetuou a sua primeira exposição individual, intitulada Artur da Graça em 2009. Recentemente foi convidado a expor, individualmente, na Universidade Nova de Lisboa (Campus da Caparica), Instituto Franco-Português, em Lisboa, e na Galeria AMI-Arte, no Porto. Paralelamente, tem vindo a colaborar com o mestre Nadir Afonso.
O cinema é uma das suas grande paixões e acompanha de perto as filmografias do mundo. Werner Herzog e João César Monteiro são duas grandes referências suas na arte de realizar. O Prazer e o Tédio é a sua primeira grande metragem, realizada em condições de penúria financeira e técnica, mas com indiscutíveis exigência e mestria artísticas. Gostou do livro de José Carlos Barros e encarregou-se, ele próprio, da escrita do argumento. Antes disso, em 2008, concebeu e realizou um vídeo-arte sobre Caravaggio, pintor, e a curta metragem Os Fantasmas da Memória.
FILIPE ALVES
Filipe Nuno Sanches Alves vive em Fafe, onde nasceu em 1981, sendo sua mãe natural de Couto Dornelas, concelho de Boticas. Licenciou-se em engenharia informática pela UTAD, mas os conhecimentos ali adquiridos coloca-o ao serviço da música, sua paixão desde pequeno. A música está-lhe nos genes, pois tanto o pai como a mãe são músicos amadores.
Filipe Alves é um músico eclético e um verdadeiro homem dos sete instrumentos. Toca viola, teclados, sampler, guitarra portuguesa , etc. Animou ou anima projetos musicais muito diferentes entre si que vão desde a música popular até ao hard rock. Foi fundador das bandas Bliss (1996), Void (2003), Under Pressure (2007). Esta última venceu o concurso de bandas emergentes da UTAD/2007. Fez ainda parte da banda S’K, com atuações em todo o país, França, Alemanha, ao mesmo tempo que manteve colaboração com a Tuna Imperialis Serenatum Tunix.
Atualmente, integra, por ter sido convidado, as bandas The Pende e Muzzle.
No seu estúdio, Filipe Alves incentiva o lançamento de novos projetos musicais.”
A notícia original: http://diarioatual.com/?p=64319
O QUE TROUXEMOS DE CHAVES
um texto de José Carlos Barros
1.
Antigamente, a gente ia a Chaves fazer o quê? E trouxemos de lá o quê?
2.
Em Boticas, no final dos anos sessenta do século passado, fazíamos cabanas com ramos e folhas dos plátanos no meio da avenida, e era reduzida a probabilidade estatística de termos que desmontá-las para que um automóvel pudesse passar subindo ao Eiró ou descendo a caminho da Vila. Porque quase não havia automóveis fora da estrada que vinha de Chaves ao largo do Toural.
Não era já como nos anos vinte, claro. O jornal de Boticas, por esse tempo, noticiava a chegada à Vila do senhor doutor António Granjo, vindo de Chaves para um dia de trabalho -- ou, o mais certo, para se encontrar e conspirar com os correlegionários políticos na salinha interior da Farmácia Martins. E em letra de forma escarrapachava a data de partida do senhor padre Pedro para as suas férias na Póvoa de Varzim, atenta a relevância, desde logo por raridade, do acontecimento. Claro que não era já assim nos anos sessenta e nos anos setenta. E ir a Chaves, então, era já uma coisa de costume, de rotina, sem lugar a notícias no Echos -- e ia-se já de vacances para a Póvoa ou para a foz do Cávado, em Ofir, sem que isso, não sendo propriamente de frequência desusada, desse lugar a notícias num periódico regional e regionalista.
As crianças andavam na rua. O anexim não se repetia por algum especial gosto em trazer ao quotidiano as manifestaçõs genuínas do folclore: dizia-se
"parece que pariu aqui a galega"
porque de facto éramos às dezenas, os petizes, a correr atrás de uma bola ou a andar de bicicleta pelos carreiros ou a inventar jogos de tarde inteira do género o guarda e o pilha. Não havia internet nem plataformas digitais nem consolas de vídeo. E quando em Junho de 1974 o Sporting venceu o Benfica na Taça de Portugal, eu e o Bau, sem facebook para nos metermos em casa ou no Cyber a enviar mensagens e a fazer comentários e a carregar nos likes, saímos para ao pé da igreja a acenar com duas bandeiras verdes aos poucos carros que passavam.
3.
(Mas já nos estamos a desviar do assunto.)
4.
Compreende-se que não fôssemos a Chaves por dá cá aquela palha. Mesmo os que prosseguiam estudos em Chaves -- e eram poucos os que prosseguiam estudos, e menos ainda os que os prosseguiam em Chaves -- ficavam lá à semana: os vinte quilómetros que separavam a vila e a cidade eram, então, ainda coisa de respeito.
Íamos lá, portanto, fazer o quê? Cada um terá a sua memória própria. A minha -- da infância e do princípio da adolescência -- lembra-me que ir a Chaves se misturava entre a alegria -- e o pé-atrás; entre o fascínio das luzes da Feira dos Santos -- e a chatice do consultório de oftalmologia; entre os sumois na Sissi -- e os corredores velhos do hospital velho e o cheiro a anestesias quando íamos de visita a um familiar acamado; entre o tumulto dos jogos do Desportivo contra o Riopele -- e o terror da cadeira do dentista; entre a euforia lenta de entrar na Ana Maria para comprar um romance ou no quiosque com a ansiedade de ver se a Tele-Semana já estava nas bancas -- e a seca de uma tarde em lojas cinzentas a experimentar as calças e os casacos do inverno.
Depois crescemos. Depois descobrimos a cidade verdadeiramente e nela nos perdemos às vezes ainda com a ilusão que permanece de que era para nos encontrarmos que às vezes mais nos perdíamos. Depois era o liceu e era o amor e eram os primeiros projectos de começarmos a mudar o mundo. Depois era o futebol e a literatura. Depois eram as olaias do Largo das Freiras e os copos de vinho em tabernas escusas. Depois eram os automóveis e a noite, depois era a manhã a nascer por detrás de um monte, depois era o sol do Verão iluminando as paredes dos edifícios como nunca mais nenhum sol iluminou uma rua ou um rosto -- e o nevoeiro tão espesso, dias seguidos, que podíamos moldá-lo e esculpir uma pirâmide efémera ou uma bola quase de cristal com os segredos do mundo lá dentro.
O que fica, tantos anos depois, disto tudo?
Talvez o liceu e a sala dezanove. Talvez um poema publicado num suplemento literário de um jornal da província. Talvez uma árvore no Tabolado, a sua sombra desenhando um perímetro de defesa, e umas mãos que se misturam à procura dos primeiros nomes verdadeiros. Talvez os amigos. Talvez, sempre, os amigos: os amigos que bebiam traçados no balcão corrido do Faustino e vinho em seis tabernas escusas e cerveja em copos de litro numa mesa próxima do rio; os amigos que jogavam à bola no Picadeiro ou no campo do Desportivo nos treinos juvenis de captação; talvez as casas dos amigos onde jogávamos xadrez ou passávamos noites a jogar às cartas ou uma garagem onde dançávamos ao som de um gira-discos. Talvez um baile de máscaras. Talvez um degrau na rua Direita onde enterrámos a cabeça nas mãos a iniciarmo-nos na consciência da possibilidade definitiva das perdas e da estupidez da velocidade. Talvez os matraquilhos montados em barracas com elementos metálicos pintados em letras maiúsculas nas margens do Tâmega. Talvez um baile no Jardim Público. Talvez uma tipografia na Rua de Santo António e o ruído melódico das máquinas de impressão. Talvez as mãos em segredo por baixo da mesa de um bar como se a felicidade não fosse uma coisa assim tão distante como vem descrito nos livros. Talvez o cheiro a gases queimados de um barracão imenso onde apanhávamos a camioneta da carreira. Talvez os bilhetes rasurados onde marcámos encontros clandestinos. Talvez um pio-pardo caçado com invulgar perícia nas traseiras da casa do Santo Amaro. Talvez um quadro do Nadir e um texto do Fernão de Magalhães Gonçalves. Talvez uma conversa literária. Talvez um riso, talvez uma lágrima. Talvez um automóvel com seis pessoas a meio da noite a caminho de Espanha. Talvez uma navalha na cervejaria Romana. Talvez a ilusão de que uma boa parte do mundo -- cidades, estrelas, mulheres -- nos haveriam de pertencer para sempre. Talvez a certeza de que éramos justos e dignos e imensos em todos os crimes que acabávamos por cometer.
5.
É isto, tanto, tão pouco, o que fica de uma cidade tantos anos depois. Imagens vagas, memórias atravessadas por encontros e ausências, pelo sentimento da dádiva, pela incerteza definitiva das perdas.
Porque de Chaves, como quase sempre acontece, trazíamos o que levávamos, levávamos o que trazíamos -- somando-se a isso, e subtraindo-se, tudo quanto éramos ou julgávamos ser.
E depois, quase sempre, regressávamos à Vila na camioneta da carreira ou num automóvel que gostávamos, antes das curvas de Sapelos, de confrontar com a nossa ideia de que os perigos nos haveriam de continuar a acompanhar a vida toda.
E regressávamos, portanto, a Boticas quando fosse o fim da tarde ou a manhã começasse a nascer por cima dos montes.
6.
E só os perigos continuam, ainda, sempre, a acompanhar-nos um dia depois do outro.
UMA VIAGEM
poema de José Carlos Barros
Quando este texto for publicado on-line, falando
de lugares mágicos, espero estar aí, nesses
lugares, a dormir nas margens de um rio
com a ilusão de que, em parte, me é permitido
regressar a mim mesmo e a uma parcela ínfima
dos sonhos que ao mundo não foi ainda
dado roubar-nos. Há um caminho,
primeiro, a percorrer. Antes de chegar
ao Mousse. Antes de chegar ao Mente. Antes
de chegar às margens de um rio onde os
amigos haverão de dormir sob um céu de estrelas
ou ameaçadoras nuvens. E seis árvores, precisamente
seis, haverão de confirmar-nos que poucas
coisas mudam no mundo, e só vagarosamente
mudam, quando apenas nos conformamos
com os milagres do mundo. Haverei, a
caminho, de parar em Mairos. Apenas
para confirmar que uma horta que é um jardim,
ou um jardim que é uma horta, ou uma horta
e um jardim que são simultaneamente
a mesma coisa, continuam acertados com a
meteorologia e as estações, ou acertados
com a imprevisibilidade delas. Talvez aproveite
para beber cerveja neste café a que se chega
por um corredor estreito de cimento. Mas porque
me apetece ficar um pouco sentado cá fora
a olhar um cacto gigante e uma couve, um campo
de milho ou uma sebe de buxo, e essa
arte tão antiga de domesticar as plantas
e misturá-las para nos darem um fruto, uma
sombra mais alargada, uma luz no outono
ou o prazer dos fenómenos. Haverei
de virar à esquerda, a noventa graus. E depois
entrar na capital da batata, no planalto ecológico,
nessa vastidão de campos que são já
da Galiza sem deixarem de ser da Terra Fria,
que são já fronteira sem deixarem de ser
continuidade e aproximação. E aí, em
Travancas, no Café Central, é provável
que beba cerveja. Mas apenas para me sentar
na esplanada e continuar a olhar a cerejeira
que cresce rente a um muro, do lado
direito, na estrada que em seguida me levará
a Argemil e a S. Vicente da Raia. E em
São Vicente, depois de acompanhar o rio
serpenteando sem derivações bruscas, antes
de se olharem, do alto, os vales com os
seus quadriculados amarelos e verdes,
as encostas erguendo-se em modulações
entre o verde e o castanho, é provável
que pare por alguns momentos
e beba cerveja. Mas apenas porque
me há-de apetecer ficar sentado a uma
mesa de pedra, sob uma latada
ampla, a olhar o ondulado das cumeadas
sucedendo-se na distância. Descerei
então em apertadas curvas deixando Aveleda
à esquerda arrumada num pequeno vale
com o xisto quase improvável a sair dos montes
para as paredes das casas. E, enfim, chegarei
a Segirei. Não seria necessário continuar
até Segirei: porque deveria virar à direita
antes de chegar a Segirei. Mas é preciso regressar
às memórias antigas de um café que
já fechou há muito, e às memórias antigas
da cozinha e do pátio e da adega da casa
do Ramiro. Por isso não chego a parar. Sigo
devagar, faço inversão de marcha no espaço
mais alargado da ponte da praia fluvial,
e rumo em sentido contrário, deixando
novamente Segirei e o tempo suspenso da
revelação dos seus nomes. É
esta a viagem: chegar a Pejas. Encontrar
os amigos que me esperam na margem
de um rio. Olhar as seis árvores, precisamente as
seis árvores onde procuro a demonstração
de que o mundo quase não muda, e muda
muito vagarosamente, quando apenas
nos bastam os milagres do mundo. Sentar-me-ei
então em redor de uma mesa de madeira.
E talvez não beba cerveja. Mas vinho. Para
que o vinho possa deixar durante muito tempo
a memória dos encontros, a memória
dos milagres, a memória desse
momento de aparição em que por um instante
breve nos é revelado o mistério de estarmos
vivos em nós mesmos e no coração
dos que não podem deixar de amar-nos para sempre.
José Carlos Barros
Fotografia de Ana Luisa Monteiro
ENSAIO SOBRE O MUNDO RURAL
a propósito de As Verticalidades/Horizontalidades de Barroso,
livro de fotografia de Ana Luísa Pires Monteiro
um texto de José Carlos Barros
Este não é um livro de fotografias. É quase um livro de fotografia. E seria verdadeiramente um livro de fotografia se não tivesse texto.
Porque as fotografias devolvem-nos um único e mesmo olhar. Não é um olhar curioso de quem procura descobrir as coisas e nos dá os resultados dessa busca, dessa curiosidade, desse maravilhamento com as descobertas. Não é o olhar de quem procura tempos e lugares de calendário, de catálogo, esmagando-os em beleza, alegria, grandeza ou exaltação festiva. Não: o olhar que estas fotografias nos devolvem é feito de sedimentação, de coisas desvendadas, de depuração. De lentidão. De uma urgência feita de saber esperar.
E por isso todas estas fotografias são uma mesma e única fotografia.
E que fotografia é essa?
Comecemos pela epígrafe e pelo texto introdutório da autora: um louvor das terras de Barroso, um poema de amor ao Barroso. E olhemos, depois do anúncio deste propósito, as fotografias -- ou a fotografia única que estas fotografias são. O que vemos assim de repente? Abandono, ausência, desolação, devastação.
Fotografia de Ana Luisa Monteiro
Começa por surpreender-nos, pois, necessariamente, esta contradição aparente: como se um hino de amor pudesse ser dado pelos momentos em que esse amor exigiu esforço ou abdicação, e não pelos momentos feitos de alegria e exaltação.
E é essa, a meu ver, a chave do livro, o segredo desta única fotografia que resulta do conjunto de todas.
Vamos por partes.
O que vemos no conjunto de fragmentos que cada uma destas fotografias é, como peças de um puzzle que se desvenda juntando o conjunto das peças?
Fotografia de Ana Luisa Monteiro
A devastação dos incêndios. A cinza e os troncos queimados. As guardas em granito de uma ponte que parece levar a lado nenhum. Degraus que já ninguém sobe. Nomes antigos de lugares como esse de que Torga dizia: "entro nestas aldeias sagradas a tremer de vergonha". Placas direccionais como metáfora das encruzilhadas. Cruzes ou cruzeiros como memórias de crucificação. Um anjo como se fosse um fantasma antigo que já não pudesse proteger-nos. A linha do horizonte separada de nós por uma trama, uma rede, uma vedação. Rebanhos sem pastor. Veredas, caminhos de sombra. Pedras de memórias da morte ou da desistência. Objectos hoje sem uso, ferramentas sem a mão que um dia as justificou. Ruínas, paredes derruídas. Caixas de correio à espera de cartas que já ninguém escreve. O esqueleto de canastros -- imagem negativa, invertida, da abundância. Rara vegetação a emergir da neve sobre os campos. Vãos abertos em paredes de granito a mostrar o silêncio, a ausência, o céu ao fundo como o desenho de uma impossibilidade. Portas fechadas. Uma porta e outra. Uma porta carral. Portas que talvez não mais possam abrir-se para lugar nenhum.
Fotografia de Ana Luisa Monteiro
E nenhum rosto. Nenhuma figura humana.
É isto que vemos. É isto que nos mostra, e deste modo que nos mostra, quem procura mostrar-nos o amor à sua terra.
Esta aparenta contradição é a chave do livro. É a sua força. E está em linha com o que a arte tem de melhor para nos dar: inquietação, interrogação, sobressalto.
Contradição, claro, como se vê, só aparente.
Porque, de facto, o amor não se revela tanto no que nos dá, mas no que nos custa. Porque o amor se revela mais no que nos exige de abdicação do que naquilo que nos dá em sossego e pacificação. Porque o amor se revela mais na capacidade que tivermos de construí-lo, pedra sobre pedra, e menos no que nos devolve sem cicatrizes nem inquietude.
Este é o modo como nas imagens do livro se revela o amor às terras de Barroso que vinha anunciado como propósito na epígrafe e no texto introdutório da autora:
por um lado numa procura do que é essencial, do que é elemental, do que é matricial, do que é já tudo sem ainda o ser. Numa procura de possibilidades, de mundo a haver;
por outro lado através desse jogo de mostrar o que se esconde, ou de esconder o que se mostra.
Regressemos a uma das mais perfeitas metáforas desta fotografia: a das portas; a das portas fechadas.
Na porta fechada somos confrontados com o que está além dela. Ana Luisa, de um modo sage, de uma maneira depurada, sedimentada, enuncia sem dizer, alude sem mostrar. Estas fotografias, portanto, deixam-nos no limiar de uma parede, de um muro, de uma porta fechada: para que seja cada um de nós a descobrir o que lá não está, para que seja cada um de nós a estabelecer a sua própria narrativa. Porque a arte não existe nunca se for sentido único: a arte exige sempre essa partilha, essa procura conjunta dos segredos e dos milagres.
Fotografia de Ana Luisa Monteiro
Não podemos esquecer que a fotografia é hoje a forma artística, digamos, mais democrática. Todos podemos fotografar. Fotografar não exige mais que apontar a máquina e premir um botão. Ora a fotografia, enquanto arte -- e arte maior --, não existe se não for capaz de nos mostrar sobretudo o que lá não está: o que se insinua, o que se adivinha, o que se pressente, o que nos sobressalta de sermos cúmplices dessa procura e desse entendimento.
Mas a autora decidiu que estas fotografias deviam ser acompanhadas por textos. E pediu a familiares, a amigos, que escrevessem um texto para cada uma das fotografias.
Como seria de esperar, a multiplicidade de intervenientes dá-nos uma multiplicidade de olhares: aqui, nos textos, perde-se em unidade -- ganha-se, é certo, em emoções, em cumplicidades.
Os textos são díspares: pequenos apontamentos, textos que procuram acompanhar as fotografias, textos que se impõem por si mesmos independentemente da fotografia. Textos literários, comentários, frases soltas.
E histórias.
Uma delas serve-me para procurar clarificar aquilo que pretendi dizer ao falar destas fotografias, desta fotografia. O texto de Xavier Barreto.
Antes: este livro passava bem sem os textos. Não é preciso explicar o que está por detrás de uma fotografia. O que faz sentido é procurar, perdermo-nos, encontrar um caminho, voltar atrás, regressar de novo aos segredos e interrogações da imagem. Mas o texto do Xavier é um bom exemplo.
Numa das fotografias há uma casa abandonada, de paredes derruídas, feita de ausências, perdas, abandono. E cada um de nós sente o sobressalto, a necessidade de procurar ver o que está além da casa: vidas, segredos, narrativas que nos é possível inventar. Pois Xavier desvenda-nos os segredos desta casa ao contar-nos a história deliciosa de António Afonso. Foi há mais de 150 anos. António estava apaixonado. O pai da noiva, no entanto, não lhe entregou a filha porque António só tinha três vacas. O pai da noiva não lhe entregou a filha para casamento com o argumento de que se precisasse de fazer duas juntas de vacas teria que pedir uma vaca emprestada aos vizinhos. E Xavier conta-nos, a partir deste episódio, toda a história da casa e de uma família ao longo de várias gerações. Mas além da história, além do texto, permanece a imagem sem legenda. E a nós, leitores, fica-nos a possibilidade de, a partir desta imagem assim de novo revelada, reinventar o resto do mundo.
Fotografia de Ana Luisa Monteiro
Os textos, maioritariamente, falam de
ausências ("alimentam-se as ausências", escreve Ana de Almeida Santos),
de solidão ("corpos forjados no tempo encadeado em solidão", nas palavras de Alfonso Láuzara Martinez),
de rudeza, de granito, de dificuldades, de sangue e de lágrimas, de um tempo em que "a solidão da noite te adormeceu no colchão de palha" (cf. Narciso Miranda),
de "cadeias que uniram", como diz J.B.César,
de milagre, de mistério, de tragédia.
Nádia Ferreira pergunta: "que segredos escondem estas paredes?"
E Fátima Vale lembra que "a mão de sangue está marcada em todas as portas".
Minês Castanheira, a propósito de uma escaleira improvável, diz que "fomos feitos para estes lugares de passagem".
Altino Rio vai em busca dessa ideia de património, material e imaterial, e recupera-nos "a porta de serventia".
Em grande parte destes textos o que emerge é isso: o que se perdeu, as casas em ruína, o abandono, o que não é possível recuperar, os impossíveis regressos, a cinza, a fuligem que desistiu de esperar e se desfez em estilhaços, como insiste Hermínio Fernandes.
E a devastação e o desejo (uma já impossibilidade) de que, em vez das árvores depois do fogo, pelo menos permanecesse "a labareda, o vermelho vivo ateado solenemente", como é possível ler num belíssimo poema de Rui Almeida.
É curioso -- talvez por efeito das fotografias que são o ponto de partida destes textos -- como o que prevalece é a associação destes lugares às dificuldades e às ausências e ao abandono -- numa espécie de contraponto à bonomia urbana, ao conforto da urbe, aos seus risos estrídulos.
Curiosamente -- talvez o tempo presente, por entre todas as suas desgraças, nos esteja a ensinar que não é bem assim; que talvez tenhamos que rever a matéria toda; e que talvez não haja outro caminho que não seja o de rever os nossos áridos caminhos antigos. Que talvez, antes de tudo o mais, seja indispensável redefinirmos as nossas prioridades.
Talvez então compreendamos que não iremos a lado nenhum se não regressarmos ao que é essencial. A essa crueza. A esse chão de pedra. A essa pedra da lareira. A esse ramo de árvore. A essa terra inicial e elemental a partir da qual, como numa coisa que se constrói em conjunto, na adversidade, tudo passa a ser possível.
A fotografia de Ana Luisa é isso que procura e nos propõe: um regresso ao que é essencial. A essa elementaridade. Deixando-nos a nós procurar ou adivinhar o que está do outro lado de uma porta fechada. Porque estes retratos mostram-nos sobretudo, ou revelam-nos sobretudo, o que as imagens não mostram mas já lá está inscrito.
Às vezes é no meio dos desastres que as mais inspiradoras e iluminadas luzes se acendem.
A lenda das duas chaves
um texto de José Carlos Barros
[Parte I]
Décio, comandante da Legião Sétima, subiu a escadaria monumental do palácio com a emoção de ser recebido pelo imperador Tito Flávio Vespasiano. Enquanto esperava deram-lhe cerveja num copo alto de vidro. Roma sufocava sob um manto de fogo que o Verão espalhava sobre os telhados e as ruas. Décio bebeu um trago e admirou o milagre da ascensão contínua das minúsculas bolhas límpidas.
O imperador chegou à antecâmara e ficou, divertido, a olhá-lo a erguer o copo à transparência da luz que vinha do pátio.
«Sabes como vou chamar a esta bebida? Imperial. Não te parece um achado? Imperial. A bebida do Império.»
Tito Flávio Vespasiano tinha um afecto especial pelo jovem primo. Abraçaram-se como se o nume do poder os não separasse. Sentaram-se.
«Sabes, Décio? Imaginei que a cerveja, metida sob pressão numa cuba frigorífica, e correndo depois por uma serpentina gelada, haveria de sair cheia de vida quando se accionasse uma torneira de secção reduzida. E deu nisto. Na imperial. Não achas fabuloso?»
Que sim; com efeito.
E continuaram a beber enquanto o imperador lhe contava os pormenores da sua nova obsessão: uma bebida gaseificada, escura, estimulante, feita à base de caramelo, cafeína, açúcar da frutose do milho e goma do fruto da cola.
«Já estou em testes. A imperial e a cola haverão de ser, um dia, os símbolos mais perfeitos de um Império que unificará povos e credos.»
A cerveja muito gelada começou a dar-lhes lassidão, desprendimento. Décio, respeitoso, não se atrevia a perguntar o motivo do encontro. E foi o imperador, erguendo o braço para que trouxessem mais cerveja de serpentina, quem finalmente abriu o jogo:
«Gostava, primo, que aceitasses ser o meu procurador num dos lugares mais remotos e fascinantes do Império. Aí se descobriram águas de saúde. Nada a que a minha imperial possa comparar-se. Águas de Flávio, eis como, em minha honra, o lugar foi designado. Porque a água quente brota da terra para curar todos os males do corpo.»
Décio começou a ver o filme – que é um modo de dizer: o cinema, como a coca-cola, não tinha sido ainda inventado. Bebeu mais uma imperial, a apreciar de novo, fascinado, o emergir das bolhas, e ficou à espera.
E então o imperador Tito Flávio Vespasiano, seu primo, continuou:
«Gostava que fosses o meu procurador em Águas de Flávio. Começarias por abrir um tasco, a que darias o nome de ‘Romana’, onde se venderia imperial em copos de litro. E, com base nas águas quentes que brotam do interior da terra, desenvolverias uma indústria que os séculos futuros haverão de conhecer pelo nome de ‘termalismo’. Claro que a viagem é custosa. O avião, como sabes, não está ainda suficientemente testado. Por via marítima desaconselho: sabes a bronca que andam a dar os nossos navios de cruzeiro. E portanto irias de TGV até à Gália, o que não está mal. Mas depois, com o atraso endémico da península e a treta da bitola ibérica, serias obrigado a prosseguir em comboio a vapor: no Texas, como lhe chamam. Seja como for: os esforços justificam a empresa. Gostaria muito que Águas de Flávio passasse a constar dos mapas do Império. E ninguém melhor que tu, meu caro primo, para o cumprimento deste desígnio. Posso contar contigo?»
Décio pensou por instantes em Lúcia, filha do cônsul Cornélio Máximo. Na sua amada Lúcia. Mas a resposta não poderia ser outra:
«As suas ordens são os meus desejos, Senhor. Hoje mesmo tratarei da logística. Eu e os meus homens, na madrugada de amanhã, estaremos na Estação Central de Fiumicino a tempo de apanhar o TGV para a Gália. E depois logo se verá: essas Águas de Flávio não haverão de ficar no fim do mundo. E o Texas não deve ser um comboio tão mau como se diz.»
[continua…]
A impossibilidade de olhar objectivamente as coisas
José Carlos Barros
Apercebo-me de repente, não mais que de repente, que parece ser-me impossível escrever sobre Chaves sem escrever ficção. Não é propositado: é o contrário disso: uma impossibilidade. Não é um artifício literário: é a incapacidade de olhar objectivamente as coisas.
Fernando Ribeiro escreve sobre o programa deste ano da Feira dos Santos: leio e sou tentado, assim à distância, racionalmente, a dar-lhe razão. E, no entanto, simultaneamente, apercebo-me da nenhuma preocupação que o caso me suscita. Porque a Feira dos Santos, na minha memória dela, nunca teve programa ou teve programa e o programa sempre me passou ao lado.
Apercebo-me de repente, não mais que de repente, que sofro já, irreversivelmente, do síndrome do emigrante. Saí cedo. Os meus regressos são cada vez mais espaçados. E o afastamento levou-me a ser o que julguei durante muito tempo serem os outros com as suas qualidades e os seus defeitos: os que já eram de fora.
O tempo passou a devolver-me a cidade de Chaves como um lugar em que a névoa -- não necessariamente o nevoeiro concreto que descia sobre a urbe semanas a fio quando o Inverno começava a insinuar-se -- se misturou à memória até esborratar as fotografias e as deixar em cima das mesas entre o sépia, os vários tons de cinzento e as pinceladas largas de imaginarmos o que terá sido se a realidade não fosse o que é. E a realidade, assim vista de longe, é tudo menos o que haverá de ser.
A cidade de Chaves começou por ser a cidade para quem era do mundo rural e a cidade fascinava e desiludia. Mas sempre em grande e em grande estilo: à grande e à francesa: desilusões imensas, fascínios de romance.
O que recordo da cidade, o que ainda hoje vivo dela, é essa espécie de concretude feita de ilusão e remorso: magia de ter sido feliz; mágoa de o mundo ser uma esfera tantas vezes fechada contra o seu próprio centro e nos vermos contidos nesse perímetro escuro.
Chaves, tal como posso guardá-la, é ainda o lugar onde o cheiro a gasóleo e o mistério da combustão imperfeita se desenhavam no espaço de uma garagem de camionetas de carreira da Auto-Viação do Tâmega. Chaves é ainda a mesa da Sissi com uma taça de vinho branco e meia dúzia de pasteis em dia de feira. Chaves é ainda o sapo do Faustino e o balcão corrido, com um espelho ao fundo, das girafas da Romana. Chaves é ainda as moelas e as imperiais dos Amigos e a orelha cozida do Kambu. Chaves é ainda o espaço lá ao fundo do supermercado onde os melhores rissóis de camarão do mundo custavam três escudos e quinhentos. Chaves é ainda uma garagem com música numa tarde de feriado que nunca mais haveria de repetir-se. Chaves é ainda a escadaria junto à secretaria do Liceu onde subíamos sabendo que era proibido subir a escadaria do Liceu junto à secretaria do Liceu. Chaves é ainda a cobra d'água apanhada fora do leito do Tâmega entre as ervas encostadas à base do paredão. Chaves é ainda a mesa de matraquilhos na Feira dos Santos e a jukebox onde escolhíamos o disco que nos escolhessem. Chaves é ainda, e sempre, o Jardim Público e os plátanos do Jardim e tudo o que essas árvores acolhiam na sua sombra alargada quando a luz da Primavera se estendia contra o sermos jovens. Chaves é ainda o Largo das Freiras quando no Largo das Freiras havia olaias e as suas flores entre o rosa e o púrpura. Chaves é ainda o Sport, o Geraldes, uma tasca de que não recordo o nome porque me recordo de não ter nome nenhum. Chaves é ainda a jeropiga que sabia a petróleo numa taberna que foi derruída para que o progresso tivesse ruas largas. Chaves é ainda a sala dezanove e a escada, debruada a azulejos brancos, que dava para uma porta fechada que levaria, não sendo proibido, para o varandim do ginásio. Chaves é uma noite no Cine-Teatro. Chaves é ainda a casa do amigo onde ouvíamos a música do comandante Che antes de comermos bacalhau assado. Chaves é ainda a noite a envolver-nos e a fechar-nos desde a Ponte Romana aos Aregos, desde o Tabolado aos Anjos, desde o Santo Amaro a uma taberna da Rua Direita.
Não é possível, hoje, imaginar-me preocupado com os problemas de desenvolvimento que se colocam à euro-região, à inexistência de uma verdadeira sala de espectáculos, aos buracos das ruas, à programação da Feira dos Santos.
Porque Chaves, a cidade de Chaves, não é para mim, não é possível que seja, mais que uma abstracção. Uma abstracção literária. Uma cidade que não posso deixar de ver pelos olhos do emigrante que sou.
Uma cidade que é feita do sol imenso a cair a pique sobre as ruas e os telhados nos meses de Julho. Uma cidade feita de nevoeiro e frio concreto e metafórico.
Chaves é ainda, haverá de ser sempre, a cidade a que chegava na camioneta da carreira, criança ainda, a acompanhar o meu pai para se escolher o design de um folheto composto na tipografia que ficava no lugar onde mais tarde haveria de nascer um café moderno que fazia tostas mistas.
É assim que os emigrantes vêem os lugares onde se perderam e encontraram. E eu, tempo após tempo, sou cada vez mais esse emigrante que julgava serem os outros.


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