Agora que à tubagem da Escola Dr. Júlio Martins só quase falta começar a deitar fumo, regressa aquele que espero continue a ser o velho boato de que o Liceu ou Escola Fernão de Magalhães vai fechar. As mentes mais perversas até já lhe arranjam novos usos e destinos.
Fruto da velha rivalidade Liceu/Escola até há quem veja com bons olhos o seu encerramento, que está velho, que não tem condições, que os professores isto e aquilo, etc. coisa e tal…
É certo que o espaço do Liceu sempre foi cobiçado por muita gente e se as novas regras urbanísticas ditadas com a delimitação do Centro Histórico não tivessem entrado em vigor, o mais certo era termos por lá mais dois ou três mamarrachos de Betão em troca de uma porcaria qualquer… Felizmente resistiu ao betão mas continua a ser apetitoso para outros fins e, só uma mente perversa que não ama Chaves pode ter tal apetite ou acabar com aquele espaço como escola.
Não é só pela tradição e pelos bons resultados de ensino que o Liceu ano após ano tem apresentado, mas fundamentalmente pela vida que aquele espaço dá à cidade. No dia em que o encerrarem como escola, o centro histórico da cidade morre definitivamente, deixa de ter vida e interesse, ficará implantada a pasmaceira. Assim, espero bem que as bocas que andam por aí não passem do velho boato, mas o receio fica sempre, pois com tanto disparate que já se fez nesta cidade, acredito em tudo.
OS DO LICEU DE CHAVES
um texto de José Carlos Barros
No Facebook há uma página do Liceu de Chaves. Aí os antigos alunos vão deixando fotografias, apontamentos, desabafos, memórias dos lugares que um dia se revelaram em aparição para que nunca pudessem deixar de pertencer-lhes. O Liceu as une: gerações várias, pessoas tão diferentes de uma mesma época ou geração. Nenhuma ideologia, nenhum clube de futebol, nenhuma religião é mais forte que o cimento invisível que nasce de um dia alguém ter partilhado esses mesmos corredores, os mesmos campos de jogos, as mesmas salas identificadas por números seguidos, os mesmos muros, os mesmos degraus secretos que davam para uma porta fechada da parte superior do ginásio, as mesmas asnices no quadro procurando resolver derivadas a giz. O Liceu é uma espécie de irmandade, uma espécie de maçonaria sem segredos nem inconfessáveis e ínvios interesses de poder.
O Pedro Freire e o Mário Sousa, a Lindinha e a Ni Madureira, não aparecem numa fotografia do Sarau de 1966. Porque são eles e elas, já, num certo sentido, que apareciam numa outra fotografia de 1962 em que o Luciano Vilhena e o Jesualdo Ferreira, o Tozé Bastos ou o Carlos Rebelo se preparam para impressionar uma assistência entusiasta, essencialmente feminina, que se vê ao fundo para gritar as emoções de um jogo em que ganham sempre todos os que jogam. E esses rostos haverão de ser os mesmos que, alguns anos depois, juntam, equipados a rigor (e tudo a preto e branco nos retratos para que a melancolia e o futuro não deslacem os seus fios), o Pluto e o Abelha, o Guedes e o Jorge Bilhas. E em 1978, quando a Rosa Costa Gomes fixa os sorrisos da Cristina Pizarro e da Kikita, encostadas em pose a uma olaia junto à entrada principal do Liceu, com o velho edifício (nessa altura ainda) dos Bombeiros em linha de fundo -- somos nós todos que lá estamos: os dos saraus, os dos jogos de basquetebol, os dos bailes de finalistas, os das peças de teatro, os das pautas exemplares, os das cábulas, os dos livros de poemas fotocopiados, os do salto em altura discutindo-se as técnicas da tesoura, do flop ou do rolamento ventral.
E no entanto não é propriamente do Liceu que gostamos: gostamos do que lá fomos e, sobretudo, imaginámos ser. Gostamos do Liceu por duas interpostas razões essenciais: porque éramos jovens e porque nos preparávamos para mudar o mundo.
O tempo passou. Envelhecemos. E não mudámos o mundo.
O Liceu, portanto, é hoje o lugar (concreto e abstracto) onde nos refugiamos para não morrer de frio. Porque regressar às memórias do Liceu significa regressar a um tempo em que, por um instante breve, tudo nos pertencia e tudo era possível para sempre.
A vida, entretanto, trocou-nos as voltas: as da glória e as da justiça, as do amor e as de um sentimento de dádiva de que julgávamos podermos sempre socorrer-nos para que o mundo fosse melhor.
É verdade que falhámos. O mundo que fizemos é a merda que sabemos. Mas também é verdade que somos antigos alunos do Liceu. E isso, num certo sentido, nos salva. E nos une e nos redime de quase tudo.

Medalha comemorativa do III Convívio dos Antigos Alunos do Liceu (até 1952), actual Escola Secundária Fernão de Magalhães, realizado em 15 e 16 de Setembro de 1990.
Exemplar número 492 de uma tiragem de 500 medalhas em bronze, com o diâmetro de 60 mm, cunhadas pela medalhística Ignatius, Luciano Inácio & Filhos, Lda., Porto.


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Pin comemorativo dos 100 anos do Liceu de Chaves.
1903 - 2003
Dimensões: 1,8 x
O Liceu de Chaves é já uma velha casa, cheia de tradições, que não deixa indiferente quem por lá passou.
A sua história começa em 3 de Setembro de 1903 quando por Decreto é criado o Liceu Nacional de Chaves, então, em tudo dependente da Câmara Municipal de Chaves.
Conheceu as suas primeiras instalações na Rua do Poço em duas casas localizadas em cada um dos lados da rua com ligação feita por um passadiço superior.
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O primeiro Reitor do Liceu Nacional de Chaves foi o Dr. Barros Nobre.
Em
Em 1908 as instalações do Liceu são transferidas para o Largo do Anjo, contando aí com melhores condições onde até foi instalado um laboratório e um museu, embora rudimentares.
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Também no ano de 1908 o Liceu Nacional de Chaves adopta o nome de Liceu Fernão de Magalhães. Alteração de nome que não foi pacífica, instalando mesmo a polémica no seio da população flaviense que não concordava com o novo nome. Já então, ao que parece, o povo flaviense não era ouvido nem tido em consideração… pois o nome de Fernão de Magalhães foi mesmo o que deu nome ao Liceu.
Em 1943 o Liceu inaugura as suas novas instalações junto ao Jardim das Freiras/Rua de Stº António, as actuais, após obras de restauro e adaptação do edifício aí existente, aí com condições óptimas para a época, com ginásio e balneários masculino e feminino, sendo o primeiro dotado de palco e varandim que lhe dava a polivalência para a realização de espectáculos e também os famosos e tradicionais bailes de finalistas. Foi dotado ainda de dois laboratórios devidamente equipados. Possuía ainda campos exteriores desportivos e biblioteca e aquecimento central. Uma autêntica escola para a época.
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Em 1978 o Liceu adopta o nome de Escola Secundária Fernão de Magalhães, desta vez sem polémica, aliás foi uma alteração de nome da qual quase ninguém se apercebeu e à qual popularmente falando também ninguém ligou, pois na sua fachada principal, por cima da entrada também principal (ou dos professores) continuou-se a ostentar o nome de Liceu Fernão de Magalhães e ainda hoje se continua a denominar popularmente por Liceu.

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Um Exame no Liceu de Chaves
conto de José Carlos Barros
http://casa-de-cacela.blogspot.com
Imagino, agora à distância, poucas conjugações mais adversas: eu tinha acabado de fazer dezassete anos, de saber a data do exame de matemática e de me apaixonar por uma rapariga belíssima do décimo primeiro ano de letras.
Lembro-me: o Notícias de Chaves aberto no suplemento do Florêncio. Ansioso, nervoso, à espera que ela saísse da aula de Filosofia. E, enfim, a mostrar-lhe o poema acabado de publicar. Era o começo da minha glória literária. Matilde (nome de código) leu vagarosamente. Depois olhou-me. «Que achas?», perguntei. Impaciente. Já a medo. E ela a ler de novo. Vagarosamente. E só então, num tom de opereta, num tom de falsete: «As obras de arte são de uma solidão infinita: para as abordar, nada pior que a crítica.» Eu fiquei a olhá-la, ela riu-se. «Anda», disse. Subimos à Rua Direita, descemos, entrámos na Ana Maria. «Acho que isto te vai fazer bem.» E ofereceu-me as Cartas a um Jovem Poeta, do Rilke.
Não me era estranha a aura intelectual que Matilde (nome de código) ganhara dia após dia nos corredores do Liceu. Os seus interesses, os seus conhecimentos, pareciam não ter fronteiras, limites. O Sebou, em compreendendo que havia ali uma chispa, avisou-me logo: «Ui, onde te vais meter.»
A matemática, portanto. Essa parecia a maior preocupação de Matilde. O meu exame. Como se os meus desassossegos lhe pertencessem. Uma preocupação a crescer à medida que o meu desinteresse se tornava mais óbvio.
Tínhamos combinado passar a tarde a estudar. Em casa dela. E ali estávamos nós, sozinhos, pela primeira vez. Sozinhos. Sentei-me, puxei do caderno de exercícios, do livro de matéria. Ela demorou-se na cozinha. Trouxe, enfim, chá e bolachas champagne, poisou o tabuleiro num canto da mesa redonda. Eu a olhá-la. Interdito. Deslumbrado. A morrer de desejo. Sentou-se. Eu continuava a olhá-la. A imaginar a curva finíssima dos seus ombros sob a blusa leve. «Quero tanto beijar-te, Matilde.» E ela a sorrir como se eu fosse parvo. E eu a respirar com dificuldade. A sentir-me parvo.
Matilde quebrou o gelo súbito, encheu duas chávenas com o chá ainda quente. «Bom. Vamos lá então a ver os teus grandes desafios, os teus grandes dramas.» Disse. Decidida, quase a impor uma ordem, a estender a mão esquerda ao livro de matemática. Não disfarcei um sorriso, a ironia, uma certa sobranceria. «Isto é complicado, Matilde. Isto não é filosofiazinha, os pré-socráticos a zimbrar conceitos, o Heraclito, o Zenão. Isto é senos e cossenos, tangentes. As chamadas funções complexas, Matilde.» E ela a corrigir-me: «Funções complexas elementares.» Não queria crer. Mau. Tu não queres ver que à gaja não lhe era estranha a trigonometria? Puxei dos galões. Fiz um ar sério. Abri o livro quase ao acaso. E disparei, pomposo, a arredondar as sílabas: «Pois muito bem: qual o valor máximo da função ípsilon igual a dez mais cinco cosseno vinte xis?» E ela a olhar-me como se me desarmasse. Como se me apanhasse em falso. Eu sem rectaguardas, sem defesas. «Quinze, claro. Dez mais cinco vezes um. É só fazer as contas. Quando é que o factor cosseno vinte xis é máximo? Quando, claro, é igual a um.»
A camioneta da carreira de Boticas saía do Jardim do Bacalhau às sete menos vinte. Sentei-me, sozinho, num dos bancos da frente. Sentia-me a pessoa mais infeliz à face da terra. Colei a cabeça ao vidro grande da janela, deixei que passassem por mim os telhados do Santo Amaro, a linha dos amieiros da margem do Tâmega, as valetas da subida de Curalha, os pinheiros da Pastoria, o castanheiro imenso no fim da recta de seiscentos metros que levava de Curalha às curvas fechadas de Casas Novas. E puxei do livro que Matilde (nome de código) me tinha oferecido em resposta a uma solicitação de crítica literária.
Foi então que o Sebou se aproximou e se sentou a meu lado. «Então aquilo lá deu em águas de bacalhau.» Continuei em silêncio. Sentia-me triste. «Mau. Já vi que te fodeu a molécula. E que livro é esse?» Abri as Cartas a um Jovem Poeta. De Rainer Maria Rilke. Ao calhas. E comecei a ler:
«Ninguém o pode aconselhar ou ajudar: ninguém. Não há senão um caminho. Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende as suas raízes pelos recantos mais profundos da sua alma; confesse a si mesmo: morreria se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranquila da sua noite: ‘Sou forçado a escrever?’ Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar aquela pergunta severa por um forte e simples ‘sou’, então construa a sua vida de acordo com esta necessidade.»
A camioneta da carreira descia agora da Curva do Leite à Ponte Pedrinha. «Estás bonito, estás», disse o Sebou. E levantou-se.
Saí na paragem da Granja. Sentia-me triste, confuso. Nesse tempo eu vivia na Granja. Ia pela estrada, a caminho de casa, quando o Jeremias me acenou lá do fundo, das quatro mesas de plástico da esplanada do café das Sobreiras: «Tudo bem, campeão?» E eu que sim, a inventar um sorriso, a erguer a mão com o polegar esticado.
Claro que não ficamos indiferentes às vitórias dos nossos flavienses e também eles contribuem para o orgulho flaviense.
Nos últimos anos os nossos alunos têm ido por esse Portugal fora vencendo prova atrás prova, alguns deles chegam mesmo ao patamar internacional. Pois mais uma vez 4 alunos do Liceu são premiados em provas regionais , com a medalha de Ouro nas Olimpíadas de Física e o Prémio Jovens Escritores .
Andreia Chapouto, aluna do 9º Ano do Liceu (Esc. Sec. Fernão de Magalhães) venceu o concurso Jovens Escritores com o conto “Depois de tu partires”. O prémio prevê a publicação do conto.
Por sua vez os Alunos Alexandre Chaves, Carlos Gouveia e Sara Martins, do 9º ano, também do Liceu, obtiveram a Medalha de Ouro nas Olípiadas de Física, fase regional, que decorreu na Faculdade de Ciências da universidade do Porto, organizadas pela Sociedade Portuguesa de Física.
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Mas não é só nos estudos que os flavienses marcam ponto e são premiados, pois também no coleccionismo e na numismática os flavienses vão dando as suas cartas, como aconteceu no passado dia 9 em que o flaviense Cap. Fernando Pizarro Bravo recebeu o prémio do “Forista do Ano 2008-2009”, um prémio instituído pelo Fórum de Numismática a cuja Comissão de Honra pertecem entre outros o Major António Valente, o Coronel Amaro Rodrigues Garcia, Presidente da Direcção da Associação de Numismática de Portugal e o Professor Doutor Joaquim Veríssimo Serrão, Professor Catedrático e Historiador.
Este prémio consagra também a sua dedicação à numismática que, para além das suas participações no Forum dos Numismáticos já enalteceu com a publicação em 2006 de um livro Intitulado “Moedas Romanas – Achados no Alto Tâmega e Barroso” .
O Capitão Fernando Cantista Pizarro Bravo, nasceu em Chaves a 17 de Dezembro de 1933, frequentou o curso de Engenheiro Agrónomo mas acabaria por ingressar Guarda Fiscal, tendo pedido a sua passagem à reserva em 1982, com o posto de Capitão. Tem-se dedicado ao coleccionismo de moedas romanas. É Sócio da Sociedade Portuguesa de Numismática de Portugal e da Associacion Numismática Española.

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Decorria o ano lectivo de 1978/79 e como mandava a tradição do Liceu de Chaves (ou Fernão de Magalhães) a rapaziada finalista lá se juntou mais uma vez para a realização do seu baile de Finalistas, ainda à moda antiga, mas pelos grupos convidados, já se desenhavam os concertos de finalistas. A Ferro e Fogo, um grupo rock da capital que na altura estava na moda, o saudoso Aquae Flaviae e também o grupo flaviense Jazz Tá abrilhantaram durante os dias 21 e 22 de Abril o baile de finalistas que, como mandava a tradição, se realizava no ginásio masculino do Liceu.
Uma excursão, um sorteio e a edição do autocolante comemorativo, que hoje vos deixo aqui, serviram para a angariação de fundos.
Na realização do baile, embora com organizadores ainda putos, já faziam as coisas direitinhas e até para a execução do autocolante lançou-se um concurso de ideias entre a comissão de finalistas. Venceu este autocolante de autoria de Carlos Guerra, ainda sem as técnicas actuais, mas já com o jeitinho para o desenho manual.
São recordações destas que o coleccionismo também nos traz aos tempos actuais, coleccionismo por prazer onde um autocolante destes, mesmo nada valendo, não tem preço. Nele estão dois dias “loucos” de euforia e também a grande preocupação de se conseguir dinheiro para pagar às bandas. Com contratos ou sem contratos (pois a palavra ainda valia), não se ficou a dever nada a ninguém – bons tempos!
Da comissão de finalistas faziam parte a Ana Vilaça, Lídia Antunes, Alda Coelho, Mizé Aguiar, Adérito, Queirós, Carlos Guerra, Mário Barroco, Armando Ramos, o Gualter e o autor destas linhas. Penso não ter esquecido ninguém.
Só a título de curiosidade, nesse ano o Liceu teve dois bailes de finalistas, o dos finalistas do Liceu e o dos Finalistas do Propedêutico, que após os anos dos serviços cívicos, ensaiavam com aulas pela televisão aquele que viria a dar no actual 12º ano.
Sabe bem voltar ao Liceu dos anos 70.

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Os Fantasmas do Edifício do Liceu de Chaves
poema de José Carlos Barros
http://casa-de-cacela.blogspot.com
1.
A alguns lugares do edifício
era-nos vedado o acesso: escusos e sem outra serventia
que não fosse longe do tumulto
a que lhe dávamos: aulas práticas de física e geologia
sobre a teoria
da separação dos continentes.
Tocando com a ponta dos dedos
a substância tão fria
e incandescente
dos azulejos brancos.
2.
De um desses lugares me recordo
como se me pertencesse ainda: aí se chegava
subindo dois lanços de degraus
até ao pequeno átrio da porta (fechada
sempre) de acesso ao corredor cimeiro do ginásio.
Éramos livres.
E eu juro pelos fantasmas do edifício do liceu
que decorávamos a matéria toda
mesmo (ou sobretudo) a que não vinha
nos livros.
3.
Em finais do século XIX rezam as crónicas
que não havia
propriamente
em Portugal
um ambiente propício à sacristia.
E acrescente-se em abono da verdade
que ninguém simultaneamente
erguia
nas avenidas e nas praças com entusiasmo
a bandeira tricolor
da revolução de mil setecentos
e oitenta e nove
acolhendo em clamor
os frades
dessas latitudes. Pois exactamente
neste enquadramento
é que chegaram por esse tempo
a Chaves
as pobres freirinhas francesas
do Sagrado Coração de Maria.
E no edifício onde mais tarde eu haveria
em lugares escusos
de estudar a tectónica das placas
é que ficaram elas
e por ali ao que se sabe vaguearam
rezando
e chorando
neste vale de lágrimas
as suas preces em favor (e isto diga-se de justiça)
das crianças pobres da cidade.
E o som
dessa quase sibilina presença
e das concomitantes lamúrias
era o mais recorrente
a intrometer-se no acesso proibido
que dava a uma porta fechada do ginásio
a meio do estudo facultativo
a que tão diligentemente
nesse tempo
acabávamos por entregar-nos.
4.
Pouco haverá de espantar que as freirinhas francesas
ali não tivessem casa
sequer uma década
e que por esses corredores
do futuro liceu de Chaves
se alargasse a sombra triste e amargurada
da Missão
já tão contristada
de não
repetir-se o sucesso
de quando chegaram alguns anos antes ao Porto
a tomar conta do colégio inglês
de Miss Hennessy.
5.
Seja como for
a cavalaria
seis aí haveria
de tomar poiso imediato
(usando os lapardeiros
lençóis e toalhas rescendendo ainda
à alfazema das francesinhas?)
com as suas botas da tropa e os seus camuflados
até quase finais do primeiro quartel
do século XX.
E também as patas dos cavalos
e os impropérios de caserna
se fariam sentir
muitos anos depois
pelo princípio físico da propagação dos sons
(e outro que o leva de uma época a outra)
tocando-se ao de leve com a ponta dos dedos
nos azulejos brancos
enquanto se estudava
física e geografia
sem ter uma sebenta
onde a matéria verdadeira do ensino oficial
pudesse resumir-se.
6.
Os antigos alunos do liceu de Chaves
é os fantasmas seus
e dos outros o que sentem movê-los por inércia
quando sobre todas as coisas sobrevém
a memória
de terem estudado nos livros
o serem jovens
para sempre.
Tudo o mais não será uma legítima
abstracção
que os leva hoje ainda a pagarem as quotas
e a combinarem jantares
comemorativos.
E poucos (descuidados a percorrer então
as pautas
do rés-do-chão
e a consultar os processos individuais
por detrás dos vidros da secretaria
ou a estudar a história de Portugal ou filosofia)
sabem hoje ainda
o que
ao fim e ao cabo
os faz verdadeiramente estremecer:
a memória subtil dos fantasmas das freirinhas francesas
ou da tropa
da cavalaria seis.
7.
Às vezes
nos meus sonhos
é como se tivesse ficado para sempre
nesses lugares escusos onde passava horas
e o regulamento
nos impedia o acesso.
E é como se ouvisse ainda as lágrimas
e os risos escondidos das irmãs religiosas
do Sagrado Coração
ou o estrépito da cavalaria seis
a ecoar nos azulejos brancos do pequeno átrio
onde procurávamos a ilusão
(os tempos eram outros)
do amor.

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