Terça-feira, 6 de Junho de 2017

O Homem Sem Memória em livro

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No dia 19 de agosto de 2010, quando as “Crónicas Segundárias” do Luís de Boticas se despediam deste blog, anunciava a entrada de uma nova crónica de autoria de João Madureira, intitulada «O Homem Sem Memória». Dizia então eu na altura: “(…) crónica que acontecerá aqui todos os inícios das quintas-feiras (…) que em jeito de folhetim, caminhará (pela certa) para mais um romance deste autor.” E assim foi, religiosamente até inícios de 2014, todas as quintas-feiras o “Homem Sem Memória”, não se esquecia, e cá estava ele com mais um capítulo do, agora, livro que no passado domingo foi lançado em Montalegre na Feira do Livro a decorrer naquela vila,  e que dia 16 deste mês, será lançado aqui em Chaves, na Biblioteca Municipal.

 

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 João Madureira com Luis Martìnez-Risco da Fundación Vicente Risco e a Vereadora da Cultura da Câmara Municipal de Montalegre

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Lançamento do livro que se iniciou em Montalegre, e muito bem, pois também é em Montalegre que o “Homem Sem Memória” começa a contar as suas memórias e estórias de criança com muitos adultos à mistura,  vividas nessa vila, ainda antes de passar para a cidade e concelho de Chaves, de se tornar homem, de atravessar uma revolução e muita coisa se passar na República Democrática do Norte, muito antes de acabar os seus dias na República Popular do Sul.

 

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Mas tudo isto é ficção ou talvez não, tal como dizia António Aleixo “P`ra a mentira ser segura/e atingir profundidade,/tem de trazer à mistura/ qualquer coisa de verdade.” Ou como se diz na contracapa do livro “É, sem sombra de dúvida, um espaço de ficção onde cada leitor vai por certo encontrar um ou outro momento que por si poderia ter sido vivido”. Pela minha parte, confesso, que revivi muitos desses momentos como se fossem meus e outros, revivi-os porque fui testemunha deles, ou de outros bem parecidos, que muito bem poderiam ser os mesmos. Foi isto, continuo em maré de confissão, que desde início me ligou ao “Homem Sem Memória” e que criava em mim a ansiedade da espera pelo próximo capítulo, que então no blog só acontecia na semana seguinte. É sem qualquer dúvida um livro que fala de nós e que vão gostar de ler ou reler, pensando naqueles que acompanharam as publicações do “Homem sem memoria” blog.

 

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Em imagens ficam alguns momentos do lançamento de “O Homem Sem Memória” em Montalegre, e não esqueça que no próximo dia 16 deste mês de junho, o livro será apresentado na Biblioteca Municipal de Chaves.

 

 

 

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Sexta-feira, 19 de Maio de 2017

Discursos sobre a cidade

SOUZA

 

CENTENÁRIO DA PARTIDA DO 1º BATALHÃO DO RI 19

PARA A FLANDRES-GRANDE GUERRA

 

 

Numa publicação, saída na Revista nº 50 do Grupo Cultural Aquae Flaviae, dávamos conta não só do contexto nacional deste conflito como referíamos a participação dos militares do Regimento de Infantaria 19 (RI 19) na Grande Guerra.

 

No próximo dia 23, por ocasião dos 100 anos da partida do 1º Batalhão do RI 19 para a Flandres/grande Guerra, será lançado, pelas 18 horas, na Biblioteca Municipal de Chaves, o livro da nossa autoria Grande Guerra - Enquadramento Internacional.

 

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Deixamos aqui aos nossos(as) leitores(as) as singelas palavras do Prefácio que, em 2015, escrevíamos:

 

“Quando nos debruçamos um pouco, e refletimos, sobre a Grande Guerra - o acontecimento mais marcante à entrada do século XX - vemo-la como um enorme terramoto, que abalou e transfigurou, de uma forma profunda e determinante, a Europa, continente dominante e hegemónico em todos os setores da atividade humana - social, cultural, científico, técnico, económico e financeiro.

 

Era uma Europa aristocrática, arrogante, imperialista, ciosa do seu poder, orgulhosa do Progresso, que julgava sempre incessante e ilimitado, e que dominaria tudo quanto à face da terra existisse.

 

À superfície, na placidez desse mundo, fervilhava uma sociedade que, cuidando de viver no melhor dos mundos, gozava a sua Belle Époque.

 

Tudo isto simplesmente se passava à superfície.

 

As principais «placas» em que aquele mundo assentava (império inglês, alemão, francês, austro húngaro e russo, e o moribundo otomano) começavam a movimentar-se. E seus movimentos pressagiavam um fin de siècle em que tudo poderia deixar de ser como dantes.

 

A era da Razão e do Progresso, científico e tecnológico, sem limites, iria dar lugar à ubris, à loucura e catástrofe.

 

Bastava agora apenas um simples movimento em qualquer ponto mais sensível de uma das «placas» para tudo começar a desmoronar-se.

 

E, inopinadamente, num remansoso verão em que as classes possidentes e dirigentes vão de férias, a banhos, um outro banho, de sangue, começa a acontecer!

 

Sarajevo foi o epicentro desse enorme terramoto que, em longas e profundas ondas de choque, se alastrou por toda a Europa e pelas áreas desse mundo por ela dominado.

 

Uma Europa ébria, incontida, cega às consequências das sucessivas decisões que se iam tomando, lançando, em massa, toda uma geração de uma juventude promissora, na fornalha de aço que a metralha, que veio com o Progresso, gerou.

 

Era o princípio do fim de uma civilização a quem faltou o bom senso e a lucidez para pugnar pela construção de uma sociedade outra, numa convivência pacífica de povos”.

 

O Mundo e a Europa em que hoje vivemos foi moldado pela Grande Guerra (I e II Guerra Mundial).

 

Cremos que as palavras por nós escritas há dois anos têm pleno cabimento nos tempos por que passamos, exigindo de todos nós, numa sociedade tão outra que criámos, mas com os mesmos velhos problemas, melhores mecanismos de controlo, muita mais clarividência e lucidez, não só para evitar as calamidades que por várias áreas do Planeta proliferam, como para vivermos numa sociedade sem hegemonias e na aceitação igual e plena das diversas diferenças, do outro diferente.

 

Só assim é que o sacrifício e as vidas perdidas dos nossos antanhos de há 100 anos terão algum sentido e valido a pena.

 

António de Souza e Silva

 

 

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Segunda-feira, 31 de Outubro de 2016

Professor José Henrique - “Reconhecer o Génio de Nadir Afonso – Diálogo(s) Sobre a Obra”

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Eu sei que hoje deveria trazer aqui um pouco da Feira dos Santos do dia 30 de outubro, mas ontem, nem todos os caminhos se dirigiam à feira. Assim, optei por outro caminho que me levou até ao Museu de Arte Contemporânea Nadir Afonso, onde Nuno Dias ia fazer o lançamento do livro “Reconhecer o Génio de Nadir Afonso – Diálogo(s) Sobre a Obra” , e a opção deste caminho foi pela autoria dos diálogos serem de José Henrique e fui lá em jeito de homenagem a esse autor que um dia, felizmente, se atravessou no meu caminho como professor de português no Liceu de Chaves.

 

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Eu sei que nestas coisas há sempre quem apareça porque é “politicamente correto” aparecer, porque parece bem… principalmente para quem quer fazer nome na praça intelectual, mas acredito que a maioria dos que lá estiveram presentes, estiveram lá em jeito de homenagem, porque conheceram o Professor José Henrique.  Não é que eu seja um prosador, mas na minha modesta e sincera prosa, com aquela que sei e à qual às vezes, despretensiosamente, recorro, gosto de reconhecer e agradecer àqueles a quem estou reconhecido e agradecido. Para o provar deixo-vos aqui as referências que este blog fez ao Professor José Henrique:

 

 

Quinta-feira, 19 de Janeiro de 2012

 

Duas imagens e um poema

 

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No meu percurso estudantil tive a sorte de ter um professor que me despertou para a poesia. Nunca até então tinha lido verdadeiramente um poema. Até aí a poesia era uma sucessão de palavras com algum sentido, outras vezes sem sentido nenhum e que tanto rimavam, como não, onde se brincava com as palavras que se apresentavam sempre de uma forma esguia que saíam fora do formato normal de um texto de prosa. Com esse professor aprendi que a poesia não deveria ser olhada e muito menos lida com essa leviandade. Com ele, aprendi que a poesia é a verdadeira arte da palavra e do dizer, que pode até ter o poder e mais força que a de um verdadeiro exército, ou, como diria o José Carlos Ari dos Santos – a palavra é uma arma – e eu até aí não sabia.

Gosto sempre de deixar os créditos das fontes, dos despertares e daqueles que verdadeiramente me ensinaram. O professor a que me refiro chamava-se José Henrique e tenho-o como uma referência do Liceu de Chaves.

 

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Tudo isto a respeito das duas imagens de hoje, que são a mesma, mas não o são. Numa há a tal poesia colorida, cheia de música e rima que encanta pela forma e pela luz doirada. É um cliché feito com um olhar leviano sobre um entardecer, apenas isso, mas, se apurarmos o olhar veremos que há muito mais que entardeceres doirados, que há muitas imagens, sentimentos e até um porto de partida ou chegada onde alguém espera ou se despede de um momento que nunca mais irá acontecer.

 

 

 

Mais tarde, a propósito da Linha do Corgo, a Associação de Fotografia Lumbudus publicou um livro onde contribuímos com um texto que trouxemos ao blog em:

 

Terça-feira, de de fevereiro de 2016

(…)

a Linha do Corgo, da Régua a Chaves, depois da regueifa e dos rebuçados de açúcar torrado, era feita na varanda do comboio, mas há uma viagem, a última, que nunca mais esquecerei, não por saber que era a última, pois não sabia então que passado pouco tempo, traiçoeira e irrefletidamente a linha iria ser encerrada, mas porque nessa viagem tive uma companhia inesperada à varanda, uma companhia que a família (mulher e filhos) tinha deixado na estação da Régua para apanhar o comboio para Chaves, uma companhia que eu há anos já admirava e da qual tinha saudades, sobretudo da sua sabedoria, do seu amor à poesia e do seu conversar. Era o meu antigo professor de português do Liceu, o Dr. José Henriques, que ainda antes do 25 de abril de 74, através da poesia e dentro das quatro paredes da sala de aulas nos falava da liberdade. Foi a minha última viagem na Linha do Corgo e a última conversa com o meu antigo professor, espaçada de silêncios, explicados pelo êxtase da apreciação da paisagem ou pela apanha e descarga de passageiros nas estações e apeadeiros.

(…)

 

Fica agora a notícia do lançamento do livro “Reconhecer o Génio de Nadir Afonso – Diálogo(s) Sobre a Obra”, apenas isso, pois ainda não o lemos, mas pela certa que futuramente teremos oportunidade de trazer aqui algumas coisas deste livro.

 

 

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Quarta-feira, 18 de Maio de 2016

Lançamento do livro "Chaves D'Aurora, de Raimundo Alberto

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Há livros e livros, mas quando são de autores nossos preferidos, de autores flavienses ou de autores que embora não flavienses retratam a nossa história e o nosso ser, então aí os livros têm um sabor diferente, é o caso de “Chaves D’Aurora”, que nos leva até à vila de Chaves dos inícios do século passado, de autoria do brasileiro Raimundo Alberto Guedes Fernandes, de ascendência materna aveiro-flaviense, que quis beber in-loco as estórias e história de Chaves e que foi passando a palavras do seu romance, escrito em Chaves. Romance que tem de fundo uma estória real da sua família flaviense, uma casa que ainda existe e todos os acontecimentos históricos e sociais de Chaves, de Portugal e da Europa dos inícios do século XX. Da minha parte um obrigado por este romance e pelo contributo para a história de Chaves

 Fer.Ribeiro

 

 

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“CHAVES D’AURORA”

 

O primeiro romance do ator, diretor e produtor teatral Raimundo Alberto

 

Em “Chaves D’Aurora”, Raimundo Alberto convida o leitor a se transportar até aos anos 1912-1926, para acompanhar as peripécias de uma saga familiar, inspirada em factos reais, ocorridos em Trás-os-Montes (Portugal) e na Amazónia brasileira.

 

O autor, de ascendência materna aveiro-flaviense, nasceu em Belém do Pará, em 1944, e mora no Rio de Janeiro desde 1966. Os originais do romance foram totalmente escritos  em Chaves, Trás-os-Montes, onde Raimundo passou mais de dois meses recolhendo dados, conversando com os moradores e pesquisando, entre outros temas, os ciganos e suas tradições, as aparições em Fátima, a Segunda Guerra Mundial, as lutas dos republicanos flavienses contra os monarquistas, vindos de Verín, a Pneumónica,  além de lendas e mitos regionais. Tudo isso forma um contexto histórico e social que envolve a família Bernardes (nome fictício).

 

A apresentação do livro será no próximo dia 19 de maio, quinta-feira, às 18 horas, na Biblioteca Municipal de Chaves..

 

Capa e contracapa de Chaves d'aurora 001.jpg

 

 

Sobre o livro

 

Mesclando os fictícios Bernardes de um clã verdadeiro, com personagens imaginárias,  ou extraídas de lendas urbanas, essas vidas se entrelaçam com eventos históricos, tais como as incursões monárquicas a Chaves, as aparições em Fátima, a Primeira Guerra Mundial, a Pneumónica (Gripe Espanhola) e outros registros pitorescos, colhidos em jornais da época, além de mitos, crendices, jogos e costumes transmontanos. Em Belém do Pará, abordam-se as reformas urbanas, no apogeu do comércio da borracha, as óperas no Teatro da Paz e o Círio de Nazaré (a protagonista real  nasceu em um domingo de Círio).

           

“Chaves D’Aurora” conta a história de amor entre uma jovem recatada, de boas posses e um cigano também rico, mas volúvel, que se torna proibida, face os preconceitos e as tradições de ambos os clãs, o que poderá conduzir a um desenlace não fatal, mas, de algum modo, trágico. No entanto, convicta dos sentimentos de seu amado, a jovem perseguirá, até à exaustão, a esperança de um final feliz.

 

O romance também apresenta uma curiosidade textual: o autor pesquisou nos dicionários, quase que inteiramente, palavra por palavra do texto,  de modo a perseguir uma escrita na qual a maior parte delas sejam comuns aos dois falares, o brasileiro e o lusitano. Restaram apenas alguns termos de expressões locais do nosso idioma, diferenças que se notam entre regiões de qualquer um dos países lusófonos.

 

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Sobre o autor

 

Raimundo Alberto é ator, poeta e dramaturgo, com vários espetáculos encenados e premiados. Sua mais recente atuação foi em “O Mercador de Veneza”, de William Shakespeare, no Rio, entre 2013 e 2015.

 

Dentre as suas mais de 30 peças, várias levadas ao palco na forma de montagens ou leituras dramatizadas, estão “O Campeonato dos Pombos”, prémio e edição do Serviço Nacional de Teatro, em 1974; “A Última Pastorinha”, prémio MINC-Brasil 2001; “Águas de Oxalá” (Seleção Brasil em Cena – CCBB, 2008); e “Próximo Ato, Suspense”, publicada em antologia do ICCG / FUNARTE / Editora Teatral, Rio, 2009.

Em 2014, foi o homenageado do ano no V Seminário de Dramaturgia Amazônida, promovido pelo Centro de Artes e Ciências da Universidade Federal do Pará.

 

Bacharel em Literaturas Brasileira e Portuguesa (UFRJ, 1978). Como compositor musical (letrista), participou do CD “Bonde Folia”, da Orquestra Popular Céu na Terra, Prêmio TIM de Música 2008. Atual presidente do Instituto Cultural Chiquinha Gonzaga, foi diretor da SBAT  - Sociedade Brasileira de Autores Teatrais e da ALTAAC – Associação Livre de Trabalhadores em Artes Cênicas. Poeta, fez parte da Antologia Poesia do Grão-Pará, organizada por Olga Savary, Rio,2001.

 

 

LANÇAMENTO DO ROMANCE “CHAVES D’AURORA” , de Raimundo Alberto

 

Edição da obra: Chiado Editora.

 

Data: 19 de maio de 2016, quinta-feira, 18h

Local: Biblioteca Municipal de Chaves

 

Assessoria de Imprensa (Brasil): Mônica Cotta –monicacotta@globo.com

 

 

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Sexta-feira, 4 de Março de 2016

Discursos sobre a cidade - Por António de Souza e Silva

SOUZA

 

RECORDANDO APRESENTAÇÃO DO LIVRO

 

“CRÓNICA TRISTE DE NÉVOA”

 

 

Arrumando gavetas, sem contar, fomos dar com este texto que, na íntegra, reproduzimos:

 

“Quando começamos a ler Crónica Triste de Névoa e os nossos dedos lentamente vão esfolheando as páginas que a cada movimento nos contam as histórias da história ou nos remetem para o esconderíjio, recôndito, onde o pequeno João nos relata as suas memórias, ficamos com a sensação de que o autor, um flavienese, na ressaca das suas noites de insónia ou nas manhãs de pesadelo, outra coisa não quis senão nos contar uma história de “névoa” para flaviense reviver, ou seja, e como um amigo me dizia, um livro de um flaviense para flavienses.

 

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Os estereótipos representados quer pela figura do Dr. José Fino, quer do Eng. Filipe Pereira, quer ainda do bem conhecido Rosmaninho soam, são familiares para muitos flavienses. E quem é que já não ouviu falar das tertúlias dionisíacas como aquelas do Café Comercial? Aqueles, como eu, que aqui viveram a sua adolescência, nas décadas 60 e 70, outra coisa não ouviam contar!

 

Mas o que torna esta narrativa diferente é a forma sui generis como está arrumada e é tratada. Ou seja, a afronta do opíparo viver durante 12 longos movimentos – ou 12 longos meses - de certos personagens, no recanto de Névoa, na década de 40, enquanto milhões de seres humanos morriam por essa Europa fora e outros, bem junto de nós, pelas ruas de Névoa, mostravam a mais pura pobreza.

 

Este contraste neorealista, por vezes cínico, de retratar a realidade flaviense, servindo-se do palco encoberto, de Névoa, é apenas um pretexto, um artifício usado, ao longo dos doze movimentos da obra para nos interrogarmos sobre a nossa condição humana. As atrocidades da guerra, o pensamento do senhor Oliveira Salazar e até as reuniões de Câmara, presidida pelo medíocre capitão José Borges, para acabar com a pobreza em Névoa, entre outros, outra coisa não são que simples quadros aos serviço desta tarefa: a descrição de cidades sem rosto nas quais a pobreza e miséria moral é bem mais preocupante e degradante do que a pobreza material.

 

E quão bem longe estão os quadros da pobre e miserável Névoa das memórias dos 12 meses vividos em Montalegre e em especial em Ervededo, imersa em ruralidade!... São histórias de vida, tristes, é certo, as do João Domingos e do seu amigo Manuel Fortunato, bem como da avó Maria Fonseca, entre outras, mas autênticas, edificantes, cheias de valor e amor, de um verdadeiro calor humano. São memória as palavras sábias da Maria Fonseca para o pequeno João e a camaradagem e solidariedade entre o Manuel Fortunato e o João Domingos, que jamais deverão ser esquecidas! Num mundo em que cada vez mais se questionam e põem em causa princípios e valores que devem pautar e reger a conduta dos homens e da sociedade, os diálogos entre o pequeno Joazinho e a avó Maria Fonseca são de um enlevo, de uma doçura! Verdadeiramente de encantar!... Obrigam-nos a refletir sobre os verdadeiros e genuínos valores das relações e convivência humana!

 

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 O vale de Chaves mergulhado em névoa

 

O livro Crónica Triste de Névoa é assim, e antes de mais, um genuíno tratado de pedagogia, para além de um verdadeiro ensaio de história de época, de um estudo da sociedade flaviense da década de 40 bem como um verdadeiro estudo de etnografia transmontana, digno de um autor que nunca negou o exercitar activo da cidadania, entendendo que a construção do homem como cidadão se faz pela vivência e partilha dos usos, costumes e tradições, com os seus princípios e valores, nas comunidades que nos viram nascer e nos acolhem.

 

Foi como aprendiz de professor que, em finais da década de 70, conheci João Madureira na então Escola do Magistério Primário de Chaves. Já lá vão vinte e quatro anos!...

 

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João Madureira

 

O meu relacionamento com o João nem sempre foi fácil nem tão pouco linear, apesar de sempre rico de intensidade humana. A sua personalidade não se apreende e “apanha” facilmente. João Madureira, quem é? Apesar de estarmos em presença de uma obra que também nos relata a sua saga familiar, devemos contudo ter sempre presente que a natureza humana é, pela sua específica, polifacetada e transitória condição, sempre difícil de se definir numa simples pincelada. Mas creio que o livro que hoje nos é dado à leitura, em certo sentido, nos levanta essa “névoa” e, por isso, poderemos arriscar. Vejamos se, nas palavras do professor de filosofia, em empolada e acesa cavaqueira no Café Comercial com os seus comparsas, e nas da avó Maria Fonseca. Porventura aqui ele não se deixa “apanhar” e nos levanta, de alguma forma, parte do seu «véu».

 

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 Torre de Ervededo

 

Enfim, que o exercício de altivez apreendido e diagnosticado pela rica e intensa personagem da Maria Fonseca na personalidade do pequeno João redunde em capacidade de ousar uma vez mais em nos deliciar com temas e histórias dos nossos pais e avós mas também sobre temas do mundo que, também nós, ajudámos a construir e que vamos deixar como legado aos nossos filhos. Esse mundo, no dizer de uma conhecida colunista de uma revista semanal, que nos fala, lá fora, do terrorismo, da guerra do Iraque, da política externa americana, da política externa europeia, dos Balcãs, do Médio Oriente, do 11 de Setembro, do Afeganistão, do Presidente Bush, dos Berlusconis e Tony Blairs, da liderança europeia, do caso espanhol, do atentado de Madrid, da economia mundial, do Brasil, do Terceiro Mundo, das novas exclusões sociais, da ciber-sociedade, do problema das televisões e do papel não só informativo mas também formativo, como veículo privilegiado de comunicação que são, dos compromissos internacionais de Portugal, do envio de tropas portuguesas para palcos de guerra, dos miseráveis que constituem a maioria da população mundial, da sida, do fundamentalismo islâmico, das novas religiões; e cá dentro, da sociedade depois do 25 de Abril, do nosso sistema político, se a economia muda ou não, se a qualidade média dos governantes e governos muda ou não; dos média, da justiça, da educação, da cidadania, da saúde, dos direitos humanos. E do pensamento em relação à cultura, às cidades, à ruralidade, à administração pública, enfim, de todos os lugares-comuns da nossa contemporaneidade, do mundo em que vivemos e em que os nossos filhos hão-de viver... Nunca esquecendo, atendendo à especificidade e tristeza do dia que hoje todos vivemos, de reflectir sobre a precaridade da vida e do momento que hoje atravessamos com a morte de um homem que viveu sempre em função das suas convicções e dos seus ideais de solidariedade humana e da convivência entre os povos, como um iminente e convicto europeísta – Sousa Franco!...

 

E aqui não me queria antecipar, como a avó Maria Fonseca para o ronronante Joaozinho, no final desta obra: “Não sei se faço bem em contar-vos estas histórias”!...

 

Pela minha me interrogo se faço bem em estar para aqui a repetir-vos todas estas coisas.

 

Mas... creio que vale a pena!

 

Ler, refletindo, faz falta.

 

Leiam esta obra!

 

E ponham-se também a escrever. Coisas que tenham a ver com todos nós. Com o nosso viver. Porque todos seremos poucos para construirmos um mundo cada vez melhor!”.

 

 

Montalegre, 9 de Junho de 2004

 

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 João Madureira com o Barroso e a Serra do Larouco de fundo

 

Já se aproximam 15 anos que proferimos estas palavras.

 

Os protagonistas são outros. Os acontecimentos também.

 

Mas será que no mundo, no país e, nesta nossa cidade, mudou assim tanta coisa?

 

Não estaremos em presença de uma Europa sem rumo, num país, de certa forma, «amordaçado», e vivendo numa cidade sem rosto na qual a pobreza e miséria moral é bem mais preocupante e degradante do que a pobreza material?

 

Que pena só se poder ouvir e ler, muitas das vezes, a voz e a escritas «de legião de imbecis», que, a todo o custo, nos pretendem reduzir a simples mercadoria, nos media e redes sociais, dizendo e falando de pura banalidades, tal como o recente falecido Umberto Eco enfatizava, fazendo-nos esquecer da escrita que verdadeiramente nos retrata e nos questiona, fazendo-nos pensar como seres humanos!...

 

António de Souza e Silva

 

 

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Terça-feira, 19 de Janeiro de 2016

3 - Chaves, era uma vez um comboio…

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NOSTALGIA

 

Já lá vão mais de sessenta anos. Mas a cena está-me tão presente como se fora hoje. Vejo o buliçoso e traquina Nona, sentado no banco de pedra da janela de casa, com os braços nela apoiados, olhando com aqueles olhos ávidos, cor de azeitona preta, para um ponto fixo do vasto horizonte de vinhedos à sua frente. Não era o mítico Marão, tão bem cantado por Teixeira de Pascoaes, e a sua Fraga protetora da Ermida, mesmo ali ao lado, que o fascinava. Nem tão pouco a beleza dos vinhedos, vestidos de mil cores, descendo em forma de barco até ao Douro. Seus olhos, penetrantes e insaciáveis, apenas se fixavam num único e só ponto longínquo do horizonte, onde os vinhedos acabam e o rio Douro passa, espraiando-se, apressado, em direção à foz. Era a Ponte do Granjão. Não que fosse uma bela obra de arte. Ou sequer uma obra imponente. A sua importância advinha simplesmente porque, sobre ela, passava algo que o fascinava. Que o fazia sonhar noutros mundos e lhe apelava a outras paragens. Nela passava o comboio. E como ele gostava de sentir, ao longe, o barulho que as rodas de ferro faziam sobre os carris; os apitos estridentes que dava quando por ela passava e o fumo que a chaminé da sua locomotiva expelia.

 

cp0003.jpgCP0003 – Locomotiva: CP E209, Data: Março de 1974, Local: Corgo, Portugal, Slide 35mm

 

Estava-se mesmo a ver que o rapaz, quando crescesse mais, não ficaria muito tempo por ali. Não que ele não gostasse da terra que o viu nascer. Muito pelo contrário, adorava-a. Era mesmo o seu paraíso do qual guarda as melhores recordações de uma infância feliz, embora muito curta.

 

Era, contudo, terra pequena de mais para o tamanho do seu sonho.

 

cp0021.jpgCP0021 – Locomotiva: CP E202, Data: Não datado, Local: Não identificado, Portugal, Slide 35mm

 

Aquele comboio, passando ali todos os dias e a diferentes horas, tornou-se-lhe um amigo. O seu amigo. Mas também uma obsessão. E o seu estridente apitar, quando passava sobre a ponte, entendia-o como a mágica de um chamamento, um vem comigo conhecer o mundo.

 

E um dia partiu mesmo.

 

Com ele, e nele, deu os primeiros passos da «descoberta». Do contacto com o outro. Do partilhar de vidas. Do conhecer as diferenças. Foi, assim, a partir da luz que aquele ponto no horizonte lhe inculcou na mente que Nona se transformou no homem que hoje é: homem do mundo, mas com um enorme apego ao rincão donde partiu.

 

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CP0010 – Locomotiva: CP E209, Data: 23 de Março de 1974, Local: Chaves, Portugal, Slide 35mm

 

É por isso que, quando em presença de uma máquina a vapor, idêntica aquelas que passavam na ponte da sua infância, em Nona se lhe despertam todas as memórias, de partidas e chegadas. De todos os momentos da sua vida.

 

Por elas evoca, principalmente, um Portugal que já não somos - comunitário e rural; interior e lutador, solidário, castiçamente ibérico e sonhador.

 

As últimas travessas arrancadas das linhas que o cerziam fizeram-no infinitamente mais pequeno. Hoje somos simplesmente, e apenas, uma pequeníssima e estreita faixa debruada sobre o oceano. E temos medo de nele entrar e encetar nova empresa de um novo «navegar». Tiraram-nos a alma. A nossa verdadeira alma - a do cavador que sempre fomos.

 

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 CP0005 – Locomotiva: CP E209, Data: Não datado, Local: Régua, Portugal, Slide 35mm

 

Sem terra e sem mar, ficámos mais pobres. Estamos pobres. Uma pobreza que está não apenas naquilo que não temos. Essencialmente naquilo que já não somos. E deveríamos ser.

 

Urje, pois, que nos encontremos. Talvez em qualquer travessa perdida da linha que já não temos. E que nos indique um rumo. Um novo caminho.

António de Souza e Silva

 

 

In “Memórias de uma Linha – Linha do Corgo – Chaves”, Agosto de 2014

Edição Lumbudus – Associação de Fotografia e Gravura

 

Fotografias – Propriedade e direitos de autor de Humberto Ferreira (http:outeiroseco-aqi.blogs.sapo.pt)

Gentilmente cedidas para publicação neste post.

 

 

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Quinta-feira, 23 de Abril de 2015

Pedra de Toque - O Livro

pedra de toque copy

 

O Livro

 

Era para regressar para a semana à vossa amizade.

 

Optei por voltar hoje.

 

O livro merece.

 

E hoje é o DIA MUNDIAL DO LIVRO.

 

Leio sempre que posso e agora posso mais vezes.

 

Para além do enorme prazer que me proporciona a leitura de um bom livro (enche-me a alma…) adoro procurar livros, manuseá-los, tê-los nas minhas mãos e, sobretudo, adquiri-los para ficarem na minha companhia.

 

E depois lê-los quando me apetece, quando a oportunidade surge.

 

É difícil, extremamente difícil, dizer-vos quais os livro da minha vida.

 

Ocorrem-me imensos, muitos deles que reli.

livro

Permito-me, no entanto, destacar três, porque foram influentes, marcantes, decisivos na minha formação, no meu crescimento, na definição da minha personalidade.

 

Desde logo “A Mãe” de Máximo Gorki.

 

Se sou um homem convictamente fraterno, profundamente solidário, intransigente defensor da justiça social em todas as circunstâncias, devo-o à influência que este romance de Gorki teve, tem e espero ainda que tenha para sempre, sobre a minha vida.

 

“Cem anos de solidão” de Gabriel Garcia Marquez, talvez o melhor romance que li.

 

Um livro fabuloso, belíssimo, envolvente, mágico, de um escritor superior.

 

Voltei a ele recentemente e adorei revisitá-lo.

 

Fi-lo desta vez com mais calma, degustando-o com um prazer enorme.

 

Por fim, o grande livro da nossa literatura, da responsabilidade do genial Pessoa, composto por Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa.

 

O “Livro do Desassossego”, que, como refere o poeta “é só um estado de alma, analisado de todos os lados, percorrido em todas as direcções”.

 

Quando a fome de poesia me chega aos lábios, subo-a aos olhos que pouso neste livro sempre presente, sempre junto a mim.

 

António Roque

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Terça-feira, 31 de Dezembro de 2013

Do livro " Chaves, Olhares Sobre a Cidade"

Ainda antes de terminar o ano quero aqui deixar publicados os últimos três textos e respetivas fotografias do livro "Chaves - Olhares Sobre a Cidade", publicação comemorativa dos dois milhões de visitas ao blog Chaves.

 

Se o tempo e as circunstâncias nos o permitirem, será uma iniciativa a repetir, talvez com uma edição comemorativa dos três milhões de visitas (se lá chegarmos), ou outras edições, das muitas que já são possíveis reunir no conteúdo do blog Chaves. Prometido fica que vamos continuar.

 

Bom 2014!

 

 

Senhoras da aldeia

 

Grito mudo…

Dizer o quê?

cansados,

Sachar cada ano a amargura,

envelhecer  no lenço e avental preto

homens sem alternativa na taberna embriagados…

valham-nos vizinhos na amizade quando perdura

aprender que entre homem e mulher jamais me meto…

 

Grito mudo

Dizer o quê?

Ignorados

Evocar Deus no minuto de medo,

Ajoelhar às aparições dos senhores

Sonhos perdidos na infância nos bosques e prados

Contar o dinheiro a modos de manter o sossego

Ir morrendo na ténue ilusão de dias melhores

 

Grito mudo…

Dizer o quê?

cansados ,ignorados

e a nossa senhora nunca mais apareceu,

no seu manto vermelho de veludo,

não sabemos porquê, será que só ganham o céu

os pobres abandonados?...

 

Isabel Seixas

 

 

Paisagem, património, liberdade!

 

As políticas neo-liberais são adoptadas de forma crescente por muitos governos. Estas correntes, muito orientadas para a livre exploração comercial de todas as “coisas” que sejam passíveis de gerar lucros, estão na base de importantes alterações da realidade contemporânea.

 

A avaliação das paisagens e subsequente ordenamento (pelo valor comparativo ou outro), ou apenas a respectiva inventariação, podem aproveitar para transformar as paisagens, de bem público, colectivo, em bem privado, comercializável.

 

Que direito assiste a alguns na apropriação privada de bens que sempre foram “comunais”?

 

Pretendemos consciencializar para a necessidade de a paisagem (de maior valor) continuar a ser um bem público, livre de concessões e sobre o qual nenhum privado pode colocar um obstáculo ao seu usufruto sensorial por parte de todos. Tal implica que as paisagens urbanas devam ser objecto da atenção de organismos públicos (desde a avaliação, aos planos de protecção ou valorização, gestão e usufruto), ainda que a sua manutenção seja efectuada a expensas dos contribuintes. Esta visão fere as concepções neo-liberais que são neste momento dominantes, mas pensamos que já surgem, também neste momento, visíveis reacções a este modelo totalizante e, tal como em relação a outros modelos político-económicos, a história demonstra-nos que, “a imposição de um único ponto de vista nunca é justificada.”

 

A expressão da resistência à opressão comercial que invade as nossas vidas encontra-se vincadamente expressa por Naomi quando afirma que aquilo que lhe traz amargura “não é exactamente a ausência de espaço real, mas uma profunda ânsia por espaço metafórico: libertação, fuga, algum tipo de liberdade sem condições”, o que é no nosso tempo muito difícil de encontrar. A sensação claustrofóbica provocada pela invasão comercial de todos os espaços (recorde-se a venda de postais e recordações, junto a locais pitorescos), está enunciada na afirmação de que a “maioria de nós aproveita os espaços abertos onde consegue encontrá-los, às escondidas como se fossem cigarros, fora das clausuras”.

 

Como terá sido afortunado Dom Afonso, por provavelmente ter visto as “termas romanas” de Chaves ao ar livre e sem pagar entrada!

 

Francisco Chaves de Melo

 

 

 

 

Aos que ficam

 

Tenham dó! Tenham Misericórdia dos que ficam! Não os zombais, não os julgais! Um dia também chegará a vossa hora de quietude. Quem os viu e quem os vê, diz o povo. Pois assim está bem, pois mal de quem os não vê nem nunca viu!

 

De camisa sempre lavada, cabeça tapada e olhar "fino", são visões de um mundo que foi e já não volta.Tenham dó! Tenham Misericórdia dos que ficam! Um dia também chegará a vossa hora de esquecimento.

 

É de noite, é de noite, diz o povo. Mas enquanto houver esperança, haverá sorrisos. E enquanto houver sorrisos, haverá vida. Tenham dó! Tenham Misericórdia dos que ficam!

 

Sandra Pereira

 

 

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Segunda-feira, 30 de Dezembro de 2013

Do livro " Chaves, Olhares Sobre a Cidade"

 

 

A PONTE ROMANA E O ARRABALDE

 

A velha Ponte Romana edificada há séculos pelos romanos, apesar de algumas alterações, é, indiscutivelmente, o grande monumento da cidade.

 

Para muitos é, por consequência, o ex-libris do burgo.

 

Foram necessárias muitas décadas para a dolorosa construção, pedra a pedra, da ponte, indispensável para a premência de unir as margens do belo Tâmega.

 

Por ela passaram, quiçá, legiões romanas, por elas chegaram homens e mulheres que da veiga e da montanha transportaram viveres, produtos agrícolas para a população da cidade, que fixou naturalmente o epicentro na antiquíssima praça ou largo ainda hoje conhecido por Arrabalde.

 

Aliás, até princípios do século passado, o mercado ou a praça, como então se dizia, localizava-se em pleno Arrabalde, na zona onde hoje se situa o Palácio da Justiça e o espaço defronte.

 

Altaneira, com os dois pilares onde está escrita história, a ponte desemboca no centro onde se instalaram boa parte dos serviços e do comércio.

 

Daqui também se soltam, entre outras, as artérias que nos levam às Caldas de mais virtude, ao Largo do Anjo, às Freiras (que já foram um belo jardim) e ao Jardim do Bacalhau onde falta a pérgola que deixou saudade, pela sua beleza e pela sombra fresca que proporcionava em tardes estivais.

 

Os edifícios que ainda hoje circundeiam o Arrabalde merecem a atenção que os turistas não prescindem de perpetuar em fotos.

 

A arquitetura dos prédios com as suas belas frontarias e inspiradas varandas obrigam a momentos de deleite a quem nos visita.

 

Aguarda-se o balneário romano, achado arqueológico encontrado diante do Tribunal.

 

Bom seria que o museu de que se fala viesse engrandecer o património da cidade e embelezar o Largo.

 

A Ponte Romana e o Arrabalde são nacos de história que dignificam e alindam a nossa nobre cidade, terra de encanto.

 

António Roque

 

 

A geometria da destruição

 

Permanece vazia a casa abandonada. De uma janela avista-se o rio. Cá dentro existe um cheiro intenso a humidade e a afastamento. Lá fora flutuam aromas intensos, cores fortes e olhares desamparados. A aldeia vive agora subjugada na sua geometria de destruição. As sombras e as silvas tomaram conta das paredes. Os insectos rumorejam misteriosos delírios. Toda a ilusão cai esfarelando-se no chão esburacado da sala. O medo é agora insinuante. Nem a imagem dos mortos se fixa nas fotografias amarelecidas. Aquela era a minha porta da infância. Hoje é um abismo de desilusão. Os ângulos da casa reflectem a meticulosa memória das cinzas. A casa atravessa agora o corpo esfíngico dos espectros. A saída secreta é actualmente um espelho de trevas. O silêncio espreita por cima do meu ombro a solidão da folha em branco. Não há escrita. Escrever dentro deste mausoléu é uma impossibilidade manifesta. O avô desfez-se numa alegoria. A avó é uma espiral dorida. O pai é uma tristeza branca. A mãe um reparo inclinado. As arestas das paredes progridem para dentro das palavras. A desolação perfura as memórias que se afundam no tempo do esquecimento. Tento acender o lume, mas os dedos encolhem-se como hélices. A solidão é tão grande que mete medo. A solidão das escadas, a solidão das portas fechadas, a solidão dos caminhos, a solidão da adolescência, a solidão das fechaduras inúteis, a solidão dos besouros abandonados, a solidão dos bancos, a solidão da herança e das árvores e dos sentidos, a solidão das fotografias e dos textos felizes, a solidão dos corpos e dos queixumes nocturnos. A casa abandonada permanece vazia. Mingou muito. A candeia está no mesmo sítio mas apenas serve para as aranhas comporem as suas teias. A varanda estilhaçou-se em mil resíduos de evocações. E o poço inverteu-se. A minha mente procura um rosto. Mas já não tenho certeza de quem. Foram-se as imagens e apenas ficaram os nomes definhados. Recrio a memória catastrófica da morte. Pouco mais há a dizer. A aldeia é uma perturbação da paisagem. A casa cada vez mais se inclina para o abandono. As horas deste lugar são um nada absoluto. Amanhece? Anoitece? Tanto faz.

João Madureira

 

 

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Sexta-feira, 27 de Dezembro de 2013

Do livro " Chaves, Olhares Sobre a Cidade"

 

Os Resistentes

“Os meus heróis não são heróis à força, são seres modestos, pessoas realmente humildes, com tanta humildade que alcançam a heroicidade e universalidade. (…). O meu herói é um homem vulgar, que dá tudo o que tem dentro de si”

 

Miguel Torga, In entrevista ao JL – Jornal de Letras, Artes e Ideias, de 26.Jan.1988

 

O meu herói também cabe dentro do herói de Torga, mas hoje, em vez de herói, mesmo sem perder um pingo da sua heroicidade, quero chamar-lhe antes - resistente. O meu herói é um resistente. Vive no campo, na aldeia, é rural. É um resistente da montanha, vive com um pequeno punhado de outros resistentes iguais a si. Resiste às portas fechadas das casas abandonadas, resiste ao silêncio das ruas sem crianças. O meu herói é aquele que, por entre o seu mar de montanhas, resiste às noites frias de inverno, resiste ao inferno do verão e sempre resistiu ao convite da partida enquanto se despedia dos filhos que sabia não regressarem mais. O meu herói resiste à solidão, resiste ao desprezo dos senhores das cidades, resiste à dor e à doença e,  enquanto tiver forças,  resiste ao chamamento da terra. Prefere servir-se dela para lhe receber as sementes que mais tarde irão fazer o pão com que resiste à fome e no fundo, bem lá no fundo, o meu herói resistente apenas vive a vida que lhe deram para viver, a única que sabe viver,  e vive feliz, com ela, e com um pouco de nada.

Fernando DC Ribeiro

 

 

Um país que acaba…

 

Aqui… ruas estreitas e vazias, pedras gastas pelos passos dos Homens

Algures… avenidas largas, luzes e gentes sempre apressadas

 

Aqui… casas fechadas de gentes que sonharam outras vidas

Algures… prédios sem história cheios de gente anónima

 

Aqui… o silêncio, o cantar do galo, o toque do sino da igreja

Algures… o bulício, o barulho, o trânsito

 

Aqui… terras abandonadas que outrora deram pão e vinho

Algures… terras arrasadas para novas ruas e avenidas

 

Aqui… um café, idosos em silêncio, um jogo de sueca

Algures… uma esplanada, mesas e toldos coloridos, conversas animadas

 

Aqui… um fontanário a lembrar vivências de outros tempos

Algures… um jardim sufocado entre arranha-céus

 

Aqui… cantos e recantos por onde crianças felizes correram e brincaram

Algures… crianças que crescem entre quatro paredes

 

Aqui… histórias de famílias e tradições centenárias que se perdem

Algures… vidas simples, vazias, rotineiras

 

Aqui… um país que acaba

Algures… um outro país que começa?

 

Luís dos Anjos

 

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Quinta-feira, 26 de Dezembro de 2013

Do livro " Chaves, Olhares Sobre a Cidade"

 

A desertificação do interior é uma coisa que põe certas pessoas malucas, doentes. Mas podemos olhar para este problema de outra maneira. Para isso, basta lembrar a lei das sesmarias. Essa lei, de 1375, foi feita para impedir que o pessoal bazasse do interior para as cidades, onde iam trabalhar como artesãos. Imagino que aquela frase que estou farto de ouvir, a agricultura já não dá nada, venha desse tempo. Já no ano de 1500 a população portuguesa era de 1,5 milhões. Como a actual população em Trás-os-Montes é de 350.000, em 1500 seria uns 60.000. A população aumentou durante muito tempo e actualmente é maior do que há 100 anos. Por isso, que se foda, temos tanta gente como tínhamos em mil novecentos e qualquer coisa, temos mais do que noutros tempos. Há aldeias que estão a ser abandonadas, que não têm mais do que 100 anos.

 

Já agora, que é que estes pacóvios estão a fazer atrás-do-torgo? Estão a apanhar altas secas em aldeias e aldeolas onde não se vê ninguém, em que o pessoal só tem 3 ou 4 vizinhas para quem olhar, onde não há um bar para beber um copo, etc. Seria fácil distribuir estes tristes por Lisboa e Porto. Não têm que sofrer pelas burrices dos antepassados. Que culpa temos nós que uns malucos, há 10.000 anos, se tenham lembrado de ir montar as tendas para os Cornos das Alturas, a 1200 m de altura? Não estariam bêbados? Vão montar uma aldeia num sítio onde não há nada, longe de tudo, obrigados a pastar uns porcos e umas cabras no meio de neve? Podiam ter escolhido o Algarve ou qualquer sítio entre Porto e Viana, onde há espaço suficiente para os 100 malucos que vivem nas Alturas. Temos nós que continuar a aturar esta merda? Que se foda, que se foda a etnografia! Vamos mas é bazar daqui, vamos desertificar esta merda. Eu só preciso de levar o banco de matar o porco e a caldeira para as chouriças. O concelho de Boticas só tem 4000 habitantes, por isso basta fazer um condomínio fechado com umas 4 torres, metemos umas cortes para os porcos e já está! E até poupávamos dinheiro ao país. Porque tem que vir pessoal fazer centenas de quilómetros para trazer duas cartas, montar quilómetros de fios eléctricos para aldeias de 20 pessoas, etc. Devia haver subsídios para o apoio à desertificação do interior, o país só ganhava com isso.

 

Vamos lá bazar daqui para fora, vamos deixar de ser burros, vamos para a praia, para o quente, e como há-de assim, as batatas já vêm de Espanha e já, que se foda. Viva a desertificação do interior! Desertificar, já!

 

António Chaves

 

 

TÃO PERTO E, CONTUDO, TÃO LONGE…

 

A vida é toda ela cheia de surpresas. E, não raras vezes, prega-nos muitas partidas. Adolescente deixámos a Fraga do Marão. Aquela serra, tão eloquentemente cantada por Teixeira de Pascoaes, e que tanto nos protege como nos oprime. Quando jovens, nossa maior tendência é o sentido da liberdade. Tal como proclama José Régio, no seu célebre poema, «amamos o Longe e a Miragem» …

 

Chaves, e a sua veiga, era o nosso «vem por aqui»! Campo aberto, farto. E o convívio com aqueles que, no antanho, constituíam a nossa mesma realidade, a mesma cultura, num território com que todos nos identificávamos e que, sem dúvida, muito antes dos romanos, que lhe chamaram Gallaecia, integrava já uma outra cultura, bem mais ancestral, toda nossa – a castreja. E a cultura celta com quem, ainda hoje, muitos de nós, mais nos identificamos.

 

Mas, volvidos tantos séculos, e após várias e profundas peripécias, embora herdeiros do cadinho de uma cultura comum, seremos os mesmos? Fazemos parte, é certo, da mesma Ibéria de que tanto fala Torga. Mas a diáspora e a epopeia dos Descobrimentos modificou-nos. Profundamente!

 

Hoje estamos mais de acordo com José Mattoso e Suzanne Daveau – não foram as pessoas, a cultura e a geografia que nos uniu. Somos, positivamente, uma manta de retalhos de tudo isso. O que nos uniu como povo foi o poder (político) que não a mesma realidade, vivida e partilhada.

 

Perdidos numa Europa sem pátrias, onde reina a ditadura dos monopólios e o poderio das multinacionais, após a epopeia das Descobertas, e habituados ao parasitismo daquilo que apenas se encontra sem esforço e trabalho, ainda não conseguimos encontrar um desígnio que a todos nos mobilize para a construção de uma nova gesta, que nos orgulhe, uma vez mais, de ser português. Reforçando ou criando hoje, a um outro nível, a nossa verdadeira identidade.

 

O Reino Maravilhoso, de que tanto Torga nos fala, é muito sui generis. Muito diverso. Da fronteira do então reino da Galiza até ao sul do Douro, todos nos apelidamos de transmontanos. Mas somos, de norte a sul, muito diferentes. Apenas nos identifica o amor profundo ao nosso berço. E a ele, invariavelmente, muitos de nós, exauridos pela labuta diária na diáspora que nos levou a criar riqueza noutros povos, e num rito de homenagem aos nossos antepassados, à boa maneira celta, regressamos na hora próxima do passamento.

 

Olhamos para o povo, que aqui vemos a nossos pés, integrando uma das aldeias da freguesia que nos acolheu, e à qual nos habituámos a estimar. E um sentimento profundo de nostalgia nos assalta. Porque, em frente, estão as serras que nos separam do berço onde nascemos!

 

Aprendemos a amar esta terra flaviense! Mas o coração e a alma estão para além daquelas serras envoltas em bruma de nuvens… Afinal de contas, apesar de tão perto, contudo, estamos tão longe!..

 

António de Sousa e Silva

 

 

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Terça-feira, 24 de Dezembro de 2013

Do livro " Chaves, Olhares Sobre a Cidade"

 

Estas mulheres

Estas mulheres não aquecem os púcaros, as vasilhas de ferro. Aquecem o que metem nos púcaros, nas vasilhas negras. Não procuram para si. Amam em ver os filhos a correr, a crescer, a erguer os braços onde mais se esconde a flor da hera da tristeza, a colher na sombra, a meio da noite, essa pequena luz que amanhece nos pátios, nos largos desertos, nos tanques de água. São mulheres transmontanas. Obcecadas pelo sentimento da dádiva, pela harmonia do mundo a que não pertencem. Carregam pesos, aquecem a sopa para os seus homens, vigiam a urze e o tojo, guardam a fazenda. Nunca dormem se alguém acorda. Correm primeiro. Conhecem segredos de prender os fios às árvores, de colher as sete pétalas do linho nos campos alagados, de fazer os panos e os ramos da quaresma. Vestem-se de preto. Adormecem uma única vez e só então descobres que arrefece a pedra da lareira. E o musgo cresce na escaleira.

José Carlos Barros

 

 

O guarda da rua

 

Na minha rua mora um homem. Fez de um banco casa e mora ali.

 

Veste de sujo, usa cabelo gasto. Cobre-o com o que um dia foi chapéu. Tem pele e ossos. Ouvi que não passa fome. Não sei. Encontro-lhe muitas fraldas de fora.

 

Na minha rua mora um homem sem bengala. Ocupa a mão com sacos, encosta-se às paredes.

 

Tem mãos de quem diz adeus ao tempo. E olhos tristes de quem olha sem ver, pelo que já viu.

 

Na minha rua mora um homem que não pede. Aceita. (Com voz que nunca ouvi.)

 

Agradece com palavras sem cor e pegadas de vida. A pele conta-lhe segredos mudos de um resignado que já se indignou.

 

Na minha rua mora um homem. (Sozinho.)

 

Entro em casa. Deixo-o na rua. Desculpo-me. A rua é mais sua do que minha. Mora nela e dela vive. Sem renascer.

 

Na minha rua mora um homem. Vivem muitos. Mora um.

 

Curva-se pela memória. Pesa.

 

Na minha rua mora um homem.  Dia e noite.

 

Silêncio. Os animais saem de cena. (Vão para casa.) O homem do banco que guarda a rua, que mora nela, que vive dela, vai. Embora. Fico a vê-lo. Dormir.

 

Rita

 

 

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Segunda-feira, 23 de Dezembro de 2013

Do livro " Chaves, Olhares Sobre a Cidade"

 

SI LAS PIEDRAS HABLASEN

 

Sube lentamente la cuesta, que conoce bien, aunque cada día se vuelve algo más empinada… los años, ensimismada en sus pensamientos, no sabe que las piedras, son sus amigas, la conocen, guardan muy dentro los juegos de niña, las corridas con sus piernas ágiles, que hoy se volvieron lentas, los escasos pasos a la escuela, los muchos, al  arduo trabajo del campo, las primeras miradas cómplices, con aquel mozuelo, que pasado el tiempo emigraría, dejándola con sus sueños rotos, cuando regresó con su mujer, vistosa, bien vestida, aun se sintió más humillada, parecía encogerse, pero el tiempo no se para por los sentimientos, así que a al fuerza, siguió subiendo y bajando, trabajando duramente; el vecino se fijó en ella y “le habló”. Con el corazón encogido y alguna mariposa en el estómago, corrió a casa, para consultarlo con su abuela, - Abuela, el Manel, me habló, qué hago?, la viejecita, la miró con ternura y pasándole la mano por la cabeza, le respondió, - acepta mi niña, acepta, después con la convivencia vendrá el cariño, es buen chico y trabajador, tiene sus tierras y con las tuyas, tendréis que trabajar mucho, pero ya estás acostumbrada. Que Dios os bendiga. Aquella noche no pudo dormir, lloró, aunque no era de lloros, ella decía que era dura como las piedras, pero el paso que iría dar sería un cambio para el resto de su vida, amaneció un día lluvioso y triste, el alma se le encogió como un pajarillo, Trabajó duramente hasta el mediodía, sin darse cuenta exteriorizaba su zozobra, que las piedras recogían. Por fin se decidió y fue a dar la respuesta, naturalmente se hizo la encontradiza, no sería digno ir directamente a su encuentro, no era por no tener padres, que perdiera las buenas costumbres, pues allí estaba la abuela, como ejemplo y con sus buenos consejos. La boda fue normal, tuvieron vestido y traje nuevos, todo un lujo! pasaron por este empedrado lugar, cada uno con sus sueños y sus miedos. El tiempo diría, predominarían los sueños? O serían los miedos, los que ganasen la partida? Ella sigue subiendo y las piedras acompañan su camino.

Fe Alvarez

 

 

Mimos e Pantomimeiros

 

“A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios. Por isso, cante, chore, dance, ria e viva intensamente, antes que a cortina se feche e a peça termine sem aplausos”

Chales Chaplin

 

Na sua forma mais antiga o teatro nascia na Grécia para homenagear o Deus do Vinho - Dionísio. A festa, o vinho e o prazer representavam-se numa só palavra, em forma de teatro. E se o vinho até pode simplificar o que é complicado, quando se representa uma vida o simplificado complica-se, e lá se vai a festa e o prazer do vinho… e por muito que muito vinho descomplique, no dia seguinte a ressaca complica tudo, mas a representação diária tem de continuar - é a vida!

 

" O teatro pode ser uma arma de libertação. Para isso é necessário criar as formas teatrais correspondentes, é necessário transformar. Todos podem e devem fazer teatro até os atores".

Augusto Boal

 

Todos podem e devem fazer teatro, até os atores! Era a fórmula que Boal tinha para ir de encontro aos trabalhadores Sem Terra no Brasil. Nascia assim o teatro do oprimido que todos podem e devem fazer até… só falta saber se os opressores,  com ou sem disfarces de pantomineiros, também fazem teatro!

 

Representemos então, façamos todos teatro, vivamos intensamente cantando, dançando, rindo, mas com vinho se puder ser, mesmo sem Dionísio ou Baco e os seus excessos, embriaguemo-nos, que a ressaca da opressão amanhã estará garantida, sempre garantida,  mesmo sem vinho.

 

Bebamos então uns copos bem bebidos até ficarmos com um brilhozinho nos olhos, bebamos enquanto a ressaca não traz de regresso a tristeza ao olhar, que nem o melhor mimo consegue disfarçar.

 

Assim, antes que a cortina se feche e a peça termine sem aplausos  -  ó mimo, vai um copo?

 

Fernando DC Ribeiro

 

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Domingo, 22 de Dezembro de 2013

Do livro " Chaves, Olhares Sobre a Cidade"

 

As mentiras da verdade

 

A história é um conjunto de mentiras sobre as quais se chegou a um acordo” – Dizia Napoleão Bonaparte, pelo menos foi esse o acordo a que a história chegou para dizerem que eram palavras de Napoleão, o que não duvido, mas independentemente de serem ou não dele, estou inteiramente de acordo com elas. A cidade de Chaves é um bom exemplo disso, para além de ocultar muitas verdades com outras tantas verdades, e prova disso é o nosso centro histórico medieval ou de origem medieval, o que é verdade, mas que esconde e oculta toda uma cidade romana sobre a qual se ergueu.

 

Se abordarmos a toponímia de Chaves, então aí são às dúzias as mentiras escritas, passadas a letra de imprensa nas placas das respetivas ruas. Por exemplo na placa onde se escreve Rua General Sousa Machado, toda a gente sabe que é a Rua do Correio Velho; na que diz Rua Bispo Idácio, todos sabemos que é a Rua da Cadeia; onde se escreve  Terreiro de Cavalaria deveria estar escrito Jardim do Bacalhau, mas sem o respetivo; na Betesga do Olho oculta-se de que olho se trata, e não era o de Camões, o mesmo que dá nome a uma praça que sempre foi do Duque de Bragança, mas que vivia em Chaves, onde morreu e foi sepultado mas não tem sepultura nem restos mortais, esses, estão em Vila Viçosa; por sua vez o Largo do Arrabalde que deveria estar nos arrabaldes da cidade,  fica bem no centro da cidade; e por último, o Jardim das Freiras, que é a maior mentira toponímica de todas, por nunca ter sido jardim de freiras, mas sobretudo porque na placa está escrito o nome de um general dos lados da Régua e que a história nos quer impingir como um herói por nos ter defendido dos franceses nas segundas invasões, quando na verdade o verdadeiro herói das invasões foi outro militar, flaviense por sinal e com outro nome, que acabou por ser Governador do Maranhão sem nunca o ter governado.

 

Vamos agora à Praça da República que também é conhecida por Praça do Pelourinho e que já teve topónimos monárquicos, para além de esconder um passado romano que ali existiu - e se calha ainda existe soterrado-, que foi cemitério medieval, foi praça de mercado, teve nela edifício com a Câmara Municipal e até pelourinho, o mesmo de hoje mas noutro local, que depois abandonou para ir em passeio até à Praça do Duque de Bragança, para mais tarde regressar ao lugar atual. Há ainda também quem se lembre, e sem ser preciso esforçar muita a memória, de um jardim que enquadrava o pelourinho. Como se isto fosse pouco, mesmo ao lado há uma palmeira que não dá cocos e bem perto uma tília que já foi um negrilho.  Como se ainda não bastasse, a praça é atravessada por uma rua com o topónimo de Rua Direita que, como sabemos, é das mais tortas do centro histórico.

 

Por último a Igreja Matriz, que na verdade é a Igreja de Santa Maria Maior mas que sempre conheci por Igreja Grande.

 

Aqui chegados, ainda há quem duvide das palavras de Napoleão!?

Fernando DC Ribeiro

 

 

“…de mais virtude!”

 

O Blogue “CHAVES” é visitado e lido por gente dos CINCO Cantos do Mundo!

 

Eu digo-vos qual é o Canto CINCO: é o Espaço onde navegam as naves espaciais. Os seus habitantes, os Astronautas, vão diariamente ao Blogue “CHAVES” porque, além de muito interessante, mostra-lhes retratos e textos que os fazem sair de uma rotina enfadonha.

 

Além disso, se não o fizessem, para bem da sua saúde mental, Zeus disse-me para lhes dar umas estadulhadas!

 

Mas ficai a saber que até os astronautas, especialmente os da “Enterprise”, estão a merecer uns carolinhos de Folar!

 

Vêm diariamente ao Blogue “Chaves”, olham-no, vêem-no, miram-no, lêem-no; voltam a ler, a mirar, a ver e a olhar.

 

Os corredores da nave estão decorados com Fotografias das NOSSAS ALDEIAS. E na sala de comando lá está, para deleite e inspiração, um enorme e brilhante quadro com a PONTE ROMANA de CHAVES!

 

Depois erguem as mãos para a Terra e pedem ao “PLUTO” para que não se deixe vencer pelo cansaço nem pelas cretinices de quem o inveja.

 

E estes 2.000.000 de visitas, que ora o Blogue do Sr. FERNANDO RIBEIRO

 

(mas que lho roubamos e chamamos O NOSSO BLOGUE “CHAVES”) conta, bem merecem uma celebração especial …e espacial!

 

Assim, convido-vos a brindar à saúde de FERNANDO RIBEIRO e ao contínuo sucesso deste BLOGUE “CHAVES”, erguendo e bebendo noventa e nove vezes a taça testinha do bom «tinto» de Agrela ou de Águas Frias, ou do bom «branco» de Vidago ou de Anelhe, e rematar a saudação com um  …copo de água das Caldas …… “de mais virtude”!

Luís Fernandes

 

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Sábado, 21 de Dezembro de 2013

Do livro " Chaves, Olhares Sobre a Cidade"

 

Palavras do rio invisível

 

Por entre as margens recebemos da fonte e damos esta água que nos criou

E por nos criar assim nos separou…

 

Aqui, outrora, pé ante pé, encurtaram-se os lados,

Saltitando entre as pedras duras adormecidas sobre as águas

Além, depois, uniram-se as margens e o rio desapareceu…

 

Por entre as margens recebemos da fonte e damos esta água que nos criou

E por nos criar assim nos separou…

 

Agora, aqui, sentado, vejo o rio e o tempo passar

Vejo da fonte as memórias e o sonho da foz

Onde a água nasce e depois se perde na imensidão

E pelo meio nos criou e por nos criar assim nos separou

 

Depois, trouxe comigo esta memória e o sonho

E também um pedaço do rio neste pedaço de papel

Tornando sempre visível a quem um dia

Um dia do rio se separou…

 

Paulo Chaves

 

 

 

Ulmus procera, in memoriam

 

 

Já foi mais acolhedora de gentes, esta praça – também as outras, direis vós, pois sim, vos asseguro eu, que as recordo a todas sombreadas de frescura e alegradas de passaredo, mas é nesta que fixo agora a teia dos pensamentos… – nem todos podeis lembrar-vos, pela idade, já se vê, de quando o velho negrilho punha una altiva nota de nobreza e eternidade em frente do Hospital, onde sarandeavam atarefadas batas brancas, que tanto botavam ao mundo a muita canalha que as mulheres então pariam como fechavam os olhos aos que a vida resolvera substituir neste vale de lágrimas e trabalhos. Tinha até uma cercadura em ferro forjado, aquela velha árvore, como é costume fazer de roda dos monumentos, para que se soubesse que a sua sombra, grande como só a das árvores grandes, costumava resgatar dos séculos as lembranças, que depois sussurrava aos ouvidos atentos dos muitos passantes que nela se acolhiam. Porém, o tempo, que é coisa que não existe, mas que nós persistimos em medir e adorar como deus inexorável e impiedoso, resolveu pôr fim à vida longa daquele ulmeiro que já não sabia a idade. E vieram os machados e as picaretas, ao abrigo de um despacho autárquico, fórmula menos digna de sentenciar à morte quem apenas cometia o crime de estorvar o devaneio urbanístico de um decisor mais afeiçoado à aridez estéril das pedras picadas. Sabemos todos que, quem é grande em vida, também costuma mostrar grandeza na morte, mesmo a que é feita de cruel impiedade – assim que as suas raízes começaram a ser desentranhadas da terra que lhe dera vida toda a vida, jorraram delas moedas às centenas, cunhadas com as efígies desgastadas dos romanos cruéis que as tinham feito extrair das escuras minas de Jales ou das Freitas, ensopadas em suor lamentoso de escravos, para que depois fossem acumuladas avaramente durante milénios e acabassem a despertar a cobiça basbaque de um grupo excursionista que por ali passava, talvez em busca de memórias de um tal Luís que escrevera versos para uma aventura e que agora dava nome àquela praça, sem que ninguém arriscasse garantir que também ele poderia ter brincado aos soldados, à sombra daquele negrilho, ou, quem sabe, para confirmarem bisbilhotices velhas sobre a verdadeira paternidade dos sete filhos da Maria Mantela, que aquelas paredes mostram de redor dela, ou apenas seguindo um roteiro singelo e óbvio, de cicerone local, entre os restos de um castelo e as fontes fervilhantes das caldas, onde se curavam reumáticos e se depenavam galinhas…

 

 

Pouco tempo depois, outra vez o tempo que tudo resolve, veio a Ophiostoma novo-ulmi, grafiose dos olmos,e acabou por matá-los a todos, oferecendo uma oportunidade desculpante ao malfadado despacho autárquico – ‘se não tivesse sido cortado e arrancado, teria morrido da doença…’ É assim a pequena história dos povos, sempre a justificar os erros e a reconstruir os factos.

 

Herculano Pombo

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 15:00
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