Quarta-feira, 8 de Maio de 2013

Edgar Carneiro - Uma Lembrança com 100 anos

 

“Lembrança”

 

 

Faz hoje CEM anos que nasceu em CHAVES, na Rua Direita, nº 104, o poeta EDGAR CARNEIRO.

 

Nas ESCOLAS onde ensinou e nas Cidades onde viveu deixou saudades entre Alunos, Colegas e Amigos.

 

FAIÕES foi o seu berço.

 

A Região Flaviense, a NORMANDIA TAMEGANA, levava-a no coração, fosse para onde fosse, estivesse onde estivesse.

 

EDGAR CARNEIRO foi um Flaviense que ilustrou a NOSSA TERRA.

 

Em Espinho, onde leccionou e viveu muitos anos, a Autarquia reconheceu-lhe os seus méritos de poeta, de professor e de cidadão. Atribuiu-lhe as mais altas condecorações da Cidade.

 

Porque sou flaviense, nado e criado, e me orgulho de ter EDGAR CARNEIRO como conterrâneo e Amigo, lembro hoje a data do seu nascimento.

 

Deixai que vos “deixe”:

 

 

IDENTIDADE

 

 

Sou de longe além dos montes

 

Onde meu amor gerou

 

Alguém que há-de sonhar

 

O mesmo sonho que eu tive

 

Pois que lá também amou

 

E bebeu das mesmas fontes.

 

 

Sou de longe e não esqueço

 

O «Reino» maravilhoso»

 

Onde a urze tem conluio

 

Com a vinha que dá sangue

 

E o centeio que dá pão.

 

 

Sou de longe mas fiquei

 

Onde o mar é meu irmão.

 

 

- em “Mar Amar”-1992

 

 

 

Luís Fernandes



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Sexta-feira, 20 de Julho de 2012

Discursos Sobre a Cidade - Por Luís Fernandes

 

 

“Um Povo que ignora a sua História,

 e os elementos de toda a ordem que o constituem,

 não pode ter ideal.

 E um Povo sem ideal é como se estivesse morto”

 

– José Leite de Vasconcelos.

 

 

“… DEVIAM IR”

 

 

CHAVES, Os FALVIENSES, parece ser, parecem ser, uma fortaleza, uma comunidade, rendida.

 

A Nação foi atirada para compromissos e conflitos, manifestamente mal preparada, desorganizada e, mais grave ainda, dirigida pelo piorio dentre os que tem gerado. Em súmula, dizemos que a Nação Portuguesa tem sido Governada, autárquica e centralmente, por traidores, a merecerem ser julgados em tribunal marcial.

 

A resignação a que está entregue o Povo Português leva outros Povos a pensar e a dizer que Portugal, no século XXI, é um País de castrados!

 

De capados! – diriam os nossos avós.

 

E um Município, tão antigo e com tanta História desde a sua fundação - quase Dois mil anos! - mostra-se tão débil, tão impotente, tão resignado,  tão perdido e derrotado que até, para seguir a moda do Dia do Município, elegeu uma data triste, de luto, sem acontecimento de grande, ou se quer pequeno, acontecimento de glória - a não ser para meia dúzia de pindéricos inúteis e covardes que só aparecem a gritar vitória depois de haver um vencedor.

 

 Andam por aí uns pedantes que se dizem doutores em História. Sê-lo-ão, com certeza. Alguns, sacramentados; outros, «arrelvados».

 

O aplauso que deram para eleição do “8 de Julho” demonstra a pequenez do respeito que têm por uma disciplina fundamental para a compreensão da Sociedade em que estamos inseridos.

 

Eles sabem, mas não querem saber, que quilo que configura uma COMUNIDADE é uma Memória.

 

Eles sabem, mas não querem saber, que a Liberdade e a Igualdade só se realizam na Solidariedade   -   e esta somente na memória colectiva.

 

Colaram-se ao palavrão «republicano», por ter saído vencedor e terem-no confundido com o de «democracia», porque foi o ideal mais propagado com o 25 de Abril.

 

De erro em asneira, de equívoco em trafulhice, CHAVES, os Flavienses, caiu numa situação degradante, vergonhosa.

 

O seu património histórico, vasto, riquíssimo (sem favor algum) está condenado a um insolente e provocador desprezo por parte do Governo Central e com a covarde colaboração da Administração Municipal.

 

A situação «geo-estratégica», tão do agrado e do constante encher de bochechas dos actuais Presidentes de Câmara (o milagre de serem Um só, eles sabem como o benzem!), tem sido, nos últimos anos, um a vantagem apenas para o cimento armado e seus armadores.

 

Os Povos deste Município têm vindo a ser colocados em posição de desvantagem cada vez mais perigosa, próximos do limiar de extinção.

 

Até no tempo do contrabando, da geira de «um quarto de dia» ou de «mei-dia», a cidade e as Aldeias tinham mais vida, mais esperança!

 

Paulatinamente, e desgraçadamente com o silêncio e a conivência de «pavões, «lalões»,  e «lalõezinhos», o Concelho foi roubado de Serviços Públicos  com séria importância para a dinâmica do seu crescimento económico, político e social.

 

Os ajustamentos administrativos foram subordinados a interesses duvidosos ou decididos leviana e incompetentemente - fecho de Escolas; abandono de Casas Florestais; “Plataforma Logística” em nome sabe-se lá do quê!;  «mamarrachos» ao deus-dará (com dádivas do diabo! – acreditamos); desdém pelos Recursos Agrícolas e Florestais;  “vesguice” e inacção perante as potencialidades turísticas, e a caprichos de um delirante e ridículo fundamentalismo partido-cretinocrático.

 

Nos dias em que a cidade podia e devia mostrar a sua qualidade cosmopolita, sábados e domingos, tornaram-na numa cidade – fantasma.

 

CHAVES perdeu identidade - que já nem a fama do Folar, dos Pastéis, da Couve e do Presunto lhe valem! A das Caldas…. Foi-se!

 

Também os desleixados e os delapidadores dos bens e belezas e de patrimónios FLAVIENSES DEVIAM  IR  a Tribunal Penal Internacional e ficar de exposição no MONTE DA FORCA!

 

Temos a esperança que esta dinastia de «pavões» e «lalões» seja a dos últimos contemptíveis capadócios da NOSSA TERRA.

 

Luís Fernandes

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Sexta-feira, 1 de Junho de 2012

Discursos Sobre a Cidade - Por Luís Fernandes

 

 

 

“E L E,  E L A”

 

 

 

As lágrimas corriam-lhe pela cara abaixo.

 

O peito encolhia-se-lhe. E o coração ficava-se-lhe mais pequenino do que o de um passarinho assustado e cheio de medo.

 

Sentiu fraqueza nas pernas. Encostou-se ao muro, perto da esquina onde começa a ladeira do Monte da Forca.

 

O comboio já passava S. Fra(g)ústo, mas o seu apito estridente chegava-se-lhe aos ouvidos como eco do último grito daquele adeus desesperado e angustioso com que julgara ainda agarrar-se ao varandim da última carruagem, no instante  em que esta se escondia na curva do monte.

 

Por ali, havia, às vezes, umas zaragatas, falava-se de umas navalhadas ou de sacholadas.

 

Agora toda a gente anda arrepiada com que se conta de Angola, ‘inda mais depois de se ter visto, e contado, aqueles retratos com homens, mulheres e crianças, brancos e pretos, cortados aos bocados a golpes de catana; com cabeças e testículos pendurados em paus espetados no chão; mulheres com os seios decepados e barrigas abertas; casas e máquinas incendiadas.

 

Na Rádio ouvia-se a toda a hora o «Angola é nossa!».

 

Quem diria!

 

Era mais fácil ir para o Brasil, América e Canadá do que para África!

 

Faz de conta que só se podia ir de Chaves para Lisboa com «carta de chamada».

 

Mas agora que havia rebentado a Guerra em Angola toca a ir para lá «já e em força».

 

E sem querer saber de mais nada «o Salazar» arrebanha todos os mancebos, põe-nos a aprender a fazer continência, a bater o tacão, a fazer “ombro, arma!” com um espingarda e um capacete de aço sobrados da Grande Guerra, a emparelhar milimetricamente as fitas de aperto da mochila, a fazer peito pra fora e barriga pra dentro.

 

Lembrando os vagões “Jota”, o “Pátria” e o “Vera Cruz” carregam aqueles molhos de almas, encomendadas ao anjo da guarda e à Srª de Fátima, comandadas por tenentes e capitães do diabo, e entregues ao domicílio dos «turras».

 

ELA sabia dos perigos que ELE corria. E desconfiava dos que não sabia. E até dos que mal imaginava!

 

Depois das “sortes”, mandaram-no para Tavira, lá, na outra ponta do país.

 

Só voltou a vê-lo e a abraçá-lo na véspera de Natal.

 

Nem no Ano Novo se voltaram a ver. Tinham atirado com ELE para Mafra.

 

Quão longe já andavam um do outro!

 

Foi a Semana Santa que abençoou a matança de saudades.

 

Mas a guia de marcha para Tomar sentenciou continuarem sacrificados.

 

Aliviavam-se com as cartas que dia sim e dia não, e, às vezes, (tantas!), dia sim e dia sim, o carteiro lhe entregava a ELA, «de mão própria»; e a ELE lhe deixava na morada onde tinha o quarto para a muda de roupa “à civil”, quando saía do Quartel.

 

Passado quase meio ano teve três dias de licença.

 

O «excursionista candongueiro» estava sempre avisado a tempo, talvez por um sargento lateiro da Manutenção ou da Secretaria, de ir oferecer as viagens bem programadas de ida e volta, com paragens convenientes que aliciassem os militares interessados em «ir a casa».

 

A viagem de comboio  -   Tomar-Lamarosa; Lamarosa-S.Bento; S. Bento- Régua; Régua-Chaves   -  p’ró que dava?!

 

A camineta saiu da frente do Quartel na sexta-feira à hora do almoço, depois de todos terem entregue o pedido de dispensa do mesmo. Atravessou as Beiras, deixando aqui e ali os militares interessados. Chegou ao Campo da Fonte na madrugada de sábado, por volta das seis da manhã, com pouco mais de uma dúzia dos que sobraram.

 

Como tinham de estar na Formatura do toque de alvorada na 2ªfª, a hora de regresso era no domingo às três da tarde, sem falta, frente ao chafariz da Madalena.

 

Deu tempo para apanhar umas sobras dos “Santos” e festejar o S. Martinho.

 

Faltou tempo para afogar tantas saudades que ELE e ELA sentiam um do outro.

 

Mas ainda foram a tempo de matar algumas, tantinhas, e fazer nascer muitas mais.

 

Segunda-feira, ao toque de alvorada ELE já estava aprumado na Formatura.

 

Uns exercícios aldrabados de tiro, na Carreira de Tiro; uns disparatados exercícios operacionais na “Serra”, umas corridas até aos arrabaldes de Stª Cita aproximaram o cheirinho a Natal .

 

Mas chegou a ordem de embarque.

 

A licença de mobilização deu-lhe a ELE uns dias mais demorados para «ir à terra».

 

ELE e ELA sentiam ter nascido um par o outro.

 

No final da «comissão»   -  assim se chamava à missão nunca bem nem mal explicada à soldadesca que era embarcada para África   -   ELE arranjaria trabalho numa empresa «segura», talvez como “aspirante de finanças”, quem sabe; e ELA cuidaria da casa com o gosto e a graça que tão bem sabia, repetia-lhe ELE, a rematar mais uma meda de beijinhos e beijocas e xi-corações apertados e apertadinhos.

 

Ficavam como dois tolinhos a rirem-se de contentes com os sonhos que teciam.

 

Dizem que as ilusões são o pão-nosso de cada dia dos infelizes.

 

Ainda faltavam cinco dias para o fim da licença quando o carteiro, fora de horas, bate à porta dele. Trazia um telegrama.

 

Este pedacinho de pão-papel soube a azedo.

 

A data de embarque fora antecipada e tinha que apanhar o comboio na manhã do dia seguinte.

 

Correu para a Aldeia dela.

 

Esperou-a junto à Fonte onde era costume ELA ir colher a água para a ceia.

 

Os dias já eram pequenos. O Dezembro já tinha entrado.

 

Mal o viu, ELA teve um baque no coração.

 

O cântaro caiu. A rodilha ficou pelo chão.

 

Não quis saber de mais nada. E correu como louca para ELE.

 

Abraçaram-se com desespero.

 

Faltou-lhes a fala.

 

Choravam.

 

Os que levavam o gado a beber e as que levavam os cântaros a água colher pararam estupefactos. Nem sabiam dizer porquê.

 

Que adivinhavam?  - perguntavam para dentro de si próprios  os que levavam o gado a beber e as que levavam os cântaros a água colher.

 

Na Fonte Nova juntou-se gente para apanhar o comboio e para desta se despedir, cumprindo um hábito tradicional de acompanhar os vizinhos e amigos à estação ou ao apeadeiro, mesmo que fossem só até Vila Real.

 

Naquele dia, até o maquinista pareceu adivinhar a onda de tristeza e de angústia que afogava o coração de tanta gente.

 

Saberia ele, o maquinista, que levava naquele dia militares para Angola e que iria apanhar mais uns poucos até à Régua?! É que desde o sinal da partida, lá da Estação, que pôs o comboio a apitar de certa maneira!...

 

Na Fonte Nova, a D. Lucindinha até demorou um bocadinho mais a conversa com o Revisor.

 

Parecia querer retardar as despedidas. Em especial a daquele rapaz e daquela rapariga que, chorando como duas crianças, lhe faziam tolher o coração.

 

Mas tinha de levantar a bandeirola para que o comboio cumprisse os horários «a tempo e horas».

 

ELA sentia-se sem forças para chegar a casa a tempo de ajudar a fazer o almoço.

 

A Lurdes Pequena ia a passar. Viu-a naquele estado e voltou atrás para ir à talha, ali pertinho, buscar-lhe um copo d’água.

 

Conseguiu chegar a casa. Não ajudou no almoço. Nem uma rodela de batata, nem uma colher de caldo meteu à boca.

 

Foi para o quarto.

 

Tirou da mesinha de cabeceira as cartas que lhe haviam chegado de Tavira, de Mafra e de Tomar.

 

Apertou-as no peito. Bem juntinho ao coração.

 

Chorava.

 

Recordava.

 

E sonhava.

 

Como o Indicativo Postal Militar era fornecido antes do Embarque, ELA já o sabia.

 

Na Junta já tinha comprado alguns Aerogramas, a dois tostões cada um.

 

Estava-se nos meados de Dezembro. O embarque marcado para a madrugada do dia 17, no Cais de Alcântara, no  “Vera Cruz”.

 

Pela demora do costume, lá iria ELE passar a Noite de Consoada no alto mar.

 

E assim aconteceu.

 

Pegou na caneta de tinta permanente e começou a escrever o primeiro aerograma.

 

Quis mostrar-se corajosa, convencida que assim lhe dava a ELE mais coragem para aguentar a dor da ausência e as cruzes da Guerra.

 

Assim, começou por lembrar-lhe que não era sua «MADRINHA DE GUERRA», embora ELE tanto tivesse insistido para que o aceitasse ser.

 

Nem dele nem de mais nenhum militar! Que ficasse bem ciente disso!

 

Quando no dia 27, acampado no GRAFANIL, ouviu falar na «distribuição de Correio» nem soube quanto pulos lhe deu o coração.

 

Então, quando chamaram pelo seu nome!......

 

Ai! Se aquele amigo chegado não o empurrasse ainda hoje estava atordoado!

 

Hoje?!.......................

 

Na secretaria já havia entregue uma chusma de aerogramas que escrevera no barco.

 

Como pelo sim e pelo não se tinha prevenido com envelopes e papel de avião, hoje mesmo tinha posto no Correio uma inspirada e saudosa carta feita ontem à noite. Tinha a esperança de que ELA ficasse mais feliz por receber aerogramas e cartas.

 

Cumpridas as formalidades militares, ELE e a Companhia lá foram para «o mato».

 

Dia de Reis, já noite dentro, chegou a coluna com o reabastecimento e ….o Correio.

 

Na Parada amontoou-se a ansiedade com a sofreguidão. Até as sentinelas ficaram com os olhos trocados   -    um para fora,  outro para dentro do Quartel.

 

Recebeu um aerograma e correu para debaixo de um candeeiro para o ler.

 

Nem teve tempo de o abrir !

 

Voltou a ouvir berrar pelo seu nome. Atirou-se como um desalmado por entre a chusma dos que esperavam que lhes calhasse a chamada.

 

Desta vez era uma carta em «papel de avião».

 

Já não procurou o candeeiro. Escondeu-se no quarto que lhe calhou com o Nunes Palma.

 

Leu o aerograma porque chegou primeiro.

 

Ai! Que bem que lhe soube!

 

Os mil beijinhos e xi-corações estava mesmo a senti-los.

 

Mas quando leu «..e todos aqueles miminhos que te fazem deixar derretidinho»!.....

 

-Mas por que raio inventaram a Guerra?!

 

Com tantos santos e santas que há no mundo!

 

A Guerra é uma coisa que nem ao diabo lembra!  - até falou alto para o tecto.

 

Abriu a carta.

 

Com que cuidado!

 

Afagou-a.

 

Cobriu-a de beijos. De um lado e doutro.

 

Olhou uma e outra vez para a letra da direcção.

 

Era uma carta mesmo para ele.

 

Tirou a folha com muita delicadeza.

 

Desdobrou-a.

 

Mirou-a d’alto a baixo. 

 

Deu conta que estava escrita dos dois lados.

 

ELA era um amor.

 

ELE estava mesmo apaixonado.

 

Que consolo lhe espalhava pelo peito cada palavra que lia.

 

Às vezes até voltava atrás na leitura.

 

ELA era um amor.

 

Mas agora ali dizia que………

 

Ajeitou-se na cama. Alinhou melhor a folha com os olhos.


 

………«ando de esperanças».


 

Turvou-se-lhe a vista. O coração queria saltar-lhe do peito. Os braços caíram estendidos na cama.

 

Mal segurava a carta.

 

Ficou sem fala e sem pensamento.

 

Deu um salto.

 

Sentou-se na beira do colchão.

 

Sentiu-se feliz e cheio de medo. Tudo ao mesmo tempo.

 

O Palma entrou naquele instante. Trazia um monte de aerogramas nas mãos e ondas de alegria no rosto.

 

Era casado. E pouco tempo lhe faltava para ser pai.


 

- Hei! Que te deu?!- atirou-lhe


 

Partilhou com o Palma a «nobidade».


 

- Anima-te, rapaz! Eu só te ganho por pouco!


 

Isto fê-lo sorrir e levantar o ânimo.

 

O tempo de comissão lá ia passando.

 

Missões «no mato», em «colunas de reabastecimento», em «apoio à Companhia vizinha», protecção a civis.   

 

A Comissão lá se ia consumindo.

 

Pelo Carnaval, o Palma já era pai.

 

Convidou-o a escolher o nome para a filhinha.

 

ELE recomendou o de MARGARIDA.

 

O Nunes Palma concordou.

 

Um mês e tal depois, o pai da Margarida leu-lhe o aerograma que contava o Baptizado da menina. Lá estava escarrapachado o nome MARGARIDA.

 

Decidiu que quando o filho dele nascesse iria recomendar-lhe a ELA para lhe pôr o nome de NUNO, se fosse rapaz, ou de MARGARIDA, se fosse menina. Este companheiro de quarto, embora fosse da Manutenção, era um bom companheiro de armas.

 

Na semana de Pascoela calhou-lhe a «Coluna de Reabastecimento e Correio».

 

Às vezes, na picada apareciam umas cruzes feitas no pó, outras feitas com galhos de árvores; apareciam uns garrafões com flores, uns troncos caídos, mas nunca tinha havido sarilhos de maior.

 

O regresso foi feito como o planeado.

 

Nas «GMC’s», em movimento, topou alguns a passarem a «Plateia» de mão em mão.

 

Não gostou da brincadeira.

 

Mandou dois berros.

 

Não teve tempo para mais.

 

O tiroteio foi surpreendente e infernal.

 

Uma rajada ceifou-o como a palha seca de centeio maduro.

 

Aquele dia em que o amigo chegado o empurrou no Grafanil para ir deitar mão ao primeiro aeorograma!...


 

Hoje!.............

 

 

ELA ainda veste de luto!

                                                                                                                      Luís Fernandes

publicado por Fer.Ribeiro às 23:36
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Quarta-feira, 23 de Maio de 2012

Crónicas Ocasionais - Carta Aberta

 

CONVERSAS COM ZEUS

 

-XVII-

 

Carta Aberta

 

 

 

Caro Zeus

 

 

 

Arreliado como andamos com as prepotências dos nossos Governantes e a particular desfaçatez dos mais responsáveis, até a disposição para conversarmos com o papel (ou o Word) se tornou arredia.


Nada como um amigo de peito com quem se possa desabafar e partilhar tristezas e alegrias.


E tu, Zeus, tens a obrigação de estar devidamente informado do que se passa por estas bandas, onde bandos de bandidos nos têm saído uns «bons pássaros», piores do que a encomenda!


Em «Crónicas» e «Discursos» temos mandado umas chumbadas nesses «melros», «milhafres» e «pavões».


Estamos mais que farto do politicamente correcto.


“O politicamente correcto faz-nos perder o sentido de humor, quer-nos desistentes da coragem de sermos diferentes e de pensarmos diferentemente”.


Mascara de boa educação a tirania totalitária do controle do pensamento.


Refilar, criticar fora do politicamente correcto, por mais verdadeiro, real e autêntico que seja o dito (ou o escrito), lá vêm com o chavão do insulto.


Ou seja, os insultados, injuriados, atraiçoados, ofendidos não podem mandar à merda, segundo eles, os cretinos e prepotentes.


Os bandalhos políticos nacionais, estejam eles onde estiverem, têm de saber que há gente ofendida, indignada e revoltada com os seus abusos e desdéns.


E os leitores da Blogosfera que assim se sentem vejam que há mais gente como eles, e deixem de acanhar-se em mostrar publicamente o seu desagrado.


O pindérico do Primeiro Ministro tem passado o mandato a injuriar os Portugueses.


“Oficialmente”, ganha uns míseros 5.300€ mensais. Diz-se mal pago e não se queixar!


O PR aufere 9.900€ (fora os ameaços), e diz não lhe chegar para as despesas. Mas quando arranjou o primeiro emprego e tinha filhos para criar até conseguiu poupar «à grande e à francesa»!


Os Portugueses com vencimentos inferiores a mil (1.000) €uros, os Desempregados, os Reformados e Pensionistas com vales inferiores ao Rendimento Mínimo, esses são uns capitalistas do camanho!


E. por isso, o “Fanfarrão de Massamá” com um risinho cínico, veio agora chamar-nos «piegas».


Passos Coelho é um refinado hipócrita!


Fala assim, de cima da burra. Mas era manso quando apeado!


Muitos dos Portugueses, a maioria, que hoje lamentam ou se queixam da situação a que o País foi condenado, honraram mais a sua Pátria do que todos os Passos Coelho que por aí abundam.


Não são piegas!


Cumpriram, e continuam a cumprir, obrigações de cidadão com honra, com dignidade, com patriotismo.


Estes são conceitos e valores que Passos Coelho não conhece. São mandamentos não ensinados nos aviários «Jotas»!


Ao «Fanfarrão de Massamá» não lhe bastava já considerar os Portugueses como COISAS   -   passou a considera-los como CUSTOS!


Só ele, o «Pedrito de Massamá» e a sua trupe é que são o Activo da Nação!


Trocou a confiança que deveria ter e receber dos Portugueses pela confiança, duvidosa, que os «Mercados» lhe concederam, sabendo bem que estes visam desbaratar o «capital humano», preferindo apoderar-se do «capital financeiro».


Passos Coelho e o seu bando estão a fazer de Portugal um escritório, não a sua Pátria.


O poder financeiro não pode ser deixado à rédea solta e acabar por constituir uma ditadura.


Já nem é a Economia que prevalece, é a Finança.


Se o predomínio daquela poderia ser nefasto, o desta é uma calamidade.


Os estafermos dos estafetas e almocreves da «Troika» acabam de dizer que toda e qualquer manifestação de descontentamento com as suas sacanices são um frete partidário.


Quer dizer, toda a gente deixou de ser gente com vontade própria para ser uma peça do Partido a, b ou c. E se for do deles, bico calado. Se se for de um Partido da Oposição, sofre-se de partidarite, e é-se mandado abaixo de Braga.


Se não se pertencer aos Partidos do hemiciclo beneditino, então é que não se passa mesmo de um número de contribuinte!


A baronesa Merkel von Stein, não tendo coragem de dar uma facada no galo Sarkozy, conseguiu arregimentar o gangue do “Pedrito de Massamá” e gritou-lhe:


 - “Matende-os”! “O Juízo Final não vos perguntará os motivos”!


Pois a toda essa cambada só temos a dizer que nos fartámos do politicamente correcto, e que tal como sempre nos recusámos a pensar com a cabeça dos dedos assim continuaremos.


O destino da Nação não pode ser somente traçado e guiado por arregimentados, e «arre-jumentados», nos Partidos Políticos, sejam eles «pavões, lalões, lalõezinhos» ou figurões de outra laia.


Há que acabar com o engano (e engodo) de se votar no símbolo partidário, sem ser dado a conhecer, pública e exaustivamente, o perfil de todos os candidatos apresentados nas listas.


São mais que muitas as situações em que o «cabeça de lista» não passa de um «ingénuo útil» a fazer o papel de «cavalo de Tróia», para a tomada de assento, ou açambarcamento do «tacho», de medíocres e incompetentes, trastes, vigaristas e escroques.


Custe o que custar, o acerto de contas com os nossos credores passa pelo julgamento dos grandes vigaristas, que sob o pretexto da função política se governaram até ao quinto c…. ou à quinta geração e deram cabo do NOSSO PAÍS.


Quando em Portugal houver Justiça o Escudo será respeitado!


Caro Zeus, bem sabemos que andas muito ocupado e preocupado com imensas chinesices e americanices. Mas arranja lá uma «janela de oportunidade» (bem, pode ser, até, um janeluco … ou uma frincha!) para mandares um «bafo», “seco” ou molhado, de clarividência às trombas (e aos miolos) dos tratantes que administram esta Nação que já foi «valente e imortal».


Porta-te bem, e pode ser que recebas um carolinho de Folar!

Luís Fernandes

 


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Sexta-feira, 27 de Abril de 2012

Discursos Sobre a Cidade - Por Luís Fernandes

 

 

“C (h) A pel A D A”

 

 

Há cerca de Dois Mil Anos, lá pelas margens do Jordão, instalou-se um galileu virtuoso, que partilhava as suas bondades mergulhando com as suas próprias mãos os inocentes pecadores das vizinhanças.

 

Ele chamava-se João. Apelidaram-no de Baptista.

 

Logo apareceram bandos de cretinos, pantomineiros e impostores a disfarçarem-se de gente de bem, adoptando o nome desse galileu.

 

E logo na História apareceu um pelotão de «JOÕES BAPTISTAS».

 

Até em África conhecemos um, que comparado com Judas faz deste um super-santo; ou comparado com Efialtes faz deste um super-herói.

 

D. Afonso de Chaves, I Duque de Bragança, admirava o Baptista I. Para o consagrar, fundou e instalou no Forte de S. Francisco uma importante Confraria, a que deu o nome de CONGREGAÇÃO DA NOBRE CAVALARIA DE S. JOÃO BAPTISTA.

 

E, por disposição estatutária, elaborada pelo próprio genro de D. Nuno, o dia 24 de Junho era-lhe inteiramente dedicado.

 

Nesse dia, logo de manhãzinha, o Capitão de Cavaleiros e “pessoas de qualidade” acompanhavam, em duas alas, a Bandeira, até ao Mosteiro; ouviam Missa rezada no Altar de Santo Baptista I; e, até à noitinha, o tempo era passado em Torneios, Justas, Corridas, Jogo de “CANNAS, e outros, com paragens tácticas nas Tabernas Típicas.

 

Estes hábitos caíram em desuso, mas, em 1625, foram recuperados e os seus estatutos renovados, e a Borga continuou até 1647.

 

Passado pouco tempo, houve uma nova lembrança do Baptista e, para esconjurar os lugarejos de aviltamento, o II Pedro (reizito) manda construir em Ouidah, África, uma Fortaleza que, por sorte do diabo, foi incendiada em 1960.

 

O pelotão histórico é que nunca mais acaba. Nem com incêndios, nem com esconjuros.

 

 A outrora Villa, e hoje cidade, é que está condenada a periódicos caprichos joaninos.

 

Durante séculos, desde o tal Afonso Duque até ao João IV, por aí, pela vilória, se fizeram jogadas e jogos, incluindo o da “FORQUILHA”.

 

Cumprindo ciclos de vida histórica, lá chegou a Stª Maria Maior, vindo das margens do RAVEGÃO (um rigueiro do JOrdÃO) o último recruta desse Pelotão da História.

 

Na Galileia, o verdadeiro João, o Primeiro (I), atravessava o Jordão a chinclapé.

 

Na Villa da Ponte, o último Baptista atravessava o Ravegão a vau.

 

Aqui, aí, na Flávia Augusta, para não atravessar o Tâmega em vão  - não, que na Esquerda, viradinho para a Madalena,  está lá outro João, mas de Deus!  -  mete-se com as Pontes … pedonais e «disparatais».

 

Vai daí, crisma os fiéis, (seja, os “Flaviéis”, quer dizer, os Flavienses), com mamarrachos, vergonhosos arranjos, apedrejamento das Freiras, abandono e abandalhamento dos Monumentos Históricos, Religiosos, Arquitectónicos, e amputação de Instituições e Serviços.

 

E até rapina e aprisiona as festividades Monfortinas, dando-lhe, com todo o descaramento, uma coreografia e acompanhamento musical “sino-vendanóvicos”.

 

Vá lá, vá lá, que uma lagrimazinha de Marquinhas Madalena pingou na aba do casaco do último Baptista aí chegado e que quando ele ia de visita ao Mamede (dizem que santo) de Bustelo do Rabagão, ali logo ao fazer a curva do Matadouro, a lagrimazinha saltou-lhe para a vista e deu com os olhos naquele pedacinho do céu que aponta para a sua “parvalheira”.

 

Voltou atrás e decretou (prometeu) uns amanhozitos na CAPELA DA GRANGINHA … que continuam por fazer  (já lá vão uns bons anitos)!

 

O “Rapaz” bem sorri à salvação!

 

Trampolineiro continua ele!


 

Luís Fernandes

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Sexta-feira, 23 de Março de 2012

Crónicas Ocasionais - O Fanfarrão de Massamá

 

 

 

“O  fanfarrão  de  Massamá”

 

 

Vamos de mal a pior!

 

Portugal está entregue a doidivanas!

 

É em Juntas de Freguesia, o mal menor; é nos Municípios, uma grande merda; é na Assembleia da República, um desastre; e, mais diabolicamente, no Governo, um covil de bestas.

 

Assim, um País, em vez de andar para a frente, anda para trás!

 

‘Inda por cima, apadrinhados por sacripantas,  baconinos, abéculas ou atletas barnabés instalados no altar de S. Bento. E se estes, ao menos, estivessem no de “Porta Aberta” ou no de “Sexta-Feira”(saberão onde ficam?)!

 

Com a treta de o Estado Novo parecer mal   -  e parecia!   -  saltaram para o poleiro de Belém e de S. Bento, os magos mais impostores do que os bruxos que se ajuntam em Vilar de Perdizes.

 

As eleições pseudo-democráticas têm servido apenas para legitimar as manigâncias de «cabeças-de-lista» e as trampolinices de «gaijos e gaijas» incluídos nas listas eleitorais, de quem quase ninguém sabe onde penduram o pote.

 

Assim, não admira que apareçam tantos tachos!

 

De mal a pior, Portugal caiu nas manápulas de meia dúzia de espirra-canivetes, impostores, pérfidos, covardolas, que diariamente e a torto e a direito se mostram a «cagar postas de pescada» nas televisões, mas que se «cagam todo» quando têm de ir ao beija-cu da Merkozy.

 

O reizinho anafado Carlos tratava o Povo Português como uma reles piolheira. Levou um tiro nos cornos.

 

Estes políticos pré-fabricados, crescidos à base de hormonas de tiques e manias de xico-‘sperteza nas capoeiras partidárias, e nelas treinados na arte do fingimento, da hipocrisia e da desfaçatez, quando se apanham empoleirados num galho de qualquer função público-política logo passam a andar com os cornos na Lua e julgam-se com o rei na barriga.

 

Tomam pose de faraós, falam “que nem um polícia da Régua”, e «chateiam» o Povo pra caralho!

 

Estão mesmo a pedir que qualquer “Judite” os trate como Holofernes, ai isso estão!

 

Vejam só, por exemplo, o último desplante de um estafermo estafeta cor de laranja podre, promovido a amanuense de um angélico galferro, vir, com a basófia de quem tem as costas quentes, roncar: “trá-lará-lari-lolá,   ….custe o que custar”!

 

Pentelho de merda (seria assim que ouviria nas B(v)entas, se passasse nas Casas-dos-Montes, nos meados do séc. xx), o que anda a precisar é mas é de uns bons cachaços!

 

O Sócrates era um Pinóquio. Mas este faz o Pinócrates parecer uma miniatura!

 

Cá pra nós, até pensamos que o Kim Jong-Un anda enBergonhado por não chegar aos calcanhares deste Primeiro cunicugalete.

 

Bufar, bufa ele!

 

Pagar, que paguem os Portugueses …que ele não é português, homessa!

 

Ora o «fanfarrão de Massamá”!....

 

 

Luís Fernandes

 

publicado por Fer.Ribeiro às 03:16
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Sexta-feira, 9 de Março de 2012

Discursos Sobre a Cidade - Por Luís Fernandes

 

CONVERSAS  com  ZEUS

 

=XVI=

 

“Pedrito  de  Massamá”

 

Zeus tem andado distraído com as «primárias» americanas, as secundárias francesas, a sucessão de Kim Li Jung, o contrabando de peles no Tibete e de barbatanas de tubarão nos mares da China.

 

Tinha-lhe prometido uma «marelinha» das Eiras. Mas como ainda não a arranjei, mandei-lhe uma garrafa de água do Poço de Boliqueime.

 

Mal uma das Náiades pegou na garrafa franziu a «brancelha» e quis ser ela a abri-la e a proβar a água.

 

Abrir, abriu-a. Proβá-la, «quéto»!

 

Zeus ficou espantado.

 

Que fedor era aquele?!

 

Espantado, irritado, desconfiado, pega no telefone cor-de-laranja e liga-nos.

 

 

- ‘stá,lá?

 

 

- Claro que estou, meu lapantim!

 

Nem me digas nada de mais nada!

 

Sei muito bem por que me estás a ligar. Se te tivesse mandado uma alheira de Valdanta, um salpicão de Segirei, uma linguiça de Águas Frias, um palóio de Travancas, uma sêmea de Lebução, um trigo de três cantos de Faiões, uma raba de Santo Estêvão, um cabaçote de Vila Meã, umas castanhas de France, umas nozes de Vidago, um quartilho de Arcossó e um pipito da «marelinha» das Eiras ou da Granginha olha que não era por isso que me ias telefonar.

 

 

--- Ouβe…

 

 

- Não há Ouβe, nem meio Ouβe!

 

Ouve tu, meu mal-agradecido.

 

Há que tempos não vens por aqui. Descuidaste-te, e, agora, Portugal está transformado num protectorado alemão, num «départment» francês e num sobado angolano!

 

Na nossa Veiga já só se plantam «couves sabóia» e «couve-bruxelas». Do mar só saem chernes e robalos para, e por, encomenda! Da sardinha, carapau e faneca nem espinhas!

 

 

--Já t’entendi, meu gabirum.

 

Tens tod’à razão!

 

Por aqui já me andava a cheirar mal. Não sabia bem porquê. Mas agora sei que é das cagalhetas de coelho e das de alguns cabrões e pavões que por aí andam a dar cabo desse «jardim à … plantado».

 

Mas que é que tu queres?!

 

Tu e todos os portugueses não passais de uns «piegas».

 

Ficastes uns medrosos merdosos, segundo declarou o “oficial de diligências” angélico.

 

A «Troika» arregalou-vos os olhos; nomeou meia dúzia de capatazes cheios de fanfarronice e vós encolhestes-vos todo.

 

Só vos resta «gramar e não bufar».

 

Deixastes de ter direito à velhice e ao trabalho.

 

A Justiça perdestes - la por um canudo.

 

“Pirai-vos”, antes que os capatazes troikistas vos expulsem.

 

Já vos cortaram a ponta da Língua com o acordo ortográfico. Estão a expulsar-vos de casa com o «lixo tóxico». Estais desacreditados nos bancos porque não conseguiste assento em cadeiras. Agora só tendes é de «dar o frosques», como decretou o vosso “Pedrito de Massamá”.

 

 

-Zeus, não gozes com os pobres, se não ‘inda empobrecemos mais do que nos querem pôr.

 

Arreliados já andamos nós com as prepotências dos nossos Governantes e a particular desfaçatez dos mais responsáveis.

 

“CUSTE o que CUSTAR”, o descendente do «Remexido» todos os dias arranja maneira de meter a mão no bolso dos Portugueses, de maneira a sustentar lautamente os do seu bando, e os aparentados. Não que ele soube bem aprender com os antecessores.

 

Ele e os que «são mais iguais do que os outros» continuam a dinastia dos salafrários que engramparam os “Vinte e Cinco de ABRIL”.

 

Fez de Portugal um País de Reformados.

 

Só que os dividiu em reformados e REFORMADOS. Isto é, os que trabalharam enquanto a saúde ou a idade lhes deixou; e os que fazem um biscate na RDP, na CGD, na EDP, na PT, no BP, no Parlamento, no Tribunal Constitucional, numa Comissão política, e, enquanto têm vida sendo saudáveis ou só convenientes.

 

Aos reformados aumenta-lhes o desconto sobre a Pensão, as taxas de serviços públicos, o preço dos transportes, dos medicamentos, e manda-os apertar o cinto; aos REFORMADOS, multiplica-lhes os rendimentos mensais, aumenta-lhes as mordomias, atribui-lhes louvores e condecorações, e enche-lhes a pança como quem ceva um reco.

 

 -No que te pões a falar! Reco! Atão quando mandas umas alheiras embrulhadas num molho de grelos?

 

E depois queres tu que eu faça qualquer coisa por vós!

 

Tal como dizia um(a) Pessoa, andastes a gramar «um Pinóquio de merda», um tal neto de Vilar de Maçada; passastes a gramar «um Pinóquio de caca», um tal neto de Vale de Nogueiras.

 

Nunca mais tomais emenda!

 

-Está bem, Zeus.

 

Em vez de greves, faremos manifestações de veneração e apreço ao

 

 

Pedrito de Massamá, Mohamed I de Portugal!

 

 

Mas lembra-te, se não nos acudires a tempo e horas, depressa ficaremos a

 

pão e água!

 

 

Zeus pousou devagarinho o telefone, e nós ainda lhe ouvimos murmurar:

 

 

-“Que grande seca vai lá por Portugal”!

 


publicado por Fer.Ribeiro às 01:45
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Quarta-feira, 29 de Fevereiro de 2012

Crónicas Ocasionais - Não neva, nem chove

 

“Não neva, nem chove”

 

 

 

O Inverno vai seco.

 

Não neva, nem chove.

 

A nortada, mais apressada, é que nos ia fazendo lembrar em que Estação do Ano estamos.

 

Já se encolheu no seu círculo polar.

 

Talvez empolgado pelos entusiasmos dos Carnavais, o Sol começou a madrugar com mais brilho e a encher os dias com mais calor.

 

Já não se vêem sobretudos ou casacos-compridos, e ninguém se lembra das gabardinas.

 

Rua abaixo, rua acima, mulheres aumentam o decote e homens arregaçam as mangas.

 

Os pequerruchos soltam-se da mão dos avós   -   os pais estão no emprego   -, ensaiando fugas para territórios independentes.

 

Os maiorzitos, de sacola às costas, no regresso do Colégio, saltam do autocarro, num frenesim a lembrar a passarada a fazer o primeiro voo  desde o ninho, lá no cimo do choupo, do negrilho ou da macieira.

 

Os automóveis fazem formatura nas Estações de Serviço, tal como os seus condutores guardam vez no Barbeiro, quer dizer, no “Cabeleireiro-manicure-esteticista”, para uns e outros ficarem com melhor visual”.

 

As «assistentes-técnicas-de-atendimento-personalizado-em-loja” apuram-se no puxar do brilho da porta e das montras do estabelecimento.

 

Os passageiros dos autocarros e dos comboios aumentam os decibéis das suas conversas.

 

Os sacristãos dobram a força e as pancadas no toque dos sinos.

 

Nas esplanadas, os copos dos «finos» começam a substituir as chávenas de café.

 

A garrafa do «verde branco» já reclama o «fauteuil» no frigorífico.

 

O alecrim viceja na borda dos quintais, a contar estar mais brilhante e viçoso no Domingo de Ramos.

 

O cuco e a bobela aliviam-se de penas para começar mais cedo a viagem até à NORMANDIA TAMEGANA.

 

À porta das lojas «chinocas», baldes cheios de multicoloridos guarda-sóis de praia atrapalham a entrada e estreitam os passeios.

 

Na compra de artigos, no valor total de cinquenta €uros, com desconto de «vinte- por-cento-em-cartão», os «continentes» oferecem um «pára-sol para o pára-brisas do seu carro».

 

O castiço “Ceroulas” entra no Café, com ar de espanto. E, sem o saber, confirma a secura deste Inverno, o encolhimento da nortada e o madrugar acalorado do Sol. Pede “Um quarto de águas - Vidago”, e acrescenta: - “Ena, pá! Até já troquei as cuecas de perna comprida pelas «trouces» mini-slip”!

 

Do Largo do “Neto de Nantes”, sai para as sacristias das capelas do cardeal da Venda Nova, empertigado, o vice-ministro de cerimónias, empunhando uma pértiga de cartão canelado, coberta com penas de pavão de Castelões e guarnecida com folha de latão, convencido que feita com aço de Toledo e encimada com prata dourada.

 

A presunção absorveu toda a água benta.


 

Estão pra chegar as “águas de Março”   - “promessa de vida”.

 

Luís Fernandes

publicado por Fer.Ribeiro às 02:10
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Sexta-feira, 20 de Janeiro de 2012

Discursos Sobre a Cidade - Por Luís Fernandes

 

 

“S I S F E I T O”



No tempo em que os Bancos tinham nome próprio     -    Borges & Irmão, Fonsecas & Burnay, Pinto de Magalhães, etc.,    (agora   tratam-se por siglas: são BCP, BPP, BPI, BPN, BES, BISCA, etc.)   -   numa Agência do Borges & Irmão, muito procurada por Emigrantes, chegou-se ao balcão de atendimento um Emigrante que, lá da estranja, para aquele domicílio bancário enviava regularmente as suas poupanças.

Havia já muitos anos que não vinha a Portugal.

A quantia aforrada era bem elevada.

Uma senhorita simpática (quando se entrava na Agência de um Banco pela primeira vez, o primeiro cumprimento que se recebia era sempre feito com muita simpatia; os seguintes dependiam de se ser cliente-depositante-credor ou cliente-devedor…), uma senhorita simpática ofereceu-lhe a sua disponibilidade para o atendimento.

O Emigrante disse querer falar com o «patrão da loja».

A senhorita terrincou os dentes, num enorme esforço para conter a risota. Com controlada serenidade, respondeu:



- Um momento.



E logo guiou os passos na direcção de uma porta envidraçada, com um punho de abertura douradamente brilhante e umas letras gigantes,  em gótico maiúsculo, debruadas por ramos e folhas de heras entrelaçadas, a assinalarem:



GERÊNCIA



O Emigrante sentiu um sopro de alívio para a labareda de desconfianças que trazia consigo.

Passados uns instantes, a senhorita saiu daquela luxuosa (adivinhava-se logo, pela porta) cabina. E logo seguida por dois senhores vestidos com italiana elegância masculina.

Cumprimentaram o visitante, e perguntaram-lhe em que poderiam ser-lhe úteis.

Apesar de não haver ainda computadores instalados, a consulta aos arquivos e ficheiros era rápida. Uma troca de olhares muito bem disfarçada entre o sub-patrão e a senhorita identificou o visitante como um «Bom» cliente. Tão bom que o convidaram para a luxuosa cabina, «onde poderiam atendê-lo e conversar mais à-vontade».

Corria bem a visita, mas o Emigrante o que pretendia era, a todo o custo, VER o monte das suas poupanças. Mostraram-lhe toda a documentação comprovativa do seu dinheiro, explicaram as «engenharias processuais» do tratamento dado ao seu pé-de-meia e que o Banco até tinha pelo Sr. … uma especial «consideração e estima» …. Sempre acrescentada de um «Atentamente» em toda a documentação que lhe enviavam para a morada de Cá.

Não suportando já o suor do inglório esforço em demonstrar ao cliente que o seu “pilim” estava garantido, o «patrão e o sub-patrão da Loja» imploraram-lhe que lhes desse tempo para mandar buscar «a massa», pois que, por tanta ser, tinha de estar guardada em cofres ainda mais fortes e lá numa importante cidade, não muito distante dali.

Saíram os três para irem almoçar a um Restaurante que ficava a meia hora de distância -  automóvel.

Também ainda não havia «tèlélés», mas «o calo» do Gerente, reforçado com a «ratice» do sub-gerente, permitiu que, quando regressaram ao Banco, uma troca de olhares bem disfarçada com a senhorita acrescentasse uma onda de euforia no :



 - Faz favor de entrar, Sr. ….!



Em cima da espaçosa mesa do «patrão da Loja», naquela cabina a lembrar a sala do «maîre» de Paris, o Emigrante viu um montão de notas de “Conto” e  de “Quinhentos”, três de «Vinte» e um saquinho de plástico branco, transparente, com meia dúzia de «trocados».



- Pronto, Sr. ….! Aqui está o seu dinheiro. Quer contá-lo?



Ainda a desfrutar do regalo daquele almoço, tão bem acompanhado por uma «pinga de trás d’orelha», o Emigrante sacudiu de vez todas as suas desconfianças, encheu o peito de confiante importância e de importante confiança, e, desta vez, foi ele quem estendeu a mão ao «patrão e ao sub-patrão da Loja», dizendo com ar de quem acaba de conquistar Paris e passa sob o Arco de Triunfo:



- Donc!...Merci,  messiês. Agora ‘stou «sisfeito»!



Luís Fernandes


publicado por Fer.Ribeiro às 02:27
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Quarta-feira, 18 de Janeiro de 2012

Crónicas Ocasionais - Malvados

 

 

“MALVADOS!”



Não só os mais novos, mas, especialmente, “os mais velhos”, aqueles que nasceram, cresceram e “passaram as passas do Algarve” antes do “25 de Abril”, estão assombrados com o estado a que chegou o nosso País e, fatalmente, cada um de nós.

“Os mais velhos”, quando novos, sonhavam e viviam na esperança da Liberdade.

Nesta, entre outras conquistas, procuravam a da Justiça.

Aprisionados na miséria salazarenta, “os mais velhos” sonhavam e lutavam por uma Liberdade com paz e pão.

Em “25 de Abril” abriram-se as portas dessas prisões.

Mas ao Povo Português aconteceu o mesmo que a Tales: de tanto olhar o céu, ao caminhar, caiu num precipício; tem descuidado demasiado o «número de estúpidos em circulação», especialmente nos claustros de conventos e convenções da politiquice nacional.

E, quando os tratantes desse número se combinam e conluiam, o impacto das suas asneiras e cretinices é monstruoso.

A história recente tem confirmado que o «aparelho do poder tende a colocar gente da pior espécie, os malvados, no topo da pirâmide». E estes, «Os Malvados», por sua vez, a «afastar o mais que podem a competência e a inteligência».

Para a cambada que nos tem governado, desde que os seus negócios, interesses e golpadas estejam salvaguardados, pouco ou nada lhes importam os protestos ou os direitos daqueles que vitimam.

Todavia, assiste-se a um comportamento, que até parece estranho, por parte dos Portugueses. – gritam “Liberdade” em S. Mamede, em 1128; em Aljubarrota, em 1385; em Lisboa, em 1640 e em 1910; por todo o Portugal, em 1974, mas logo se escondem dela.

A Liberdade traz consigo o peso da Responsabilidade. E esta é-lhes medonha.

Assim, logo se resignam e abandonam a astutos megalómanos e estupores o cuidado de pensar e decidir os seus anseios e destinos. Acomodam-se à condição de «partidários» ou sequazes.

Desta maneira, tudo fica maias fácil para que cretinos, impostores, aldrabões, vigaristas, hipócritas, fementidos, capadócios, farsolas, pirangueiros e traidores “levem a sua avante”.

Hoje, estamos perante um Governo que se regozija e pavoneia menos pelo que faz  e mais pelas maldades e sofrimento a que sujeitam os cidadãos.

MALVADOS?!

Sim!

E VELHACOS!!!

Governantes que se demitem da responsabilidade que assumiram perante os seus eleitores e todos os compatriotas e favoreçam obscuros interesses de estranhos e estrangeiros perdem todo o direito de serem respeitados.

Hoje, estamos perante um Governo que “ataca inocentes para salvar culpados”!

Portugal, em vez de estadistas, tem apenas políticos imorais.

 
 
Luís Fernandes


publicado por Fer.Ribeiro às 01:27
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Terça-feira, 18 de Outubro de 2011

Crónicas Ocasionais - ´“INHO”

 

“I N H O”

 

Ai sr. Francisquinho, temos de fazer mais alguma coisinha para que o sr. deixe de estar doentinho e fique depressinha melhorzinho.


Já pedi à minha afilhada Laurindinha que lhe chegasse um copinho daquele tintinho que o sr. Francisquinho tanto aprecia. Vamos lá a ver se se lhe abre o apetitezinho!


Aqui pra nós que ninguém nos ouve, a Laurindinha vai trazer aquela canequinha de meio quartilhinho bem medididnho!


Claro clarinho, se aqui pudesse estar o Ti Godinho, seu compadrezinho que Deus tenha em bom descansinho, bem que teria de ser aquele pichorrinho de barro que leva à vontadinha uma canada! E olhe que até seria daquele pipinho de estimaçãozinha que está lá no fundinho da adegazinha, naquele cantozinho que quase ninguém dá por ele!


O sr. Alvarinho, aquele seu amiguinho da pesquinha, nunca bebe do verdinho  -  jurou-me pela sua rica saudinha    -    que bem perdidinho é pela pingotinha da adeguinha do sr. Francisquinho!


Depois trago-lhe um pratinho de arrozinho de bacalhau, temperadinho mesmo ao seu gostinho.


E para sobremesa uma maçãzinha bem assadinha, só com um poucochinho daquele açucarzinho  ‘marelinho, seu malandrinho!


- Oh! Meu rico coraçãozinho de docinho de morango!


- Não seja descuidadozinho, sr. Francisquinho. Ora meta a mãozinha lá debaixinho dessa outra roupinha da caminha onde está deitadinho.


- Só ia ajeitar-te a golinha da blusinha, pois parece-me que assim como a trazes ‘inda acabes por te constipar!


- Ai, sr. Francisquinho, cheiinha de tremorzinhos já ando eu. E bem sabe o sr. Francisquinho por quem e porquê!

 


A Candidinha, que estava a tratar do Francisquinho, sabia bem que quando passava a porta daquele quarto os passos da Laidinha a seguiam, guiando os olhos e os ouvidos para tudo o que ela dissesse ou fizesse.


Mas, se uma mão levantada seria apanhada pelo espelho da cómoda, rasteirinha, por baixo do lençol, dava bem para um sorrateiro e delicado devaneio por baixo da saia curta da Candidinha.


No corredor, a Laidinha tossiu.


A mãozinha do Francisquinho escondeu-se debaixo do lençol.


Os tremorzinhos da Candidinha espalharam-se da cabeça até aos pés. Sentiu que tinha na mão o coraçãozinho do sr. Francisquinho.


Estendeu os braços para o outro lado da cama, com o propósito de ajeitar a ponta do lençol e com a intenção de deixar os biquinhos do peito da sua blusa caírem no centro do traçado da boca do sr. Francisquinho.


E chamou, carinhosamente:


- Entra, Laidinha. Vem ver como o sr. Francisquinho já tem melhor cor!


A Laidinha entrou.


A Candidinha saiu.


Dando conta que os barulhos da Candidinha faziam desvio para o azul, a Laidinha sentiu que o vermelho se desviava para os seus suspiros.


-Ooooh! Chiquinho!


-Ooooh! Laidinha!


E mais não podiam dizer!


Um par de chapins-reais, pousado na ramada, frente à janela que dá para o quintal, parou o chilreio e abriu o bico, de espanto!  


Nas ondas do lençol da cama do sr. Francisquinho brilhavam as cores do arco-íris!

Luís Fernandes

 

publicado por Fer.Ribeiro às 02:03
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Terça-feira, 27 de Setembro de 2011

Ocasionais - O Coração da Cidade

 

“O CORAÇÃO da CIDADE”

 

 

O coração da cidade!


Era nas “Freiras”!


Os “Bombeiros”, a “GNR”, a “Caixa Geral de Depósitos”, os “Correios”, o “Xavier”, o “Aurora”, o “Lopes”, o Liceu, o “Maximino Vilanova” e o “Sport” formavam uma moldura que lhe acrescentava brilho e encanto.


Violetas e amores-perfeitos salpicavam com sorrisos os canteiros.


E os arbustos floriam em competição com as roseiras.


Nas copas das árvores, alguns piscos e tantos pardais jogavam ao romisco. À sua sombra estacionavam os automóveis dos ricaços e dos morgados.

 


A meio da tarde, o Tio John americano de Vila Meã dava voltas ao Jardim das Freiras com o seu Oldsmobile-Garden-State descapotável cheio de lindas raparigas!


Só um Volvo V18, cor de tijolo, lhe discutia a competência!


De hora a hora, crianças do 1º Ciclo (1º e 2º Ano do Liceu) davam corridas à volta dos canteiros, brincando à apanhadinha.


De hora a hora, jovens do 2º Ciclo (3º, 4º e 5º Ano) sentavam-se nos bancos do Jardim a «tirar dúvidas» de Físico-Química ou de Geografia e a tentar resolver equações apaixonadas.


De hora a hora, meia dúzia, ou dúzia e meia, de raparigas e rapazotes do 3º Ciclo (6º e 7º Ano) atravessavam para o “Ibéria”, onde tomavam café e estímulos visuais nas revistas clandestinas   -   não, que a moral e a censura impunham limites às tentações pelo olhar, quanto mais pelo sentir ou apalpar!

 


Subia-se a «Ladeira da Trindade» para se ir dar umas tacadas no “Brasília”; subia-se a ladeira dos Bombeiros para uma jogatina de futebol na Lapa.


Os parzinhos mais comprometidos aproveitavam o intervalo para dobrar a esquina da Rua do Olival, à esquerda ou à direita, e regressar ao Liceu, cada um pelo passeio contrário; ou o «furo», para subirem à Lapa, fingindo ir assistir ao «Jogo de Futebol», mas virando à direita pelas traseiras dos “Bombeiros”, em direcção à Rua do Olival, conquistando o espaço entre as árvores entroncadas e frondosas.


Pelas portas do “Maximino Vilanova” entravam e saíam juízes e conselheiros, lavradores e carpinteiros, “passadores” e contrabandistas para trocar escudos por pesetas, logo cambiadas em Feces, por caramelos, bacalhau, polvo, pedras de isqueiro ou «Tabu”.


Usava-se chapéu.


Mas a boina dava mais classe ao olhar de esguelha com que se media a distância do soquete à bainha da saia plissada da rapariga que se trouxesse debaixo de olho.


Só um Afonso é que nunca, até aos dias de hoje, deixou de usar boné!


Talvez aí se esconda o segredo da sua genialidade!


… era nas “Freiras”!

 

Luís Fernandes


publicado por Fer.Ribeiro às 02:13
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Terça-feira, 13 de Setembro de 2011

Crónicas Ocasionais - Siboney

 

“Siboney”

 

 


A chuva, tocada a vento, dedilha as telhas do meu telhado, em ritmo de romântico bolero.


Levanto-me da cadeira, dou meia volta e achego-me à janela.


O alcatrão da estrada mal amanhada mostra um negro lavado. As folhas de uma palmeira dizem-me que o vento está arreliado.


Trajando uma blusa cor-de-rosa e umas calças brancas, uma mulher alta, elegante, “bem feita”, ciente das sugestões e provocações com que atiça a cobiça masculina e a inveja feminina, desce os sete degraus que vão desde o passeio até à rua interior, pavimentada com paralelogramos de granito. Leva na mão direita um balde de cor amarela-esverdeada.  Chegada à gateira, dobra a cintura, apoia a mão esquerda no fundo do balde e entorna-o no buraco. Sabe que em redor há prédios com vários andares, muitas varandas e imensas janelas.

 

 

E, nas ruas, carros e camiões, ciclistas e peões  circulam, atropeladamente, a esta hora, não fosse hoje sábado e morno dia de Primavera.

 

A linha do horizonte é definida pelas copas das árvores que, acima de um casario arquitectado ao deus-dará, se assomam pela crista de uma elevação, assemelhando-se a uma caligrafia exercitada pelo maior bêbado da Aldeia, à saída da adega do seu compadre de estimação, num final de dia santo de guarda.

 

A chuva pareceu assustar-se com os meus pensamentos e fugiu.

 

O vento deu ares de ficar zangado com os meus pensamentos e começou a soprar com mais força.

 

E até um Renault Cinco se atreveu a ultrapassar um Audi Quatro!

 

O meu olhar devia ter insultado as nuvens, pois, de repente, veio parar aqui à minha frente um montão delas, semelhantes a punhos carregados de artrite e tingidos com todos os tons do preto e do cinzento.

 

 

Ali ao meio delas até me parece ver uns dentes a rirem-se com escárnio.

 

Dou meia volta abeliana e volto a sentar-me virado para a parede e de costas para a janela … e as nuvens.

 

Pego na «bic laranja ponta fina» e peço-lhe que conduza a minha mão numa melodia de palavras, com imenso agrado para quem as ler.

 

Solta-se.

 

 Resmunga-me que não quer nada comigo.

 

Censura-me por eu me recusar a alinhar com os contrabandistas da Fonética, os corruptos da Morfologia, os sabotadores da Sintaxe; com os proxenetas da Língua e com os pederastas da Gramática.

 

Atira-me que mais sorte teria se pescasse à rede um cardume de palavras e o pendurasse num baraço feito com o meu nome.

 

Desisti da «bic laranja ponta fina».

 

Pequei num lápis.

 

Mal dei conta de ter começado a tamborilar na madeira a «Siboney»!

 

Para o que me havia de dar!

 

Onde diabo a mão, ou o lápis, foram buscar isto?!

 

Lembrei-me da fandanguice interpretativa do Paco de Lucia e da romântica interpretação de Connie Francis.

 

 

 

E fui escutar Xiomara Alfaro e Thomas Tirino.

 

O vento amainou. E a chuva voltou, mas a merujar, dando salpicados beijinhos doces nas telhas do meu telhado e na vidraça da janela do meu quarto.

 

Dou conta de uma espreitadela do sol. A janela do apartamento do lado de lá da rua cumpriu a lei da simetria e denunciou-me o astro rei com o lampejo que pôs a minha sombra na parede.

 

Veio-me à lembrança que amanhã, por decreto, é o dia mais curto do ano. E, talvez por isso, contrariado, o dia ande a mostrar, já hoje, muitas caras, a fazer algumas carrancas e a jogar «às escondidinhas».

 

O alarme da Farmácia, ali em frente, começou a gemer, aos soluços. A princípio ainda fazia chegar, em louca correria, o plantão da empresa de vigilância. Mas de tanto soar em falso, o plantão fica sempre em «à vontade!» Basta uma quebra de corrente eléctrica ou a passagem de um camião mais apressado para que o alarme da Farmácia se esganice.

 

A luz do dia vai definhando. O escuro da noite vai-se anunciando. Os automóveis circulam com os médios acesos, a iluminação pública está ligada.

 

Sente-se o correr de algumas persianas nas janelas e varandas de casas vizinhas.

 

Também eu acendi a luz do quarto e preparei a do candeeiro de mesa.

 

Só ainda não consegui encontrar o interruptor que acende a luz dos caminhos e dos atalhos que me conduzam à alegria, ao conforto e à inspiração de um psalmo à Vida …ou à Morte!


 

Luís Fernandes

publicado por Fer.Ribeiro às 02:49
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Terça-feira, 6 de Setembro de 2011

Ocasionais - Pimba!

 

 

pimba!»

 

 

A pasmaceira desta vida é, afinal, uma sequência de intermitências irregulares, desafinadas e desatinadas.


Ou é a chuva de dois dias que aborrece, ou é o frio do Inverno que corta os ossos, ou logo o calor de Verão que abafa, ou o vento que sopra violento, virando guarda-chuvas e assobiando ameaçador, pelas frinchas das portas, das telhas e das janelas, ou ainda porque nos dias abrasadores de Verão nem  um arzinho nos refresca a cara.


Nas Rádios, nos Jornais e nas Têvês, os moldes das tretas estúpidas e imbecilizantes dos locutores, jornalistas e apresentadores ostentam o mesmo padrão, ridículo, pobreta de imaginação e qualidade, entre o qual intercalam «0 facto».


À mistura desenxabida  chamam “programa” ou «notícia».


Atrás do balcão ou da secretária, os nossos interlocutores carregam vistosamente   -  pelo menos fazem por isso!   -   os alforges de pretensa sabedoria, competência e autoridade.


Para nos dizerem «sim» ou «não», encharcam-nos de perguntas acerca do nome, morada, data de nascimento, número fiscal de contribuinte, de eleitor, de utente do Serviço Nacional de Saúde, do Bilhete de Identidade, das apólices de seguro do carro e da saúde, da Carta de Condução, da data de nascimento, baptismo, crisma, casamento, do 1º dia de Emprego, do dia de despedimento, do número de telefone da residência e do telemóvel, e do número de identificação bancária.


Olham para o Cartão de Cidadão como um boi para um palácio!


Passam à citação das alíneas, dos parágrafos, dos capítulos, dos regulamentos, das leis que se lhes afiguram «dizer respeito» ao nosso assunto.


Porém,  «o sistema» não funciona   - «não há sistema»!   -   e temos que  «aguardar um momento».


Então, logo se lhes solta um suspiro de um «ah!», porque «de resto», agora se lembraram de que tudo o que haviam citado fora recentemente revogado numa  reunião de Conselho de Ministros e a sua «implementação» ainda causa algumas dificuldades.


O telefone toca, e o atendimento é suspenso.

 



Não! Que o «utente dos Serviços» que telefona é sempre mais importante do que aquele que está à sua frente!


O apito do telefone confere logo qualidade e importância superiores ao assunto a ser tratado. Por isso, a pose, o tom de voz, o lance de olhos, a mudança de mão, do telefone, ou da orelha, ou a mudança só de mão ou só de orelha, vão explicando que a urgência do telefonema é flagrantemente mais prioritária do que a prioridade da urgência do utente -contribuinte que está ali à sua frente, com o assunto interrompido.


Mas se a chamada é para pedir a ligação a um «chefe», a resposta salta automaticamente: - «… não pode atender. Está em reunião».


Mesmo que tenha pousado o casaco nas costas da cadeira, a marcar o lugar,  e tenha saído para o …….. «Pão - Quente» mais próximo, para petiscar as notícias da “Bola”, do “Record” ou do “JN”, ou do “DN”, o «chefe» está sempre “em reunião”.


E, assim, a produtividade varia na razão inversa da competitividade - não que isto de se ser «chefe» exige muita compet….ição!


Mas, num esforçado esforço de boa vontade, o «atendedeiro» (ou a «atendedeira»), lá prometem ir tentar «abrir uma janela de oportunidade» para que o assunto fique perto de ser resolvido, ou para uma reunião com o «chefezinho».

 


Então é assim”, “efectivamente», “portanto”, esta problemática administrativa «abrangente» defronta-se, «de resto», com «incontornáveis» conceitos «fracturantes» «também», que atravessam «transversalmente» os critérios «também» interpretativos das conjunturas sócio-económicas «também» de cada cidadão, candidato a, “digamos que», “ãh”, “ãh”,……ãh…….”ãh”,  deferimento de todo e «também» qualquer requerimento, elaborado segundo «também» as normas vigentes, que «alavancam» as prerrogativas interpretativas de uma dinâmica, de “crescimento negativo”, no quadro, «hum», «ô…», «ãh»….planos estratégicos «também», «absolutamente fundamentais», inscritos nos protocolos dos «acÓrdos» assinados «à margem» do encontro bilateral da «baixeira» de Trípoli, «de resto» no «sêsto» dia das conversações «também».


“Claro que, evidentemente, e sem qualquer espécie de dúvida, talvez”, o assunto, que «de resto» aqui o trouxe, constitui «também» uma «estreia absoluta» da aplicação daquele despacho, «também».


A escritora L…acaba de «perpetrar» um novo romance, «de resto» o “seu mais recente trabalho”, uma «mais- valia» para as letras pUrtuguesas «também».


 “Ò(b)viamente”, o…«ãh»…partido, “então”, «’cialista» … «ãh» … «alavanca», «ò(b)viamente», políticas «abrangentes» e «incontornáveis», «justamente, «também»,«de resto», dentro do «então»…«ôôô» …«ãh, ãh,ãh» quadro  das directivas discutidas «à margem» da cimeira de Baixa da Banheira…ou “entre lençóis”.


“E «também», assim, chegamos ao fim, «também», do nosso trabalho de hoje, à conclusão «também» do nosso programa, e, «de resto», “já sabe”, continue na nossa companhia «também» e com o programa «a não perder» do «incontornável» Ladislau «já a seguir “ “TAMBÉM”!

 

“Bom dia, boa tarde ou boa noite, conforme a hora e o local em que nos escutam”!

 

Esperamos pelo regresso do: - “ÊZÁTO”!!!.......

 

 

 

Luís Fernandes


publicado por Fer.Ribeiro às 01:08
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Quarta-feira, 24 de Agosto de 2011

Crónicas Ocasionais - Genciana das Boticas

 

GENCIANA-DAS-BOTICAS

 

 

Sentou-se na cadeira, à nossa mesa.

 

Não a conhecíamos.

 

E algum do espanto que nos surpreendeu dilui-se no sorriso aberto, lindo, numa cara linda onde dois olhos amendoados nos atraíam e uma boca em coração nos seduzia.

 

Do seu pescoço pendia um fino fio de prata dourada que sustentava uma gota de água cristalina a prometer cair num risco de solo fértil onde daria a vez a um fio de corrente rápida a transportar-nos a um imenso mar de desejos e de loucuras.

 

- Não fique intrigado   - sussurrou.

 

Temo-lo visto a passear sempre de braço dado com os livros. E aqui, no Café, logo se percebe como anda apaixonado: - quem entra, quem está, quem sai, dá conta, e, às vezes, comenta como só tem olhos para eles.


De que andará à procura?! – comentava uma gulosa dos “croassãs” recheados.


O que encontrará nos livros?! – perguntava outra, preocupada em exibir o umbigo, fazendo que fazia puxar para baixo uma blusa que teimava em subir.


Quem será?! – interrogava uma velhota acabada de entrar, tão interessada,, em mostrar o penteado acabadinho de feito na cabeleireira ali ao lado, com um olho na queijadinha e o outro à procura do cruzamento como olhar de quem reparasse na sua «permanente».


Sabe Deus o que vai naquela alma! – murmurou à saída uma beata que só vai à missa dos sábados à noite para mostrar o novo “belandrau “ que comprou na loja chinoca  … mas irá devolver na 2ª feira,  por ter considerado que não lhe ficava lá muito bem.


Ou o que vai naquele coração!  -  respondeu a vizinha da frente, à entrada cruzada com a saída da beata, sempre atenta à oportunidade para uma conversa duvidosa e de intriga.


O livro e a gravata são-lhe inseparáveis! – ouvimos aquele javardito que costuma sentar-se à mesa do canto, lá no fundo do Café.

Traz o livro  porque tem a mania que é um «xico’sperto”! – continuou o sabujito do companheiro do javardito.


Apanhámos estas apreciações a seu respeito.


Como será? - quisemos nós saber.


E eis-nos aqui, à sua frente, para conseguirmos as respostas àquelas e outras interrogações.


Mas vamos utilizar um método estranho.


Sabemos que nos vai escutar com demora e atenção.


E será nos traços da sua atitude e das suas interrupções que nós leremos as respostas.


Não. Não somos subversiva.


Esse é o seu papel.


Adivinhamos que começou a ser, na voz dos outros, revolucionário; depois da Revolução, refilão; e, no atribulado sossego democrático, passou a subversivo.


Amanhã, provavelmente, dirão de si que FOI um visionário.


Ali, do balcão, alguém dirá, incontidamente, que FOI um filósofo.

 

 

O sol já não mandava reflexos para a nossa mesa, indicador de que a hora do meio-dia estava passada.


As palavras que estávamos a escutar sabiam a bucólica melodia chegada na brisa dos bosques floridos da nossa ALDEIA natal.


Por entre eles, o amor e as aventuras, e as aventuras de amor nos fizeram dar conta da vida.


Lembrámo-nos desse despertar para o mundo. E nele ficámos adormecido, envolto nas cores das sensações determinadas pelo corpo de estímulos assim posto à nossa frente.


A serventia do chá e do «palmier» criou o pequeno intervalo para o nosso devaneio.


Aquele indizível olhar amendoado – cor - de – esmeralda voltou a pousar em nós.


No leve levantar da sobrancelha lemos a pergunta - pedido para continuar  o discurso.

 

- É um gosto continuar a ouvi-la   -  murmurámos.

 

Mexeu a metade de pacote de açúcar deitado no chá, tirou um guardanapo e, com a delicadeza de uma pitonisa de Delfos, colheu o «palmier» e levou-o aos lábios. Pousou-o com suavidade.


Notámos que ao pastel só lhe faltava uma folhinha do tamanho das flores dos malmequeres.

Continuou:

 

- Já visitei muitos Povos.


Estive em Angola e Moçambique; no Canadá, Estados Unidos e Brasil.


Conheço muitos países europeus.


Em todos encontrei Transmontanos.


Tal como em si, em todos notei  a distinção de Transmontanismo  -    excepto em dois territórios: em Lisboa e no Brasil.


Achei muito estranho.


Lá, no Brasil e em Lisboa, os Transmontanos preferem a vaidade dos tiques e retoques brasileiros e lisboetas ao orgulho da sua forma de falar; preferem a lamechice da insinuação pseudo - diplomática à franqueza directa do “entre quem é!”.


Nos meses de Verão, pelo Azibo, Bragança, Termas do Alto Tâmega, Festas e arraiais reparei, e certifiquei-me, na preocupação que esses seus comprovincianos, sedeados em Lisboa, exibiam  o falar à moda da «Linha», da «Baxa» ou … da Rotunda do Relógio!


E os chegados do Brasil, com ou sem dente d’ouro a rir-se-lhes, aproveitavam todas as oportunidades para o linguajar com açúcar amarelo e em “lulo-dilmês”, numa mistura de gorjeios de quiriquiri e os de arara-canindé com os pios do pichororé e do surucuá, em pose de vetustos «coronés» fazendeiros.


Cruzes, canhoto!

 

 

 

Um instintivo serrar de maxilares denunciou a nossa contrariada concordância com a apreciação da «Rotunda».


Fez que compôs a colherzinha, rodou ligeiramente o pires, e aquele indizível olhar amendoado – cor - de – esmeralda tornou a trazer doçura ao nosso espanto!


- Quantas perguntas fez a si mesmo e quantas gostaria de já me ter feito neste pequenino intervalo?


A curiosidade primária rouba-nos toda a atenção para qualquer futilidade. É linear, venal, precipitada e, até, sórdida.


A curiosidade transcendente, complexa, metódica, espalha-se pelo universo da percepção. É escalar e sublime.


Por isso, os comportamentos gerais que encaramos no nosso meio ambiente local revelam um fértil campo de sensações, e só aqui e ali uns tufos de percepções.


Da relação imediata entre sujeito e objecto resultam as primeiras; da organização sintética de elementos psíquicos, as segundas.


Assim, voltamos à curiosidade que nas «massas populares» provoca um livro na mão de um vizinho ou de um estranho a passear pela sua rua ou a tomar um pingo, a hora habitual, no “Pão – Quente” d’ao pé da porta.


Até as crianças se sentem tentadas a sair das mesas dos papás, das titis e dos avós e vir rondar a sua mesa.


Já reparámos que fala com elas, lhes põe à disposição o bloco de apontamentos e quantos lápis, lapiseiras, marcadores e canetas traz consigo.


Algumas mães, já o ouvimos, mal entram aqui, logo dizem para o filhote mais crescido:


-“Olha ali o teu amigo!”.


E tantas ainda continuam sem saber o seu nome.

 

- A mim pouco me importa. Embora reconheça, e esteja atento, à importância que todos dão ao reconhecimento e ao chamamento pelo seu próprio nome  - atrevemos a interrupção.

 

Percebemos um pontinha de ar expectante.


Hesitámos em continuar a falar.


Ainda estávamos à procura das simetrias e dos complementos que nos ajudassem a compreender a surpresa acontecida.


Não houve ainda pressentimento.


Fazemos esforço para ordenar ideias, catalogar juízos e construir raciocínios.


Recolhemos as imagens e os sons, mas ainda não conseguimos combinar-lhes uma forma.


Assim, abrimos a mão, virando a palma para cima, em convite para que continuasse.


Sorveu mais um gole de chá como quem derrete um beijo tão desejado.


Um fugaz aumento de brilho do olhar deu mais esplendor ao seu sorriso.

 

- Memória. Lembrança. Recordação. Saudade.


Saudade!


Noto em si a colina de saudades que transporta.


O seu olhar está cheio de suspiros. Por isso os tem sempre húmidos.

 

 

- Também nós procuramos o caminho de Pasárgada, onde possamos viver as realidades dos nossos sonhos, as nossas fantasias, a nossa liberdade, enfim! – nem demos conta da fuga destas palavras.

 

Ela quase riu com franqueza.

Tomou-nos a mão.

Que doçura!

Estremecemos de corpo e alma.

 

Flor del llano!  - chamou-nos.

 

Tocaram-nos no ombro.

Uma voz despertou-nos:

- Procuram por si.

 

Sobressaltámo-nos.

A xícara do «pingo» estava meada.

As televisões anunciavam o «Telejornal da Uma».

 

-Um licor de Genciana-das-Boticas  e fica bom!  - receitou uma voz algures.


- Senhora da Livração nos acuda!  –  exclamámos, despedindo-nos.

 

Luís Fernandes

 

publicado por Fer.Ribeiro às 02:36
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