Sábado, 19 de Julho de 2008

Cambedo Maquis - Notícias

 

 

Para quem seguiu o Cambedo Maquis neste blog e para todos em geral, fica a notícia de que amanhã, domingo, dia 20 de Julho, a aldeia do Cambedo e os acontecimentos de 1946 são notícia no Jornal Público, mais propriamente na revista Pública, que integra a edição de domingo.

 

Trata-se de uma grande reportagem de autoria do jornalista Carlos Pessoa que promete ser mais um contributo para esclarecer mais um pouco sobre a verdade dos acontecimentos, a verdade de uma batalha e as vivências, sofrimentos e “castigos” dos envolvidos.

 

Será também mais um contributo para o enriquecimento do blog Cambedo Maquis, um blog aberto, onde se pretende reunir todas as informações sobre os acontecimentos de 1946.

 

Assim, já sabe, se é um interessado pelos acontecimentos do Cambedo e da história das nossas aldeias, amanhã (domingo) o Cambedo também está nas bancas, com o Jornal Público, numa reportagem do jornalista Carlos Pessoa.

 

Mais logo, ficará por aqui o prometido, ou seja, mais uma aldeia do concelho.

publicado por Fer.Ribeiro às 19:53
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Domingo, 23 de Dezembro de 2007

Cambedo - Dia 12 - A imprensa da época.

 

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E para terminar, vamos fazer uma abordagem pelo que foi dito oficialmente e na imprensa escrita da época sobre os acontecimentos do Cambedo, após os mesmos, claro.
 
Lembre-se que estávamos em 1946 em que a censura estava sempre presente em qualquer escrito mas sobretudo realce-se a imagem feita e oferecida a todos dos guerrilheiros antifranquistas, que em Portugal de então, nunca foram considerados como tal, mas sempre como bandoleiros, bandidos e atracadores, entre outros.
 
O que rezaram os relatórios oficiais e imprensa
 
Já sabemos que em 1946 estávamos em pleno regime Salazarista. Sem querer aprofundar aquilo que foi dito pelos relatórios oficiais da PIDE e outros tais das forças intervenientes no ataque ao Cambedo, em que se relatou o politicamente correcto para o regime, além, (claro) da marcação de pontos e promoção pessoal dos relatores. Em todos eles foi ignorado, como convinha, a existência da povoação inocente do Cambedo e o seu povo também inocente, incluindo crianças, que foram obrigadas a viver debaixo do fogo cruzado das armas durante dois dias (uma delas ferida com um tiro). Dos fracos e inocentes não reza a história, e se rezou, não foi para inocentar, mas antes para culpabilizar, prender e torturar mais de um terço da sua população.
 
Da actuação dos funcionários do regime intervenientes na batalha do Cambedo (GF, GNR, PSP e Exército), não se esperava outra coisa. Cumpriram a sua missão, ou seja, cumpriram ordens pois a tal foram obrigados e, em questões políticas, eram mantidos na ignorância como convinha. Já o mesmo não se poderá dizer das chefias destas forças e da PIDE, que esses sabiam perfeitamente que os tais atracadores eram guerrilheiros anti-franquistas.
 
E a imprensa da época, que já então fazia a opinião pública, como tratou os acontecimentos!?
 
A imagem de guerrilheiro antifranquista (alguns ex-militares do exército republicano e outros tantos, simples fugidos ou refugiados que acabaram por aderir à guerrilha, constituíam a guerrilha antifranquista que ainda tinha esperança em retomar o poder legítimo e republicano saído das urnas e deposto pela força das armas franquistas), como ia dizendo, essa imagem de guerrilheiro nunca passou pela imprensa portuguesa e, além de crimes que lhe imputaram e que nunca cometeram, bem como outras tantas mentiras inventadas a seu respeito para denegrir a sua imagem, em toda a imprensa foram tratados como puros “bandos de malfeitores”, “quadrilha”, “criminosos” e “Bandoleiros” como os apelidou por exemplo o «Diário do Minho», ou “bandoleiros espanhóis” como sempre os tratou o «Jornal de Notícias», ou ainda “bando de civis armados”, “malfeitores de uma quadrilha” ou “meliantes” como foram tratados pelo « O Comércio do Porto», ou ainda por “criminosos” e “bando armado” como foram tratados pelo «O Primeiro de Janeiro».
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Por sua vez no jornal de maior circulação em Portugal, «O Século», de dia 22 a 27 de Dezembro de 1946, dedicou aos acontecimentos sempre notícias de 1ª Página, letras gordas, e se a 22 de Dezembro o título era: « Dois dias lutaram encarniçadamente forças da GNR e do Exército contra o famoso grupo de bandoleiros que actuava em Trás-os-Montes e acabou por se render – o chefe do bando foi abatido». A 23 de Dezembro, também com notícia de 1ª página e continuação/desenvolvimento em pagina interior, o título passou a: «OS BANDIDOS capturados depois de luta feroz travada em Cambedo seguiram para o porto». No rol da notícia estava incluído quase um terço da população do Cambedo, que de “bandidos”, apenas estava o guerrilheiro Demétrio. Mas continua, ao terceiro dia (dia 24 de Dezembro), novamente notícia de 1ª página com o título«Um dos bandoleiros da quadrilha de Cambedo esteve ontem naquela aldeia e parece que ainda há outros bandidos em liberdade» na continuação da página interior começa com o título «A quadrilha de Cambedo». Ao quarto dia, dia 25 de Dezembro, apenas uma pequena notícia, confusa e irreal, pois fala-se num novo bando, o Bando do Barroso, do qual dois elementos teriam sido presos no dia anterior, no Cambedo. Finalmente no dia 27 de Dezembro, também notícia de 1ª página: « CRE-SE QUE O CHEFE dos bandidos de Cambedo não foi preso e receia-se que volte a organizar o seu bando».
 
Mas bem pior que os títulos de primeira página, era o que se vertia nas linhas do artigo.
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O primeiro começa assim«Chaves, 21 – Há tempo que se vinha registando-se longa série de crimes de morte e assaltos à mão armada, praticados por um perigoso grupo de bandoleiros, nas regiões de Montalegre e Chaves, em Trás-os-Montes e na província de Verin, em Espanha. Temidos por toda a gente os bandidos não hesitavam em abater quem quer que se opusesse aos seus desígnios.(…)»
 
É sabido, que à excepção do caso do Pinto de Negrões ( que logo reconheceram como erro crasso) os guerrilheiros apenas actuavam em Espanha, servindo-se das aldeias da raia portuguesa apenas como refúgio.
 
Ainda a respeito do deturpar da realidade, como mero exemplo, é sabido pelos relatórios da PIDE e das forças intervenientes, que tinham ordens para não deixar sair a população de suas casas nem da aldeia. A notícia no “O Século” diz assim: « Assim que começou a luta. Os sitiantes viam a sua acção prejudicada pelo facto de os criminosos não permitirem que os habitantes saíssem da aldeia, retendo-os a seu lado. Sabia-se que o bando era constituído por cerca de vinte homens (…)»
 
Só em valentia, talvez, os três guerrilheiros refugiados no Cambedo valessem por vinte homens. A mesma (valentia) que era atribuída pelo articulista às forças sitiantes «(…)Os soldados da GNR e do Exército, que se portaram com excepcional valentia (…)»
 
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Posso nada perceber de valentias, mas percebo um pouco de matemática. Então vejamos: mais de mil militares da GNR, Guarda-fiscal, PSP, PIDE, Exército (com morteiros) e Guarda Civil (Espanhola) contra 3 guerrilheiros. O resultado, foram dois dias de combate, três casas destruídas pelos morteiros e alguns incêndios. De parte dos sitiantes houve dois mortos e vários feridos, de parte dos guerrilheiros, um morto, um suicídio e um preso, ficaram sem munições. Que cada um tire daqui as conclusões e valentias que quiser.
 
Mas não termina aqui e, a notícia continua: « (…) também foram presos, por fazerem parte do bando ou por encobrirem, dezassete homens e quatro mulheres – a amante, a mãe e duas irmãs do Juan Salgado Rivera (…)» - aqui a única verdade é a de que foram realmente presos os dezassete homens (até mais) e as 4 mulheres, mas todos eles eram gente do Cambedo e não faziam parte do tal  “bando”, nem sequer eram familiares de Juan, como afirma a notícia.
 
Sobre o Juan, que até ser “fuxido” e ingressar na gerrilha antifranquista, sempre tinha sido contrabandista, agricultor e tocador de cornetim “O Século” na edição de 23 de Dezembro promove-o a Alcaide (equivalente ao nosso Presidente de Câmara): «(…) O Rivera foi alcaide de Léon, Espanha, quando da guerra civil, e tinha no seu activo mais de duzentos assassinos, dirigindo um bando comunista (…)» por sua vez, Manuela Garcia, na mesma edição de “ O Século” é apelidada de “espia do bando”. Mais à frente, a respeito das forças militares sitiantes diz o seguinte: «(…) Segundo afirmou o sr. Capitão Medeiros, um dos organizadores do ataque a Cambedo, nenhum dos habitantes da localidade ficou ferido, tão bem planeada foi a operação levada a cabo (…)» - Já Silvina Feijó, felizmente ainda viva, não diz o mesmo, aliás ainda tem a cicatriz e sofre das mazelas do tiro que então levou numa das pernas quando tinha apenas 12 anos de idade, para não falar das três casas que foram destruídas com os morteiros, dos palheiros incendiados. Mas a melhor de todas (na mesma edição) é quando afirma: «(…) entre outras proezas de vulto, os bandoleiros haviam planeado um assalto à cidade de chaves.(…)». Já sabemos que os três, ou melhor, dois guerrilheiros (pois o Juan foi morto nas primeiras horas), resistiram ao cerco de mais de mil militares durante dois dias e, só se renderam quando ficaram sem munições,  agora esta de (os três) planearem um ataque à cidade de Chaves, éra mesmo uma proeza de vulto.
 
No dia seguinte, “O Século” continua com a novela e chega a afirmar: «(…) Soubemos que o companheiro do Juan Salgado Rivera que tentara a fuga com aquele e que consegui escapar à perseguição das autoridades, esteve ontem em Cambedo, tranquilamente(…)» Sim, sim! Além de o Juan ter fugido sozinho, pois nunca se confirmou a presença de um quarto guerrilheiro no Cambedo e o presumível quarto guerrilheiro tratava-se do filho de Engrácia Gonçalves, que também foi preso, e que apenas saiu à rua quando o Juan iniciou a fuga a partir de sua casa, onde tinha pernoitado. Mas ainda há mais «(…) parece averiguado que os mais temíveis bandidos eram o Juan Salgado Rivera, que morreu durante a luta, e o Demétrio Garcia Prieto, que está preso. Qual quer deles era pessoa que não vacilava em abater fosse quem fosse, para levar a cabo os seus desígnios.(…)» Quanto ao jornal «O Século», ficamos por aqui, embora a novela ainda tivesse continuação no dia 27 de Dezembro.
 
E os jornais locais o que disseram!?
 
Um deles, o ERA NOVA, mais próximo do regime Salazarista o tal cujo director era o Luís Borges Júnior,  não sabemos, pois após buscas do mesmo na Biblioteca Municipal de Chaves, não conseguimos encontrar um único exemplar desse ano, ou desses anos. Quanto ao «Comércio de Chaves», que fazia questão de na primeira página, no cabeçalho, meter a nota : Visado pela Comissão de Censura, reproduzimos na integra a noticia, também de 1ª página, com o pouco ou quase nade que disse sobre o assunto:
 
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Em nenhuma das notícias a que tive acesso, os guerrilheiros do “Cambedo” foram tratados como tal. Faço minhas as palavras de Paula Godinho ao respeito, na Revista História, nº27 de Dez, 1996: «…Esta passagem pela forma como a imprensa relatou os acontecimentos no Cambedo, se não pode deixar de nos lembrar a apertada malha da censura, não deixa todavia de nos interrogar sobre a carga que o regime pretendeu retirar aos acontecimentos. (…)» quando «(…) é indubitável o alinhamento político dos elementos deste grupo, herdeiro do exército republicano (…)».
 
 
Outra coisa não se poderia esperar do que diria a imprensa da época.
 
Mas mesmo após o 25 de Abril e alguma luz feita sobre o assunto, ainda há escrita da imprensa, que hoje até se diz livre e informada, que às vezes gosta de lançar confusão sobre o assunto. José Amorim num editorial que denominou "A guerrilha da fome", interpreta os factos ocorridos em Cambedo de uma forma que merece ser destacada,
 
"O que dizem os factos é que a Espanha estivera em guerra civil de que Portugal, graças a Deus, se viu livre, por mérito de um governante que se chamou Salazar (...) Como consequência dessa guerra surgiram os homens armados que para sobreviverem não olhava a meios. Recorde-se o assalto à camioneta de passageiros Braga - Chaves e a morte de soldados da GNR abatidos na sua missão (...)Os Transmontanos esperam um relato isento desse episódio bélico que pôs em alvoroço as gentes da nossa região"
(Amorim, 1987).
 
Daqui se poderão tirar algumas conclusões e compreender o porque de as gentes do Cambedo abordam sempre o assunto com desconfiança e medo.
 
«A verdade verdadeira nunca foi contada sobre o Cambedo» foi-me dito por um dos filhos do Cambedo e que desde o inicio deste trabalho me tem de certa forma perturbado. Um facto é que há uma vontade expressa por parte de toda a gente que tem alguns conhecimentos sobre os acontecimentos em não falar sobre o assunto. Quer-se um assunto esquecido, tanto que até parece haver interesses nesse esquecimento.
 
Os factos históricos da época revelam bem quem eram os espanhóis do Cambedo. Da minha parte não tenho qualquer dúvida que eram “fuxidos” e guerrilheiros que lutavam por uma Espanha livre e democrática, a mesma que tinha saído das urnas e que a direita e mais tarde Franco nunca aceitaram. Esta realidade sempre foi escondida e deturpada aos olhos do povo português, um povo que na época também estava a pagar os males de duas guerras que não eram suas. Reduzir os guerrilheiros que lutavam por Espanha contra Franco a bandidos e atracadores era a maneira mais fácil de retirar toda a carga política sobre a questão além de vir a justificar acontecimentos como os que ocorreram no Cambedo. A mesma carga política já não é retirada sobre o povo do Cambedo e sobre os envolvidos, principalmente por parte da PIDE quando as gentes do Cambedo passam a ser tratados comos os “vermelhos do Cambedo” e todos os seus passos a ser seguidos.
 
E a amnésia, com a mesma raiz semântica que amnistia, faz equivaler o esquecimento ao perdão (Aguilar, 1996:47). O sublinhado é meu.
 
É verdade e, eu sou testemunha disso. As gentes do Cambedo preferem a amnésia e o silêncio a estarem nas bocas do mundo, principalmente quando os acontecimentos do Cambedo foram e às vezes, ainda são, intencionalmente distorcidos, mal interpretados e servem de pretexto para exorbitar velhas memórias, que essas sim, mereciam ser esquecidas, ou melhor, ignoradas.
 
E termino por aqui aquela que foi a “grande reportagem” deste blog, em homenagem e dedicada ao povo do Cambedo e, termino como os amigos galegos o homenagearam:
 
« EM LEMBRANÇA DO VOSSO SOFRIMENTO»
 
A partir de amanhã o blog voltará à normalidade do costume. Contudo fica em aberto um novo blog que dá pelo nome de “Cambedo Maquis”, onde continuarei a registar o evoluir das descobertas e da escrita sobre o Cambedo e os Guerrilheiros Antifranquistas da raia portuguesa. Um blog aberto à participação de todos quantos nele queiram participar e colaborar.
 
E para terminar esta aventura sobre o Cambedo só resta mesmo agradecer a todos quantos de uma ou outra forma, directa ou indirectamente colaboraram e tornaram possível este “trabalho” sobre a tentativa de contribuir para a despenalização e as verdades do povo do Cambedo, dos guerrilheiros antifranquistas que abrigaram e da vergonhosa batalha de 20 e 21 de Dezembro de 1946.
 
Os meus agradecimentos por ordem alfabética para:
 
Almor Lopes Doutel
António Augusto Joel
Arlindo Espírito Santo
Artur Queirós (bibliografia)
Bento da Cruz (bibliografia)
Carlos Lopes
Carlos Silva
Florinda Pinheiro
Irmã Maria do Carmo
João Madureira
José Fernandes Alves (bibliografia)
José Garcia Salgado
Paula Godinho (bibliografia)
Paulo Alexandre Lopes
Presidente da Junta de freguesia de Sanfins da Castanheira
Risco da Vinha (bibliografia)
Sebastião Salgado
Silvina Feijó
 
Até amanhã, de regresso à normalidade deste blog e à cidade de Chaves.
 
publicado por Fer.Ribeiro às 01:42
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Sábado, 22 de Dezembro de 2007

Cambedo - Dia 11 - Sequelas e Mazelas

SEQUELAS E MAZELAS DEIXADAS AO POVO DO CAMBEDO
 
Claro que a partir de dia 21 de Dezembro de 1946 o Cambedo não poderia continuar igual. Um campo de batalha deixa sempre as sua mazelas e no Cambedo deixou-as, quer fisicamente com a destruição de algumas casas e bens, que ainda hoje estão em ruínas, quer nas pessoas, principalmente nestas, deixou nelas depositadas mazelas, muita injustiça e até perseguição continuada ao longo dos anos.
 
 
No rescaldo do dia 20 e 21 da Batalha do Cambedo, foram presos mais de sessenta pessoas, sendo 63 indiciados no processo da PIDE nº 917/46, segundo a PIDE, por cumplicidade com o bando de malfeitores, por acolhe-los em suas residências e, ainda acusados de apoio à rebelião armada. Destes sessenta e tal, mais de trinta, nos primeiros dias e meses foram postos em liberdade condicional ou definitiva e os restantes julgados no Tribunal Militar Territorial do Porto durante o mês de Dezembro de 1947. O julgamento contou com quatro audiências e a sentença foi lida no dia 12 de Dezembro de 1947.
 
Não bastou o terror lançado sobre o Cambedo durante os dias 20 e 21 de Dezembro de 1946, como ainda muita da sua gente foi presa e torturada pela PIDE. Mesmo que grande parte tivesse vindo a ser posta em liberdade, passaram pela humilhação das prisões, como de criminosos se tratasse.
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Se para o Demétrio era fácil adivinhar-se uma pesada condenação, não só pelas acusações de pertencer a um bando de malfeitores, mas também pela resistência às autoridades e a morte de dois Guardas Republicanos, adivinhava-se também condenação para aqueles que lhes deram abrigo.
 
Se houve condenações que justas ou injustas eram esperadas, já o mesmo não se poderá dizer do caso de Silvino Espírito Santo, de 51 anos, 2º cabo da Guarda-Fiscal reformado, natural de Pitões e residente no Cambedo em frente à casa onde estava abrigado Demétrio e Garcia. Talvez o únicos “crimes” de Silvino E.Santo fosse estar casado com Clementina Fernandes que era  prima do Mestre - Manuel Bárcia, ou Ser Guarda Fiscal Reformado, ou ser vizinho do Mestre, ou então conhecer o Juan e o Demétrio de há longos anos, como aliás toda a população do Cambedo conhecia. À sua prisão e posteriores acontecimentos não é estranha a mão do Capitão Luís Borges, o tal que foi presidente da Câmara, administrador do concelho de Chaves, inspector delegado da Polícia Internacional (PIDE), instrutor da Legião Portuguesa e director do tal jornal Era Nova.
 
A respeito dos Guardas fiscais envolvidos no processo, Paula Godinho refere na Revista História:
 
“Vários aldeões são acusados de acolherem o «bando de malfeitores», ou de com eles serem coniventes. Entre estes, salientam-se os agentes da Guarda Fiscal, integrando quatro deles este processo. A lógica subjacente à sua actuação , que respondeu às obrigações inerentes a alianças dentro da comunidade e com povoações dos arredores, conduzia-os a uma cumplicidade passiva, por não denunciarem a presença de refugiados. Teria de ser punida exemplarmente. Assim é com elementos do posto de Cambedo da Raia, como Silvino Espírito Santo, cabo da Guarda Fiscal nascido em Outubro de 1892, na povoação raiana barrosã de Pitões das Júnias, onde se familiarizara desde cedo com a convivência dos povos de um e outro lado da linha de demarcação. Partira para Lisboa depois da morte precoce do pai, alistara-se na GF, e como elemento desta força fora colocado em Cambedo da Raia, onde casou. Seria talvez o único habitante da aldeia a ler «O Primeiro de Janeiro» e também a «Gazeta do Sul», que assinava. Tornou-se alvo do despeito do capitão Luís Borges, principalmente pela indiferença adoptada relativamente à circulação de guerrilheiros galegos. Preso quando já se reformara como 2º Cabo, «por suspeita de fazer parte de uma associação de malfeitores» (tal como a restante gente do Cambedo presa), ficaria detido por 11 meses. Foi despromovido no Tribunal Militar e após 36 anos de serviço sem falhas de comportamento foi-lhe suspensa a pensão. Aquando da sua detenção, foi acompanhado pela esposa, Clementina Tiago, pela irmã desta, Albertina Tiago, pelo cunhado Júlio Lopes (também da Guarda Fiscal) e pelo filho mais velho, Domingos Espírito Santo, que se encontrava na tropa, e esteve um ano sem julgamento em presídio militar.”
 
Só da família de Silvino Espírito Santo foram 5 pessoas presas. Sem dúvida alguma que foi uma das famílias mais injustiçadas no caso do Cambedo da Raia, prendendo os seus e deixando Silvino Espírito Santo, mulher e 5 filhos sem a pensão de reforma que se adivinha, era o sustento da casa.
 
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Vejamos quem foram alguns desses detidos e quais as penas que apanharam:
 
1 – Demétrio, condenado a 28 anos de degredo (já atrás no capítulo a ele dedicado deixei um pouco da sua vida);
 
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2 – Os espanhóis componentes do bando e julgados à revelia, 4 anos de degredo;
 
3 - Silvino João Domingues, 4 anos de degredo;
 
4 – José Pereira, 2 anos e meio de degredo;
 
5 – Manuela Garcia Álvares, irmã de Demétrio e mulher do Manuel Bárcia, natural de Chãs, Verin, mas a residir no Cambedo desde que se casara. Absolvida. Saliente-se que os que foram absolvidos já tinham passado pelo menos 13 meses na prisão.
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6 – José do Nascimento Barroso, 20 anos, solteiro, filho da viúva Engrácia. 2 anos de degredo, substituídos por 18 meses de prisão correccional;
 
7 – Guilherme Pereira, 2 anos de degredo, substituídos por 18 meses de prisão correccional;
 
8 – António Lavouras, 2 anos de degredo, substituídos por 18 meses de prisão correccional. Esta família, que não era do Cambedo, mas sim de Mosteiró de Cima (Valpaços) e residente em Nantes, também viu os seus todos presos, como a mulher, Saudade Lavouras e a filha, além de alguns vizinhos.
 
9 – Engrácia Gonçalves, 2 anos de degredo, substituídos por 18 meses de prisão correccional;
 
10 – Isilda dos Anjos, 2 anos de degredo, substituídos por 18 meses de prisão correccional;
 
11 – Adelaide Teixeira, 2 anos de degredo, substituídos por 18 meses de prisão correccional;
 
 
12 – Assunção Ribeiro Carvalhal, 31 anos, Natural de Chãs, Verin, casado no Cambedo, absolvido;
 
13 – Albertina Tiago, 46 anos, solteira, natural e residente no Cambedo, absolvida;
 
14 – Escolástica Fernandes, de 55 anos, solteira, do Cambedo, absolvida;
 
15 – Adolfo Gonçalves, 45 anos, casado, do Cambedo, absolvido;
 
16 – Silvino Espírito Santo, 51 anos, 2º cabo da Guarda-Fiscal, natural de Pitões e residente no Cambedo, já foi atrás referido que além da prisão preventiva, foi despromovido e retiraram-lhe a pensão de reforma.
 
17 – João Manuel Afonso Pereira, 31 anos, Guarda-Fiscal, oriundo de Vilar de Veiga e casado em Soutelinho embora residente no Cambedo onde prestava serviço, embora absolvido no Tribunal Militar do Porto. Foi condenado a 40 dias de prisão pelo Comando da Guarda Fiscal e transferido de posto.
 
18 – Primitivo Garcia Justo, cinquenta e nove anos, casado, lavrador, natural e residente em Chãs, pai de Demétrio. Embora haja documentação que afirma que teria acompanhado o seu filho Demétrio ao longo de alguns anos de prisão, não consegui apurar qual foi a sua condenação.
 
19 – Celsa Garcia Alvarez, 18 anos, solteira, irmã de Manuela e cunhada do Mestre (Barcea). Irmã de Demétrio. Absolvida
 
20 – Casimiro Gonçalves, filho de Engrácia, 16 anos, solteiro. Absolvido;
 
21 – Manuel Bárcia, o Mestre, 34 anos, natural e residente no Cambedo (casa que abrigava Demétrio e Garcia na noite dos acontecimentos). Esteve mais de três anos e na cadeia. Condenado a 2 anos de degredo, substituídos por 18 meses de prisão correccional;
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22 – Joaquim Gomes, também conhecido por Ginja, Joaquim da Serra e Russo, 46 anos, taberneiro, residente no lugar do Funda da Serra em Sanjurge. Absolvido, mas também esteve preso durante mais de um ano a aguardar julgamento. Não foi provado qualquer envolvimento com os guerrilheiros, apenas que serviu por duas vezes um grupo de guerrilheiros a pedido de Manuel Bárcia (seu conhecido), os quais pagaram as refeições e nunca mais os viu.
 
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23 – Maria Alice Pires, 47 anos, mulher de Manuel Valença, do Cambedo. Acusada de ter escondido uma pistola do José Barroso.
 
24 – Joaquim Amaro, 32 anos, Vilarinho das Paranheiras. Acusado de esconder Bárcia.
 
25 – Aurora Barros, de 60 anos, de Nantes. Presa por, na madrugada do dia 20 de Dezembro, ter avisado o casal Lavouras da presença da Guarda-Republicana.
 
26 – Alda Gonçalves Lavouras, filha de António Lavouras e Saudade Lavouras, solteira de dezanove anos. Embora absolvidas, a mãe passou 13 meses na cadeia e a filha perto de 3 meses.
 
27 – Foram ainda absolvidos, depois de 13 meses de cadeia na PIDE do Porto : Celestino Miranda; João Exposto; Saudade Lavouras; David dos Santos Pires; Adelino José; João do Nascimento; José Rente; Vitorino António de Oliveira, o Nacho; Salvador dos Anjos, José Augusto Gonçalves; Armindo Augusto, Florinda Barbosa Pinheiro
 
 
28 – Os espanhóis Eládio Peres Prada, António Perez e Primo Perez Colmero, que acidentalmente estavam no Cambedo com mais dois primos menores de doze anos, Manuel Pardo Perez e Irene Perez Salgado e que naquele dia tinham vindo de compras a Portugal. Que embora detidos com os restantes e conduzidos para o Porto, foram soltos no dia seguinte e conduzidos à fronteira como simples indocumentados. O mesmo aconteceu com os portugueses José dos Santos Lobo, Joaquim Teixeira, Ventura Ferreira Moutinho, Agostinho Gonçalves, António dos Santos Chaves, João SecundinoPires, José Vieira e Boaventura Gonçalves que a PIDE propõe que sejam postos em liberdade em virtude da sua detenção ser apenas uma medida preventiva.
 
29 – Há ainda a considerar o caso do Guarda-Fiscal Octávio Augusto, a prestar serviço no posto do Cambedo na altura dos acontecimento e que após os mesmos foi transferido para o Geres onde se viria a suicidar. Octávio Augusto estava casado com Adelaide, irmã do já mencionado Mestre (Bárcia).
 
 
Quanto à origem das pessoas detidas após o cerco do Cambedo temos por ordem decrescente:
 
- Cambedo – 18 pessoas
- Concelho de Vinhais – 12 pessoas
- Cimo de Vila da Castanheira – 7 pessoas
- Torre de Ervededo – 6 pessoas
- Concelho de Montalegre – 6 pessoas
- Nantes – 3 pessoas
- Concelho de Boticas – 2 pessoas
- Concelho de Valpaços – 2 pessoas
- Vilarelho – 1 pessoa
- Vilela Seca – 1 pessoa
- Vila Meã – 1 pessoa
- Couto de Ervededo – 1 pessoa
- Bustelo – 1 pessoa
- Chaves – 1 pessoa
- Famalicão – 1 pessoa
- Maia – 1 pessoa
 
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Claro que a maioria desta gente, mesmo que não condenada em tribunal, passou pelo menos 1 ano na cadeia a aguardar julgamento e sabe-se lá o que mais não teria passado, conhecida que era a hospitalidade da PIDE que liderou todo este processo.
 
Em conversa com Florinda Pinheiro (a Espanhola ou Galega como é conhecida) que abrigou guerrilheiros em sua casa em Mosteiro da Castanheira, perguntava-lhe há dias se, enquanto esteve presa no Porto (13 meses) alguma vez foi torturada ou mal tratada e, a resposta foi clara: “- A mi, nom, mas ós do Cambedo e Demétrio, sí. Essos sofreram muito, coitadinhos!». Para Florinda Pinheiro, o só ter estado presa durante 13 meses, não foi ser maltratada. Claro que a privação da liberdade já em si é ser maltratada, mas é desculpada por Florinda Pinheiro, pois poderia ter sido bem pior, e hoje, já pouco recorda dos acontecimentos, mas recorda constantemente que esteve 13 meses presa na PIDE do Porto e os maus tratos às gentes do Cambedo e tem saudades de uma amiga que fez na prisão e à qual nunca mais viu, a Saudade Lavouras e das quais deixo aqui uma foto actual de ambas, e já que não se encontram fisicamente, deixo-as aqui juntas em imagem.
 
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Mas, também concordo, que a cadeia até talvez tivesse sido o menos, o pior penso mesmo que foi após todos os acontecimentos, a cadeia e o julgamento. Pior foram as marcas que todos os acontecimentos do Cambedo deixaram a todos os que tiveram de passar pela PIDE e pelas prisões. Marcas e feridas que ficam para sempre e que nem o tempo, muito tempo, ajudam a esquecer e que as gentes do Cambedo preferem remeter para o silêncio ao avivar de velhas feridas por sarar, porque sabem que a verdade, a verdadeira, nunca foi nem será contada e que ainda há hoje quem a deturpe. Verdades que passam pelo castigo de um povo inocente e pela certa, por algum colaboracionismo com sabor a traição (de que eles nunca falam) e estórias que nunca serão reveladas nem convém revelar, mas antes ficar no silêncio das famílias para morrerem com o passar dos anos, pelo menos enquanto ainda houver sobreviventes aos acontecimentos do Cambedo, porque depois, já não haverá ninguém para o contar.
 
Bento da Cruz “lamentava-se” no seu livro, pelo recebimento que teve em Nantes em 2001 quando foi visitar Saudade Lavouras. Diz ele que Saudade Lavouras o recebeu com uma lucidez de espírito e memória de fazer inveja mas, que quando lhe pediu para falar dos espanhóis lhe respondeu: «não me lembro, nem quero saber».
 
Paula Godinho, por sua vez, no seu trabalho sobre o Cambedo, publicado em Dezembro de 1996 no livro «O Cambedo da Raia – 1946» Afirma e transcreve num capítulo que intitula “Memórias, silêncios, amnésias” o sentimento das gentes que passaram pelos acontecimentos do Cambedo, e que acho importante deixar aqui:
 
Memórias, silêncios e amnésias
 
Num retomo a Cambedo da Raia, Vilarelho e Rabal, no Verão de 2001, surpreendi um discurso defensivo por parte de antigos entrevistados. As aldeias haviam mudado, o envelhecimento era maior, menos jovens aí permaneciam. Desde 1996 havia surgido um novo elemento de perturbação na relação da aldeia com o passado. Por quotização pública, um grupo de intelectuais de Ourense erigira uma placa em Cambedo da Raia "Ao pobo do Cambedo, en memoria do voso sofrimento, 23.12.1946-23.13.1996".
Além dos textos que publicara, e daqueles em que vários jornalistas e escritores haviam abordado os acontecimentos de 1946, um realizador português fizera aí um filme, um documentarista galego - também, a televisão galega viera filmar e entrevistar. Numa série sobre o século XX em Portugal a televisão estatal portuguesa dera igualmente relevo aos bombardeamentos e à repressão de 1946.
 
Atendendo ao material que acumulara e nomeadamente aquele que denota o relevo que a polícia política portuguesa deu aos factos, o retrato do grupo em análise inseria-o numa luta política. A estranheza detectada vinha de que os antigos entrevistados pareciam intimidados. Muitos já haviam morrido, uma senhora estava senil no lar de
Vilarelho, em conversas grupais, alguns dos entrevistados enunciavam um discurso em que esperavam não o meu aval - numa retroacção do discurso erudito - mas o meu apoio:
 
Continuando com Paula Godinho, há um relato que lhe foi feito, que para mim resume o “ser do guerrilheiro” nas nossas terras da raia:
 
"Eles eram tão maus como dizem por aí, e tão desordeiros, e tão atracadores, que estavam numa caseta que é minha, e eu tinha 18 anos, era nova, e hoje não, mas na altura diziam que eu que era bonita. Eu ia para lá trabalhar, ia para o gado, íamos regar, e eles vinham por donde a mim. Nunca me deram uma palavra que me ofendessem. Nunca me fizeram mal nenhum. Porque é que hei-de falar mal deles? Eles eram filhos de pessoas como nós, eram filhos de gente que eu conhecia, como é que eles me haviam de fazer mal? Não podiam.(...) Se eles fossem marotos, eu andava ali sozinha, em Calmar, que é um lugar, se fosse agora, com essa mocidade que por ai há, o que não me fariam? E eles nunca me ofenderam. Nunca na vida, nunca! O que eles me diziam às vezes era «Tu vens para cá amanhã? Trazes-nos tabaco?». E eu levava-lhes, e pagavam-me.(...) "O Juan, por exemplo, o Juan, nós íamos de noite e às vezes apareciam-me lá na Carrasca, quando se vai para o Morico, lá na fronteira, e dizíamos assim. «Vamos às batatas, ou vamos...» Íamos á nossa vida, e ele acompanhava-nos, chegávamos lá às Casas dos Montes, e, ficava fora do povo, ali, que ele era de lá. Eu não tenho a mínima queixa para o Juan. Conhecia-lhe a mãe, conhecia-lhe o pai, conhecia-lhe o irmão, ainda agora estive lá com a Lucinda. Não são boas pessoas? O que é que tinha a Ramona, que era irmã dele, que é que tinha? Eles foram aquela coisa." (Gloria Valença, Cambedo, 2001 ).
 
E estamos quase chegados ao fim dos acontecimentos de 1946 e condenações de 1947, curiosamente ambos em Dezembro e pouco tempo antes do Natal.
 
Amanhã, o último dia dedicado ao Cambedo passará por aqui o que foi dito em alguma imprensa da época.
 
Até amanhã!.
publicado por Fer.Ribeiro às 00:00
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Sexta-feira, 21 de Dezembro de 2007

Cambedo - Dia 10 - Segundo e último dia de Batalha

 

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Cambedo, dia 21 de Dezembro de 1946.
 
Vamos então ao segundo e último dia da Batalha do Cambedo.
 
(continuamos com as palavras de Bento da Cruz)
 
A aurora encontra o Cambedo transformado em campo de batalha: quartel-general, elementos de ligação entre os vários sectores, tendas de campanha, trem de abastecimentos, apoios logísticos, posto de primeiros-socorros.
 
Aperta-se o cerco à antiga morada da família Bárcia, agora subdividida em três facções autónomas: a do Mestre, a da sua irmã Adelaide, casada com um guarda-fiscal de nome Octávio e a da sua prima Albertina: todas elas contíguas e comunicantes entre si pelos respectivos quinteiros.
 
O pide Vitorino Aires, um agente da PSP e um guarda-republicano conseguem entrar nos baixos da casa da Albertina. Mas ao tentarem subir ao primeiro piso, ouvem zunir as balas rente às orelhas e põem o corpinho a salvo.
 
Então o comandante manda evacuar todas as casas em volta do quarteirão dos Bárcia, que vai ser bombardeado.
 
Os soldados de Caçadores 10 instalam-se num morro rochoso sobranceiro à povoação, a uns cento e cinquenta metros para nascente, e despejam uns trinta morteiros sobre o alvo.
 
 
A folhas tantas, aparece um homem de pistola-metralhadora em punho em cima dum telhado. Os artilheiros apontam-lhe os canhões. O homem desaparece. Os morteiros calam-se. O silêncio no quarteirão é tão profundo e prolongado que todos se convencem de que os bandoleiros estão todos mortos.
 
Aperta-se de novo o cerco. O pide Vitorino Aires e três polícias adiantam-se para o reconhecimento. São recebidos a tiro e recuam. Felizmente para eles, sem mazela de maior. Apenas um pequeno arranhão na face do pide, causado por uma pequena lasca de pedra que saltou sob o impacte de uma bala. À vista disto, o comandante manda alargar de novo o cerco. E os morteiros recomeçam.
 
A dado momento, grande alarido do outro lado da rua. O comandante manda fazer sinal aos soldados para suspenderem o bombardeamento e acorrem todos a ver o que era. Um rebo, que um morteiro fizera saltar de um muro, atingira um agente da PSP no peito.
 
Correm com ele em charola para o posto médico.
 
Reata-se o bombardeamento.
 
Ao cabo de uns setenta morteiros despejados sobre o quarteirão, dele não restam mais que ruínas fumegantes.
 
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Um dos morteiros disparados no bombardeamento que não rebentou e foi posteriormente desarmado.
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É tempo de apalpar de novo o terreno. Ansiosos por mostrar serviço e subir na hierarquia, os pides estão sempre na brecha. Vitorino Aires, acolitado por um grupo de agentes da PSP e guardas-republicanos mais afoitos, entra no pátio da Albertina e descarrega uma rajada de pistola-metrelhadora contra uma porta que ainda se encontra intacta e fechada.Como ninguém responde, avança para ela.
 
De chofre, vem detrás da porta uma descarga traiçoeira. O pide dá um corcovo instintivo para o lado e corre para trás de uma parede. Sente um arrepio na perna esquerda. Levanta a perna da calça para ver o que era. Uma bala que lhe varara a coxa de lado a lado, logo acima do joelho. «Olha que sorte!» - suspira ele, ao reparar em mais cinco buracos no sobretudo... Como certos animais que se encarniçam à vista de sangue, volta à carga, desta feita contornando o muro pelo lado de fora, não fosse o diabo tecê-las. Repara num rombo de morteiro na parede, que se lhe afigura no enfiamento da porta donde havia sido alvejado. Mete o cano da pistola-metralhadora no buraco e despeja o carregador.
 
Enquanto aguarda resposta, ouve alguém gritar:
 
- Lá vai um!
 
Volta-se e enxerga um indivíduo a fugir em direcção ao monte. Lança-se-lhe no encalço. Mas já um guarda-republicano traz o homem catrafilado pela gola do casaco. Apenas um pacífico habitante do Cambedo que, aterrorizado com tanto morteiro e tanto tiro, dera às de Vila Diogo.
 
Como a perna continuasse a sangrar, o pide requisita uma toalha e atalha. Os camaradas levam-no, quase à força, ao posto de primeiros-socorros. Um médico faz-lhe o primeiro tratamento e aconselha a evacuação para o hospital de Chaves. O ferido jura que não sai do Cambedo sem se vingar. E volta ao campo de operações.
 
Mas eis que a perna se lhe inteiriça e recusa a andar. Embora contrariado, o Vitorino Aires consente na evacuação.
 
A esse tempo, já os agentes da PSP especializados em bombas incendiárias haviam conseguido lançar fogo ao que restava do palheiro e afins. Do montão de ruínas restam apenas um lagar e um pequeno forno intactos, a poucos metros um do outro. Conseguem colocar metralhadoras no enfiamento dessas dependências. Estabelece-se um pingue-pongue de tiro vai, tiro vem, que parece nunca mais ter fim.
 
Pelas dezasseis horas surge, ao cimo das escadas da casa contígua à da Albertina, um sujeito de certa idade. Prendem-no. É Primitivo Garcia Justo, pai do Demétrio. Enquanto o interrogam, o ataque ao lagar e ao forno intensifica-se. Descargas de metralhadora, granadas de mão, bombas incendiárias, disparos de carabina. Os espanhóis vão respondendo. Parcimoniosamente, como quem poupa munições. Até que se calam de vez. Os atacantes suspendem o fogo e aguardam, prudentemente.
 
Nisto, aparece à boca do forno um lenço branco. Pouco depois sai o Demétrio, de mãos no ar. Primeiro algemam-no. Depois esbofeteiam-no. Perguntam-lhe pelos companheiros. Responde que lá dentro está só o cadáver do seu camarada Garcia, que se tinha suicidado. (…)”
 
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Acho que depois de tudo isto que é dito por Bento da Cruz, está mesmo tudo dito, ou quase. Façamos então o resumo dos acontecimentos:
 
Uma aldeia da raia com o nome de Cambedo Raia, 89 fogos, 310 habitantes, 3 guerrilheiros. Cercada por ambos os lados da fronteira por mais de 1000 militares e PIDE. Na batalha, os 310 habitantes civis recolhem-se como podem no entanto uma criança é ferida. Mais de 1000 militares (portugueses e espanhóis) primeiro contra 3 guerrilheiros. Nas primeiras horas de dia 20 Juan é morto, restam 2 guerrilheiros. O combate continua e dura quase 48 horas (mais de 1000 contra 2). De um lado todo um exército, com armas automáticas e pesadas, do outro, 2 guerrilheiros e no meio disto tudo, toda uma população, crianças, mulheres e homens, aterrorizados.
 
Resultado do fim de batalha: Dos três guerrilheiros - 1 é morto (Juan), 1 guerrilheiro suicida-se (Garcia), 1 guerrilheiro rende-se (Demétrio). De parte dos mais de mil militares – dois militares da GNR mortos ( José Joaquim e José Teixeira Nunes) e alguns feridos (poucos), um em estado grave. De parte dos civis, uma menina ferida (Silvina Feijó) com um tiro numa perna. Três casas destruídas e vários palheiros incendiados…e muita gente presa.
 
Tirem daqui as conclusões que quiserem. Eu estou com um dos naturais do Cambedo que há dias me dizia – «Uma vergonha, aquilo foi uma vergonha!»
 
Na realidade a batalha do Cambedo foi uma vergonhosa, desigual, pouco inteligente e evitável batalha na qual os inocentes e civis do Cambedo, foram apanhados sem serem ouvidos, nem achados e nem mesmo considerados. Uma vergonha batalha para os regimes de então, de um e outro lado da fronteira. Vergonha para a PIDE que teve de recorrer a todas as forças militares e militarizadas, exército com armamento pesado e digno de uma guerra a sério contra apenas três guerrilheiros, que lhes deram luta enquanto tiveram munições. Para estes últimos, guerrilheiros, vai a honra e valentia da batalha do Cambedo, guerrilheiros que lutaram até à última bala por uma Espanha livre e que deram a vida por ela, excepção para Demétrio, que não perdeu a vida com a morte, mas perdeu-a como homem livre, mas que mesmo preso, desterrado e torturado pela PIDE nunca vergou e sempre mostrou a postura de “Um Senhor” que lutou pela liberdade.
 
Bento da Cruz numa das passagens do seu livro diz que ninguém ia a contar com mortes, também eu estou em crer que sim, que a PIDE pensou que o assunto do Cambedo era “trigo limpo, farinha Amparo” e menosprezou a força de quem luta por uma causa e até pela própria vida e quando se deparam com a resistência dos guerrilheiros, de entre todas as opções que poderiam ter tomado, optaram pela menos correcta e da qual resultaram 4 mortes e vários feridos, além da destruição de várias casas, palheiros e bens materiais, além do mais grave de tudo, terem aterrorizado toda uma população e ter feito de uma pacata aldeia um autêntico campo de batalha, com recurso ao exército e às suas armas pesadas. Aquilo que foi uma vergonhosa, desigual, indigna e precipitada batalha, sem respeito pela gente inocente do Cambedo (mulheres e crianças) e pelos seus bens, resultou no fim dos acontecimentos e oficialmente numa gloriosa vitória, com promoções e condecorações enquanto que para o povo do Cambedo, em vez de um justo pedido de desculpas, foram presos, obrigados a arcar com as culpas e vergonhas, marcados como vermelhos e perseguidos durante mais três décadas, quando a sua única culpa foi terem, inocentemente, sido hospitaleiros e terem no seu seio vizinhos, amigos e familiares.
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Ainda hoje perduram as ruínas da batalha de dia 21 de Dezembro de 1946
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Já passaram 61 anos sobre os acontecimentos do Cambedo e nunca foi feita justiça ao povo do Cambedo. Silvina Feijó arcou toda a sua vida com um ferimento de “guerra” que lhe deixou mazelas desde os seus 12 anos de idade, nunca foi compensada por isso nem sequer teve um pedido de perdão. Silvino Espírito Santo foi privado da sua reforma, tinha mulher e cinco filhos, era o seu sustento e nunca foi provado qualquer envolvimento com a guerrilha, mas era Guarda Fiscal reformado, vizinho e familiar da família de Demétrio, razões mais que suficientes para aos olhos do estado de Salazar ser culpado e privado da sua reforma. 18 pessoas do Cambedo foram presas e torturadas pela PIDE e embora alguns tivessem saído em liberdade, passaram meses nas masmorras da PIDE.
 
Curiosamente após o 25 de Abril, o povo do Cambedo, os envolvidos, perseguidos e prejudicados, em vez de reivindicarem justiça, humildemente, entraram em estado de amnésia e puseram uma pedra sobre os acontecimentos de 1946. O esquecimento já era por si uma bênção, mas o povo do Cambedo nunca voltou a ser o mesmo.
 
Estranhamente (ou talvez não) por parte das autoridades e personalidades do pós 25 de Abril, quer nacionais quer locais, também nunca houve um abordar dos acontecimentos do Cambedo, foi como se sobre esta aldeia e o seu povo tivesse caído um enorme manto de silêncios e nada tivesse acontecido no Cambedo, pois nunca houve uma simples palavra que fosse, oficial, a pedir desculpas ao povo, que foi mártir, desta aldeia.
 
A pouca justiça que tem sido feita ao Cambedo e mostras de solidariedade, vêm curiosamente do lado Galego e de um ou outro escrito, iniciativa individual, como o de Paula Godinho, ou escritos sobre a guerrilha anti-franquista que passam obrigatoriamente pelo Cambedo, como os de Bento da Cruz. Honra lhes seja feita e na qual este blog bebeu muita da informação existente sobre o Cambedo.
 
Lamentavelmente, que eu tenha conhecimento, nunca da parte da Câmara Municipal de Chaves nem de parte dos nossos nobres historiadores locais houve qualquer interesse sobre os acontecimentos do Cambedo, aliás até há queixas de alguns interessados locais que tinham intenções de se debruçarem sobre o assunto, em nunca terem qualquer apoio ou intenção de apoio para projectos e estudos sobre o Cambedo.
 
Desde o início deste trabalho que disse que o meu olhar sobre o Cambedo é um olhar apaixonado de uma descoberta que fiz percorrendo os caminhos do Juan, o tal que povoava as histórias da minha infância. Descobri o Cambedo sem ter qualquer ligação a esta aldeia e pelo mero acaso do Juan, mas desde início que fiquei surpreendido com os silêncios e as injustiças cometidas com o seu povo. Silêncios que surpreendem tanto que até alguns dos novos descendentes do Cambedo desconheciam os acontecimentos de 1946, tal como a grande maioria da população deste concelho. Espero que nestes dias tivesse dado a conhecer um pouco das verdades possíveis do Cambedo e de como o seu povo tem vivido os seus silêncios e que tal como diz a placa que os Galegos colocaram no Cambedo, entendam também estas minhas palavras como “Uma lembrança ao sofrimento do Povo do Cambedo”.
 
Mas ainda não termina aqui esta série sobre o Cambedo, pois ainda vão passar por aqui nos dois próximos dias, em jeito de homenagem, os nomes, sequelas e mazelas deixadas no povo do Cambedo e também um pouco de como a imprensa da época tratou os acontecimentos.
 
Até amanhã, vésperas de Natal e fiquem também no vosso imaginário (em jeito de reflexão) com o Natal de 1946 das gentes do Cambedo.
 
publicado por Fer.Ribeiro às 03:31
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Quinta-feira, 20 de Dezembro de 2007

Cambedo - Dia 9 - Primeiro dia de Batalha

 

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Cambedo, dia 20 de Dezembro de 1946, 1º Dia da Batalha.
 
Faz hoje precisamente 61 anos em que os acontecimentos do Cambedo têm início e se dá o 1º dia da Batalha.
 
Oficialmente sobre a Batalha do Cambedo há os relatórios da GNR e da PIDE, feitos à maneira oficial da altura em que se relatava aquilo que convinha e era conveniente relatar, o politicamente correcto para ser oficialmente aceite e também tendo em vista (claro) a promoção dos relatores. Quanto à imprensa da altura, relatava-se o que era dito pelas autoridades de então, mas sobretudo inventou-se, especulou-se e denegriu-se a imagem dos guerrilheiros, que nunca foram tratados como tal, ou seja, disse-se o que era oficialmente aceite pelo regime de Salazar ou que convinha ser dito e a mais não se atreviam e mesmo que se atrevessem seria censurado. Mais à frente, num próximo post, passará por aqui o que foi dito sobre os acontecimentos do Cambedo:
 
 
E assim foi até aos anos 80 em que apenas existiam por um lado os relatos oficiais da PIDE e do sistema e pelo outro, os silêncios do Cambedo (dos vermelhos como eram rotulados). Quanto a documentação sobre o assunto só a oficial, em arquivo, na qual nunca ninguém se tinha atrevido mexer, até então.
 
Pela documentação e publicações a que tive acesso, Jorge Fernandes Alves – Cadernos Culturais 2 – «O Barrosos e a Guerra Civil de Espanha», Edição da Câmara Municipal de Montalegre, 1981, teria sido o primeiro a mexer no tema e na guerrilha antifranquista da raia e, a trazer a lume algumas verdades até então nunca ditas. Logo seguido pelo jornalista Artur Queirós e Paula Godinho que fez um excelente trabalho de levantamento sobre os guerrilheiros e o Cambedo e, ainda Bento da Cruz, sobre todos os guerrilheiros e guerrilha na raia portuguesa, sobretudo no Barroso, tal como José Dias Batista. Todos eles com trabalhos interessantes sobre a guerrilha antifranquista. Depois os já mencionados documentários, televisão, filmes, homenagens, mais publicações e por aí fora… Aos poucos ia-se desvendando algumas (sublinho algumas) verdades-verdadeiras sobre o Cambedo, sobretudo com testemunhos das pessoas que viveram directamente os acontecimentos. No entanto, ainda hoje me dizem pessoas do Cambedo, que a verdade (toda a verdade) nunca foi contada e talvez nunca venha a ser contada, pois já restam poucos sobreviventes directamente intervenientes nos acontecimentos, e os poucos que ainda estão vivos preferem remeter-se ao silêncio.
 
Mas estou a desviar-me do assunto deste capítulo e que é o primeiro dia da Batalha do Cambedo.
 
São sete horas da manhã de 20 de Dezembro de 1946, o Cambedo ainda dorme mas está cercado por ambos os lados da fronteira, pelos militares fiéis a Franco (do lado espanhol) e por militares portugueses (PIDE, GNR, Guarda Fiscal, PSP, e mais tarde o Exército) prontos para lançar o ataque à aldeia. Demétrio, Garcia e Juan, dormiam. Juan em casa de Engrácia Gonçalves, Demétrio e Garcia em casa da irmã de Demétrio a casa do Mestre, Manuel Bárcia, dormiam com uma única preocupação: - a matança do porco prevista para essa manhã, fria, gelada. O cão do Mestre (cão de contrabandista sempre atento a todos os sinais estranhos (sic Artur Queirós) começa por dar o sinal de que algo estranho se passava. O Mestre desperta e apercebe-se do cerco. Avisa Demétrio e Garcia…
 
A partir de aqui seguimos o que é relatado por Bento da Cruz no seu livro “Guerrilheiros Antifranquistas em Trás-os-Montes”
 
 
 
“(…) Eles nisto, ouvem-se tiros nas traseiras da casa da Engrácia. Acodem todos ao local.
 
Otelo Puga (PIDE) vangloria-se de, e passo a citar «por intuição defensiva, fi-lo, por nossa felicidade, recuando e de pistola-metralhadora aperrada.
 
Pelo que, depressa me apercebi de que dois indivíduos, com carabinas em bandoleira e com pistolas na mão, fugiam por entre umas pilhas de achas de pinho, que se encontravam a cerca de trinta metros de nós, juntas a umas medas de palha, num quinteiro defronte da casa de onde tinham partido os primeiros tiros».
 
Desfecha-lhes uma rajada. Os fugitivos atiram-se ao chão e ripostam.
 
Mota de Freitas, Joaquim Alves e o guarda-republicano entrincheiram-se atrás de uma parede e atiram também.
 
Nisto, a palha começa a arder e um dos fugitivos tenta a fuga.
 
Joaquim Alves e o guarda-republicano lançam-se-lhe no encalço.
 
Otelo Puga continua a metralhar e sítio onde o outro se atirara ao chão, não fosse ele alvejar os colegas pelas costas.
 
Num gesto rápido, o primeiro fugitivo volta-se e mete dois tiros numa perna ao Joaquim Alves. O guarda-republicano recua e protege-se. Os outros acodem. Como o segundo fugitivo não tugisse nem mugisse, avançam para ele. Não encontram ninguém. Acorrem a prestar os primeiros socorros ao Joaquim Alves.
 
Mata de Freitas aproveita para despachar um estafeta ao Couto a pedir a comparência das forças para ali destacadas e um outro a Chaves a comunicar ao comandante da Companhia o ocorrido e a pedir o envio de mais forças.
 
Otelo Puga obriga a Engrácia a abrir a porta e a fornecer a identidade dos fugitivos. Ela jura que, lá de casa, não saíra ninguém. Prendem- na.
 
Neste interim, grande alarido lá para a coroa do povo. Mata de Freitas envia dois guardas-republicanos a ver o que se passa. Eles estugam o passo, rua acima. À curva da capela deparam com um grupo quase bíblico: um camponês com um macho pela arreata; um outro em cima do macho, escachapernado na albarda, com uma garotita nos braços; em redor, populares aos gritos.
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A foto actual de Silvina Feijó, 61 anos após ter sido ferida na "Batalha do Cambedo"
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Os GNRs interceptam-nos e inquirem. Falam todos ao mesmo tempo. Que a garota está ferida. Que é preciso levá-la ao hospital. E mostram a perna da menina com a tíbia e o peróneo fracturados e expostos, envoltos numa toalha ensanguentada.
 
E o homem da arreata, pai da menina, explica. Estava ele a aparelhar o macho debaixo da varanda, quando uma saraivada de balas varreu a casa, a toda a largura. Ele cosera-se instintivamente com um poste de pedra. O macho fugira, espavorido. Mas a menina, que estava na varanda a atirar migalhas de pão às pitas, no suflagrante de se recolher dentro da cozinha, tombara na soleira da porta.
 
Os guardas duvidam. A casa atingida ficava bem à coroa do povo, a uns duzentos metros ou mais da casa da Engrácia, donde se haviam disparado os únicos tiros.
 
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Os populares insistem na urgência de levar a menina ao hospital, antes que se escoe em sangue.
 
Os guardas-republicanos deixam passar o trio do macho. Os outros que fossem para casa.
 
Havia ordens de, genericamente, deter todos aqueles que tentassem entrar ou sair da aldeia. Mas este era um caso imprevisto.
 
Levam os dois camponeses e a menina ao comandante. Este reúne o estado-maior. Discutem demoradamente o assunto. Por fim acordam deixar, por especial favor, prosseguir a enferma e os dois acompanhantes caminho de Chaves, a umas três horas de jornada pedestre.
 
E com isto se derretem uns cinquenta minutos, findos os quais se ouvem tiros lá para a fronteira, a cerca de um quilómetro de distância, costa arriba.
 
A operação Cambedo havia sido montada de súcia entre as autoridades portuguesas e espanholas. Mota de Freitas sabia que a raia estava guardada por um forte contingente de guardas-civis. Conjecturou logo que os fugitivos (nessa altura ainda se supunha que fossem dois) haviam esbarrado nas armas espanholas e retrocedido. Ordena a um grupo de guardas-republicanos que bata a colina subjacente à fronteira. E que os outros não descurem as entradas e saídas da povoação.
 
Acabavam de evacuar o pide Joaquim Alves, vem de lá do fundo, de um ribeiro que flanqueia o Cambedo pelo poente, no sentido norte-sul, o eco de um tiro. Mota de Freitas envia um GNR a saber o que se passa. O emissário vai a passo e regressa a correr, todo alvoroçado. Que um dos fugitivos fora morto. Quedam todos entre espantados e surpreendidos. No fundo ninguém ia a contar com mortes.
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Mota de Freitas pergunta se alguém conhece o defunto. Todos o conheciam. Era o Juan, ou Facundo.
 
Neste comenos, chegam os vinte guardas-republicanos que haviam sido destacados para o Couto, sob o comando do sargento Meireles.
 
Pelas onze horas principia a revista às casas. A primeira é a da Engrácia. Não topam nada de especial.
 
Passam à do João Valença, do outro lado da rua. Encontram o José Barroso, filho da Engrácia, deitado numa cama a fingir que ressona. Perguntam-lhe por que razão está a dormir em casa da vizinha, em vez de estar em casa da mãe. O rapaz não atina com uma resposta satisfatória. Prendem-no e passam à frente.
 
Pelas treze horas, iam as buscas por alturas do quartel da guarda-fiscal, ouve-se de novo o ladrar duma pistola-metralhadora. Voltam-se todos para as bandas de onde os latidos tinham vindo. Vêem um guarda-republicano a tropeçar nas próprias pernas, olhos esbugalhados, lívido, sem fala. Rodeiam-no. Ele aponta o pátio da Albertina. Gagueja.
Que haviam entrado três. Dois ficaram lá. Ele salvara-se por milagre. E quem havia atirado? Não vira. Mas parecera-lhe que os disparos haviam saído de um palheiro.
 
Os guardas-republicanos e o pide ainda operacional quedam a olhar uns para os outros, atónitos, incrédulos, hesitantes. E agora?
 
Eis que chegam, vindos de Chaves, os guardas que haviam sido destacados para Nantes, sob o comando do tenente Santos. Com eles vinha o pide Vasco da Rocha Guerra. Parlamentam. Alguém levanta a hipótese de os sitiados se apoderarem das armas, ou mesmo das fardas, dos guardas mortos. Que fazer?
 
Prudentemente, por largo, a coberto de paredes e árvores, cercam um quarteirão de três casas que parecem comunicar umas com as outras.
 
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= Legenda =
1 -  Quartel da Guarda Fiscal
2 - Casa de Silvino Espírito Santo (G.F. Reformado)
3 - Casa de Octávio Augusto, Guarda Fiscal a prestar serviço no Cambedo.
4 - Casas de Albertina Tiago e do Mestre Bárcia, onde Demétrio e Garcia pernoitavam no dia dos acontecimentos.
5 - Anexos (lagar e forno) das casas de Albertina Tiago e do Mestre Barcia, onde Demétrio e Garcia se abrigaram durante a "Batalha"
6 - Pátio das casas de Albertina Tiago e do Mestre Bárcia, onde foram mortos os dois guardas da GNR
7 - Casa onde pernoitava Juan Salgado
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A dada altura, assoma uma cabeça a uma janela. Otelo Puga intima o curioso a recolher-se, se não quer ser alvejado. O curioso recolhe a cabeça, estende o braço e chispa fogo.
 
«Mais uma vez fui bafejado pela sorte...» - deixou escrito o Puga, muito ufano pela esperteza de se ter protegido com a umbreira de uma porta. Os outros protegem-se também. O caso estava a ficar sério.
 
Na bagagem dos recém-chegados de Chaves vinham algumas granadas de mão e bombas incendiárias. O tenente Santos manda incendiar o palheiro. Os engenhos são lançados. O palheiro, porém, resiste. Avançam as granadas de mão. Falham também. Então obrigam o Manuel Bárcia a incendiar o palheiro - «e em meia hora tudo ficou reduzido a cinzas, restando apenas de pé as paredes».
 
Já no pleno uso da língua, o guarda milagrosamente escapo, acusa uma das donas de casa de lhes ter dito que podiam entrar à vontade, que, ali, não estava ninguém. Trata-se de Manuela Garcia Álvarez, irmã do Demétrio e mulher do Manuel Bárcia. Prendem-na. Ela defende-se dizendo que não mentira. Que, em sua casa, não estava ninguém. Se houve tiros e mortes, isso foi no pátio da sua prima e vizinha Alberina Tiago. Perguntam-lhe pelo número de bandoleiros. Ela responde que ignora.
 
Obrigam de novo o Manuel Bárcia, como familiar e amigo dos espanhóis, a ir buscar os dois guardas mortos e respectivas armas.
 
Ele, de início, recusa. Ante a ameaça de fuzilamento, obedece.
 
Mas demora. Arrastar um cadáver ainda quente, de mais a mais de um guarda-republicano, não é tarefa agradável, nem fácil. Gritam-lhe que se mexa. Mas ele não tem pressa nenhuma.
 
Por fim aparece à cancela, às arrecuas, com o morto sopesado pelos sovacos, nádegas, pernas e botas a varrer o cisco do chão.
 
- Para aqui! - gritam-lhe detrás da esquina.
 
Ofegante, o Bárcia alija o cadáver no sítio indicado. Identificam-no. Trata-se do soldado de lª classe do posto da GNR de Chaves, José Joaquim, de 34 anos, solteiro, natural da freguesia da Sé, Lamego. Está crivado de balas de alto a baixo.
 
Gritam de novo ao Mestre que se despache. Mas ele não se dá por achado. De vez em quando alija o cadáver e limpa o suor da testa ao canhão da véstia. Por fim, com um arranco de desespero e revolta, arrasta o outro cadáver para a rua principal, onde o comandante e respectivos lugares-tenentes o aguardam, cosidos com as paredes. Identificam-no: José Teixeira Nunes, 37 anos, natural da freguesia de Oliveira, Amarante, casado e pai de três filhos menores. Apresenta, na região posterior do tronco, nove orifícios correspondentes à entrada de outras tantas balas de calibre 9, disparadas à queima-roupa.
 
Tratam de despachar os dois mortos para Chaves. O tenente Santos aproveita para pedir a comparência do comandante da Companhia e o envio de mais granadas.
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À esquerda (em primeiro plano) Quartel da Guarda Fiscal, à direita os portões do pátio de Arbertina Tiago e do Mestre Bárcia
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Enquanto isto, o tiroteio continua. Impossibilitados de sair de casa, pessoas e animais desesperam. Assustadas, as crianças choram. Espavoridas, as aves fogem das árvores e as galinhas das eiras. Incomodados pelas bombas e pelos tiros, os cães uivam, incessantemente. Apreensivos e tristes com a morte dos dois companheiros, os guardas só desejam uma coisa, que os espanhóis se rendam e o tiroteio acabe. Mas eles não se renderam, tarde fora, até a noite cair.
 
Para evitar que eles se aproveitem das trevas para se evadirem, os sitiantes incendeiam duas medas de palha situadas defronte da casa da Albertina, do outro lado da rua.
 
Neste meio tempo, arribam os guardas-republicanos que haviam sido destacados para Sanfins de Castanheira, sob o comando do tenente Antunes. Com eles, o pide Hélder Cordeiro Alves. Trazem dois projectores eléctricos. Colocam-nos de modo a iluminar as traseiras da casa da Albertina.
 
Entretanto, noite dentro, vão chegando: o comandante da Companhia, capitão Alexandre Medeiros; um destacamento da PSP do Porto, e, com ele, o pide Vitorino Antero Alves; um pelotão de Caçadores 10 de Chaves, especializado em morteiros de campanha.
 
Instalam o comando no quartel da guarda-fiscal, casa de loja e sobrado, com duas janelas. A do norte dá para uma travessa de três metros de largura. Do outro lado ficam duas cancelas contíguas. A primeira de acesso ao eido do Manuel Bárcia; a segunda ao quinteiro da Adelaide Teixeira, de onde, a espaços, vêm rajadas de pistola-metralhadora.
 
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à Direita, Quartel da Guarda Fiscal, ao fundo os portões do pátio de Albertina Tiago e Mestre Bárcia
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O comandante em campo ordena a um agente da PSP, vindo do Porto, que arremesse granadas de gás lacrimogénio sobre o «covil dos bandoleiros» cujo número toda a gente calcula serem seis ou mais.
 
Mas o vento pica do norte e vira o feitiço contra o feiticeiro. Desistem. A noite, sem lua, está gelada. Uns sopram às mãos, outros batem os pés no chão. Há quem, sorrateiramente, deslize para dentro dos pátios, dos estábulos, dos palheiros e se recoste às paredes, armas em descanso.
 
No quartel da guarda-fiscal há uma braseira. Os maiorais avivam as brasas e trocam opiniões. Todos concordam em que eles não têm qualquer hipótese. Ou se rendem ou morrem. É tudo uma questão de tempo.
 
Dos habitantes do Cambedo, raro é aquele que consegue pregar olho. Pelas cinco horas, o palheiro incendiado extingue-se de todo.
 
O comandante recorre de novo a um PSP perito em foguetes luminosos. Estes, porém, chegam ao fim e o dia não há meio de romper.
 
Então o pide Vitorino Aires oferece-se para incendiar outra meda de palha existente no local. O comandante aceita o alvitre. Mas a tarefa não é fácil, dado que o alvo fica no raio de acção das balas inimigas. O Vitorino aproxima-se o mais que pode e lança um fachuco de palha embebido em petróleo. Com tão boa fortuna que a meda se incendeia.
 
O dia está quase a nascer, já é dia de 21 de Dezembro, por isso, só amanhã é que passará por aqui.
 
Até amanhã.
publicado por Fer.Ribeiro às 02:42
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Quarta-feira, 19 de Dezembro de 2007

Cambedo - Dia 8 - A concentração e o Cerco

 

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A CONCENTRAÇÃO, O CERCO E PREPARAÇÃO DO ATAQUE AO CAMBEDO
 
A preparação do ataque ao Cambedo começou muito antes do próprio cerco e ataque.
 
Já aqui foi mencionado que a guerra civil espanhola terminou em 1939. A partir desta data só a guerrilha antifranquista galega e asturiana fazia frente, oposição e mossas ao regime de Franco. Como já aqui foi focado também, muitos dos guerrilheiros galegos procuravam abrigo no lado português da fonteira. Todos nós sabemos também o bom relacionamento que Franco tinha com Salazar e a assinatura entre ambos de um pacto de não-agressão em 1939, pós guerra civil. Daí se poderá concluir que a presença de guerrilheiros antifranquistas na raia portuguesa nunca foi bem vista por Franco, logo também não o seria por Salazar.
 
 
É sabido que tanto a Guarda Fiscal como a Guarda Nacional Republicana locais, principalmente a primeira, inicialmente fizeram vista grossa à presença dos guerrilheiros (ou espanhóis como eram conhecidos então), havendo mesmo o testemunho de casos curiosos como o do Cabo Canavarro, chefe do posto da Guarda Fiscal de Roriz, que deteve em Cimo de Vila dois guerrilheiros (Miguel Candeñas e o Enrique), levou-os para o quartel, confiscou-lhes os isqueiros mandou-os em paz (só a título de curiosidade, para os mais novos, o uso de isqueiros na época estava sujeito a licenciamento, sem o qual não poderiam ser usados). 
 
Já o mesmo não acontecia com a PIDE, mas não era fácil encontrar guerrilheiros que eram acolhidos no ceio das famílias das aldeias e muitas vezes até confundidos com gente de família ou trabalhadores temporários dos campos. Para chegar até aos guerrilheiros, a PIDE disfarçou-se de mendigos e contrabandistas para melhor conhecer os seus movimentos. Por sua vez, do lado espanhol, foram criados grupos de anti-guerrilha, que se vestiam como guerrilheiros e que actuavam como eles, tudo para os desacreditar, pois havia que criar uma má imagem dos guerrilheiros e alimentar a fama de que eles eram bandoleiros, simples atracadores e assassinos, bandidos e em simultâneo (estou em crer), arranjar um nome conhecido de entre eles que personalizasse esse mal do “bandoleiro galego” e, eis que em 16 de Setembro de 1946 se dão três mortes em Negrões (Montalegre), no caso que ficou conhecido como o caso “do Pinto de Negrões”, que foi levado a cabo pelo grupo de guerrilheiros do Girón, com 7 guerrilheiros, entre os quais o Juan (suponho que por conhecer Negrões, a casa do Pinto e o próprio Pinto, com quem tinha trabalhado nas minas de volframio) e o Garcia & Garcia. Ao que tudo leva a crer, estas mortes resultam do cumprimento de uma “sentença de morte” de um “tribunal” de guerrilha, e pela simples razão de o Pinto de Negrões ter atraiçoado a guerrilha ao denunciar durante a guerra civil alguns espanhóis, sendo o último, o caso de um médico espanhol que teria passado pelo Cambedo e depois conduzido até ao Couto de Ervededo e daqui o “Nacho” ter-se-ia encarregue de o encaminhar até caso do Pinto em Negrões e que este, em vez de o encaminhar para Braga/Porto e daí fazer a sua fuga de Portugal, entregou-o na fronteira à Guarda Civil, onde foi fuzilado.
 
Claro que esta não é a história oficial que decorreu na imprensa da época e nos tribunais do Porto e de onde (tudo leva a crer) um inocente de uma aldeia vizinha de Negrões é acusado como mandante e condenado como tal e os bandoleiros espanhóis (leia-se guerrilheiros) como executantes do crime, tudo com base em testemunhos que se iniciavam por “ouvi dizer que…”. Também não ficou claro, nem provado, se os guerrilheiros apenas levavam a intenção de matar o Pinto de Negrões, ou se levariam também a intenção de o roubar. O facto é que não o roubaram e deixando uma avultada quantia de dinheiro em sua casa.
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Finalmente a PIDE encontrava na guerrilha um erro político crasso ao actuarem em terras de Portugal e simultaneamente podiam por fim dar nome e personalizar “os atracadores” num nome, que até já era conhecido na região: O Juan.
 
Embora se saiba que a passagem do Juan pela guerrilha foi breve e nunca foi chefe de nenhum grupo de guerrilheiros, a partir da morte do Pinto de Negrões, o Juan passou a ser a guerrilha em si, ou melhor o “atracador” em si e o chefe de todos os atracadores e atracos, a PIDE encarregava-se da publicidade.
 
Este erro da guerrilha ou de um grupo da guerrilha viria a trazer-lhes trágicas consequências. Começaram por perder os apoios que tinham do lado de cá da fronteira e, aos olhos do povo, deixaram de ser “fuxidos” ou contrabandistas simpáticos, homens de honra até, para passarem a ser olhados com desconfiança e, aos olhos de alguns, como os autênticos bandidos, bandoleiros e atracadores perigosos, que matavam pessoas, isto nas aldeias de acolhimento, porque fora delas e graças à PIDE e imprensa da época, quase sempre foram vistos como atracadores.
 
A partir de aqui tudo foi diferente para os guerrilheiros galegos e começou-se a desenhar e organizar por parte da PIDE, conjuntamente com as autoridades espanholas de Franco, o ataque aos guerrilheiros. Mas antes ainda era preciso acabar por “fazer a cabeça” da população e, ter dela também o apoio de modo a justificar o que se viria a passar, reforçando que o Juan era um líder e chefe de atracadores (que nunca o foi) e outras maldades que eram atribuídas aos guerrilheiros.
 
Em 29 de Outubro de 1946 acontece o caso do assalto à carreira de Braga-Chaves, cheia de passageiros que se dirigiam para a Feira dos Santos anual de Chaves, encenado, ao que tudo aponta pela anti-guerrilha, pela Brigantilha de Franco e pela PIDE, no qual durante o mesmo houve o cuidado de encenarem a culpabilização do Juan e do seu suposto grupo: «D.Juan, mato lo chofer?» Ao que o presuposto Juan respondeu: « Nom. Pincha los pneumáticos.» conforme passagem já aqui focada no primeiro post desta série dedicada ao Cambedo, no livro de Bento da Cruz – O Lobo Guerrilheiro.
 
Uma vista de olhos pela imprensa da época é suficiente para ver a quem foram atribuídas as culpas.
 
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Com todas estas encenações e, a preocupação das autoridades personalizarem no Juan um chefe dos “atracadores”, tudo leva a crer que as autoridades e a PIDE conheciam perfeitamente quer o paradeiro certo do Juan como o próprio Juan, o Garcia e o Demétrio. Como o sabiam!? Acho que é uma pergunta de fácil resposta, mas também para ficar sem resposta, embora se saiba da possibilidade dos mendigos e contrabandistas (PIDEs) infiltrados nas aldeias da raia, penso que toda a leitura da guerrilha passou também por denúncias à qual não teria sido estranha a actuação, o incentivo e, o fomentar da denúncia dos “espanhóis” por parte de um grande inimigo da guerrilha ou dos vermelhos, alinhados com o regime de Salazar, como o foi a imprensa da época e principalmente o jornal ERA NOVA de Chaves e o seu director Luís Borges Júnior, tenente e depois capitão, administrador do concelho de Chaves, inspector delegado da Polícia Internacional (PIDE), instrutor da Legião Portuguesa e Presidente da Câmara desde 1938. Diz dele quem o conheceu que era um homem de ambição desmedida, sempre pronto a cair nas graças do regime e ao qual (SIC testemunho anónimo) – «um …,  queninguém gramava!». Isto é só um bocadinho do que dele se diz, por exemplo num dos livros de leitura obrigatória sobre a guerrilha «O Barroso e a Guerra Civil de Espanha», Cadernos Culturais, Edição da Câmara Municipal de Montalegre, 1981
 
Curiosamente e misteriosamente, todos os jornais ERA NOVA da época, desapareceram do arquivo da Biblioteca Municipal de Chaves, só me sendo possível chegar até ele, por algumas transcrições feitas nos referidos Cadernos Culturais.
 
A partir do caso do Pinto de Negrões e do Assalto a carreira de Braga-Chaves, a PIDE e a Guarda Civil (leia-se Salazar e Franco) tinham todas as condições para organizar um ataque à guerrilha e aos seus paradeiros.
 
Assim, e segundo o relato mais entusiasta dos acontecimentos, vamos até ao livro Guerrilheiros Antifranquistas em Trás-os-Montes de Bento da Cruz para saber o que se diz ao respeito:
 
“ Às zero horas desse dia (20 de Dezembro de 1946) concentraram-se no posto de Chaves uns duzentos  guardas-republicanos vindos do Porto (?) - (a interrogação é minha, à frente se perceberá) da Régua e de Vila Real.
 
O comandante dividiu-os em grupos e destinou um para cada uma das seguintes povoações: Nantes, Mosteiró de Cima, Sanfins de Castanheira, Sanjurge, Couto e Cambedo.
 
Partiram às três da madrugada.
 
O do Cambedo era chefiado pelo alferes Mota de Freitas. Nele iam integrados os pides Otelo Puga e Joaquim Alves, aquele vindo do Porto e este a prestar serviço no posto de Vila Verde da Raia.
 
Até Vilarelho, foram de camião. Daqui para a frente, a butes.
 
Chegaram às seis. O alferes Mota de Freitas postou o pessoal à entrada e à saída da povoação, na frente e nas traseiras das casas suspeitas, a saber: a da Escolástica, a do Adolfo, a do Mestre, a do Silvino e a da Engrácia.
 
Mas o pessoal de que dispunha não chegava para as encomendas.
 
Na da Engrácia, a primeira à direita de quem entra no povoado, no sentido sul-norte, ficou apenas o pide Otelo Puga de vigia à porta da rua e um guarda-republicano nas traseiras.
 
Pelas sete horas, o alferes Mota de Freitas e o pide Joaquim Alves, vêm comunicar que está tudo apostos para um ataque surpresa ao romper o dia.”
 
Paula Godinho, na já mencionada Revista História afirma no entanto que:
 
- “ Para realizarem o cerco, as autoridades haviam recorrido a uma panóplia de forças de que excluíam as que localmente representavam o Estado. Assim, encontravam-se presentes elementos da Guarda Nacional Republicana de Alijó, Chaves, Mesão Frio, Poiares, Santa Marta de Penaguião, Pinhão, Régua e mesmo do Porto, soldados da secção de morteiros de Caçadores 10, de Chaves, agentes da polícia e carabineiros, comandados por António Prieto Rodrigues.”
 
O sargento Cruz que comandou os soldados da secção de morteiros de Caçadores 10, num depoimento seu no livro «Cambedo da Raia 1946” diz:
 
- “ entraram nesta acção mais ou menos 1000 pessoas, mais ou menos 500 espanhóis da guardia civil e outros tantos portugueses – para além dos soldados do meu quartel, elementos da GNR e agentes da PIDE.» do mesmo depoimento ficámos ainda a saber que as tropas espanholas, do lado português, eram comandadas por um Tenente-Coronel.
 
Este último depoimento (do Sargento Cruz) é um depoimento testemunhal, pois ele esteve presente e comandou o ataque com morteiros ao Cambedo e, não é resultante de um relatório oficial da época (já sabemos como eram os relatórios oficiais). Mas além de nos dar ideia do número de militares envolvidos no ataque (e que vão de encontro aos militares mencionados por Paula Godinho e outros escritos) também nos dá a saber que os militares espanhóis estavam de ambos os lados da fronteira.
 
Há quem vá mais longe e atribua só ao lado de lá da fronteira (Galiza) mais de 1500 militares.
 
Sete horas da manhã de 20 (?) de Dezembro de 1946 o Cambedo ainda dorme mas está cercado por ambos os lados da fronteira pelos militares fiéis a Franco e militares portugueses, prontos para lançar o ataque à aldeia.
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 Após os acontecimentos do Cambedo esta foi a única notícia que saíu no jornal local  « O Comércio de Chaves»
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Ainda antes do ataque ao Cambedo vamos fazer aqui um aparte quanto à data do ataque, pois segundo toda a documentação que consultei, surgiram-me as datas de 19, 20, 21 e 22 de Dezembro. A data de 19 de Dezembro surge no jornal local “ O Comércio de Chaves” quando afirma no início do artigo sobre os acontecimentos do Cambedo: “ Repercutiram dolorosamente nesta cidade os acontecimentos de Quinta-Feira passada, na povoação do Cambedo” – Ora se a publicação do Comércio de Chaves é de Quinta-Feira, dia 26 de Dezembro, a tal Quinta-Feira passada tinha de ser dia 19. No entanto a mesma notícia entra em contradição quando no seu desenrolar se afirma: “A G.N.R. havia tomado conta do cerco à povoação do Cambedo e depois da sua actuação, no sábado passado”  Ora o tal Sábado passado era dia 21. Poderia ter sido um lapso, o que não deixa de ser um lapso estranho que confunde e baralha quinta-feira com sábado, ou será que no dia 19 aconteceu alguma coisa no Cambedo ou fora dele?, testemunhas do Cambedo dizem-nos que na aldeia nada aconteceu. Mas alguma coisa despoletou os acontecimentos seguintes de 20 e 21 de Dezembro. No entanto a pergunta, além de ficar, para já, sem resposta, também me deixa a pensar… Por outro lado o Sargento Cruz menciona como dias do ataque, os dias 21 e 22 de Dezembro (poderia ser uma traição da memória – acredito que sim, pois já lá vão 61 anos). Por sua vez o soldado da GNR que acaba com a vida de Juan recebe uma medalha lembrando a data de 20 de Dezembro, entretanto o registo de óbito do Juan Salgado na Conservatória do Registo Civil de Chaves, menciona a data de 21 de Dezembro (com base no necessário relatório do Delegado de Saúde, na altura o Dr. Alcino Morais e que eu próprio verifiquei), como data da morte de Juan. No entanto a maioria da documentação consultada e quase todos os testemunhos, menciona a data de 20 (para a concentração,cerco e início do ataque que duraria o dia todo, onde logo pela manhã teria morrido o Juan) e dia 21 (continuação do ataque ao Cambedo que finalizaria ao fim da tarde deste dia com o suicídio do Garcia e a rendição de Demétrio).
 
Embora a data dos acontecimentos tenha (pela minha parte) a mesquinhez de um pormenor, vamos tomar estas últimas datas com certas (20 e 21 de Dezembro) e que a data de 19 de Dezembro teria sido apenas lapso do “Comércio de Chaves”, embora estranho lapso esse.
 
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 Concluindo, às zero horas de dia 20 começa a concentração de militares em Chaves, partem às 3 da manhã e chegam ao Cambedo às 6 da manhã e cercam-no. Ao nascer do dia os militares destacados para a operação estão em posição à volta do Cambedo e das casas suspeitas e, iniciam o ataque, que daria em combate, que decorrem durante todo o dia e noite de 20 para 21. Continuam durante todo o dia de 21 até ao final da tarde, por volta das 17 horas.
 
Embora não se saiba ao certo quantos militares iniciaram esta operação no dia 20, suponho que apenas umas dezenas, entre GNR, Guarda Fiscal e PSP, além dos agentes PIDE, logo nas primeiras horas e já após a morte de Juan, deram-se conta que precisavam de reforços, que foram chegando ao longo do dia, entre os quais a secção de morteiros do exército. Ao todo, mais de 1000 militares, entre portugueses e espanhóis da GNR, Guarda Fiscal, PSP, PIDE, Exército (secção de morteiros) e Guarda Civil (espanhola), isto só do lado português para cercarem e atacaram o inimigo do Cambedo, que nesta fase eram tantos como o Demétrio e o Garcia, pois o Juan já tinha sido abatido.
 
A julgar pelos números já se está a adivinhar uma batalha renhida, cujos pormenores ficam para amanhã, dia 20 de Dezembro, precisamente quando passam 61 anos sobre os acontecimentos.
 
Até amanhã!
 
publicado por Fer.Ribeiro às 01:49
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Terça-feira, 18 de Dezembro de 2007

Cambedo - Dia 7 - Juan Salgado "O Facundo"

 

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O Juan ou D. Juan o “Facundo”
 
Quem conhece minimamente a história da guerrilha antifranquista, conhece nomes que vão sendo ao longo da sua história mais ou menos citados e repetidos como guerrilheiros. O Foucellas, o Fresco, o Gafas, o Bailarin, o Velasco, o Aguirre, o Xirolo, o Ánimas, o Panbarato, o Capitan Fantasma, o Chapa, o Langulho ou Pinche, o Chaval, o Pitaciega, o Tameirón, o Paciência, o Pedrín, o Pedro (Demétrio), o Capitão (Garcia), o Cuñeira, El Liebre, o Rocesvintes, o Quico, o Asturiano, etc, etc, tec, tudo alcunhas de guerrilha, de alguns dos muitos guerrilheiros que actuaram sobretudo na Galiza e Astúrias.
 
Muitos destes nomes de guerrilha não são estranhos às terras da raia seca, mas em Portugal e aqui pela região, falava-se apenas de espanhóis, de atracadores e do Juan, pois era o Juan vestia a pele e o “mal” de todos eles, ou,  foi o escolhido para lhes vestir a pele.
 
Na realidade este Juan não era estranho nas terras da raia flavienses e barrosas, pois ele e o seu pai e irmãos constituíam um grupo músicos gaiteiros que faziam a animação de várias festas das redondezas, além disso, também era contrabandista, isto antes da guerra civil, pois durante esta, integrou o exército nacionalista, onde ficou conhecido pelo hábil manejo de armas ligeiras. Após a guerra regressou à sua aldeia natal de Casas dos Montes, onde uma história de saias, paixões e ciúmes o levam a cometer uma morte, ou aliás, duas, mas a segunda ao que consta, em legítima defesa.
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Estas duas mortes fizeram de Juan um “fuxido” e em 1940, em plena febre do volfrâmio, Juan disfarçado debaixo do nome de José, passa três a quatro anos numa exploração mineira existente entre Negrões e Lamachã (concelho de Montalegre e mais ou menos onde hoje é a barragem dos pisões) numas minas denominadas de Agromonte. Conjuntamente com o “José” que era o Juan, estavam o António de Sousa Pinto (o tal Pinto de Negrões), com interesses na mina, lavrador abastado e presidente da junta de Freguesia e, mais tarde assassinado pela guerrilha, e ainda Vitorino Oliveira do Couto de Ervededo e José Pereira, guarda da mina e mais tarde acusado como mandante da morte do Pinto de Negrões.
 
Trago aqui esta história das minas de volfrâmio e o nome do Pinto de Negrões, porque acho que é aqui que começa o I capítulo dos acontecimentos do Cambedo e que por si só, davam para um blog, além de melhor compreendermos o trajecto do Juan e de como ele era um espanhol, que além de conhecido, era fácil de referenciar…
 
Mas vamos então ao Juan.
 
Juan Salgado Ribeiro (ou Rivera ou Rivero), também conhecido pelo “o Facundo”, Nasceu em Casas dos Montes, Oimbra, na aldeia fronteiriça e vizinha do Cambedo, teria nascido por volta de 1911 e morreu (com cerca de 35 anos) no Cambedo em 20 de Dezembro de 1946, assassinado.
 
Entre o que foi mistificado, mentiras e verdades, dizia-se dele ser galã e namorador incorrigível, músico que tocava cornetim, de família de músicos animadores de festas das redondezas e, fama de atirador infalível.
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Na imprensa nacional e local da época nunca foi referida a guerrilha anti-franquista e quanto aos acontecimentos do Cambedo, os guerrilheiros foram sempre tratados como atracadores e perigosos bandidos aos quais lhe eram atribuídos os mais variados crimes e "estatutos" que nunca tiveram ou ocuparam.
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A partir da morte de Pinto de Negrões, tudo que era acto de bandoleirismo e “atracos” na Raia Seca de Portugal e Espanha era atribuído ao Juan e ao seu grupo.
 
São-lhe atribuídos entre outros, o ajuste de contas com António Aguirre Padrón, chefe da Falange de Vilaza (Verin), a tentativa de assalto da carreira Verín-Ourense da qual resultaram dois mortos, a morte do Pinto de Negrões e o assalto à carreira Braga-Chaves.
 
Apontado como líder ou chefe do grupo do Cambedo e outros grupos, sendo mesmo apontado pelo jornal « O Século» como ex-alcaide de Leão, onde teria desempenhado funções durante a guerra civil, sendo indicado como o “chefe comunista de Leão” e responsabilizado porque “matou e mandou matar cerca de 200 nacionalistas – entre homens, mulheres e crianças”.
 
Teresa Godinho diz ao respeito: “(…) este exorbitar da figura por parte da imprensa, tão controlada e comedida na época, destinar-se-á provavelmente a explicar o vigor da ofensiva e o aparato para capturar um aldeão galego em relação ao qual não resta memória ou registo do desempenho de tão altos cargos e cuja competência política é desvalorizada por quantos o conheceram (…)”.
 
Artur Queirós, num artigo publicado no Jornal de Notícias de 6 de Dezembro de 1987 traça sobre o Juan um perfil de Guerrilheiro Romântico (como interpreta Paula Godinho) « tocava cornetim num grupo gaiteiro e fazia contrabando. A Guarda Civil e a Guarda-fiscal temiam-no porque era considerado um atirador excepcional. (…) Juan Ribero torna-se profundamente temido porque faz acções espectaculares. Pepe da Castanheira, um guerrilheiro do seu grupo, contava que o comandante da Falange em Orense dormia com sentinelas à porta e o Juan foi matá-lo à cama». Em Casas dos Montes (Oimbra), terra de Juan, continua Artur Queirós que « na taberna, os velhos jogam cartas e bebem vinho. Lembram-se de Juan, o que «matava perdizes em voo com a pistola e onde punha o olho punha a bala. Das guerrilhas nada dizem»
 
Conta-se ainda de Juan, que numa passagem do exímio atirador por Vila da Ponte em Montalegre : « Uma vez o Manuel Maneta, criado da casa do Afonso na dita povoação, quando levava a rês a beber viu o grupo do “galego”, do “Ribero” (que o mesmo é dizer Juan!) (…) ficou o Maneta muito aflito visto que já na aldeia se falava do grupo a que, instigados pelas forças policiais, também chamavam «matilha do Juan».
Todavia, o Juan ofereceu-lhe de comer e de beber e advertiu-o de que não dissesse nada no «pueblo». (…) depois de beberem o Juan pediu-lhe que levasse cinco garrafas à pedra que estava no meio do rio e as colocasse com o gargalo voltado para o sítio onde estavam. Seguidamente pegou na pistola que sempre trazia à cinta e, apontado às garrafas, deu cinco tiros. Depois, voltou a solicitar ao Maneta, com muita delicadeza, que fosse buscar as garrafas… qual não foi o seu espanto quando verificou que todas as garrafas estavam sem fundo…logo concluía, quando contava a sua história, que as balas haviam entrado pelo gargalo com uma prodigiosa pontaria que era a do Juan…».
 
Domingos Costa Gomes no livro “O Cambedo da Raia 1946” relata ter conhecido pessoalmente o Juan, também em terras do Barroso, e que este « fazia demonstrações com uma pistola Savage que possuía e verifiquei que era um atirador de elite: a 30 metros, sem apontar, e à maneira dos “pistoleiros” do oeste americano que os filmes mostravam, metia uma bala numa garrafa de cerveja através do gargalo e furava a tiro qualquer pequeno objecto que se atirasse ao ar. Tinha reflexos perfeitos: fazia a barba com navalha, sem espelho e sem fazer o mínimo golpe…»
 
Todas estas enfatizadas histórias à volta de Juan deram-lhe uma auréola de lenda, quase personagem e herói de banda desenhada, mas pondo de parte as histórias, algumas verdadeiras e a maioria de pura fantasia e imaginação (mas não inocentes), sabe-se que o Juan era considerado um «Homem de honra» e que toda a reputação que lhe é atribuída não se conjuga com a de um criminoso, bandoleiro ou atracador.
 
Estórias que o tornam respeitado e, também temido pelo seu comportamento, e sobre ele edificou-se a aura que ainda hoje perdura, a aura de um mito.
 
Sobre o Juan é conhecido como verdade o ser camponês da aldeia de Casas dos Montes (vizinha do Cambedo), ser agricultor, contrabandista e o ser músico e animador de festas com a sua família, ter servido na guerra e após esta ter regressado a Casas dos Montes onde por causa das tais mortes passa à condição de “fuxido” tendo ido trabalhar para as minas de volfrâmio perto de Negrões e que, no fecho destas, continua a sua condição de “fuxido” no Cambedo, onde já estava o Demétrio e onde terá tido os seus primeiros contactos com a guerrilha e aderido a ela. É dado como certo também a sua participação na morte do Pinto de Negrões, pois Juan teria feito parte do grupo de 7 guerrilheiros que o matou, como guerrilheiro ou guia, Juan estava lá. Nos próximos dias ainda voltaremos a esta morte e como ela precipitou todos os acontecimentos até à batalha do Cambedo.
 
Um processo idêntico em tudo ao de Demétrio, vizinho e conhecido do Cambedo desde sempre, quer como contrabandista quer como animador de festas e o “fuxido” que acaba por se tornar guerrilheiro.
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Até na folha de registo de óbito é mencionado a profissão de "Atracador", além de mencionar como dia da morte o dia 21, quando o Juan foi morto dia 20.
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Quase tudo o restante foi inventado sobre o Juan e quis fazer dele um e o “atracador” que convinha para mais tarde justificar o cerco do Cambedo, começando pelas mentiras vertidas na época, antes e após a sua morte, em toda a imprensa e no diz-que-diz do boca-a-boca, começando intencionalmente por lhe ser atribuída a responsabilidade do assalto à carreira Braga-Chaves (que tudo indica ter sido obra da PIDE e de um grupo Anti-guerrilha), atracos e uma série de mortes, quer em Portugal quer na Galiza e tudo isto a suceder após a morte do Pinto de Negrões. Só assim se compreende a fama, quase o mito, que se fez de Juan em terras da Raia Seca.
 
 
Juan agricultor, Juan Músico, Juan Militar, Juan “Fuxido”, Juan gerrilheiro, Juan quase mito e Juan, herói morto de corpo estendido sobre uma carroça, entre Cambedo e Chaves à vista de todos, exposto à entrada do cemitério de Chaves, vestido de gabardina branca, botas altas e com os ferimentos de morte visíveis, para que todos os flavienses vissem o “atracador” e “bandoleiro” morto pelas autoridades e assim, como disse Artur Queirós, «para que a população visse que os heróis também se abatem».
 
 
Quanto ao Juan, por tudo que foi dito a seu respeito, pela maneira como morreu, pela doentia exposição que fizeram do seu corpo morto, foi feito um autêntico mito, lenda e herói da resistência antifranquista, quer de um e outro lado da fronteira, cada vez mais constará nos anais da história. Pela minha parte recordarei como o “bandido” da minha infância passou a “guerrilheiro romântico” que fugiu de um fuzilamento certo em Espanha, para ser assassinado no Cambedo, Chaves, Portugal, em 20 de Dezembro de 1446, ao lado da terra que o viu nascer.
 
 
Lamento não ter uma foto do Juan. Mesmo as que lhe foram tiradas pela Foto Alves no cemitério de Chaves e expostas na montra da Rua Direita, desapareceram ou foram destruídas pelo seu autor, pois ao que me testemunhou o seu neto, teria sido ameaçado de morte pelos espanhóis, talvez por elementos da anti-guerrilha ou mesmo da PIDE.
 
Juan Salgado foi sepultado no cemitério de Chaves, no dia 22 de Dezembro de 1946, no quarteirão nº5, em campa não identificada, conforme consta no livro de registos do Cemitério Velho de Chaves, pág. 32. Hoje já nada existe de Juan.
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Foi aqui, no quarteirão nº 5, que Juan Salgado foi sepultado, em campa não identificada e da qual hoje já nada existe.
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E por hoje é tudo, amanhã já estaremos à porta do Cambedo no dia anterior à Batalha.
 
Até amanhã, com histórias do Cambedo.
publicado por Fer.Ribeiro às 02:15
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Segunda-feira, 17 de Dezembro de 2007

Cambedo - Dia 6 - Demétrio, "O Pedro"

 

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DEMÉTRIO, o “Pedro”
 
Sobre o Demétrio, quase tudo quanto há a dizer está dito na Revista História, nº27 de Dezembro de 1996 no já referido documento de Paula Godinho e que passo a transcrever:
 
 
«Demétrio Garcia Alvarez nasceu em Maio de 1912 na aldeia de Chas (Oimbra), filho de Primitivo Garcia Justo (que o haveria de acompanhar durante uma parte da pena de prisão) e de Rosa Garcia Alvarez. Tal como os pais, viria a ser lavrador desafogado, sem que se lhe notassem simpatias políticas, que só despertariam após uma estadia forçada no Forte de Paplona. Fora para aí levado depois de ter agredido à pedrada um elemento da Falange que, enquanto Demétrio integrava com outros aldeões, alegadamente defensores da República, um grupo de trabalho de poda de uma vinha, iniciou um tiroteio. Os dois anos de permanência na cadeia serviram-lhe ao amadurecimento político, reforçado pelas manifestações de lealdade de um amigo russo que lhe permitiu escapar de uma condenação à morte serrando as grades da cela. O terreno espanhol tomara-se-lhe padrasto e, mercê da sua proveniência e ligação à agricultura numa povoação próxima da raia, dos laços familiares de um e outro lado da linha delimitadora e de um notável capital de contactos sociais do lado português, procura a povoação de Cambedo da Raia. Aí casara no final dos anos trinta a sua irmã Manuela com Manuel Bárcea - este último filho de pai espanhol que viera residir após o casamento no Cambedo. Com estes familiares, e a coberto das próprias autoridades locais (nomeadamente da Guarda Fiscal), ocupou-se daquilo que sabia: agricultura. Deixara a mulher em Chãs, onde se esgueirava ocasionalmente de noite; os seus três filhos já então repousavam no cemitério da aldeia, a que viria a juntar-se a esposa, tuberculosa, tempos depois da prisão de Demétrio. Perderia um irmão, contrabandista e homem de confiança do novo regime, arrastado para a morte pelas opções de Demétrio. Na fase crucial do cerco que lhes vinha sendo montado acolheu-se ao lugar onde a teia de parentes se afigurava protectora: Cambedo da Raia.
 
Mas, então, as relações familiares eram já insuficientes para fazer face ao portento da força do Estado.
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Demétrio será o mais duramente castigado dos presos envolvidos no designado «processo do Cambedo»: passa 19 anos nas masmorras da PIDE, depois de, em 12 de Dezembro de 1947, ter sido julgado pelo Tribunal Militar Territorial do Porto «tendo sido condenado na pena de dez anos de prisão maior celular, seguidos de degredo por 12, ou em alternativa em 28 anos de degredo em possessão de 1ª classe».
 
 
Em 11 de Junho de 1948 vai para o Tarrafal, sendo aí confirmada a sua permanência numa comunicação do director da colónia Penal de Cabo Verde em Janeiro de 1951.
 
Transferido posteriormente para a Cadeia Penitenciária de Lisboa, será libertado em 1965, partindo então de avião para França, onde pediu exílio e nunca mais quis pisar território espanhol. Tornou-se estivador em Bordéus. A velhice e a asma levaram-no ao internamento num sanatório, tendo morrido em Julho de 1990.»
 
Pela certa que podia encerrar por aqui o capítulo do Demétrio e ficaria tudo dito, ou quase, pois há a realçar pormenores que podem fazer a diferença no caso do Demétrio e no seu relacionamento com o Cambedo.
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É do conhecimento de todos que o Demétrio a partir de 1937 passou praticamente a viver no Cambedo, como “fuxido”, primeiro em casa do Silvano, depois em casa da Sebastiana e por último em casa da sua irmã Manuela desde que esta casou, em 1939, com Manuel Bárcia, o “Mestre”. Sempre próximo dos seus e da sua terra natal, Chãs, o Demétrio nunca foi um estranho no Cambedo, aliás fazia a sua vida normal como mais um aldeão e agricultor do Cambedo.
 
Segundo testemunho do próprio Demétrio, a sua ligação e entrada na guerrilha só se faz em inícios de 1946 onde passaria a ser conhecido como o “Pedro”. Como sabemos o Demétrio foi preso em Dezembro de 1946, ou seja, a sua passagem pela guerrilha nem sequer chega a ser de um ano, o ano de 1946. Aqui, no cruzar de toda a informação disponível sobre a guerrilha, fico confuso e há dados contraditórios, além de alguns que me parecem pouco credíveis. É, por exemplo, atribuído ao Demétrio a chefia de um grupo de guerrilha de sete guerrilheiros. Parece-me pouco provável que acabado de entrar na guerrilha tome logo a chefia de sete guerrilheiros mais experientes que ele e, que os nomes do Juan e do Garcia, só apareçam ligados ao Demétrio no dia 9 de Dezembro de 1946 no assalto ao “coche de línea” Verin- Ourense, quando para já, sabemos que o Garcia até pertencia ao grupo do Langulho ou Pinche.
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Contradições e confusões à parte, tudo indica para que Demétrio tivesse vestido a camisola da guerrilha, com convicção e que a honrou durante o único ano a que a ela esteve ligado.
 
Os que o conheceram reconhecem nele um homem não muito grande em estatura (1,66m) mas um grande homem, como homem.
 
Artur Queirós refere no artigo do JN de 6.Dez.87 que Demétrio no momento da sua rendição «..saiu do lagar onde estava entrincheirado com as mãos no ar e foi barbaramente agredido. Em Chaves, na PIDE foi torturado. Depois, no Porto, durante meses, esteve sujeito às mais selváticas torturas. Queriam que ele assinasse os autos, mas ele não assinou.»
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Almor Viegas, um político que esteve preso na PIDE com o Demétrio, testemunha o seguinte : « tenho dele a imagem de um homem forte, baixo, com ar digno, saindo da cela entre os guardas, sem dizer uma palavra.”
 
Também é esta a imagem, de homem sério e ar digno, que as pessoas que o conheceram no Cambedo guardam dele quando me dizem: «o Demétrio era um senhor!», já o mesmo não dizem do Garcia.
 
Demétrio, ainda antes da sentença de condenação pelo Tribunal Militar do Porto disse ante os juízes em tom alto e bom som « Sou um guerrilheiro, não sou criminoso. Tudo o que fiz foi pela liberdade do meu povo e pela Espanha livre»
 
A luta pela liberdade valeram-lhe dez anos de “fuxido”, um de guerrilheiro e as torturas da PIDE, 19 anos de cadeia, o Tarrafal e, o nunca mais pisar território da tal Espanha livre pela qual lutou.
 
Curioso (que em nada espanta) em toda esta história dos guerrilheiros do Cambedo é que na época, para a opinião pública e imprensa, passou a imagem de que eles eram atracadores, bandoleiros e bandidos, no entanto, todo o processo oficial relacionado com eles, foi puramente político.
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Disseram-me no Cambedo que a família do Demétrio (irmã e sobrinhos) acreditam que depois de posto em liberdade (1965) e antes de ter ido para França, ainda fez uma breve passagem pelo Cambedo, disfarçado de mendigo, para os ver. Embora pouco provável que o Demétrio tivesse regressado ao Cambedo, também eu acredito na fé da sua família.
 
E por hoje é tudo, e dos “Três do Cambedo” só falta mesmo abordar o Juan Salgado, o Facundo, o tal que quase virou a mito com estórias de lenda e me levou à descoberta da Batalha do Cambedo.
 
Até amanhã, com o Juan!
publicado por Fer.Ribeiro às 02:27
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Domingo, 16 de Dezembro de 2007

Cambedo - Dia 5 - Bernardino Garcia & Garcia, o “Capitão”

 

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BERNARDINO GARCIA & GARCIA, o “CAPITÃO”
 
Como disse atrás, não sei se o grupo de maquis do Cambedo era um grupo organizado ou não. Estou em crer que não era e que uns estariam mais envolvidos que outros na guerrilha.
 
Nesta breve descrição dos “três do Cambedo”, começo por aquele que levanta mais polémica e que não tinha qualquer ligação à aldeia, o Capitão Garcia.
 
Bernardino Garcia & Garcia, nascido por volta de 1911 (35 anos na altura dos acontecimentos do Cambedo) morreu no Cambedo em 21 de Dezembro de 1946. Um metro e setenta e cinco de altura, musculado, barba feita, olhos e cabelos castanhos.
 
Além da descrição anterior, o “retrato” deste suposto Capitão Garcia é-nos dado quase na totalidade por Bento da Cruz no livro « Guerrilheiros Antifranquistas em Trás-os-Montes, onde relata que «Bernardino Garcia & Garcia é referenciado como fuxido desde o inicio da guerra civil espanhola e guerrilheiro desde 1939. Analfabeto e «bom rapaz» que falava demasiado, diz dele um outro guerrilheiro o Pinche. Pertencia a uma família de pequenos lavradores de Grixoa, Viana do Bolo. Eram cinco irmãos: quatro rapazes e uma rapariga. O mais velho migrou para Bilbau e nunca mais deu sinal de vida, um outro irmão foi chamado às inspecções. Pegou numa corda, disse que ia à lenha e saiu. Encontraram-no dependurado na corda. A irmã arranjou um namorado e ficou grávida. Pegou na navalha de barba dos irmãos e cortou as carótidas. Ficou o mais novo a tratar dos campos e das três vacas do casal. Um dia o Garcia recebeu no monte a notícia de que o irmão falecera, desceu a casa e encontrou um bilhete que pediu ao Pinche que lho lesse. «Não aguento mais esta vida, resolvi envenenar-me», a partir de aí o Garcia andava sempre a rosnar: «qualquer dia mato-me…»
 
…e um dia matou-se, ou talvez não!
 
Ao contrário do Juan, o Garcia tinha uma longa experiência de guerrilha, quase sempre no grupo do Pinche (ou Langulho) como era conhecido. A este (Garcia) são-lhe reconhecidos vários actos de guerrilha, todos em Espanha, aliás à excepção dos acontecimentos de Negrões, não há notícia de que tivessem acontecido actos de guerrilha em Portugal.
 
Com armas, este suposto Capitão Garcia, era um desastre e conhecido de todos pela sua forma atabalhoada de combater, aliás são-lhe atribuídos pelo menos duas mortes acidentais de companheiros seus de guerrilha.
 
Do Demétrio e do Juan já aqui foram explicadas as suas ligações e laços com o Cambedo. Quanto ao Garcia (segundo apurei por testemunhos de gentes do Cambedo), estava na aldeia no dia dos acontecimentos por acidente e a convite de Demétrio, para a matança do porco da família Bárcea e por se encontrar nas redondezas, após um ferimento causado pelo ricochete de uma bala sua, em que ficou com o osso a vista do polegar da mão esquerda. O ferimento ter-se-ia agravado e começou a tomar mau aspecto. Com as farmácias galegas debaixo de olho, o guerrilheiro Pinche resolveu traze-lo para Portugal, para Vinhais (supõe-se) e aí o deixou até se recuperar. Teria sido em Vinhais onde tomou contacto com um grupo de guerrilheiros que deambulava por Sernade, Sanfins da Castanheira, Mosteiró de Cima, Nantes, Curral de Vacas e Cambedo.
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A presença de Garcia no Cambedo não é “pacífica”. As gentes do Cambedo com quem falei, defendem que o Garcia não era habitual no Cambedo e estava lá por mero acaso e para a tal matança do porco, que o Mestre (Bárcea), cunhado do Demétrio, tinha prevista para a manhã dos acontecimentos. Se esta versão (a do porco) é defendida pelos do Cambedo e por alguma escrita sobre o assunto, há no entanto quem defenda outra versão.
 
A guerrilha desde logo considerou um erro político a morte do Pinto de Negrões. Como tal, o comando da guerrilha teria convocado todos os grupos de guerrilheiros para uma reunião a realizar no dia 20 de Dezembro nos respectivos locais de abrigo e, assim se justificaria a presença do Garcia no Cambedo… Se por um lado esta versão vem a justificar os vários cercos que as autoridades portuguesas e espanholas efectuaram nesse dia às várias casas de abrigo em várias aldeias, como Nantes e Mosteiro, por possíveis informações que a PIDE teria dessas reuniões, por outro lado não me parece credível que o comando das guerrilhas reunisse em vários locais em simultâneo, mas antes teria convocado os chefes de cada grupo de guerrilha para uma só reunião. Por outro lado, é sabido que o Garcia pertencia ao grupo do Pinche e não ao suposto grupo do Cambedo.
 
 Pela minha parte continuo sem saber qual a verdade, mas na minha opinião, fico-me pela versão da “matança do porco”, embora seja reconhecido e provado que a guerrilha considerou um erro político a morte do Pinto de Negrões e que essa tal reunião de comandos da guerrilha teria existido, mas não no Cambedo, nem em nenhuma das casas de abrigo, pelo menos nesse dia 20 de Dezembro.
 
Voltando ao Garcia. Artur Queirós (JN) diz no seu artigo a respeito dos grupos de guerrilha na raia portuguesa que «os grupos eram coordenados pelo capitão Garcia, um homem corpulento, oficial de carreira, a quem a Guarda Civil chamava «o terror das montanhas». Era ele que estava em contacto com o comando central das guerrilhas.»
 
Suponho que este Garcia a que se refere Artur Queirós, não deve ser o mesmo Garcia que estava no Cambedo. Quanto ao posto de Capitão, pela documentação existente, alguns testemunhos e pela forma atabalhoada de “combater” que lhe era conhecida, é pouco provável que o Garcia algum dia o tivesse sido, comandante ou coordenador de guerrilhas, antes, isso sim, apenas guerrilheiro e, a verdade seja dita, quer tivesse sido capitão ou não, chefe de guerrilha ou não, coordenador ou lá o que fosse, foi como um verdadeiro guerrilheiro que morreu.
 
Morte que também não está muito clara. A documentação existente e dispersa ligada à guerrilha afirma que quando Demétrio ficou sem munições e resolveu render-se às forças militares do cerco do Cambedo, o Garcia teria dito: « Eu non bou. Quedame unha bala, e esta é para mim.» e ter-se-ia suicidado. Por outro lado, na documentação oficial da autópsia, os peritos afirmam ter havido homicídio e a morte provocada por duas balas. Por sua vez, Demétrio (que estava com Garcia aquando da sua morte) afirma em tribunal que Garcia se teria suicidado após negar-se à rendição. A imprensa da época diz não ser crível a hipótese de suicídio e afirma que foi o Demétrio quem o matou, antes da sua rendição. Por último, também se podem pôr outras hipóteses em cima da mesa, como a de um primeiro tiro suicida (com o qual Garcia não morre) e um segundo tiro de confirmação de morte dado pelo Demétrio, embora aqui haja uma pequena contradição, pois sabe-se que Demétrio se rendeu porque ficou sem munições. Outra hipótese é a de que o Garcia já estava ferido de bala quando se suicidou.
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Embora este « Eu non bou. Quedame unha bala, e esta é para mim.» fique para sempre ligada ao Garcia, temos como verdade, esta bem provada, que ele morreu no Cambedo pouco antes das 16 horas do dia 21 de Dezembro de 1946 na casa da Srª Albertina Tiago, junto ao lagar e, que depois de ser exposto ao público no cemitério de Chaves (conjuntamente com o Juan), deram-lhe sepultura no cemitério do Cambedo.
publicado por Fer.Ribeiro às 00:15
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Sábado, 15 de Dezembro de 2007

Cambedo - Dia 4 - Guerrilheiros, maquis, fuxidos, espanhóis...

Sempre que nas nossas aldeias portuguesas da raia abordei as pessoas de mais idade sobre os acontecimentos e os anos da guerra e pós guerra civil e mundial, referem-se sempre aos espanhóis que andavam por aí fugidos, que eram conhecidos do povo ou pelo menos identificáveis. Nunca, ninguém me referiu o termo guerrilheiro ou maqui, quando muito, falavam-me dos bandoleiros ou atracadores espanhóis, mas curiosamente estes, nunca foram vistos por ninguém e deles contava-se o que se ouvia dizer, quase sempre histórias dramáticas e de terror.
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Houve de facto várias realidades nestes tempos de guerras, primeiro a da Guerra Civil de Espanha, depois da II Guerra Mundial e do desenvolvimento da guerrilha antifranquista, realidades de contrabando do volfrâmio e outros contrabandos. Embora Portugal estivesse teoricamente à margem de ambas as guerras, viveu e sentiu essas guerras, não só pela proximidade, mas também pelos tais negócios da guerra.
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Uma das realidades, foi a dos fugidos de Espanha, milhares, que aproveitavam a permeabilidade da raia seca para, através de Portugal, fugirem para outros destinos. Desde intelectuais, artistas, escritores, médicos, engenheiros a agricultores e gentes simples do campo com outros ofícios e até alguns desertores do exército de Franco. Por ideologia ou simples perseguição, por pequenos delitos comuns ali praticados, por uma ou outra razão, foram obrigados a partir, pois do lado de lá, bastava uma denúncia ou suspeita, rancores, ódios ou quezílias familiares antigas ou até da guerra, para se ser fuzilado pelas armas franquistas.
Alguma desta gente que enjeitou ou foi enjeitada por Franco e se decidiu ou foi obrigado a uma “fuxida” de um “passeo” sem volta, foram de certa maneira confundidos com guerrilheiros, principalmente aqueles que tiveram de ficar pela raia portuguesa. Agricultores sem recursos, contrabandistas e gente humilde das aldeias galegas da raia que não tiveram meios nem possibilidades de fugir para o exílio em terras distantes das Américas, principalmente as do Sul ou em França, onde eram recebidos como exilados políticos, ao contrário de Portugal, onde oficialmente nunca foram reconhecidos como tal e onde inicialmente, até nem sequer era reconhecido existirem espanhóis nas aldeias da raia.
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Antes de falar dos guerrilheiros, achei necessário fazer esta pequena introdução, porque muitas vezes, metem-se os tais “espanhóis” todos no mesmo saco, quando na realidade havia as tais várias realidades, que iam desde galegos que atravessavam a fronteira para simples compras ou trocas comerciais com as aldeias vizinhas, havia os “fuxidos” de passagem, os “fuxidos” de permanência, os contrabandistas e claro, os guerrilheiros.
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Fixemo-nos nos “fuxidos” de passagem e nos guerrilheiros.
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Os “fuxidos” de passagem tinham rotas de fuga mais ou menos traçadas e quase sempre com destino ao Porto e Lisboa e daí embarcavam para várias partes do mundo. Claro que até ao embarque, às vezes demoravam dias e semanas, pelo que era necessário ter casas e famílias de abrigo e acolhimento, muitas delas em aldeias da raia.
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Todo este movimento dos “fuxidos” não era estranho aos guerrilheiros, pois era gente da sua, da que comungava dos mesmos ideais e aos quais os guerrilheiros auxiliavam e conduziam pela raia seca de casa em casa, das tais casas de abrigo.
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Algumas dessas casas de abrigo aos “fuxidos” eram também casas de abrigo dos guerrilheiros.
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Mas, afinal, quem foram os guerrilheiros!?
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Tanto para Portugal de Salazar como para a Espanha de Franco, os guerrilheiros foram reduzidos a simples bandoleiros e atracadores, marginais armados que assaltavam e matavam sem qualquer ideal. Foi essa a imagem que se tentou passar e que perdurou durante longos anos na boca do povo e também na imprensa da época. Só há muito pouco tempo é que os historiadores tiveram coragem de abordar e falar de um tema que para Espanha era tão complexo, espinhoso e comprometedor como o foi a guerrilha antifranquista e os guerrilheiros. Assim, se em vida a guerrilha foi derrotada e os guerrilheiros reduzidos a simples bandoleiros e atracadores, após a sua morte, foram reduzidos ao esquecimento de uma profunda amnésia. Os tais “mexer na ferida” e silêncios impostos pelo medo e por muito sangue derramado, a muita violência dos tempos de guerra e pós guerra na Espanha de Franco. Tempos em que a Espanha era conhecida como uma imensa prisão e um enorme cemitério.
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Embora tardiamente, hoje já se começa a falar abertamente sobre a guerrilha antifranquista e a conhece-la melhor, os seus métodos a sua organização e também as suas causas e a sua realidade.
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Os guerrilheiros antifranquistas, que também foram conhecidos por maquis (nome que deriva dos guerrilheiros franceses que lutaram contra as tropas nazis, os Maquisards), estavam organizados em pequenos grupos de resistência espalhados por toda a Galiza e Astúrias . Hoje sabe-se que mais de 6000 guerrilheiros colheram as armas para reconquistar a liberdade perdida. Sabe-se também que foram a parte mais esforçada de todo um exército de auxiliares, correios e enlaces que vivia no seio da população. Diz-se que por cada guerrilheiro armado havia 10 colaboradores desarmados, que quase todos eles acabaram nas prisões, enquanto que aos maquis capturados lhes era aplicada simplesmente e expeditamente a “Lei de Fugas” ou seja, o fuzilamento.
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Embora compostos de pequenos grupos que viviam nas montanhas, havia uma interligação entre estes grupos e uma estrutura de chefias, inclusive, sabe-se que chegaram a reunir em congresso (nas montanhas) e a elaborar estatutos de orientação e da guerrilha.
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A luta de guerrilha, foi (dentro de Espanha) a única forma de oposição ao regime sangrento de Franco, e por isso, o regime tanto empenho pôs na sua aniquilação.
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Este pequenos grupos de maquis viviam nas montanhas da Galiza e das Astúrias e muitas vezes encontravam nas terras da raia portuguesa o refúgio e a reposição de forças para continuarem a sua luta, principalmente os grupos que eram compostos com galegos oriundos da raia, como foi o caso de Demétrio, e talvez do Garcia e do Juan (os três do Cambedo que nos próximos dias abordarei).
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A raia seca entre terras de Barroso até Vinhais, foi terra preferida para refúgio de alguns desses grupos de Maquis e outros “fuxidos” que eram abrigados nessas povoações por amigos do contrabando, por familiares ou simples amigos e vizinhos. Pela certa que não faltarei à verdade se afirmar que pelo menos todas as nossas aldeias da raia, desde Soutelinho da Raia até Segirei, deram abrigo a maquis ou simples “fuxidos” de Franco, no entanto, havia aldeias de abrigo e de passagem que ficaram conhecidas pela frequência da visita ou estadia dos guerrilheiros, aldeias onde encontravam abrigo de confiança de pessoas amigas e familiares onde até as autoridades (guarda fiscal e republicana) faziam vista grossa a essas visitas e estadias. Entre essas aldeias estavam o Couto de Ervededo, Cambedo, Curral de Vacas, Sanfins da Castanheira, mas sobretudo Mosteiro e Nantes (para só falar das do concelho de Chaves).
 
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Mas esta história é sobre o Cambedo, pois era aí que se costumava abrigar o “grupo” do Juan (o tal Juan que deu origem a isto tudo) que até era conhecido pelo grupo do Demétrio ou o grupo do Capitão Garcia (depende de que fonte bebermos!), possivelmente um grupo que com certeza tinha ligações à guerrilha mas que, quase pela certa, não existiu como grupo organizado.
 
 Desse pressuposto grupo fariam parte o Demétrio, o Juan Salgado e o Capitão Garcia, os tais que foram acusados da morte do Pinto de Negrões, do assalto à carreira Braga-Chaves e que pernoitavam no Cambedo no dia dos acontecimentos de Dezembro de 1946.
 
A partir de aqui, ou melhor a partir da morte do Pinto de Negrões, começam a surgir-me muitas dúvidas e questões para as quais ainda não encontrei respostas convincentes no que toca ao envolvimento dos três do Cambedo, quer com esses acontecimentos quer com a guerrilha organizada. Se quanto ao assalto da carreira de Braga há provas de que quer o Juan quer o Demétrio não estiveram envolvidos e tudo leva a crer que foram manobras que teve o envolvimento da PIDE, já quanto à morte do Pinto de Negrões é sabido ou tudo indica que o Demétrio não participou e até criticou e considerou um erro actuação da guerrilha num caso de morte em terras portuguesas, mas é sabido também que o Juan estave em Negrões e que acompanhava o grupo de guerrilheiros.
 
 
Como certo apenas dou que existiam ligações à guerrilha e que estavam no Cambedo nos dois longos dias da batalha.
 
E porque estavam no Cambedo?
 
Penso que quanto ao Juan e ao Demétrio, a resposta é simples, pois o Juan era natural e residente da aldeia de Casas dos Montes, vizinha do Cambedo e que dista desta apenas 2 quilómetros, além de fortes ligações de amizade ao Cambedo e até profissionais, pois o Juan e a sua família eram músicos animadores de festas.
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Casa onde pernoitou Juan no dia dos acontecimentos do Cambedo
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Quanto ao Demétrio, também ele era de outra aldeia vizinha do Cambedo, Chãs, a apenas 4 quilómetros e além disso, tinha uma irmã casada e residente no Cambedo.
 
Quanto ao Garcia, levantam-se várias hipóteses quanto à sua presença no Cambedo, mas tudo leva a crer que não era presença habitual da aldeia.
 
 
“Fuxidos” ou guerrilheiros, bandoleiros, bandidos ou atracadores, Demétrio e Juan foram acolhidos no Cambedo, com toda a naturalidade, por família, gente vizinha e amiga, conviviam com a Guarda Fiscal e até ajudavam nas lides do campo do Cambedo e que acabaram por dar origem a uma batalha e personalizar a história da guerrilha antifranquista em terras portuguesas, ao servirem de “bode-expiatórios”,  transformados e feitos maus da fita aos olhos do povo em geral, pelos então regimes de Franco e Salazar e por toda a sua propaganda e a pela fiel ou censurada imprensa da época. Mais à frente daremos uma vista de olhos por essa mesma imprensa.
 
Sejam então três bandoleiros ou atracadores, que eram guerrilheiros antifranquistas, ou simples “fuxidos”, ou simplesmente refugiados, ou maquis, ou contrabandistas, ou galegos e amigos do Cambedo ou, com família e gente amiga no Cambedo e que acabaram por ser um pouco de tudo ou tudo isto, dependendo dos olhares que cada um, como cada qual, lhes lance.
 
Também eu tenho o meu olhar sobre o assunto, um olhar feito e tendo em conta toda a literatura disponível, documentação, testemunhos e até a realidade física da aldeia do Cambedo e, as minhas dúvidas e as minhas questões ficam apenas em se os “Três” do Cambedo eram assim tão perigosos que deram origem a uma batalha?
 
Independentemente de acreditar ou não num grupo organizado de maquis no Cambedo, é como maquis que partirei e com que lidarei o assunto daqui para a frente.
 
Vamos então saber mais um pouco deste pequeno grupo, quem eram, o que faziam…
 
Mas isso, fica para amanhã.
 
publicado por Fer.Ribeiro às 03:12
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Quarta-feira, 12 de Dezembro de 2007

Cambedo da Raia - dia 1 - A razão de ser

 

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Cambedo da Raia – A Razão de ser
 
 
Em 16 de Julho de 2006 este blog dedicou o primeiro post a Cambedo da Raia e ficou a promessa que um dia voltaria lá de novo. Esse dia, ou melhor – esses dias, chegaram, e muita coisa há a dizer sobre o Cambedo e pela certa que muita coisa ficará, também e ainda, por dizer.
 
Desde esse primeiro post sobre o Cambedo que tenho dedicado grande parte do meu tempo livre à pesquisa, recolha de informação, visitas ao Cambedo, conversas com alguns naturais e testemunhas, leituras de tudo que há para ler, quer sobre a aldeia quer sobre a guerrilha antifranquista (ou os Maquis) que passa obrigatoriamente pelo Cambedo. Tanto tempo lhe tenho dedicado, que o Cambedo além de um hobby já se tornou numa paixão.
 
Começo hoje a dedicar uma série de post’s à aldeia do Cambedo da Raia e aos acontecimentos de 1946, precisamente hoje, dia 12 de Dezembro de 2007, em que faz 60 anos que foi lida a sentença do Tribunal Militar do Porto, que condenou e marcou para sempre gentes e amigos do Cambedo.
 
Também a partir de hoje temos um novo blog o CAMBEDO Maquis, em http://cambedo-maquis.blogs.sapo.pt onde tudo, que durante estes dias for aqui publicado, também por lá ficará e, pretende ser um blog aberto à participação de todos, ao debate e a todas as novidades e verdades, bem como publicações e notícias que venham a surgir no futuro sobre o Cambedo.
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Mas antes de entrar propriamente na aldeia e nos acontecimentos de 1946, no campo de batalha, há umas pequenas considerações que eu gostaria de aqui deixar para melhor ser entendido, quer no meu empenho sobre esta “história” quer em tudo que durante estes dias aqui irá ser vertido sobre o Cambedo da Raia.
 
Digamos então que toda esta história começa aí pelos meus 6 ou 7 anos de idade, com a história e estórias contadas à lareira, estórias barrosãs fruto de uma mãe também barrosã de Montalegre, nascida em 1925, e de um pai nascido em 1918, Guarda Fiscal. Estórias dos tempos de guerra civil espanhola, da grande guerra, de bandoleiros, bandidos, contrabando, contrabandistas e atracadores. Estórias de tempos difíceis, de fome, de nomes e acontecimentos que de tão repetidos que eram, ficaram para sempre registados na minha memória. Estórias que estiveram mais próximas de virarem a lendas, até com os seus mitos, do que propriamente fazerem história ou ficarem registados na história.
 
Os “bandidos e bandoleiros”, contrabandistas, “atracadores”, “assassinos e assaltantes espanhóis”,um tal Juan que com o seu grupo de bandoleiros eram autores de assaltos, mortes e tudo de mau que acontecia na região, entre os quais, a morte de um tal Pinto de Negrões e um assaltado à carreira Braga-Chaves. Estórias do Tenente Canedo e dos Canedos de Montalegre, da PIDE, de Salazar, do volfrâmio, dos tempos difíceis, do racionamento, de fome e de medo.
 
Imaginem agora todas estas estórias ouvidas e baralhadas no imaginário de uma criança…decorriam então os finais dos anos 60, teria eu 6 ou 7 anos de idade.
 
Mas no meio de todas estas estórias havia um nome que sobressaía - o do “bandido”, “atracador” Juan ou D.Juan, o terror, ou um terror, pior que qualquer “homem do saco” com que se assustavam as crianças, só que este (Juan), tinha sido real.
 
Em finais de 1960 chegava também a televisão aos lares dos portugueses. Ao meu também chegou e, com a sua entrada em casa, terminaram as noites de serões à lareira, terminou o contar de estórias do tempo das guerras e, lá em casa, nunca mais se falou em bandidos espanhóis nem em D. Juan’s. A televisão contava outras histórias e com a vantagem de ter imagens, sem necessidade de as imaginar, mesmo sendo a P&B, verdadeiras ou não, encantavam!
 
E tudo teria terminado por aqui, aliás o tal Juan, com o tempo, quase se apagou da memória, não tivesse eu, em inícios de 90, por mero acaso, comprado um livro, romance, de Bento da Cruz e, que dava pelo nome de “ Lobo Guerrilheiro”. Aos poucos, todas as estórias ouvidas aos serões da lareira dos anos 60 começavam de novo a ganhar forma, romanceadas às vezes, outras contadas ao pormenor, passo-a-passo e sobretudo com as verdades que antes do 25 de Abril nunca seriam possíveis e que, vinham alterar por completo todo o significado das estórias da minha infância. Mas surpreendido fiquei, quando chegado às últimas páginas do livro dou de caras de novo com o Juan, o tal D.Juan que era o terror em pessoa no meu imaginário e nas estórias da minha infância, o tal Juan que eu conhecia como bandido, assaltante da carreira Braga-Chaves, bandoleiro e assassino.
 
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Encontro o Juan, numa passagem que vou transcrever e que alterou por completo a imagem que tinha do mau da fita:
  
“(…)
Mas quando os Espanhóis assaltaram a carreira Braga-Chaves, repleta de lavradores que, pela manhã se dirigiam à feira anual dos Santos de Montalegre (1), todos os barrosões se sentiram ameaçados na bolsa ou na vida.
- Parece que estais a exagerar… - disse o Lobo a Consuelo.
- Nós temos as costas largas… - respondeu ela com tristeza.
- Que queres tu dizer com isso?
- Que o assalto à carreira foi concebido e executado pela Brigantilha do Franco, de colaboração com a PIDE de Salazar.
- Como é que tu sabes?
- Tenho as minhas informações.
- Qual o interesse da Brigantilha e da PIDE pelo assalto à carreira?
- O de criarem na opinião pública ambiente favorável à repressão que se vai seguir. Espera e verás…
- Desculpa, mas toda a gente diz que foi o bando do Juan quem matou o Cepriano e deu o golpe aos passageiros da caminheta. Estes afirmam que após o saque, um dos assaltantes perguntou, em galego, ao que parecia o chefe: «D.Juan, mato lo chofer?» Ao que o tal Juan respondeu: « Nom. Pincha los pneumáticos.»
 
- Isso só comprova a minha tese. Esse diálogo, se o houve, não passa duma encenação para desacreditar o guerrilheiro Juan Salgado, muito conhecido no Barroso pela sua lendária pontaria, mas que não comandava bando nenhum. Tanto quanto sei, o Juam García Salgado pertence à guerrilha orientada por Demétrio Garcá Álvares. O que te posso garantir é que nem o Juan nem o Demétrio têm nada a ver com a morte do Cepriano nem com o assalto à carreira. (…)”
 
(1)   - Bento da Cruz, como barrosão, refere-se à Feira dos Santos em Montalegre, eu, como flaviense e, pela data em questão, além das notícias da imprensa da época, penso que se dirigiam à Feira dos Santos de Chaves (apenas um pormenor e aparte)
 
Se na primeira vez que li o “Lobo Guerrilheiro” foi de rompante, na segunda, e após ter sido lido pelos meus pais, foi lido já com outros olhos e devidamente comentado, com leitura apoiada por gentes que conhecia as gentes do “romance” e, alguns até personagens intervenientes nele. E de novo o Juan, que nesta altura já não era a meus olhos um bandido, mas antes um homem para com o qual os meus pensamentos tinham sido injustos durante toda a minha vida até então.
 
A partir do “Lobo Guerrilheiro” tornei-me um apaixonado pela história do Juan, pela sua verdade e, por arrastamento pelas histórias da guerrilha antifranquista, pelos Maquis.
 
É precisamente seguindo o rasto do Juan que chego até ao Cambedo e, em vez de uma paixão, passo a ter duas paixões que no fim, não passam de uma. A paixão do Juan e do Cambedo, pois falar do Cambedo é falar do Juan e falar do Juan, é falar do Cambedo e digo isto, assim levianamente, porque é isso que eu sinto e que se sente cada vez, que no Cambedo, nos documentos e escritos, se dá de caras com o Juan e com os guerrilheiros antifranquistas, os maquis e, sobre esse passado ainda recente, que tanto maltratou, castigou e perseguiu esta aldeia e as suas gentes e que, ao longo dos anos, têm preferido esquecer, recalcando uma realidade que passados 60 anos ainda dói e ainda mói porque ainda há gentes do Cambedo que viveram esses acontecimentos ou sofrem das suas mazelas e que durante estas últimas seis dezenas de anos, principalmente até Abril de 74 os perseguiu e castigou diariamente e que após Abril, preferiram o castigo do silêncio (quase como Deus manda) ao procurarem a justiça que lhe é devida.
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“Quando, aí por 1956, regressei definitivamente a Barroso, Juan tinha sido morto há uns bons dez anos. Mas o mito do homem continuava.
 
Por causa dele, comecei a interessar-me pelo fenómeno guerrilheiro antifranquista na Galiza. Mas, durante muitos anos, para onde quer que me voltasse, esbarrava num muro de silêncio e de evasivas” - Palavras de Bento da Cruz, mas também de todos os que têm tentado e tentam entrar na verdadeira (repito verdadeira) história da guerrilha e dos acontecimentos do Cambedo.
 
Artur Queirós, Jornalista do Jornal de Notícias, num trabalho sobre os acontecimentos do Cambedo publicado nesse mesmo jornal em 6.12.1987, queixa-se do mesmo e até lembra o apelo feito pelo irmão de Juan (Benjamim Riv(b)ero quando lhe pede: « não mexam nessa ferida que é incurável e quanto mais se mexe mais dói»
 
Pessoalmente penso que o irmão de Juan estava enganado, tal como todos que pensam como ele, estão enganados. Pois penso que quanto mais se mexer na ferida e que quanto mais se souber da verdade, das causas da guerrilha e mais se fale dos acontecimentos do Cambedo, do antes e depois do Cambedo, mais próximos estaremos de fazer justiça a todos os envolvidos, a justiça que merece ser feita, pois só assim se poderão libertar de alguns fantasmas do passado e só assim se curará a tal ferida, embora seja mantida alguma dor que a memória nunca permitirá esquecer.
 
Felizmente, no decorrer destes últimos anos e, após uma primeira abordagem tímida de Jorge Fernandes Alves nos Cadernos Culturais da Câmara Municipal de Montalegre (em 1981), de Artur Queirós (em 1987), de Bento da Cruz (desde 1991) e Paula Godinho (desde 1996) muita tinta tem corrido sobre o assunto – Livros, estudos, documentários televisivos e até filmes, homenagens (tímidas ainda) de um e outro lado da fronteira foram feitos sobre o a guerrilha e sobre o Cambedo. Mas os do Cambedo, que entre uma merenda e um copo ainda se vão abrindo sobre os acontecimentos e o que se tem contado deles, referem a vergonha e a verdade que nunca foi contada.
 
Partimos assim e desde o início para um capítulo que nunca será fechado, ainda para mais que os poucos sobreviventes intervenientes, pouco ou nada dizem ao respeito. Parto assim e apenas com uma verdade, a de que o povo do Cambedo foi uma das vitimas da guerra civil espanhola, do pós guerra e do regime salazarista e franquista.
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Até hoje, com verdades ou meias verdades, ainda nunca foi feita uma verdadeira e merecida homenagem oficial ao sofrimento do povo do Cambedo. Nunca foi feita justiça nem nunca o será, porque não há justiça nem homenagem que pague a dor e sofrimento de um povo inocente que foi obrigado a carregar o pesado fardo da culpa, que foi condenado aos olhos de todo o país, castigado, e que viu alguns dos seus serem presos, torturados, desterrados, castigados e perseguidos durante algumas décadas.
 
Quando pela primeira vez abordei gentes do Cambedo sobre os acontecimentos de 1946, ficou-me apenas retido na memória e para sempre as palavras de um filho da terra que ainda criança  viveu os acontecimentos: “ – Uma vergonha, aquilo foi uma vergonha e a verdade verdadeira nunca ninguém a contou.”
 
Também eu não a vou contar, pois não a sei e, cada vez será mais difícil chegar a essa tal verdade verdadeira uma vez que os documentos oficiais e notícias da época, estão muito longe de serem de fiar e, as testemunhas que viveram directamente os acontecimentos, a maioria já morreu, os poucos que vivem são idosos e não querem ou ainda têm medo de falar e os restantes, dispostos a falar, eram miúdos na altura, que, ou mal recordam ou vão contando o que ouviram contar e inventando até
 
Penso mesmo que a verdade, a verdadeira verdade, toda a verdade, nunca será atingida. Medos e desconfianças de “gatos escaldados”. Mexer numa verdade que se quer esquecida e que, quase sempre, foi mal entendida e interpretada e em que, poucas vezes se olhou ao lado humano das gentes do Cambedo, às injustiças cometidas sobre o seu povo, ao castigo, à vergonha que durante anos foram obrigados a passar e ainda hoje por lá se sente, agora com um pouco de orgulho (por parte de alguns, poucos), mas ainda muita revolta, desconfianças e até medos de arcar com as responsabilidades dos acontecimentos do Cambedo e a morte da guerrilha antifranquista em terras de Portugal.
 
Mas uma verdade eu atingi sobre o Cambedo. A verdade de um povo inocente, que foi castigado, perseguido e ao qual nunca foi feita a devida justiça e, tudo apenas por terem acolhido no seu seio, familiares, amigos e vizinhos galegos que aos seus olhos, mesmo que o tivessem sido, nunca foram guerrilheiros.
 
É essa verdade que eu tentarei aqui abordar, a verdade de uma pequena aldeia que deu abrigo a amigos e familiares e que sofreu pela sua hospitalidade.
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Mais uma vez, repito que é levianamente que faço esta incursão aos silêncios do Cambedo, alguma por minha conta mas, quase sempre e só, para divulgar e interpretar aquilo que já foi escrito e dito nas publicações que nos últimos anos saíram a lume e que são de leitura obrigatória para melhor se compreender a história da guerrilha antifranquista, do Cambedo e claro do tal “guerrilheiro romântico” Juan Salgado o “Facundo”, culpado destas minhas duas paixões – a guerrilha e o Cambedo.
 
Faço-o apaixonadamente e consciente de todos os senãos de uma paixão, longe de querer fazer histórica sobre o assunto, mas antes uma abordagem também “romântica” e pessoal sobre os acontecimentos, baseando-me em alguns testemunhos de gentes do Cambedo, em alguns testemunhos do tempo de guerrilha de outra gente envolvida fora do Cambedo e nas publicações existentes, principalmente lendo o que não foi escrito naquilo que era “imprensa” da época e nos escritos de Jorge Fernandes Alves, Artur Queirós, Bento da Cruz , Paula Godinho e dos escritos de outros autores reunidos em livro pela Asociación Amigos da República - Ourense, aos quais (a todos) desde já peço desculpas pelo uso de muita da sua literatura e investigação, mas também com todo o respeito e admiração por todo o trabalho realizado na descoberta das verdades possíveis sobre a guerrilha antifranquista e o Cambedo.
 
.
.
 
São assim leitura obrigatória sobre o assunto, pelo menos:
 
-Jorge Fernandes Alves – Cadernos Culturais 2 – «O Barrosos e a Guerra Civil de Espanha», Edição da Câmara Municipal de Montalegre, 1981;
 
- Artur Queirós – Jornal de Notícias, JND Domingo, de 6.Dez.1987;
 
- Bento da Cruz - «O Lobo Guerrilheiro» – Editorial Notícias, 1991
 
- Paula Godinho«O Maquis na Guerra Civil Espanhola: O caso do cerco a Cambedo da Raia» – Revista História, nº27, Dezembro de 1996
 
- Asociación Amigos da República. Ourense, « Solidariedade galego-portuguesa silenciada – Cambedo da Raia 1946» – Ourense 2004
 
- Bento da Cruz - « Guerrilheiros Antifranquistas em Trás-os-Montes» – Âncora Editora, 2ª Edição, Abril de 2005.
 
Até amanhã e já sabem que esta semana vamos andar por terras do Cambedo e regressar ao ano de 1946, aos seus acontecimentos, ao antes, ao durante e ao após Dezembro de 1946 e mais uma vez pedir desculpas ao Cambedo e às suas gentes por mexer naquilo que querem esquecido, mas que só com a verdade e o desvendar dos acontecimentos poderá ser feita alguma justiça. Espero contribuir para que tal aconteça, claro que com todos os defeitos de um olhar apaixonado!
 
Até amanhã e a partir de hoje não esqueça que pode acompanhar também tudo que for dito sobre o Cambedo no blog: Cambedo-Maquis
 
publicado por Fer.Ribeiro às 00:26
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