Sábado, 18 de Maio de 2013

Mairos e Torga

 

A neve não é de hoje, mas até podia ser pois a lareira está acesa e lá fora o frio diz-nos que por ai à volta, nas serras mais altas, há neve de certeza, embora maio já caminhe para junho. Mas a razão desta primeira foto é para trazer aqui umas palavras de Torga, que pela certa foram inspiradas ou mesmo escritas na proximidade desta imagem.

 

Mairos, Chaves, 1 de Setembro de 1989


Quanto mais chegado a Espanha, mais eu gosto de Portugal. Nestas terras raianas a pátria sente-se nos pés. Quando ela acaba, o piso é outro.


Miguel Torga, in Diário XV

 


Palavras de Torga que irão passar por aqui muitas vezes. Lá para o próximo mês este blog fara uma pequena remodelação. Entrarão novos autores, imagens de outros fotógrafos e Miguel Torga terá aqui um espaço semanal. Já que a cidade não presta a devida homenagem àquele que sem qualquer dúvida é o maior poeta de Portugal, este blog irá trazê-lo aqui todas as semanas com aquilo que ele dizia de nós e, podem crer que não há ninguém que melhor nos conheça ou conheça Portugal como ele conheceu.




Mas Torga e alterações ao blog só para junho e já quando ele caminhar para julho, entretanto vamos mantendo o blog como até aqui, mas pode ficar desde já prometido que o mundo rural flaviense continuará a ter aqui lugar aos fins-de-semana.



Entretanto hoje vamos mais uma vez até Mairos e com alguns dos seus motivos de interesse, como o interessantíssimo peto que penso nunca aqui ter trazido. Mas nunca é tarde e se não fosse hoje seria para uma próxima vez.




Ficam também mais palavras de Torga. Palavras que ao serem lidas se transformam em imagens que tive a sorte de ver e de viver, por isso também mais sentidas “que nem podem imaginar nem a fundura, nem a santidade”, mas sobretudo palavras que são documentos:

 

Mairos, Chaves, 4 de Setembro de 1990


Despeço-me supersticiosamente da paz do planalto em restolho. O sol morre nos confins dos horizontes, as charruas dormitam, cansadas, à beira dos caminhos, manadas de vacas arrastam placidamente o amojo a caminho da ordenha, e o meu silêncio apreensivo como que cumplicia os companheiros  numa comunhão cósmica de que não podem imaginar nem a fundura, nem a santidade.


Miguel Torga, In Diário XVI



 

Miguel Torga, in Diário XVI

publicado por Fer.Ribeiro às 19:33
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Sábado, 11 de Maio de 2013

Imagens que me contam coisas

 

O lema deste blog tem sido desde o seu aparecimento aliar a fotografia às palavras  nas suas duas vertentes, ou seja, ás vezes são imagens que ilustram palavras outras vezes são palavras que ilustram imagens.

 

Tenho-me queixado ultimamente que não tenho tido tempo para grandes reportagens fotográficas e vou-me valendo do meu arquivo fotográfico e de algumas imagens que já tinha preparadas para publicação. Como o tempo ainda não abunda, foi recorrendo a este método e hoje me deparei com as quatro imagens que vos deixo, todas da aldeia de Ventuzelos, mas poderiam ser de outra aldeia qualquer, pois repetem-se por este nosso concelho fora. Não sei como é que cada um de vós olha para as imagens ou que que nelas vê. Comigo, temos um diálogo, uma aproximação que começa logo no momento de as captar, elas dizem-me coisas, têm rosto, retêm memórias, momentos, contam histórias, transmitem sensações, e geralmente são as imagens que me dão o mote da escrita, que ora é de saudade, de raiva, de carinho ou de reflexão. As de hoje,  deixam-me baralhado entre memórias, raiva e reflexão nestes tempos complicados que estamos a viver, e que também eles são confusos e que não sei bem comos os definir, mas são sem qualquer dúvida os mais complicados do pós 25 de abril. Mas a minha confusão ou indefinição de catalogação destes tempos, não passa pelo aspeto económico e financeiro da crise com que nos bombardeiam todos os dias e que, embora tenham a sua influência, é outra a crise que me afeta e faz refletir, é a que dá pelo nome de crise social, esta também vivida em duas vertentes, uma que nos é imposta e outra que é vivida no próprio seio da sociedade, mas o que mais me preocupa, é que ninguém faz nada para contrariar esta crise, antes pelo contrário, vai-se avivando a fogueira com mais achas para queimar.



Para a população mais jovem que nasceu no pós 25 de abril e apenas assistiu a um período de crescimento e desenvolvimento , não só o nosso, o de Portugal, mas no seu todo, principalmente no crescimento e desenvolvimento tecnológico que nos entrou pelas casas adentro, mas também no social, naquilo que diz respeito às classes socias, em que a classe média se alargou e ganhou força nos países democráticos ocidentais, em que o consumo se tornou quase num modo de vida,  em que sempre viveu em liberdade e  em democracia. Esta população mais jovem  por falta de comparação não se aperceberá muito bem da crise atual e até onde ela nos poderá levar, e  repito, que além de económica e financeira, esta crise  se está a tornar bem mais séria no campo social e, parece-me, que a procissão só agora está timidamente a sair para o adro.



Os das gerações mais velhas, que viveram o antes 25 de abril, tem memórias do passado, assistiram a todas as transformações que os mais jovens assistiram, mas tem memórias do passado, sem televisão, sem computadores, sem telemóveis, sem democracia, sem liberdades, sem consumos, sem classe média, sem estudos…enfim, para quem não conheceu esses tempos, recomendo vivamente que leiam  aquele que conheceu o povo português e Portugal melhor que ninguém, recomendo que leiam  Miguel Torga, principalmente os seus breves desabafos ou sofreres que deixou escrito nos seus diários ou até no seu Reino Maravilhoso. Aos que viveram ainda o antes 25 de abril, recomendo igual leitura e apenas lhes peço para verificarem se as palavras de Torga ainda se mantêm atualizadas. Ficam aqui alguns extratos do seus diários para reflexão, apenas alguns escritos (uma insignificância na sua obra). Escritos que curiosamente passaram para papel nesta cidade de Chaves.



“Chaves, 17 de Setembro de 1961 - É um fenómeno curioso: o país ergue-se indignado, moureja o dia inteiro indignado, come, bebe e diverte-se indignado, mas não passa disso. Falta-lhe o romantismo cívico da agressão.

Somos, socialmente, uma colectividade pacífica de revoltados.”

 

 “Chaves, 6 de Setembro de 1989 - O que é preciso fazer e dizer para desatar o nó de certas almas! Almas obscuras, como todas as almas, mas ciosas da escuridão em que vivem. Aflitas em cada hora da vida, anseia pela libertação sem verdadeiramente a desejar. Estão como viciadas no desespero. E ouvem com indisfarçável desconfiança quem procura ajudá-las, a mostrar-lhes a luz. Anos e anos de recalcamento criaram nelas uma segunda natureza, tímida, fechada, esquiva. E é no fundo do poço que se sentem seguras. Ao menos aí, nada as acusa. O consciente culpa-se; o subconsciente desculpa-se.”


 “Chaves, 10 de Setembro de 1969 - Estes políticos, grandes ou pequenos, ao nível de capital ou de vila, são curiosos! Actores singulares, que em vez de servir se servem, é a própria megalomania que representam no palco da vida, a recitar em voz alta as palavras que adivinham no pensamento dos espectadores que hipnotizam. Naturezas ávidas de palmas vivas – e de morras, se não puder ser doutra maneira -, no fundo, as ideias, o bem público, a pátria e o mais em que se louvam para  atingir e conservar o poder, não lhes interessam. É o espectáculo da sua positiva ou negativa, hipertrofia pessoal que os seduz. A multidão cá em baixo, rasteira, embasbacada, fremente de entusiasmo, ou de indignação, e eles a pairar no meio dela, grotescos e sorridentes, a gesticular como gigantones.”


 “Chaves, 11 de Abril de 1968 - Que povo este! Fazem-lhe tudo, tiram-lhe tudo, negam-lhe tudo, e continua a ajoelhar-se quando passa a procissão.”


Miguel Torga, in “Diários”


Quer acreditem ou não, foram mesmo as imagens que vos deixo hoje, e que se repetem por esse nosso concelho fora, que me levaram a trazer aqui as palavras de hoje. São casas velhas, antigas, que nós já julgávamos fechadas para todo o sempre, mas que teimam em estar lá e que nos trazem à lembrança tempos passados que queríamos esquecidos, mas que, ao que parece, há quem os queira apenas adormecidos para os  fazer despertar.



publicado por Fer.Ribeiro às 15:59
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Domingo, 4 de Novembro de 2012

A Magia do Outono em Vidago - Chaves - Portugal

 

Eu sei que o outono traz com ele o frio, a chuva,  os dias pequenos, torna-se melancólico e chato, mas também tem momentos de magia com o seu elogio à cor e à poesia dos dias.




Claro que nas cidades, entre o betão e empedrado, não podemos viver esses momentos únicos de outono e da magia das cores, onde os verdes velhos, o amarelo, o vermelho e às vezes o azul,  são reis e senhores.




Para sentir o outono e a sua magia, o melhor mesmo é ir para a montanha, onde a floresta vá além do monótono pinheiro e nos ofereça toda uma gama de variedades e espécies.    




Aqui e ali, pelo nosso concelho fora,  existem alguns desses momentos de outono, mas se os quisermos ver todos juntos, nem há como ir até Vidago, onde a tal magia das cores acontece todos os anos por esta altura.




Por mim nunca me canso de ir por lá e de partilhar aqui alguns desses momentos mágicos, que embora se repitam todos os anos, são sempre diferentes e dignos de ser vividos entranhando-nos junto com à sua luz, cor e aromas.




E nada melhor que terminar com Miguel Torga que tão bem sabia viver os nossos momentos transmontanos e transformá-los em poesia:

 

Outono
Tarde pintada
Por não sei que pintor.
Nunca vi tanta cor
Tão colorida!
Se é de morte ou de vida,
Não é comigo.
Eu, simplesmente, digo
Que há fantasia
Neste dia,
Que o mundo me parece
Vestido por ciganas adivinhas,
E que gosto de o ver, e me apetece
Ter folhas, como as vinhas.

Miguel Torga, Diário X (1966)



publicado por Fer.Ribeiro às 02:54
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Terça-feira, 16 de Outubro de 2012

Por terras do Barroso

 

Lá vamos nós outra vez até aqui ao lado, até terras de Barroso, mais propriamente por terras que rodeiam a barragem dos Pisões.




E entramos sempre no Barroso com gosto e olhos de ver, de admirar e de registar em imagem, e também, tal como Torga:




“ Incansavelmente atento às lições do povo, venho, sempre, sempre que posso, a este tecto do mundo português…”

Miguel Torga In Diário XVI



publicado por Fer.Ribeiro às 04:00
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Terça-feira, 25 de Setembro de 2012

Uma voltinha por Barroso

 

Mais uma vez sem a “Pedra de Toque” vamos até Barroso, hoje, do concelho de Boticas.

 

Alguns lugares por onde temos de passar para cumprir a promessa do S. Sebastião no Couto de Dornelas e nas Alturas do Barroso.



Claro que hoje só ficam algumas aldeias e lugares, começando pela Carreira da Lebre e Rio Beça, Vilarinho Seco que é sempre de visita obrigatória, Gestosa e um bocadinho de monte com a estrada a desenhar-se por entre o penedio.



Agora que a crise se instalou e os senhores de Lisboa não têm jeito, arte e inteligência - se a verdade da crise for por aí, ou que não deixam de se amochar perante os grandes interesses - se for essa a verdade da crise, ou ambas juntas, e que todos já nos começamos a aperceber que a crise veio para durar, aproveitemos para conhecer o que temos à nossa volta.



Claro que para quem gosta do glamour e das luzes das cidades, Barroso não é destino. Agora para quem gosta das coisas primeiras, de um povo ainda nobre e genuíno onde o que parece bem ainda parece bem e o que parece mal, mal parece, e onde as paisagens não se repetem mas antes nos surpreendem, onde a água dos rios ainda é transparente e cristalina, o frio é frio e o calor é quente, onde tudo ainda é possível acontecer, então pela certa vai gostar de descobrir Barroso.



Mas tal como Torga, não se esqueçam de entrar no Barroso cheios de boas intenções e vergonha…

 

“Entro nestas aldeias sagradas a tremer de vergonha. Não por mim que venho cheio de boas intenções, mas por uma civilização de má-fé que nem ao menos lhes dá a simples proteção de as respeitar”


Miguel Torga, in Diário VIII


publicado por Fer.Ribeiro às 02:45
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Quarta-feira, 11 de Abril de 2012

Uma voltinha pelo passado não muito distante

 

Como  o vento não parece estar de feição para trazer palavras ao nosso cronista de hoje, abri as portas do meu arquivo fotográfico para vos deixar aqui imagens mais antigas, mas não muito, porque o meu arquivo apenas está povoado de imagens mais recentes, da última meia dúzia de anos, o que por um lado lamento profundamente mas por outro nem tanto, pois evito mergulhar num estado de saudosismo da era pré-b€tão, com uma cidade mais pequena mas com muita vida e até mais feliz. Mas o betão era inevitável e nada tenho contra ele, mas, poderia ter acontecido numa cidade nova, moderna, planeada e limitada às nossas necessidades de modo a deixar a antiga cidade com a sua dignidade de cidade antiga e com vida. Mas isto são mais desabafos que lamentações, que hoje, de nada valem, mas que me dão o mote para umas letras de Torga, que ao respeito me vieram à memória.

 


 

Chaves, 28 de Setembro de 1967

 

 

Desabafos. Mas nunca se pode dizer tudo. Ficam sempre no fundo da consciência as borras da angústia. O pudor, a covardia, o orgulho e a vergonha, até, impedem a draga de trazer à tona certas lamas. E dá como resultado que no fim das confidências fica na alma uma dor mais cruciante ainda, e na boca um travo de traição. Traição aos nossos próprios sentimentos.

 

 

Miguel Torga, In Diário X

 

 

publicado por Fer.Ribeiro às 04:27
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Quarta-feira, 22 de Fevereiro de 2012

Frustração

 

 

 

 

Chaves, 4 de Setembro de 1989

 

 

 

Frustação

 

Foi bonito

O meu sonho de amor

Floriram em redor

Todos os campos em pousio.

Um sol de Abril brilhou em pleno estio,

Lavado e promissor.

Só que não houve frutos

Dessa primavera.

A vida disse que era

Tarde demais.

E que as paixões tardias

São ironias

Dos deuses desleais.

 

Miguel Torga, in Diário XV

 

publicado por Fer.Ribeiro às 02:54
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Domingo, 28 de Agosto de 2011

Castelo de Monforte de Rio Livre - Chaves - Portugal

 

Torga dizia que de vez em quando passava pela raia para ver se os marcos da fronteira estavam no sítio. A mim vai-me acontecendo o mesmo, mas em vez dos marcos da fronteira tenho os meus lugares de referência, onde de vez em quando também dou lá um pulo para ver se tudo está na mesma e, embora às vezes seja conveniente que tudo continue igual, outras vezes, o continuar tudo igual chega a meter dó, e temos pena.

 

Um desses lugares de referência por onde passo sempre que posso é o Castelo de Monforte, lugar conhecido pela aragem e ventos que por lá sempre sopram, ventos de Espanha por certo, pois nunca sopram eu seu favor.

 

 

E já que se falou de Torga e de Espanha, veja-se o que registou o poeta aquando de uma das suas visitas ao Castelo de Monforte em Setembro de 1961, há 50 anos, mas pela actualidade da escrita poderia ter sido hoje.

 

 

“(…) Também eu sinto neste momento não sei que despeitada revolta, que surdo desespero. Do lado de lá da fronteira, Monterrey, altaneiro, majestoso, ufano das suas aladas torres, do seu palácio senhorial, da sua igreja românica, cofre dum retábulo de pedra de cegar a gente; deste, quatro paredes toscas de desilusão, que a hera aguenta de pé por devoção à pátria. É, realmente, de um homem perder a paciência de vítima passiva do destino. Sempre pequenas muralhas de fraqueza e pobreza! Sempre um prato de figos ao fim de cada fome!”

Miguel Torga, in Diário IX

publicado por Fer.Ribeiro às 19:43
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Quarta-feira, 1 de Dezembro de 2010

Reino Maravilhoso * Trás-os-Montes * Portugal

 

 

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Todas as manhãs, quando acordo, o primeiro olhar que lanço para fora de casa vai em direcção ao Brunheiro. Ele é o meu barómetro e é ele quem me diz se a roupa a vestir deve ser de agasalho, mais ligeira, para chuvas ou nevoeiros. Ontem, no olhar do acordar, o Brunheiro estava vestido de Branco.

 

Desci à cidade e pelo caminho o rádio foi-me pondo ao corrente da situação – Frio, alerta amarelo, neves, estradas cortadas nas serras altas e montanhas, em suma, aquilo que poderá parecer o prenúncio de uma desgraça é afinal a alegria de muitos, principalmente dos putos, pois é um dia de borga e sem aulas, mas não só, pois também os crescidos, mesmo que não o admitam, gostam de ver a terrinha vestida de branco, principalmente quando sabem que não veio para durar.

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Eu também nunca resisto, e gosto, sou como os putos…corro logo para a neve a fazer uns bonecos, mesmo que sejam apenas fotográficos.

 

Também ontem aproveitei e fui montanha acima à procura dela. Para o Brunheiro era impossível, pois a Nacional 314 estava cortada no Peto de Lagarelhos, decidi-me então por Mairos, S.Cornélio e como aqui as coisas se começavam a complicar, em vez da opção Travancas até terras de S.Vicente, decidi-me regressar pela Bolideira e Águas Frias.

 

Pelo caminho ia-me deliciando com as maravilhas do branco, o dobrar das giestas pelo peso da neve, os patos bravos (1) na barragem de Mairos e águias por tudo quanto era alto. Sozinho no meio da imensidão do branco dei comigo a dizer: - Este é o reino maravilhoso de que Torga fala.

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Chegado a casa, abriu-me o apetite para reler o “Reino Maravilhoso” de Torga, o mesmo de que tantas vezes se fala e se faz a citação das primeiras palavras do texto… “Vou falar-vos de um reino maravilhoso (…) fica no cimo de Portugal, como os ninhos ficam no cimo das árvores (…)  Vê-se primeiro um mar de pedras (…)— Para cá do Marão, mandam os que cá estão!... “ e nunca aparece o texto por inteiro, e é pena, pois todo ele é um poema que nos deixa nus perante a nossa identidade transmontana, o nosso ser, um retrato fiel daquilo que somos e que todo o transmontano tem obrigação de conhecer.

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Sei que muitos de vós já o conheceis, e também sei que em blog textos longos não funcionam muito bem, mas vou arriscar a deixar aqui na integra o «Reino Maravilhoso * Trás-os-Montes» para relerem ou para finalmente terem o texto por inteiro, e tal como quando se comem cerejas, quando o começarem a ler, já não param.

 

Sei que o texto não precisa de ilustrações, mas pelo caminho vou deixando algumas da nevada de ontem. Divirtam-se.

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UM REINO MARAVILHOSO

(TRÁS-OS-MONTES)

 


Vou falar-lhes dum Reino Maravilhoso. Embora muitas pessoas digam que não, sempre houve e haverá reinos maravilhosos neste mundo. O que é preciso, para os ver, é que os olhos não percam a virgindade original diante da realidade e o coração, depois, não hesite. Ora, o que pretendo mostrar, meu e de todos os que queiram merecê-lo, não só existe como é dos mais belos que se possam imaginar. Começa logo porque fica no cimo de Portugal, como os ninhos ficam no cimo das árvores para que a distância os torne mais impossíveis e apetecidos. E quem namora ninhos cá de baixo, se realmente é rapaz e não tem medo das alturas, depois de trepar e atingir a crista do sonho, contempla a própria bem-aventurança.


Vê-se primeiro um mar de pedras. Vagas e vagas sideradas hirtas e hostis, contidas na sua força desmedida pela mão inexorável dum Deus criador e dominador. Tudo parado e mudo. Apenas se move e se faz ouvir o coração no peito, inquieto, a anunciar o começo duma grande hora. De repente rasga a espessura do silêncio uma voz de franqueza desembainhada:

 

— Para cá do Marão, mandam os que cá estão!...

 

Sente-se um calafrio. A vista alarga-se de ânsia e de assombro. Que penedo falou? Que terror respeitoso se apodera de nós?

Mas de nada vale interrogar o grande oceano é megalítico porque o nume invisível ordena:

 

— Entre!

 

A gente entra, e já está no Reino Maravilhoso.

 

Reino, nestes livros sinistros que são os dicionários, é um substantivo masculino com rei à frente. Imaginem!... Como se fossem suficientes um léxico e um monarca para definir e governar uma realidade irreal!

Pelo que diz respeito a mandar, é o que sabemos

 

— Para cá do Marão...

 

Mandam todos. O poder que atravessa a muralha e penetra ali,  se tem corpo, se tem nome, ou perde a marca individual e se transforma em símbolo, ou morre. Tem de ser sempre, quer sela Pio X ou Pio XII, o «nosso Santo Papa Leão XIII», que é quem a Maria Purificada elege em cada conclave na sua Vila de Freixo de Espada à Cinta...

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Incapazes de uma obediência imposta de fora, os habitantes da terra apenas consideram naturais e legítimos os imperativos da própria consciência. O eco duma ordem estranha à sua harmonia interior desliza pela crosta das almas sem as perturbar. As mais altas dignidades de além fronteiras nada mais representam do que puras expressões nominais de valores abstractos. Meta-se um cristão por qualquer dos caminhos que levam ao coração geográfico desse mundo encantado. De certeza que lhe aparece um semelhante de aguilhada na mão, socos pregados e roupa de saragoça, a perguntar:

 

— O meu Senhor, sempre é verdade que o nosso rei agora é o Doutor Afonso Costa?

 

Faça o que fizer o Tamerlão invasor, a mesma vontade que ele julga dobrar o deseroíza e vence. É ela que, a bem ou a mal, acaba por dispor das riquezas que lhe pertencem: das águas de regadio, dos baldios, da mulher e dos filhos, e de si. De tudo o que na vida material e espiritual tem grandeza e sentido. No pormenor, no que não é seiva de ninguém, dão sentenças o Regedor e o Senhor Abade, que, afinal, pregam editais nas portas e sermões nas igrejas...

A autoridade emana da força interior que cada qual traz do berço. Dum berço que oficialmente vai de Vila Real a Montalegre, de Montalegre a Chaves, de Chaves a Vinhais, de Vinhais a Bragança, de Bragança a Miranda, de Miranda a Freixo, de Freixo à Barca de Alva, da Barca à Régua e da Régua novamente a Vila Real, mas a que pertencem Foz-Côa, Mêda, Moimenta e Lamego — toda a vertente esquerda do Doiro até aos contrafortes do Montemuro, carne administrativamente enxertada num corpo alheio, que através do Côa, do Távora, do Torto, do Varosa e do Balsemão desagua na grande veia cava materna as lágrimas do exílio.

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Um mundo! Um nunca acabar de terra grossa, fragosa, bravia, que tanto se levanta a pino num ímpeto de subir ao céu, como se afunda nuns abismos de angústia, não se sabe por que telúrica contrição.


Terra-Quente e Terra-Fria. Léguas e léguas de chão raivoso, contorcido, queimado por um sol de fogo ou por um frio de neve. Serras sobrepostas a serras. Montanhas paralelas a montanhas.


Nos intervalos, apertados entre os lapedos, rios de água cristalina, cantantes, a matar a sede de tanta aridez. E de quando em quando, oásis da inquietação que fez tais rugas geológicas, um vale imenso, dum húmus puro, onde a vista descansa da agressão das penedias. Veigas que alegram Chaves, Vila Pouca, Vilariça, Mirandela, Bragança e Vinhais.


Mas novamente o granito protesta. Novamente nos acorda para a força medular de tudo. E são outra vez serras, até perder de vista.


Não se vê por que maneira este solo é capaz de dar pão e vinho. Mas dá. Pão de milho, de centeio, de cevada e de trigo. Pão integral. Por ser pão e por ser amassado com o suor do rosto. Sabe a trabalho. Mas é por isso que os naturais o beijam quando ele cai no chão...


O vinho é de moscatel, alvarelhão, penaguiota, malvasia fina, emana das fragas à ordem de vozes imperiosas como a de Moisés quando feria a pedra do Horeb — a vara mágica do patriarca substituída agora por um alvião de saibramento. Por toda a parte apetece saboreá-lo, porque mesmo onde a neve, o sincelo e o suão crestam a esperança, mesmo aí ele parece veludo no paladar. Mas há lugares santos onde a santidade é maior. Assim acontece no Roncão, Samos de todos os Samos.


Nas margens de um rio de oiro, crucificado entre o calor do céu que de cima o bebe e a sede do leito que de baixo o seca, erguem-se os muros do milagre. Em íngremes socalcos, varandins que nenhum palácio aveza, crescem as cepas como os manjericos às janelas. No Setembro, os homens deixam as eiras da Terra-Fria e descem, em rogas, a escadaria do lagar de xisto. Cantam, dançam e trabalham. Depois sobem. E daí a pouco há sol engarrafado a embebedar os quatro cantos do mundo.


Mas a terra é a própria generosidade ao natural. Como num paraíso, basta estender a mão. Produz batata, azeite, cortiça e linho. Batata farinhuda, que se desfaz na boca; azeite loiro, que sai em luz da almotolia: cortiça que deixa os sobreiros nus para agasalhar os enxames; e linho fresco, fino, que, tecido em lençóis, faz o bragal das noivas.

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De figos, nozes, amêndoas, maçãs, pêras, cerejas e laranjas nem vale a pena falar. São mimos dum pomar variegado, que nenhuma imaginação descreve quando a primavera estala nos ramos. Ver uma encosta de Barca de Alva coberta de flores de amendoeira, ou o solar de Mateus a emergir dum mar de corolas sortidas, é contemplar o inefável. Mas o fruto dos frutos, o único que ao mesmo tempo alimenta e simboliza, cai dumas árvores altas, imensas, centenárias, que, puras como vestais, parecem encarnar a virgindade da própria paisagem. Só em Novembro as agita uma inquietação funda, dolorosa, que as faz lançar ao chão lágrimas que são ouriços. Abrindo-as, essas lágrimas eriçadas de espinhos deixam ver numa cama fofa a maravilha singular de que falo, tão desafectada que até no próprio nome é doce e modesta: — a castanha. Assada no S. Martinho, serve de lastro à prova do vinho novo. Cozida, no Janeiro glacial, aquece as mãos e a boca de pobres e ricos. Crua, engorda os porcos, com a vossa licença...

 

É destes que se tem de partir para chegar à trindade tradicional do reino: os presuntos, as alheiras e os salpicões.


Por alturas do Natal, começa a matança. Ao romper da manhã, a paz de cada povoado é subitamente alarmada. Um grito esfaqueado irrompe do silêncio. Dias depois desmancha- se a bisarma, e um pálio de fumeiro cobre a lareira.


Quem não comeu ainda desses manjares ensacados, prove... E há-de encontrar neles o sabor das invernadas passadas ao borralho enquanto a neve cai o perfume das graças dadas por alma dos que Deus tem, a magia da história de João de Calais contada aos filhos, e uma ciência infusa de temperar, que vem desde que a primeira nau chegou da índia.


Mas o panorama zoológico não se fica pelo animal de vista baixa que se desfaz em torresmos e chouriços. Passando pelo lobo do Eusébio Macário, que só por si vale um tigre do Kipling, pelo boi de Miranda, que só lhe falta falar, e pelo bicho da seda que de Bragança aveludou em tempos Ceca e Meca, temos ainda a perdiz, a fera da Mantelinha, que nenhum forasteiro deve deixar de ver. Em Outubro, quando o sol ainda a espreguiçar-se de sono lava a cara na fonte de Casal de Loivos, certo perdigueiro, que sobe o monte colado ao chão, já com um aceno perfumado a fazer-lhe cócegas no nariz, pára de repente siderado. Manda-se-lhe dar a pancada. O navarro entra, e só então Sua Senhoria aparece. Cabeça alta de quem olha o mundo de cima, peito largo aberto ao vento, pés seguros de almocreve. — Pfrrruu..u..u. Lá vai ela! Quando o tiro lhe acerta e cai, parece uma deusa morta... No cinto, ainda se lhe tem respeito...

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A truta, que representa com dignidade e bravura o mundo da barbatana, é nos açudes que mostra o que é. Sobe por eles acima como os rapazes pelos mastros ensebados, e só com sofismas a pescam uns filósofos sem filosofia, que vale a pena observar, de cana em riste e saltão no anzol. Quem for a Boticas, coma um peixinho desses e beba-lhe «vinho de mortos» em cima. Pelo que houver,  fico eu. Acudo-lhe com o único remédio decente que se conhece para moela fraca — um quarto de Pedras ou de Vidago, águas minerais que nascem perto. A terra é de tal natureza que, não contente com as dádivas a céu aberto, encerra nas entranhas riquezas que não têm conto. Entra-se no ventre duma serra, e é ferro, é oiro, é chumbo, é estanho, é volfrâmio, é zinco, é urânio, é tudo quanto Vulcano forjou. Caldas, então é um benza-te Deus. São famosas as de Carrelão, as de Moledo, as de Alfaião, as de Chaves, as Carvalhelhos e as de Sabroso — porque de todas elas fazem milagres perfeitos. E vêm então peregrinos de muito longe — gente que arrebentou ou se envenenou a comer um boi e a beber um tonel — curar nelas o estômago, o fígado, a gota, os eczemas e a melancolia. Tomam-nas durante quinze dias. Ao cabo, regressam, de corpo novo e alma nova.


Os naturais é que raramente precisam delas, por serem homens de muita saúde e sobriedade.


Homens de uma só peça, inteiriços, altos e espadaúdos, que olham de frente e têm no rosto as mesmas rugas do chão. Castiços nos usos e costumes, cobrem-se com varinos, croças, capuchas e mais roupas de serrobeco ou de colmo, e nas grandes ocasiões ostentam uma capa de honras, que nenhum rei! Usam todos bigode e alguns suíças. E põem naqueles pêlos da cara uma dignidade tal, um sentido tão profundo da pessoa humana, que é de a gente se maravilhar. Às vezes agridem-se uns aos outros com tamanha violência que parecem feras. Mas olhados de perto esses nefandos crimes, vê- se que os motiva apenas uma exacerbação de puras e cristalinas virtudes, que só não são teologaís porque Deus não quer. Fiéis à palavra dada, amigos do seu amigo, valentes e leais, é movidos por altos sentimentos que matam ou morrem. Ufanos da alma que herdaram, querem-na sempre lavada, nem que seja com sangue. A lendária franqueza que vem nos livros é deles, realmente. Mas radica na mesma força interior que, levada à cegueira da exaltação, pode chegar ao assassínio. Bata-se a uma porta, rica ou pobre, e sempre a mesma voz confiada nos responde:

 

— Entre quem é!

 

Sem ninguém perguntar mais nada, sem ninguém vir à janela espreitar, escancara-se a intimidade duma família inteira. O que é preciso agora é merecer a magnificência da dádiva.


Nos códigos e no catecismo o pecado de orgulho é dos piores. Talvez que os códigos e o catecismo tenham razão. Resta saber se haverá coisa mais bela nesta vida do que o puro dom de se olhar um estranho como se ele fosse um irmão bem-vindo, embora o preço da desilusão seja às vezes uma facada.


Dentro ou fora do seu dólmen (maneira que eu tenho de chamar aos buracos onde vive a maioria) estes homens não têm medo senão da pequenez. Medo de ficarem aquém do estalão por onde, desde que o mundo émundo, se mede à hora da morte o tamanho de uma criatura.

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Acossados pela necessidade e pelo amor da aventura, aos vinte anos (se não tiver sido antes), depois da militança, alguns emigram para as Arábias de além-mar. Brasis, Africas e Oceanias. Metem toda a quimera numa saca de retalhos, e lá vão eles. Mourejam como leões, fundam centros de solidariedade humana por toda a parte, deixam um rasto luminoso por onde passam, e voltam mais tarde, aos sessenta, de corrente ao peito, cachucho no dedo. e com a mesma quimera numa mala de couro. Gastam cem contos numa pedreira a fazer uma horta, constroem um casarão com duas águias no telhado, e respondem com ar manhoso a quem lhes censura um amor tão desvairado às berças:

 

— Infeliz pássaro que nasce em ruim ninho…

 

E continuam a comer talhadas de presunto cru.


Os que ficam, cavam a vida inteira. E, quando se cansam, deitam-se no caixão com a serenidade de quem chega honradamente ao fim dum longo e trabalhoso dia. E ali ficam nuns cemitérios de lívida desilusão, à espera que a lei da terra os transforme em ciprestes e granito. Alegrias gratuitas têm poucas. Embebedam-se nas festas e nas feiras, batem a cana-verde nos dias grandes, e gozam os robertos e as vistas que levam de povo em povo um sofisma de ventriloquia e a irrealidade serôdia das terras do Preste João.

 

— Ó Zé Roberto:

Queres casar comigo, que sou uma rapariga bem boa?

Bem boa! Bem boa! Bem boa!


Olha o «Vaticano», olha o «Vaticano», com as suas 365 janelas e o Papa a olhar a uma delas… Quem quer ver? Quem quer ver?

 

Nas romarias, verdadeiramente, não se divertem. Pagam nelas o dízimo espiritual ao santo ou à santa com quem têm contratos pelo ano fora, e fazem a barrela das suas relações humanas.


A capela da devoção fica no alto do mais alto monte que rodeia a freguesia. E eles sobem então pela serra acima, quer à vara do pálio, quer a alombar o andor, quer de joelhos, a abrir uma chaga de sofrimento no corpo pecador — mas sem tirar os olhos do inimigo com quem hão-de medir forças no arraial. Sobem numa penitência inteira. Ao descer, vêm numa manta, esfaqueados.


Dessas mortes ficam pelos caminhos memórias de pedra com alminhas do purgatório a pedir orações, que são a História intima do reino resumida em padre-nossos. A outra, toda feita de lendas e fantasia, tem o seu tombo no coração dos que são poetas, e conta-se nas fiadas. Na loja dos bois, ao calor aconchegado da bosta quente a fermentar a palha, envolto na luz pacífica de uma candeia de azeite, o rapsodo mais velho começa:

 

No tempo da Princesa Clarimunda...

 

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A meia-noite o fuso pára nas mãos adormecidas das fiandeiras. Erguem-se todos. Mas no dia seguinte chega-se ao fim.


De Celtas, lberos, Romanos, Moiros, etc. e tal, e dos do tempo dos afonsinos, os velhos dão pouca relação. Em todo o caso mostram os dólmens do Alvão, a Porca de Murça, a ara do deus Aerno, os castros desfeitos, os altares de Panóias, a ponte romana de Chaves e a Domus Municipalis de Bragança. O tempo mudou os símbolos da fé, deliu as inscrições sagradas, e relegou para a penumbra da arqueologia o que foi vivo e útil. Por isso, olham todas essas relíquias numa espécie de melancolia esquiva, Renúncia inconformada, que, num desesperado esforço de encontrar os secretos tesoiros da unidade eterna, às vezes os leva a meter um cartucho de dinamite nas pedras veneráveis, a ver se elas resistem à inquietação do presente.


É certo que há escolas pelo pais a cabo onde as leis inexoráveis do perecível e do imperecível são explicadas. De uma sei eu em que certa palmatória de cinco olhos faz decorar tudo quanto no mundo se descobriu até à raiz quadrada. Mas mesmo nos remos maravilhosos acontece a desgraça de o povo saber duma maneira e as escolas saberem doutra. Acabado o exame da quarta classe, cada qual trata de sepultar sob uma leiva, o mais depressa que pode, a ciência que aprendeu.


A não ser o Senhor Varatojo, que dá sota e ás ao mais pintado doutor. Na inquebrantável decisão de levar tudo ao fim, na teimosia que, uma vez segura da sua verdade, não cede a nenhum argumento, e no gosto inquieto de conhecer, podia ter sido um novo Fernão de Magalhães. a dar a volta aos mundos de agora. Mas como infelizmente a pátria não convida os filhos para tais empresas, empregou-se na Câmara, come do bom e do melhor à custa de quem lho vai meter no bico, toca bandolim. e lê quantos romances se escreveram. Depois conta-os na farmácia, e pinta o diabo se alguém o desmente.

 

— Tenho a certeza matemática! — grita congestionado.

 

E tem, porque sabe de cor as vírgulas e as peripécias. Outro dia chegou mesmo a ir a Paris, só para ver num parque público o banco onde uma heroína qualquer deu um beijo ao namorado. Entra esbaforido na estação da Vila, pede um bilhete, e ai vai ele. Chegou lá, não quis saber de mais nada:

 

— Faça favor: onde é o Bosque de Bolonha?

 

Olhavam-no todos como quem olha um fenómeno, mas sempre lhe disseram.

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Parecia um tiro pelas ruas a cabo. Ao fim duma hora de caminho, chegou ao sítio. Examinou, calculou, andou, virou, tornou, até que deixou sair do peito um arranco de triunfo:

 

— Foi neste!


— Neste, o quê?!

 

Ele então explicou. Assombrados e cépticos, os de lá puseram-se a rir. Felizmente que o romance estava escrito em francês...


E como alguém duvidasse, já não do juízo do homem, mas de tudo se ter passado mesmo, mesmo naquele banco, o Senhor Varatojo mostrou a página do livro, tirou do bolso do colete o relógio, e provou:


— A cena passa-se no dia 24 de Agosto, às quatro horas. Ora bem: estamos a 24 de Agosto e são quatro horas em ponto. O banco onde os dois se sentaram tinha sombra. Não há mais nenhum com sombra. Portanto...


Meteu-se outra vez no comboio, cabeçudo, e retomou as suas funções, sentado à secretária, sempre com as virtudes do povo na ponta da língua, a garantir que Camilo é o cronista do Reino, e a confessar que vai todas as noites ao jardim da Carreira ouvi-lo sobre política, religião e literatura. Ainda não encontrou fonte onde bebesse com tanto gosto...


Os contribuintes pagam a décima e riem-se. Que diz o Senhor Varatojo!? O Camilo! O Camilo levou mas foi uma grande coça na Senhora da Azinheira, outra na Senhora da Saúde, outra na Senhora dos Remédios... Fazia-se fino!


Engole em seco e muda de conversa. Como é também da mesma laia, capaz de cobiçar a mulher do próximo e varrer uma feira a estadulho, não insiste. Sabe muito bem que vive entre irmãos que não mudam de camisa para esbofetear o mais pintado, seja ele o autor do Amor de Perdição, mas que também lhe tiram o chapéu, caso o mereça. Fracos em letra redonda, sabem todos honrar a grandeza verdadeira. E a prova é que lá o têm, a esse trágico inventor de tragédias, entronizado no coração das fragas, a receber o carinho eterno da terra onde foi menino e génio. Bateram-lhe realmente nas romarias, mas deram-lhe o maior bem que se pode ter:


O nome de Transmontano, que quer dizer filho de Trás-os-Montes, pois assim se chama Reino Maravilhoso de que vos falei.

 

Miguel Torga, In «Portugal», 1950.

 

 

(1) - Em tempo - Por um comentário a este post fiquei a saber que as aves que eu identifiquei na barragem de Mairos como patos bravos afinal são corvos-marinhos. As minhas desculpas.

publicado por Fer.Ribeiro às 05:04
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Sábado, 31 de Julho de 2010

Visita Sacramental ao S. Caetano - por Miguel Torga

 

 

 

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Chaves, 26 de Agosto de 1990

 

 

Visita sacramental ao S. Caetano, um santo fronteiriço que tem na terra os serviços administrativos modelarmente organizados. «Meta as esmolas nos petos» - avisam os letreiros.

 

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E lá estão as tulhas para os cereais, a grade para os galináceos, e o orifício aberto na parede granítica da capela para encarreirar a pecúnia. Peregrino anual e céptico, não peço ao orago graças que sei que não pode conceder a um mau romeiro.

 

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Bebo-lhe a água gelada da fonte das três bicas, regalo os olhos na paisagem aberta e larga, espreito o cemitério visigótico precariamente preservado e fico satisfeito. Mas volto sempre, e sempre com a mesma curiosidade e disponibilidade emotiva. A minha bem-aventurança começou quando abri os olhos no mundo e há-de acabar assim, quando, já cansado de tanto o ver e surpreender, os fechar.

 

 

Miguel Torga, in Diário XVI

 


publicado por Fer.Ribeiro às 10:53
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Quarta-feira, 16 de Junho de 2010

Torga, mais uma vez

 

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Chaves, 13 de Setembro de 1982


 

A raia do Barroso vista do lado de cá. A nossa independência está alicerçada na capacidade que temos de resistir à miséria. É uma espécie de direito à pobreza ou uma pobreza livre por teimosia.


 

Miguel Torga, in Diário XIV

 

 

 


publicado por Fer.Ribeiro às 12:00
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Domingo, 28 de Fevereiro de 2010

Curral de Vacas - Chaves - Portugal

 

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A primeira vez, teria eu 6 ou 7 anos, se tantos, que fui a Curral de Vacas, foi quase em excursão familiar com pais, padrinhos, irmãos, acomodados como podíamos, todos dentro de um carro preto e grande, que gemeu a bem gemer para atingir o cimo da longa subida que desaguava na aldeia. O Esforço do carro foi tanto ou igual ao nosso, que dentro dele sofríamos e temíamos não chegar ao destino, o que seria uma tragédia não poder assistir devotamente ao Auto da Paixão. Era tempo em que a religião além de se levar a sério, era tão temida como abençoada da mesma forma que Deus nos castigava ou dava graças. Assistir ao Auto da Paixão, além da beleza da representação, era também uma graça de Deus.

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Estávamos nos anos 60 e só regressaria lá de novo, 20 anos depois por um motivo profissional qualquer. Da aldeia poucas imagens tinha, do Auto da Paixão, recordava e recordo ainda muitas das cenas e do túnel humano que se ia abrindo para a representação passar, mas também dos comentários de apreciação da representação das cenas e dos personagens, sobretudo o de Jesus que era sobre o qual recaiam mais atenções.

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Tenho assim, desde sempre, associada a aldeia de Curral de Vacas, ao Auto da Paixão, que, quer se tivesse a sorte de assistir ou não, era famoso e passava para além das terras de Chaves, tanto, que até Miguel Torga se sentiu atraído pela fama e encanto do acto ato e mesmo sem auto, quis conhecer o palco da representação:

 

Curral de Vacas, Chaves, 24 de Setembro de 1970

 

Hoje vim apenas ver o palco. Qualquer dia virei assistir à representação do Auto da Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo. Nestas quelhas esburacadas e cobertas de bosta, ladeadas de postigos por onde espreita a solidão humana sem fartura, sem higiene, sem instrução e sem esperança, sim, é de um Zé qualquer, pode carregar dignamente uma cruz divina

Miguel Torga, in Diário XI

 

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Também eu, antes deste post, por várias vezes fui, apenas, visitar o palco da actual atual aldeia. Vinha-me sempre à lembrança o tal Auto da Paixão e regressava sempre de mãos vazias e sem imagens da aldeia de hoje para a feitura deste post.

 

Mas continuemos, ainda, com o Auto da Paixão e com Torga, que depois do palco vazio, quis vê-lo cheio de paisagem humana num espaço de devoção, mesmo que ingénuo mas fazendo parte das práticas ancestrais enraizadas na vivência mais profunda de um povo.

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Curral de Vacas, Chaves, 11 de Abril de 1974

 

O Auto da Paixão num pobre lugarejo  transmontano transfigurado numa Galileia imaginária, a fonte de Jacob, o Jardim das oliveiras e o Sinédrio reduzido a uma bacia cheia de água, a meia dúzia de ramos espetados no chão, a um palanque de feira. Mas nesse cenário ingénuo e sumário, tudo se passou como no verdadeiro – um Cristo do mundo a sofrer as injustiças e agruras do mundo. Pilatos era qualquer regedor, Presidente da Câmara ou juiz poltrão a lavar as mãos na honra da verdade; Caifás, o influente poderoso e rancoroso, que não é por nós é contra nós; Judas, o mau vizinho que muda os marcos e jura peitado; e a turba judaica, a multidão que assistia, mata, queima, esfola, conforme a onda emotiva. Não havia vedetas. Nem o próprio redentor tentava ultrapassar a medida humana. Todos faziam diligentemente o seu papel, a debitar o texto e a gesticular como a rudeza era servida. A tarde estava de rosas, e essa doçura da natureza emoldurada harmoniosamente aquela lúdica catarse colectiva, teatro e realidade misturados, festa e pesadelo, agonia fingida e vivida. O povo tem isso: sabe encontrar o meio termo feliz, o equilíbrio entre as exigências da alma e as fraquezas do corpo. A tragédia do Calvário é a nossa própria tragédia. Mas Deus é Deus, um ser absoluto. Pode sofrer absolutamente. Nós somos criaturas relativas…Por isso, a esponja de fel que desta vez o Centurião chegou ao lábios de Cristo era um naco de pão-de-ló ensopado em vinho fino…

 

Miguel Torga, in Diário XII

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Este blog está quase a cumprir a sua promessa de passar por todas as aldeias do concelho de Chaves com um post alargado, pois com breves passagens já todas passaram, e Curral de Vacas não poderia ficar de fora de uma abordagem mais profunda e, em imagem, deixar também aqui uma ideia do que é a aldeia. Não poderia adiar mais uma visita demorada e a recolha de imagens. Aqui está hoje o post e as imagens possíveis, na certeza de que muitas mais poderia ficar aqui.

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Uma abordagem que confesso difícil, não só porque todas as velhas imagens do meu imaginário se diluíram na modernidade da aldeia, mas também, como diz Torga, por perder a sua identidade, começando pelo nome da aldeia, que não sei por qual vergonha tentam borrar e deixar esquecido o nome de sempre, da e ligado à sua história, do seu passado – Curral de Vacas, chamando hoje a si e à aldeia (consagrado em placa à entrada da aldeia) o nome da freguesia de Santo António de Monforte.

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Também Torga lamenta e de novo canta Curral de Vacas no seu diário, passados quase vinte anos após ter-se rendido a todo um povo:

 

Curral de Vacas, Chaves, 3 de Setembro de 1991

 

À semelhança de tantas outras que me ocorrem penosamente à lembrança, também esta terra, infelizmente, perdeu a identidade. Mudou de nome, alindou as moradias, secou-lhe no largo o negrilho centenário que a tutelava, deixou apagar o forno do povo, pôs fim às representações do Auto da Paixão, que a notabilizavam e aqui me trouxeram pela primeira vez. Com todas as raízes cortadas, ninguém se orgulha mais do tapete de bosta que lhe almofadava os passos logo ao nascer. Cada morador, com quem falo e comento a degradação, parece ter perdido a memória das antigas feições. Até o patriarca, que foi durante a vida inteira titular da figura de Cristo no drama sagrado, e era pelo ano adiante a figura carismática da povoação, no que diz e me diz é um estranho a si próprio, um zé-ninguém indigno da majestade que dantes lhe nimbava a rude fisionomia de cavador. Nem o consigo ver, como vi, a morrer santamente na consternação de todos pregado na cruz do calvário, nem, depois, a festejar alegremente com os amigos, lascas de presunto e copos de vinho tinto, a sua ressurreição.

 

Miguel Torga, in Diário XVI

 

A Maravilha do Reino, perdia assim para o poeta que a canta, um pouco do seu encanto.

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Mas vamos deixar, para já, Torga e as perdas do passado de lado, que, no entanto,  se refletem no presente de uma aldeia que cresceu a par da modernidade alongando o seu casario ao longo da estrada agora asfaltada, que construiu os seus bairros novos, que pavimentou e arranjou o seu largo, o tal dos negrilhos, que vá-se lá saber porque, um pouco por todo o lado, resolveram morrer e deixar mais tristes os espaços que ocupavam.

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Mas vamos a um pouco da história desta aldeia que ainda hoje, oficialmente, é Curral de Vacas, pois tanto quanto sei, e assim consta na divisão administrativa do concelho, à Freguesia de Santo António de Monforte, pertencem as aldeias de Curral de Vacas e Nogueirinhas.

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Comecemos pela origem do topónimo. Como sempre, existem várias hipóteses para a origem da designação Curral de Vacas. Uma, tendo origem na abundante criação de gado bovino ligado à aldeia, que se calha (agora sou eu a supor) teria de perto a ver com a existência da principal feira do gado da região se realizar em terras de Monforte (Castelo) à qual esta aldeia pertenceu em termos administrativos até 1960, pois só a partir desta data é que se formou a freguesia de Santo António de Monforte (com  Curral de Vacas e Nogueirinhas). No entanto, pessoalmente estou mais virado para uma segunda hipótese de origem da sua designação, e, esta, apoiada até por alguma documentação, pois segundo segundo Viterbo no seu famoso “Elucidário” faz-se referência a um senhor donatário destas terras, cujo nome seria Luiz Pires Voacas. Seria talvez aqui (sou eu a supor outra vez) que o topónimo teria a sua origem e, a ser assim, inicialmente poder-se-ia referir ao curral do (Sr.) Voacas, acabando em Curral de Vacas. Claro que como não há qualquer documento que ateste em prol de uma origem, qualquer uma das apresentadas (ou que apresentem) pode ser verdadeira.

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Quanto à denominação da freguesia ser Santo António de Monforte, quanto a essa já se têm certezas e está directamente diretamente ligada à tal ligação que Curral de Vacas teve, como território paroquial, à terra e julgado de Monforte de Rio Livre.

 

Pela existência de vários castros nas aldeias mais próximas, tudo indica que curral de Vacas pudesse ter tido ocupação pré ou proto-histórica. Já inequívoca é a romanização bem patente na ara  existente no interior da Igreja Paroquial invocada à divindade indígena Larocus (ou Laraucos, conforme os documentos que se tenham de base) e que hoje dizem ser de invocação ao Deus Larouco. Aliás esta ara é mesmo directamente diretamente relacionada com a Serra do Larouco, cuja imponência se avista desde Curral de Vacas, bastando dirigir olhares para terras do Barroso.

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A Igreja Paroquial com torre sineira galaico transmontana de dois sinos, hoje com pedra à vista e isenta de qualquer reboco, mostra uma traça incaracterística com certa persistência do gosto românico, principalmente a nível do aparelho e do pórtico principal aberto em arco de volta inteira. Na frontaria pode ainda observar-se um pequeno óculo de recorte oval talhado em dois enormes blocos justapostos. Algumas irregularidades construtivas denunciam as sucessivas reformas a que o templo esteve sujeito ao longo dos tempos. O Padroeiro, como é natural, é Santo António, com honras e festa marcada anualmente para 13 de Junho junho.

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No largo principal da aldeia ergue-se um Cruzeiro perto do qual a Capela da Senhora do Rosário mostra a sua graça, rematando o largo.

 É junto a esta capela que se inicia o caminho para a escola primária, que (milagre) é uma das poucas escolas rurais em funcionamento. Uma prova de que esta aldeia não foi muito castigada com o despovoamento a que estamos habituados, aliás pelos Censos existentes desde que foi criada a freguesia de Santo António de Monforte, a freguesia mantém-se sempre acima dos 500 habitantes. No entanto os primeiros Censos da freguesia são de 1970, faltando os anos críticos de perda de população associados à década de 1920 e às de 1950/60. Contudo é um bom sinal existir escola primária em funcionamento, pois é porque existem crianças, e embora (segundo apurei) não chegue aos 20 alunos e esteja bem longe do número de alunos da primeira escola na aldeia, que em 1916 era de 76 crianças em idade escolar.

 

Geograficamente, a aldeia ocupa parcialmente uma área planáltica que se estende até Mairos e Paradela de Monforte no entanto as suas terras descaem para a bacia orográfica do Rio Tâmega.

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Em termos de actividade atividade, a agricultura é a de maior importância, com as culturas comuns às terras do planalto (batata, centeio, alguma vinha e os produtos hortícolas bem como árvores de fruto de proximidade das habitações. Em tempos, não há muitos, era conhecida também por se dedicar à pecuária e à produção de leite que hoje se perdeu, tal como em quase todo o concelho e graças às “boas” negociações agrícolas de preços e quotas que os nossos responsáveis governamentais têm travado a nível europeu e que em muito têm contribuído para o despovoamento do interior Norte.

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E se a nível da aldeia a principal actividade atividade é a agricultura, já não o é em termos de ocupação dos seus habitantes, muitos deles reformados e outros tantos a trabalhar em diversas actividades  atividades fora da aldeia e na cidade, funcionando a aldeia como dormitório. Uma prova de como se pode trabalhar na cidade e viver na aldeia, com a sua qualidade de vida, vizinhança e tranquilidade, mesmo que, embora avistando-se a cidade, ela fique a 12 quilómetros de distância. Outras aldeias bem mais próximas da cidade poderiam seguir o exemplo destas aldeias ainda com vida.

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De história e lenda,  falta ainda referir a Fraga da Moura ou Pedra Pitorga, mas mais uma vez, a preferência e referência deixo-a a cargo de Miguel Torga:

 

 Curral de Vacas, Chaves, 4 de Setembro de 1991

 

Com metade da povoação a guiar-me , visita penosa à Pedra Pitorga, um abrigo pré-histórico gigantesco que deu segurança através dos tempos a sucessivas aflições. A ele se acolhiam os primitivos habitantes da região, assediados por ursos, lobos, javalis e outros inimigos. Nele se refugiavam foragidos da Inquisição e da sanha miguelista e liberal, e perseguidos da Guerra Civil espanhola, que a raia não defendia da raiva nacionalista. Labirinto granítico oculto num matagal de giestas e Carvalhas, nele me apeteceu resguardar também a dignidade de poeta neste tempo sem poesia que me coube.

 

Mas o Homem já não sabe identificar-se no seio da natureza. Nem mesmo os candidatos à santidade se retiram nos cenóbios e nos desertos para conhecer na solidão os limites da alma, e meditar na hipocrisia humana. Cépticos também, procuram compungidos no seio escancarado das multidões a justificação da farsa da sua medular incredulidade. Os poetas, esses serão sempre presenças por si próprias devassadas em todos os recônditos do mundo. Em nenhum sítio real ou imaginário se podem evadir dos seus demónios interiores e da incompreensão demoníaca dos outros.

 

Miguel Torga, in Diário XVI

 

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Para finalizar, a referência ao testemunho da vida comunitária que existiu na aldeia e pena é, nem que fosse apenas em termos de animação, convívio bem como honrar a história do passado, as infraestruturas comunitárias existentes não seja frequentemente utilizadas. Refiro-me ao lavadouro público e refiro ao forno do povo, já que as fontes, de uma ou outra forma, lá vão tendo a sua utilidade, embora já não se vá de cântaro à fonte, pois felizmente, agora, a água já nasce na torneira de casa.

 

Para quem não sabe onde fica Curral de Vacas, não há nada a saber, pois basta virarmos o destino para terras galegas, para a fronteira e quando chegarmos a Vila Verde da Raia, no cruzamento da fonte, vira-se para Curral de Vacas, embora na placa apareça (claro) Stº António de Monforte. Curral de Vacas é também terra de passagem para Mairos e Paradela de Monforte, mas se de Mairos seguirmos até S.Cornélio, então Curral de Vacas pode ser passagem para quase metade das aldeias do Concelho.

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E por Curral de Vacas é tudo. Já aqui tem o seu post alargado, no entanto, ainda gostaria de lhe dedicar um outro, uma grande reportagem, a ser possível se tornarem também possível tão famoso como saudoso Auto da Paixão. Façam dele um motivo de interesse religioso, turístico e até económico que Curral de Vacas, só ficaria a ganhar, para além de ser também um motivo de orgulho para a aldeia. Não deixem que politiquices, partidarismos e outros devaneios acabem com uma tradição que vos ficava tão bem. Não percam, como dizia Torga, a vossa identidade senão caem numa vulgar aldeia qualquer.

 

Agora sim, para terminar mesmo, a referência a um blog de Curral de Vacas, que embora a sua última publicação seja de nov.09 já existe desde 2006 e, assume o nome de Curral de Vacas .

  

 

 

publicado por Fer.Ribeiro às 01:07
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Sábado, 6 de Fevereiro de 2010

Castelões - Chaves - Portugal

 

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Na ronda pelas nossas aldeias, hoje vamos até Castelões, com o seu post alargado, pois em imagem já fez por aqui breves passagens.

 

Que dizer de Castelões!?

O problema não está bem no que dizer, mas antes em começar e dizer tudo sobre esta aldeia. Mas vamos tentar estar à altura da aldeia.

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Castelões é uma daquelas aldeias que eu costumo apelidar de aldeia barrosã, pois talvez pela proximidade e pelo clima ou antigo povoamento e seus construtores, segue, a par de Soutelinho da Raia e de Seara Velha, as características construtivas das aldeias do barroso. E que ninguém considere isto uma desconsideração de a afastar da “cidadania” de Chaves, antes pelo contrário, pois todas as aldeias barrosãs são interessantíssimas em termos de casario e usos e costumes comunitários, não se ficando Castelões atrás em nenhum desses aspetos, tal como as outras duas aldeias atrás mencionadas, só é pena que, tal como as outras duas, o PDM flaviense não a tivesse considerado como  “Aglomerado com núcleo tradicional”, pois a comparar com outras aldeias classificadas, esta, tem um núcleo interessantíssimo e tradicional. Mas enfim, os “iluminados” do costume é que têm as decisões nas mãos.

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Sem dúvida alguma que Castelões é uma das aldeias mais interessantes do nosso concelho. Aliás este trio de aldeias (Soutelinho, Seara Velha e Castelões) fazem parte das aldeias que costumo recomendar a amigos fotógrafos de fora para uma passeio fotográfico. Mas Castelões não é só interessante pela beleza do seu núcleo, pois há muitas mais coisas interessantes na aldeia. Começando pela própria comunidade e vida que a aldeia tem, embora envelhecida, é uma população que dá vida às ruas onde ainda se sente o verdadeiro espírito comunitário da aldeia transmontana.

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De facto, desde o primeiro dia (já há muito anos) que pisei o chão de Castelões, fui hospitaleiramente recebido. Hospitalidade e simpatia que se repetiu em todas as minhas visitas, onde não faltam interessantes conversas com a população, bem como as inevitáveis visitas às adegas, onde por sinal, há sempre bom vinho.

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Vinho que é sempre sagrado e bíblico, não sendo por mero acaso que faz parte do cerimonial e do ritual religioso da igreja católica. Mas em Castelões, deixando o bom vinho e o seu estágio nas adegas de parte, até é a água que faz milagres. Água e santidade à qual até Miguel Torga se rendeu e, convenhamos, que Miguel Torga não era só o poeta e escritor, pois com ele e fazendo parte dele, andava sempre o médico Adolfo Rocha.

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Claro que agora em palavras e imagens já estou no Santuário de Castelões, a uma escassa centena de metros da aldeia, na Senhora das Necessidades e do Engaranho, um pequeno mas belíssimo santuário, onde só a montanha se respira, as vistas se alargam e a água da rocha junto à pequena capela dizem ser santa e curandeira de engaranhos, desde que se siga um ritual sequencial que já à frente abordaremos. Antes, vamos para as palavras do poeta escritor Miguel Torga, precisamente a respeito desta Srª do Engaranho:

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Castelões, Chaves, 9 de Setembro de 1982

 

Visita à Senhora do Engaranho, pobremente recolhida numa ermidinha tosca da serra, com lindas vistas e muita solidão. É um consolo verificar como o nosso povo teve antes de arranjar em todas as horas advogados para todas as suas aflições. A Desgraça é que os arranjou sempre no céu.

 

Miguel Torga, in Diário XIV

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São palavras resultantes de uma visita que se iria repetir durante  nos anos seguintes nas suas habitua férias terapêuticas em busca das águas quentes e frias de Chaves.

 

Mas vamos ao tal ritual que se deve seguir, para obter cura do engaranho, neste Santuário da Senhora das Necessidades e Engaranho.

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Geralmente há sempre alguém de Castelões pelo Santuário que poderá explicar esse ritual, o mesmo que a população ou comissão do Santuário já fez publicar no verso de um postal com a imagem da Santa. No verso desse postal consta a sequência do cerimonial que é o seguinte:

 

Senhora das Necessidades e do Engaranho

 

Como proceder para obter a cura do engaranho.

 

1º - Lavar o doente com água existente na rocha

2º - Atirar com 8 conchas de água por cima da cabeça, e a nona atirar água e concha.

3º - Dirigir-se à capela e no altar dar-lhe 9 tombos

4º - Rezar uma novena de 9 Pai Nossos, Avé Marias e Santa Marias.

5º - Vestir o doente com outra roupa, porque a que traz deve ficar.

 

PS – Se possível regressar por itinerário diferente daquele que veio.

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Não sei se Miguel Torga assim procedeu ou não, quando em 1989 lá foi por sua intenção:

 

Castelões, Chaves, 29 de Agosto de 1989

Peregrinação contrita à Senhora do Engaranho, desta vez por minha intenção, na esperança de que ela seja também advogada dos enjeridos do espírito.

Miguel Torga, in Diário XV

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Deixando o Santuário, regressemos à aldeia e a um pouco da sua história.

Comecemos pelo seu topónimo Castelões que tal como indica, advém de castelo, designação que é dada à parte mais alta da aldeia. Refere a história que foi aldeia castreja, existindo perto da aldeia um lugar popularmente conhecido por “Outeiro dos Mouros” onde dizem existir ainda  as ruínas de dois panos de muralha. Diz a população e dizem os livros dos historiadores embora eu pessoalmente não conheça o local. Pois será proveniente desta sua história castreja, que Castelões adotou nome para a aldeia, aliás defendido por alguns historiadores  e mencionado nos escritos de Alexandre Herculano quando diz que os tenentes e governadores dos castros espalhados pelo nosso Portugal eram denominados de castelões ou castelãos.

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Também nas proximidades passava uma importante via romana, a mesma que é mencionada na história de Calvão, sede de freguesia e também da aldeia vizinha de Seara Velha.

 

Quanto à sua igreja barroca, num estado de conservação que se recomenda, esteve até há uns meses atrás escondida pelo casario e com um acesso pouco digno da sua beleza. Felizmente há pouco tempo com a demolição de uma construção abandonada a igreja já mostra o ar da sua graça a quem passa na rua principal  da aldeia. Sem dúvida que a aldeia e a Igreja só ficaram a ganhar com esta abertura e este acesso, dando além disso, um interessante motivo fotográfico que anteriormente era quase impossível de conseguir.

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São este tipo de obras e gosto que deve ser apoiado e aplaudido, sempre que seja bem feito, claro.

 

No centro da aldeia eleva-se um interessante cruzeiro, datado de 1879. Na cruz, esculpida nas duas faces, apresenta numa Cristo Crucificado e na outra a Senhora da Piedade. Curioso este cruzeiro com cruz de duas faces, não muito habitual em Portugal e muito menos no concelho, pois igual, só conheço o de Vilela Seca. Não será estranha a proximidade da raia com a Galiza, onde este tipo de cruzeiros é comum. Embora não tenha nenhuma documentação que o prove, o cruzeiro poderá ter mesmo origem na Galiza ou a igreja ter tido influência nesta aldeia. Aliás, influência ou presença galega/espanhola que se repete num dos pilares exteriores em pedra do forno comunitário onde está inscrito em relevo “Dios te ajude”.

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Forno comunitário que também é secular e que, embora tivesse perdido a sua utilidade comunitária, dizem ainda funcionar em altura de festas. Forno que dada as suas dimensões servia também de abrigo a mendigos e talvez a peregrinos a caminho de Santiago, pois também por aqui passaria um dos muitos caminhos de Santiago.

 

A testemunhar a vida da aldeia, existe um Centro Cultural e Desportivo de Castelões, fundado em 1982, mas para falar desta Associação e do muito mais há para dizer sobre Castelões, deixo-o para quem melhor sabe e o faz bem, em blog feito a duas mãos, uma, bem longe nos Estados Unidos, o José Gonçalves  e outro, o Afonso Cunha, que embora ausente da aldeia, está bem mais perto. Pois estes dois senhores mantém sempre atualizado um blog que já vai com mais de 60 000 visitas e por onde passam muitas fotografias e muita vida da aldeia e que serve sem qualquer dúvida, para fazer a história da aldeia mas também para a manter ligada a toda a sua comunidade emigrante e filhos ausentes da terra. Um blog amigo que vamos tendo o prazer de acompanhar desde 2007, altura em que foi criado. Fica aqui um abraço para os dois feitores e mais colaboradores do blog e pena, só temos mesmo da sua ausência nos nosso habituais encontros da blogosfera flaviense, mas sempre justificados.

 

Fica o link para um blog que devem visitar:  http://casteloes.blogs.sapo.pt/

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Ainda antes de terminar fica também a referência a mais uma aldeia que elogia o fio azul mas também uma aldeia onde ainda existe, no Largo do Cruzeiro, um estabelecimento à moda e com filosofia das antigas tabernas, onde ainda se pode “botar” um copo de bom tinto em cima de balcão de madeira.

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E hoje por Castelões é tudo. Pela certa que continuará a passar por aqui em breves momentos de imagens, pois há muito mais para mostrar e também, brevemente estará aqui outra vez incluída no habitual mosaico da freguesia. Até lá.

 

Também continuará a fazer parte das minhas preferências dos passeios fotográficos e das minha recomendações para fotografar aquilo que vamos tendo de melhor e mais interessante.

publicado por Fer.Ribeiro às 04:01
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Quarta-feira, 3 de Fevereiro de 2010

Sinais de contrastes - Chaves - Portugal

 

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Há sinais nos nossos caminhos que insistem em estar lá, sinais que nós insistimos em não ver. São pura poesia, palavras perdidas num poema de contrastes onde o contraste, não contrasta com a poesia do poema…

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Chaves, 8 de Abril de 1968

 

Quanto mais apertado me sinto na prensa da vida, a estalar de desespero por todos os lados, mais necessidade tenho de escrever. Os desafios de viva voz – que a raridade de ouvidos atentos e compreensivos vai, de resto, tornando impossíveis – nada resolvem, e são até contraproducentes. Saem da boca às golfadas, intempestivamente, e deixam na alma uma penosa sensação de esvaziamento sem alívio. De tão informe, a lava apenas testemunha a ígnea actividade do vulcão. Mas, na escrita, os sentimentos ordenam-se na ordem das palavras. O que se diz, adquire, na disciplina da frase, a claridade e a economia que faltavam ao impulso comunicativo. E a consciência encontra repouso nesse rigor de nitidez, que dão transparência e inteligibilidade ao próprio rosto absurdo da vida.

 

Miguel Torga, in Diário X

 

 

 

Hoje em Devaneios há transparências molhadas.

 

 

 

 

 

publicado por Fer.Ribeiro às 02:36
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Quarta-feira, 27 de Janeiro de 2010

Mais Torga, mais Chaves

 

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Vila Verde da Raia, Chaves, 25 de Setembro de 1961

 

Fixo atentamente a linha fronteiriça, enquanto a voz erudita vai zumbindo:

- Por aqui entraram os castelhanos, os franceses, os trauliteiros…

E não consigo ver nada! Os montes, a veiga, o rio e os amieiros continuam impassíveis, a ser, a correr e a crescer. A História nunca abrange a natureza. Felizmente. A paisagem fica sempre de fora dos acontecimentos.

 

Miguel Torga, in Diário IX

 

 

 

 

 

 

publicado por Fer.Ribeiro às 03:17
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