Terça-feira, 7 de Junho de 2016

Ocasionais - Duas ou três colheres de "Chá de Urze com flores de Torga"

ocasionais

 

₮ Duas ou três colheres de “Chá de Urze com flores de Torga” ₮

 

LETREIRO

 

Porque não sei mentir,

Não vos engano:

Nasci subversivo.

A começar por mim

(Meu principal motivo

De insatisfação),

Diante de qualquer adoração,

Ajuízo.

Não me sei conformar.

E saio, antes de entrar,

De cada paraíso.

 

(Miguel Torga)

 

 

 

TORGA foi um português, um Transmontano estranho, esquisito.

Como tantos outros.

Apenas mais famoso.

Deixou uma obra literária enorme.

Para muitos dos seus pares da escrita foi enorme.

Para alguns seus pares da poesia, uma incómoda insignificância.

Tenho lido algumas (bastantes) considerações acerca de TORGA.

Se o seu feitio desagrada, a sua escrita encanta.

 

Perante este aparente paradoxo, tenho contido o meu entusiasmo de deixar duas ou três palavras na Caixa de Comentários do meu BLOGUE Favorito: “CHAVES – olhares sobre a cidade”, da autoria de um Flaviense distinto, Fernando Ribeiro.

 

O fim de “Chá de Urze com flores de Torga”, tomado sempre com tanto paladar, leva-me ao atrevimento, respeitoso e humilde, de deixar aqui, num cantinho de uma casa que me tem acolhido, uns alinhavos paradoxais (que pretendo levemente redundantes e suavemente contraditórios) acerca de MIGUEL TORGA.

 

ǂ

 

MIGUEL TORGAandava sempre com a telha”.

Entendeu que a vida foi desde sempre demasiado dura e madrasta com ele.

Tinha veneração pela Natureza. Mas não «gramava» as pessoas.

 

A amizade era um sentimento que detinha enquanto lhe durasse a conveniência do amigo. E essa conveniência resumia-a ao essencial, ao imediato.

 

Tinha medo de alimentar esse sentimento, pois considerava-o um sentimento nivelador, igualizador, e ele, TORGA, prezava profundamente a diferença, e, até, a originalidade.

 

Aborrecia-o a proximidade das pessoas.

Só aceitava a presença delas se estivessem de passagem apressada.

Todavia, a distância entre ele e a gente contraditava o sentimento de aspereza e de desdém da proximidade.

 

À distância, TORGA via as pessoas como entes que a Natureza criou para com a sua dor e sofrimento, o seu trabalho e canseira, o seu suor e as suas lágrimas, o seu canto e sorriso, a sua veneração e humilhação, o seu sacrifício e poesia, se sentisse glorificada.

 

TORGA era um fingidor.

 

Julgou-se a realização da profecia bíblica dum tal Isaías: ser semente saída de Jacob (Jacó) e o herdeiro dos montes, vindo de Judá!

 

Jorge de Sena, em correspondência com Eduardo Lourenço, escreveu, 1955, «olhe que o Torga é, para mim, a imagem do que a poesia não deve ser!».

 

MIGUEL TORGA «desviava-se», quanto a mim, da moda literária «em moda».

 

ǂ

 

 “Só os homens livres são

muito gratos uns para os outros”

 

Poucos lêem TORGA; menos, os que reflectem no que ele escreve; quase ninguém quer aprender com ele.

 

Custa-me a indiferença com que os Flavienses tratam vizinhos ou visitantes que tanta e tão prestimosa afeição demonstram pela «cidade», pela Região, pela NOSSA TERRA.

 

MIGUEL TORGA ainda não foi celebrado em CHAVES como tanto merece.

 

Para os «ignorantes», para os distraídos, para os «esquecidos» e para os ingratos, neste Blogue tem o seu autor vindo a lembrar uma «obrigação» mais do que justa e digna.

 

Mas, com gente-gentalha, medíocre, inculta, mal-agradecida, e que faz da impostura e da cretinice o seu modo de vida, a dirigir os destinos do Município, não admira a inconsequência da verdade.

 

Se, aí por CHAVES, pela NORMANDIA TAMEGANA, há corações reconhecidos a MIGUEL TORGA, também abundam, aí por CHAVES, pela NORMANDIA TAMEGANA (e um ou dois, já seria uma «abundante abundância»!) algumas mentes obscenas, iconoclastas, videirinhas, para quem TORGA só merece lembrança e surdo aplauso quando lhes convém, para adorno da sua biliosa e estéril vaidade e disfarce da sua tremenda hipocrisia e imposturice.

 

TORGA, Pessoa e Saramago estão na moda de muita, demasiada, gentinha e gentalha medíocre, mas tão lesta em fingir de super-sumo da intelectualidade, da cultura, das Artes e das Letras, usando e abusando de chavões e «adverbialices» como se tivessem descoberto a equação definitiva da “Teoria de Tudo”, como se fossem alguns dos raros a compreender o último Teorema de Fermat.

 

Então, a um peralvilho altamente conceituado, nómada por todos os territórios que lhe cheirem a unto ou a margarina, perito na insinuação, afinal um dos «cromos» mais exemplares deste «jardim à ….», que, daí ou de qualquer lugar, faz estação ou cais de embarque para as suas surtidas tão narcisistas quão impostoras,  só lhe falta mesmo proclamar, com paráfrase: "Tenho uma demonstração maravilhosa da magnificência, da imortalidade e da importância de Miguel Torga, para a Região (não escreve NORMANDIA TAMEGANA porque não vai a tempo de atribuir-se o neologismo, como tanto se tem aproveitado em fazer com outros) que esta margem é demasiado estreita para conter."

 

Há por aí um pivete baboso, espertalhão   -   não fosse ele o exemplar perfeito do «gosmista», do impostor, do falso amigo, do «amigo da onça», e do hipócrita    -    que, por ter dado boleia a TORGA até Monterrey, já se considera «o maior» conhecedor de TORGA!

 

Este e outros que tais, bem que se mordem sempre que neste Blogue aparece, habitualmente, às 4ªs feiras, “Chá de Urze com flores de Torga”: é que eles não são capazes, não sabem mostrar, ou demonstrar, um sentimento de gratidão, de reconhecimento, de admiração por quem lhe sé superior.

 

A soberba fá-los ter por si próprios uma opinião «mais vantajosa que o que seria justo acerca de si mesmos», e, consequentemente, a inveja, que transportam jung(u)ida à soberba, entristece-os com a felicidade e o prestígio de TORGA, e de Outros!

 

Em TORGA, como em Camões e em Pessoa, encontramos nos seus poemas a força sobrenatural que justifica o orgulho de «ser Português»!

 

Na poesia e na prosa de TORGA encontramos toda a profundidade da alma e do coração dos Portugueses!

 

Bastar-nos-ão as carinhosas e eloquentes palavras escritas no seu Diário, e que no Blogue “CHAVESOlhares sobre a Cidade” têm vindo a ser reproduzidas, para que, na “Cidade de Trajano”, uma justa homenagem lhe fosse feita a MIGUEL TORGA.

 

 

ǂ

 

E com este «sim e não», ou aparente «não e sim», um e outro aparentes do que é aparente, pequenino esforço meu para espreitar o que toda a gente sabe sobre TORGA, e de quase toda (essa) gente se esquece, e eu, timidamente, ando a aprender, deixo o meu agradecimento a quem comunga da minha gratidão a quem honra e prestigiou, e prestigia e honra, a NOSSA TERRA, a NORMANDIA TAMEGANA, TRÁS-OS-MONTES e PORTUGAL.

 

 

Liberdade

Liberdade, que estais no céu...

 Rezava o padre-nosso que sabia,

 A pedir-te, humildemente,

 O pio de cada dia.

 Mas a tua bondade omnipotente

 Nem me ouvia.

— Liberdade, que estais na terra...

 E a minha voz crescia

 De emoção.

 Mas um silêncio triste sepultava

 A fé que ressumava

 Da oração.

 Até que um dia, corajosamente,

 Olhei noutro sentido, e pude, deslumbrado,

 Saborear, enfim,

 O pão da minha fome.

— Liberdade, que estais em mim,

 Santificado seja o vosso nome.

{Miguel Torga]

 

 

M., Um de Junho de 2016

Luís Henrique Fernandes

 

 

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Quarta-feira, 1 de Junho de 2016

Chá de Urze com Flores de Torga - 133

1600-torga

 

Alturas do Barroso, 1 de Setembro de 1991

 

Incansavelmente atento às lições do povo, venho, sempre que posso, a este tecto do mundo português, admirar no adro da igreja, calcetado de lousas tumulares, o harmonioso convívio da vida com a morte. Os cemitérios actuais são armazéns de cadáveres desterrados da nossa familiaridade, lacrimosamente repelidos do seio do clã mal arrefecem, cada dia menos necessários, no progressivo esquecimento, à salutar percepção do que significam na dobadoira do tempo. Ora, aqui, cada paroquiano pisa, pelo menos dominicalmente, a sepultura dos ancestrais, e se liga a eles, quase organicamente. Vive, numa palavra, referenciado. Sabe que tem presente porque houve passado, e que, mais cedo ou mais tarde, enterrado ali também, será para os descendentes consciência e justificação do futuro.

 

Miguel Torga, In Diário XVI

 

1600-s-sebastiao (854)

 

E terminam aqui as referências às terras de Barroso, concelho de Boticas e Montalegre. Concluídas que estão as referências ao Barroso e Chaves, a partir de hoje a rubrica “Chá de Urze com Flores de Torga” deixará de estar aqui no blog todas as quartas-feiras. Mas continuará, ocasionalmente, sem dia certo, não só com trechos dos diários, mas também outros textos e notícias, de preferência com referências transmontanas e com o sentir transmontano como Torga o sabia fazer tão bem.

 

As próximas quartas-feiras darão lugar a uma nova rubrica, ainda em preparação, mas até que surja aqui, não faltarão motivos flavienses para preencher o espaço dos dias de feira em Chaves.

 

 

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Quarta-feira, 25 de Maio de 2016

Chá de Urze com Flores de Torga - 132

1600-torga

 

Tourém, Barroso, 2 de Setembro de 1990

 

LIMITE

 

Pátria até que os meus pés

Se magoem no chão.

Até que o coração

Bata descompassado.

Até que eu não entenda

A voz livre do vento

E o silêncio tolhido

Das penedias.

Até que a minha sede

Não reconheça fontes.

Até que seja outro

E para outros

O aceno ancestral dos horizontes.

 

Miguel Torga, In Diário XVI

 

1600-tourem-360-486

Tourém (composição com duas imagens)

 

Travassos do Rio, Montalegre, 29 de Agosto de 1991

 

Notabiliza este lugar um baixo-relevo na torre sineira a figurar a cabeça de um toiro, que foi campeão invencível nas turras do seu tempo e os habitantes, ufanos de tanta valentia, quiseram perpetuar.

 

Vou rememorando: Cornos das Alturas, Cornos da Fonte Fria, Tourém, Toural, Pitões.

 

Era assim antanho. Por todo o lado a mesma obsessão a tutelar as consciências. O mal é que o povo, em meia dúzia de anos, deixou apagar nos olhos a imagem viril, e perdeu a identidade. O Barroso de hoje é uma caricatura. Sem força testicular, fala francês, bebe coca-cola, deixo de comer o pão e centeio do forno comunitário, assiste a chegas comerciais, em campos de futebol, com bilhetes pagos e animais alugados. É um nédio boi capado.

 

Miguel Torga, In Diário XVI

 

 

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Quarta-feira, 18 de Maio de 2016

Chá de Urze com Flores de Torga - 131

1600-torga

 

Carvalhelhos, 3 de Setembro de 1989

 

Horas e horas de correria por este Barroso a cabo, num Domingo de romarias, na mira de assistir a mais uma vez uma chega de toiros. Mas não fui feliz. Em todas as aldeias visitadas, o grande acontecimento tinha já acontecido. Restavam dele apenas o doce sabor do triunfo ou o amargo da derrota. Na pega ribatejana, outra expressão da nossa virilidade e vitalidade, é o pegador que está em causa ao saltar para dentro da arena. Aqui, é a povoação inteira que se revê na luta entre o boi e o boi rival. E o desfecho do combate diz respeito a todos. Por isso, se vence, o deus testicular é festejado até ao delírio, se fraqueja e se rende, é amaldiçoado até às lágrimas.

 

Celebração colectiva, a turra é a mais sagrada cerimónia que se pode presenciar nestas paragens, onde cada acto tem a profundidade dos tempos primordiais e não há divindade sem terra nos pés. E eu sou uma natureza religiosa, sedenta de transcendente, que aprendeu nas grutas de Altamira que ele pode ter a figuração de um bisonte e é sempre uma resposta luminosa a perguntas obscuras do instinto.

 

Miguel Torga, In Diário XV

 

1600-montalegre (1169) -1

 

 

Montalegre, 1 de Setembro de 1990

 

Eram jovens, abordaram-me, gostavam do que escrevi, e queriam saber coisas de mim. Qual era o meu segredo?

 

— Ser idêntico em todos os momentos e situações. Recusar-me a ver o mundo pelos olhos dos outros e nunca pactuar com o lugar-comum.

 

Miguel Torga, In Diário XVI

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Quarta-feira, 11 de Maio de 2016

Chá de Urze com Flores de Torga - 130

1600-torga

 

Serraquinhos, 14 de Setembro de 1975

 

O Barroso coberto de gado. Os mais diversos bichos a granel nos mesmos pastos, nos mesmos eidos, nos mesmos currais. Bois, ovelhas, cães, cabras, burros, porcos e galinhas no mesmo cordial convívio. E pus-me a pensar na fácil comunhão da condição viva, em encontra-me com difícil harmonia da condição social. A fraternidade de que não somos capazes nós os homens, simples como o bom dia entre seres sem cromossomas permutáveis.

 

Miguel Torga, In Diário XII

 

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Pitões das Júnias, Barroso, 8 de Setembro de 1983

 

Só vistas, a aspereza deste ermo e a pobreza do mosteiro desmantelado. Mas canta dia e noite, a correr encostado às fundações do velho cenóbio beneditino, um ribeiro lustral. E os ascetas e o poeta que se digladiam em mim, de há muito peregrinos desta solidão, mais uma vez se conciliam no mesmo impulso purificador, a invejar os monges felizes que aqui humildemente penitenciaram o corpo rebelde e pacificaram a alma atormentada. O corpo a magoar-se contrito no cilício quotidiano da realidade e a alma a ouvir de antemão, enlevada, a música da eternidade.

 

Miguel Torga, In Diário XIV

 

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Covas do Barroso, 8 de Setembro de 1987

 

Uma bonita imagem de Nossa Senhora de Rocamador na igreja matriz, e o forno do povo ainda quente  e a reacender da última fornada. Um lavrador, quando me viu ougado, meteu a navalha a uma broa e fartou-me. O comunitarismo, por estas bandas, não é uma palavra vã. Significa solidariedade activa em todos os momentos. Até a fome turística tem direito ao pão da fraternidade.

 

Miguel Torga, In Diário XV

 

 

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Quarta-feira, 4 de Maio de 2016

Chá de Urze com Flores de Torga - 129

1600-torga

 

Boticas, 17 de Setembro de 1970

 

Um lauto e demorado jantar, a que assisti de talher praticamente cruzado, num enjoo renitente do estômago e do cérebro. Quanto mais a fome crónica de Portugal se farta, mais repugnância sinto pelos guisados. É que, sem almejar finuras de espírito ou Banquetes de Platão e de Kierkegaard, também me não resigno a que saiam sempre delas, ou raciocínios que parecem eructações, ou Ceias dos Cardeais.

 

Miguel Torga, In Diário XI

 

1600-boticas (7)

 

Boticas, 7 de Setembro de 1973

 

O mundo de frustrações que ia naquela alma! Que vai em todas as almas, afinal, mesmo se o não revelam. Nunca ninguém lhe ouvira queixume, um lamento, uma confidência. Tudo nela era descrição e compostura. E há pouco, inesperadamente, traiu-se. Falava-se de chegas que se realizam aqui no Barroso.

- Sabe o que fazem aos toiros vencidos? – perguntei.

- Não faço ideia.

- Abatem-nos.

- Porquê?

- Porque deixaram de simbolizar o poder da virilidade.

- Deviam fazer o mesmo a certos homens…

E foi como se uma flor serôdia de orgasmo se abrisse na sala.

 

Miguel Torga, In Diário XII

 

 

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Quarta-feira, 27 de Abril de 2016

Chá de Urze com Flores de Torga - 128

1600-torga

 

Montalegre, 11 de Janeiro de 1970

 

Avisado por um amigo de que havia hoje cá na terra uma chega de toiros, meti-me a caminho debaixo dum temporal desfeito, e tanto teimei com a chuva, o vento e o granizo, que consegui chegar a horas de assistir ao combate. E valeu a pena. Se há em Portugal meia dúzia de espectáculos que merecem ser vistos, este é um deles. Primeiro, as bichezas, depois de nove voltas propiciatórias à capela do orago e da sanção da bruxa, a sair dos respectivos lugarejos, rodeadas pela juventude dos dois sexos, enquanto o sino toca a Senhor fora e o mulherio idoso reza implorativamente aos pés do Santíssimo; a seguir, a chegada dos cortejos ao toural da vila, as cerimónias preliminares do encontro — vistoria rigorosa dos animais (não tragam eles pontas de aço incrustadas nos galhos), a escolha do piso, etc.; finalmente turra — os dois bisontes enganchados, cada qual a dar o que pode, no esforço hercúleo de não perder um palmo de terreno, ou ganhá-lo, apenas cedido. Turra que dura eternidades de emoção, e só termina quando uma das bisarmas fraqueja, recua, e acaba por fugir.

 

1600-montalegre (371)

 

Não é, contudo, a luta gigantesca, apesar de empolgante, o que mais diz ao espectador forasteiro. É o halo humano que a envolve, os milénios de ancestralidade que ela faz vir à tona da assistência. Símbolo de virilidade e fecundidade, o boi é na região o alfa e o ómega do quotidiano. Cada povoação revê-se nele como num deus. Vitorioso, cobrem-no de flores; derrotado, abatem-no impiedosamente. Quando há minutos a turra acabou, depois de viver numa tensão de que a palidez de um padre a meu lado era a síntese, toda a falange que torcia pelo vencido parecia capada.

 

Miguel Torga, In Diário XI

 

 

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Quarta-feira, 20 de Abril de 2016

Chá de Urze com Flores de Torga - 127

1600-torga

 

Tourém, 7 de Abril de 1968

 

A intensidade de certos sentimentos mede-se pelo pudor de que os rodeamos. Quanto menos se exibem, mais fundo latejam. Mas, ao contrário, só na denúncia clamorosa de todos os atentados contra o objecto dos nossos afectos preservamos a sua pureza. A indignação publicamente manifestada é, nesse caso, a única prova de fidelidade do coração.

Azoeirado diariamente pelos papagaios do amor acrisolado à pátria, que açaimam, prendem ou liquidam os que duvidam da cantilena e erguem, ofendidos, a voz acusadora, é com inveja que olho os habitantes felizes deste pequenino enclave barrosão, que a grandeza espanhola nunca conseguiu deslumbrar nem devorar. Sempre que atravesso o istmo que o liga ao corpo nação, percorro as ruas da aldeia pavimentadas de cagalhetas, e entro na igreja onde o escudo real é uma ara de pedra de fervorosa celebração lusitana, apetece-me assentar arraiais e ficar a ser português assim o resto da vida. Unido visceralmente à matriz por um cordão umbilical de ternura, e ao mesmo tempo desterrado, esquecido, analfabeto, civicamente impedido de ouvir, e culturalmente desobrigado a responder.

 

Miguel Torga, In Diário X

 

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Vista geral de Tourém

 

Alturas de Barroso, 21 de Setembro de 1969

 

A paz destes barrosões, sentados no combro de uma lameira a guardar uma junta de bois! Parecem sonâmbulos a apascentar a eternidade.

 

Miguel Torga, In Diário XI

 

 

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Quarta-feira, 13 de Abril de 2016

Chá de Urze com Flores de Torga - 126

1600-torga

 

Sarraquinhos, Barroso, 17 de Setembro de 1967

 

Parece que é lenda o célebre pedido que se atribui a Frei Bartolomeu dos Mártires no Concílio de Trento: a abolição do celibato ao menos para os padres de Barroso. Mas ela define um ambiente onde o natural pesa sobre todas as criaturas da mesma maneira, dobrando-as às suas leis como o  vento dobra os vimes, e que me não canso de respirar. Já conheço a paisagem de cor e salteado, em poucas aldeias ou lugarejos deixei de meter o nariz, os caracteres humanos são de tal clareza que se decifram à primeira leitura.

 

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A verdade, porém, é que volto sempre que posso, e cá estou mais uma vez. Atrai-me esta amplidão pagã, sinto-me bem a pisar um chão em que o deus vivo de ricos e pobres, de alfabetos e analfabetos, é o toiro do povo. Um deus de cornos e testículos, que, depois de cada chega e de cada vitória, a gratidão dos fiéis cobre de palmas, de flores, de cordões de oiro e de ternura. Um deus que a devoção adora sem lhe pedir outros milagres que não sejam os da força e da fecundidade, provados à vista da infância, da juventude e da velhice. Um deus a que se dão gemadas e cervejas para que possa inundar as vacas de sémen, as moças de esperança, os moços de certeza e a senilidades de gratas recordações. Um deus eternamente viril, num paraíso sem pecado original.

 

Miguel Torga, In Diário X

 

 

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Quarta-feira, 6 de Abril de 2016

Chá de Urze com Flores de Torga - 125

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Paradela do Rio

 

1600-torga

 

Paradela do Rio, 1 de Julho de 1956

 

Estes tempos de barragens são uma verdadeira era nova do mundo. Qualquer dia, na escola, o mestre aponta o mapa e diz:

- Antes do período albufeirozóico, aqui era Barroso.

Miguel Torga, In Diário VIII

 

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Covas do Barroso

 

Covas do Barroso, 27 de Setembro de 1958

 

Almoço na casa do abade da terra. É bom alimentar de vez em quando o ateísmo a uma mesa residencial.

 

Miguel Torga, In Diário VIII

 

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 Negrões

 

Negrões, Barroso, 24 de Setembro de 1960

 

Tanto monta ser aqui, como no Terreiro do Paço. Ouvir um político, é ouvir um papagaio insincero.

 

Miguel Torga, In Diário IX

 

 

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Quarta-feira, 30 de Março de 2016

Chá de Urze com Flores de Torga - 124

1600-torga

 

Alturas do Barroso, 27 de Junho de 1956

 

Entro nestas aldeias sagradas a tremer de vergonha. Não por mim, que venho cheio de boas intenções, mas por uma civilização de má-fé que nem ao menos lhe dá a simples proteção de as respeitar.

 

Miguel Torga, In Diário VIII

 

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 Alturas do Barroso

 

Montalegre, 28 de Junho de 1956

 

Feira do prémio. As elegâncias bovinas da região num concurso de beleza. Mas coisa a sério! Cada vedeta examinada e medida com um rigorismo de meter Hollywood num chinelo. Torci quanto pude por uma bezerra ruiva – Deus me perdoe a oculta transposição antropomórfica que se estaria a operar no meu subconsciente, fiz de jarrão à mesa do júri, apertei a mão aos donos das beldades eleitas, e, no fim, quando esperava ver coroada com uma chega de toiros a minha abnegação pecuária, arma-se tamanho sarilho entre duas povoações donas das bisarmas à altura da façanha, que parecia o fim do mundo. No meio de negociações complicadas, em que pus toda a diplomacia de que sou capaz – a escolha do terreno da luta, a verificação de que não havia navalhas de ponta e mola embutidas nas hastes dos cornúpetos, etc.,etc. -, insofrida, a virilidade humana antecipou-se à virilidade dos animais. Nas barbas da autoridade, dispensou galhardamente os actores contratados e, em vez duma turra de bois, ofereceu-me o espectáculo mais sensacional ainda de uma turra de gente. Com esta vantagem para mim: metido também na dança.

 

1600-montalegre (1081)

 

Atónito no meio da insólita floresta de varapaus, tratei de me defender como pude das bordoadas, sem medir a grandeza da generosidade, e até propenso a considerá-la abusiva. Mas logo que a tempestade amainou, e tive de estancar o sangue no lanhaço de um dos heróis, testemunhei-lhe o meu alarmado reconhecimento. A resposta veio num simples sorriso sibilino, que interpretei desta cândida maneira: já que eu estava tão interessado em conhecer as coisas por dentro…

 

Miguel Torga, In Diário VIII

 

 

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Quarta-feira, 23 de Março de 2016

Chá de Urze com Flores de Torga - 123

1600-torga

 

Carvalhelhos, 24 de Junho de 1956

 

Conhece-nos,  o sexo fraco! E tanto monta que a psicóloga seja uma requintada Madame de La Fayette, como qualquer parola de Trás-os-Montes. Esta tarde, em Vilar, povoação serrana que visitei para ver uma tábua bem bonita, porque só me apareciam velhas à porta das casas, meti conversa com uma, a tirar nabos da púcara.

- Quantas viúvas há cá na terra?

- Quarenta e duas.

- E viúvos

- Três.

Espantado com semelhante desproporção, perguntei-lhe a causa.

- É que os homens são mais aflitos…

Miguel Torga, in Diário VIII

 

 

1600-cova (48)

 

 

Carvalhelhos, 25 de Junho de 1956

 

Olho a serra. E diante desta natureza sem disfarces, aberta para todos os horizontes, sinto como que uma centrifugação do espírito. Ando, e parece que voo; tento localizar-me, e perco-me na indeterminação. Uma espécie de nomadismo da alma descentra-me e liberta-me das amarras mesquinhas da vida compartimentada. E compreendo de repente a força universal que impregna os gestos e as palavras destes barrosões, puros na impureza, que lavam as mãos no sangue dum semelhante e há mil anos que descobriram o cepticismo moderno. Homens para quem o absoluto é o relativo clarificado, e que por isso entregam desta maneira a filha ao namorado que lhe pede casamento:

Pastora é,

Gado guardou;

Sebes saltou;

Se alguma se picou,

Tal como está

Assim vo.la dou…

Miguel Torga, in Diário VIII

 

 

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Quarta-feira, 16 de Março de 2016

Chá de Urze com Flores de Torga - 122

1600-torga

 

Carvalhelhos, Barroso, 18 de Junho de 1956

 

Tarde de pesca, mas só a ver. Não sou homem de anzóis. Seja qual for o sonho que me apeteça prender, luto com eles de caras, sem isca. Entro nos matagais aos tiros, a avisar as perdizes que lá vai metralha. Agora que deve ser cómodo atirar um engodo fingindo à realidade e puxá-la depois até nós com a manivela da astúcia, deve. Enche-se o cabaz, e volta-se para casa fresco como uma alface, mesmo que se tenha chafurdado o dia inteiro – ou a vida inteira…- num baixio de águas turvas…

 

Miguel Torga, in Diário VIII

 

 

1600-barroso XXI (334)-1

 

 

Carvalhelhos, Barroso, 21 de Junho de 1956

 

PASTOREIO

 

Uma cabra montesa no pascigo;

Fiel ao seu balido,

Um fauno apaixonado;

Entre os dois, um açude adormecido,

Imagem do instinto represado.

 

Corcunda como a vida,

Uma ponte arqueada de suspiros

A ligar as arribas do desejo;

E um guarda ao passadiço, uma presença humana,

- O pastor, a moral quotidiana…

 

Miguel Torga, in Diário VIII

 

1600-pereiro-agra (209)

 

Carvalhelhos, Barroso, 23 de Junho de 1956

 

Confesso a minha pena: tenho medo de trovoadas. Quando o rosto da natureza se começa a congestionar, começo eu a empalidecer. É que não tenho defesa. Contra o ódio dos homens, nunca o instinto se sente inteiramente desamparado: há sempre outros homens, limpos de alma, capazes de nos acudir. Mas diante da violência obtusa e cega dos elementos, parece que o mundo se despovoa, esvazia, e tudo à nossa volta se rende, abdica e acobarda. No auge da aflição – e isso aconteceu-me há pouco, no alto da serra -, chega-se a gente a um castanheiro, vegetalmente hercúleo e oficialmente acéfalo, e o desgraçado treme como nós!

 

Miguel Torga, in Diário VIII

 

 

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Quarta-feira, 9 de Março de 2016

Chá de Urze com Flores de Torga - 121

1600-torga

 

Negrões, Barroso, 28 de Maio de 1955

 

Por mais que tente, não consigo reduzir estas vidas de planalto a uma escala de valores comuns. Foge-me das duas mãos não sei que força incomensurável que, exactamente por ser assim, se alcandora nos olimpos possíveis do mundo. Nada existe aqui de notável a testemunhar uma actividade humana superior ou singular. Seres esquemáticos , num ambiente esquematizado. E, contudo, cada indivíduo parece trazer à sua volta um halo de intangibilidade divina.

 

Talvez seja a própria pobreza do meio que, despindo-os de todo o acessório, lhe evidencie a essência. E a nossa perturbação diante deles seria a perplexidade de pobres Adões cobertos de folhas diante de irmãos que permanecem nus.

Miguel Torga, in Diário VII

 

1600-negroes (1)

 

Gerês, 12 de Agosto de 1955

 

Serra. Sempre que me encontro aqui, quando chego a este dia, perco-me pelas fragas. Vou fazer anos à Calcedónia, ao Cabril ou à Borrajeira – aos picos mais altos da Montanha. Que ao menos o espírito, que vai morrendo no corpo, tenha assim um vislumbre de ressurreição.

Miguel Torga, in Diário VII

 

1600-carvalhelhos (1)

 Carvalhelhos

 

Carvalhelhos, Barroso, 17 de Junho de 1956

 

A doença tem-me dado muitas horas amargas, mas devo-lhe também uma intimidade com a pátria de que poucos portugueses se podem gabar. Obrigado a procurar a esperança em cada fonte, passo a vida de terra em terra, com as tripas na mão. E até a este Barroso vim parar! O problema, agora, é estar à altura das alturas onde me encontro. O escrúpulo dos tempos em que comungava, tenho-o presentemente quando me aproximo do povo. Estarei puro para lhe ouvir a voz?

 

Miguel Torga, in Diário VIII

 

 

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Quarta-feira, 2 de Março de 2016

Chá de Urze com Flores de Torga - 120

1600-torga

 

Chaves, 3 de Setembro de 1993

 

Hoje foi a minha vez de atravessar a fronteira sem cancelas de nenhuma ordem. Nem fiscais alfandegários, nem polícia a carimbar o passaporte. Apenas um painel de doze estrelas a mandar seguir. Mas nem por isso andei por Espanha dentro de coração solto. Confrontado com a realidade do poder crescente que por toda a parte nela verifiquei, a minha velha suspicácia de ibérico livre veio à tona agravada. A arrogância e o desprezo, que lia na cara de cada interlocutor, causava-me ainda mais engulhos do que no passado. A tese de Franco na escola militar foi a ocupação desta faixa ocidental em poucas horas. E a da generalidade dos demais espanhóis, mesmo civis, é indisfarçadamente a mesma. No rótulo de uma caixa de melões que me mostraram há dias, vinha escrito: «Origem – Espanha. Região – Portugal.» Para todos os nosso vizinhos, somos independentes, sim, mas provisoriamente, enquanto os iluminados governantes que temos não acabem de abrir mão dos nossos últimos trunfos nacionais, e um outro Filipe II nos integre submissos no grande redil peninsular , desta vez sem necessidade de herdar, de comprar e de conquistar o rectângulo rebelde. Recebe-o gratuitamente de bandeja.

Miguel Torga, in Diário XVI

 

1600-fronteira (43)

1600-fronteira (44)

 

Após este registo no diário XV, Miguel Torga apenas fez mais vinte e oito registos no seu diário, todos escritos em Coimbra, terra que o Poeta escolheu para viver grande parte da sua vida, sendo o último registo datado de 10 de dezembro de 1993, intitulado Requiem Por Mim. São as últimas palavras publicadas de Miguel Torga que viria a falecer pouco mais de um ano depois em Coimbra a 17 de janeiro de 1995.

 

Coimbra, 10 de Dezembro de 1993

 

REQUIEM POR MIM

 

Aproxima-se o fim.

E tenho pena acabar assim,

Em vez de natureza consumada,

Ruína humana.

Inválido do corpo

E tolhido da alma.

Morto em todos os órgão e sentidos,

Longo foi o caminho e desmedidos

Os sonhos que nele tive.

Mas ninguém vive

Contra as leis do destino.

E o destino não quis

Que eu me cumprisse como porfiei,

E caísse de pé, num desafio.

Rio feliz a ir de encontro ao mar

Desaguar,

E, em largo oceano, eternizar

O seu esplendor torrencial de rio.

 

 Miguel Torga, in Diário XVI

 

Miguel Torga, pseudónimo do médico Adolfo Correia da Rocha, nasceu em S.Martinho de Anta em 12 de agosto de 1907 e faleceu em Coimbra, com 88 anos, no dia 17 de janeiro de 1995.

 

De acordo com o desejo do poeta, repousa em campa rasa no cemitério de S.Martinho de Anta, com uma torga plantada a seu lado.

 

1600-s-martinho-danta (35)

 

Terminadas que estão as referências à cidade de Chaves na obra de Miguel Torga, esta crónica “Chá de Urze com Flores de Torga” bem poderia terminar aqui, e com ela terminar uma pequena e merecida homenagem, como flaviense grato por Miguel Torga nos visitar e registar na sua obra e no seu diário ao longo de 38 anos (1955 a 1993), com mais de uma centena de textos (119). Poderia terminar aqui, mas não vai terminar ainda. Vai continuar por mais uns tempos, talvez não com a regularidade que teve até aqui, mas vai continuar com os diários e algumas referências de proximidade (em falta), que Miguel Torga também escreveu em Chaves, ou durante o período em que se hospedava em Chaves, mais concretamente textos sobre o Barroso aqui tão perto e de Verin e outras terras galegas próximas, assumindo-se assim toda uma região que já é habitué aqui no blog e Verin, que pomposamente faz parte dessa tal eurocidade Chaves-Verin.

 

 

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