Quarta-feira, 18 de Outubro de 2017

Nós, os homens

nos-homens-1-b

 

IV

 

Um dos maiores problemas das mulheres é a depilação. Nós, homens, lidamos bem com os pêlos. Eu, pelo menos, acho que os tenho todos no sítio certo. Mesmo aquelas pequenas aberrações de ter dois ou três a sair do mesmo folículo piloso, vulgo poro, acho que se trata de uma questão de cidadania que eu respeito. Se conviverem bem uns com os outros, que diferença me faz que saiam todos do mesmo sítio ou de locais diferentes?! Até porque numa superfície de 1,80 m de altura e 85 kg de peso, converta-se em área, só de lupa é que isto se notava e não é, apesar de tudo, esse o caso!

 

Acho que o Criador sabe o que faz, ou o que fez, partindo do princípio, errado ou não, de que Ele só fez o primeiro casal e depois nos entregou à sexualidade tradicional, tradicional agora, na altura isto havia de ser o futuro!

 

Seja como for, as mulheres estão convencidas de que Deus se distraiu quando estava a fazer a primeira e lhe colocou pêlos em zonas erradas. Puro erro de cálculo! Não queria entrar em pormenores que estas coisas são delicadas, mas chegam a ponto de ficar carecas em zonas que supostamente foram bem pensadas para ter pêlos. Uma coisa é um gajo com a idade, ou por características genéticas, começar a perder o cabelo e vai daí disfarçar a coisa com um rapar da cabeça, pois sempre é melhor andar para aí armado em careca do que em calvo! Até porque isto tem uma lógica, é dos carecas que elas gostam mais, diz a canção. As figurinhas que nós fazemos para agradar ao sexo oposto! Sim, que nós somos assumidos, não andamos para aí a vender o argumento de que nos arranjamos para nós! Nós arranjamo-nos é para elas, nem fazia sentido outra coisa, somos parvos ou quê? Isto de andar às compras dá uma trabalheira do caraças, para além da perda de tempo e do gasto inútil de dinheiro. Se andássemos lavadinhos e com as partes pudibundas tapadinhas, era o suficiente. Só tínhamos que nos preocupar com o calor e com o frio.

 

Elas não, sujeitam-se a coisas hilariantes! Aquilo deve doer como tudo, o buço, as sobrancelhas, as axilas, as virilhas, as pernas, o rabo e do resto já falei. Tudo por nossa causa! Não é que não nos faça bem ao ego e à auto-estima, uma mulher sujeitar-se a maus-tratos para agradar a um homem! Fica por explicar a luta pelos direitos iguais e outras tretas com que nos enchem a cabeça nos dias em que estão com o período. E não é que aquela coisa lhes dá todos os meses! Nesta parte talvez concorde com elas, o Criador estava distraído, pois havia alguma necessidade?! Decidindo ter filhos bastava uma vez por ano, que a decisão é séria, não é coisa que se pense este mês quero ter, este mês já não! Valha-me Deus! Quero dizer, tudo menos isso!

 

E isto até podia não ter importância nenhuma se não tivesse consequências em nós, é que se calha de a esteticista ter um casamento e desmarcar a depilação da menina, nós é que estamos lixados, assim de forma subtil, para não dizer um palavrão! E se fosse isso, até não tinha importância nenhuma, mas isto sou eu a falar, porque a consequência é exactamente o contrário: não estamos. Agora só para a semana, a não ser que a menina esteja tão desesperada como nós e vá à farmácia ou ao supermercado comprar aquelas tiras de auto-mutilação que conseguem o mesmo efeito.

 

Mas isto é só um desabafo, para compensar o ridículo do que em que nos transformamos por causa delas!

 

Fazemos tudo, salvo o papel de otários e mesmo assim funcionamos como as companhias de seguros: em letras pequeninas temos as condições especiais, a que recorremos, não em regime de excepção, mas sempre que as condições normais não funcionam!

 

E as condições normais quase nunca funcionam, aquela coisa de que as mulheres são como os carros: têm todas os botões no mesmo sítio, só para quem nunca conduziu um Porsche, um Jaguar ou um Maserati! O que é que estes carros têm a ver com os outros veículos de quatro rodas?! Eu nunca tive nenhum, por razões unicamente económicas, que outras poderia haver, mas tive um amigo que tinha um stand de automóveis e quando eu lhe fazia favores e me perguntava como é que eu te hei-de compensar?, acto contínuo, lá íamos nós experimentar o último modelo da tecnologia alemã, inglesa ou italiana que ele tinha disponível. E agora estou mesmo a falar de carros, aquilo é que eram máquinas, um gajo até se assustava quando, em poucos segundos, os ditos atingiam o nível da descolagem! É pecado um homem matar-se a trabalhar uma vida inteira e nunca conseguir juntar dinheiro para ter um brinquedo destes!

 

Mas dizia eu que vamos fazendo cedências aos caprichos das mulheres, e o que elas inventam, meu Deus, para nos porem a trabalhar para elas! Até cenas de ciúmes com o colega de trabalho com quem almoçamos há quinze anos! Se há coisa que eu nunca admitiria a ninguém, a não ser, lá está, por uma mulher por quem estivesse perdidamente apaixonado, é que alguém desconfiasse que eu era gay! Maluco como sou e com os dois bem no sítio, em peso e dimensão, era bem capaz de combinar com o meu colega de trabalho fazer-lhe algumas festas durante o almoço enquanto estava a ser espiado. Punha até a hipótese de lhe dar um beijo na boca depois do café, desde que ele alinhasse, só para me divertir com aquela cena! Não me caía nada ao chão, não era menos homem por isso e divertia-me à brava.

 

Mas quando o assunto é mulheres, nós comportamo-nos como uns cordeirinhos! Se elas gostam de azul, a gente veste-se de azul, mesmo que seja a cor que a gente mais odeia. Que mais nos faz?! Quando nos dão uma prenda, preocupa-nos por acaso o papel da embalagem?! Elas ficam todas contentes e nós também! Então não é bom ver aquela felicidade estampada num rosto tão bonito, só porque escolhemos a sua cor de camisa preferida! Camisa, pólo ou t-shirt, elas é que mandam, afinal aquilo tudo é para despir ao fim de algumas horas, que diferença é que nos faz?

 

Mas o Porsche é uma coisa fora de série! Eu que até não sou um gajo nervoso, quando me sentei ao volante daquela coisa e ela se pôs a andar comigo fiquei com pele de galinha! É que a diferença é essa: há carros que nós conduzimos e carros que nos conduzem a nós! Continuo, verdade verdadinha, a falar de carros, e o Porsche é um dos carros que nos conduz a nós. Perdoem-me a comparação, mas eu acho aquilo um carro inteligente e não ficava nada chocado se criassem o Dia Internacional do Porsche, e acho que fazia todo o sentido falar em direitos iguais e outras coisas que as minorias defendem porque aquilo é uma minoria deliciosa!

 

Mais ainda, se eu me sentar num Porsche vestido de azul ou de branco, ele anda da mesma maneira! Tem características próprias, sei que se trata apenas de um carro, mas tem sensibilidade e personalidade! Reage de imediato ao toque do pedal, não pergunta porquê, onde estiveste, com quem, não faz de conta, não amua, pura e simplesmente interage!

 

Vou-me esfolar a vida toda, mas ainda não perdi a esperança de ter uma coisa destas dentro de casa, perdão, à porta de casa!

 

Cristina Pizarro

 

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 13:00
link do post | comentar | favorito
|  O que é?
Quarta-feira, 11 de Outubro de 2017

Nós, os homens

 nos-homens-1-b

 

III

  

Na realidade, e esta conclusão só a tirei muito mais tarde, a diferença de sexos não é assim tão grande!

 

O que se passava é que ela era muito mais nova do que eu. E não falo propriamente em anos, mas em experiência de vida. Aquelas coisas por que passamos, boas ou más, e que nos vão amadurecendo, ela ainda não tinha passado por elas. Ainda não tinha sido mãe, nunca tinha passado por um casamento que tinha fatalmente terminado, etc., etc.

 

De forma que aquilo que eu considerava uma sorte, como ter tropeçado nela num dos dias da minha vida, para ela não passava de um acaso. Tinha sido eu, mas podia ter sido outro qualquer.

 

A menina tinha uma agenda semanal preenchidíssima. Entre trabalho e lazer, tudo era importante e não abdicava de nada para estar comigo. E eu respeitava aquele horário rígido como se aquilo fosse uma organização militar e obedecia como um cordeirinho, embora nunca tivesse fundado o MEEH, a conselho do meu grande amigo.

 

Sempre que ela precisava de tempo extra, retirava-o dos nossos encontros. Olhava para o relógio em alturas que me deixavam desconfortável, mas acabava sempre por compreender. É claro que não se podia chegar atrasado a um jantar com hora marcada, fosse com quem fosse, ou a uma partida de badminton num domingo de manhã!

 

Não podemos ser egoístas nos relacionamentos, sob pena de perdermos as pessoas que amamos. Eu, ao contrário dela, já sabia disto por experiência própria pois tinha perdido a mãe das minhas filhas exactamente porque não tinha achado aceitável que ela fizesse o que lhe apetecia e desse cabo da minha vida e da das minhas filhas em simultâneo. Não soube partilhar o egoísmo da pessoa com quem vivia e por isso fiquei sem ela. Agora não ia cometer o mesmo erro, a menina fazia o que lhe apetecia e eu ficava à espera dela!

 

Havia de chegar um dia em que ela pensaria como um homem ou tivesse a minha idade ou as duas coisas e talvez aí compreendesse o que era realmente importante. Estas coisas, não adianta muito insistirmos nelas ou tentar precipitá-las, têm de vir de dentro para que depois se possam instalar de uma forma mais confortável.

 

 

Na realidade, e esta conclusão só a tirei ainda mais tarde, a diferença de sexos e de idade não era assim tão grande!

 

O que se passava é que eu gostava muito mais dela do que ela de mim. Era por isso que ela não sentia aquela necessidade premente de estar comigo, aquela urgência do que não se pode adiar, aquele querer agora porque depois pode ser tarde!

 

Estas coisas não se explicam, ou se sentem ou não! Nem sequer adianta muito dizer que nós as sentimos assim porque há sempre o argumento contrário de que há muitas formas de dizer as coisas ou que as pessoas sentem de maneira diferente. Como é que ainda há gente neste século que se atreve a dizer coisas destas! Como se nós fossemos alguns otários e não soubéssemos que a forma mais simples de dizer as coisas, é dizê-las e a forma mais simples de as sentir, é senti-las, independentemente de haver 1001 formas de umas e outras!

 

E é exactamente aqui que eu perco a paciência, com os homens e com as mulheres, que neste aspecto eu não distingo sexo nem idade, nem sequer experiência de vida, é quando me fazem de estúpido.

 

Mas até para isto há solução. Se a coisa para nós for séria, denunciamo-la, se não for fazemo-nos de estúpidos também, até a coisa ser séria e nessa altura denunciamo-la.

 

É talvez aqui que percebemos, em função de como a coisa corre a partir daqui, se andámos a perder ou a ganhar tempo. Seja em que caso for, é pacífico. Nunca vos conseguirei descrever a sensação que me provocou a cor daquela sangria com champanhe e morangos, naquela noite no bar!

 

Divinal, talvez seja a palavra que mais se aproxima!

 

E a inteligência talvez consista nisto: em determinar a altura certa, o momento exacto em que decidimos deixar de fazer de estúpidos! Digo-vos já que deve ser das coisas mais difíceis de determinar. É relativamente fácil fazer de conta, fingir que não se passa nada, que está tudo bem, então não? Um sorriso nos lábios, a anedota certa no momento crucial! Quem é que não é capaz de uma coisa destas?

 

O problema surge quando a gente começa a exigir que nos levem a sério, quando começamos a achar que merecemos dos outros o mesmo respeito que temos por eles, quando reclamamos para nós os direitos da “Declaração Universal dos Direitos Humanos”.

 

Eh pá, mas o que é que te deu, perdeste o sentido de humor ou quê? Assim não tem graça!

 

Cai-se em desgraça! Um gajo passa de estúpido a inteligente e perde a graça!

 

Ralações humanas, aqui sem gralha nenhuma no português!

 

Cristina Pizarro

 

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 01:21
link do post | comentar | favorito
|  O que é?
Quarta-feira, 27 de Setembro de 2017

Nós, os homens

nos-homens-1-b

 

I

 

E ela a falar-me do existencialismo ateu e eu a dar conta que a minha perna estava a tocar na dela e a sentir o telemóvel sem som a vibrar no bolso das calças ou as chaves do carro, não sei bem, mas qualquer coisa vibrava no bolso das calças e a pensar que me apetecia fazer amor com ela ali mesmo, naquele espaço tão agradável e segurava o copo da cerveja, não sabia já qual o número e olhava para a cor da sangria dela com os morangos misturados no champanhe numa combinação perfeita como preliminares de qualquer coisa que teria um desfecho óptimo. E pensava que apesar de ser uma pessoa séria e nunca dada a estas coisas, conseguiria naquela noite amá-la mesmo ali, no meio daquela gente toda, ignorando espaço e tempo e perguntava-me a mim mesmo se na hora da verdade conseguiria alhear-me a esse ponto, sentindo-me só eu e ela no meio da multidão! E como eu achava que sim!

 

Passou-me pela cabeça confessar-lho, como se tivesse um padre à minha frente, mas nesse dia eu já tinha cometido outras gafes e fiquei calado, não fosse dar tudo a perder só porque o álcool ou a testosterona, que vinha a dar no mesmo para o efeito, me estava a toldar as ideias.

 

Então não é que à hora do jantar ela me perguntou se eu não tinha reparado que ela tinha ido arranjar o cabelo, no exacto momento em que comia um cheesecake de framboesa e eu a olhar para o licor vermelho a escorrer naquela montanha branca e a pensar, Deus me perdoe, como seria bom se a minha língua percorresse aquele líquido sublime, mas …

 

Claro que sim, que tinha dado conta, mas como é que se pode dizer a uma mulher que se gosta dela mesmo com pêlos e despenteada?! E mesmo que se tenha coragem para dizer isso, ela nunca vai acreditar em nós, no máximo vai dizer que somos uns queridos, embora pense que somos uns palermas, como é que se pode gostar de uma mulher com pêlos e despenteada?!, mas vai ficar sempre com a certeza íntima de que não somos honestos.

 

Em boa verdade, não cheguei a perceber se ela sentiu ou não a minha perna a roçar na dela, quando estávamos no bar, porque o discurso continuou e não fez nem uma vírgula nesse momento, mas as mulheres são mesmo assim, fingem tão bem que nunca conseguimos distinguir se é uma coisa ou outra, diria até que é coisa impossível de saber, se isto fosse coisa que existisse.

 

E depois o erro seria monumental, porque se lhe dissesse naquela altura que a desejava, ela ia concluir que eu não estava com atenção nenhuma ao que ela estava a dizer, embora as mulheres falem sempre para elas e não para nós, nunca perdoam a falta de atenção. Nunca tomaria como um elogio que eu estava era perdidamente apaixonado e que a desejava a toda a hora, até num bar, enquanto ela bebia champanhe com morangos. Porque as mulheres são mesmo assim, dão uma importância infinita a pormenores sem interesse nenhum e quando lhe dizemos que não conseguimos viver sem elas, elas aproveitam para marcar a depilação.

 

E, verdade seja dita, o existencialismo ateu até é um tema que me é querido, mas não àquela hora, por favor, nem naquele lugar onde temos de falar alto para nos fazermos ouvir. As mulheres são de um despropósito pontualíssimo! Chego a pensar, porque sou fã da sua inteligência, que fazem isto de propósito para testar o limiar da nossa irritabilidade.

 

Mas a coisa já tinha passado das marcas muito antes do jantar. Então não é que na exposição da tarde eu me tinha esquecido de a apresentar ao artista!

 

Esquecido é a pior forma de o dizer, como é que eu me ia esquecer da pessoa que, sem eu saber como ou perceber porquê, tinha acabado de mudar a minha vida?!

 

O que tinha acontecido é que eu me tinha entusiasmado no reencontro com um amigo a quem não via há algum tempo e no ombro de quem tinha chorado a perda da mãe das minhas filhas e agora estava ali à sua frente, feliz, acompanhado daquela que julgava ser a razão mais óbvia do meu sorriso, da minha alegria e até da razão com que o tinha abraçado como se dissesse, sem dizer, voltei! Mas isto é uma coisa que as mulheres nunca hão-de perceber! Por mais que a gente lho explique, é uma pura perda de tempo! O nosso passado, por mais cruel que tenha sido, nunca é o presente delas! Elas têm de estar sempre em primeiro lugar.

 

De forma que, quando o entusiasmo do reencontro passou, ela já estava amuada como uma criança mimada e tinha motivos para isso. Como é que eu fui cometer uma falha daquelas! Afinal eu não tinha ido lá sozinho! Afinal eu é que me tinha comportado como uma criança que tinha ficado órfã. Por isso pedi-lhe desculpa, mas não resultou. Nunca resulta com as mulheres. Se for com os homens, a gente faz os disparates e se reconhece os erros, se se arrepende e pede desculpa, passamos à frente, mas as mulheres são mais exigentes, com elas temos de ser perfeitos, à imagem e semelhança de Deus. Por isso fiquei com uma dor no peito, uma mágoa, não pelo que fiz, mas pela dor que lhe causei, pelo sofrimento que lhe incuti. Afinal, que diabo, era uma questão de educação. Básico mesmo!

 

E quando, depois do bar, a fui levar a casa, a minha vontade era de lhe dizer que gostava de passar a noite com ela nem que fosse para a ver dormir, sentar-me no sofá que provavelmente teria no quarto e esperar que o sono viesse enquanto ela mergulhava na profundidade dos sonhos que uma mulher sempre tem e a que um homem, por mais esforço que faça, nunca terá acesso porque elas não nos deixam entrar nessa intimidade que acham que lhes pertence e que nós nunca havemos de entender porque somos limitados mentalmente. A maior parte delas, está convencida que somos a preto e branco, fabricados em série e que temos espermatozoides na cabeça em vez de neurónios. Não digo que em certos momentos a coisa não seja verdade, como naquele momento no bar em que ela segurava no copo de sangria e me falava no existencialismo ateu.

 

O certo é que não fui capaz, dei-lhe um beijo, acompanhei-a à porta e quando cheguei a casa, peguei no telemóvel sem som que tinha no bolso das calças e que continuava a vibrar.

 

Quem seria, àquela hora?!

 

À noite não consegui dormir, não estava satisfeito com o meu desempenho, que diabo, afinal do que é que eu tinha medo?!

 

No dia seguinte arranjei um pretexto qualquer para me encontrar com ela e armado em machão perguntei-lhe se queria namorar comigo, metade-metade, meio a sério, meio a brincar, que um homem na minha idade também já não lida muito bem com estas coisas. E eis então o que eu não estava minimamente à espera: ela disse-me que ia pensar na proposta e ria-se como uma criança a quem lhe tinham acabado de contar a mais engraçada das anedotas.

 

Claro que, para um homem que tinha andado na guerra em que as balas vêm de todos os lados e o instinto de sobrevivência nos permitiu isso mesmo, o estar ali àquela hora, eu ri-me também e perguntei-lhe de quanto tempo é que precisava para pensar, ao que ela respondeu, sem pensar, que para responder a isso também precisava de tempo.

 

Em circunstâncias normais eu tinha-a mandado à fava sem sequer me dar ao trabalho de lhe dizer isso, mas o problema era que as circunstâncias eram completamente anormais, pois que eu estava completamente apaixonado por ela e assumi, acto contínuo e mais uma vez, que eu não sabia era fazer as coisas!

 

Onde é que eu tinha a cabeça? Como é que alguém diz isto a uma mulher sem sequer lhe levar um ramo de rosas ou outra pirosada qualquer?! Como é que um homem nesta idade abre o coração a uma mulher sem qualquer resguardo, sem qualquer protecção?! Não, de facto eu andava a pedi-las, eu punha-me a jeito, como muito bem dizia um grande amigo meu.

 

E agora, o que é que fazia? Mas a coisa não ficou por aqui, eu ainda consegui fazer pior. Depois disto ainda a convidei para passar férias comigo. Aí ela disse de imediato que sim, mas eu não reagi. No estado de anestesia em que estava, aquilo soou-me a uma brincadeira de gosto duvidoso.

 

No dia seguinte, perante a ausência de notícias, não resisti a perguntar-lhe se ainda estava a pensar na minha proposta e foi aí que a minha auto-estima se estatelou definitivamente no chão, como se tivesse caído de um 12º andar. Respondeu-me que ainda não tinha tido tempo para pensar! Tinha acabado de me responder, sem ela dar conta ou exactamente ao contrário, com um plano diabólico para eu dar conta. Com as mulheres nunca sabemos se estão a pensar no mesmo que nós ou no seu contrário ou até nas duas coisas ao mesmo tempo, que elas conseguem proezas que nem o mais inteligente dos homens é capaz de equacionar. Comecei a perceber o jogo. Aquilo era uma roleta russa modificada, tinha nas seis câmaras do revólver, seis balas, um verdadeiro jogo de azar. A primeira acabava de ser disparada. Agora a escolha era minha, ou ficava para assistir à carnificina ou dava o jogo por terminado. Se quisesse continuar a jogar, a única coisa que podia fazer para salvar o que restava da minha dignidade era mudar as regras do jogo. E foi o que fiz. Poker, foi a opção. Com sortinha, saia-me um par de ases, se não fosse com ela era sem ela!

 

Disse-lhe que deixasse lá, que eu retirava a proposta. É claro que não respondeu, orgulho de mulher ferida é pior que erva daninha! Aquilo já tinha ido longe demais, do meu lado claro está. Então faz algum sentido oferecer de comer a quem tem fome e o outro dizer que vai pensar! É porque terá provavelmente fome de tudo menos daquilo que nós lhe estamos a oferecer e eu não tinha mais para dar, a não ser aquela coisa estranha que me fazia olhar fixamente para o copo de sangria com morangos e champanhe que ela tinha na mão, naquela noite no bar e pensar como seria bom tê-la nua nos meus braços e cobri-la de beijos até gastar a saliva, a minha e a dela. E a porcaria do telemóvel que não parava de vibrar e eu já o tinha desligado não sei quantas vezes!

 

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 01:36
link do post | comentar | favorito
|  O que é?

.Fotos Fer.Ribeiro - Flickr

frproart's most interesting photos on Flickriver

.meu mail: blogchavesolhares@gmail.com

.Outubro 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9

15

22
23
24
25
26
27
28

29
30
31


.pesquisar

 
ouvir-radioClique no rádio para sintonizar

 

 

El Tiempo en Chaves

.Facebook

Fernando Ribeiro

Cria o teu cartão de visita Instagram

.subscrever feeds

.favorito

. Solar da família Montalvã...

.posts recentes

. Nós, os homens

. Nós, os homens

. Nós, os homens

blogs SAPO

.Blog Chaves no Facebook

.Veja aqui o:

capa-livro-p-blog blog-logo

.Olhares de sempre

.links

.tags

. todas as tags

.arquivos

. Outubro 2017

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

. Novembro 2005

. Outubro 2005

. Setembro 2005

. Agosto 2005

. Julho 2005

Add to Technorati Favorites