Quarta-feira, 14 de Fevereiro de 2018

Nós, os homens

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XXI

 

Não seria justo continuar este conto sem agradecer, aqui, ao meu grande e sincero amigo, a quem surripiei a história. Ele sabe que as minhas intenções foram as melhores e por isso não me levou a mal.

Enquanto não fundarmos o MEEH, qualquer um de nós está exposto a coisas destas e isto funciona como um alerta.

Quando ele me contou esta história, a primeira coisa que me veio à cabeça foi que, afinal, aquela sua ideia de fundar o Movimento Europeu de Emancipação do Homem, se calhar, não era assim tão tola!

 

Não posso deixar também de pedir desculpa por, de alguma forma, iludir os leitores, fazendo-os pensar, desde o início, que era comigo que a história se passava.

Se fosse comigo outro galo cantava e não era o de Barcelos! Mas dizemos todos o mesmo, por isso eu até nem estranharia nada se, apesar de há muito tempo ter lido os estatutos, um dia me acontecer o mesmo! Estando vivo, calha a todos!

 

Quando ele me contou aquele jantar com o nosso amigo, em que lhe tinha feito a proposta de fundar o MEEH e ele só não lhe chamou parvo por pouco, o meu grande e sincero amigo ficou sem coragem para contar o resto: que praticamente a parte documental já estava feita. Mas continuou com a mesma ideia, porque é teimoso como um burro, e achava que isto não era propriamente uma coisa que se pudesse mandar por e-mail aos cinco melhores amigos com a garantia de ganharmos o Céu!

 

Mas eu sempre o apoiei naquela sua ideia e se há característica que eu tenha, é a de fazer o que não deve ser feito! Tolo como sou e em desespero de causa, porque sinto a dor dos outros como se fosse minha, mandei mesmo o e-mail aos cinco melhores amigos, sem garantia nenhuma de ganhar o Céu, até porque não fazia disso um projecto de vida.

 

Chamar a isto azar, é pouco. No tempo em que eles os dois se davam bem, eu tinha colocado o endereço electrónico da menina na lista dos cinco mais, a este ponto eu sentia que ela fazia parte dele!, e eis que ela recebe também o texto.

Uma merda os computadores, internet e o diabo a sete! No tempo em que eu andava na caça, nunca me enganei a disparar um tiro. Era o que se chamava cada tiro, cada melro, sempre no alvo certo. Eu estava, a olhos vistos, a perder qualidades.

O que mais me aborreceu foi a minha falta de rigor nos actos, quando eu tinha tanto com as palavras!

 

Claro que tive de lhe pedir desculpa, não a ela que me estava perfeitamente a borrifar para o que pensasse, mas ao meu grande e sincero amigo, pelo que lhe tinha feito a ele. Afinal, toda a confiança que ele tinha depositado em mim, ao contar-me toda esta história, tinha ficado abalada, pois que eu tinha posto a nu o que me tinha sido dito em confissão, e ainda por cima, ao diabo!

Mas, quando eu contei o que tinha acontecido, o meu grande e sincero amigo riu-se tanto e de forma tão efusiva que eu fiquei seriamente na dúvida se ele tinha achado graça ou se lhe estava a dar um ataque! Outro!

Quando parou de se rir, bateu-me com determinação no ombro esquerdo e disse: obrigado pá, acabaste de me fazer um grande favor!

Nós, os homens, temos destas coisas!

 

Cristina Pizarro

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publicado por Fer.Ribeiro às 03:28
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Quarta-feira, 7 de Fevereiro de 2018

Nós, os homens

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XX

 

Acordei num hospital com o diagnóstico de ataque de pânico, eu que nunca tinha sabido o que aquilo era, apesar de já ter ouvido falar inúmeras vezes, tanto em adolescentes, filhas de amigos meus, que tinham perdido o ano escolar por causa desta coisa, como em gente adulta, moderadamente equilibrada, o suficiente para eu falar com ela sem dar conta de nada e agora estava ali, na cama de um hospital e o médico a perguntar-me: Então, conte lá o que se passou! E eu a olhar para ele e a pensar que, em circunstâncias idênticas, talvez o médico, na idade dele, não tivesse resistido e em vez de ter um colega à frente a fazer aquela pergunta, talvez ela fosse ligeiramente diferente, talvez no caso dele encontrasse um guardião de asas brancas a perguntar-lhe: Acha que está preparado ou prefere estagiar algum tempo no purgatório? Sim, com a sua profissão e a exercê-la durante tanto tempo deve, com toda a certeza, ter mandado alguns para o galheiro por negligência! E como eu não respondia, posto que me mantinha em silêncio e para ele isso não era uma resposta, insistiu, modificando ligeiramente a pergunta: O senhor lembra-se do que aconteceu?

 

Um não era perfeitamente pacífico, servia as duas partes. Mas eu naquela altura já tinha o cérebro descongelado, disponível e funcional e comecei a pensar que se o médico achasse que eu tinha tido um episódio de amnésia, ainda que ligeiro ou momentâneo, ia enfrascar-me de medicação, perfeitamente escusada.

Sorri. Quebra de tensão, já me aconteceu mais vezes, perante alguma emoção.

O médico sorriu de volta. Havia no seu sorriso um misto de cumplicidade e comprometimento. Ele era casado, eu não. Bem sei, preconceitos. Dele, não meus. Ele corou e escondeu a mão onde tinha a aliança, eu não tinha nada para esconder. Aliás, tinha imensa coisa para esconder, mas não a exibia nas mãos, fingindo ser uma coisa e sendo outra. Juízos de valor, talvez, que atire a primeira pedra quem os não faz!

 

Depois de uma noite em observação, na sala da urgência, deram-me alta: O doente está estabilizado.

Claro que a avaliação era meramente física, melhor dizendo, orgânica. As análises efectuadas estavam normais, isto é, dentro do intervalo de valores apresentado pela população estudada, saudável, com peso e estatura normais, atendendo à idade e ao sexo. Tenho de especificar que neste conceito de população saudável, não entra a definição de saúde da OMS: não apenas a ausência de doença, mas o bem-estar físico, psíquico e social. Eu só respeitava o primeiro, sendo tolerante, o segundo também seria satisfatório, mas no que dizia respeito aos dois últimos, as condições não eram minimamente satisfeitas. Também não era no serviço de urgência que a coisa podia ser avaliada. Isso não corria no sangue, não se eliminava na urina, nem no esperma, nem no suor, nem no ar expelido pelos pulmões. Nenhum dos dois dá sinais exteriores suficientemente visíveis para que possam ser facilmente avaliados.

 

Fui para casa. Não sei o que me incomodava mais, se o diagnóstico de ataque de pânico, se a imagem impensável daquele quarto de hotel. E as palavras, outra vez, que não me saíram! Desta vez dava graças a Deus por isso! O que é que se pode dizer numa situação destas! Qualquer palavra é demais, qualquer silêncio é de menos!

Como é que eu nunca dei conta! Na minha cabeça o turbilhão de pensamentos e emoções fervilhava. De tudo o que me vinha à cabeça, o ter sido enganado era o menor dos males. Não tinha sido ela a enganar-me, tinha sido eu a enganar-me, deliberadamente, por excesso de sentimentos, por amor, por paixão, por dádiva, por entrega, por gratidão, por dedicação. Engana-se quem quer e eu tinha querido com unhas e dentes. Com toda a minha força, com todo o meu poder, com tudo o que era eu.

Mas ela não tinha querido. O que é que se pode fazer quando uma pessoa não quer? Nada, rigorosamente nada! E vinha-me à cabeça a frase do meu avô materno que não cheguei a conhecer: Até para cagar é preciso vontade!

E era isto o que me desmembrava, eu não ter conseguido despertar nela o desejo de me querer. E perguntava-me porquê! O que é que eu tinha ou o que é que eu não tinha!

Se fosse mais novo, podia alimentar-me a esperança de que, quando fosse mais maduro, talvez adquirisse as competências que me faltavam, mas na minha idade isso já não fazia sentido.

 

Cristina Pizarro

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 01:44
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Quarta-feira, 31 de Janeiro de 2018

Nós, os homens

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XIX

 

Eu não era nada dado a estas coisas, verdade verdadinha, pela alma da minha avó que Deus a tenha. Mas os rapazes não se calavam. Vendo o meu estado de desespero e fragilidade, diziam que o que eu precisava era disto, que o que eu precisava era daquilo e uma das noites, cansado de os ouvir, cedi. Fui com eles a um bar, que todos conheciam, menos eu.

Quando lá cheguei o negócio, ou a contratação, que eu nem sei que nome se dá a estas coisas, já estava feito.

Cumprimentei os rapazes e antes que me acomodasse na cadeira de veludo vermelho, sob as luzes flácidas, vem a pergunta: Como é que te sentes?

Como é que eu me havia de sentir? Destroçado, como andava há tanto tempo! E nem foi preciso dizer nada, eles olharam para mim e leram-me a alma, a tal ponto eu era transparente ou a esse ponto eles me conheciam.

Não respondi. Nós, os homens, temos estas coisas de fazer as perguntas quando sabemos as respostas e não dar conta da sua ausência porque, neste caso sim, o silêncio era uma anuência ao que lhes ia na cabeça: Na merda!

E continuavam como se eu tivesse respondido alguma coisa: Deixa lá, não tens que fazer nada. Bebes um whisky, ou dois, ou três e sobes ao primeiro andar. É o 102.

 

Enquanto subia no elevador debatia-me com a atitude a ter: O que é suposto que eu faça? Toco à porta e espero que alguém ma abra ou entro sem bater?

Escusado. Quando cheguei à entrada do quarto, a porta estava entreaberta. Em silêncio e cautelosamente, a medo diga-se mesmo, abri-a muito devagar e foi então que os meus olhos se crisparam nos dela.

Naquele momento, quando o nosso olhar se interceptou, podia vir-me à cabeça um sem número de pensamentos. Mas apenas um me ocorreu. O dia em que fui a sua casa sem a avisar primeiro.

 

Era uma belíssima tarde de Agosto, cheia de sol e calor. Eu tinha encontro marcado com ela às cinco da tarde, mas estava tão impaciente para a ver que, quando passava pouco das três, meti-me no carro e fui a casa dela. Não me era possível esperar mais. Quando me abriu a porta estava ensonada e contrariada. Não retive o momento em que me cumprimentou e por isso não sei se aconteceu. Lembro-me das palavras dela já dentro da sala. Ela sentada num sofá individual que só dava mesmo para um e eu a tomar lugar no de dois lugares, onde tantas vezes tínhamos estado juntos.

- Eu nunca apareci em sua casa sem telefonar primeiro! O nosso encontro era às cinco e passa pouco das três! Não está bem!

Eram as boas vindas.

Expliquei-lhe que não tinha aguentado esperar mais.

Respondeu que estava a dormir a sesta, porque estava cansada do treino da manhã e que só acordava passado algum tempo, sinónimo de ter mau acordar. Eu não podia confirmar nem desmentir, pois que, nos poucos cinco meses que eu poderia testemunhar, só a tinha visto acordar duas vezes e nesses ela tinha acordado bem. Mas o universo que eu conhecia era muito restrito para a poder contrariar. Não o fiz.

 

Perante a falta de educação que me tinha acabado de imputar, levantei-me, pedi-lhe desculpa, disse-lhe que me tinha enganado, porque não era para ali que eu queria ir.

Saí, ela não me deteve, não foi sequer acompanhar-me à porta, como gostava tanto que eu fizesse com ela. Meti-me no carro, não faço a menor ideia como é que o carro me levou a casa! Eu estava atónito com este comportamento.

Claro que o encontro das cinco da tarde ficou sem efeito e foi adiado sucessivamente, com desculpas sem lógica nem propósito.

 

Agora vinha-me esta história à cabeça e a pergunta que não pude evitar: se eu tivesse subido as escadas, naquele dia, em casa dela, quem encontraria no quarto? A dormir a sesta, é preciso ter lata! Cansada do treino da manhã, como é que eu não percebi?!

Afinal eu tinha tudo à minha frente, só me faltava abrir os olhos! Para ver, era preciso acreditar! E vem-me, pela vez sem conta, a frase do Paul Auster que, imediatamente depois de a ler, memorizei: “Crer, para ver. Eu só vejo quando acreditar”, contrariando a atribuída a São Tomé: “Ver, para crer. Eu só acredito quando vir.” Eu subscrevia a primeira.

O autor no livro, quando lhe sai a frase a meio de uma discussão com a mulher, diz que foi lapsus linguae, mas qualquer leitor percebe, mesmo sem conhecimentos nenhuns em psicanálise, que ele a quis escrever dessa forma, porque lhe fazia mais sentido e era muito mais verdade.

 

Vestida daquela maneira, estava quase irreconhecível e o quase prendia-se, não com os olhos que, por demasiado pintados, estavam diferentes na forma e na expressão, o quase estava na intensidade do olhar.

Quando a reconheci o meu corpo entrou em delirium tremens, a expressão latina usada para síndrome de abstinência, suspensão ou privação em doentes crónicos dependentes, provocado pelo uso prolongado ou abusivo de cenas.

Exactamente o caso.

 

Primeiro senti um arrepio, que começou nas plantas dos pés como uma cãibra, depois uma contracção violenta no estômago e de seguida todos os meus músculos entram em convulsão. O cérebro, pura e simplesmente, começa a arrefecer, percorrendo um gradiente térmico que atingiu a temperatura de congelação para órgãos sólidos. Não tinha um espelho ali à mão nem vontade de me ver, mas a minha pele estava, com toda a certeza, branca, lívida, sem uma pinga de sangue nos pequenos canalículos subjacentes à epiderme.

 

Não tentei dar um passo em frente, mas mesmo que o fizesse, não conseguia. Os meus pés estavam, ipsis verbis, pesados como chumbo, colados ao chão. Nem para trás nem para a frente. Constituíam aquilo a que nas empresas se chama o imobilizado.

E eu, na milésima de segundos que ainda tinha disponível e funcional do meu cérebro, quase totalmente congelado, a pensar na pequena frase que, às vezes, se diz em pleno acto sexual e a pensar que se tivesse forças, que não tinha, para dizer alguma coisa seria para dizer estou-me a ir. E a pensar depois disto, eu que escrevia livros, se vir e ir não seria o mesmo verbo, diferente apenas na direcção com que o vento sopra!

Caí no chão, sem dor, já inconsciente.

 

Cristina Pizarro

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Quarta-feira, 24 de Janeiro de 2018

Nós, os homens

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XVIII

 

 

Por acaso era uma coisa com que lidávamos bem lá em casa: os sentimentos. Desde pequenos fomos crescendo lentamente e sem pressões, conforme a idade o permitia. Lembro-me que um dia, e já com 18 anos, a minha mãe me deu um beijo na planta do pé e disse acorda meu bebé grande. Se calhar ela não se lembra disso, ou talvez sim, mas eu nunca mais me esqueci.

 

Ainda hoje, ultrapassados há muito os quarenta anos, não consigo deixar de me libertar do papel de filho, pois que isso me é recordado com frequência. Quando vou a casa e me levanto tarde e a más horas, a minha mãe leva-me o pequeno-almoço à cama e faz aquilo com uma ternura que, mesmo que eu não tenha fome, tenho de comer. Faz-te mal estares tantas horas sem comer. Ela não sabe que idade é que eu tenho, porque também não sabe a dela, só assim é que se explica como isto é possível. E, por mais que eu lhe diga que não é preciso, ela fá-lo na mesma.

 

São coisas destas que fazem com que cresçamos felizes e saudáveis. Não damos conta, não sabemos a influência que isso tem, não está dissolvido no leite nem a barrar as torradas, mas discretamente, é isso de que o gesto é feito, de mimo.

Quanto mais recebemos mais damos.

Foi assim pela infância fora, foi assim pela adolescência a dentro e é assim na vida adulta.

 

É talvez por estas e outras coisas, que sempre senti necessidade de dizer aos outros o quanto gosto deles e faço-o por dois motivos. Primeiro porque o sentimento transborda, não há forma de mantê-lo dentro e depois por gratidão, no sentido em que me sinto no dever de agradecer a existência, junto a mim, de pessoas que me fazem tanto bem.

 

Nunca percebi porque é que ela nunca foi capaz de me dizer isso, que gostava de mim. Embora o seu olhar fosse expressivo a esse ponto, e era só por isso que eu lhe perdoava, senti muitas vezes necessidade de o ouvir por palavras e ela nunca o disse! E às vezes era tão fácil! Quando eu dizia amo-a, bastava que ela dissesse eu também! Nunca o fez. Ficava a olhar para mim, sorria com alguma complacência e era capaz de ter um gesto meigo, de me fazer uma festa no rosto, mas a palavra não lhe saía. E doía. Doía como tudo. Um dia, por brincadeira, perguntei-lhe g e um o? Ela sorriu e completou a frase, mas fê-lo na terceira pessoa gosto muito do meu querido Joaquim! Não foi capaz de dizer gosto muito de si! Nunca mais brinquei, agora que ela tinha aprendido a frase, talvez pudesse dizê-la, uma vez por outra! Não o fez.

 

Uma única vez perguntei-lhe se me amava. Fez-me repetir a pergunta, porque não tinha ouvido. Ganhava tempo. Repeti-a, depois de uma pausa que prolonguei propositadamente. Primeiro a pensar se lhe queria mesmo fazer a pergunta e depois de concluir que sim, dei-lhe algum tempo para ela pensar na resposta. Somos tão idiotas! O que é que eu queria com uma pergunta daquelas, naquele lugar, daquela maneira?! Na cama, depois de fazer amor, o que é que ela havia de dizer! Que valor teria, nestas condições, sob coacção, a palavra amo?! Claro que a disse, não tinha alternativa.

Eu achava isto estranhíssimo e desculpava-a pensando que somos todos diferentes, que não podemos julgar os outros só porque as suas atitudes, ou a falta delas, são diferentes das nossas. In extremis, se fosse necessário, eu diria a bandeiras despregadas que o amor não se mede aos palmos.

O tanas que não se mede, havia de mo dizer um dia um grande e sincero amigo, quando me contou a história dele e me tentou explicar como se pode gostar de duas mulheres ao mesmo tempo e andar com elas em simultâneo: Duma gosta-se, a outra ama-se. E eu sem perceber porque é que se ele amava uma, havia de andar com a outra! Talvez não amasse nenhuma, era o que me parecia e quando lho disse saiu-se com aquela: o amor mede-se aos palmos.

Se era assim, que tamanho tinha o dela e que tamanho tinha o meu?

Talvez esse mesmo: eu amava-a, ela gostava de mim.

Cristina Pizarro

 

 

 

 

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Quarta-feira, 17 de Janeiro de 2018

Nós, os homens

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XVII

 

Aquela frase: ”A minha vida dava um filme”, nunca a subscrevi. Eu sempre achei que a minha vida era um filme e eu o seu realizador. Era eu que decidia quem entrava e saía de cena, quem punha e tirava vozes nos personagens, que cenários colocava, quem perdia e quem ganhava, quem sofria mais e quem sofria menos, quem falava e quem ouvia, qual era o olhar que brilhava e o que chorava, quem se apaixonava e por quem. Era eu que escolhia os actores e que os dirigia. Quando a cena não estava bem, repetia até ficar a meu gosto. Mas a realidade não era nada disto! No máximo, a minha vida dava um filme.

 

A conclusão, ou uma delas porque tirei várias, é que fiz tudo mal.

As mulheres são especiais. No todo e em parte. Fiz o que pude e mais do que isso, mas falhei na forma. As portas servem para abrir e para fechar, mas há formas infinitas de o fazer, qualquer fazedor de portas sabe isso. Eu não sabia. Entre o sim e o não, faltavam-me as palavras e havia um dicionário pelo meio. Ninguém mas ensinou, aprendi-as depois, quando fiquei sem ela. A cada dia de ausência e vazio, aprendi uma nova e fui construindo um prontuário íntimo de duas colunas: “palavra incorrecta”, “palavra correcta”. Talvez nunca o termine, talvez não tenha tempo de o usar. Não o estou a fazer para isso. É mais uma necessidade intrínseca de não desiludir o Criador, ou de me aproximar, embora estando a léguas disso, daquilo que Ele imaginou para mim. E é engraçado como Ele nos deixou este trabalho nas mãos, tanto mais árduo a quem mais achou capaz, dizem. E o que de início me parecia uma injustiça atroz, parece-me hoje sinal de inteligência. Então não? Se tens os meios, hás-de conseguir utilizá-los e encontrar a forma! Não deixa de ser um filho da mãe por causa disso! Um grandessíssimo filho da mãe, Deus me perdoe!

 

Porque não havia Ele de premiar os bons, os homens de boa-fé? Tínhamos de ser nós, nós sozinhos a encontrar o bem, a antagonizar o mal? Por isso é que o filho lhe disse: “ Meu Deus, porque me abandonaste?” Se fosse hoje, ia preso! Bem, preso talvez não. Os maus nunca vão presos, mas da liberdade condicional penso que não se safava! Então não é crime criar os filhos para depois os abandonar?! Entre a Justiça divina e a Justiça dos homens, qual é mais justa?

Mas tudo isto é um devaneio de quem muda de vida à força, por imposição alheia, por circunstâncias do destino, por imprevisibilidade, por falta de controlo em si e falta de domínio sobre os outros no domínio sobre nós.

Quem sou eu ou quem eu sou? Há diferença nisto?

 

Telefonei-lhe. Ela estava muito mais perto de Deus do que eu, embora eu não soubesse se isso era bom ou mau. Quem era Deus? O que é que Ele queria de mim? E ela? Nunca percebi. Deixou de me interessar no dia em que decidi que isso ia deixar de me interessar e que ia continuar a viver, fosse qual fosse o significado disso. Só há esta forma de lidarmos com o que não percebemos. Há outras, mas fazem todas mal.

Eu tinha de me desligar da corrente e continuar a dar luz. Nada que não tivesse já feito na minha vida. Tantas alternativas: geradores, baterias, pilhas, painéis solares…

 

Estava ocupada, não tinha tempo…

Eu era um homem cheio de sorte, tinha sempre tempo para o que considerava importante e sabia estabelecer as minhas prioridades de uma forma inequívoca: ela, estava sempre em primeiro lugar. Sabia que haveria de chegar uma altura em que não seria assim, o tempo opera sozinho. Tinha algum receio, muito vago, que ela acordasse nessa altura e fosse tarde para mim. O meu tempo não era igual ao dela e eu não lhe consegui explicar isso. Não porque não tentasse, havia coisas que ela não queria perceber e eu nunca entendi porquê. Medo, recusa, convencimento?

 

Desliguei, ficava para depois. Com ela era assim, eu ficava sempre para depois. Para ela só era urgente o que não me interessava para nada, o que podia ser feito depois.

Talvez ela também fosse uma mulher cheia de sorte, talvez tivesse sempre tempo para o que considerava importante e talvez soubesse estabelecer as suas prioridades de uma forma inequívoca: eu, é que nunca estava em primeiro lugar. Talvez fosse só nisto que éramos diferentes!

Sabia que haveria de chegar uma altura em que não seria assim, o tempo opera sozinho. E tinha algum receio, muito vago, que ela acordasse nessa altura e fosse tarde para ela. O seu tempo não era igual ao meu e eu não lhe consegui explicar isso. Não porque não tentasse, havia coisas que ela não queria perceber e eu nunca entendi porquê. Medo, recusa, convencimento?

 

Saí, fui ver uma exposição de um amigo que se inaugurava nessa noite e para a qual me tinha convidado, gostava muito que viesses. Gostei muito de ter ido. Arte, se pudesse comprá-la, tal como a ela, trazia-a para casa. A arte punha-a na sala, a ela espalhava-a pela casa toda.

 

Eu sabia o que tinha de fazer, apagar a chama das velas sem ter outras para acender. Encher os meus pulmões de ar frio utilizando toda a minha capacidade torácica e num só sopro, de frente e a direito, esvaziá-los na sua direcção. Mas a luz das velas era de um amarelo pálido, cálido e morno que deixava as faces dos amantes, ternas de paixão, numa cumplicidade comungada, partilhada, pacificada. E eu não conseguia. Enchia os pulmões de ar frio o mais que podia, mas depois ao olhar a chama das velas e a luz que delas emanava sentia-me um assassino em noite de luar, um lobisomem com os dentes ensanguentados a pingar sobrevivência e maldade. Eu não era assim e por isso deixava as velas arder até ao fim, numa insistência amargurada, numa persistência arrebatada. E não havia nenhum altar a Nossa Senhora, nem nenhum pecado de que eu me quisesse salvar, nem tinha a alma a penar nem nada para confessar. As velas ardiam, dia após dia, eu protegia-as do vento incauto como se protegesse uma criança no ventre, por entre a passagem descuidada do tempo, que tudo leva pela frente, atropelando as coisas simples de que eu era o guardião. Ninguém mexe! Gritaria se fosse preciso e protegia a chama das velas como se de mim se tratasse. Era de mim que se tratava. Quando a chama nelas largasse o último suspiro, o meu amor por ela chegaria ao fim. Teria terminado o que eu não queria que terminasse, agora sim, por minha vontade e de forma natural.

 

Do que nós somos capazes! Imagem por imagem, construímos um mundo irreal porque este não nos satisfaz. Eu nunca aceitaria que me ditassem um mundo alheio, criança como nasci e como hei-de morrer, teria de construir um mundo à minha maneira. Pequenino, imaginário, de cartão. Nele coloquei um céu dourado. Pus as estrelas cá em baixo a fazer de homens e mulheres. A Lua no meu quarto e o Sol, meu Deus o Sol, por trás do céu, era o que fazia dele, todos os dias, um céu dourado.

Aos milhões de estrelas que brincavam cá em baixo, dei-lhes, em partes iguais, inteligência e sensibilidade, mas fiz um truque, colei-as uma à outra, não podiam ser usadas sozinhas e de forma independente. Quem quisesse usar uma, tinha de usar as duas. Não foi por mal. Foi por precaução. Pareceu-me, a mim, quando construi este meu mundo de cartão que, fosse qual fosse o caso, quando usamos uma sem a outra dava sempre mau resultado. Vinha depois o arrependimento, a frustração, a desilusão, a angústia, a ansiedade, … Neste meu mundo, não havia depois forma de lidar com isso nem a quem recorrer, ninguém sabia que sentimentos eram esses. Como e a quem falar deles?

E faltava o elemento água, onde o colocar?

No centro do mundo de papel havia um lago enorme com uma nascente de água pura e cristalina, onde diariamente as estrelas tomavam banho. Havia uma única condição para nele mergulharem: para além da roupa, tinham de se despir do passado.

Cada dia, era um começo.

 

Cristina Pizarro

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publicado por Fer.Ribeiro às 04:13
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Quarta-feira, 10 de Janeiro de 2018

Nós, os homens

nos-homens-1-b

 

XVI

 

Acabei de atravessar o parque.

- O senhor lembra-se, de quando eu era feliz?

Como é que se há-de lembrar, se a felicidade que era minha já mal a posso recordar!

As árvores que outrora floriam, hoje a chuva prende nelas as folhas aos troncos e a humidade do solo transforma a terra árida num solo firme, gélido, compacto, duro, numa inversão sem sentido, inexplicável.

 

Adivinho o conforto das lareiras acesas nas casas que eu ajudei a aquecer, com mantas de pele artificial imitando o vison natural, listado e quente. Adivinho os corpos nus que se enrolam nelas, que entram e saem dessas casas com os corações aconchegados, os corpos acomodados num amor que não importa se é gratuito se verdadeiro, aquece, eis tudo a quanto aspiro, hoje. Um arrepio percorre-me o dorso como se eu fosse um animal e não consigo evitar a pergunta irracional: Porque não eu? Ou a exclamação, já mais consciente: Sempre outro em vez de mim! E os tapetes de pele verdadeira que eu também ajudei a compor, no ambiente do quarto onde a donzela nua, depois de saciada, coloca os pés descalços e sente a textura da pele natural e o afago quente do corpo do animal que se sacrificou para seu conforto, à semelhança do seu amante, mas este com prazer. Calça as meias de seda, os sapatos de pele de outro animal que também se sacrificou para seu prazer, veste a saia de pele de outro animal que também se sacrificou para seu prazer e põe as jóias com o dinheiro que alguém sacrificou e que dava para alimentar uma família durante um mês.

 

É justo isto?

Eu era bem capaz de ser o idiota que sacrificava os animais do planeta para lhe dar os sapatos, a saia e ainda lhe comprava as jóias, se depois ela se risse, não de mim mas para mim.

Eu mantenho a esperança no nada, o objectivo de vida no vazio que me preenche os dias e a chuva cai sempre inclinada ignorando o que sinto, a solidão das emoções, a ausência do corpo que falta, para dar sentido a tudo isto!

E surge a presença no imaginário, com Deus ausente, do que não foi e podia ter sido. A manta de vison artificial era minha, que eu dei para aconchego da alma a um ser que me era querido, que depois se tornou em aconchego do corpo a alguém desconhecido.

 

É justo isto? É pecado. Meu Deus como é pecado mortal alguém usar e abusar do que não é seu, do que não lhe foi dado, nem em vida nem em testamento vital. E colocar os pés delicados no tapete de pele verdadeira que foi feito para pés calejados onde nem um obrigada foi dito, onde nem um sorriso foi esboçado, numa insensatez debochada, arrogante, pecaminosa, ingrata.

 

Porque é que não há inferno na terra para castigar em vida aqueles que não merecem viver? Merecemos todos? Onde está Deus? Porque nos abandonou? Porque fez Ele os homens bons, para os deixar à mercê dos homens maus? Porque fez Deus os homens maus?

 

Atravesso o parque, onde outrora, nos bancos de madeira ou ferro troquei beijos de amor, em condições, e as árvores que então floriam, hoje estão carregadas de desespero, de angústia, de coisa nenhuma. Para onde foram os troncos das árvores que, felizes, de amor transbordante, as alimentavam, transportando a seiva nos canalículos do seu interior até às folhas verdes dos seus ramos, que depois se haviam de transformar em flores de cândido perfume, sublime como o brilho dos seus olhos?! O que foi que lhes aconteceu, para vandalizarem assim o sentimento que lhe ofereci entre os meus cabelos loiros, entre os meus olhos azuis, entre a minha pele de seda e o meu perfume a flores?! Para onde foi tudo?! Não fui eu que disse, não fui eu que inventei, foi ela que me contou, naquela tarde de Primavera em que atravessámos o parque e o Sol brilhava tanto que as árvores floriam e a terra árida exalava um perfume quente a jasmim, que nos fazia lembrar as tardes em que os nossos corpos se fundiam sem manta de vison artificial e sem tapete de pele natural, onde os meus pés pudessem tocar, antes de sentir, a fria e crua realidade.

 

Eu era, como ela sabia, de emoções fortes, nada dado a mariquices, e o toque do chão gélido nos meus pés descalços, fazia-me sentir a natureza das coisas simples, como quem passeia na praia e desenha pegadas na areia molhada. Para que é que eu precisava de mantas e tapetes quando a tinha a ela para esculpir as minhas mãos, os meus pés, o meu corpo inteiro?!

 

Quem é que se lembra, agora? Quando o meu corpo deslizava por baixo do seu e se escapava e fluía e desaparecia e ela me procurava e me encontrava depois, para me voltar a perder a seguir?

Como é que alguém se há-de lembrar! Nada disto agora faz sentido, porque no parque está a chover e ela está em casa com a lareira acesa, enrolada na manta de vison artificial com um corpo de homem nu que não é o meu, que não a beija como eu, que não sente por ela o que eu sinto e ela está feliz na mesma, como uma perfeita idiota, sem perceber a diferença entre nada e coisa nenhuma! Porque não lê Fernando Pessoa? Lá, ele explica tudo! Mas ela não quer saber, ela sabe isto tudo e não quer saber.

 

Quebrou-se a magia! É esta a sua realidade, o faz de conta. Prefere não viver a ter de sofrer e eu percebo, só tenho é pena. Não dela, que nem sofre nem vive, mas de mim, que faço as duas coisas. Se as fizesse por mim, tinha um bom motivo, mas faço-as por ela, motivo nenhum.

 

Há quem chame a isto dor de corno, mas eu, sinceramente, parece-me isso tão pouco para a dor que sinto. Doi assim?

 

Cristina Pizarro

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Quarta-feira, 3 de Janeiro de 2018

Nós, os homens

nos-homens-1-b

 

XV

 

Lembro-me do dia em que a beijei pela primeira vez, como se fosse hoje. Porque é que Deus me tinha presenteado com ela, porque era eu digno do seu merecimento, o que é que eu tinha feito? Era assim que eu me sentia: o escolhido, o eleito.

 

Embora tivesse sido eu a dar o primeiro passo, como dita o protocolo, convém parar aqui uns segundos e pensar o que entendemos por primeiros passos. Às vezes não é o acto em si, mas criar as condições para. É no dia em que a criança se levanta sozinha e caminha sem ajuda externa, que começa a andar? E como o faria, se não existissem os meses que precedem esse dia, em que ela se arrasta, gatinha e se apoia nos móveis ou nas paredes, para depois, com a confiança integrada, se lançar no espaço? Assim tinha acontecido nesse dia, lancei-me no espaço e beijei-a.

 

Lembro-me desse dia como se fosse hoje! Maldito seja! Num acto completamente irreflectido, num desejo irreprimível, numa vontade descontrolada, lancei-me no espaço e alcancei primeiro a sua face ruborizada e depois os seus lábios entreabertos.

 

Na altura pareceu-me que me esperava. Aquelas coisas que não sabemos explicar. Surpreendido comigo, afastei-me depois de um abraço e tentei recompor-me, mais da atitude que do beijo. Tarde demais. Estes actos não são reversíveis e nem eu queria que fossem. Saiu-lhe um Venha cá e beijámo-nos novamente, desta vez, em condições, digo, como dois amantes.

 

E quando as mãos dela tocaram, primeiro no veludo das calças, depois no veludo do algodão e finalmente no veludo da pele, eu não estava a perceber nada do que estava a acontecer. Eu era do tempo em que os dinossauros coabitavam na Terra com o Homem e não falo do Tyrannosaurus rex, do final do período Cretáceo que era carnívoro, mas do Amargasaurus cazuei, do final do Jurássico, de vértebras enormes que se alimentava das folhas das árvores, vegetariano em toda a sua natureza.

Então não era suposto que agora fossemos ao cinema, depois ao teatro e talvez num dia de sol dessemos um passeio no parque?!

 

As mãos dela continuavam a deslizar pelo meu corpo a dentro num frenesim ardente, enquanto eu pensava nos dinossauros e rapidamente me dei conta que os filmes que tinha visto eram os suficientes, que o teatro podia ficar para mais tarde e que o passeio no parque era um óptimo programa para quando fosse velho. Não era ainda o caso. Armado em T-rex deixei-me deliciosamente ir por entre as almofadas do sofá, que entretanto tinham desaparecido e deixado espaço de corpo e meio e quando depois de alguns minutos regressei a mim, ainda dentro do corpo dela, apeteceu-me perguntar-lhe: porque é que acha que o Amargasaurus apreciava tanto as folhas das árvores, custar-lhe-ia com aquele pescoço enorme, baixá-lo para os prazeres da vida? Calei-me. Engoli a pergunta e a presumível resposta, não fosse ela pensar que eu era doido, assustar-se e fugir, deixando-me com o veludo das calças na mão!

 

Teve assim início uma coisa a que nunca saberei dar nome, que como uma entrada antecedia refeições e como um digestivo, servido quente, as finalizava. Deliciosos estes momentos. Se me perguntassem de qual tinha gostado mais, se do queijo fresco, do patê de cogumelos, se dos profiteroles, do cheesecake ou da aguardente velha eu não saberia responder. O estado alucinado em que me encontrava nessas situações não me permitia distinguir uma coisa da outra, era tudo bom.

 

E isto é apenas uma imagem, sem qualquer carácter de ironia, porque eu estava profundamente apaixonado e o que me sentia nessas alturas não era mais do que um ovo misturado com a farinha que, depois de cozido, era servido com chocolate quente no prato dela, não no meu. Eu era o homem objecto dos seus prazeres, a minha preocupação era deixá-la feliz, alimentá-la como a um T-rex com bife mal passado. Sim, pensando bem, ela tinha mais de T-rex e eu de Amargasaurus. Achava que as folhas das árvores eram uma boa salada para acompanhar a refeição. Ela nunca percebeu isto, fui eu e não ela quem teve de mudar o regime alimentar. Talvez com mais colesterol, mas com muito mais prazer, dando razão ao dito popular de que o que sabe bem ou é pecado ou faz mal. Pecado não era.

 

Mas o que eu insistia mesmo em saber, era se ela gostava ou não de mim, não gostava.

E daí, nunca havemos de saber. As aparências iludem. Veja-se o caso dos dinossauros. O Amargasaurus, corpulento, não faz mal a uma mosca, já o T-rex, esfrangalha um homem em poucos minutos. Era assim que eu me sentia quando ela me tocava o veludo das calças, depois o veludo do algodão e finalmente o veludo da pele. Ok, ok, já disse isto! Mas é que quando penso em dinossauros e no tempo em que eles coabitavam na Terra com o Homem, eu fico completamente fora de mim e só me lembro do dia em que ela me deixou com as calças na mão, apesar de eu nunca lhe ter falado em dinossauros.

As gajas não batem bem! E novamente peço perdão às outras, pelo mesmo motivo.

Uma relação antiga, anterior ao nosso encontro, que também tinha acabado mal… não percebi o que é que ela queria dizer com a história do também!

 

Mas agora, nada disso interessava.

Eu que até era um gajo que os tinha no sítio, naquele momento senti-me sem eles. Só havia uma coisa a fazer, que era dizer-lhe: Vai-te foder! Mas eu, sabe-se lá porquê, não me permitia esse tipo de linguagem, ainda por cima com uma senhora! Nem aos meus amigos e com uns copos a mais eu utilizava palavras dessas, quanto mais com ela!

Não me perdoo até hoje, não ter aberto uma excepção, acho que até a minha mãe que não me permite uma simples merda, se estivesse dentro do assunto, havia de me dar razão. Então não? Era de homem caramba, ela estava a pedi-las e há muito tempo!

 

Depois fiquei um bocado aliviado quando um pensamento me veio à cabeça e que foi este: coitado do gajo que vier a seguir, vai passar por tudo o que eu já passei! E, estranhamente, senti um alívio enorme, como se me tivesse confessado ao último padre do Planeta Terra e sem ser preciso rezar! Não percebo até hoje, essa sensação de liberdade, como se tivesse saído da prisão, como se a minha vida agora não dependesse de nada nem de ninguém! Pensei: estou limpo, da ponta dos pés até à ponta das mãos, não tenho qualquer compromisso, sou dono e senhor de mim mesmo, faço o que quero, vou onde me apetece, visto-me como quero, comporto-me como me der na real gana. Se me apetecer mijar na rua, posso fazê-lo, não tenho que me justificar a ninguém. Embora nunca me tenha apetecido fazer uma coisa dessas, se me apetecer, posso fazê-lo.

 

Cristina Pizarro

 

 

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Quarta-feira, 27 de Dezembro de 2017

nós, os homens

nos-homens-1-b

 

XIV

 

E a situação piorou definitivamente quando, depois de ela me evitar durante um mês com desculpas sucessivas de que estava atrapalhada com trabalho, me disse que tinha uma pessoa na sua vida. Não sei de onde vem a expressão “Caiu-me o Carmo e a Trindade”, mas foi mais ou menos isso o que aconteceu. Surpresa das surpresas, o sentimento que se desenvolveu em mim não foi ciúme nem traição, foi de nojo, de repugnância. Se ela me tivesse tocado nesse momento, eu tinha dado um passo atrás. Senti vontade de desaparecer dali, ir para casa e tomar banho. Não disse uma única palavra, durante algum tempo. Sem nunca olhar para ela, estudei todas as hipóteses de me pirar sem deixar rasto. Ela ainda disse: Diga qualquer coisa! Ao que eu respondi: Eu não vou dizer nada! Dali até casa fui em silêncio, não consegui olhar mais para ela nem dar-lhe um beijo de despedida, como era habitual.

 

Do que são feitas as pessoas?! Que necessidade é que têm de nos magoar desta maneira? Que prazer é que lhes dá verem os outros a sofrer por sua causa? O que faria eu no seu lugar?

 

As pessoas podem afastar-se umas das outras sem haver uma terceira a determinar isso! Acho que eu, no lugar dela, tinha inteligência ou sensibilidade para não me achar no direito de ferir um amigo desta forma. As chamadas “mentiras piedosas” é aqui que encaixam. Dir-lhe-ia que queria dar um rumo diferente à minha vida e que os encontros com ela o estavam a dificultar. Que seria bom para os dois afastarmo-nos, uma vez que a nossa relação não estava a resultar, que éramos muito diferentes, que tínhamos planos de vida completamente opostos… meu Deus do céu, quanta desculpa haveria, possível de inventar, que ferisse menos! Mas não, ela fez questão de optar por essa. Ainda por cima, e isto eu não o sei explicar, fiquei com a sensação de que aquilo era mentira.

 

Não sei porque razão pensei isso, é talvez devido àquela intuição que temos, nós os homens. Então não?

 

Quando uma pessoa diz a outra que não a quer mais, seja qual for a maneira que encontrar para o fazer, não fica depois disso uma hora calada, parada a olhar para ela. O sentimento é de culpa, embora não tenha culpa nenhuma, mas a pessoa sente-se mal, embora talvez não devesse ou não tenha na realidade motivos para isso, mas somos seres humanos caramba, sentimos a dor do outro, mesmo que ele não a expresse, basta olhá-lo! Então o que é que dizia John Donne: “ A morte de qualquer homem me diminui porque faço parte do género humano e por isso não perguntes por quem os sinos dobram, eles dobram por ti”. Mais ou menos isto.

 

Talvez ela fosse cruel, mas não me parecia, embora nela nada fosse de excluir. Mas achava que um pedido de desculpa lhe tinha ficado bem. É das tais coisas, nem que fosse por uma questão de educação, eu, no lugar dela, tinha-o feito.

 

Quando vamos na rua e alguém vem contra nós, pedimos desculpa, pelo incómodo, pelo susto, seja pelo que for. A culpa pode até nem ser nossa, pode até ter sido o outro idiota que vinha distraído. É uma atitude de cidadania, do viver em sociedade. Vou mais longe. A quem de nós não aconteceu já a bengala de um cego (ela dizia é invisual que se diz) bater-nos na perna? E quem de nós é que não pede desculpa, sem ter culpa nenhuma?

 

Ora aqui o cego (aqui já não se diz invisual) era eu.

 

Aquela atitude era estranha, até porque entre nós houve sempre uma certa cerimónia no trato, que nem nos momentos mais íntimos era ultrapassada e tinha por isso todo o cabimento a menina dizer: Peço-lhe imensa desculpa, referindo-se à inevitabilidade dos factos.

 

Factos nenhuns, era o que era.

 

Talvez ela me quisesse por de castigo! Eu tinha-me excedido em algumas situações pontuais que a tinham desagradado de forma violenta.

 

A menina era de uma arrogância desmedida e achava-se intocável.

 

Eu, sempre atento a comportamentos humanos e tão exigente com os outros como sou comigo, pois que o meu padrão de referência é único e não tenho dois pesos e duas medidas, cometi a imprudência de fazer algum reparo em duas actuações do comportamento da menina. Embora no resto eu achasse que ela era perfeita e lho tivesse dito muitas vezes, achei-me no direito de querer melhorar o bom. O que é que eu fui fazer!

 

De forma que, aplicado o castigo, ela ficou para assistir ao seu cumprimento. Pois o que raio ficou ela a fazer ali durante uma hora, calada, a olhar para mim? Ficou por esclarecer.

 

Durante esse tempo, que me pareceu uma eternidade, eu nunca andei à procura da palavra certa para dizer pois que sabia que não diria nada.

 

Afastada a hipótese de me transformar em pó e desaparecer, percorri com o olhar todos os pormenores do interior do café onde ia há mais de dez anos e para os quais nunca tinha olhado. No balcão, reparei na forma dos bancos, na cor e no material de que eram feitos. Vi todos os rótulos das garrafas de vinho, dos verdes aos maduros, dos brancos aos tintos. Pela janela que dava para a cozinha, vi a cor do avental dos empregados, aos quadradinhos azuis e brancos, nada surpreendido, que outra cor podiam ter?

 

Depois passei às paredes, um relógio… como é que eu nunca tinha reparado no relógio? Pensando melhor, apercebi-me que, exactamente no local onde agora ele estava, havia em tempos um quadro que mencionava a atribuição de um prémio anual qualquer, pela excelência da confecção das refeições. Querem ver que isto desceu de categoria?

 

Estava exactamente aqui quando a menina, atenta à minha ausência a interrompeu dizendo:

 

- Diga alguma coisa!

- Não vou dizer nada!

 

Novo silêncio. Então agora era eu que devia dizer alguma coisa! Do que é que ela estava à espera? Que lhe desejasse felicidades?

Sinceramente, não me ocorreu.

 

Ela ainda tentou um início de conversa fútil dando continuidade ao telefonema, meu, que tinha antecedido aquele encontro. Mas que falta de tudo! Como é que agora, no estado em que eu estava, podia alhear-me do fundamental e conversar normalmente sobre assuntos alheios a mim, quando todo eu estava feito em pedaços, com tudo fragmentado, o pensamento em devaneio, o raciocínio impedido, a lucidez toldada, a lógica numa batata, a razão embaciada e a fala emudecida!

 

Mas do que é que ela era feita?!

Do que é que ela estava à espera?

 

De alguma coisa era, uma vez que não tomava a iniciativa de pôr termo àquilo e eu sem conseguir mexer-me a achar que já chegava e o dilema de que não podia deixar de ter consciência: quando me levantar daqui nunca mais a vou ver! E a pensar comigo mesmo se teria dignidade, ou o que quer que fosse, para fazer isso! E ao mesmo tempo vinha-me à cabeça: mas porque raio é que ela me está a inventar uma coisa destas?

 

Não tinha os contornos da verdade!

 

Uma semana antes tinha feito uma pequena cena porque eu não a tinha convidado a ir comigo a um evento e isto não encaixava no que me estava a dizer agora. Quando se inicia uma nova relação estamos demasiado entusiasmados para sentir a falta de coisas sem importância nenhuma.

Será que ela dava mais significado ao orgulho ferido do que ao sentimento que lhe envolvia o coração?!

 

Coitado do que vier a seguir! Não pude deixar de pensar.

 

Chegou até ao ponto de me pedir explicações por eu não a ter convocado para um café quando lhe tinha manifestado, na véspera, intenção de o fazer, mas sem que tivesse dito vou fazê-lo. Aliás as minhas palavras tinham sido vou pensar. Eu começava a fartar-me da sua recusa sucessiva aos meus convites e da sua falta de tempo para tudo que me incluísse e quando nesse dia ela me convidou para um café, que eu tive de recusar por causa do tal evento, e ao qual depois me veio a perguntar: porque é que não me convidou?, ela perguntou: E então amanhã? e eu disse: Vou pensar.

 

Depois pensei e não telefonei. Ela não gostou nem do primeiro nem do segundo e eu não percebi porquê!

 

Pois se ela passava a vida a ir a eventos e nunca me tinha convidado para a acompanhar, o que é que agora lhe dava o direito de achar que eu devia fazê-lo?

 

Em relação à segunda, não havia semana nenhuma que não me recusasse convites, porque é que ao primeiro que eu recuso ela acha que eu lhe devo explicações?

 

Isto na semana anterior, quando um mês antes ela encontra uma pessoa do passado que fez questão de dizer, anterior ao nosso encontro, como se um par de cornos naquela altura me fizesse alguma diferença! É nisto que eu acho que as mulheres são parvas! Perdoem-me as outras por aqui as incluir, numa injustiça assumida, mas só porque às vezes é mais fácil para um homem assumir-se vítima do grupo que de um caso isolado. Chegam a este pormenor ridículo: um gajo está com os tomates completamente no chão e elas a fingir pena de nós, dizem: uma pessoa que conheci antes de Fevereiro, puta que a pariu, só por ter sido esse o mês da minha condenação!

 

Perante a iminência de ficar definitivamente sem ela, eu queria lá saber se tinha sido antes ou depois. O que me importava era se ela gostava ou não de mim, não gostava.

 

Cristina Pizarro

 

 

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Quarta-feira, 20 de Dezembro de 2017

Nós, os homens!

nos-homens-1-b

 

XIII

 

A gaja até não era má tipa, tinha era um dom especial para me estragar os dias, e escolhia-os a dedo.

O pior de todos foi a véspera do meu aniversário. Eu tinha, de comum acordo, reservado um fim-de-semana de 4 dias para os dois, marcado antecipadamente férias e pensado em todos os pormenores para lhe agradar. Pedi que me elaborassem uma lista dos bons restaurantes onde pudesse levar a menina, não fosse o regionalismo da comida local indispor-lhe as entranhas e eu apanhar por tabela sem culpa nenhuma, que as mulheres são mesmo assim, a culpa é sempre nossa. Assegurei-me que havia campo de badminton e outros por maiores a que ela dava suma importância e faziam parte das suas necessidades básicas como se de uma questão de sobrevivência se tratasse, da qual não se pudesse prescindir nem num fim-de-semana a dois. Eu optava sempre por ter paz em vez de querer ter razão e cedia a tudo.

 

Rejeitei vários convites para esses dias, nomeadamente o das minhas filhas que estavam com a mãe na praia e que, sabe-se lá porquê, a mãe também gostava muito que eu fosse.

 

Pela primeira vez na minha vida eu pensei primeiro em mim e disse não às minhas filhas, que o pai tinha outros planos, mas que não se preocupassem porque ia ficar bem.

 

Surpresa das surpresas, quando estava com a mala feita, telefonei à menina para combinar a hora da partida na manhã seguinte e ela disse que não ia, que não estavam reunidas as condições para que o passeio fosse o que devia ser. Estava amuada, porque uns dias antes eu tinha, segundo ela me disse, elevado o tom de voz a um nível que ela não admitia. E manda assim uma relação para o galheiro porque: ninguém me fala assim!

 

Mas quando é que ela me ia comunicar que tinha desistido de ir comigo, se eram 10h00 da noite e eu tinha a reserva feita há vários dias e ela sabia?! Não perguntei.

Apeteceu-me mandá-la à merda, coisa que nunca seria capaz, até porque quando fico muito magoado as palavras não me saem, tenho uma espécie de bloqueio, um dia alguém me há-de explicar isto, porque já me aconteceu algumas vezes. Fiquei calado e desliguei calmamente o telefone.

 

Alguns minutos depois, ainda atordoado, enviei-lhe uma SMS dizendo o que diria qualquer amante: pensei que entre nós a única condição era gostarmos um do outro! Não respondeu. Eu com ela já tinha alterado o habitual provérbio para: quem cala não consente, desde a vez em que ela me disse o silêncio é uma resposta e a resposta óbvia era: Não. A partir daí, sempre que ela ficava em silêncio, eu lia o não.

 

Corri, a partir desse dia, um risco enorme, porque a menina tinha duplos critérios que aplicava a seu bel-prazer, nos mesmos contextos, dependendo do sentido! Dela para mim, funcionavam uns. De mim para ela, funcionavam outros. Uma teia própria das mulheres, peço perdão às outras, às que não são assim.

 

Talvez o provérbio seja: quem cala nem sempre consente, assim dá para os dois lados. Mas eu não era nada dado a ambiguidades. Preto e branco, diziam muito mais comigo. Se mesmo assim era o que era, como é que havia de ser se eu investisse em tonalidades: azul-escuro, azul claro, azul-marinho, azul celeste, azul-turquesa, azul inglês, azul-bebé, azul petróleo, azul esverdeado… Porra, eu quando olho para o arco-íris não vejo nada disto!

 

Mesmo estas coisas dos palavrões era uma novidade em mim. Só raramente e por muito descuido e só quando estava profundamente lixado é que me saía uma merda e logo a seguir pedia desculpa. Mas uns tempos depois de a conhecer percebi que tinha de aumentar o meu dicionário porque as palavras que lá tinha não me chegavam, posto que eu dizia umas e ela percebia outras ou fingia que percebia, quando isso lhe dava mais jeito. Ora o calão era universal. Quando nos mandam à merda não temos dúvidas nenhumas, por mais que a gente insista em tê-las!

 

Nessa noite não dormi. Às 6h00 da manhã meti-me no carro, fiz uma viagem de 500 km que não dei quase por ela e quando ao chegar vi a surpresa das minhas filhas com a felicidade estampada nos rostos, achei que tudo tinha valido a pena, até o que me tinha profundamente doído:

- Como é que tu apareces, assim, do nada?

E a cara delas!

Digo-vos, foram dos momentos melhores e maiores da minha vida, que persistem até hoje na minha memória, como se tivessem acontecido ontem e as meninas já passam dos vinte. Senti-me um Deus à frente delas, um deus em que sempre acreditaram, mas que desta vez tinha feito um acto único, que nunca O verdadeiro, até hoje, fez: apareceu-lhes à frente.

 

Ainda hoje ao falar nisto, não digo que me corre uma lágrima, porque estaria a mentir e eu não minto, também não digo que engulo em seco porque estaria da mesma forma a mentir, mas engulo a lágrima e dói de caraças naquele momento em que a gaja passa no estrangulamento natural que temos na garganta, porque parece que pára ali uns segundos, indecisa, sem saber se há-de descer ou subir, e nessa altura eu fico aflito porque me falta o ar, mas é por uma óptima razão e por isso sorrio. Aliás, é o sorriso mais genuíno que tenho, sempre que penso nas minhas filhas.

 

Cristina Pizarro

 

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Quarta-feira, 6 de Dezembro de 2017

Nós, os homens

nos-homens-1-b

 

XI

 

O ser humano é versátil e inverosímil, se calhar quanto mais a primeira, tanto mais a segunda! Se esta história se tivesse passado com um amigo meu, mesmo de infância e íntimo, eu achava que ele me estava a contar isso mesmo: uma história, mas passou-se comigo. Só a posso escrever porque se a contar a alguém, as pessoas vão pensar que eu estou a contar uma história e não é disso que se trata.

 

A gaja não batia com o baralho todo, embora eu nunca percebesse qual era a carta que lhe faltava, decididamente o Ás de copas não estava lá, mas havia muitas outras.

Na primeira noite que passámos juntos avisou-me, antes de adormecer, que no dia seguinte tínhamos de acordar cedo, 8h30, porque tinha um jogo de badminton. Concordei, achando que aquilo era uma brincadeira porque a menina era divertida que chegasse para dizer coisas deste tipo.

 

No dia seguinte acordo com o despertador, por estúpida coincidência, à hora exacta que ela me tinha avisado. A menina salta da cama para a banheira sem hesitação e eu percebo então que, afinal, era a sério. Tentando não fazer um drama e aproveitar o bom das coisas más, comecei a pensar que roupinha ela iria vestir! Se uns calções brancos ou aquelas sainhas às pregas, lisas à frente e de trespasse, muito curtas em que se vêem as cuecas quando apanham as penas. Depois pensei se vestiria collants transparentes ou meias até aos joelhos e excluí rapidamente as duas hipóteses pensando que o estilo dela se encaixava muito mais nos soquetes com uma ou duas riscas cor-de-rosa. Depois pensei no cabelo. Será que leva totós ou vai meter uma faixa de feltro elástica na testa como os jogadores profissionais?

 

- Ainda aí estás? Despacha-te, não posso chegar atrasada, o meu parceiro não joga sem eu chegar!

Que cabeça a minha! Nisto dos desportos a dois, não se pode nem faltar nem chegar atrasado porque a prática de um depende da presença do outro. Havia de me explicar isto um dia, muito mais tarde, quando eu tive o atrevimento de lhe dizer que, uma vez por outra, se calhar, podia faltar para estar mais tempo comigo. Como é que eu lhe podia pedir uma coisa destas! Eram práticas muito antigas, faziam parte da sua vida!

 

Ela tinha uma capacidade inédita de me dizer de mil e uma formas que eu não fazia parte da sua vida, que a nossa relação não era uma prática a dois e por isso podia-se faltar e chegar atrasado, sempre.

Por exemplo, um café depois do almoço era com frequência sinónimo de tomado às 6h da tarde e eu tinha de a receber com um sorriso nos lábios, não pude vir antes ou atrasei-me um bocado, era só o que dizia. Claro que pedia desculpa baixinho, num timbre quase imperceptível.

Eu aguentava aquilo tudo num exercício de testar os meus limites ou o quanto gostava dela, ou as duas coisas.

Quando se chega a este ponto, está-se completamente perdido! Eu estava assim, sabia e não mudava nada para ser diferente. Sabia que se mudasse uma vírgula, a perdia para sempre e eu isso não suportava sequer pensar quanto mais arriscar.

Acabei por me levantar da cama e não assistir ao ritual de a ver vestir porque não havia tempo, era domingo de manhã e ela não se queria atrasar

Dirigiu-se então à cozinha para tomar o pequeno-almoço, leve por causa do jogo, chá e torradinhas com pouca manteiga ou bolachas, não me lembro bem. Sentou-se calmamente, como se tivesse acordado de uma noite perfeitamente normal e fosse para o trabalho, um dever a que não podia faltar. É claro que educadamente me perguntou o que é que eu queria tomar: nada, obrigado.

 

Aquela negação funcionou para mim como a defesa da honra, nunca saberei explicar isto, mas naquele momento se me tivesse sentado à mesa com ela a tomar o pequeno-almoço era o mesmo que ter aceitado uma nota pelos serviços prestados. Fiquei ali sentado a olhar para ela, surpreendido com a agilidade daquela rotina. Nenhuma referência à noite que tínhamos acabado de passar juntos e que, pelo menos comigo, era a primeira vez que ela tinha dormido.

 

Enquanto ela se alimentava com aqueles vulgares nutrientes, a mim só me vinha à cabeça o exacto momento em que o meu corpo foi projectado para fora do sistema solar, em que senti visceralmente o perder da gravidade, o sair da órbita, no preciso instante em que o meu corpo deslizou no dela e a palavra fi-nal-men-te, entrecortada, era deglutida e saboreada e deixei completamente de sentir o meu corpo para só sentir o dela, numa comunhão de corpo, o dela, e alma, a minha.

E quando instantes depois não resisti e quis partilhar com ela este momento, a meio do êxtase com que estava na descrição, ainda no recobro das forças, ela interrompeu-me dizendo, com um ar condescendente:

- Pronto, está bem.

Como quem diz, poupa-me os detalhes! E eu calei-me e fiquei a sentir sozinho o que podia ter sido a dois, mas se ela não queria saber, que direito era o meu de lho impor?

 

As pessoas têm sempre uma razão oculta para fazerem o que fazem e era este o princípio que me regia para eu ultrapassar tudo e não lhe levar nada a mal, pelo menos enquanto isso me fosse suportável.

Quando se gosta muito, adia-se isso ao limite, embora ele chegue inevitavelmente. Fica por saber se quanto mais tarde melhor ou pior. Isso, nunca havemos de o saber, não temos termo de comparação ou referência para isso, é simplesmente a nossa vida.

 

Depois do pequeno-almoço ofereceu-se para me dar boleia, uma vez que a minha casa ficava a caminho do complexo desportivo para onde ela se ia dirigir. Aceitei. Quando cheguei a casa enfiei-me na cama e dormi aquilo a que se chama o sono dos justos. Nunca percebi muito bem este conceito, mas acho que é aquilo a que se chama quando um gajo depois de uma noite mal dormida se enfia na cama enquanto a namorada vai jogar badminton!

Namorada é uma forma de dizer! Eu pertenço àquela cambada de otários que quando andam com uma gaja com quem têm uma relação mais íntima pensam que a podem chamar assim.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                        

Cristina Pizarro

 

 

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Quarta-feira, 29 de Novembro de 2017

Nós, os homens

nos-homens-1-b

 

X

 

As melhoras da morte, traiçoeira, já todos ouvimos falar!

Era uma no cravo e outra na ferradura! A menina continuou no mesmo registo e eu continuei a aguentar aquilo até ao dia em que me passei completamente da cabeça! Era previsível, aquilo era uma bomba-relógio desde o início, um aneurisma, podia rebentar a qualquer momento e quando rebentasse era fatal.

Um homem não é de pau! Fartei-me de ser o segundo plano, o brinquedo nas mãos da menina, o boneco, a marioneta, o palhaço de serviço.

Disse-lho, em bom português, para que não houvesse dúvidas! E a menina reagiu da pior maneira: não reagindo, dizendo que o silêncio era uma resposta!

 

Como?! Eu não tinha nada contra a senhora sua mãe, que ela nunca me tinha apresentado porque isso fazia parte da sua intimidade a que eu nunca tive direito a ter acesso, e por isso não a pude mandar para a dita que a pariu. Também não a pude mandar pecar, não fosse ela, geniosa como era, pôr-me logo nessa noite o par dos tais que fazem comichão na testa de qualquer homem!

A única palavra que me saiu a seco, pois que tinha engolido toda a minha saliva, foi: Não!

Pouco mais do que isso acrescentou. Dejá vue, a cena repetiu-se. Reagiu como se eu a tivesse ofendido, exactamente como da outra vez e o motivo era o mesmo. Eu pedia-lhe mais tempo para estar com ela e ela entendia aquilo como se eu a estivesse a insultar. Mas que cena era esta?

Burro como sou, ou não tão inteligente como ela, só percebi à segunda: arrogância, pura e simples!

 

A menina achava-se perfeita e não aceitava que ninguém fizesse o menor reparo ao seu comportamento pois que ela era intocável. Pior do que isso, eu tê-lo feito levantando ligeiramente a voz foi considerado pelo seu ego como uma afronta. Quem é que eu pensava que era? Não se atreveu a perguntar, mas lia-se perfeitamente nos seus olhos. A reacção foi tão desajustada, tão desproporcionada, que rondou os contornos do ridículo! Não fosse eu o visado e tinha-me rido à gargalhada!

Quando percebi, depois de várias tentativas falhadas, que o seu orgulho ferido nunca iria perceber o que eu lhe tentei dizer, decidi pedir-lhe desculpa. Fi-lo várias vezes e ela nunca me respondeu.

Como o silêncio para mim não é uma resposta, obriguei-a, ou implorei-lhe não sei muito bem, a dizer-me: acabou, para que eu finalmente percebesse como é que era o meu dia seguinte, porque nem esse respeito eu lhe mereci, de ela o dizer voluntariamente!

Se não fosse assim, parvo como sou, ainda hoje estava à espera que o telefone tocasse!

 

Nesta fase da vida em que me encontro, já posso afirmar que consigo perdoar tudo, umas coisas são mais fáceis do que outras. A crueldade, coloco-a na lista das mais difíceis.

Mas foi pena, eu gostava da garota que me fartava e tratava-a assim por graça porque embora ela fosse mais nova do que eu, tinha mais dezassete anos do que eu!

Mas isto, nós, os homens, nunca havemos de perceber, porque tem a ver com uma sensibilidade que só nós, as mulheres, é que temos! E daí, talvez não, porque nestas coisas da alma, nós, as mulheres, enganamo-nos tanto ou mais do que nós, os homens!

 

 Cristina Pizarro

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Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017

Nós, os homens

nos-homens-1-b

 

IX

 

E a história é, mais ou menos, esta; embora a história não seja, realmente, esta! Isto para dizer que deliciosamente me enganei e que afinal as coisas, estatisticamente com probabilidade reduzida de acontecerem, acontecem. Isto das ciências exactas sempre fez para mim todo o sentido. Embora sempre tivesse vivido rodeado de pessoas de letras que afirmavam convictas que a matemática que aprendemos na escola não servia para nada, eu sempre achei que ela era o princípio de tudo e questionava-me, nos dias de chuva, como é que havia cursos superiores e se tiravam inclusivamente licenciaturas sem que a disciplina básica e fundamental constasse dos respectivos currículos académicos! Mas nessa altura eu já tinha percebido que o mundo não era perfeito e que se Deus tinha feito as coisas à sua imagem e semelhança, o exemplo escolhido não tinha sido dos melhores, o que só reforçava, mais uma vez, a minha ideia de que nada era perfeito. A não ser ela! Pois está visto que quando se ama, as coisas são perfeitas e a prova disto era, inexoravelmente, a matemática. Pois não é evidente, os números pares, divisíveis com resto zero, o mínimo múltiplo comum, a prova dos nove, o simples menos por menos dá mais! Até a linguagem que eu usava a tinha ido beber não à disciplina de Língua Portuguesa, mas à da ciência exacta, pois que utilizava com um sabor peculiar palavras como: integral, exponencial, radical, infinito, equacionar, solução, resultado, eixo de simetria, conjunto, incógnita, potência, e não me chocaria mesmo nada se alguém me descrevesse a paixão entre duas pessoas como correspondência biunívoca!

 

Surpresa das surpresas! Então não é que ela gostava mesmo de mim! Vi-o finalmente escrito nos seus olhos, quando me olhou em silêncio e me percorreu o corpo com a ponta dos dedos e se ria como uma criança com cócegas, só porque eu lhe tocava de leve, como o vento sopra nas manhãs de primavera e foi então que eu me senti, não ridículo, mas parvo por não ter percebido aquilo desde o inicio! Enquanto eu debitava parágrafos inteiros, ladainhas a dar com um pau, contava a história dos reis e das rainhas, enumerava os sinónimos todos do dicionário, acrescentava letras a palavras e palavras a frases, resumia o último livro de prosa que tinha lido, lhe declamava de cor os poemas de amor que tinha memorizado sem querer, absorto pelo sentido das palavras, lhe descrevia ao pormenor o filme que tinha visto na véspera e a peça de teatro que tinha escrito para ela, ela sorria para mim e dava-me um beijo! E eu feito palhaço ainda perguntava estás-te a rir de mim? e ela continuava a sorrir e dizia estou-me a rir para ti!

 

E foi só depois de algum tempo que eu comecei a perceber que embora eu tivesse sido feito à imagem e semelhança de Deus, com todos os defeitos que Ele tinha, no caso dela o modelo em que Ele se tinha inspirado era outro, ou então aquilo tinha-lhe saído completamente ao lado ou, na melhor das hipóteses, ela era filha do padeiro, do vizinho ou do carteiro!

 

E foi bonito, no dia em que ela me lançou como um projéctil para fora do sistema solar e eu percebi que a trajectória da Terra era a mais patética de todas as dos planetas que viajavam em satelitismo solar. E foi no momento em que perdi a consciência, ao atravessar a atmosfera e me senti quase um lunático e posso dizer por hipérbole matemática e não como recurso expressivo de português que os dois hemisférios do meu cérebro colidiram ou mudaram definitivamente de posição, como imagem num espelho plano, ou a similitude dos gémeos mais que a semelhança que só a mãe distingue, também eu sabia que depois daquele reboliço dentro do meu crânio provocado pela diferença da pressão atmosférica e da outra, as coisas nunca mais regressariam ao lugar onde antes tinham estado! E era como se os meus neurónios, ou o que restava deles, estivessem em maresia e eu queria manter aquele estado de coisas por teimosia, tentando evitar a agonia que o meu corpo em desequilíbrio sentia. Nessa altura o eixo de simetria também já se tinha dobrado, todo eu era um acrobata, um contorcionista. Os 206 ossos continuavam lá dentro, mas já não formavam aquilo a que se chama esqueleto!

E eu completamente à toa, não sabia se queria ficar ou partir, fugir ou esconder-me, desaparecer ou definitivamente ser! Fosse como fosse, no mesmo instante, as palavras tinham deixado de me fazer sentido, não me diziam nada, não me levavam a parte alguma e eu queria ir a algum lado, eu tinha uma necessidade premente de ir a qualquer lado e não era nem com palavras, nem por elas, nem para elas, nem através delas.

Foi nesse sublime momento que a olhei da forma mais profunda que me lembro de alguma vez a ter olhado, fixamente, olhos nos olhos e definitivamente lhe perguntei:

- 2+2?

E ela disse:

- 4!

E foi aqui que o milagre se repetiu, mas ao contrário, o vinho transformou-se em água. Pura, transparente, cristalina! Percebi então que mais importante do que a língua que falamos é falarmos a mesma. E não interessa se dizemos muito ou pouco, basta dizermos o bastante, é suficiente. E também não faz sentido andar a medir sentimentos que sentimos com escalas e unidades diferentes, comparando coisas incomparáveis porque é tanto o erro de comparação como o de medição.

A única coisa que faz sentido é ser, querer, estar, fazer, sentir, ver, amar, sorrir e outros verbos que naturalmente nos correm nas veias sem pensar muito.

 

Aprendi com ela que tudo é muito mais simples do que parece, que tudo parece muito mais irreal do que é e que tudo é antes de ser, porque antes de se ter consciência, as coisas já existem sem nós sabermos e é uma delícia depois abrir os braços para as receber, as acarinhar, as afagar e, finalmente, as partilhar.

Bem-haja.

 

 Cristina Pizarro

 

 

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Quarta-feira, 15 de Novembro de 2017

Nós, os homens

nos-homens-1-b

 

VIII

 

E foi mais ou menos isto o que se passou.

Ela era muito nova para perceber que embora o mundo não acabasse amanhã, como se fartou de me dizer, podia perfeitamente acabar amanhã, porque isso era sempre uma coisa que não sabíamos no dia de hoje e enquanto eu sabia isso, ela não. Por isso, para ela, coisas tão importantes como o amor, os beijos, as festas e a paixão, podiam esperar e para mim não.

 

Também as palavras não ditas podiam ficar por dizer, embora fossem sentidas e eu, com aquela panca da escrita e dos livros, dependia delas como droga, não vivia sem elas e entrava com frequência em síndroma de abstinência só porque a menina nunca me tinha dito a palavrinha mágica que tem um hífen entre o o e o t. E tinha depois reacções completamente atípicas, aberrantes e idiossincráticas que ainda por cima tinha que lhe explicar depois, porque a estas sim, a menina reagia e não gostava e achava-se no direito de conhecer a causa, a razão, a origem e um dicionário de sinónimos que se eu não me safasse racional e logicamente daquilo -que a menina era dotada de inteligência que bastasse, ou não fosse assim e eu nunca me tinha interessado por ela, embora também fosse bonitinha que bastasse, estes pormenores dão sempre jeito e confessá-los só nos fica bem- nem sequer havia dia seguinte, independentemente de o mundo acabar ou não, é que nem sequer saíamos dali.

 

E foi mais ou menos isto o que se passou.

Eu fazia-lhe as vontadinhas todas. Estava disponível quando a menina queria, para o que ela queria e onde ela queria e não me sentia nada mal por isso, exactamente ao contrário, sentia-me completamente feliz, pois se o que eu queria era estar com ela sempre, queria lá saber do quando, do para e do onde!

E sentia-me bem nessa entrega e também sentia que ela se entregava nessas alturas, só que depois de se entregar a mim ela regressava a si e era aí que nos separávamos, porque eu entregava-me a ela e não voltava para mim!

 

E foi mais ou menos isto o que se passou, embora na realidade eu saiba que nunca vou saber exactamente o que se passou, porque se formos conscientes, temos lucidez bastante para assumidamente saber que as coisas podem ter parecido assim e terem sido completamente diferentes, porque esta coisa da prespectiva de cada um e do ângulo de visão vencem sempre qualquer lógica que parece haver.

Uma vez até lhe cheguei a dizer isto, na esperança de que aquela cabecinha se abrisse e despertasse para aquilo que eu achava que era o essencial, mas ela olhou para mim de forma inconsequente e riu-se perdidamente, como se o que eu tivesse acabado de dizer fosse o maior disparate do mundo! Não era, havia um pior, mas eu nunca lho disse. Achei que ela não merecia!

 Cristina Pizarro

 

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Quinta-feira, 9 de Novembro de 2017

Nós, os homens

nos-homens-1-b

 

VII

 

Na verdade, eu até nem me podia queixar! Ela estava quietinha no seu canto, tinha sido eu a ir ter com ela, eu é que armado em parvo tinha dito o que não devia e feito o que não podia!

 

Ela tinha a cabeça toda arrumadinha, exceptuando o facto de não saber o que sentia por mim e não o conseguir dizer nem assumir. Eu, ao contrário, tinha tudo num caos, exceptuando o facto de a amar perdidamente e querer estar com ela todo o tempo do mundo.

 

Dizem os livros que o amor é uma complementaridade, uma treta é o que é! Aquilo cada vez funcionava pior, tinha começado num processo de sedução que eu tinha iniciado e que funciona sempre bem, por definição, e a partir daí era uma no cravo e outra na ferradura!

Quando as coisas corriam bem, a mim parecia-me a última refeição dos condenados à morte!

 

Eu tinha vários problemas!

Um deles identifiquei-o quando fui ao sapateiro levar uns sapatos que tinha há dez anos e de que gostava tanto que não os conseguia pôr no lixo, embora estivessem rotos.

Um dia descobri um artista de sapatos que transformava velhos em novos e quando lá cheguei disse-lhe:

- O senhor já alguma vez se apaixonou por uns sapatos?

- Não, eu quero é que sejam confortáveis!

Ora aí estava o que a mim não me bastava. Os que lhe levava também eram confortáveis, mas não era só por isso que eu os tinha guardado. Era fundamentalmente, ao menos também, por serem bonitos.

Deixei-os lá e ele transformou-me os sapatos confortáveis nuns bonitos e que também eram confortáveis.

Pensei então que não sofreria tanto se procurasse nas pessoas o que ele procurava nos sapatos: que fossem confortáveis.

Era isto que me faltava: ser prático e era isto que a menina tinha!

Eu devia pensar, em relação às pessoas, para que é que me servem? e responder simplesmente para me serem confortáveis, porque é com elas que eu ando.

Não temos que nos apaixonar pelo que é confortável! São características diferentes que podem e devem existir em grandezas ou conceitos diferentes.

Podemos apaixonar-nos por uma ideia, um projecto, um pensamento, qualquer coisa que dependa de nós. Isto é saudável! Já é doentio quando nos apaixonamos por qualquer coisa que não depende de nós, que não está nas nossas mãos controlar, pois que se os outros não quiserem, como é que ficamos? Passemos à frente o palavrão, mas não é agradável, nem confortável.

 

Os nossos pés vão andar quilómetros e acabarão por ficar cansados, desgastados, calejados, provavelmente com algumas feridas. Em determinados pontos vai-nos sair a pele, vão sangrar, as unhas dos pés vão partir. E depois, quem é que nos vai tratar deles? Não podemos levar os pés ao sapateiro, não há nenhum artista de pés que possa transformar velhos em novos!

 

Cristina Pizarro

 

 

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Quarta-feira, 1 de Novembro de 2017

Nós, os homens

nos-homens-1-b

 

VI

 

A coisa até nem tinha corrido mal se eu não tivesse estado já daquele lado. Se eu ainda fosse para lá, tinha-me deixado deliciosamente ir, mas eu já vinha de lá!

 

Eu sabia exactamente o que ela sentia e o que ela não sentia e esta segunda parte doía. Mas isto ela não sabia e eu não dizia porque me protegia.

 

Aquela coisa do preciso de estar sozinha não era senão um apetece-me estar sem ti e ela dizia estas coisas sem perceber que eu as entendia exactamente como ela as sentia e pelas mesmas razões e achava aquilo uma vingança do destino, uma maldição, quase como uma justiça do além, embora eu achasse uma enorme injustiça aquilo que a providência estava a fazer comigo porque eu não tinha culpa nenhuma de, desta vez, eu estar apaixonado e da outra não! Ora agora quem não estava era ela e eu estava a apanhar pela medida grande!

 

E ela a perguntar-me se eu percebia e se aceitava isso e eu com uma consciência danada daquilo tudo, a comer e a não gostar e sem nenhuma hipótese de reverter a situação pois que isto dos sentimentos está dentro de nós e ou se têm ou não se têm e eu tinha e ela não.

 

E ela continuava a olhar para o relógio a horas certas enquanto eu perdia completamente a noção do tempo e dizia que já era tarde, quando a mim me parecia que tinha acabado de chegar!

 

E ia-se embora com uma facilidade, a do dever cumprido, que me deixava completamente indignado, a mim que me considerava preparado para estas relações adultas, em que cada um faz o que tem a fazer, sem qualquer compromisso e depois vai à sua vida!

 

E quando ela começava as frases por já não somos duas crianças, eu sentia um arrepio na espinha e pensava, mas que disparate é que ela agora vai dizer! E com esta introdução a conversa prosseguia e eu comportava-me como se fosse um verdadeiro adulto, embora muitas vezes o que me apetecesse era chorar no seu colo e pedir-lhe para não se ir embora.

 

Tinha-o feito uma vez e a coisa tinha corrido bastante mal, nem cheguei a perceber bem porquê, a menina sentiu a sua privacidade invadida e que eu, de alguma forma, estava a tentar dominar o tempo que era dela, como se o tempo ou o espaço fossem coisas ou grandezas que nos pertencessem, das quais nós, simplesmente seres humanos, nos pudéssemos apropriar, num acto de posse completamente desajustado, arrogante e altivo!

 

Tive que lhe pedir desculpa como se a tivesse insultado ou ofendido, pois que a reacção era muito próxima da tida nestas situações. E novamente nada disto me era estranho pois que já tinha feito exactamente as mesmas figurinhas e percebia agora, finalmente, porque motivo ou, melhor dizendo, porque falta dele! Se não fosse eu o sofredor, até achava piada a isto. Como as coisas se viram contra nós para que finalmente as possamos entender!

 

E era, não diria engraçado porque eu não achava piada nenhuma a isto, mas, peculiar talvez como ela não se apercebia disto! Ou, apercebendo-se do meu mal-estar e incomodando-se com isso, achava que não estava nas suas mãos fazer nada para o impedir. Em circunstâncias normais, eu diria que ela era tola, mas definitivamente não era disso que se tratava e era exactamente isso que me assustava: não sendo tola, ela não alterava um milímetro da sua vida ou do seu comportamento para me agradar, se isso não fosse uma coisa que lhe apetecesse particularmente. Não sei caracterizar esta atitude e isto incomoda-me, escapa-me ao controlo do meu entendimento, deixa-me inseguro, ansioso, angustiado e chateia-me profundamente nos dias em que preciso dela e não a posso ter!

 

O que me irritava mais era não saber lidar com isto! Na realidade eu sabia muito bem o nome que isto tinha, mas se o pronunciasse, tomava consciência dele e depois tinha de agir em conformidade, porque a um homem na minha idade e na minha condição não lhe é permitido outra coisa e como não queria arriscar, equacionava o problema de outra forma.

 

Tinha basicamente duas hipóteses: ou me afastava ou fazia de conta, fiz de conta.

 

Afinal era melhor tê-la assim do que não a ter e depois havia sempre a hipótese, estatisticamente possível, mas improvável, de eu estar enganado!

 

Cristina Pizarro

 

 

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