12 anos

Sexta-feira, 21 de Abril de 2017

O factor humano

1600-cab-mcunha-pite

 

10 contos de reis, sem notas - 4

Solidões

 

Finalmente podia começar uma nova vida. Foi com este pensamento que entrou num convento. Não o movia qualquer fé ou crença em qualquer deus. Apenas o desejo de liberdade. Por isso, levantava-se todos os dias às 4h00 e cumpria um extenso ritual. Uma ladainha, para ele sem nexo, mas que fazia com a mesma aparente devoção que os demais monges. Do que ele gostava mesmo era de meditar. Livre de obrigações para com os outros, livre da dominação do tempo. Simplesmente estava ali para sempre.

 

1600-lab

 

Ao fim de uns meses, perdeu-se mesmo no calendário. Sem fio de ariadne que o guiasse, foi confundindo as semanas e as estações. Até ficar em nenhum sítio para todo o tempo. O mais difícil foi fugir da memória. Esta tinha estabelecido conexões complexas aparentemente impossíveis de desligar.

 

Isolado do mundo para sobreviver. Sem metas, a não ser a rotina da monotonia.

 

Passava horas a observar os movimentos das formigas. Mas o seu prazer preferido era o de conversar com o cão. Calmamente e sem discussões. Adormeciam ambos com frequência, sempre sem discordarem.

 

1000-max

 

Para esvaziar a memória, reescrevia as canções com novos versos cada vez mais simples. Também foi escrevendo contos, memórias de histórias ouvidas ou de histórias vividas.

 

Começou a ganhar tranquilidade como se simplificasse as conexões das suas sinapses.

 

Foi isso que me contou na primeira consulta de psiquiatria. Nunca soube qual era a verdade.

 

Nunca mais voltou.

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 03:09
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Sexta-feira, 17 de Março de 2017

O Factor Humano

1600-cab-mcunha-pite

 

10 contos de reis, sem notas - 3

 

A vida é de cada um

 

Era o meu doente mais idoso e, de alguma forma, o mais distinto. Idade para ser o meu avô, gosto pela conversa pausada. Educação extrema, só se sentava depois de eu o fazer. Chapéu por vaidade ou hábito, bengala por necessidade, embora mantivesse um andar digno, subtil e graciosamente equilibrado por aquele bastão elegante.

 

Algumas tragédias na sua vida, a morte acidental de um neto, o falecimento de um filho com cancro, a morte da mulher, após demência precoce prolongada.

 

Mantendo sempre a cabeça levantada, gostando de conversar sobre tudo e nunca procurando promover a pena ou a compaixão por ele.

 

O senhor A. vinha sempre à consulta acompanhado por uma senhora, bastante mais nova, na casa dos cinquenta anos, roupa humilde, quase sempre silenciosa. Não se comportava como familiar, tratava-o com uma consideração expectável na relação com os mais velhos.

 

Escassas palavras comigo, o estritamente necessário para esclarecer o circuito da consulta e das análises e para clarificar a toma dos remédios. O senhor A. tinha uma doença crónica que inspirava alguma preocupação, mas não limitava a sua autonomia, nem a sua capacidade física.

 

Apesar das referidas agruras da vida, na sua conversa pausada havia alegria e firmeza, temperadas por quase 90 anos de experiências.

 

Um dia apresentou-se sozinho na consulta. Não comentou porquê e eu respeitei a reserva. Pareceu-me mais triste, mais calado, mas na altura não valorizei.

 

Na vez seguinte, de novo veio só, ainda mais cabisbaixo, menos falador. Confrontei-o com a sua tristeza e a ausência da senhora. Com um suspiro prolongado tentou ser reservado e arrumar o assunto. Mas eu insisti. Pareceu-me então ficar aliviado para poder falar e explicar-se: " sabe doutor, a senhora que costumava vir comigo, a Dona G., era quem tomava conta de mim e me fazia companhia", e prosseguiu de forma subtil, que a senhora não era apenas uma simples governanta, mas desempenhava um papel mais profundo na sua vida. A tristeza era que, filhos e netos, o tinham alertado para os interesses da tal senhora. Que ela teria segundas intenções, subentendendo-se avidez pelo seu dinheiro...

 

Ele tinha decidido aceitar e por isso tinha-a afastado. Contrariado, daí a sua tristeza.

 

Não resistir em interferir: " Mas alguns dos seus filhos ou netos tem problemas económicos?". " Felizmente não doutor, estão todos muito bem na vida. Bons empregos, boas casas, dinheiro...".

 

Fiz então a pergunta inevitável. " E o senhor gosta da tal senhora? Sente-se bem com ela?". "Sinto, é com ela que estou feliz, com a sua companhia", respondeu-me de forma sentida.

 

Fiz-lhe então um desafio, que muitos considerariam desadequado. "E porque não os manda dar uma volta e chama outra vez a senhora G. para ao pé de si?", expressando-lhe que o dinheiro e a riqueza eram dele e essas decisões só a ele diziam respeito. A sua vida era uma escolha só dele.

 

Abriu-se num sorriso e despediu-se mais animado.

 

Na consulta seguinte, veio de novo acompanhado. Algo de subtil se tinha dado entre os dois, parecendo agora mais libertos.

 

Pouco depois mudei de hospital para uma cidade distante, deixando de ser seu médico. Durante 3 anos, não me faltou um telefonema natalício dos dois, simpático e agradecido.

 

Sempre achei que eu é que devia agradecer a oportunidade de me ajudarem na minha maturação como médico.

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 02:50
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Sexta-feira, 17 de Fevereiro de 2017

O factor Humano

1600-cab-mcunha-pite

 

10 contos de reis, sem notas - 2

 

" Se hoje soubesse"

 

" A doença não tinha evoluído bem. Situação grave, irresolúvel, com desfecho iminente. Ele sabia-o e por isso a necessidade de falar, de contar, de assumir, no seu sotaque alentejano. Com a serenidade de quem dominou o medo , de quem percebeu a morte e a reduziu à vida.

 

Há muitos anos tinha trabalhado no estrangeiro, longas e difíceis ausências. Viagens infinitas de camião, nele dormindo, solitário. Comer o possível, cozinhados rápidos, enlatados, sandes. Ao contrário de tantos, resistia ao assédio das mulheres, fascinadas por uns olhos de um azul denso e profundo, que olhavam para o fundo dos outros que os miravam, transmitindo sempre uma bondade profunda e serena.

 

Gostava da sua mulher, ainda mais dos seus filhos e sofria com as distâncias que o trabalho lhe impunha. Fazia tudo por eles e assim lhes foi proporcionando uma vida confortável, com a ajuda do magro salário da mulher. " Tempos passados, difíceis" resumiu-me com dignidade.

 

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"Num dia de regresso, percebi que a minha mulher estava grávida. Ao princípio tentou ocultá-lo, depois baralhar as datas, de forma a ser verosímil que o filho fosse meu".

 

Mas era tudo por demais evidente. A sua curta estadia prévia, mal se tinham encontrado na cama. Dias sem fertilidade, dias sem felicidade. " Talvez ela já andasse embeiçada pelo outro".

 

O certo é que as vozes na aldeia eram implacáveis. Sorrisos de desdém, piadas, insultos sussurrados nas costas. Até uma carta anónima, com datas e lugares. A impiedade não conhece limites.

 

Um dia ela própria assumiu, em termos quase agressivos, a roçar a provocação. A seguir veio o choro e o arrependimento, a vitimização. Que ele também tinha culpas, que era bom demais e isso tornava tudo, para ela, mais difícil.

 

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O outro tinha desaparecido para longe. Não queria saber de nada, nunca assumiu nada.

 

Foram dias pesados, a chacota da aldeia, a necessidade de proteger os filhos, as dificuldades na decisão. Nas suas análises prevalecia a pena, pela mulher, pelo bebé que ia nascer, pelos que tinham nascido.

 

"Sempre precisei de tempo para pensar, de dormir em cima dos problemas, de caminhar com eles, analisando-os e simplificando-os".

 

A decisão chegou então definitiva. Perdoou-lhe e perfilhou, nos papéis e também na alma, o menino que então nasceu.

 

"Com ela as coisas nunca mais foram as mesmas. Aliás já não o eram, muito antes disso".

 

Nesse momento resisti à tentação de lhe perguntar se o menino, agora já homem, sabia que não era seu filho biológico. E ele prosseguiu até ao fim " nunca soube realmente quem foi o homem que me enganou. Mas se hoje soubesse quem foi e conseguisse encontrá-lo, queria beijar-lhe os pés e agradecer-lhe pelo filho que me deu".

 

Ao contar olhava-me nos olhos, retirando-me as angústias que o seu estado produzia em mim: " Sabe doutor, agora que estou a morrer, os outros filhos estão longe, ausentes. Este está sempre comigo e cuida de mim. É o meu carinho e o meu conforto.

 

O menino compensou tudo."

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 00:00
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Sexta-feira, 20 de Janeiro de 2017

O Factor Humano

1600-cab-mcunha-pite

 

Nota informativa

Há um mês o autor desta rubrica, o Médico  Manuel Cunha, anunciava o inicio da divulgação “10 contos de reis, sem notas”.  Contos que lhe tinham caído nas mãos, em jeito de prenda,  oferecidos por um dos seus doentes, com o compromisso de não os divulgar enquanto o doente e seus descendentes fossem vivos. Um acidente estúpido acabou por lhes tirar as vidas e os textos acabaram por ganhar a liberdade de serem publicados. Contudo os anos foram passando e só agora, Manuel Cunha (Pité) se decidiu pela sua publicação “desse hipotético livro, na certeza de ser neste Factor Humano do blogchaves, que o autor gostaria que fosse publicado”.

Se quiser rever o ”O Factor Humano” publicado há um mês, onde além da explicação do aparecimento destes “Contos” se faz a introdução aos mesmos, basta seguir este link:  FACTOR HUMANO 

 

Vamos então ao primeiro conto.

 

10 contos de reis, sem notas - 1

 

Não dizia que não, mas olhava de lado , desconfiado.

 

Corria o mês de Novembro , estávamos em plena serra do Marão e fazia um vento frio e cortante.

 

O telheiro que nos devia abrigar, não tinha qualquer protecção lateral. Os  nossos pés pisavam mato acamado , giestas e carquejas ,misturadas com bostas e cacas de múltiplas origens , várias idades e diferentes texturas.

 

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P. era o doente crucial da nossa investigação. Nessa altura estava já confinado a uma cadeira de rodas .O porquê era , para nós, a questão decisiva . Haveria nesta família a estranha situação da coexistência de duas doenças genéticas ligadas ao cromossoma X ? E se fosse o caso, seria uma simples e invulgar coincidência , ou haveria uma explicação mais científica ?

 

Por isso estávamos ali , para colher uma amostra do seu sangue , para complexos estudos laboratoriais.

 

Mas a mim começou a interessar-me P. propriamente dito e muito menos uma análise  sanguínea complexa.

 

Percebemos então que o seu grande medo era "apanhar sida "através da colheita de sangue. Que não , dizíamos nós , explicando-lhe que era tudo material esterilizado , um só uso. Finalmente convencido ,  já não se perturbou quando , ao abrirmos a mala de trabalho , as embalagens das seringas e das agulhas , caíram ao chão. Sacudidas as sujidades exteriores  e lavadas as mãos  , pudemos então abri-las , ajustar as agulhas às seringas e fazer a almejada colheita.

 

P. não acreditava na hipótese de ter uma doença genética. Aliás nem conseguimos explicar-lhe minimamente o que isso era.

 

A sua teoria e convicção era que o seu estado actual, resultava dos efeitos tardios das  chuvas tropicais, apanhadas na Guiné , aquando da Guerra  Colonial. Desde essa altura e de forma progressiva , tinha vindo a perder a força muscular , em especial nos membros inferiores , até ficar incapaz de deambular, limitado à sua cadeira de rodas.

 

Achava da mais elementar justiça ser reconhecido como deficiente das forças armadas, convicto de ter uma doença profissional, contraída durante o serviço militar obrigatório, julgava ele que em defesa da Pátria.

 

Na Guiné fora barbeiro do General  António de Spínola e com ele estabelecera uma relação que ultrapassava , de alguma forma, as habituais hierarquias militares.

 

Há sempre , até na vida militar , uma intimidade peculiar, entre barbeador e barbeado..Conversas específicas , comentários e desabafos. É mais natural para um General recordar-se do seu barbeiro soldado do que de um qualquer tenente ou capitão.

 

Por tudo isto Spínola deve ter ditado uma carta de resposta , ao pedido do seu soldado barbeiro , escrito por uma sobrinha , numa letra quase infantil. Se não a ditou directamente ,deu ordens para ela ser escrita. Sem intimidades descabidas, sem desejar sequer uma rápida recuperação , prometia empenho em assegurar a justa pensão militar de invalidez.

 

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Fotografia de Eduardo Gageiro

 

Spínola afinal estava a escrever para um homem que , de navalha na mão , o poderia ter degolado em tantas ocasiões. Um soldado barbeiro disponível , mais do que ninguém , para ouvir desabafos seus , sobre oficiais subalternos , às vezes até sobre alguns políticos da metrópole.

 

À cautela Spínola propôs-lhe uma futura vinda a Lisboa, para se apresentar no quartel X. Talvez quisesse também rever o seu estimado barbeiro, certamente para verificar " ao vivo " se a incapacidade motora era assim tão relevante.

 

Não ficaram datas marcadas nem indicações para telefonemas ou telegramas.

 

Assim P. , nessa altura ainda com alguma capacidade para deambular , programou a sua visita a Lisboa. Uma boleia inicial até Amarante, onde tomou uma taça de verde tinto com uma sandes de queijo. Depois a carreira para o Porto, com almoço de tripas numa tasca de Campanhã desta vez com duas taças do tal verde tinto. Apanhou em seguida o comboio até Lisboa ,onde chegou às 16 h.

 

Convicto que o seu General estaria até tarde no quartel ,arriscou a despesa de um taxi , condicionado também pelas dificuldades motoras.

 

Apresentou-se no quartel às 16.30  h, dizendo apenas que vinha encontrar-se com o" seu "  General Spínola.

 

Foi imediatamente detido para interrogatório , embora prontamente libertado , dada a simplicidade da aparência e perante a evidência da sua incapacidade física.

 

Estávamos na tarde de 11 de Março de 1975 , com Spínola já refugiado em Espanha , após a sua falhada tentativa de golpe de Estado.

 

Tudo isto nos contou P. , antes e depois da colheita de sangue. Ficou uma história inesperada , colhida num local agreste.

 

A mais surrealista história do 11 de Março de 1975.

 

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 00:56
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Sexta-feira, 16 de Dezembro de 2016

O Factor Humano - 10 contos de reis, sem notas

1600-cab-mcunha-pite

 

10 contos de reis, sem notas

 

Às vezes alguns pacientes dão-me prendas. Agora até dizem que tal é proibido. Uma vez tive uma especial, embora com um compromisso associado: não a divulgar, até o doente que ma deu e os seus descendentes, terem falecido. Por muitos anos dei como certo que nunca a tornaria pública, visto que o único descendente era uns anos mais novo do que eu.

 

Um acidente estúpido, modificou tudo. O doente e o seu filho faleceram, um com morte imediata, outro após um penoso coma.

 

Por alguns anos faltou-me ânimo, para divulgar a referida prenda. Caiu até num certo esquecimento. Agora perante as dificuldades em cumprir o meu compromisso com o Fernando Ribeiro, de assegurar um texto mensal no blogchaves, decidi fazer a divulgação desses textos.

 

Fica assim explicado que a tal prenda, foi um conjunto de textos, escritos ou compilados por esse paciente e que, por razões que desconheço, ele não quis que fossem publicados em sua vida.

 

Por agora reservo-me o direito de não divulgar o autor, dado não estar seguro que ele estaria de acordo.

 

Publico hoje aquela que seria a introdução, o prefácio, desse hipotético livro, na certeza de ser neste Factor Humano do blogchaves, que o autor gostaria que fosse publicado.

 

"Quando era um jovem adolescente, sonhava em ser médico. Não para fazer fortuna, nem para fazer diagnósticos fantásticos, mas principalmente para cuidar. mais com palavras e carinhos, do que com remédios.

 

Faltou-me persistência e organização para os estudos. Agora que já não sou nada jovem e sei que o fim se aproxima, concluo que não se perdeu muito. Aliás teria chegado fora de tempo à medicina; demasiado atrasado para o que foi o passado, demasiado adiantado para o que, espero, possa ser o futuro.

 

Perdeu-se o médico, mas não a vontade de ouvir as histórias que eles contam, ou que outros contam deles.

 

Ganhou-se um ladrão de histórias, um compilador de experiências. Soubesse eu escrever e ter-se-ia ganho um escritor. Mas também para isso me faltou ainda a persistência e a organização.

 

Mais ávido de ouvir do que de escrever. Descobridor das histórias dos outros. Descritor tentado mas nunca concretizado. Às vezes simples transmissor.

 

As histórias vão se transformando na minha cabeça. De forma irregular, por vezes caótica. Fundem-se e confundem-me. Umas nascem onde outras queriam terminar.

 

Por vezes o doente é médico, por vezes o médico está doente. Pouco a pouco não recordo quem mas contou pela primeira vez. Trocam-se os locais, as profissões, até as doenças.

 

Com o passar dos anos, quero acreditar que já todos morreram. As doenças, os médicos, os doentes.

 

Parece-me assim legítimo, escrever o que ficou, uma memória das histórias. É isso o futuro, por mais que soe a estranho.

 

Para simplificar, ficam contos. Dez contos, de reis. Sem notas, para que nada se possa identificar desses reis, uns doentes, outros médicos, todos já ausentes".

 

Fica assim transcrita a introdução aos "10 contos de reis, sem notas"

 

No próximo dia 20/01/2017 sexta feira será publicado o conto nº1.

 

Manuel Cunha (Pité)

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 00:27
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Quinta-feira, 17 de Novembro de 2016

O Factor Humano - Ao salpicão do César

1600-cab-mcunha-pite

 

Ao salpicão do César

 

Já em Julho passado, falei do meu primo César.

 

De quanto ele é importante para mim.

 

Continua a tentar regressar ao meu mundo.

 

Às vezes a espaços consegue.

 

Impressionou-me que a memória que tem de Chaves seja a de uma ponte de pedra com ferros verdes. É seguramente a ponte que aparece mais vezes em fotografia neste blogue.

 

Quando o meu pai morreu, voltei a encontrar um poema do César, dedicado "aos Drs. Cunha, Max, Miguel e Pité, irmãos na fraternidade" e escrito em Madrid próximo ao 25 Abril de 2000.

 

Está escrito numa mistura de português, castelhano e galego.

 

Fala de um dos símbolos mais importantes de Trás-os-Montes. Uma das contribuições fundamentais que nós demos ao Mundo: o salpicão.

 

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Cresci numa casa onde não se faziam salpicões. Nesse tempo davam muitos ao meu pai. Mesmo assim, ele comprava muitos mais. O salpicão simboliza, para mim, mais do que tudo, as merendas da caça e da pesca. Simboliza os amigos e a tal fraternidade que o César referiu.

 

Mas acima de tudo, neste poema, retrata-se como nunca o salpicão, com qualidade literária, cultura e humanismo. Apetece cortá-lo as rodelas e acompanha-lo com um copo e um bocado de pão centeio. Bom proveito.

 

1600-salpicao-1.jpg

 

 

Ao Salpicon de Porco

 

Entre los dedos índice y pulgar

no más grande que la mano puñetera

cabe lo más sublime, hecho manjar.

 

Nacido en lareira negra, altar de tiempo,

sede del hogar y el pensamiento,

lo exhumó una raza de piedra, palo y fierro

iluminada por el Prometeo celta

recibiéndose de fuego suave y aromático

del carbalh++o y a xesta:

 

Del fondo de la memoria del pueblo,

olvidado, pobre y sin habla recibimos:

 

Encarnadura sabrosa

Alimento pleno.

Redondez rotunda.

De carne, sal, ajo y vino

 

Gracias!

 

Son el padre y la madre

que acuden cada invierno

al llanto pobre

de quien siente las entrañas heridas

por la hambruna

 

"Talho original, seco en centeno oscuro

cuyo pan ácido es consagrado

con untosas hostias que sudan grasa

de navaja vieja.

Por tu moho salvífico y profundo cheiro

ya conozco el sabor de mi propria sangre,

 

Oh, Fumeiro!

 

Del puerco ronconeante,

habitante misterioso

de cocheira escura

húmeda y caliente,

misterio blanco,

hecho a imagen y semejanza

del hombre

suicida berrante

de orejas difíciles

y rabo interrogante,

cristiano viejo,

que derrotó al moro y

salvó al judío

 

GRANDE PADRE

La verdad queda más allá: Trás-os-Montes"

 

Manuel Cunha (Pité)

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publicado por Fer.Ribeiro às 01:51
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Quinta-feira, 15 de Setembro de 2016

O Factor Humano

1600-cab-mcunha-pite

 

E se os incêndios fossem uma oportunidade?

 

E de novo os incêndios. Extensos, trágicos, destruidores. De Norte a Sul, do Continente às Ilhas. Muitos, também no Alto Tâmega, alguns de enorme dimensão.

 

Para que não restem dúvidas, da “mão criminosa”, dia 9 de Setembro, houve 4 focos de incêndio, os últimos já à noite, numa mesma zona do nosso concelho. Impossível que não sejam actos deliberados, criminosos.

 

É verdade que nos últimos anos, sempre que o verão é mais impiedoso e as ondas de calor se prolongam e sucedem, Portugal arde, literalmente.

 

De tudo se fala, das causas, dos interesses envolvidos, da prevenção, das estratégias erradas do combate aos fogos.

 

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É importante arrumar as ideias.

 

Em primeiro lugar, o prolongar da estiagem e as mudanças climatéricas, são condições importantes na incidência e extensão dos fogos. Mas isso não explica porque ardemos mais do que o resto do Sul da Europa.

 

Depois a mistura explosiva da monocultura, dos pinheiros ou dos eucaliptos, com o abandono das terras e o despovoamento do interior do País.

 

Vamos ao primeiro aspecto e recordemos os escritores. O grande Aquilino Ribeiro, com a sua obra magistral “Quando os lobos uivam”, onde conta o conflito entre os povos, compartes dos baldios e o regime fascista, que impôs a monocultura extensiva do pinheiro na região centro do país. Mas também José Carlos Barros, no seu livro “O prazer e o tédio” onde aborda o mesmo processo de imposição, ecologicamente trágica, da monocultura do pinheiro na nossa região.

 

1600-serraquinhos (90)

 

Menosprezaram-se as culturas florestais autóctones em nome do lucro imediato, sem visão e sem respeito pelos interesses da região e do País.

 

Veio depois o eucalipto, promovido pelas grandes empresas de pasta de papel, importado da Austrália e que tem vindo a substituir o pinheiro em muitas regiões. Ambas as árvores ardem como se fossem recheadas de gasolina. Ambas, antes de arderem, já secaram tudo à sua volta. Até as aves, delas fogem.

 

O abandono é um processo complexo, que reflecte a incapacidade do País e dos seus governos, em entenderem a importância do ordenamento  e da ocupação do território. A miséria e a falta de perspectivas despovoaram o interior do país. A ausência de estratégias para o aproveitamento das riquezas nacionais leva a que não se aproveitem os nossos recursos. Os matos e as madeiras acumulam-se, não são limpos, nem aproveitados. Apenas servem como combustível para os incêndios.

 

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Depois, as apostas dos sucessivos governos, sempre voltados mais para o combate do que para a prevenção dos incêndios. E vem o negócio privado do combate aos fogos.

 

Não seria bem mais útil para o país criar emprego nas tarefas de prevenção dos fogos? Ecologicamente não seria mais rentável? Humanamente não seria mais digno?

 

Portugal e a nossa região vão ardendo. Ficamos mais pobres, mais tristes, mais deprimidos. Há mortos, queimados, tragédias familiares e individuais, miséria. Também há solidariedades, abnegação, coragem, heroísmo.

 

Bombeiros voluntários e profissionais, com uma dedicação que o poder tende rapidamente a esquecer, quando termina a época dos incêndios.

 

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Mas o bonito, o inteligente, o que corresponderia a uma estratégia nacional, era termos o rasgo e a visão de futuro de aproveitarmos a oportunidade destas tragédias e lançarmos um plano ambicioso de reconstituição da nossa floresta autóctone. De carvalhos, de castanheiros e de todos as árvores que sempre foram as nossas e, como tal, estão adaptadas ao território e resistem muito melhor aos incêndios. A médio e longo prazo representariam uma riqueza muito maior.

 

Era útil que uma parte dos fundos do quadro europeu comunitário 2020, pudesse ser utilizada nestes projectos de reconstituição da nossa floresta tradicional.

 

E se os incêndios fosse uma oportunidade?

 

Manuel Cunha (Pité)

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 02:30
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Quinta-feira, 18 de Agosto de 2016

O Factor Humano - Maximino Cunha

1600-cab-mcunha-pite

 

Maximino Cunha

 

No dia 4 de Agosto à tarde, pensei que os rios tinham deixado de correr.

 

Parecia-me impossível, que as águas tivessem vontade de nascer, correr, brincar com as pedras, aninhar as trutas, saciar-me a sede.

 

Mal pude libertar-me das prisões, corri sozinho para ver se era verdade, se tudo acabara. Se o impiedoso verão dos verões tinha finalmente chegado, por acaso, nesse dia de Agosto. Mas era só dentro da minha tristeza, que a água morrera. Reencontrei a segurança ao ver que no regato de Cervos, continuava a correr a água de sempre e uma truta minúscula atacava, sem sucesso o saltão.

 

Maximino Cunha, para minha sorte o meu pai, foi uma das pessoas que mais gostou das nossas terras, das nossas serras, das nossas águas, das nossas gentes.

 

Este é o blogue adequado, para lhe prestar uma homenagem, que já antes publiquei.

 

Por ele, mais do que por ninguém, chamei às minhas crónicas “o Factor Humano”.

 

Ensinou-me a estar sempre do lado dos mais fracos, dos explorados, dos oprimidos.

 

Ensinou-me a importância do carinho e da ternura. Sem vergonhas. O bem que o mimo faz e que não é ele que faz a gente “mimada”.

 

Ensinou-me a pensar pela minha cabeça. A pensar o que digo e a dizer o que penso. A não ter medo de estar sozinho na minha ideia. A olhar-me ao espelho, bem fundo nos próprios olhos. A tentar ser sempre corajoso.

 

Ensinou-me que o mais profundo humanismo é ser comunista, mas que há múltiplas formas de humanismo.

 

Ensinou-me que nas escolas, o importante não são as classificações, mas sim o que aprendemos realmente. Ensinou-me a ser médico a sério. No Serviço Nacional de Saúde. A ouvir, perguntar, voltar a ouvir, tocar, sentir, pensar. A não ficar indiferente ao sofrimento, nunca. Mas a transformar em prazer o trabalho clínico, sempre. A respeitar as rugas e as verrugas, o cheiro a suor e o cheiro a fumo. A entender melhor as perturbações psíquicas.

 

Ensinou-me os rios e os regatos. Cada um deles, devagar. No verão e no inverno. Cada corrente, cada presa, cada remanso. Como eles nasciam e para onde iam. E as histórias das águas.

 

Mostrou-me a natureza, cada árvore e cada planta, o cantar dos pássaros e a magia dos bichos. As estações do ano, forma de viajar sem abandonar o nosso sítio. Os jardins e as flores, todas as flores, cada flor, sempre as flores.

 

Tentou ensinar-me, sem sucesso, as serras, os pontos cardeais e todos os mapas, que tinha na sua cabeça, mas que nunca couberam na minha.

 

Depois ensinou-me a pescar. Digo sempre que, se eu conseguir aprender, qualquer um consegue. Apresentou-me as trutas, os últimos deuses do mundo.

 

Pescámos juntos “muita vida”, tantas vezes com o mano velho. Muitas molhas, muito suor, muitos silêncios, muitas conversas, tantas canções. Poucas zangas e muito prazer. Merendas dos céus, águas frescas, vinhos, champanhes e sestas.

 

Ensinou-me o prazer da água, do leite e dos vinhos, o gosto pela diversidade, pelos alimentos puros, sem medo dos requintes, sem medo de experimentar novidades.

 

Levou-me, com o mano velho e tantos amigos, à caça, a jogar futebol, a tomar banho nos rios. Grandes lanches que ele oferecia, quase sem repararmos nisso, naturalmente.

 

Reduziu o dinheiro ao seu papel. Nem mais, nem menos. Nada de nós está à venda. Nunca. A herança, somos nós, as histórias, os poemas, as canas, as roupas velhas. E por isso é tão valiosa.

 

Ensinou-me as músicas, as canções, os cantores. A ouvir os poemas e a transformá-los.

 

Ensinou-me os livros de aventura e os clássicos. Emílio Salgari e Homero. Miguel Cervantes e a colecção “seis balas”. A ler e reler. A aprender com o que lia e a disfrutar das palavras.

 

Ensinou-me os museus, quadro a quadro, pintor a pintor. Os pormenores e o conjunto. A misturar e a transformar quadros, músicas e poemas.

 

Levou-me a viajar pelo mundo com a minha mãe e o mano velho. Para ver as paisagens e as pessoas, andar a pé, nadar, ir aos museus, comer, conversar, cantar…

 

Mostrou-me o respeito que devemos ter na família. Como é bom estar com a nossa companheira, conversar, sentir, rir. Só nós.

 

Como se abre os braços às mudanças familiares.

 

Sempre teve orgulho na sua companheira. Admiração profunda, quase dependência. Um prazer em conversar, em estar, em recordar juntos. Alegria de lhe dar tudo, flores, livros, poemas, roupas, pedras, desenhos.

 

Sempre transmitiu bem o seu orgulho nos filhos e nos netos. Divertia-se, ensinava-os, ralhava-lhes, nem sempre com razão. Acarinhava-os tanto!

 

E um dia partiu. Sem avisar. Sem pesar.

 

Parecia que se estava a sorrir.

 

Mas já não estava cá.

 

Não é nada fácil. Mas, como ele repetiu, “al mal tiempo, buena cara”.

 

Mas sempre a vida!

 

Manuel Cunha (Pité)

 

 

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Quinta-feira, 21 de Julho de 2016

O Factor Humano - Sempre a questão da humanização

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Sempre a questão da humanização

 

Na sua mão imensa expunha os mosquitos artificiais. Aí estavam a “falangista” (vermelha e amarela) e o famoso “ nazareno” (roxo). Olhava-os com a mesma seriedade com que antes tinha estudado os evangelhos. Indiferente ao frio, à chuva e ao facto de ainda não ter ainda pescado nenhuma truta no rio Terva, nesse dia de Março, dos inícios dos anos 80.

 

Parecia o que sempre foi: um “velho e bondoso filósofo”, uma torre consistente, sólida, tranquila, humana.

Depois largava dois “peidos”, como trovões, e ria-se infantilmente.

 

Escolhia então os mosquitos e pacientemente montava o aparelho de pescar. Retomava a sua pesca, tão inútil, tão maravilhosa.

 

Esta é uma imagem, memória mais ou menos fiel, de um dia de pesca com o meu primo César.

 

Não me recordo de nenhuma memória dele, que não seja agradável.

 

Há umas semanas atrás, com 77 anos, teve um AVC extenso, na cidade de Madrid.

 

Fui visitá-lo a um hospital de reabilitação no passado fim-de-semana. A sua expressão de alegria, quando me viu, vinda do fundo do poço onde mergulhou e a sua exclamação “Pité!”, valeu por todas as viagens.

 

Impossível não reflectir sobre a humanização dos cuidados de saúde. Até porque estamos perante um ser tão humano.

 

É importante e útil que os profissionais de saúde, em especial os médicos, tenham vivências, directas ou indirectas, como utentes dos serviços públicos de saúde. Estas experiências podem ajudar a humanizar a nossa actuação profissional. Ajudar-nos a perceber a importância das questões “não técnicas”. A importância da postura, do carinho, da simpatia, da disponibilidade que devemos ter. Mesmo quando a disposição e os ritmos de trabalho são difíceis ou quando as remunerações são baixas.

 

É triste uma sociedade reduzida a números e a rentabilidades, abandonando os mais desprotegidos, os doentes crónicos, os incapacitados crónicos.

 

Vai havendo algum dinheiro público, agora mais reduzido, para as questões técnicas da saúde. Mas faltam auxiliares, enfermeiros, médicos, simples companhia para os doentes. Dei por mim a pensar a diferente situação que vi em Cuba. Lá há muito menos dinheiro para as questões técnicas da saúde, mas mais recursos humanos, mais humanização, que se traduz tantas vezes em mais eficácia e em ganhos maiores na saúde, vista como um todo. Até nós, como sociedade, nos vamos desumanizando mesmo no acompanhamento aos nossos mais próximos, quando mais necessitam. Mesmo na contestação política e social, muito se fala das questões técnicas e menos se fala das questões humanas. Os resultados estão à vista.

 

Confio que poderei um dia rediscutir este tema com o meu primo César, ouvi-lo contar a sua experiencia, a sua paciência infinita, a sua tranquilidade, como se continuasse a escolher os mosquitos da sua vida.

 

Manuel Cunha (Pité)

 

 

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Quinta-feira, 19 de Maio de 2016

O Factor Humano - Primavera cheia de palavras

1600-cab-mcunha-pite

 

Primavera cheia de palavras

 

Apesar das tropelias do clima, parece-me que a Primavera está, finalmente, a chegar.

 

Ainda ninguém explicou aos rios, que deveriam estar a entrar em estiagem e não andarem a brincar às cheias. É que eu queria pescar em paz e em sossego… Só me resta então seguir a corrente das águas e da Primavera.

 

Desaguo assim na poesia.

 

Com rios e com trutas e até com uma homenagem ao Ari dos Santos:

 

1600-assureira (5)

 

 

 

Sabedoria do rio

 

O que eu gosto mesmo

É de um rio

Com água que se ria

Para mim

Que diga que não diz

O seu segredo

Mas mostre aqui e ali

Tranquilamente

Aquilo que ele sabe que eu desejo.

 

Orvalho

 

Com o orvalho a água retorna

Mesmo quando as nuvens desistem.

Às vezes a sobrevivência é isso.

 

1600-outono (8)

 

Falta de mim

 

Os rios nascem nas manhãs

Em sorrisos de névoa rosa e de orvalho

No verão parecem voltar ao cimo das serras

Como se temessem o estio das tardes

Ou se se envergonhassem de envelhecer.

Nessa altura recolho-os

E escondo-os na memória

Para depois tos entregar

E saciar a tua falta de mim.

 

Ari

 

Ele procurava a poesia

Que por não querer pai nem mãe

Voasse enquanto nascia

P’ra ser livre e de ninguém

Que ao inverso de ser feita

Pela pena do poeta

Fizesse ela a desfeita

Deixando a rima incorrecta.

Que serenasse quem escreve

No momento de a parir

E inquietasse quem deve

Mesmo se a não quer ouvir

Da minha parte vos digo

A mim fez-me sentir tanto

Não sei como agradecer-lhe

Aqui lhe deixo o meu pranto.

 

Manuel Cunha (Pité)

 

 

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Quinta-feira, 21 de Abril de 2016

O Factor Humano - Para que serve o ouro?

1600-cab-mcunha-pite

 

Para que serve o ouro?

Homenagem aos mineiros

 

Um dia em Florença, fiquei espantado por ver um mapa romano, que destacava a actual aldeia de Ardãos, no Concelho de Boticas.

 

Até pelo nome se percebe que se referia às minas de auríferas, no que hoje designamos como “poço das Freitas”.

 

1600-XII-encontro (133)

Poço das Freitas - Ardãos - Boticas

 

Ao contrário do carvão, do pão, da água, tenho dificuldades em explicar para que serve o ouro. Mais difícil se torna entender o porquê das gigantescas minas que, há milhares de anos, temos vindo a escavar.

 

Acumulam-se vaidades e riquezas à superfície. Nascem e crescem de sofrimentos infinitos, de exploração e de misérias.

 

Das minas de ouro na antiga Núbia, veio Spartacus liderar a grande revolta dos escravos, contra Roma, o império dessa época. Howard Fast escreveu um dos romances que mais me influenciou na vida: “Spartacus, a revolta dos escravos”. Nele se descreve como a aprendizagem da sobrevivência nas minas, foi decisiva, não só na sua capacidade de liderança e de solidariedade, como na consciência da necessidade de rebelião contra uma ordem estabelecida, injusta e desumana: a sociedade esclavagista.

 

1600-XII-encontro (28)

 Poço das Freitas - Ardãos - Boticas

 

Mais recentemente, o colapso da mina de ouro chilena no deserto de Atacama, em 2010, chocou-me e emocionou-me muito.

 

Chocou pela falta de condições de trabalho e de segurança da mina, motivada no essencial pela ganância dos responsáveis e accionistas em obterem o máximo de lucro, no mínimo de tempo.

 

Chocou pelo desinteresse dos responsáveis privados na procura e resgate dos mineiros que estavam na mina, na altura do colapso.

 

Emocionou pela capacidade de sobrevivência. Pela dignidade e pela solidariedade dos mineiros. Eram 33 e estavam quase sem comida, enterrados a 700 metros de profundidade, sem grandes expectativas de serem resgatados.

 

chile-33.jpg

 Os 33 mineiros em Atacama - Imagem da campanha do Banco do Chile para o Mundial 2004

 

Partilharam a escassa comida entre todos, fizeram a parte deles que era sobreviverem todos, o máximo de tempo possível.

 

Ao fim de muitos dias, já depois da comida ter acabado, aperceberam-se, pela primeira vez, que estavam a ser procurados. Resistiram com dignidade, todos juntos. Um era o seu primeiro dia de trabalho na mina, outro a última semana de trabalho.

 

Que orgulho nos mineiros! Nestes, e em tantos milhões, que trabalharam e trabalham em condições extremas.

 

Em cima à superfície, a família, os amigos e o povo acreditaram e pressionaram o governo. Este mobilizou-se. O mundo mobilizou-se.

 

Todos se salvaram mas sabe-se hoje que nenhum mineiro foi indemnizado pelos donos da mina. Estes nunca pagaram uma multa, nem sofreram uma condenação legal, pela falta de segurança e condições de trabalho.

 

filme-33-mineiros.jpg

Imagem do filme "Os 33"

 

Está tudo contado no filme, de estreia recente, “Os 33”.

 

Como antes tudo foi contado no “Germinal” de Zola ou mais recentemente nas conferências de solidariedade, de Luís Sepúlveda, com os mineiros Asturianos.

 

Sem pretensões, deixo aqui uma voz a juntar-se no respeito e admiração pelos mineiros de sempre.

 

Manuel Cunha (pité)

 

 

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Quinta-feira, 17 de Março de 2016

O Factor Humano - Levantados do Chão

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Levantados do chão

 

Quando em 1986 entramos para a então CEE (Comunidade Económica Europeia), prometeram-nos o céu.

Logo a seguir baixou o preço da batata. Todos terão ficado contentes… menos os produtores de batata (e na nossa região havia muitos).

 

Mais tarde baixou o preço do leite. Nessa altura os produtores de leite juntaram-se na sua apreensão, aos produtores de batata. Mas ainda houve muitos que esfregaram as mãos.

 

Depois foi a carne e seguiram-se em catadupa o peixe, o vinho, os minérios, os produtos industriais.

 

Fomos pagos para arrancar vinha e olival e alguns esfregaram as mãos. Havia com ingenuidade, a ilusão que estávamos a “enganar a Europa”.

 

Passámos a ser um país onde predominavam os serviços. O interior foi-se despovoando e começaram a desaparecer os transportes públicos.

 

Muitos não se aperceberam da armadilha. Não se aperceberam que um país que não produz, perde a autonomia, a independência, a dignidade. Que de mão dada vem o desemprego, o endividamento, a emigração. E a seguir a baixa da natalidade e o envelhecimento da população.

 

Empurraram-nos para um beco sem saída. Os de lá de fora (Bruxelas) e os de cá de dentro (Governos nacionais).

 

Depois veio “ a cereja em cima do bolo” e meteram-nos no Euro. Nem todos podiam, mas nós estávamos no pelotão da frente!

 

Perdemos a autonomia de decidir sobre o valor da nossa moeda. Esse era um dos instrumentos essenciais, para estimular as exportações e a produção nacional, fortalecendo a economia e o país.

 

A seguir enganaram-nos com a ilusão de que ao termos acesso a crédito aparentemente barato, estávamos mais ricos. Não adiantou que os sindicatos alertassem para que era mais importante aumentar os salários do que facilitar o acesso ao crédito.

 

Em 2008 estalou a crise, as vigarices do sistema financeira atingiram um nível insustentável e o colapso passou dos bancos para a economia e para as pessoas.

 

Depois fomos chamados, com os nossos impostos, o nosso desemprego, a nossa emigração, para resgatar a banca e voltar a permitir os seus lucros obscenos.

 

Ficou-nos uma região deprimida, pobre, despovoada, sem perspectiva de futuro.

 

E ainda temos de ouvir reprimendas, dedos que nos apontam acusatórios, dos Senhores da Europa e dos seus lacaios em Portugal.

 

Temos de suportar ainda a arrogância de banqueiros, tantos deles, tão vigaristas.

 

Um dia Saramago escreveu o seu romance primordial, para mim o mais bonito: “Levantados do Chão”.

 

É esse o nosso caminho: levantarmo-nos do chão e com os pés assentes na nossa terra, mostrar que somos capazes.

 

Manuel Cunha (Pité)

 

 

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Quinta-feira, 21 de Janeiro de 2016

O Factor Humano - As minhas canções

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As minhas canções

 

Alguém escreveu que a leitura de um texto, romance ou até poema, pode ser feita a vários níveis, de alguma maneira, como as diversas camadas de uma cebola (Jorge Luís Borges). O contexto cultural, histórico e pessoal/emocional permitem leituras, interpretações, usufrutos distintos, do leitor.

 

Parece-me que tal é válido, em geral, para toda a obra de arte.

 

Todos dizem que “ quem conta um conto, acrescenta-lhe um ponto”, frase que engloba também interpretações distintas. A adulteração da verdade factual é a mais correctamente aplicada. No entanto, acredito que a melhor interpretação é que atribui criatividade ao “acrescenta-lhe um ponto”. Às vezes, fazemo-lo apenas na nossa imaginação e nem sempre o conseguimos expressar. Outras vezes concretizamos, compondo, por exemplo, modificações numa melodia. Goethe também expressou um dia, que se considerava herdeiro de toda a obra cultural, artística e científica que a Humanidade produzira até então. Assim entendia que a poderia utilizar, transformar. Uma forma de “acrescentar uns pontos” digo eu.

 

Um dos seus livros mais famosos “Fausto” tem antecedentes literários múltiplos baseados na história/mito do Dr. Fausto. Já agora recordo que a riqueza da obra permite leituras interpretações e usufrutos distintos, por exemplo, conforme a nossa cultura clássica.

 

Toda esta conversa, para tentar explicar o meu prazer, também a minha legitimidade, em recriar canções, com novos poemas, a partir de tantas músicas que me estimulam a fazê-lo. Há muitas vezes movimentos ocultos, enquadramentos, situações especiais, que ao longo do tempo vão empurrando a caneta ou a voz para rescreverem poemas novos que não são só meus. Pode ser que algum dia inspirem outros.

 

Manuel Cunha (Pité)

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Quinta-feira, 17 de Dezembro de 2015

O Factor Humano - Mais uma vez os nossos rios

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Mais uma vez os nossos rios

 

Aproxima-se mais um inverno. O calendário diz que chega na próxima semana, mas não parece nada. Não há praticamente geadas, ainda não nevou no Norte, nem sequer houve grandes chuvadas, muito menos cheias.

 

Dizem que o clima está a mudar. Menos diferenças entre as estações do ano, menos precipitação, pelo menos na nossa região.

 

Aquecimento global. Parece nítida a relação com a actividade do “homem poluidor”. Conferências internacionais, consensos mínimos.

 

Compra-se e vende-se o “direito de poluir”, tudo é um negócio.

 

1600-incend-avelelas (41)

 

As novas energias limpas, renováveis, também são muitas vezes um negócio. Veja-se o caso da “cascata de barragens do Tâmega”. Em nome das energias limpas e renováveis, querem construir sequencialmente várias barragens, sendo que a que fica mais a montante irá descarregar na seguinte e assim sucessivamente, durante o dia, produzindo energia no período de maior consumo. Durante a noite, um sistema de bombagem fará a água retornar das barragens a jusante para as barragens a montante, aproveitando a energia das eólicas que nesse período nocturno tem um valor comercial irrelevante, pois o consumo de energia é mínimo. No dia seguinte, recomeçaria este ciclo “eterno” da água perdida no seu caminho natural para o mar.

 

1600-(43372)

 

Bom negócio económico, péssimo negócio ecológico. Mas os accionistas da EDP e da Iberdrola assim o tentam impor. Um desastre ecológico diz o bom senso.

 

Os autarcas da região, com pouca visão ecológica e uma visão económico-financeira de curto prazo, aplaudem.

 

Felizmente parece haver, no acordo estabelecido entre o Partido Socialista (PS) e o Partido Ecologista os Verdes (PEV), um ponto que define o fim deste processo. Bom para o futuro da região e do país.

 

Fica por resolver a séria questão do encaixe económico já planificado pelas autarquias mas seguramente será encontrado uma solução.

 

Fica a contradição entre um Governo Socialista que no passado lançou o projecto e outro Governo Socialista que o interrompe. Mas é sempre positivo corrigir os erros.

 

Um aplauso para o PEV.

 

1600-mairos (42)

 

Já escrevi nesta coluna que me oponho há construção de mais barragens na região. Causam uma destruição definitiva de extensas áreas do território. As vantagens, em termos de produção energéticas, são diminutas com prejuízos ecológicos enormes.

 

Não desisto de acreditar que uma das grandes riquezas da nossa região é o nosso meio ambiente. Mesmo que em muitos aspectos já esteja parcialmente degradado, é na sua recuperação que está o futuro. É na recuperação dos cursos de água, dos moinhos, dos caminhos, da pesca, que se podem encontrar vias para o desenvolvimento. Pena, os autarcas ainda não terem percebido.

Manuel Cunha (Pité)

 

 

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Quinta-feira, 19 de Novembro de 2015

O Factor Humano - Equilíbrios entre rio e mente

1600-cab-mcunha-pite

 

Equilíbrios entre rio e mente

 

Quando acaba a pesca, gosto de imaginar o rio Mente a correr, ignorando normas e datas. Estabiliza-me saber ele está lá, constante na sua corrente. Revejo-me na sua persistência de não desistir. Poucas coisas me perturbariam tanto como se um dia o visse seco, ou destruído por uma barragem assassina.

1600-XXIV-encontro (309)

Rio Mente, em Segirei

Por isso me custam tanto as últimas idas à pesca, na estiagem do Julho, quando o caudal está triste e sumido. Disfarçam-se os cenários pescando ao nascer do sol, quando o orvalho e a temperatura nos iludem da tristeza que se está a anunciar. Outras vezes muda-se a técnica de pescar, procurando nos recantos das sombras, nas águas paradas, ensinar um saltão a dançar e chamar a truta para o baile.

 

É verdade que o mês de Julho funciona como um desmame que nos prepara para um interregno extenso, sem pesca, sem trutas e sem rio.

 

Para mim as primeiras chuvas do outono marcam o fim da etapa mais difícil. Mais do que a pesca, é o rio que me faz falta. As suas águas movem-nos a ambos, estabilizando-nos nos nossos ciclos.

1600-s-goncalo (159)

Rio Mente, em S.Gonçalo

Ao longo dos anos, fui semeando músicas nas margens do rio Mente. Cantor a cantor, canção a canção, fui substituindo as culturas abandonadas, da beira do rio, por poemas que saberia voltar a encontrar no ano seguinte, diferentes como as árvores, diferentes como a água do rio.

 

Com respeito por todos os outros, acho que o rio Mente é meu. Mas estão sempre convidados, por ele, para me visitarem.

 

Manuel Cunha (Pité)

 

 

 

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