Quinta-feira, 16 de Maio de 2013

O Homem Sem Memória - 153

 

O Homem Sem Memória

Texto de João Madureira

Blog terçOLHO 

Ficção

 

153 – A extinção do grupo de teatro deu lugar à criação de mais dois. A esquerda é excelente nestas práticas. A sua capacidade de divisão e de reprodução em grupos, grupinhos e grupelhos foi sempre um dos seus melhores atributos.


O primeiro juntava os esquerdistas e os socialistas. O segundo agregava os militantes e simpatizantes do Partido Comunista, mais os respetivos unitários. Para sermos rigorosos, temos de explicar que o segundo grupo se subdividiu ainda noutros dois, porquanto a sensibilidade mais ligada aos intelectuais era defensora do teatro de vanguarda e uma outra, de cariz mais operário, se inclinava para o tipo de espetáculo de caráter essencialmente popular, logo cómico. No entanto uma coisa ainda os ficou a unir: todos ensaiavam na sala dos “Canários”, só que em dias diferentes. Fugiam uns dos outros como Trotsky de Estaline.


O José conseguiu, vá-se lá saber bem o como e o porquê, pertencer aos três. Estava decidido a unir o que a ideologia desunia com tanta exuberância. Isto apesar de serem todos marxistas.


O grupo esquerdista e socialista convidou um ex-actor do Seiva Trupe, que à época dava aulas em Névoa, para ser o seu diretor e encenador. Por causa dos apelos mais basistas, imitaram a técnica do improviso e puseram-se a rabiscar pequenos textos a partir de músicas do Zeca Afonso, tentando ilustrá-las com movimentos apelativos, numa mistura grossa entre ballet e danças folclóricas, combinando o “Lago dos Cisnes” com o “Malhão”. Era vê-los a esticar muito os braços em direção ao teto, e ao público, fazendo cara sofrida e falando muito em gaivotas, em pescadores, em estivadores, em burguesia, em operários, em exploração do homem pelo homem, em camponeses e na terra a quem a trabalha pois a canalha come palha, como as cavalgaduras.


Os ensaios nem sempre corriam como deviam. Não só porque se começaram a aperceber que a peça não funcionava como era suposto, pois não se conseguia enxergar lá muito bem o seu sentido, o que provocava acesas discussões entre os seus autores (que, é bom que se diga, pois corresponde à verdade, e, como todos bem sabemos, só a verdade é revolucionaria, eram todos), criando um mal-estar que indispunha, sobremaneira, o encenador, mais habituado a trabalhar textos de qualidade, fazendo com que a maior parte dos ensaios fossem orientados à vez pelos líderes das distintas fações existentes. Originando ainda mais barafunda e confusão, pois se um dava uma certa orientação às cenas, às falas, às músicas e à direção de atores, o que se lhe seguia fazia tudo ao contrário, tentando mostrar quem efetivamente detinha o poder.


Como todos mandavam era certo e sabido que ali ninguém obedecia. Muitas vezes, quando o encenador substituto dizia “toca a sair de cena quem não é de cena” ou saíam todos ou não saía nenhum, ou as duas coisas ao mesmo tempo, o que era ainda mais complicado de gerir e, sobretudo, de compreender.


Era extremamente difícil alguém fazer-se obedecer por quem contestava toda e qualquer autoridade pessoal. Nas poucas vezes em que aparecia o encenador titular, a maioria dos atores e figurantes tentava agir de forma a que o espetáculo ganhasse certa dinâmica e ainda algum sentido, mas a verdade é que o diretor passava quase todo o tempo a reunir com os atores principais, escolhidos exclusivamente por si, e que obedeciam a um princípio: todos gostavam muito de fumar umas ganzas. E era isso que faziam enquanto os restantes se exercitavam nos gargarejos, na colocação da voz, no ensaio de vários passos de dança e na memorização de várias falas. E andaram naquele teatro de enganos durante dois ou três meses sem que a peça adquirisse qualquer aspeto coerente. Foi portanto com um misto de espanto e incredulidade que ouviram o encenador, e diretor, anunciar que, apesar de não parecer, a peça estava pronta para ser apresentada ao público e com esse propósito indicou uma data que, curiosamente, coincidia com a primeira semana de férias grandes da estudantada.


Foi marcado o dia da estreia. Foram vendidos os bilhetes. Foram elaborados e afixados os cartazes. No dia da estreia apenas apareceram os atores secundários e o público, pois ao encenador nunca mais lhe puseram a vista em cima e os atores principais foram passar o fim de semana a Lisboa onde assistiram a um concerto de reggae.


O José nem teve tempo para se desiludir, pois, como informámos anteriormente os estimados leitores, o nosso herói fazia parte de mais dois grupos que naquele momento ensaiavam duas peças de teatro. Uma de um autor português militante do Partido ainda sem nome na praça e a outra de um autor clássico francês muito conhecido, mas de quem agora não lembramos o nome.


A primeira consistia num texto pretensamente moderno onde se tentava desmistificar o teatro como espetáculo, brincando com os estereótipos de classe. O José fazia de ator principal e ao mesmo tempo de falso encenador, muito intelectual, muito revolucionário, muito dado à causa da verdade e da revolução, todo entregue à arte e à sua glorificação. E punha máscaras e tirava máscaras e contracenava com uma diva que o tentava tirar dos espetáculos revolucionários dizendo-lhe que ele era um génio das artes cénicas e que se andava a perder no meio da populaça e do teatro dos maltrapilhos e dos famintos. Mas ele, metido dentro do seu papel, contrapunha que a arte só é arte se for revolucionária, por isso detestava a frivolidade e que o seu dom só tinha sentido se fosse orientado para servir o povo, para denunciar o mal e defender o bem. Mas temos que ser sinceros e comunicar que, apesar do texto ser vigoroso, ao José as palavras saiam-lhe sem chama nem viço. E isto porque a pretensa diva era uma rapariga desengraçada, sem voz para o teatro, com um corpo de lutadora de luta livre, com uns ombros vigorosos, com uma anca reduzida, que, apesar de bem vestida, parecia um manequim de feira, gesticulando fora de tempo, tentando seduzi-lo com a mesma sensualidade de uma senhora de oitenta anos. E como se tudo isso fosse pouco, a donzela rechonchuda estava apaixonada por ele, quase até à náusea. Perseguia-o dia e noite, mandava-lhe bilhetes, escrevia-lhe cartas, fazia-se encontrada em todas os cantos e esquinas. Um dia conseguiu levá-lo mesmo até sua casa e, numa manobra de sedução, despiu-se atrás de um biombo, vestiu um robe e puxou-o para a cama. Ele resistiu, tarde, mas resistiu. Ela deitou-se ao seu lado, por baixo e por cima dele, beijou-o, abraçou-o, acariciou-o, lambeu-o como se fosse um chupa-chupa, disse-lhe palavras doces, recitou-lhe poemas eróticos, fez trinta por uma linha, mas o José parecia que tinha sido mergulhado nas águas do Tâmega em dia de geada, por isso não conseguiu reagir. Mas nem mesmo assim a rapariga desistiu do seu amor e do seu Romeu. Já de pé, porque deitados estavam sentenciados ao adormecimento, abraçou-o pela cintura e pôs-se a falar com ele e a dizer que o desculpava pela sua fraqueza, que ainda o amava mais, se isso fosse possível, por ter demonstrado que não é o amor físico o que o atrai e que mais isto e mais aquilo. Mesmo não querendo ser indelicado, o José bem porfiou nas suas tentativas de se libertar do abraço da ursa apaixonada, mas é o libertas. Deu para perceber que a donzela dos ombros largos podia não ser lá muito prendada, mas era mulher para o agarrar com muita resolução e crença. Já ia alta a noite quando o José utilizou o último recurso, dizendo que logo pela manhã tinha um teste de filosofia no Liceu e que tinha de fazer uma direta para estudar, pois a prova era decisória. À falta de melhor fundamento socorreu-se dos versos de uma canção brasileira então muito em voga. E com a sua cara de verdadeiro ator recitou: “Além disso a minha mãe não dorme enquanto eu não chegar.” Sensibilizada com este último argumento, resolveu libertá-lo mas com a promessa de que lhe desse um tempinho para se vestir e poder acompanhá-lo a casa.


Se esta cena de amor foi deplorável, por todas as razões e mais algumas, então a da apresentação da peça nem é bom falar. A verdade é que o edifício dos “Canários” desabou perto das três da manhã, apenas cerca de vinte e cinco minutos depois de os elementos do grupo de teatro o terem abandonado após o último ensaio antes da estreia. Com a companhia salva quase por milagre, resolveu-se transferir o espetáculo para o Cineteatro da cidade. Mas existia um problema. Como a sala era enorme tornava-se extremamente difícil os atores fazerem-se ouvir sem a devida ampliação da voz através de microfones. Depois de várias e distintas experiências, chegou-se à conclusão que para serem audíveis os diálogos das diversas personagens, tinha de se semear o palco com microfones emprestados por um grupo de música rock e limitar as deslocações dos atores ao mínimo indispensável. Conclusão: todos ficaram nos seus postos a debitar o texto sem quase se mexerem. O José passou sensivelmente todo o espetáculo ao lado da atlética Julieta escutando-lhe a sua voz desengraçada ampliada pela aparelhagem. Apenas o público se portou como devia, no fim não bateu palmas, mas também não arriou porrada em ninguém por causa de tão mau desempenho.


Depois de mais um fracasso, ao José apenas lhe restou levar a sua cruz até ao calvário. Do mal o menos, na terceira peça unicamente executou a tarefa de sonoplasta.


Durante um mês, auxiliados e transportados por um camarada camponês que possuía uma carrinha de caixa aberta, calcorrearam o concelho, apresentando com assinalável êxito uma farsa gaulesa que muito fez rir o povo das aldeias, pois nisso é como as crianças, as piadas mais brejeiras e alarves são as mais bem aceites. Ai povo, povo que lavas no rio e talhas com teu machado as tábuas do caixão do senhor que escreveu a letra da citada cançoneta, a quanto obrigas. Que seja tudo pela altura do incenso.


154 – Acabada a fase do teatro começou a do ...

 

(continua)

 

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Quinta-feira, 9 de Maio de 2013

O Homem Sem Memória - 152

 

O Homem Sem Memória

Texto de João Madureira

Blog terçOLHO 

Ficção

 

152 – E lá foi a rapaziada dos “Canários” pregar a outra freguesia. Através de vários contactos estabelecidos com distintas associações de índole cultural, a que não era estranha a filiação partidária dos dirigentes, dos atores e do restante pessoal, arranjaram disponibilidade, e ajuda financeira, para rumarem até ao centro do país, para aí exibirem a sua arte.


Alugaram um autocarro onde transportaram as pessoas e o restante material necessário ao bom desempenho do seu trabalho e, carregados de boa-fé e muita esperança, dormiam em pousadas da juventude, comiam onde calhava e apresentavam o espetáculo onde fosse possível, bastava para tanto que existisse um palco, mesmo que improvisado, e um ponto de luz para ajudar no som e na iluminação.


Apesar do espetáculo estar pensado para exortar as massas à revolta e a participarem ativamente, primeiro na revolução democrática e nacional e de seguida na revolução socialista em direção ao comunismo, o sucesso da peça residia, quase exclusivamente, na “banda sonora”, especialmente no fado do tal povo que lava no rio e talha com o seu machado as tábuas do caixão do senhor que escreveu a letra da cançoneta. O único defeito para os especialistas na cantiga dos bairros de má fama, e pouca fortuna, de Lisboa, residia no facto de o fadista ser apenas acompanhado à viola pelo seu irmão. Guitarra nem vê-la. E um fado sem guitarra fica manco. Mas, mesmo assim, o povo aderia à modinha e punha-se a cantar ao lado do fadista com muito tino e afinação. Está claro que isto exasperava os atores e as atrizes com mais consciência política do grupo. Que o povo se identificasse, quase exclusivamente, com este tipo de cançoneta reacionária, monótona e desprezível, deixava-os desconsolados, pondo muitos deles a pensar e a comentar, se valia verdadeiramente a pena apostar no teatro como instrumento de ajuda no esclarecimento do povo que queriam libertar da ignorância e da exploração do homem pelo homem. Além disso, a letra falava em “chão sagrado”, o que revelava uma clara conotação religiosa, logo reacionária e trazia à baila um “aroma de urze e de lama”. “Aroma de urze”, ainda vá que não vá, agora “de lama”?, isto atingia as raias do mau gosto e da idiotice. Onde se viu alguma vez um aroma “de lama”? O que queria dizer o homem que escreveu o poema com tamanha alarvidade? E, como se ainda fosse pouco, tinha mesmo um verso em que declarava rigorosamente: “Deste-me alturas de incenso”. “Alturas de incenso”? Afinal, o autor pretende falar do cheiro do “incenso” ou das “alturas” do fumo? Ou a que raio se queria ele referir?


Estas e outras interrogações incómodas foram circulando de boca em boca, o que originou uma espécie de desconfiança não só em relação à música propriamente dita, mas também em relação ao duo de irmãos fadistas que se limitavam, depois do espetáculo, a beber fino atrás de fino sem se comprometerem com mais nada. Pouco lhes interessava o que os elementos mais revolucionários do grupo diziam acerca do fado.


A verdade é que o pessoal começou a desmoralizar e a pensar seriamente em acabar de imediato com aquele arremedo de peça subversiva. Para isso reuniram em plenário e debateram o tema com a seriedade exigida. A maioria votou a favor da posposta dos esquerdistas que propunham ou o cancelamento do espetáculo ou, então, a eliminação do fado da “banda sonora”.


Os elementos dirigentes ligados ao PC ficaram fulos pois alguns dos seus militantes, ou simpatizantes, tinham votado contra os dois fadistas que, apesar de não serem propriamente comunistas de cartão, eram simpatizantes comunistas com provas dadas. Alguém lembrou que a proposta ganhadora de se acabar com a peça ou com o fado, colidia com a circunstância de o grupo estar obrigado, por contrato, a levar a efeito os espetáculos previamente definidos. Do outro lado surgiu o comentário de que o contrato não tinha validade nenhuma pois as associações que o assinaram não pagaram um mísero tostão à passarada canarinha.


Com o grupo rachado, não restou aos presentes outra solução a não ser a de darem a digressão por terminada. Depois das despedidas conflituosas e de uma que outra palavra mais viva, ou atitude mais belicosa, meteram-se dentro da carreira e rumaram caras a Névoa. A meio do caminho, e a meio da noite também, foram mandados parar por uma brigada revolucionária do exército que estava de vigia às manobras reacionárias dos adversários da revolução democrática e nacional (imaginem só quando ela se transformar em socialista a caminho do comunismo!), pois, ao que corria como informação fidedigna, é que os spinolistas tinham intentado mais um golpe para por termo à democracia participativa e ao avanço para isso que nós sabemos.


Tudo correu bem até um dos graduados ter descoberto as fotografias com o semblante de Marcelo Caetano, de Américo Tomas e de Salazar coladas em cartão prensado e pregadas em ripas. Surpreendidos com tal achado, quiseram questionar os responsáveis pelo grupo sobre a razão de tal dislate. Não seria que por debaixo do manto de um grupo de teatro popular se pretendia esconder um bando de fascistas?


Está claro que a insinuação exasperou os presentes. Foi um problema para o militar graduado se pôr à fala com algum dos responsáveis. Como o grupo estava sem diretor, ninguém quis assumir interinamente o cargo e prestar as devidas explicações a quem de direito. Quem salvou a situação foi o José quando colocou a questão sem papas na língua: “Então acham que se fossemos verdadeiros fascistas andávamos com os retratos dos nossos líderes à vista de todos? Com os ares que atualmente por cá se respiram, essa era a fórmula perfeita para acabarmos na prisão ou em frente a um pelotão de fuzilamento.”


O argumento fez com que a tensão se dissipasse e por isso os “Canários” foram autorizados a seguir caminho rumo ao seu destino. 

 

153 – A extinção do grupo de teatro deu lugar ...

 

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Quinta-feira, 2 de Maio de 2013

O Homem Sem Memória - 151

 

O Homem Sem Memória

Texto de João Madureira

Blog terçOLHO 

Ficção

 

151 – A verdade é que a peça foi escrita, musicada, ensaiada e levada à cena em pouco tempo. Os textos todos os sabiam de cor e salteado, as músicas eram as que passavam todos os dias na rádio e os atores e atrizes eram simples aprendizes de feiticeiro intentando disfarçar-se de revolucionários.


A peça era tão popular que tinha mais figurantes que atores, sendo que os figurantes, por artes do próprio mafarrico, passavam por verdeiros atores e os verdadeiros atores, por obra e graça da emergente revolução, eram encarados como figurantes. Em tempos de mudanças aceleradas, a arte é revolucionada pela própria verdade, sendo que a verdade para uns é a mentira para os outros. E vice-versa.


Por ali andavam citados excertos de todos os bons dramaturgos da cultura ocidental, só que as referências eram todas maneiristas. Quem estava por dentro era capaz de identificar citações de Shakespeare resumidas em um “não” do Rei Lear, num “sim” do Círculo de Giz Caucasiano de Brecht, ou numa interjeição burlesco-judaica do Auto da Barca do Inferno de Gil Vicente. Mas de boas intenções está a cultura portuguesa cheia. E o teatro também.


Podemos resumir a peça em alguns momentos basilares: um bom ator com cara de parvo a fazer disso mesmo, vários comunistas a fazer também deles mesmos, o José a atuar como drogado e filho da burguesia, o José a compor o papel de membro da mocidade portuguesa, o José a fazer de escravo angolano chicoteado pelos temíveis, e terríveis, colonialistas portugueses, e no momento mais celebrado do espetáculo, o Manuel António a cantar o “Povo que lavas no rio” enquanto em palco meia dúzia de atores desengonçados se arrastavam pelo chão fazendo gemer as velhas tábuas do palanque.


Podemos dizer que a peça foi um sucesso em Névoa, terra muito pouco habituada a espetáculos tão apelativos. Pena foi que os assistentes se resumissem apenas aos militantes de esquerda e respetivos familiares. Mas serviu, pelo menos, para dar calor aos convencidos da revolução de que o seu convencimento não era em vão.


Por exemplo, a mãe do José encheu-se de chorar baba e ranho quando viu o seu rebento em cena saudar Salazar e ser apupado pelo público presente; quando o avistou derreadinho de todo debaixo de um saco de café que transportava às costas, sendo chicoteado por um feroz colonialista que, curiosamente, usava o chapéu versão africana, ou indiana, da GNR que o guarda Ferreira resolveu emprestar à comandita a pedido do filho; ou quando o enxergou aos ziguezagues e aos tombos pelo palco fora fazendo-se de drogado e filho da burguesia. Claro está que só descobriu que o José estava a representar esse malfadado papel depois de dois camaradas operários o apelidarem disso mesmo, senão, pelo menos para a Dona Rosa, o José apenas representava o papel de bêbado, imitando na perfeição o guarda Ferreira quando chegava embriagado ao lar, depois de mais uma noite de afogamento das insónias existenciais em copos de vinho nas tabernas da cidade, que eram a modos como a sua via-sacra. É bem verdade que cada filho de Deus transporta a sua cruz.


Faltaríamos à verdade se não aclarássemos que até o guarda Ferreira verteu a sua lagrimazita vendo o seu filho fazer papel de parvo. O José, na visão do seu progenitor, podia não ser parvo nenhum, mas representava esse papel na perfeição. Cada um é para o que nasce, e o José era um ás a fazer papel de parvo. Por isso fazia papel de fascista parvo, fazia papel de preto parvo, fazia papel de drogado parvo. E de tão parvo que, por momentos, todos na sala se convenciam que era mesmo parvo rematado.


Por isso o espetáculo resultou na perfeição. O idiota atuava tão bem no seu papel de idiota que todos saíam do espetáculo convencidos que era mesmo idiota; os comunistas faziam tão bem disso mesmo que ninguém diria que eram mesmo comunistas, porque na vida real até os comunistas são incapazes de fazer de comunistas tão bem como os atores que, sendo comunistas, devem tentar não o aparentar para que o público consiga distinguir a realidade da ficção, pois, por muito que queiramos, a realidade é a realidade e a ficção é outra coisa diferente. Porquanto um ator comunista pode fazer de comunista, mas nunca conseguirá sê-lo verdadeiramente. Porque um comunista nunca atua, nunca faz de conta, nunca se disfarça. Por isso é que, voltamos a repetir, é extremamente difícil fazer de comunista, mesmo sendo-se comunista. Um comunista disfarçado dele próprio é quase um paradoxo. Ninguém, nem mesmo os comunistas, conseguem representar-se a si próprios sem se sentirem ridículos. Eu sei que isto é um pouco complicado de entender, mas todos temos de fazer um esforço acrescido para que a explicação resulte. E se mesmo assim não resultar, tentem a via da tolerância e sigam em frente.


Os irmãos do José foram postos fora da sala porque convencidos, pela sua atuação de negro escravizado, de que o terrível, e temível, colonialista, lhe assentava com o chicote a valer, romperam pelo palco fora e só não lhes deram o devido troco porque a Dona Rosa lhes gritou cá de baixo que aquilo era tudo a fingir, mesmo que não parecesse.


Claro está que este desempenho criou um mal-estar no grupo cénico que fez com que, numa reunião de emergência, se discutisse se era plausível continuar com a apresentação do espetáculo em Névoa, dado que a família do José, por muito que se lhe fizesse ver que o que se passava em cena era tudo a fazer de conta, assistia sempre à peça e participava nela através do choro convulsivo da Dona Rosa e das entradas de rompante em cena dos irmãos Ferreira, perante a total impavidez do guarda Ferreira, tentando salvar o José de mais umas chicotadas, pontapés e insultos de indolência e ignorância.


Aqui que ninguém nos ouve, o diretor e demais elementos do grupo, resolveram deixar de apresentar o espetáculo em Névoa porque, de repente, as pessoas já iam aos “Canários”, não para assistirem à representação da peça que se interpretava em palco, mas sim para presenciarem o desempenho da família Ferreira na plateia.


Temos de convir que o povo tem sempre razão, mesmo que não pareça. E identifica sempre o cerne da questão, que, neste caso, era o espetáculo. E o espetáculo não se desenrolava em cima do palco, mas sim na zona do público. E isso era a inversão do teatro, revolucionário ou não. Alguns dos elementos do grupo até acharam a ideia da transferência do espetáculo do palco para a plateia como boa. Só não admitiam era que aqueles pobres coitados da família Ferreira fossem considerados atores de primeira linha, eles que não representavam nada, apenas agiam primitivamente em defesa do irmão que julgavam ameaçado, isto apesar de estarem fartos de saber que era tudo a fingir. 


Depois de um mês em cartaz, a peça levada à cena pelo grupo recreativo e cultural dos “Canários”, resolveu dar por terminada a temporada. Estava à vista de todos, até do José, que a sua família tinha dado cabo do espetáculo, pois conseguiram tirar o protagonismo aos verdadeiros atores e metamorfosear uma peça revolucionária num espetáculo de revista à portuguesa, o que era intolerável. Alguém sugeriu que se transformasse o espetáculo em itinerante, levando-o a várias vilas e aldeias dos arredores. Mas o José, também já ele farto do assédio constante da sua família, e sabendo quanto a casa gasta, lembrou que os Ferreiras eram gente para se deslocarem em grupo fazendo caravana como se fossem artistas de circo. E, ele, como era bom de ver, não os podia impedir de fazerem o que achavam por bem fazer. O 25 de Abril serviu para isso mesmo, para cada um ser livre.


Escusado será dizer que o desânimo tomou conta da rapaziada. Mas foi circunstância de pouco dura. O José disse, e bem, que existia uma maneira de resolver o imbróglio: o espetáculo tinha sim de se adaptar à itinerância, mas era necessário que rumasse a terras longe da nossa. Dessa forma, a família Ferreira, por falta de mobilidade, via-se, mesmo contra a sua vontade, privada de meios para se poder deslocar atrás da caravana nevoense dos “Canários”. Escutaram-se exclamações de contentamento na sala.


“Amigo Crispim”, ouviu-se aos de sempre na taberna próxima, “toca a trabalhar, pois a malta do teatro está de volta.” E o bêbado com a mania da filosofia tornou à sua teima: “A malta dos «Canários» é muito mais ligada à política, que é uma puta porca… do que ao teatro, que é uma porca puta, ou... o teatro é um pretexto para a porca… o que eles querem com todas estas macacadas sei-o eu bem…” e ia  a fazer um gesto feio e obsceno na direção da porta, quando o quarteto do copo e das moelas (e também do pão e das azeitonas e dos ovos cozidos e das costelinhas fritas e das pataniscas de bacalhau e dos carapaus de escabeche e das iscas de fígado com cebolada e do polvo frito e dos rojões do redenho e do caldo de pedra e da feijoada e do rancho…) o avisou: “Cala-te mas é, pois estás bêbedo como um cacho”.

 

152 – E lá foi a rapaziada dos “Canários” ...

 

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Quinta-feira, 25 de Abril de 2013

O Homem Sem Memória - 150

 

O Homem Sem Memória

Texto de João Madureira

Blog terçOLHO 

Ficção


150 – Como se os textos não chegassem para a confusão, o acompanhamento musical proposto veio ainda deitar mais achas para a fogueira. Cada sensibilidade partidária, se assim se lhe pode chamar, propunha apenas as canções dos bardos ligados à sua fação política. Nenhuma foi aprovada à primeira. Se um elemento propunha uma canção, por exemplo, do Luís Cília, logo alguém mais ligado à extrema-esquerda argumentava que esse tal de Luís era revisionista, ou social-fascista, quando não as duas coisas ao mesmo tempo. Os membros ligados ao PS não se atreviam a tanto, rejeitavam-no porque as suas canções eram muito chatas e, sobretudo, muito mal cantadas. Numa coisa todos concordaram, com a abstenção compreensível dos membros ligados ao Partido Comunista, o Luís Cília desafinava muito.


Alguém se lembrou do José Barata Moura, mas os desalinhados rejeitaram-no porque, diziam, era muito conotado com as canções dedicadas às crianças. Os mais avisados argumentaram em seu favor que, mesmo assim, quem soubesse ler nas entrelinhas facilmente se apercebia que por detrás das letras aparentemente infantis, encontravam-se mensagens muito adultas. E musicalmente era muito bom.


Os mais basistas contrapuseram que o povo a quem era destinada a peça de teatro não tinha cultura para se aperceber das mensagens encobertas e que se estava a borrifar para a qualidade da música. O povo, lembraram os mais comprometidos com a revolução a todo o custo, detestava a música, classificada pela burguesia, de qualidade. Quanto mais qualidade, menos adesão e por isso menos revolução. E o que atualmente interessava era esclarecer o povo, trazê-lo para o lado da revolução, não hostilizá-lo com merdas pseudorrevolucionárias dos intelectuais pequeno-burgueses, que provocavam a raiva e a ira de quem era pobre e simples.


Aparentemente todos estavam de acordo em que o mais importante era produzir um espetáculo para as massas, para as esclarecer e para as colocar do lado da revolução. Mas já divergiam no nível de qualidade, ou na falta dela, que tinham de dar ao espetáculo. Alguns recusavam-se mesmo a nivelar por baixo o texto – como se isso fosse possível – e a deitar borda fora a boa música e os bons textos de intervenção.


Enquanto os mais basistas defendiam que eram os intelectuais que tinham de descer ao nível do povo, os mais distintos afirmavam que essa ideia era a modos que fascista, pois o povo tem, para que a revolução triunfe, de se cultivar e aprender a apreciar e a desfrutar da verdadeira cultura.


Outros havia, como sempre os houve e haverá, que defendiam que era no meio que estava a virtude. Que o povo, para seu bem e para a sua emancipação, tinha de se elevar um bocadinho, e os intelectuais, também para seu proveito e aceitação, tinham de descer um pouco do seu pedestal e aproximarem-se mais do povo. Porque a cultura sem o povo não presta e o povo sem a cultura também não é lá grande coisa. A melhor solução era unirem esforços e prosseguirem juntos pela mesma senda do progresso e do futuro. A aliança entre os intelectuais tinha de ser feita. Por isso tornava-se necessário escolher bons textos, que fossem ao mesmo tempo de qualidade e simples, bem assim como as canções que também tinham de aliar a simplicidade com a qualidade. Alguém lembrou Fernando Tordo ou Paulo de Carvalho ou Carlos Mendes. Mas a grande maioria levantou a sua voz num coro de protestos tal que se fez ouvir no outro lado da rua. Alarido que teve o condão de ocasionar que vários dos amantes do copo e do petisco, que se encontravam na tasca já nossa conhecida, avisassem o dono da taberna de que se preparasse para trabalhar porquanto a malta do teatro estava para chegar. Alguém discordou da designação, pois, na sua opinião, a malta dos “Canários” era muito mais da política do que do teatro. O teatro para eles era um pretexto para a política. Não sabemos se por causa das avisadas palavras deste último parlante amante da pinga, ou se motivado pela boa notícia de que a passarada das artes cénicas e dramáticas estava para chegar, o taberneiro serviu uma rodada a todos os presentes, junto com o seguinte aviso: “Porque estou de bom humor, esta é por conta da casa, mas é bom que não vos habitueis, porque a vida está cada vez mais difícil. Estamos todos metidos numa grande crise.” Ao que o bêbado mais esclarecido do grupo contrapôs com toda a razão: “Os ricos que a paguem, pois apenas eles é que têm dinheiro. Nós nem para o copo amealhamos.”


E os “Canários” em bando chegaram. Em bando comeram e beberam. E em bando se foram porta fora para mais uma discussão de onde, forçosamente, tinha de surgir a luz. A claridade da reconciliação.


Mas não foi fácil. Rejeitados os cantores festivaleiros, mesmo que comunistas, da fação pró-soviética, alguém se lembrou de sugerir José Mário Branco. O clamor foi igualmente grande, pois os elementos do PC levaram-se dos diabos. Para os revisionistas, o esquerdista era inegociável. Entravam as canções dele e os punhalistas, que constituíam a maioria, se contarmos os independentes por si controlados, iam-se embora, inviabilizando o espetáculo. Falou-se de Francisco Fanhais e a cena repetiu-se. “Esquerdista e ainda por cima padre, era o que mais faltava”, indignaram-se de novo os punhalistas. Alguém se lembrou do José Jorge Letria, mas a maior parte não lhe reconheceu a suficiente qualidade revolucionária. Alguém lembrou, de novo, que para a peça só podiam ser escolhidos cantores de intervenção. “E o Carlos do Carmo?” “Quem?” “O Capachinho Vermelho!” “Esse só canta fado. E o fado é reacionário.” “Nem todo. O «Povo que lavas no rio» é uma grande canção de intervenção…” Novo brado na sala.


Na taberna ao lado, novamente se levantou o moral aos mais resistentes do copo e da noite: “Ó senhor Crispim, vá-se preparando que a rapaziada do teatro vem aí de novo.”


Alguém voltou a discordar da designação, pois, na sua opinião, “a malta dos Canários era muito mais ligada à política, que é uma porca… do que ao teatro, que é uma puta, ou... o teatro é um pretexto para a porca… o que  eles todos querem com todas estas macacadas sei-o eu bem…” e compôs um gesto feio e obsceno na direção da porta.


O taberneiro, para que o bêbedo se calasse com o seu discurso, pois no grupo dos “Canários” militavam algumas meninas de boas famílias, que por isso mesmo não podiam escutar baboseiras deste calibre, resolveu oferecer mais uma rodada de tinto e um pratinho de moelas ao quinteto que tinha resolvido pernoitar na tasca, em troca de comer, beber e calar.


E o bando chegou. E o bando comeu e bebeu. E o bando foi-se embora para mais uma discussão de onde, necessariamente, tinha de brotar a claridade do entendimento.


Voltou-se de novo à discussão de quem era ou não era cantor de intervenção, com possibilidades de vir a ser admitido. Dos poucos que ainda restavam, talvez porque todos os grupos tinham guardado os trunfos para o fim, apareceram os nomes de Sérgio Godinho, o de Adriano Correia de Oliveira e de José Afonso. Todos foram aceites. O Sérgio porque era um esquerdista moderado, que não hostilizava os revisionistas nem os socialistas, o Adriano Correia de Oliveira porque, apesar de ser militante do PC, não hostilizava os esquerdistas e era grande amigo de Manuel Alegre e da esquerda do PS, e o Zeca Afonso devido à sua qualidade, à sua honestidade e à sua militante e esfusiante humildade e também porque sim. Dos esquerdistas, era o único com quem os punhalistas não se metiam, honra lhes seja feita.


Por fim, alguém com mais sentido de humor resolveu questionar os presentes: “E então, não incluímos nenhum cantor de intervenção do PS?” “Mas não tem ninguém”, lembrou a maioria. “Alguém se lembra de algum?” “Eu”, respondeu o José. “O Paco Bandeira!”


A risada foi tão intensa que estamos em crer que foi nessa noite que a enorme trave mestra que sustentava o telhado dos “Canários” sofreu a primeira grande fissura nos tempos da democracia e que lhe viria ser fatal, como mais à frente informaremos. 


Na taberna ao lado, mais uma vez se levantou o moral ao quinteto do copo. E o mais afoito voltou a avisar: “Ó senhor Crispim, vá-se preparando que a rapaziada do teatro vem aí de novo.”


E por aqui nos ficamos, pois o resto podem os estimados leitores adivinhar sem que para isso seja necessária a nossa intervenção. Porque, bem vistas as coisas, o leitor também tem que fazer alguma coisa. N’est-ce pas?


151 – A verdade é que a peça foi escrita, musicada, ensaiada e ...

 

(continua)

 

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Quinta-feira, 18 de Abril de 2013

O Homem Sem Memória - 149

 

Texto de João Madureira

Blog terçOLHO 

Ficção

 

149 – Foi com a exposição sobre a URSS que o José iniciou o que podemos denominar como o seu ciclo dos “Canários”, que era a modos como um teatro antigo, que tinha sido sede social e sala de ensaios de uma banda filarmónica já extinta e que atualmente albergava uma pretensa associação de âmbito cultural.


Além de servir de espaço para sessões de esclarecimento das forças de esquerda, o salão tinha condições suficientes para apresentar peças de teatro ao público, pois possuía um palco, uma sala razoável para a assistência mais comum e até balcão para o público mais relevante.


Foi durante o tempo que durou a exposição que tiveram início os ensaios para a peça de teatro que um grupo de sócios e amigos dos “Canários” resolveu levar para a frente.


O primeiro passo – pois até a mais longa marcha começa com ele, como muito bem disse Mao Tsé-Tung, ou Mao Zedong –, foi definir o perfil dos elementos que podiam pertencer ao grupo de teatro. A direção da associação decidiu que apenas podiam ser admitidas pessoas comprometidas com a cultura, o que queria significar que apenas estavam em condições de pertencer ao grupo militantes ou simpatizantes de esquerda, pois a gentalha de direita abominava a verdadeira cultura. O que levantou de imediato uma outra questão: onde começava e onde terminava a esquerda.


Para uns, os elementos ligados ao PCP, a esquerda começava no MDP e terminava muito próxima do MES. Para os esquerdistas, a esquerda começava no MES e terminava um pouco além da UDP. Para os moderados e independentes, a esquerda começava no PS e terminava no MRPP.


Depois de todos os argumentos ponderados, verificou-se que se fossem apenas admitidos os elementos de esquerda considerados pelo PCP, a peça a representar tinha de ser um monólogo e se fossem aprovados os elementos de esquerda admitidos pelos maoistas, a peça escolhida tinha de ser um diálogo com não mais de duas personagens. Isto se viesse lá de baixo um encenador, pois o único conhecido por estas bandas era militante do PS.


Devido aos factos, que não aos argumentos, venceu a proposta que considerava de “esquerda” todos os partidos à esquerda do PS, incluindo-o obviamente. No entanto, houve ainda uma última discussão sobre se o MRPP podia, ou devia, ser considerado um partido de esquerda.


Apesar dos argumentos a favor serem relevantes e os contra não serem desprezíveis, a maioria votou a favor da decisão de que o MRPP, embora utilizando como símbolo a foice e o martelo e de os seus poucos militantes cantarem “A Internacional” na sua versão oficial, era um grupelho de direita. Chegando mesmo alguns dos participantes na reunião da direção dos “Canários” a apelidá-los de provocadores e agentes da CIA.


Depois de contactados os elementos que interessavam para a constituição do grupo, foi convocada uma reunião para definir qual a peça a escolher. Foram apresentadas diferentes ideias e também alguns fragmentos de vários textos. Depois de diversas leituras das peças sugeridas, instalou-se o impasse. Não havia maneira de todos se porem de acordo acerca da peça a escolher, ou porque era difícil de compreender, ou porque era pouco revolucionária, ou porque era chauvinista, ou esquerdista, ou maoista, ou tendencialmente social-democrata, ou revisionista, ou outra coisa qualquer. A verdade é que cada tendência tentava impor a peça que em reunião partidária tinha decidido apresentar aos restantes elementos do grupo. Eram tantas as propostas como as sensibilidades partidárias, excluindo o PS, pois aos seus militantes tanto se lhes dava como se lhes deu. Eles achavam-nas todas boas.


Vendo que não se chegava a acordo, o encenador propôs então uma reflexão revolucionária, o que muito estranhou aos elementos mais revolucionários do grupo, que a princípio ficaram fulos por não terem sido eles os mentores da ideia, o que veio demonstrar, por incrível que pareça, que até as invenções mais revolucionárias podem vir daqueles que não são revolucionários.


A ideia era que, dado que nenhum dos textos lidos, discutidos e comentados, tinha colhido o voto maioritário, ou melhor, unânime, dos elementos do grupo, o melhor mesmo era todos participarem na escrita de uma peça. Depois de a proposta ter sido aprovada por unanimidade e aclamação, foram comemorar para uma taberna típica mesmo ali ao lado. Comeram, beberam e cantaram noite fora. E durante o fim-de-semana resolveram dedicar todo o tempo a redigir o texto.


Escusado será dizer que cada um tentou impor a sua tendência ideológica que não sendo substancialmente diferente, exceção mais uma vez feita para os militantes e simpatizantes do PS, era pícara em pormenores: nos nomes dos dirigentes, nos lugares onde se passavam as cenas, nas citações, nas bandeiras, nas palavras de ordem, nos heróis tombados, nos heróis erguidos, nos punhos que se levantavam quando se gritava a favor do socialismo, na definição das políticas agrárias, no tipo de reformas, no tipo de greves, no âmbito das nacionalizações, no controle operário, na aposta ou não na autogestão, no tipo de autogestão, na ocupação das terras ou das casas, na necessidade ou não de uma revolução armada, no tipo de ensino, no tipo de associativismo, no tipo de unidade sindical, etc.


Muitas vezes se insultaram por causa de uma vírgula posta fora do lugar, por causa de uma canção sugerida, por causa de um poema escolhido, por causa de uma pretensa citação que indiciava uma alusão encapotada a Alberto Punhal ou a outro dirigente partidário. Por causa de uma discussão acerca de um pormenor comezinho, um militante do PRP-BR ameaçou mesmo ir buscar a G3 que trazia no carro para impor a sua versão numa cena qualquer.


Estava visto que um texto coletivo era ainda mais difícil de fazer do que a própria revolução. Isto apesar da tão propalada unidade na ação, tão ao gosto dos discípulos de Punhal.


Resumindo e concluindo, o texto que dali saiu foi de uma mediocridade confrangedora. Podemos dizer que abordava quase todos os tópicos revolucionários que se viviam na altura, mas sem aprofundar nenhum. Era uma mistura de palavras de ordem dos vários partidos, com cenas tão neorrealistas que, estamos em crer, até os mais acérrimos defensores do neorrealismo as abominariam por neorrealistas.


150 – Como se os textos não chegassem para a confusão ...

 

(continua)

 

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Quinta-feira, 11 de Abril de 2013

O Homem Sem Memória - 148

 

O Homem Sem Memória

Texto de João Madureira

Blog terçOLHO 

Ficção

 

148 – Como uma aparição virginal, vaginal e demoníaca, uma camarada entrou-lhe pela portas dos Canários dentro pronta a fazer das suas. Camarada é uma maneira de dizer, pois a verdade é que era assim considerada por ser sobrinha de um camarada angolano que estava de férias em Névoa. Mas nem tudo o que parece é. Mesmo entre camaradas.


Com idade para ainda ser considerada menina, mas com corpo para já ser observada como moçoila, esta angolana roliça com cheiro a frutas tropicais e com sabor a gindungo, era conhecida no grupo de amigos e camaradas do seu tio como uma fêmea quente como a terra onde nasceu e foi criada. Os seus pais, angolanos de nascimento, ao contrário de muito outros descendentes de portugueses da metrópole, tendo aderido há muito tempo ao MPLA e sendo seus dirigentes intermédios, com algum prestígio e certo proveito, resolveram adotar a nacionalidade angolana e ficar a construir um país novo, sem racismo, livre do colonialismo e da exploração do homem pelo homem. Em suma, eram comunistas convictos e de princípios sãos, predicados que lhes viriam a ser fatais nas diversas lutas que se travaram dentro do MPLA na luta pelo poder. A sua adesão ao Nitismo encostou-os à parede, encheu-os de chumbo e seguidamente depositou-os numa vala comum. Malhas que a revolução tece. Mas, nesta altura, ainda a procissão ia no adro e todos os militantes nitistas, chipendistas, pintistas, netistas ou de outro género semelhante, eram um por todos e todos por um no combate à UNITA e à FNLA.


Mal a fêmea entrou, sentiu o cheiro da excitação do José, e enganchou-se nele como se fosse a Jane do Tarzan. O nosso herói vacilou, mas não caiu. Isto apesar do fator surpresa, do forte impulso da arremetida e, ainda, devido ao facto da angolana ser avantajada de carnes, particularidade que ao José até lhe caía bem, pelo menos naquela altura.


Filada nele ao estilo do alien no filme que viria a ser realizado alguns anos mais tarde, Madalena, pois assim era a sua graça, chupou-lhe a boca com a mesma intensidade dos aspiradores de saliva dos odontologistas. Passado um minuto, as pernas começaram a fraquejar-lhe. Mas ele, sabendo bem onde estava, deu um passo atrás e encostou-se à parede, no espaço justo e disponível que sobejava entre dois quadros da exposição. Aquilo foi ereção para uma dezena de minutos, ou mais.


A Madalena porfiou no linguado ainda durante bastante tempo. Mas dali não passava. Era mais fogo de vista do que outra coisa qualquer. Para ela, tal acontecimento não passava de uma brincadeira, como quem vê uma atriz famosa num filme a beijar o namorado e depois a quer imitar. Já para o José, como todos sabemos, mas não contamos a ninguém como mandam as regras da boa educação, a excitação punha-o a arfar e com uma vontade louca de consumar o ato. Mas teve de se contentar com uma masturbação displicente e até custosa. A angolana era mesmo má de mãos. Para sexo explícito, dizia ela com um sorriso cândido nos lábios, ainda era muito nova.


Dois atos não consumados deixaram o José muito desanimado, sobretudo porque não conseguia convencer as suas parceiras para o ato final. Se fosse assim em relação às massas proletárias, a revolução nunca chegaria a ter sucesso, nunca chegaria a consumar-se, nunca chegaria a triunfar. E isso punha-o à beira de uma crise de confiança. Abalou-lhe profundamente a autoestima.


O José, cansado e desiludido, sentou-se numa cadeira e pôs-se a observar os quadros. A Madalena fez o mesmo, mastigando um chiclete com a mesma intensidade com que há momentos lhe enrolava a língua na boca. Ele nem queria acreditar, gozado por uma garota e desprezado por uma estudante do Liceu armada em dirigente associativa zeladora da sua virgindade. Era mau de mais para ser verdade.


“Para o que olhas tu?”, perguntou-lhe a angolana, versão república popular. “Para nada”, respondeu-lhe ele com a fadiga e a deceção estampadas no rosto e refletidas na voz. “A mim parece-me que estás a olhar para essa ginasta loira que tem as pernas demasiado abertas. Ou melhor, parece-me que estás a olhar para o meio das pernas dela. Não te chegou?”, disse ela. E ele, cansado, retorquiu: “Praticar a sexualidade da maneira como nós o fizemos parece coisa de crianças quando brincam aos médicos ou aos namorados.”


Ela não disse nada, limitou-se a sorrir e a avisá-lo que lhe desse espaço para poder mostrar tudo aquilo de que era capaz enquanto ginasta. Como as calças lhe eram apertadas, despiu-as, despiu também a blusa, descalçou os sapatos e em cuecas e sutiã começou para ali a cabriolar em posições tão estranhas e arrojadas que o José chegou a temer pela sua integridade física. Ela só dizia: “Olha para mim. Olha para mim. Não te excito. Vês como sou boa. Eu também sou capaz de abrir as pernas tanto como a russa. Ou ainda mais.”


O José, tonto por ver a rapariga a rodopiar, a fazer a espargata, glosas e flique-flaques, mandou-a parar, antes que fosse tarde de mais, partisse algum membro e tivesse de a levar ao hospital.


Ela obedeceu. Foi sentar-se a seu lado e estabeleceram o seguinte diálogo: “Queres que te beije de novo?” “Não.” “Queres que te… como se diz em português de cá?” “Que te masturbe…” “Não, eu não estou habituada a chamar-lhe assim. Os meus colegas chamam-lhe outra coisa…” “Não.” “Mesmo.” “Sim.” “Sim, o quê? Que te mas…” “Não.” “Porquê?” “És má de mãos.” “O quê?” “Estou a brincar. Mais a mais, estamos aqui na presença dos maiores comunistas do mundo. Estão a olhar para nós. O Brejnev e o Alberto Punhal estão a olhar para nós.” “Sim, estão, mas não nos veem. Os dirigentes só veem o que lhes interessa.” “Não digas isso.”


Ela então levantou-se, deu mais uns quantos pulos e vestiu-se. O José também se levantou para a observar melhor. Ela então preparou-se para mais um assalto, pelo menos foi isso o que o José pensou. Pelo sim, pelo não, sentou-se de imediato. Ela sentou-se a seu lado. O José então contou-lhe que a sua excitação lhe tinha vindo diretamente da observação da real beleza do socialismo que as fotografias mostravam.


Ela riu-se e disse: “Excitas-te com pouco. E com mentiras.” “Como assim?” “Tudo o que aí vês é mentira. Ou melhor, todo o ar de felicidade que as fotografias espelham é falso. Eu já lá estive e vi. Os russos são um povo triste e desalentado. Vestem mal, comem mal, não têm roupa digna, não têm papel higiénico, nem sabão. Achas que uma sociedade avançada não é capaz de produzir papel suficiente para os seus cidadãos limparem o cu? Achas que uma sociedade desenvolvida não é capaz de fabricar sabão para o seu povo tomar banho? Os soviéticos estão tão contentes com o socialismo que se emborracham com vodka até caírem para o lado. Eu vi como muitos deles eram encontrados pela manhã mortos e enregelados, como as pescadas que vemos nos frigoríficos. Isto apesar das bebidas alcoólicas estarem praticamente proibidas. Bem, lá quase tudo está proibido. O que vês nas fotos é uma realidade fabricada. É tudo montagem. Eu vi o Brejnev na Praça Vermelha. Em relação ao que aí vês, o real tem mais cem anos. O Palácio de Inverno, o Bolshoi e alguns edifícios são idênticos, mas o resto é fabricado. É apenas um filme onde só passam as cenas bonitas. A grande maioria dos apartamentos é miserável, além de pequenos. A maioria deles são habitados por várias famílias. Os hotéis são miseráveis. As lojas não têm o que vender, quase não há carros. Lá é tudo frio…”


“Então como explicas as viagens espaciais, os mísseis, as bombas atómicas, os navios de guerra, as…”


“Pois, é isso mesmo: o comunismo soviético é apenas uma máquina de guerra. Para que ela exista o seu povo morre à míngua de pão, de liberdade, sabão e papel higiénico. O socialismo colocou um homem, uma mulher e uma cadela no espaço, fabricou bombas nucleares para destruir o mundo inteiro, mas foi incapaz de produzir máquinas de calcular para que os funcionários das lojas façam as contas. Na URSS usa-se ainda o ábaco.”


“Não acredito”, disse o José. “Nem eu quero que acredites tão depressa”, avisou-o a Madalena. “Senão eras bem capaz de pegares fogo a isto tudo. Leva-me a casa que estou cansada.”


“Queres que te leve às carrachulas?” “Às quê?” “Às costas.” “Não é preciso.”


149 – Foi com a exposição sobre a URSS que o José...

 

(continua)

 

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Quinta-feira, 4 de Abril de 2013

O Homem Sem Memória - 147

Ainda para hoje, um post especial que será publicado às 17H30, mas para já, fica o "Homem sem memória".

 


 

 

 

O Homem Sem Memória

Texto de João Madureira

Blog terçOLHO 

Ficção

 

147 – Mais uma vez o José foi ter com o seu amigo, e camarada, Graça para lhe dar conta do sucedido. Ele perguntou-lhe o que tinha acontecido. O José contou-lhe tudo. Vai daí, o Graça comentou: “Vejo que és o protótipo do Marialva comunista. Primeiro o sexo, depois o pão, perdão, a revolução. Visto que já não há volta atrás, apenas te resta o trabalho unitário… a tempo inteiro. E vem-te mesmo a calhar, pois acabou de chegar uma exposição sobre a União Soviética e tu, como membro da Associação de Amizade Portugal-URSS, vais ficar com a responsabilidade de a ires montar nos Canários.”


“Mas eu não faço parte dessa associação!”, exclamou o José. “Qual delas?”, questionou o amigo, e camarada, Graça. “Da primeira”, respondeu o camarada unitário, e amigo, José. Ao que o camarada, e amigo, Graça retorquiu: “Mas desde este momento passas a fazer. E lembro-te que o seu presidente é o General Costa Gomes.”


“Sim, um independente como eu. Vá, não brinques com coisas sérias”, verbalizou o desatento jovem bolchevique nevoense José. “Tu bem sabes que eu não brinco com o Partido, pois o Partido não é para brincadeiras. Que te fique de exemplo a Escola de Pioneiros”, rematou o camarada, e amigo, Graça.


Para transportar e desembalar as caixas com as fotos, a secção de Informação e Propaganda ainda deu uma mão, mas foi sol de pouca dura, pois mal a noite arribou, cada um foi para seu canto e não mais apareceu para o que quer que fosse. Mas, em boa verdade, o José até gostava mais assim. Não estar ali alguém que o incomodasse, para ele era um alívio. Aos poucos, foi desembalando as fotografias e, uma a uma, lá as foi colocando na parede seguindo as instruções escritas que superiormente lhe forneceram.


A exposição era enorme e a sala dos Canários era pequena, originando que os quadros ficassem uns em cima dos outros, como camaradas num comício. Mas se num comício fica bem aos camaradas estarem aglomerados para exibirem unidade e força, numa exposição já o mesmo não se passa. Mas o ótimo é inimigo do bom (princípio filosófico presumivelmente marxista versão soviética); quem não tem cão caça com um gato (princípio filosófico presumivelmente marxista versão chinesa); ou mesmo com um rato se ele for leiranco (princípio filosófico presumivelmente marxista versão portuguesa).


As caixas de papelão e os plásticos onde vieram embrulhados os quadros foram amontoadas no palco onde se mantiveram até ao final da exposição, sempre com o pano de cena corrido para não dar nas vistas.


Depois de montada, seguindo a numeração estipulada, o José foi o primeiro a admirá-la com um sorriso estampado no rosto e, porque não dizê-lo sem rodeios, com a pele arrepiada, o que nele era sinal de grande emoção.


Tudo nas fotos era apologético. Os blocos de apartamentos que celebravam a modernidade eram enormes e de uma geometria verdadeiramente científica e marxista-leninista. E sucediam-se uns aos outros como uma floresta de betão armado, tão armado como a pátria do socialismo comunista, ou do comunismo socialista. As fábricas eram imensas, limpas, repletas de máquinas espantosas e de operários que transpiravam felicidade e boa disposição. Fossem homens ou mulheres, jovens, velhos ou gente de meia-idade, todos sorriam com um sorriso tão natural que até parecia artificial. Mas de artificial não tinha nada. Na URSS, a Pátria do socialismo científico e de Lenine, Estaline e Brejnev, nada havia de artificial, tudo ali era fruto do trabalho de operários e camponeses, fossem homens ou mulheres, militantes ou simpatizantes do Partido Comunista da União Soviética, e do engenho dos seus dirigentes que eram os melhores comunistas do mundo. Razão tinha o camarada Alberto Punhal, a URSS era o sol da Terra, era quem iluminava o mundo, quem lhe abria os horizontes, quem apontava o rumo a seguir a todos os explorados da humanidade. A altura dos edifícios estonteava-o, as fotografias onde se via o camarada Brejnev, a sorrir e a acenar às massas na Tribuna da Praça Vermelha durante o desfile do 1º de Maio, enchiam-no de entusiasmo revolucionário. Em várias fotografias aparecia o camarada Punhal a ser cumprimentado e beijado pelo camarada Brejnev. Alberto Punhal sorria, Brejnev sorria, os camaradas da delegação portuguesa ao congresso do PCUS sorriam, os camaradas da comissão de receção do PCUS aos convidados ao congresso do PCUS sorriam, os polícias sorriam, as estátuas sorriam, até Lenine sorria em várias fotografias que enquadravam o camarada Brejnev, enquanto discursava, brilhava ou acenava. As cores do Palácio de Inverno eram tão intensas que resplandeciam, enchendo os olhos de quem as observava. Então que dizer da Praça Vermelha. A Praça Vermelha era tão vermelha, mas tão vermelha, que toda a gente percebia logo à primeira observação porque lhe chamavam assim. As filas para visitar o mausoléu de Lenine davam várias voltas ao edifício e ainda se estendiam por centenas, senão mesmo milhares, de metros de empedrado. Militares do exército vermelho sorriam enquanto tiravam fotografias às namoradas e às mulheres, ou eram fotografados por elas, ou por algum camarada que por ali passava. Os filhos sorriam para os pais, os pais sorriam para os filhos, os avós sorriam para os filhos e para os netos, os netos sorriam para os avós e para os pais, os polícias sorriam para as pessoas, as pessoas sorriam para os polícias e a guarda de honra do mausoléu de Lenine marchava como se os seus elementos fossem incríveis ginastas com pernas quase até ao pescoço, enquanto as pessoas os admiravam sorrindo. Nos hospitais os médicos sorriam para os doentes e os doentes sorriam para os médicos como se não tivessem maleita nenhuma. Nos concursos de ginástica, os ginastas sorriam quando ganhavam medalhas, mas também quando não as ganhavam.


O verdadeiro socialismo era assim, a todos punha bem-dispostos, quer estivessem a trabalhar ou a descansar, a ler ou a dormir, a correr ou parados, nas bichas para o pão ou nas filas para o cinema, na bicha para o sabão ou na fila para o teatro, na bicha para a carne ou na fila para o balé. Até a cadela Laika sorria à sua maneira dentro da cápsula que a levou para o espaço. Podem não acreditar, mas na pátria do socialismo científico até os animais tinham outro comportamento. Não é que sorrissem, mas quase. Não é que falassem, mas quase. Não é que fossem gente, mas quase. Gagarin também sorria a bom sorrir e a camarada Valentina Tereshkova, a primeira mulher no espaço, também ria com toda a sua simplicidade proletária, filha de proletários.


Viver na URSS era como habitar no paraíso. Ou quase, pois nem tudo ainda era perfeito. Mas para lá marchava. Até nisso o camarada Brejnev e o camarada Alberto Punhal eram sinceros e verdadeiros, honra lhes seja feita: a URSS ainda não era uma sociedade comunista, mas para lá caminhava a passos largos.


Quando chegou ao fim da exposição, o camarada José, de tão entusiasmado, voltou ao início. E admirou mais uma vez aquela realidade toda. As fotografias não enganavam. Tudo ali era o testemunho de que o socialismo no mundo inteiro só podia triunfar. Na URSS não se via pobreza e respirava-se liberdade. Não se viam muitos carros, mas em contrapartida os transportes púbicos abundavam e o metro de Moscovo, o melhor e o mais belo do mundo, estava sempre cheio, mas nunca a abarrotar. E as mulheres eram lindas e loiras e bem proporcionadas. E sorriam sempre. Os homens também não eram desengraçados. As crianças tinham um ótimo aspeto e via-se logo que eram inteligentes. Falavam sempre ajuizadamente, esperavam a sua vez, não diziam disparates e comiam sempre nas cantinas uma comida cientificamente preparada para as tornar fortes, espertas e sadias. Por isso eram sempre os melhores atletas do mundo e também os melhores cientistas. Lá não existiam igrejas, nem padres, nem beatas. Os templos tinham dado lugar a museus ou tinham pura e simplesmente sido arrasados. Lá ninguém se ajoelhava perante Deus. Lá não existia Deus, só homens e mulheres de boa vontade. Lá ninguém se drogava, ninguém se prostituía, nem ninguém passava fome. Lá o que havia mais era fartura. Mas não havia desperdício. Isso é que era bom! Tudo o que lhes sobrava, os camaradas soviéticos distribuíam pelos povos necessitados do mundo: máquinas, medicamentos, roupa, calçado, armas, muitas armas, e mesmo sanitas, mas, e voltamos a repetir para que conste, sobretudo armas, muitas armas, mas também calçado, roupa, medicamentos, máquinas e até sanitas. Tudo, mas mesmo tudo o que lhes sobrava, eles, os camaradas soviéticos, distribuíam aos povos explorados e oprimidos do mundo, para se libertarem do jugo imperialista e capitalista.


Se todas as fotografias eram impressionantes na sua realidade reveladora, então o que dizer das que retratavam os desfiles comemorativos da Revolução de Outubro. Tudo nelas era de uma beleza arrepiante. A disposição geometricamente perfeita das pessoas que desfilavam com passos perfeitos dentro das suas roupas, ou das suas fardas, perfeitas, a perfeição dos gestos, a perfeição dos sorrisos, a perfeição dos acenos, a perfeição da pose dos dirigentes do PCUS na tribuna, a perfeição do alinhamento das medalhas que o camarada Brejnev ostentava no peito e que demonstravam, até à exaustão, a sua bravura, a sua dedicação e a sua sábia liderança que tinham levado a URSS a ser a maior e a mais digna nação do mundo.


Duplamente arrepiante eram as fotos onde se via o poderio militar soviético. Os exércitos desfilavam de tal forma perfeitos e arrumados que até pareciam de chumbo. Os carros de combate eram aos milhares. Lá nas alturas de Moscovo esquadrilhas de aviões rasgavam os céus deixando impressas no seu azul linhas de fumo tão perfeitas que até pareciam pintadas. E então que dizer dos mísseis! Bem, os mísseis intercontinentais eram impressionantes. E eram tantos que podiam destruir o mundo de um momento para o outro. Por isso é que as potências ocidentais tinham medo da URSS. Por isso é que ainda não a tinham atacado para destruir o socialismo que lá se construía com toda a sabedoria comunista. Ai de quem tivesse o atrevimento de se meter com a pátria de Lenine. Era atrevimento para nunca mais. Por isso é que o camarada Brejnev ria com aquele seu sorriso de urso polar. Um abraço seu e era a morte do artista.


Tão excitado ficou o camarada José com mais esta segunda ronda, que lhe apeteceu masturbar-se. Mas conteve-se. Uma exposição da URSS não era propiamente um filme com a Sofia Loren. Mais respeito, rapaz. Mais respeito. Ainda olhou mais uma vez para uma ginasta que fazia umas acrobacias a modos que provocantes. Mas quando olhou na outra direção deu de caras com uma foto onde o camarada Alberto Punhal estava com uma expressão tão séria e marxista-leninista que fez com que do entusiasmo e da excitação passasse à circunspeção.


O comunismo pode ser excitante, como muita coisa na vida, mas não é para aí que apontam as suas armas. Cada coisa a seu tempo, cada coisa no seu lugar. Assim é que é. 


148 – Como uma aparição virginal, vaginal e demoníaca, uma camarada ...

 

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Quinta-feira, 28 de Março de 2013

O Homem Sem Memória - 146

 

O Homem Sem Memória

Texto de João Madureira

Blog terçOLHO 

Ficção

 

146 – O José foi formalmente dispensado das suas obrigações partidárias e compelido a cumprir uns meses de militância unitária, frente que andava muito descurada, quer pela deserção dos militantes mais sérios, que já não conseguiam disfarçar por mais tempo a sua militância comunista, quer porque a gente que por ali se encontrava ao deus dará era realmente sensaborona, titubeante e muito complicada de gerir, quer no espaço político propriamente dito, quer dentro do seu núcleo social.


O José detestava-os, não porque possuíssem a estranha mania da independência, mas porque faziam disso uma máscara para se protegerem especialmente dos ataques da esquerda e também para não serem hostilizados pela direita, onde tinham os amigos ou maior parte dos familiares. Afirmando-se de esquerda, davam-se bem com a direita e inclinavam-se para o centro.


Além da sua versão independente na associação de estudantes do Liceu, o José vestiu este seu novo fato unitário para conceder a si próprio um ar mais credível. E, de facto, cresceu em prestígio aos olhos da sua querida amiga Isabel, que, bem vistas as coisas, era o que mais lhe interessava no momento.


Por isso dedicou-se ao trabalho associativo com muito afinco, organizando principalmente sessões e eventos culturais. E cumpria as tarefas com satisfação. Quando calhava estar por perto a sua querida presidente, o prazer era redobrado. À falta de melhor tática, tornaram-se companheiros inseparáveis que estudavam emparelhados, passeavam muito e até se apalpavam e beijavam com tanto afinco que não era raro terem orgasmos simples e sinceros que lhes sabiam pela vida. No entanto, que nós saibamos, nunca chegaram a vias de facto, mas andaram lá muito perto. E foi isso que estragou tudo.


A Isabel, prudente como era, travava sempre a tempo. Ou melhor, refreava o José quando ele já estava tão empenhado no ato que nem dava conta que a Isabel fechava as pernas para lhe impedir a ousadia. Quando finalmente se apercebia da conjuntura, barafustava muito, mas sempre em vão. A Isabel prezava, e protegia, a sua virgindade com toda a perseverança de mulher de princípios. Não queria perder a sua independência, não queria ficar presa a alguém vítima de um ato irrefletido. Para casar ainda era nova e primeiro tinha de tirar um curso para poder escolher com quem queria viver a sua vida. E esse alguém, quando a levasse, “tinha de a levar inteira”, como gostava de afirmar.


O José porfiou e tornou a porfiar, chegando a confessar-lhe que a amava muito, que queria casar com ela, que mais isto e mais aquilo. Mas a Isabel, quando chegava o momento decisivo, fechava as pernas e dava por terminada a sessão. O José ficava colérico e, muitas das vezes, desorientado. Explicava que lhe custava sair daquele tipo de situações sem sofrer. Contava-lhe que sofria como um cão. Não terminar o ato deixava-o quase sem ar, vermelho e ofegante. Mas a Isabel não cedia, contrapondo que também ela sofria de um mal muito parecido, mas que nestas coisas do amor, quem fica com as marcas e as sequelas são sempre as mulheres. Ele disse-lhe que quando vinha ter com ela trazia sempre no bolso um preservativo, que por isso nada tinha a temer. A Isabel sorriu e disse-lhe que com ela o prazo de validade da camisinha ia ser ultrapassado, com toda a certeza. Ele explicou-lhe que tinha comprado não só um mas uma caixa deles. Ao que ela respondeu que ele era um rapaz com expectativas muito elevadas, mas que nestas coisas do amor carnal é preciso a concordância do par. Ele apelidou-a de conservadora e reacionária, que os tempos que viviam atualmente eram de liberdade, fraternidade e igualdade e que por isso mesmo estava na hora de destruir alguns tabus, nomeadamente esse da virgindade. Ela então perguntou-lhe se era virgem. Ele disse que não. Que não era homem para lhe dizer que a virgindade era um tabu e um mito reacionários sendo ele virgem. Ele era lógico. Ele aliava a teoria à prática. Ele era científico. Mesmo não parecendo, era um revolucionário coerente. A Isabel respondeu-lhe que também ela era coerente, mesmo não sendo revolucionária. Que para si a virgindade era como um escudo protetor. Era uma coisa que se partilha apenas com alguém muito especial. Era a prova de fogo do amor. Ele então perguntou-lhe se não o amava. Ela sorriu. Ele voltou a perguntar. E ela voltou a sorrir. Ele insistiu na pergunta mais uma vez. Ela então respondeu-lhe que sim, que o amava, mas que ainda não sabia se o amava o bastante para lhe dar o que pretendia. Ele beijou-a e tornou a beijá-la. Beijou-a copiosamente e com benefício. Ela respondeu na mesma moeda. Engalfinharam-se com muito empenho e com intensa loucura. E estiveram naquele enlevo de alma ledo e cego que a fortuna não deixa durar muito tempo bastante para atingirem o ponto de ebulição. O José então pegou no preservativo, colocou-o como ensinavam as regras das boas práticas sexuais e mais uma vez tentou. E tentou. E voltou a tentar. Mas as coxas da Isabel, depois de fechadas, eram como as portas da gruta do Ali-babá, só uma palavra mágica as podiam desatravancar de modo a deixar que lá penetrasse quem devia penetrar. E, pelos vistos, nem o José era o Ali-babá e muito menos sabia a palavra mágica que abria o que devia abrir.


O José, vendo que mais uma vez dali não levava nada, foi-se embora prometendo que era um adeus definitivo. Que não estava para aturar mais atitudes preconceituosas da Isabel. Ela então encolheu-se dentro do seu desejo, e da sua desilusão, e disse-lhe que se fosse embora o mais rápido possível, que ali já não fazia nada. Que o seu amor era como uma ejaculação precoce. Quem declara que pensa em amor mas apenas pretende sexo, não passa de um animal vítima dos seus próprios instintos. Depois chorou. Ele então guardou o seu desejo no sítio recomendado às pessoas sensatas e tentou beijá-la de novo, mas foi parado com um grito tão intenso que até o cão da vizinha se pôs a ladrar como se tivesse visto um salteador. O José ficou sem pinga de sangue. E foi-se dali tão desgostoso como quando acabou de ler o livro de poemas “Só”, de António Nobre, que o próprio autor definiu como o livro mais triste de Portugal.


Escusado será dizer que o seu trabalho unitário na associação de estudantes acabou mesmo ali. E sem honra nem glória.

 

147 – Mais uma vez o José foi ...

 

(Continua)

 

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Quinta-feira, 21 de Março de 2013

O Homem Sem Memória - 145

 

O Homem Sem Memória

Texto de João Madureira

Blog terçOLHO 

Ficção

 

145 – Mas esta história de relatórios de crítica e autocrítica, de relatórios críticos sobre relatórios de crítica e autocrítica e ainda de relatórios críticos sobre os relatórios críticos de crítica e autocrítica deram lugar a uma espiral de relatórios críticos que ainda hoje estamos para perceber onde terminou.


Podemos no entanto afirmar que, pelo menos à escala dos nossos parcos conhecimentos, o camarada funcionário se viu na obrigação de escrever um relatório sobre os relatórios que lhe chegaram às mãos, bem assim como sobre os textos livres (ou não, mas não queremos entrar aqui em polémicas desnecessárias) dos camaradas pioneiros, coisa que muito tempo lhe ocupou e que muito sacrifício lhe exigiu, tendo mesmo pedido ao camarada José para lhe realizar um esboço que ele depois remataria com a ajuda do camarada Graça.


Ora, tão intricada tarefa criou um mal-estar na concelhia de Névoa que viria mais tarde a dar que falar e a definir algumas amizades e, sobretudo, a criar muitas e definitivas inimizades. Com a agravante de que, como todos sabemos, os marxistas-leninistas quando se zangam é para sempre.


O camarada funcionário, colocado pela direção regional do Norte entre as foices, os martelos e as estrelinhas do seu partido, resolveu distribuir o mal pelas aldeias. A fazer um relatório sobre a problemática da Escola dos Pioneiros tinha de chamar à pedra cada um dos intervenientes, pois eram todos ou culpados, ou inocentes, no problemático processo do seu encerramento. Ali não podia existir meio-termo. Essa era a estratégia.


A primeira coisa que fez foi reunir a Comissão Concelhia de Névoa e solicitar a cada membro efetivo, e também aos suplentes, como não podia deixar de ser dentro de um coletivo que baseava a sua razão de ser nos consensos mais alargados, um relatório sucinto, explícito e autêntico sobre a participação de cada camarada no processo.


Quando ouviram tal proposta, todos os camaradas ficaram com cara de caso. Muitos deles apenas tinham participado no assunto da Escola ao nível elementar de uma reunião onde se discutiu quem ficava responsável pela sua direção e quem lá ia ministrar aulas. Depois nunca mais tinham, sequer, pensado nisso. Aí o camarada funcionário foi aos arames.


“Por isso mesmo é que têm de fazer um relatório crítico e autocrítico sobre a vossa falta de disponibilidade e de terem encarado esta problemática com toda a leveza pequeno-burguesa que o nosso partido tanto critica”, disse sem se atrapalhar o camarada funcionário.


“Essa é que era boa!”, exclamaram, e repisaram, muitos dos presentes. “Tu vieste para aqui com a decisão tomada e agora queres que assumamos culpas no cartório numa coisa em que não fomos tidos nem achados? Era o que mais faltava. Se existiram coisas que correram mal na escola isso é da inteira, e exclusiva, responsabilidade do camarada José.”


“Ai é? Ai é?”, interpelou ironicamente o camarada funcionário para depois responder: “A culpa é de todos nós, camaradas. Se bem me lembro, aqui todos se eximiram de responsabilidades despachando tudo para cima dos ombros do camarada Graça, ou, o que ainda é mais grave, para cima dos meus. Ninguém teve a coragem de assumir qualquer tipo de responsabilidade ou tarefa na Escola. E como nem eu nem o camarada Graça tínhamos disponibilidade para juntar mais uma tarefa às milhentas que já desempenhamos, empurraram o assunto para o camarada José, mesmo sabendo que ele era criticista, ou lá o que é, e que, portanto, podia arranjar problemas no desempenho da sua tarefa.”


O camarada pai do camarada pioneiro João, vendo que as coisas tendiam a complicar-se resolveu atacar: “Vais-me desculpar, mas quem indicou o nome do camarada José não fomos nós, foi o camarada Graça.” “Desculpa-me lá camarada, mas deixa que te faça uma pergunta: Quem são os “nós”?” Ao que o camarada pai do camarada pioneiro João respondeu: “”Nós” somos todos aqueles que não participaram ativamente na Escola de Pioneiros.” “Vês, estás a dar-me razão. Vocês não participaram ativamente, e sublinho o “ativamente”, na Escola de Pioneiros, logo recusaram-se a aderir a uma iniciativa do Partido decidida pelo Comité Central, daí o serem culpados pelo seu encerramento”, disse o camarada funcionário já um pouco fora de si. “E é sobre isso que devem falar no vosso relatório de crítica e autocrítica. Ou, dito de outra forma, para ver se os camaradas entendem melhor, no vosso relatório deve apenas constar a autocrítica, pois, pelo que estou a ver, a crítica que fazem ao processo da Escola de Pioneiros é demagógica e…” “… Pequeno-burguesa…” “… Sim, pequeno-burguesa”… “… E de fachada socialista…” “… Sim, e de fachada socialista. Obrigado por mo lembrarem. Tem a palavra o camarada Graça.”


O camarada Graça tomou a palavra para lembrar que a decisão da escolha do nome do camarada José para dirigir, e dar aulas, na Escola de Pioneiros foi do coletivo e não dele. No que foi interrompido pelo camarada pai da camarada pioneira Lídia que lhe recordou o facto de ter sido ele quem teve a infeliz ideia de lembrar, e recomendar, o nome do seu amigo para desempenhar a tarefa.


Aí o camarada Graça deu um murro na mesa e disse que não admitia insinuações desse tipo, pois ele nunca confundiu as relações pessoais com as tarefas partidárias, ao contrário do camarada que tinha acabado de falar que travava dentro do partido uma guerra surda com outros camaradas para alcançar o desiderato de ser ele a dirigir a célula dos professores e não o camarada que atualmente desempenhava tal cargo.


Vendo que a discussão estava a entrar por um caminho nada recomendável, e muito pouco marxista-leninista, convenhamos, o camarada funcionário pediu licença para propor um pequeno intervalo pois tinha de fazer um telefonema para o Porto para contactar o seu camarada controleiro no sentido de receber diretivas mais precisas sobre o assunto em epígrafe (Perdão camaradas leitores, não, camaradas leitores não, leitores camaradas ou de outro tipo, desculpem-me a confusão. Por vezes os narradores também são vítimas da síndrome de Estocolmo, entre outras coisas.), em discussão.


Quando a comissão concelhia de Névoa do Partido Comunista se voltou a sentar à volta da mesa, o camarada funcionário estava ainda agarrado ao telefone e a escrever o que alguém lhe dizia do outro lado da linha. Foi com cara de poucos amigos que articulou o que a seguir relatamos.


“Camaradas, quero que saibam que liguei para o máximo responsável da Direção Regional no sentido de saber se existia alguma possibilidade de terminarmos com a problemática dos relatórios já aqui, pois, pelo que me apercebo, a questão pode trazer-nos vários e distintos problemas. As opiniões são muitas e diversas, mas a realidade objetiva é só uma: a Escola encerrou e, ao que parece, o Partido quer saber de quem é a culpa. E daqui não sai. Porque a responsabilidade política tem de ser de alguém. Não de uma pessoa só, mas de um organismo, já que aqui no Partido a responsabilidade, tanto nos êxitos como nos fracassos, é do coletivo, não das pessoas individualmente. Relativamente aos relatórios, infelizmente as notícias são más, todos vão ter de fazer o seu e nele vão ter de assumir a sua cota parte de responsabilidade. Disseram-me que no Partido a culpa não pode morrer solteira. E daí não saem. Daí ninguém os tira. Além disso, o camarada com quem falei disse-me que também ele, coitado, foi incumbido de elaborar um relatório que tem de entregar ao camarada que o controla para, também ele, elaborar o seu relatório que tem de entregar na sua secção que, por seu lado, vai ter de elaborar um relatório conclusivo que vai ser entregue em mão ao camarada Secretário-Geral que elaborará um relatório final para o Comité Central discutir e aprovar, para depois serem tomadas as convenientes decisões. E por agora é tudo.”


Para terminarmos o assunto da Escola de Pioneiros, informamos os estimados leitores, e os distintos companheiros de luta, que da análise do relatório do camarada Secretário-Geral resultou a destituição do camarada do Comité Central com a pasta da organização dos pioneiros, que passou a suplente da direção de um organismo regional; a transferência do camarada da direção regional do Norte para os Açores e também a deslocação do camarada funcionário do Partido em Névoa para o Minho. Ao Graça foi-lhe negada a inscrição, e participação, numa turma de militantes que iam para a URSS frequentar a Escola de Quadros e aí aprenderem a ser funcionários comunistas de primeira.


Aos restantes intervenientes no processo, o Partido resolveu não aplicar nenhuma sanção especial, limitando-se a mandar elaborar uma pequena ficha secundária, para apensar à principal, com a indicação da prática de trabalho fracionário em pequena dimensão. A princípio ainda foi aventada a hipótese de expulsar do Partido todos os elementos da Comissão Concelhia, mas isso era o mesmo que acabar com o Partido em Névoa, pois, apesar de poucos e maus, isto segundo as conversas informais dos dirigentes nacionais, eram eles que davam corpo ao Partido. Era preferível poucos e maus do que nenhuns. 

 

146 – O José foi formalmente dispensado...

 

(continua)

 

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Quinta-feira, 14 de Março de 2013

O Homem Sem Memória - 144

 

O Homem Sem Memória

Texto de João Madureira

Blog terçOLHO 

Ficção

 

144 – Ao camarada Graça também lhe exigiram um relatório, não de crítica e autocrítica, como era habitual, mas antes analítico sobre o relatório do “seu” camarada José. E fizeram-lhe sentir as aspas.


O camarada Graça tentou ainda falar com o funcionário às boas para que lhe fosse retirado esse encargo, mas o funcionário disse-lhe que nada podia fazer já que as diretivas vinham lá do alto e que também ele tinha recebido ordens expressas para elaborar um relatório final sobre toda a situação, onde devia obrigatoriamente incluir os dados relevantes de todos os outros relatórios, inclusive dos textos das camaradas crianças, ou melhor, dos camaradas pioneiros, que, não sendo propriamente relatórios, para os devidos efeitos passavam a sê-lo, pois, como muito bem diz o povo, na sua infinita sabedoria, mais vale sê-lo que parecê-lo.


O camarada Graça tentou, logo desde o início, demarcar-se ardilosamente da situação. Pelo menos foi essa a estratégia gizada. Mas um texto nunca é aquilo que temos pensado, é sempre algo mais, e substancialmente distinto, do propósito inicial. Ei-lo, o documento, claro está, como o encontrámos no arquivo do Gulag Português.


«Vou tentar começar pelo princípio, por isso convém esclarecer que a Escola de Pioneiros foi uma imposição do Partido que visava prosseguir a diretiva de criação de escolas destinadas aos filhos dos camaradas militantes, e também de alguns camaradas simpatizantes, com o firme propósito de educar, desde a mais tenra idade, os filhos dos nossos camaradas nos princípios e nos valores do marxismo-leninismo, enfim, do comunismo.


Eu ainda tentei levar a diretiva à reunião da comissão concelhia mas o camarada funcionário proibiu-me determinantemente de pôr à discussão uma decisão do Comité Central, argumentando que não se levam decisões da mais alta instância do Partido a reuniões das concelhias, pois isso inverte, e subverte, toda a lógica do centralismo democrático. Reconheço que até é capaz de ter razão, mas a minha intenção era boa. Pelo menos era honesta.


Na dita reunião limitei-me a dar conta aos camaradas de que tinha ordens superiores para implantar em Névoa uma Escola de Pioneiros. Eles, depois de olharem para o camarada funcionário, nada disseram. Ou melhor, disseram que concordavam. E que achavam boa ideia, pois se os católicos ensinam aos seus filhos, na catequese, os estafados princípios da religião católica com o êxito que todos lhes reconhecemos, os comunistas devem também educar os seus descendentes na doutrina científica e libertadora do marxismo-leninismo.


O camarada funcionário replicou zangado que a Escola de Pioneiros não era como a catequese, pois nela não se ensinam mentiras, não se propagandeiam invenções, nem se ensinam orações. Na Escola de Pioneiros apenas se demonstra a verdade. E não se aprende a rezar, aprende-se a argumentar, que é coisa bem distinta. Todos concordaram com as diferenças evidentes e inimitáveis. Uma coisa é repetir palavras para se aprender a ser dócil e educado como um cordeiro, mesmo que seja de Deus, outra, bem distinta, é pensar e argumentar para dessa maneira transformar o mundo de modo revolucionário.


Então passou-se ao ponto seguinte: o de escolher o local onde iria funcionar a escola, quem devia ser o camarada que tomaria a seu cargo a direção e quais seriam os professores. O primeiro nome a surgir na cabeça dos camaradas foi, por incrível que pareça, o meu. Eu fiz ver aos camaradas que as tarefas da agitação e propaganda me ocupam todo o tempo disponível. Que ou uma coisa ou outra. Ou agitação e propaganda ou Escola de Pioneiros. E que isso iria implicar que outros camaradas fossem chamados a assumir algumas das tarefas, nomeadamente os camaradas professores que, na minha opinião, eram os mais indicados para esse efeito, pelos motivos óbvios. Muitos são os chamados e poucos são os eleitos! Mas eles informaram, desde logo, que não, porque tinham de dar aulas nas respetivas escolas, tinham o sindicato, tinham as diversas associações e tinham as reuniões do Partido. Que já não possuíam nem sequer tempo e disponibilidade para a vida em família. Eu disse que também não tinha tempo para outra coisa que não fosse o Partido, mas eles carregaram com o argumento de que eu não tinha mulher nem filhos. Tentei ainda propor o nome de outros camaradas mais responsáveis, mas todos argumentaram da mesma forma, que já davam tudo o que podiam ao Partido. Que mais era impossível. Um que outro, ainda sugeriu o nome do camarada funcionário. Mas desistiram logo da ideia depois de olharem para a expressão do seu rosto. Restava eu. Mas eu não podia. Não podia mesmo que quisesse. E, para falar verdade, eu não queria. Mas também não podia, como também já referi e repito. Foi então quando me lembrei do camarada José. Tinha andado no seminário, o que lhe dava um adianto em termos de retórica e instrução. Era um camarada organizado. Além disso, como no momento estava com a sua militância congelada por causa do seu papel de independente do movimento associativo estudantil, era uma forma de o enquadrar num trabalho sério e exigente. Isso podia limpar-lhe um pouco a ficha e retirar de lá, ou suspender, a designação de criticista.


De cara alegre e sorriso sincero, transmiti essa ideia aos camaradas. Eles opuseram-se. Ou melhor, não se opuseram logo, começaram com rodeios e meias palavras. Que o camarada José era criticista, que tinha a mania, que era filho de um guarda-republicano e que, ainda por cima, tinha andado no seminário até dele ser expulso. Para palavras loucas orelhas moucas, por isso deixei passar em branco os primeiros três argumentos para me fixar no último. Fiz-lhes ver que o ter andado no seminário e dele ter sido expulso era um argumento a seu favor. Desde logo porque não se tinha dado bem com o ambiente autoritário, porque tinha contestado o ideário católico como desfasado da realidade e que tinha combatido os padres e a sua mensagem de submissão e resignação perante os ricos e poderosos. Eles continuaram a arengar que não tinha perfil, que era criticista, que era indisciplinado, que tinha, durante algum tempo, convivido com o lúmpen e até se tinha tornado o seu chefe guerrilheiro. Que frequentou ambientes degenerados, que mais isto e mais aquilo. Então calei-me. Não valia a pena continuar a chover no molhado. Foi então quando o camarada funcionário disse que apenas restavam duas soluções: ou alguns dos camaradas ali presentes aceitavam a tarefa de dirigir e dar aulas na escola ou então apenas restava a hipótese chamada José, mesmo reconhecendo que os camaradas da comissão concelhia tinham toda a razão nas suas críticas. Mas lembrou também que o Partido é uma casa onde cabem todos os comunistas, com defeitos, ou sem eles. A todos educa por igual, pois é bom não esquecer, já que estávamos a falar em escolas, que o Partido é a melhor escola de todas as escolas que existem no país. Nisso foi apoiado por todos os camaradas presentes. Também se disponibilizou a fazer um controlo mais apertado da atividade do camarada José, tentando refrear-lhe o ímpeto criticista. Confesso que não sei como, mas o camarada lá saberá, pois para isso é que é funcionário.


No entanto, os camaradas professores apenas se disponibilizaram a apoiar a indigitação do camarada José como diretor da Escola se ele ficasse também com a tarefa de ministrar as aulas. A proposta foi aceite por unanimidade, mas sem aclamação, o que não é coisa de somenos. Nestas, como noutras coisas, é bom ler os sinais.


Mas uma coisa muito importante faltava, a anuência do camarada José que até à data não tinha sido tido nem achado no processo e, sobretudo, na decisão. Eu lembrei aos camaradas a conjuntura. Eles limitaram-se a dizer que para o camarada José só podia ser uma honra tão subida distinção. Honra que não merecia e que por isso apenas lhe restava aceitar o cargo com um sorriso nos lábios.


Já que era assim que viam as coisas, sugeri que fossem eles os camaradas designados para lhe darem tão boa nova. Eles declinaram o convite com o argumento de que eu é que era o seu controleiro e, o que ainda era pior, seu amigo íntimo. Eu neguei, mesmo sem querer. Neguei que fosse seu amigo íntimo, e três vezes, mesmo sem galo algum por perto, argumentando que intimidade só a tinha com a minha namorada. Eles riram-se. Eu não consegui.


Resumindo e concluindo: Rejeito perentoriamente a insinuação de que fui eu o responsável pela nomeação do camarada José. A decisão foi do coletivo. Não minha. O engano da sua escolha, como já ouvi dizer, não foi de minha autoria. Foi do coletivo. Porque isto das responsabilidades do coletivo não existem apenas para quando as coisas saem bem. Também devem ser assumidas quando elas correm mal.


Pelo que sei, a atuação do camarada José, enquanto dirigente e professor da Escola de Pioneiros, foi exemplar. Mesmo contra a sua vontade em aceitar o cargo, desempenhou com rigor e disciplina comunista todas as tarefas de que foi incumbido. Empenhou-se desde o primeiro dia em que a escola fosse para todos, sem distinções. Tratou a totalidade dos camaradas pioneiros por igual.


Os problemas começaram a surgir quando os pais perguntaram aos filhos como ia a escola e dois filhos responderam aos pais que não ia nada bem. Pelo menos foi essa a resposta dos camaradas pioneiros Luís e João relativamente à postura e ao comportamento do camarada pioneiro Miguel, filho do camarada operário da construção civil, Manuel Augusto.


Mas os acontecimentos que despoletaram a controvérsia não se deram dentro da sala de aula, aconteceram no recreio, ou mesmo fora da escola. A tentativa de enforcamento deu-se num monte perto do bairro onde vivem e as cenas de pancadaria tiveram lugar à saída da escola normal, não na dos Pioneiros.


A rivalidade que existe já vem dos pais e dos tempos em que eles andavam na escola e o pai do Miguel lhes fazia o mesmo que o seu filho faz agora aos seus descendentes.


Ou seja: a contenda entre os camaradas pioneiros é o prolongamento da luta de classes que existiu entre os pais no tempo em que todos andavam na escola.


A culparem alguém pelo sucedido culpem os adultos e não as crianças que apenas fazem o que veem fazer e apenas dizem o que ouvem dizer.


Gostem ou não, o meu relatório acaba aqui, pois a mais não sou obrigado, pelo menos na minha consciência de comunista.»


145 – Mas esta história de relatórios de crítica e ...

 

(continua)

 

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Quinta-feira, 7 de Março de 2013

O Homem Sem Memória - 143

 

O Homem Sem Memória

Texto de João Madureira

Blog terçOLHO 

Ficção

 

143 – A escola de pioneiros acabou no dia seguinte. E, por incrível que possa parecer, não por vontade do José, mas sim pela perentória decisão e a ideológica audácia dos órgãos dirigentes do Partido, que tudo sabem e tudo veem.  


Quando o Graça lhe deu a notícia, o José, por incrível que possa parecer, ficou branco como a cal. Mais uma vez desiludiu, mais uma vez saiu desiludido. Se tal situação tivesse acontecido há umas semanas atrás, até tinha ficado contente. Mas agora que lhe começava a apanhar o jeito, a extinção da escola foi um rude golpe. Mas o Partido quando decide está decidido e não se fala mais nisso. Para a frente é que é o caminho.


O camarada Graça não lhe deu apenas essa má notícia, contou-lhe que o camarada funcionário tinha sido incumbido por outros camaradas da direção regional do Norte, que também tinham sido informados por camaradas do Comité Central, de que o camarada professor José tinha de redigir um relatório de crítica e autocrítica sobre o seu desempenho enquanto responsável máximo pela Escola de Pioneiros Comunistas de Névoa.


E ele, muito a contragosto, acatou a imposição.


Aqui disponibilizamos o relatório, na sua versão integral, depois de ter sido por nós recuperado logo após a sua desclassificação a cargo da Comissão de Defesa da Memória dos Prisioneiros do Gulag Português.


«O camarada Graça disse-me que o Comité Central fez questão em que eu, enquanto máximo responsável pela Escola de Pioneiros Comunistas de Névoa, elaborasse um relatório de crítica e autocrítica sobre o meu desempenho enquanto diretor e docente exclusivo. Já agora podia acrescentar, para que toda a verdade seja dita, também enquanto contínuo e até empregado de limpeza. Pois na escola fiz de homem dos sete instrumentos. E talvez por minha culpa, minha tão grande culpa. Pequei. Eu pecador me confesso pois pequei muitas vezes por pensamentos, palavras, atos e omissões, por minha culpa, minha tão grande culpa… Mas deixemo-nos de ironias e avancemos.


Como devem saber (continuo irónico porque sei que o Partido, qual mãe obsessiva e controladora, tudo sabe e tudo vê), eu estudei durante algum tempo no seminário. Lá também era usual a confissão, mas não exigiam que ela fosse feita por escrito. Talvez porque sabem que um documento escrito deixa sempre uma espécie de impressão digital, revela sempre uma personalidade e serve eternamente como prova de alguma coisa, quer seja para o bem, quer seja para o mal, ou mesmo para a desgraça. Uma confissão escrita é um ato de violência sobre a individualidade e o pensamento de alguém, sobretudo se agiu de boa-fé. É a modos como um atestado de desconfiança. É uma incriminação antecipada.


A confissão oral é como uma expiação, uma forma de deitarmos cá para fora algo que nos consome ou atormenta e, assim libertos do pecado, podermos continuar a viver sem que o remorso, ou a má consciência, nos impeça de coabitar com aquilo que temos e com aquilo que somos, no meio daqueles que amamos, ou não, mas que temos o dever de respeitar.


Quando alguém tem de escrever sobre o seu desempenho, logo após a extinção de algo que dirigiu, é invariavelmente um sinal de crítica. Só quem erra e perde é que é chamado a escrever sobre o erro e sobre a derrota. A quem acerta e triunfa escrevem-lhe os discursos, os relatórios e os louvores.

Serve este introito para realçar que escrevo este relatório sobre reserva moral e mesmo ideológica. Eu fiz tudo o que me pediram, segui todos os preceitos, aceitei todas as sugestões e adotei as orientações do Partido à risca. Apenas introduzi uma novidade, a escrita de textos livres, que até não eram muito livres, mas reconheço agora que para lá caminhavam.


Na escola tudo se discutia. Tudo se discutiu. Sem preconceitos, nem tibiezas. A Escola de Pioneiros Comunistas de Névoa foi sempre um exemplo de liberdade. Mais do que falar de liberdade, ou na liberdade, na escola praticávamo-la. Sem preconceitos. Se calhar houve alguém que não gostou. Paciência. Cristo, apesar de ser quem era, também não agradou a todos. Bem assim como Marx, Lenine, etc. E nesse extenso etc. incluo o camarada Alberto Punhal. Mas cada um é para o que nasce. E eu não nasci para pensar como Piatakov, camarada de Lenine, que disse esta frase extraordinária: “Um verdadeiro bolchevique, se o Partido o exigir, está disposto a acreditar que o preto é branco e o branco é preto”. Eu, por incrível que isso possa parecer, não sou desses. Não fui bafejado por tão colossal sentido de obediência. Pois, a ser assim, o socialismo real não é uma luta contra os abusos característicos do capitalismo, mas sobretudo contra a própria realidade. E eu por aí não vou. Nisso sou como o José Régio: “Não, não vou por aí! Só vou por onde / Me levam meus próprios passos...”


Ninguém me disse uma palavra sobre o motivo do encerramento da escola. Apenas o camarada Graça me informou que foi fechada por ordem expressa do Comité Central. Que também a ele não explicaram as razões, mas que sabia que não foi por razões económicas, pois a escola até dava lucro ao Partido por causa dos donativos que recebia de diversos camaradas e ainda pelo dinheiro obtido na venda de diverso material feito pelos camaradas pioneiros, pelos seus familiares e amigos. 


Como não sei porque a encerraram, tento adivinhar. Estou em crer que o fizeram por causa dos pais. Basta olhar para os filhos para ver a personalidade dos pais, pois os filhos são o seu reflexo. E pelo que ia observando, apesar de comunistas, os pais dos camaradas pioneiros davam-se mal. Competiam muito entre si. O que nunca cheguei a entender muito bem foi a razão. Quem decide ser militante comunista não está à espera de facilidades, nem de prebendas, nem de estatuto social. Então por que razão é que competem tanto? Será para cair nas boas graças dos camaradas dirigentes? Ó triste móbil! Mas a cada um a sua luta.


Se os pais forem tão competitivos como os filhos, o problema não reside na vontade de fazer triunfar a revolução, a grande dificuldade coloca-se quando estiverem no poder. Até lá comportam-se como uma matilha de lobos que se junta para conseguir encurralar e matar a presa. O problema vai ser quando tiverem de dividir o cordeiro.


Apesar do discurso abrangente da defesa do proletariado, a maioria dos militantes convive mal com as classes sociais mais baixas. Dizem que as apreciam, que as defendem, mas vê-se logo que é apenas discurso, não é convicção. Uma coisa é recitar as palavras da cartilha comunista, outra, bem diferente, é acreditar naquilo que se diz da boca para fora.


Fazendo uma caricatura, posso escrever, já que estou em maré de confissão, perdão, de crítica e autocrítica, que os camaradas burgueses pretendem chegar a dirigentes de topo, que os pequeno-burgueses pretendem ocupar o lugar dos burgueses, que os operários aspiram a chegar a pequeno-burgueses, que os camponeses querem passar a ser operários qualificados e que ao lúmpen tanto se lhe dá como se lhe deu, quer é emborrachar-se e viver a vida dia a dia sem preocupações de emprego, família e educação. A sua máxima aspiração é viver entre um copo de tinto e um cigarro e entre um cigarro e outro copo, que até pode ser de branco, mas se for de tinto muito melhor.


Depois de ler os textos dos camaradas pioneiros que sugeri que escrevessem deu para perceber que todos querem ser Albertos Punhais. Todos ambicionam mandar, dirigir, ter importância, aparecer nas capas dos jornais, nas televisões, etc. Ora isso só pode ser influência dos pais. Bonitos comunistas eles me saíram. Em vez de ensinarem aos filhos os princípios da humildade, e da humanidade comunista, da partilha, da luta por um ideal, adestram-nos na competição, na conjura, na conspiração, na inveja, na ascensão social a todo o custo.


Não duvido que esses camaradas ensinam aos seus filhos os sagrados princípios da igualdade. Mas, sei que também lhes dizem que todos somos iguais, que os comunistas são iguais ao seu povo, que os comunistas são os melhores filhos do nosso povo, mas que há comunistas que são mais iguais do que outros. E eles sabem muito bem que tipo de igualdade é essa.


Agora que aqui cheguei, até me apetecia escrever mais algumas quantas verdades, mas vou terminar dizendo que se andam atrás de um bode expiatório para justificarem o mal-estar que se vive na concelhia de Névoa, enganaram-se no animal, pois a dissidência está entranhada dentro da organização, na fraca preparação ideológica dos militantes, na tibieza das suas convicções, na pequena inveja e na mediocridade. E até um pouco na ideologia, que é muito intrincada para gente de vistas tão curtas. Quem não lê não sabe, quem não estuda não aprende, quem torto nasce tarde ou nunca se endireita. E o Partido não pode cair na armadilha de ser um antro de pseudointelectuais invejosos, de operários rancorosos e complexados, de agricultores bêbados e preguiçosos e de estudantes cábulas e arruaceiros.


Peço desculpa a quem incumbiu o camarada Graça deste infeliz assunto, mas sempre lhe digo que este é o caminho da suspeição. E a suspeição é meio caminho andado para a desgraça. Coitado do camarada, ainda não deu conta que é atras dele que andam.

Aos conspiradores que lhes faça bom proveito.»

 

144 – Ao camarada Graça também lhe exigiram ...

 

(continua)

 

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Quinta-feira, 28 de Fevereiro de 2013

O Homem Sem Memória - 142

 

O Homem Sem Memória

Texto de João Madureira

Blog terçOLHO 

Ficção

 

142 - O texto do, ainda, para todos os efeitos, camarada pioneiro Miguel rezava assim (versão ortograficamente muito corrigida pelo camarada professor): Eu quando for grande quero continuar a lutar contra o camarada pioneiro João e contra o camarada pioneiro Luís – se é que esses dois são verdadeiros camaradas –, e ter do meu lado a camarada pioneira Lídia. Nada mais me interessa. Ou quase. Eu sei que nasci para lutar e vencer e também sei que eles os dois nasceram para lutar e perder. Mesmo com ajuda, como é o caso da atitude do camarada professor que sempre os escolhe para dirigir seja o que for nesta escola. O camarada professor, desculpe que lho diga, tem-lhes é medo. Não é bem medo deles mas sim dos seus pais. Eu até o compreendo, camarada professor, mas deixe que lhe diga que não aprecio a sua atitude. O camarada professor José pode até ter medo deles. Isso é lá consigo. Cada um tem os medos que merece e sabe as linhas com que se cose. Mas eu não tenho medo, nem deles, nem dos pais deles, nem dos avós deles, nem dos tios deles, nem dos primos deles. Eles são uns perdedores. E desde já lhe digo uma coisa, o socialismo nunca triunfará em Portugal se aqueles dois estiverem do lado da revolução. Porque eles, volto a repetir, são uns perdedores. E também porque eu não gosto deles. Se eles estiverem do lado da revolução eu estarei do lado da reação e eles perderão e a revolução perderá e o camarada professor José também perderá se estiver do seu lado. Fuja deles, camarada professor, pois ao seu lado só lhe resta a derrota, a vergonha e o fuzilamento. Para lhe ser simpático, até porque o camarada professor José é simpático para comigo, pelo menos quando os camaradas pioneiros João e Luís – se é que esses dois são verdadeiros camaradas –, não estão por perto, eu até gostava de estar do lado das tropas revolucionárias, mas isso apenas no caso dos camaradas pioneiros Luís e João – se é que esses dois são verdadeiros camaradas –, estarem do lado oposto. Mas como sei que isso é praticamente impossível, só vislumbro uma saída: o triunfo da reação e a derrota do Partido Comunista. Não há outra saída, pois eles são uns perdedores. Comigo perdem sempre. E em tudo. Até no jogo de ver quem mija mais alto ou mais distante. Eu apenas me rio e olho para eles. Eles limitam-se a ir para longe de mim chorar. Eles choram muito. E quase sempre de raiva. A mim têm-me uma raiva de morte. Eles tentam todos os jogos para ver se me vencem. Além de tentarem a artimanha de cá na escola me porem do lado da reação para o camarada professor me obrigar a perder. Eles utilizam as mais variadas estratégias para me iludirem, pensando que, por eu ser filho de um trolha, me enganam. Mas são eles que se enganam. Porque o meu pai pode ser trolha, mas eu não sou. O meu pai pode ser burro, mas eu não sou. O meu pai pode ser bêbado, mas eu não sou. O meu pai pode ser comunista mas eu não… O meu pai pode bater na minha mãe e tratá-la mal, mas eu não bato nem trato mal a Lídia. O meu pai pode ser vencido nas discussões políticas e partidárias, mas eu nunca perco uma discussão, seja ela política, futebolística ou lá o que for. Quando me faltam os argumentos, olho bem nos olhos do adversário e digo-lhe que ou se cala ou lhe vou aos cornos. Se for avisado, normalmente cala-se, se não for pior para ele pois é certo e sabido que vai parar ao hospital para tratar dos ferimentos. Os camaradas pioneiros João e Luís – se é que esses dois são verdadeiros camaradas –, já tentaram várias artimanhas para ver se me davam a volta. Já me colocaram de chefe índio e eles de soldados do Sétimo de Cavalaria e perderam. Já me colocaram de cobói ladrão de gado com a cabeça a prémio e foram eles que foram parar à cadeia e depois à forca. E só não os enforquei num pinheiro alto porque a camarada pioneira Lídia mo implorou banhada em lágrimas. Ela que raramente chora. A camarada pioneira disse-me que me dava tudo o que eu quisesse. E eu perguntei: “Tudo, tudo?” Ela disse que sim. “Mas tudo, tudo mesmo?”, insisti na pergunta. Ela disse que sim pela segunda vez. Então dei-lhe um beijo e a camarada pioneira Lídia disse-me que o resto ficava para depois. Eu, um pouco a contragosto, concordei. E concordei porque gosto dela e sei que ela cumpre as promessas. Eles, os tais camaradas pioneiros perdedores, ainda tentaram uma outra estratégia, esta bem malvada, a de me porem do lado dos nazis. Eu, para lhes provar que lhes ganho sempre independentemente do lado em que esteja, aceitei o desaforo. E o desafio. Mas, mesmo contra a minha vontade, voltei a ganhar-lhes. O instinto foi mais forte que a inteligência. Esta foi a vez que mais me custou. Ou melhor, esta foi a única vez em que não senti orgulho em vencê-los. Mas fiz das tripas coração e venci-os como sempre. Cada um é para o que nasce. E eu nasci para lutar contra os camaradas pioneiros João e Luís – se é que esses dois são verdadeiros camaradas –, e vencê-los indefinidamente. Eles experimentaram mesmo o xadrez, mas nem nisso me venceram. Camarada professor José, antes de terminar este texto, vou-lhe contar um segredo: hoje é o último dia que venho à escola de pioneiros, pois o meu pai vai sair do Partido. Vai inscrever-se no verdadeiro Partido Comunista: o Reconstruído. Um partido com muitos menos militantes mas com muito mais fundamento. Eles detestam os revisionistas, chamam-lhes até sociais-fascistas. O meu pai foi convidado para dirigente da classe operária. Ele aqui no Partido é apenas um militante de base. É apenas mais um operário. Lá vai ser dirigente. Foi para isso que foi convidado: para dirigir a classe operária de Névoa e arredores. Esse tal Partido Comunista Reconstruido é pequenino, quase com o mesmo número de militantes pioneiros que existem nesta escola. Mas tamanho não é qualidade. A maioria são estudantes, acompanhados por meia dúzia de professores, um bancário e agora um trolha, o meu pai, que é a modos como um dirigente proletário de raiz operária e camponesa, pois os meus avós são agricultores pobres como Jó, mas o meu pai já chegou a trolha de primeira. A minha mãe disse ao meu pai que o que eles querem é gozar com ele, pois não entende, nem acredita, que os filhos dos burgueses de Névoa sejam comunistas, reconstruídos ou não, e muito menos que o queiram para dirigente. “Eles querem é gozar contigo, como gozam no Jardim das Freiras com os bêbados e os tresloucados”, disse-lhe ontem à noite a minha mãe antes de se ir deitar para não levar um par de bofetadas, pois o meu pai já estava tão bêbado que não conseguia levantar-se do banco, se não tombava no chão como um saco de batatas. O meu pai contou-me então o que lhe estou agora a contar, mas disse-me para guardar segredo. Mas eu ao camarada professor José não tenho receio em lhe contar o que lhe estou a contar pois sei que é de confiança e um homem de palavra, tal e qual a camarada Lídia. Agora posso finalmente dar largas ao meu instinto ganhador sem problemas ideológicos. Não é que isso me interesse, mas a partir de amanhã vou poder ganhar aos camaradas pioneiros revisionistas e sociais-fascistas do lado da revolução e dos verdadeiros revolucionários. Esses camaradas pioneiros merdosos, e medrosos, que se cuidem. O camarada Miguel Che Guevara Estaline vai fazer a revolução total contra os traidores revisionistas e sociais-fascistas ao lado dos comunistas reconstruídos, os verdadeiros defensores da classe operária. Eu até pensei em convidar a Lídia a entrar na clandestinidade e a inscrever-se no Partido Comunista Reconstruído, mas ela disse-me que não podia. Os seus pais iam morrer de desgosto e de vergonha. Eu não insisti. Gostar de uma pessoa tem destas coisas: o respeito. Pensei ainda em convidar o camarada professor José para dirigir a escola de pioneiros comunistas reconstruídos, mas logo desisti porque sei que a militância dos comunistas reconstruídos apenas possui um descendente, que sou eu. Espero que me perdoe, mas quando formos mais, eu vou à sua procura para lhe renovar o convite. Até lá, um grande abraço solidário. E solitário também. Não se esqueça que mais vale só que mal acompanhado.

 

143 – A escola de pioneiros acabou no dia seguinte. E, por incrível que possa parecer, ...

 

(Continua)

 

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Quinta-feira, 21 de Fevereiro de 2013

O Homem Sem Memória - 141

 

O Homem Sem Memória

Texto de João Madureira

Blog terçOLHO 

Ficção

 

141 – O texto da camarada pioneira Lídia rezava assim (versão pouco corrigida pelo camarada professor): Eu quando for grande quero ser homem. Um homem honesto, corajoso, valente e comunista para poder um dia suceder ao camarada Alberto Punhal, pois se for mulher nunca o conseguirei fazer. Ninguém conhece uma mulher que seja, ou tivesse sido, secretária-geral de um partido comunista, ou coisa do estilo. Os meus pais dizem que se eu aproveitar bem a escola dos pioneiros e de seguida fizer o mesmo com a escola do Partido, poderei vir a ser uma grande dirigente proletária, ou melhor, do partido comunista, que é a vanguarda esclarecida da classe operária, e o elo de união entre o proletariado e o campesinato, não esquecendo os intelectuais, os verdadeiros, não as suas imitações de direita. Nisso o meu pai, o Batista Bastos e o Sartre têm toda a razão: um verdadeiro intelectual só pode ser de esquerda. Não há intelectuais de direita. Pelo menos verdadeiros. Assim como não há mulheres secretárias-gerais comunistas. Também não conheço camponeses secretários-gerais. Secretários-gerais apenas os há intelectuais ou coisa parecida, mas todos eles intelectuais que na altura certa foram adotados pela classe operária, como é o caso do camarada Alberto Punhal. Apesar de intelectual, é o filho adotivo da classe operária mais sincero e verdadeiro que se conhece. Até lhe chamam o camarada de Cristal. Mas o camarada não é como o cristal de que são feitos os copos, esse parte, esfrangalha-se todo se for tocado por um objeto contundente, ou cair ao chão. O cristal de que é feito o camarada Punhal é de quartzo puro e duro, mas mesmo assim transparente. Um dia perguntei ao meu pai se um filho adotivo não é menos do que um filho natural. Ele atrapalhou-se pois primeiro disse que sim e depois, quando lhe lembrei o caso do camarada Alberto Punhal, afirmou que não, que eram coisas diferentes, mas que mesmo assim eram iguais em condição e direitos. E até no resto. Mas também me lembrou que a adoção do camarada Alberto Punhal, por parte da classe operária, é uma figura de estilo, uma metáfora, no que concordei porque reconheço que o camarada secretário-geral tem boa figura e evidencia, apesar da sua sobriedade cristalina de revolucionário, um lindo estilo. Talvez uma metáfora nunca tenha sido tão bem empregue como no caso do camarada Alberto Punhal ter sido adotado pela classe operária. Nunca essa querida mãe fez uma escolha tão eficaz, ou, dito de outra maneira, nunca um filho adotivo se sentiu tão cómodo na sua família de adoção. Ou vice-versa. Agora já me confundi um pouco camarada professor, mas o senhor pode corrigir o que por bem entender, sem, claro, alterar o sentido do texto. Na forma pode tocar, já no conteúdo não lho aconselho, pois é sagrado. Bem, sagrado é uma forma de dizer, pois não há nada sagrado no comunismo, nem nos textos comunistas ou escrito por comunistas. Mas eu sei que o camarada professor entende o que quero dizer. Para bom entendedor meio conteúdo basta. Pois, como ia dizendo, quando for grande quero ser homem para poder aspirar a ocupar o cargo de máxima dirigente da classe operária, do proletariado, do campesinato e dos intelectuais, dos verdadeiros, e esses são todos comunistas, mas acho que já me estou a repetir. Se for esse o caso, o camarada professor pode riscar o que estiver a mais, mas não abuse, nem se engane, pois se assim for passa a ser censura e a censura é uma coisa fascista. Eu sei que os camaradas pioneiros João e Luís aspiram também a ocupar o cargo de secretário-geral. Não é que me tenham dito isso, eu é que os escutei quando estavam a brincar aos congressos e se faziam passar pelo camarada Punhal. Faziam-no à vez, mas sempre com muita intenção e segurança. Até empoaram o cabelo com pó de giz do quadro para ficarem parecidos. Quando um fazia de Alberto Punhal, o outro agia como Fidel Castro e vice-versa. E depois riam-se muito e batiam nas costas um do outro como se fossem muito amigos. E repetiam muitas vezes palavras de circunstância: “Então como vai o camarada Punhal? Então como passa o camarada Fidel? Eu vou bem. Eu também tenho passado muito bem. E como vai a revolução em Cuba? E como vai a revolução em Portugal? Vai bem. Por aqui também vai indo. O camarada é um grande dirigente da classe operária. O camarada também. O camarada é o maior e mais digno dirigente da classe operária. Não, o camarada é que é. E não, o camarada é que é. E não, o camarada é que é. E… etc.” E depois riam-se muito enquanto olhavam para os lados com olhinhos de agentes do KGB não fosse o camarada pioneiro Miguel aparecer e dar-lhes cabo da brincadeira, ou do sonho. Estou em crer que se os operários portugueses forem todos da têmpera do camarada pioneiro Miguel, os camaradas pioneiros Luís e João só chegarão a secretários-gerais quando as galinhas tiverem dentes. Já comigo é outra conversa. Para ser sincera, quem me meteu na cabeça a ideia de ser secretária-geral foi o camarada pioneiro Miguel, pois detesta tanto os camaradas pioneiros João e Luís que é muito capaz de fazer uma contrarrevolução só para os destituir do cargo, a bem ou a mal. Ele disse-me uma vez que a mim me apoia incondicionalmente para esse cargo. Eu respondi-lhe que as mulheres não são feitas para esses postos. Nunca o foram, nem nunca o serão. Eu, em troca, sugeri-lhe que ele sim podia aspirar vir a ser secretário-geral. Ao que ele me respondeu que burro como era para as letras, nunca chegaria a intelectual e como operário, ou coisa do estilo, nunca poderia aspirar a fazer frente aos camaradas pioneiros João e Luís. Voltou a insistir comigo para ser eu a fazer-lhes frente, mas eu repeti-lhe aquilo que já disse anteriormente. Foi então quando ele me contou que tinha ouvido falar em homens que fizeram uma operação para passarem a ser mulheres. O que o levou a depreender que o contrário também é verdadeiro, por isso praticável. Eu fiquei um pouco perplexa. Mas se como hipótese teórica é uma possibilidade, então há que admiti-la. Eu ainda lhe perguntei se sabia da possibilidade de um processo inverso. Ou seja, fazer nova operação e voltar a ser mulher. Ele respondeu que não sabia, mas pensava que sim. Pois quem põe é capaz de tirar e quem tira também é capaz de pôr, ou algo pelo estilo. Para dizer a verdade, eu não sei se o que estou a escrever é uma possibilidade, mas como o camarada professor afirmou que num texto tudo é possível, eu aproveitei a ocasião para dar asas à minha imaginação, pois, como muito bem disse uma vez a minha mãe, a ocasião faz o ladrão, ou dito de outra forma, a ocasião traz a solução. No que foi mal interpretada pelo meu pai que exprimiu à minha mãe a sua preocupação lembrando-lhe que ainda era cedo para falar disso à “nossa” menina. Então a minha mãe perguntou-lhe “isso o quê?” e ele confirmou “disso, da menstruação”, ao que a minha mãe retorquiu “não sejas parvo e não te metas onde não és chamado”. Mas como estou em maré de dizer a verdade, toda a verdade e nada mais do que a verdade, aproveito para confessar, bem confessar, não, pois um pioneiro comunista não se confessa, apenas faz crítica e autocrítica, que eu para enfrentar os camaradas pioneiros Luís e João sou capaz de tudo, ou de quase tudo. Sinto que lá bem no fundo, esses dois camaradas pioneiros vão dar em dissidentes. Têm todo o aspeto de trotskistas. E quando um comunista se começa a parecer com um renegado, acaba sempre por ser como ele. E mais não digo porque se me acabaram as linhas da folha de papel e já estou as escrever nas margens e não sei se isso é permitido. 

 

142 - O texto do, ainda, para todos os efeitos...

 

(continua)

 

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Quinta-feira, 14 de Fevereiro de 2013

O Homem Sem Memória - 140

 

O Homem Sem Memória

Texto de João Madureira

Blog terçOLHO 

Ficção

 

140 – O texto do Luís contava o que se segue (versão corrigida pelo camarada professor): Eu quando for grande quero ser o máximo dirigente da classe operária. Quero ser um líder. Um verdadeiro líder. Muito mais líder do que o meu pai que apenas dirige meia dúzia de comunistas transmontanos. Vá lá, dúzia e meia de comunistas nevoenses teimosos e muito chatos. Eu quero ser um líder da envergadura do camarada Alberto Punhal. Quero ser secretário-geral do Partido. Depois dele, claro está. Logo após o camarada se reformar. Talvez não quando ele se reformar porque parece que os camaradas secretários-gerais dos partidos comunistas não se reformam. Só abandonam o seu posto quando morrem. E mesmo assim a contragosto. Honra lhes seja feita. Por isso acho que só poderei chegar a dirigente máximo do partido comunista, da classe operária e dos camponeses, quando o camarada Alberto Punhal morrer. Mas eu não lhe desejo a morte. Longe disso. Eu faço votos para que viva muitos anos. Muitos, mas mesmo muitos, muitos. Ele é o maior dirigente da classe operária do mundo. Claro que os outros camaradas dirigentes comunistas também são bons como o caraças, mas o nosso camarada de cristal é o melhor deles todos. Isso pelo menos é o que diz o meu pai e todos os comunistas que conheço. Como o camarada Alberto Punhal não existe outro igual. Mas, como ia dizendo, eu quando for grande quero ser o líder máximo do Partido. Talvez só lá chegue quando for velho, mas não me importo. Uma vez lá é cargo para toda a vida. Basta olhar para o exemplo da União Soviética para concluirmos que os camaradas secretários-gerais apenas de lá saem quando morrem. Mas mesmo assim a contragosto, como já disse. Todos os camaradas secretários-gerais do PCUS foram substituídos somente depois de mortos: Lenine, Estaline e Khrushchev. Bem Khrushchev não, esse foi afastado por ser mau comunista, por ser frouxo, por isso não conta. Teve sorte em não ser liquidado, que era o que merecia. Pelo menos isso é o que o meu pai diz. Ainda bem que foi substituído pelo camarada Brezhnev, que também é um camarada como há poucos. Mas como é dos bons, mantém-se no seu cargo sem vacilar. E ninguém pensa em substituí-lo. É o pensas. Só sai de secretário-geral quando morrer, e a contragosto como já disse e repeti. Eu sei que ele é velho como as igrejas, bem como as igrejas não, pois é uma comparação muito pouco comunista, ele é velho como os avôs velhos, ou melhor, como os bisavôs, pois o meu avô tem 50 anos e o meu bisavô 70. E agora que falo no meu bisavô, apesar de ser velho como o Brezhnev, e quase tão desengraçado, é reacionário como o caraças. É quase tão reacionário como o Sá Carneiro e o Freitas do Amaral juntos. Acho que foi pelo facto de o meu bisavô ser tão reacionário que o meu pai se tornou comunista. Mas parece que quem tem ainda mais queixas dele é o meu avô, o pai do meu pai, que, apesar de ser por ele muito maltratado, apenas conseguiu progredir até ao socialismo democrático, dos traidores do PS. O meu avô até pode ser socialista, mas é muito boa pessoa. E muito meu amigo. Mesmo que eu venha a ser secretário-geral do Partido quando Portugal estiver já no socialismo científico, eu ao meu avô não lhe faço mal nenhum, nem deixo que outros lho façam. Levo-o para minha casa e protejo-o. Já ao meu bisavô deixo que a revolução tome conta dele, e de tudo o que é seu, e lhe faça o que deve ser feito aos reacionários. E que aqui não digo porque parece mal. Mas todos sabemos muito bem àquilo a que me refiro. Sei-o eu, sabe-o o camarada professor e sabe-o também o meu pai. Ou melhor, o meu pai é quem sabe disso melhor, pois não fala de outra coisa. O meu bisavô é o culpado de a minha mãe ter abandonado o meu pai e a mim. Foi ele quem acertou o casamento entre o seu neto e a minha mãe, que era filha de um ricaço do Porto, que era também sócio da firma do meu bisavô. Mas quando soube que o meu pai era militante comunista deserdou-o. Não só a ele como ao meu avô. O tal que é socialista mas é muito bom para mim. E não só o deserdou como fez tudo para que a minha mãe o fizesse escolher entre o Partido ou a família. Ele, o meu pai, orgulhoso como é, não só disse que não cedia à chantagem como abandonou o seu emprego muito bem remunerado na fábrica do meu bisavô, e ainda por cima se ofereceu para ser funcionário do Partido na zona mais difícil do país. Por isso aqui estamos. Eu vim com ele porque sim. Bem, vim com ele porque um dia me foi buscar à escola, meteu-me num carro e abalou por essas serras acima até Névoa. Eu sei que o meu pai até é um bom comunista, mas já não é assim tão bom como funcionário. Irrita-se muito com a propaganda, grita muito com os jovens, arrelia-se imenso nas reuniões, não gosta nada de colar cartazes nem de pichar paredes, nem é muito bom a falar nas reuniões. Então em sessões de esclarecimento e comícios é mau de mais para ser verdade. Tem muita dificuldade em escrever relatórios e sofre imenso quando o Partido o incumbe de redigir um comunicado. Ele sofre muito, coitado. Sofre porque reconhece que não foi feito para revolucionário. Arrelia-se muito com tudo. Além disso não gosta de ler. Cá para nós que ninguém nos ouve, ele nem A Verdade lê. Eu sei que sublinha os editoriais, mas se repararmos bem ele sublinha tudo. Ora quem sublinha tudo é porque não consegue distinguir as ideias principais das secundárias. Bem, eu sei que os editoriais d’ A Verdade não têm ideias propriamente secundárias. São todas principais, não fosse o editorial sempre escrito pelo camarada Punhal. Mas, mesmo assim, umas ideias estão lá para dar enfase às outras. E são essas que devem ser sublinhadas. Mas ele não, corre tudo a sublinhado. É a sua maneira de respeitar o Partido, o jornal e o camarada secretário-geral. Ele diz-me que pode não chegar sequer ao Comité Central – aqui que ninguém nos ouve, tomara ele ser selecionado para a Direção Regional do Norte –, mas que eu, se me portar bem e aprender muito na escola de pioneiros e nas outras escolas do partido que se seguirão, posso muito bem chegar a líder da classe operária. Pois ele sabe da minha capacidade organizativa, quase tão boa como a do camarada Alberto Punhal quando dirigia a juventude do Partido na clandestinidade, da minha determinação, da minha firmeza ideológica, da minha capacidade de estudo, da minha habilidade de persuasão, como é o facto de eu ser o maior vendedor de jornais da organização distrital e da minha capacidade natural para a liderança, como se evidencia na prática semanal aqui na nossa escola de pioneiros. Sou eu que lidero a célula ideológica da escola. Apenas uma coisa ainda não consegui: eliminar a irritante oposição do camarada pioneiro Miguel, que me derrota sempre nas simulações da guerrilha revolucionária. Ao João já o conquistei para o meu lado, a camarada pioneira Lídia vai a caminho, e só ainda não deu a volta porque detesta o camarada pioneiro João. Não é tanto por ele, mas antes porque os seus pais não se dão. Isto apesar de serem colegas de profissão, terem frequentado a mesma universidade e serem militantes do mesmo partido. Mas eu tenho de derrotar o camarada pioneiro Miguel, custe o que custar. Ele é o maior entrave ao bom desenvolvimento das aulas, da escola, e, sobretudo, à minha liderança. Foi ele o responsável pelo facto de a turma ter escolhido para chefe a camarada pioneira Lídia. Foi ele quem antes da votação ameaçou todos os camaradas pioneiros de que se não votassem na camarada pioneira Lídia eram pioneiros mortos, ou mancos, ou com os dois olhos à belenenses. Eu sei que se a votação tivesse sido por voto secreto, e não pelo método de braço no ar, eu tinha ganho. Por isso é que propus o voto secreto. Mas o camarada professor, e bem, diga-se de passagem, lembrou que isso era infringir os estatutos do Partido. Agora para terminar, lembro o que disse no princípio: eu quando for grande quero ser secretário-geral do partido comunista. E como até a mais longa marcha começa pelo primeiro passo, como muito bem disse Mao Tse-tung, o meu passo inicial para conseguir lá chegar vai ser o de derrotar o camarada pioneiro Miguel, que nem é pioneiro, nem comunista, nem nada. É apenas um reacionário, e ainda por cima pobre, que é a forma mais miserável de se ser reacionário. Para isso, tenho de me aliar ao camarada pioneiro João, que, mesmo não parecendo, é também extremamente ambicioso, e à camarada pioneira Lídia, que sofre do mesmo mal, mas sabe disfarçar isso muito bem. E ao camarada professor José peço-lhe o maior recato para que isto fique entre nós, pois quando eu chegar onde quero chegar, o camarada, e amigo, penso eu, terá um lugar certo ao meu lado. O lugar que lhe convém e que também merece. 


141 – O texto da camarada pioneira Lídia...

 

(continua)



 

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Quinta-feira, 7 de Fevereiro de 2013

O Homem Sem Memória - 139

 

O Homem Sem Memória

Texto de João Madureira

Blog terçOLHO 

Ficção

 

139 – Foram os textos que salvaram definitivamente os dias gastos pelo José na escola de pioneiros. Claro que também descobriu alguma graça nos quatro protagonistas dos episódios anteriores. Descobriu ainda que os traços dos pais se refletem nos filhos com bem mais subtileza do que à primeira vista parece. No fundo, as crianças são uma espécie de esponja que absorve tudo o que se passa à sua volta. Tanto o bom como o mau.


O texto do João rezava assim (versão corrigida pelo camarada professor): Eu quando for grande quero ser um camarada pioneiro tão bom e tão trabalhador como o camarada meu pai, que também é muito camarada da minha mãe. A minha mãe também é uma grande camarada. Bem, ela não é lá muito grande de tamanho, o meu pai é muito maior, mas é grande na camaradagem. Lá isso é. Sobretudo com o meu pai. Acho que nestes últimos tempos já acamaradaram tanto e tão intensamente que vem aí um novo camarada pioneiro a caminho. O camarada meu pai é um comunista exemplar. Aos sábados e domingos tem por hábito levantar-se logo de manhãzinha e pôr-se a ler A Verdade com muita concentração, depois sublinha o editorial, lê as partes mais importantes à minha mãe e pergunta-lhe a sua opinião sobre o que acabou de lhe ler em voz alta e bem articulada. Ela, a camarada minha mãe, concorda sempre com o editorial e o editorialista. Diz que o editorialista tem toda a razão, que assim é que é, que a revolução vai triunfar mais dia, menos dia, e que ela, a minha mãe, quero dizer, vai cá estar para a ver, a revolução, claro está, devidamente acompanhada pelo camarada meu pai, pelo camarada seu filho – o orgulho dos pioneiros de Névoa –, e pela camarada que está para aí a chegar. Aqui o meu pai discorda um pouco. Bem, ele não discorda do editorial, nem do editorialista, é o discordas, nem sequer duvida da infalibilidade do triunfo da revolução em Portugal. Do que ele duvida mesmo é de o/a camarada que aí vem, pois para ele não é “uma” camarada mais sim “um” camarada. Pode parecer até um pouco estranho que um camarada comunista da craveira do meu pai tenha preferência pelo sexo de um seu descendente, mas parece que para ele faz alguma diferença um seu filho ser menino ou menina. A minha mãe diz-lhe então que leia mais alguma coisita do editorial, ou parte de algum artigo mais interessante. Ele então explica-lhe, a modinho, que todos os artigos são interessantes senão não eram publicados n’ A Verdade. A camarada minha mãe olha novamente para ele com os olhos a chispar e sugere que o camarada meu pai escolha à sorte, pois logo se vê. Só que ele fica tão atrapalhado, ou então tão arreliado, ainda não consegui distinguir ao certo, que se recusa a preferir o que vai ler pois afirma que não se devem hierarquizar os artigos. N’A Verdade todos os textos são iguais. Bem, iguais não, avisa ele, são todos bons. Bom, bons não, muito bons mesmo. Ao que a camarada minha mãe contrapõe que necessariamente deve haver por lá alguns artigos que são mais iguais do que outros. Quando a camarada minha mãe profere tais palavras, ele fica muito arreliado, mas mesmo muito arreliado, e quase tão vermelho como a bandeira do Partido. E pede-lhe imediatamente explicações. Ele interroga-a sobre um tal George Orwell, sobre um livro que se intitula O Triunfo dos Porcos, sobre os trotskistas, sobre a Guerra Civil Espanhola, sobre cascos de cavalos, sobre sabão, etc. Bem, o que eu sei é que a minha mãe vai para a sala e põe a tocar no gira-discos um LP dos Pink Floyd. O camarada meu pai faz então que volta a ler o editorial d´A Verdade do princípio ao fim, mas só chega a meio e, como bom camarada, mas camarada mesmo, vai logo atrás da camarada minha mãe e pede-lhe desculpa. Ela faz que não ouve e põe a música mais alto. Então ele chega-se mais próximo dela e pede-lhe, muito a modinho, para dançar. Ela diz-lhe que não. Ele insiste. Ela torna a dizer-lhe que não e ele insiste novamente. Mantêm-se nisto durante algum tempo. Acho que gostam de se lembrar do tempo em que também eles foram pioneiros. Eles não foram pioneiros comunistas, é bom que se diga. Os camaradas meus pais foram pioneiros católicos, mas, mesmo assim, segundo me contaram, pioneiros quase tão pioneiros como nós, só que católicos. Segundo o camarada meu pai, o camarada Jesus, também conhecido como Jeová, ou ainda como Cristo, foi o primeiro comunista famoso. Só que depois deu-lhe alguma coisa que o transtornou e ele pôs-se a inventar um pai que era deus e uma mãe que era virgem e uma pomba que era um espírito e que também era santo e que fazia descer chamas na cabeça dos apóstolos e que transformava água em vinho, as pedras em pão e que fazia chover maná, peixes e coisas pelo estilo, mas sempre coisas de comer. E tão maníaco ficou que os reacionários decidiram eliminá-lo, mas para não darem muito nas vistas, passaram o julgamento para as mãos de um tal Pilatos, que, por sua vez, devolveu essa decisão ao povo de Jesus, também conhecido por Jeová, ou Cristo, que o sentenciou à morte. E aos berros, pois parece que ou o camarada Cristo, ou Jeová, ou Jesus, era surdo, ou o reacionário Pilatos era mouco, ou o povo de então era parvo. Foi a partir daí que os judeus ficaram com raiva do camarada Cristo, ou Jesus, ou Jeová, e os seus seguidores ficaram com raiva dos judeus. Pois, como ia contando, o camarada meu pai continua a insistir na dança e a minha mãe na negação. Até nisso são muito coerentes e determinados. Pois, como bons comunistas que se orgulham de ser, após a discussão há sempre um consenso. E, por fim, lá se põem a dançar como o faziam antes de se casarem. E continuam a dançar até ao fim do disco. Depois, o camarada meu pai diz qualquer coisa ao ouvido da camarada minha mãe e ela aponta na direção do meu quarto. Então ele pega-lhe na mão e vão de novo dormir. Dormir é uma forma de dizer, eles vão mas é brincar. E riem-se, gemem, arfam, soluçam, sussurram, suspiram e, por fim, gritam, especialmente a minha mãe, que grita muito alto, mas é só por um instante ou dois. Penso que o camarada meu pai é um pouco exagerado nas brincadeiras. Bem, ele também é bem mais forte do que ela e por isso pode não saber dosear a intensidade do entretenimento. Por fim, cansados, adormecem de novo. Ou seja, é a altura de eu poder ter duas horinhas de bom divertimento, pois fico com a casa só para mim.


Tenho de dizer ao camarada leitor, pois a isso sou obrigado pela minha consciência de pioneiro comunista, que tudo o que aqui escrevi é a mais pura das verdades e fruto da minha firme intenção de vir a ser um agente de informação do futuro Estado Socialista Português. Pois é isso o que quero ser quando for grande: agente de informação. Penso que um agente de informação comunista é o melhor militante revolucionário do mundo. E eu quero ser não só comunista, como o melhor comunista do mundo. Por isso me ando a especializar em informação, contrainformação e espionagem. Além de saber onde o camarada meu pai esconde uns balões em embalagens prateadas, como os comprimidos, que ele usa nas brincadeiras com a camarada minha mãe, sei onde a camarada pioneira Lídia vai dar beijos ao camarada pioneiro Miguel, sei onde o camarada pioneiro Luís esconde revistas com mulheres nuas, sei onde o camarada pioneiro Toninho esconde os colantes do partido que rapina nas reuniões dos pioneiros, sei onde o camarada pioneiro Zézito esconde os berlindes que rouba ao seu tio que tem uma loja no Arrabalde, sei onde a minha mãe esconde o tal livro dos porcos que são mais iguais do que os cavalos, sei onde o meu avô esconde a garrafa de vinho fino e onde esconde outra de aguardente velha e ainda outra de uísque, sei onde a minha avó esconde os chocolates, sei onde o camarada funcionário esconde as cartas da sua amante, sei onde o camarada Graça esconde as fichas secretas dos militantes do partido mais problemáticos. Sei até a quem, e como, estão distribuídas as armas do Partido. O camarada Martins tem um revólver prateado, o camarada Manuel tem uma navalha de ponta e mola, o camarada Rodrigo tem um isqueiro Zippo, o camarada António tem uma caçadeira, o camarada João Albuquerque tem uma pistola de alarme modificada, o camarada Rui tem uma faca de matar porcos, o camarada Alberto tem uma carabina com mira telescópica, o camarada André tem uma moca de Rio Maior, o camarada Jaime tem uma granada e eu tenho um pau com uma ponta cortante, que fiz com as lâminas da barba do meu pai que fui buscar ao lixo.


Espero que este relatório seja confidencial. Ao camarada professor José, meu chefe e mentor, cabe tão delicada tarefa.


E por agora é tudo.


 

140 – O texto do Luís contava o que se segue ...


 

(continua)

 

publicado por Fer.Ribeiro às 02:18
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