A Lanterna Mágica
Aqui vão duas historietas sobre cinema com personagens de Boticas. A primeira é verdadeira, passou-se comigo. A segunda é duvidosa. É uma historieta que o Zé Cândido (funcionário da farmácia de Boticas) conta, nos cafés, sobre o Rique, o protagonista. O Zé diz que a história é verdadeira, não se sabe se para chatear o Rique ou para que a historieta tenha mais piada. O Rique diz que é mentira, talvez por ter vergonha ou por ser essa a verdade. O narrador (eu próprio mas no uso da terceira pessoa) limita-se a contar a história como a ouviu.
A primeira vez que fui a um cinema devia ter uns 19 anos. A minha estreia aconteceu depois de me mudar de Boticas para o Porto. Antes disso só via filmes na tv porque a sala de cinema mais próxima da vila estava a uns distantes 60 km, em Vila Real, onde nunca pus os pés. Lembro-me que às vezes, especialmente aos Domingos à tarde, me juntava com o resto da canalha no café do Junqueira para vermos filmes na tv.
Escolhíamos esse sítio porque foi o primeiro a ter tv a cores (desde 1982), que era uma coisa que nós não tínhamos em casa. Víamos com prazer os filmes do Tarzan, do Jerry Lewis, da Pantera, e do John Wayne (mas nem sabíamos que o John Ford era um gajo sério e respeitado, por exemplo), entre outros. No fim dos filmes dizíamos se tínhamos gostado, se foi fixe, e pouco mais, não sabíamos quase nada de cinema. Alguns dos meus amigos diziam que os actores ganhavam balúrdios para terem que levar com tiros e morrer nos filmes, outros diziam que não, que era tudo truques. Uma coisa que se sabia em Boticas era que todos os filmes que tivessem um leão a rugir, logo no início, eram bons. Isto era mais ou menos o que sabíamos de cinema.
Quando me mudei para o Porto, conheci um grupo de pessoal da minha idade que eram uns sabichões, sabiam tudo! E sabiam imenso de cinema. Eram capazes de falar de cinema às horas, que era uma coisa que me impressionava muito porque eu não sabia que era possível conversar sobre cinema. Sabiam o nome dos realizadores, dos actores, da vida deles, das montagens, dos prémios, dos festivais de cinema, de tudo. Uma vez, perguntei-lhes quem era o actor de que estavam a falar e eles desataram à gargalhada porque, pelos vistos, o actor era uma grande vedeta mundial. Um dia decidi-me a ir experimentar as salas de cinema e fui ao Trindade. Pus-me na fila da bilheteira, meio envergonhado (não percebia nada de cinema e tinha receio de levar tanga dalgum tripeiro malandro), e reparei que as pessoas conversavam um bocadinho, durante a compra do bilhete, com o vendedor. Reparei que na bilheteira havia uma planta do cinema com a descrição das várias zonas (como a plateia) e percebi que as pessoas podiam escolher o tipo de bilhete que queriam e seria disso que conversavam com o vendedor. Lembrei-me que a minha mãe (tinha trabalhado algum tempo em Lisboa, onde tinha ido ao cinema) me tinha dito que o melhor sítio para se ver um filme é nas cadeiras mais afastadas do écran. Fiado nesta lembrança, pedi um bilhete para as galerias. Fui pelo cinema fora à procura das galerias, que encontei depois de me ter perdido pelos corredores e escadarias. Entrei pela porta adentro (já não havia luzes) e comecei a procurar o meu lugar. Passados uns 10 segundos, uma senhora veio ter comigo, de lanterna na mão, pediu-me o bilhete, e fez o favor de me levar até ao lugar. Disse-lhe um obrigado envergonhado e fiquei a pensar: "Foda-se, estes gajos do Porto são mesmo espertos, toparam logo pela minha cara que eu sou um parolinho de Boticas, que não atino com nada disto, e até se dão ao trabalho de acender uma lanterna e ir levar-me ao lugar! Valha-me deus, só venho para aqui incomodar pessoas finas e sabedoras!".
Apesar de eu ter descoberto o cinema apenas aos 19, em Boticas havia alguns cinéfilos sofisticados. A razão da existência desses cinéfilos era a de em Chaves ter existido uma sala de cinema durante os anos setenta, que encerrou quando eu era canalha e que eu não tinha conhecido. Mas alguns rapazes de Boticas, mais velhos do que eu, tinham frequentado o cinema flaviense com regularidade. Eles contam que, nessa altura, tinham que alugar um táxi (quase ninguém tinha carro e não havia autocarros à noite) para ir ao cinema a Chaves. O taxista aproveitava para ir ver o filme, no fim bebiam uns finos nalgum café da cidade, e assim passavam uns serões porreiros. Uma vez, convidaram o Rique, que é pastor de profissão e meio aleijadinho de uma perna, para ir ao cinema, porque faltava mais um para dividir o táxi. O Rique, que nunca tinha ido ao cinema, disse que sim, e ficaram com uma hora combinada para se encontrarem. Em chegada a hora combinada, o Rique não aparecia. Esperaram um bocado mas como ele não vinha e também não queriam perder o filme, mandaram-se para Chaves. Ao chegar à saida de Boticas, encontraram o Rique mais as vacas a atravessar a estrada, mandaram parar o táxi, e disse-lhe um "Ó palerma, qu'andas a fazer, atão num bens? Anda lá caralho!". O Rique decidiu-se a ir com eles, mandou umas bastonadas nas vacas e berrou-lhes "Ala p'ra casa, suas putas!". As vacas lá seguiram o caminho habitual e o Rique meteu-se no táxi. Quando chegaram a Chaves foram imediatamente para o cinema porque já estavam atrasados. O Rique, manquinote da perna, ficou-se para trás e foi o último a entrar. Entrou no cinema, já escuro, e foi mancando pelo corredor fora até que reparou que vinha uma luz a segui-lo. Virou-se, de repente, e mandou duas varadas, com o cajado, ao homem da lanterna, que lhe iria indicar o lugar. O homem ficou ali estendido e o Rique virou-se para os outros, que lhe perguntavam "Atão, qu'houve?", e disse-lhes "Num é qu'aquele filho da puta me queria foder com a bicicleta?!".
Luís de Boticas
CONVERSAS COM ZEUS
-XVII-
Carta Aberta
Caro Zeus
Arreliado como andamos com as prepotências dos nossos Governantes e a particular desfaçatez dos mais responsáveis, até a disposição para conversarmos com o papel (ou o Word) se tornou arredia.
Nada como um amigo de peito com quem se possa desabafar e partilhar tristezas e alegrias.
E tu, Zeus, tens a obrigação de estar devidamente informado do que se passa por estas bandas, onde bandos de bandidos nos têm saído uns «bons pássaros», piores do que a encomenda!
Em «Crónicas» e «Discursos» temos mandado umas chumbadas nesses «melros», «milhafres» e «pavões».
Estamos mais que farto do politicamente correcto.
“O politicamente correcto faz-nos perder o sentido de humor, quer-nos desistentes da coragem de sermos diferentes e de pensarmos diferentemente”.
Mascara de boa educação a tirania totalitária do controle do pensamento.
Refilar, criticar fora do politicamente correcto, por mais verdadeiro, real e autêntico que seja o dito (ou o escrito), lá vêm com o chavão do insulto.
Ou seja, os insultados, injuriados, atraiçoados, ofendidos não podem mandar à merda, segundo eles, os cretinos e prepotentes.
Os bandalhos políticos nacionais, estejam eles onde estiverem, têm de saber que há gente ofendida, indignada e revoltada com os seus abusos e desdéns.
E os leitores da Blogosfera que assim se sentem vejam que há mais gente como eles, e deixem de acanhar-se em mostrar publicamente o seu desagrado.
O pindérico do Primeiro Ministro tem passado o mandato a injuriar os Portugueses.
“Oficialmente”, ganha uns míseros 5.300€ mensais. Diz-se mal pago e não se queixar!
O PR aufere 9.900€ (fora os ameaços), e diz não lhe chegar para as despesas. Mas quando arranjou o primeiro emprego e tinha filhos para criar até conseguiu poupar «à grande e à francesa»!
Os Portugueses com vencimentos inferiores a mil (1.000) €uros, os Desempregados, os Reformados e Pensionistas com vales inferiores ao Rendimento Mínimo, esses são uns capitalistas do camanho!
E. por isso, o “Fanfarrão de Massamá” com um risinho cínico, veio agora chamar-nos «piegas».
Passos Coelho é um refinado hipócrita!
Fala assim, de cima da burra. Mas era manso quando apeado!
Muitos dos Portugueses, a maioria, que hoje lamentam ou se queixam da situação a que o País foi condenado, honraram mais a sua Pátria do que todos os Passos Coelho que por aí abundam.
Não são piegas!
Cumpriram, e continuam a cumprir, obrigações de cidadão com honra, com dignidade, com patriotismo.
Estes são conceitos e valores que Passos Coelho não conhece. São mandamentos não ensinados nos aviários «Jotas»!
Ao «Fanfarrão de Massamá» não lhe bastava já considerar os Portugueses como COISAS - passou a considera-los como CUSTOS!
Só ele, o «Pedrito de Massamá» e a sua trupe é que são o Activo da Nação!
Trocou a confiança que deveria ter e receber dos Portugueses pela confiança, duvidosa, que os «Mercados» lhe concederam, sabendo bem que estes visam desbaratar o «capital humano», preferindo apoderar-se do «capital financeiro».
Passos Coelho e o seu bando estão a fazer de Portugal um escritório, não a sua Pátria.
O poder financeiro não pode ser deixado à rédea solta e acabar por constituir uma ditadura.
Já nem é a Economia que prevalece, é a Finança.
Se o predomínio daquela poderia ser nefasto, o desta é uma calamidade.
Os estafermos dos estafetas e almocreves da «Troika» acabam de dizer que toda e qualquer manifestação de descontentamento com as suas sacanices são um frete partidário.
Quer dizer, toda a gente deixou de ser gente com vontade própria para ser uma peça do Partido a, b ou c. E se for do deles, bico calado. Se se for de um Partido da Oposição, sofre-se de partidarite, e é-se mandado abaixo de Braga.
Se não se pertencer aos Partidos do hemiciclo beneditino, então é que não se passa mesmo de um número de contribuinte!
A baronesa Merkel von Stein, não tendo coragem de dar uma facada no galo Sarkozy, conseguiu arregimentar o gangue do “Pedrito de Massamá” e gritou-lhe:
- “Matende-os”! “O Juízo Final não vos perguntará os motivos”!
Pois a toda essa cambada só temos a dizer que nos fartámos do politicamente correcto, e que tal como sempre nos recusámos a pensar com a cabeça dos dedos assim continuaremos.
O destino da Nação não pode ser somente traçado e guiado por arregimentados, e «arre-jumentados», nos Partidos Políticos, sejam eles «pavões, lalões, lalõezinhos» ou figurões de outra laia.
Há que acabar com o engano (e engodo) de se votar no símbolo partidário, sem ser dado a conhecer, pública e exaustivamente, o perfil de todos os candidatos apresentados nas listas.
São mais que muitas as situações em que o «cabeça de lista» não passa de um «ingénuo útil» a fazer o papel de «cavalo de Tróia», para a tomada de assento, ou açambarcamento do «tacho», de medíocres e incompetentes, trastes, vigaristas e escroques.
Custe o que custar, o acerto de contas com os nossos credores passa pelo julgamento dos grandes vigaristas, que sob o pretexto da função política se governaram até ao quinto c…. ou à quinta geração e deram cabo do NOSSO PAÍS.
Quando em Portugal houver Justiça o Escudo será respeitado!
Caro Zeus, bem sabemos que andas muito ocupado e preocupado com imensas chinesices e americanices. Mas arranja lá uma «janela de oportunidade» (bem, pode ser, até, um janeluco … ou uma frincha!) para mandares um «bafo», “seco” ou molhado, de clarividência às trombas (e aos miolos) dos tratantes que administram esta Nação que já foi «valente e imortal».
Porta-te bem, e pode ser que recebas um carolinho de Folar!
Luís Fernandes
“O fanfarrão de Massamá”
Vamos de mal a pior!
Portugal está entregue a doidivanas!
É em Juntas de Freguesia, o mal menor; é nos Municípios, uma grande merda; é na Assembleia da República, um desastre; e, mais diabolicamente, no Governo, um covil de bestas.
Assim, um País, em vez de andar para a frente, anda para trás!
‘Inda por cima, apadrinhados por sacripantas, baconinos, abéculas ou atletas barnabés instalados no altar de S. Bento. E se estes, ao menos, estivessem no de “Porta Aberta” ou no de “Sexta-Feira”(saberão onde ficam?)!
Com a treta de o Estado Novo parecer mal - e parecia! - saltaram para o poleiro de Belém e de S. Bento, os magos mais impostores do que os bruxos que se ajuntam em Vilar de Perdizes.
As eleições pseudo-democráticas têm servido apenas para legitimar as manigâncias de «cabeças-de-lista» e as trampolinices de «gaijos e gaijas» incluídos nas listas eleitorais, de quem quase ninguém sabe onde penduram o pote.
Assim, não admira que apareçam tantos tachos!
De mal a pior, Portugal caiu nas manápulas de meia dúzia de espirra-canivetes, impostores, pérfidos, covardolas, que diariamente e a torto e a direito se mostram a «cagar postas de pescada» nas televisões, mas que se «cagam todo» quando têm de ir ao beija-cu da Merkozy.
O reizinho anafado Carlos tratava o Povo Português como uma reles piolheira. Levou um tiro nos cornos.
Estes políticos pré-fabricados, crescidos à base de hormonas de tiques e manias de xico-‘sperteza nas capoeiras partidárias, e nelas treinados na arte do fingimento, da hipocrisia e da desfaçatez, quando se apanham empoleirados num galho de qualquer função público-política logo passam a andar com os cornos na Lua e julgam-se com o rei na barriga.
Tomam pose de faraós, falam “que nem um polícia da Régua”, e «chateiam» o Povo pra caralho!
Estão mesmo a pedir que qualquer “Judite” os trate como Holofernes, ai isso estão!
Vejam só, por exemplo, o último desplante de um estafermo estafeta cor de laranja podre, promovido a amanuense de um angélico galferro, vir, com a basófia de quem tem as costas quentes, roncar: “trá-lará-lari-lolá, ….custe o que custar”!
Pentelho de merda (seria assim que ouviria nas B(v)entas, se passasse nas Casas-dos-Montes, nos meados do séc. xx), o que anda a precisar é mas é de uns bons cachaços!
O Sócrates era um Pinóquio. Mas este faz o Pinócrates parecer uma miniatura!
Cá pra nós, até pensamos que o Kim Jong-Un anda enBergonhado por não chegar aos calcanhares deste Primeiro cunicugalete.
Bufar, bufa ele!
Pagar, que paguem os Portugueses …que ele não é português, homessa!
Ora o «fanfarrão de Massamá”!....
Luís Fernandes
“Não neva, nem chove”
O Inverno vai seco.
Não neva, nem chove.
A nortada, mais apressada, é que nos ia fazendo lembrar em que Estação do Ano estamos.
Já se encolheu no seu círculo polar.
Talvez empolgado pelos entusiasmos dos Carnavais, o Sol começou a madrugar com mais brilho e a encher os dias com mais calor.
Já não se vêem sobretudos ou casacos-compridos, e ninguém se lembra das gabardinas.
Rua abaixo, rua acima, mulheres aumentam o decote e homens arregaçam as mangas.
Os pequerruchos soltam-se da mão dos avós - os pais estão no emprego -, ensaiando fugas para territórios independentes.
Os maiorzitos, de sacola às costas, no regresso do Colégio, saltam do autocarro, num frenesim a lembrar a passarada a fazer o primeiro voo desde o ninho, lá no cimo do choupo, do negrilho ou da macieira.
Os automóveis fazem formatura nas Estações de Serviço, tal como os seus condutores guardam vez no Barbeiro, quer dizer, no “Cabeleireiro-manicure-esteticista”, para uns e outros ficarem com melhor visual”.
As «assistentes-técnicas-de-atendimento-per
Os passageiros dos autocarros e dos comboios aumentam os decibéis das suas conversas.
Os sacristãos dobram a força e as pancadas no toque dos sinos.
Nas esplanadas, os copos dos «finos» começam a substituir as chávenas de café.
A garrafa do «verde branco» já reclama o «fauteuil» no frigorífico.
O alecrim viceja na borda dos quintais, a contar estar mais brilhante e viçoso no Domingo de Ramos.
O cuco e a bobela aliviam-se de penas para começar mais cedo a viagem até à NORMANDIA TAMEGANA.
À porta das lojas «chinocas», baldes cheios de multicoloridos guarda-sóis de praia atrapalham a entrada e estreitam os passeios.
Na compra de artigos, no valor total de cinquenta €uros, com desconto de «vinte- por-cento-em-cartão», os «continentes» oferecem um «pára-sol para o pára-brisas do seu carro».
O castiço “Ceroulas” entra no Café, com ar de espanto. E, sem o saber, confirma a secura deste Inverno, o encolhimento da nortada e o madrugar acalorado do Sol. Pede “Um quarto de águas - Vidago”, e acrescenta: - “Ena, pá! Até já troquei as cuecas de perna comprida pelas «trouces» mini-slip”!
Do Largo do “Neto de Nantes”, sai para as sacristias das capelas do cardeal da Venda Nova, empertigado, o vice-ministro de cerimónias, empunhando uma pértiga de cartão canelado, coberta com penas de pavão de Castelões e guarnecida com folha de latão, convencido que feita com aço de Toledo e encimada com prata dourada.
A presunção absorveu toda a água benta.
Estão pra chegar as “águas de Março” - “promessa de vida”.
Luís Fernandes
“Hoje, ao ouvir Lopes Graça – “Acordai” – resolvi-me a mandar-lhe o último comentário alargado, feito acerca do texto «A Memória e a Mentira», do João Madureira.”
“MOCO DE PAVO”
(A memória e a mentira)
Caro autor, por mais que se envergonhe esse «pavãozeco de Castelões» nada se adianta.
Tal amostra de politicastra, qual políticoneiro de silicone residual e curioso modelo de sem-vergonha, depois de ter conseguido violar todos os valores culturais e sociais, conseguiu sublimar o seu complexo de inferioridade e de ridicularia com a falsidade e imposturice com que se fez aceite numa família política que ideologicamente nem é carne nem é peixe.
Sentiu-se salvo, safo, da sua pungente mediocridade quando conseguiu protecção e abrigo junto de outros maltrapilhos políticos, alguns com menos dose de miséria moral e cultural que a sua.
Conseguiu virar o bico ao prego da sorte da sua vida. E isso dá-lhe segurança e distanciamento perante aqueles que lhe descobrem a careca.
Costuma dizer-se que a verdade é como o azeite. Mas quando uma população descobre o engano que suportou de gente ronhosa e sem vergonha, tantas vezes se não chega a tempo de emendar o erro!
“Hoje no desempenho da atividade política exige-se verdade e memória.”,atribui ao pavãozeco.
Vê?! Apanha-se mais depressa um mentiroso que um cocho!
É que essa figura sinistra da vida pública Flaviense está condenada à «damnatio memomriae» dos Flavienses e Transmontanos.
Fala, esse papagaio engasgado, fala de memória!
Saberá ele que grande parte da memória implica o Pensamento?
Todo o acto de recordar exige ter-se sido bem sucedido na aquisição, armazenamento e recuperação de conhecimento - é preciso ter-se aprendido.
Ora esse pavãozeco não aprendeu Humanidades.
Nas suas circunvoluções cerebrais não constam nem foram codificados dignos traçados mnésicos.
Testem-no. E logo darão conta que não tem capacidade de Reconhecimento!
Desprovido de memória, para gentalha dessa só existe o AGORA.
Cheia de pesporrência, é vazia de Consciência essa ave pernambucana. Nem conta dá do seu triste e miserável desempenho das tarefas em que deveria assumir a defesa e protecção dos seus conterrâneos e representados.
Esse pindérico politiqueiro confunde memória com associação casual e oportuna deste ou daquele meio ou processo para atingir os seus próprios e egoístas fins.
Pobre de Conhecimento - que não de «sabiciche porcalhota» ( arranjou uns «conhecimentozitos», sim, senhor! ) - não tem competência para o Pensamento.
As suas representações mentais afunilam-se somente na sua imagem de pavão.
Vai-lhe valendo a inoperância, a fragilidade e as fraquezas das forças políticas locais adversárias. Estas, eivadas dos mesmos vícios de atitude política, resignam-se a um raro e envergonhado, por vezes ridículo, foguetório de bacoco palavreado, mais para sacudirem e apanharem umas míseras migalhitas da mesa do adversário do que para lhes causarem qualquer susto, quanto mais derrubá-lo.
Uns e outros - uns, por acção, outros, por inacção - em nome do que é digno e merecedor para a NOSSA TERRA, o que estão a merecer é uma execução………………….. «em efígie».
A «exigit sinceras devotionis affectus» tem de ser adaptada e aplicada a essa gentalha, ora perniciosa, ora desleixada, no cumprimento dos seus deveres e obrigações de FLAVIENSES e, ou, seus representantes, mesmo que trampolineiramente eleitos.
“Hoje no desempenho da atividade política exige-se verdade e memória” é caso para se dizer a esse demagogo, ‘inda pra mais se ele vier aqui meter o bico":
- eis aqui mais um dos seus «mocos de pavo», seu idiota!
Tupamaro
“I N H O”
Ai sr. Francisquinho, temos de fazer mais alguma coisinha para que o sr. deixe de estar doentinho e fique depressinha melhorzinho.
Já pedi à minha afilhada Laurindinha que lhe chegasse um copinho daquele tintinho que o sr. Francisquinho tanto aprecia. Vamos lá a ver se se lhe abre o apetitezinho!
Aqui pra nós que ninguém nos ouve, a Laurindinha vai trazer aquela canequinha de meio quartilhinho bem medididnho!
Claro clarinho, se aqui pudesse estar o Ti Godinho, seu compadrezinho que Deus tenha em bom descansinho, bem que teria de ser aquele pichorrinho de barro que leva à vontadinha uma canada! E olhe que até seria daquele pipinho de estimaçãozinha que está lá no fundinho da adegazinha, naquele cantozinho que quase ninguém dá por ele!
O sr. Alvarinho, aquele seu amiguinho da pesquinha, nunca bebe do verdinho - jurou-me pela sua rica saudinha - que bem perdidinho é pela pingotinha da adeguinha do sr. Francisquinho!
Depois trago-lhe um pratinho de arrozinho de bacalhau, temperadinho mesmo ao seu gostinho.
E para sobremesa uma maçãzinha bem assadinha, só com um poucochinho daquele açucarzinho ‘marelinho, seu malandrinho!
- Oh! Meu rico coraçãozinho de docinho de morango!
- Não seja descuidadozinho, sr. Francisquinho. Ora meta a mãozinha lá debaixinho dessa outra roupinha da caminha onde está deitadinho.
- Só ia ajeitar-te a golinha da blusinha, pois parece-me que assim como a trazes ‘inda acabes por te constipar!
- Ai, sr. Francisquinho, cheiinha de tremorzinhos já ando eu. E bem sabe o sr. Francisquinho por quem e porquê!
A Candidinha, que estava a tratar do Francisquinho, sabia bem que quando passava a porta daquele quarto os passos da Laidinha a seguiam, guiando os olhos e os ouvidos para tudo o que ela dissesse ou fizesse.
Mas, se uma mão levantada seria apanhada pelo espelho da cómoda, rasteirinha, por baixo do lençol, dava bem para um sorrateiro e delicado devaneio por baixo da saia curta da Candidinha.
No corredor, a Laidinha tossiu.
A mãozinha do Francisquinho escondeu-se debaixo do lençol.
Os tremorzinhos da Candidinha espalharam-se da cabeça até aos pés. Sentiu que tinha na mão o coraçãozinho do sr. Francisquinho.
Estendeu os braços para o outro lado da cama, com o propósito de ajeitar a ponta do lençol e com a intenção de deixar os biquinhos do peito da sua blusa caírem no centro do traçado da boca do sr. Francisquinho.
E chamou, carinhosamente:
- Entra, Laidinha. Vem ver como o sr. Francisquinho já tem melhor cor!
A Laidinha entrou.
A Candidinha saiu.
Dando conta que os barulhos da Candidinha faziam desvio para o azul, a Laidinha sentiu que o vermelho se desviava para os seus suspiros.
-Ooooh! Chiquinho!
-Ooooh! Laidinha!
E mais não podiam dizer!
Um par de chapins-reais, pousado na ramada, frente à janela que dá para o quintal, parou o chilreio e abriu o bico, de espanto!
Nas ondas do lençol da cama do sr. Francisquinho brilhavam as cores do arco-íris!
Luís Fernandes
“O CORAÇÃO da CIDADE”
O coração da cidade!
Era nas “Freiras”!
Os “Bombeiros”, a “GNR”, a “Caixa Geral de Depósitos”, os “Correios”, o “Xavier”, o “Aurora”, o “Lopes”, o Liceu, o “Maximino Vilanova” e o “Sport” formavam uma moldura que lhe acrescentava brilho e encanto.
Violetas e amores-perfeitos salpicavam com sorrisos os canteiros.
E os arbustos floriam em competição com as roseiras.
Nas copas das árvores, alguns piscos e tantos pardais jogavam ao romisco. À sua sombra estacionavam os automóveis dos ricaços e dos morgados.
A meio da tarde, o Tio John americano de Vila Meã dava voltas ao Jardim das Freiras com o seu Oldsmobile-Garden-State descapotável cheio de lindas raparigas!
Só um Volvo V18, cor de tijolo, lhe discutia a competência!
De hora a hora, crianças do 1º Ciclo (1º e 2º Ano do Liceu) davam corridas à volta dos canteiros, brincando à apanhadinha.
De hora a hora, jovens do 2º Ciclo (3º, 4º e 5º Ano) sentavam-se nos bancos do Jardim a «tirar dúvidas» de Físico-Química ou de Geografia e a tentar resolver equações apaixonadas.
De hora a hora, meia dúzia, ou dúzia e meia, de raparigas e rapazotes do 3º Ciclo (6º e 7º Ano) atravessavam para o “Ibéria”, onde tomavam café e estímulos visuais nas revistas clandestinas - não, que a moral e a censura impunham limites às tentações pelo olhar, quanto mais pelo sentir ou apalpar!
Subia-se a «Ladeira da Trindade» para se ir dar umas tacadas no “Brasília”; subia-se a ladeira dos Bombeiros para uma jogatina de futebol na Lapa.
Os parzinhos mais comprometidos aproveitavam o intervalo para dobrar a esquina da Rua do Olival, à esquerda ou à direita, e regressar ao Liceu, cada um pelo passeio contrário; ou o «furo», para subirem à Lapa, fingindo ir assistir ao «Jogo de Futebol», mas virando à direita pelas traseiras dos “Bombeiros”, em direcção à Rua do Olival, conquistando o espaço entre as árvores entroncadas e frondosas.
Pelas portas do “Maximino Vilanova” entravam e saíam juízes e conselheiros, lavradores e carpinteiros, “passadores” e contrabandistas para trocar escudos por pesetas, logo cambiadas em Feces, por caramelos, bacalhau, polvo, pedras de isqueiro ou «Tabu”.
Usava-se chapéu.
Mas a boina dava mais classe ao olhar de esguelha com que se media a distância do soquete à bainha da saia plissada da rapariga que se trouxesse debaixo de olho.
Só um Afonso é que nunca, até aos dias de hoje, deixou de usar boné!
Talvez aí se esconda o segredo da sua genialidade!
… era nas “Freiras”!
Luís Fernandes
Cadeiras Comicamente Cleptadas
Há uns anos (uns trinta e picos), no tempo em que 30% dos portugueses eram analfabetos (o mesmo nível de alfabetismo da Inglaterra de 1850), ter-se estudado até ao 3º ou 4º ano do antigo liceu (o equivalente aos actuais, e banais, 7º e 8º anos) era uma coisa de que poucos se podiam gabar e que era também um “diploma” que garantia, quase automaticamente, um bom emprego no estado, numa câmara ou numa repartição pública. Todos se lembram (menos os putos) que nos anos 80’s ainda havia por aí professores do ciclo preparatório que tinham como habilitações apenas o antigo 7º ano e por vezes só mesmo o 5º ano dos liceus, ou das antigas escolas comerciais. As pessoas com o antigo 5º ano portavam-se com maior arrogância e sentimento de superioridade que os actuais doutores ou mestres. Na verdade tinham um certo direito a isso porque eram em muito menor percentagem do que os actuais doutores, que mesmo com um canudo se vêem obrigados a emigrar para arranjar emprego. Nessa altura, um verdadeiro doutor era tratado como um deus, especialmente se ainda por cima era um doutor doutor, um doutor médico. Por exemplo, na pequena vila de Boticas havia apenas um doutor, um médico, que era também director do hospital de Chaves, sendo que esta conjugação de importâncias académicas fazia com que fosse endeusado pela população.
Nesses tempos, em Boticas, o Sr. Guilhermino, com o seu 4º ano do liceu, era um respeitável funcionário da repartição local do tribunal. Além de respeitável funcionário, o Sr. Guilhermino era também um dos 7 ou 8 excêntricos (de qualidade mundial, claro!) da vila que faziam tropelias tão notórias que ainda hoje são recordadas pela população local.
Um dos truques usados pelo Sr. Guilhermino nas suas brincadeiras era o de fazer um tom de voz sério, de general, muito intimidador, que era empregado para obrigar as pessoas (especialmente os desconhecidos mas também os que o conheciam razoavelmente) a obedecê-lo nas mais ridículas ordens que lhes dava.
Imagino que o domínio que ele conseguia ter sobre as pessoas, usando o seu tom de general, terá sido inspirado no respeitinho que as pessoas lhe guardavam por ele ser um eminente funcionário do tribunal, que era um cargo a que ele juntava também a notória posição de correspondente local do Jornal de Notícias. O seu tom de general, aliado ao puxar do cartão de funcionário do tribunal, fazia com que a sua entrada num estabelecimento pusesse toda a gente em sentido, ou de gatas, segundo a sua preferência.
A excentricidade do Sr. Guilhermino revelava-se também nas grandes quantidades de vinho que bebia, especialmente na sua famosa adega (que tinha o irónico nome de Sumol) onde recebia os amigos e as vítimas das suas brincadeiras.
Uma vez, numa ida a Chaves com mais dois amigos, lembrou-se de que precisava de arranjar umas mesas e umas cadeiras para mobilar a adega (por forma a receber os amigos mais confortavelmente) e dirigiu o volkswagen carocha para a frente do café Aurora, onde estacionou.
Na esplanada do café, que era na época o café mais chique de Chaves, podiam ver-se mesas e cadeiras de qualidade, que estavam ocupadas pelos clientes. O Sr. Guilhermino dirigiu-se à esplanada e, usando o seu tom grave e sério de general, disse aos funcionários, depois de se ter apresentado mostrando rapidamente o cartão do tribunal de maneira a que não tivessem tempo de ler que era funcionário em Boticas, “Estou aqui para fazer uma penhora por incumprimento do pagamento de impostos”. Os funcionários ficaram imediatamente intimidados e embasbacados. O Sr. Guilhermino continuou no seu tom de drama “Vamos começar por levar as mesas e cadeiras da esplanada” e virando-se para as mesas indicava aos dois compinchas “É esta, e esta!”, ordenando aos clientes em voz alta e ríspida “Levantem-se imediatamente, de que é que estão à espera?!”. Os clientes, assustados, levantavam-se imediatamente para obedecer às ordens do vozeirão de general, enquanto os dois compinchas do Guilhermino (daqueles excelentes “actores” de Boticas que mantêm o ar sério e imperturbável durante as brincadeiras mais improváveis) iam acarretando as mesas e cadeiras para a grade do tejadilho do carocha, ao mesmo tempo que o Guilhermino mantinha toda a gente em sentido e continuava a escolher as vítimas para se levantarem das cadeiras a toda a velocidade. Quando a grade do volkswagen já não aguentava com mais material, ataram com uma corda a mobilia “penhorada”. Depois disso, o Sr. Guilhermino despediu-se com um “Esperem aqui que já voltamos para vir buscar o resto!”, e metendo-se no carocha foram-se para Boticas descarregar a mobília no Sumol.
Luís de Boticas
“Siboney”
A chuva, tocada a vento, dedilha as telhas do meu telhado, em ritmo de romântico bolero.
Levanto-me da cadeira, dou meia volta e achego-me à janela.
O alcatrão da estrada mal amanhada mostra um negro lavado. As folhas de uma palmeira dizem-me que o vento está arreliado.
Trajando uma blusa cor-de-rosa e umas calças brancas, uma mulher alta, elegante, “bem feita”, ciente das sugestões e provocações com que atiça a cobiça masculina e a inveja feminina, desce os sete degraus que vão desde o passeio até à rua interior, pavimentada com paralelogramos de granito. Leva na mão direita um balde de cor amarela-esverdeada. Chegada à gateira, dobra a cintura, apoia a mão esquerda no fundo do balde e entorna-o no buraco. Sabe que em redor há prédios com vários andares, muitas varandas e imensas janelas.
E, nas ruas, carros e camiões, ciclistas e peões circulam, atropeladamente, a esta hora, não fosse hoje sábado e morno dia de Primavera.
A linha do horizonte é definida pelas copas das árvores que, acima de um casario arquitectado ao deus-dará, se assomam pela crista de uma elevação, assemelhando-se a uma caligrafia exercitada pelo maior bêbado da Aldeia, à saída da adega do seu compadre de estimação, num final de dia santo de guarda.
A chuva pareceu assustar-se com os meus pensamentos e fugiu.
O vento deu ares de ficar zangado com os meus pensamentos e começou a soprar com mais força.
E até um Renault Cinco se atreveu a ultrapassar um Audi Quatro!
O meu olhar devia ter insultado as nuvens, pois, de repente, veio parar aqui à minha frente um montão delas, semelhantes a punhos carregados de artrite e tingidos com todos os tons do preto e do cinzento.
Ali ao meio delas até me parece ver uns dentes a rirem-se com escárnio.
Dou meia volta abeliana e volto a sentar-me virado para a parede e de costas para a janela … e as nuvens.
Pego na «bic laranja ponta fina» e peço-lhe que conduza a minha mão numa melodia de palavras, com imenso agrado para quem as ler.
Solta-se.
Resmunga-me que não quer nada comigo.
Censura-me por eu me recusar a alinhar com os contrabandistas da Fonética, os corruptos da Morfologia, os sabotadores da Sintaxe; com os proxenetas da Língua e com os pederastas da Gramática.
Atira-me que mais sorte teria se pescasse à rede um cardume de palavras e o pendurasse num baraço feito com o meu nome.
Desisti da «bic laranja ponta fina».
Pequei num lápis.
Mal dei conta de ter começado a tamborilar na madeira a «Siboney»!
Para o que me havia de dar!
Onde diabo a mão, ou o lápis, foram buscar isto?!
Lembrei-me da fandanguice interpretativa do Paco de Lucia e da romântica interpretação de Connie Francis.
E fui escutar Xiomara Alfaro e Thomas Tirino.
O vento amainou. E a chuva voltou, mas a merujar, dando salpicados beijinhos doces nas telhas do meu telhado e na vidraça da janela do meu quarto.
Dou conta de uma espreitadela do sol. A janela do apartamento do lado de lá da rua cumpriu a lei da simetria e denunciou-me o astro rei com o lampejo que pôs a minha sombra na parede.
Veio-me à lembrança que amanhã, por decreto, é o dia mais curto do ano. E, talvez por isso, contrariado, o dia ande a mostrar, já hoje, muitas caras, a fazer algumas carrancas e a jogar «às escondidinhas».
O alarme da Farmácia, ali em frente, começou a gemer, aos soluços. A princípio ainda fazia chegar, em louca correria, o plantão da empresa de vigilância. Mas de tanto soar em falso, o plantão fica sempre em «à vontade!» Basta uma quebra de corrente eléctrica ou a passagem de um camião mais apressado para que o alarme da Farmácia se esganice.
A luz do dia vai definhando. O escuro da noite vai-se anunciando. Os automóveis circulam com os médios acesos, a iluminação pública está ligada.
Sente-se o correr de algumas persianas nas janelas e varandas de casas vizinhas.
Também eu acendi a luz do quarto e preparei a do candeeiro de mesa.
Só ainda não consegui encontrar o interruptor que acende a luz dos caminhos e dos atalhos que me conduzam à alegria, ao conforto e à inspiração de um psalmo à Vida …ou à Morte!
Luís Fernandes
“pimba!»
A pasmaceira desta vida é, afinal, uma sequência de intermitências irregulares, desafinadas e desatinadas.
Ou é a chuva de dois dias que aborrece, ou é o frio do Inverno que corta os ossos, ou logo o calor de Verão que abafa, ou o vento que sopra violento, virando guarda-chuvas e assobiando ameaçador, pelas frinchas das portas, das telhas e das janelas, ou ainda porque nos dias abrasadores de Verão nem um arzinho nos refresca a cara.
Nas Rádios, nos Jornais e nas Têvês, os moldes das tretas estúpidas e imbecilizantes dos locutores, jornalistas e apresentadores ostentam o mesmo padrão, ridículo, pobreta de imaginação e qualidade, entre o qual intercalam «0 facto».
À mistura desenxabida chamam “programa” ou «notícia».
Atrás do balcão ou da secretária, os nossos interlocutores carregam vistosamente - pelo menos fazem por isso! - os alforges de pretensa sabedoria, competência e autoridade.
Para nos dizerem «sim» ou «não», encharcam-nos de perguntas acerca do nome, morada, data de nascimento, número fiscal de contribuinte, de eleitor, de utente do Serviço Nacional de Saúde, do Bilhete de Identidade, das apólices de seguro do carro e da saúde, da Carta de Condução, da data de nascimento, baptismo, crisma, casamento, do 1º dia de Emprego, do dia de despedimento, do número de telefone da residência e do telemóvel, e do número de identificação bancária.
Olham para o Cartão de Cidadão como um boi para um palácio!
Passam à citação das alíneas, dos parágrafos, dos capítulos, dos regulamentos, das leis que se lhes afiguram «dizer respeito» ao nosso assunto.
Porém, «o sistema» não funciona - «não há sistema»! - e temos que «aguardar um momento».
Então, logo se lhes solta um suspiro de um «ah!», porque «de resto», agora se lembraram de que tudo o que haviam citado fora recentemente revogado numa reunião de Conselho de Ministros e a sua «implementação» ainda causa algumas dificuldades.
O telefone toca, e o atendimento é suspenso.
Não! Que o «utente dos Serviços» que telefona é sempre mais importante do que aquele que está à sua frente!
O apito do telefone confere logo qualidade e importância superiores ao assunto a ser tratado. Por isso, a pose, o tom de voz, o lance de olhos, a mudança de mão, do telefone, ou da orelha, ou a mudança só de mão ou só de orelha, vão explicando que a urgência do telefonema é flagrantemente mais prioritária do que a prioridade da urgência do utente -contribuinte que está ali à sua frente, com o assunto interrompido.
Mas se a chamada é para pedir a ligação a um «chefe», a resposta salta automaticamente: - «… não pode atender. Está em reunião».
Mesmo que tenha pousado o casaco nas costas da cadeira, a marcar o lugar, e tenha saído para o …….. «Pão - Quente» mais próximo, para petiscar as notícias da “Bola”, do “Record” ou do “JN”, ou do “DN”, o «chefe» está sempre “em reunião”.
E, assim, a produtividade varia na razão inversa da competitividade - não que isto de se ser «chefe» exige muita compet….ição!
Mas, num esforçado esforço de boa vontade, o «atendedeiro» (ou a «atendedeira»), lá prometem ir tentar «abrir uma janela de oportunidade» para que o assunto fique perto de ser resolvido, ou para uma reunião com o «chefezinho».
“Então é assim”, “efectivamente», “portanto”, esta problemática administrativa «abrangente» defronta-se, «de resto», com «incontornáveis» conceitos «fracturantes» «também», que atravessam «transversalmente» os critérios «também» interpretativos das conjunturas sócio-económicas «também» de cada cidadão, candidato a, “digamos que», “ãh”, “ãh”,……ãh…….”ãh”, deferimento de todo e «também» qualquer requerimento, elaborado segundo «também» as normas vigentes, que «alavancam» as prerrogativas interpretativas de uma dinâmica, de “crescimento negativo”, no quadro, «hum», «ô…», «ãh»….planos estratégicos «também», «absolutamente fundamentais», inscritos nos protocolos dos «acÓrdos» assinados «à margem» do encontro bilateral da «baixeira» de Trípoli, «de resto» no «sêsto» dia das conversações «também».
“Claro que, evidentemente, e sem qualquer espécie de dúvida, talvez”, o assunto, que «de resto» aqui o trouxe, constitui «também» uma «estreia absoluta» da aplicação daquele despacho, «também».
A escritora L…acaba de «perpetrar» um novo romance, «de resto» o “seu mais recente trabalho”, uma «mais- valia» para as letras pUrtuguesas «também».
“Ò(b)viamente”, o…«ãh»…partido, “então”, «’cialista» … «ãh» … «alavanca», «ò(b)viamente», políticas «abrangentes» e «incontornáveis», «justamente, «também»,«de resto», dentro do «então»…«ôôô» …«ãh, ãh,ãh» quadro das directivas discutidas «à margem» da cimeira de Baixa da Banheira…ou “entre lençóis”.
“E «também», assim, chegamos ao fim, «também», do nosso trabalho de hoje, à conclusão «também» do nosso programa, e, «de resto», “já sabe”, continue na nossa companhia «também» e com o programa «a não perder» do «incontornável» Ladislau «já a seguir “ “TAMBÉM”!
“Bom dia, boa tarde ou boa noite, conforme a hora e o local em que nos escutam”!
Esperamos pelo regresso do: - “ÊZÁTO”!!!.......
Luís Fernandes
“Manga curta e perna ao léu!”
Agosto é o mês da manga curta e da perna ao léu.
Até ao Dia de S. Caetano ou da Srª da Livração, cá pelo Território do Norte, o Sol, qual dragão assanhado, lança línguas de fogo, escaldando o ar, as paredes, os telhados e as lajes das calçadas.
As cobras e os lagartos esparralham-se nos caminhos ou nos estradões alcatroados.
Os Bares e os Cafés enchem-se de gente bem-disposta, sorridente e barulhenta.
Nos supermercados pouco falta para transformar os «seguranças» em polícias-sinaleiros, ou, então, construir rotundas ou colocar semáforos - os “carrinhos de compras” são conduzidos ora como «karts», ora como F1, F2 ou F3, ora como “TT”- Todo-Terreno, no Rali “DÁ CÁ – TOMA LÁ”!
Nas praias fluviais ou marítimas todos procuram agarrar um pouco do tom da sua origem “australopitecafricana”, recordar os ancestrais primos Primatas, chapinhando na água, ou apertando o queixo contra o pescoço julgando fazer peito de fanfarrão quando o que mais conseguem é empurrar o «pipo» para a frente.
Os aplaudidos, cantados e encharcados com «pimbalhada» Emigrantes da Cê-É(-Éra) contrapõem ao gemido e miado Português dji S. Paulo, do Rio di Jàneiro ou dá Bàía o charmoso e piaffino «rien de rien» misturado com o eiffeliano “donc, avec».
Até os santos tiram férias, lá do convento de S. Pedro, e fazem vistosas passeatas e pomposos desfiles pelas ruas, avenidas, e até carreiros de qualquer «parvalheira» lusitana. A humildade deixam-na à porta do céu. E, uma vez por ano, nos lugares que lhes calhou na rifa e no goto dos portugaleses, é tão grande a farra em que participam que só lhes falta apanhar uma grande carrispana!
Como regressam carregadinhos de prendas, de promessas e de preces, S. Pedro até os recebe com as portas escancaradas!
Claro que ele, o porteiro - mor do reino, também tem o seu Dia. Mas para fazer notar um cibinho mais a sua proeminência até «aceitou» que no mês de tanta Senhora, os de ÁGIAS FRIAS lhe prestem, a preceito e a gosto, uma homenagem de truz!
Quando a caminho do Inferno - íamos entrevistar o Diabo, ó mal intencionados! - nos cruzámos com ele no “estreito de Dar-Dar-Nelas”, bem que nos disse, baixinho e em segredo, que a pingota e o licor de ÁGUAS FRIAS nada ficavam a dever ao tinto amilagrado das bodas de Canãa.
E com o calor que faz cá pelo Território do Norte, só mesmo por milagre é que a santalhada consegue andar vestida por inteiro, sob de um sol abrasador, debaixo de tantos e tantos olhares, ora agradecidos, ora suplicantes, ora, até, conspícuos!, e sobre os ombros de crentes, descrentes e, apenas, fiteiros.
Agosto é o mês do enrolanço!
Lá ‘stais vós com más intenções!
Agosto é o mês da caça às rolas!
Vós é que estais prá’í a dizer alto e sibilino:
- Ah! Minha rola!...
Ora «dezende» e «confessaide» a «berdade» e a intenção que vos «bai» na alma (ou no coração)!
…Manga curta e perna ao léu!
Que as Férias vos tenham sido A GOSTO, ó os de cá que estão lá; ó os de lá que estão cá; e ó os de cá que estão cá!
O Caval(h)eiro de Monforte
GENCIANA-DAS-BOTICAS
Sentou-se na cadeira, à nossa mesa.
Não a conhecíamos.
E algum do espanto que nos surpreendeu dilui-se no sorriso aberto, lindo, numa cara linda onde dois olhos amendoados nos atraíam e uma boca em coração nos seduzia.
Do seu pescoço pendia um fino fio de prata dourada que sustentava uma gota de água cristalina a prometer cair num risco de solo fértil onde daria a vez a um fio de corrente rápida a transportar-nos a um imenso mar de desejos e de loucuras.
- Não fique intrigado - sussurrou.
Temo-lo visto a passear sempre de braço dado com os livros. E aqui, no Café, logo se percebe como anda apaixonado: - quem entra, quem está, quem sai, dá conta, e, às vezes, comenta como só tem olhos para eles.
De que andará à procura?! – comentava uma gulosa dos “croassãs” recheados.
O que encontrará nos livros?! – perguntava outra, preocupada em exibir o umbigo, fazendo que fazia puxar para baixo uma blusa que teimava em subir.
Quem será?! – interrogava uma velhota acabada de entrar, tão interessada,, em mostrar o penteado acabadinho de feito na cabeleireira ali ao lado, com um olho na queijadinha e o outro à procura do cruzamento como olhar de quem reparasse na sua «permanente».
Sabe Deus o que vai naquela alma! – murmurou à saída uma beata que só vai à missa dos sábados à noite para mostrar o novo “belandrau “ que comprou na loja chinoca … mas irá devolver na 2ª feira, por ter considerado que não lhe ficava lá muito bem.
Ou o que vai naquele coração! - respondeu a vizinha da frente, à entrada cruzada com a saída da beata, sempre atenta à oportunidade para uma conversa duvidosa e de intriga.
O livro e a gravata são-lhe inseparáveis! – ouvimos aquele javardito que costuma sentar-se à mesa do canto, lá no fundo do Café.
Traz o livro porque tem a mania que é um «xico’sperto”! – continuou o sabujito do companheiro do javardito.
Apanhámos estas apreciações a seu respeito.
Como será? - quisemos nós saber.
E eis-nos aqui, à sua frente, para conseguirmos as respostas àquelas e outras interrogações.
Mas vamos utilizar um método estranho.
Sabemos que nos vai escutar com demora e atenção.
E será nos traços da sua atitude e das suas interrupções que nós leremos as respostas.
Não. Não somos subversiva.
Esse é o seu papel.
Adivinhamos que começou a ser, na voz dos outros, revolucionário; depois da Revolução, refilão; e, no atribulado sossego democrático, passou a subversivo.
Amanhã, provavelmente, dirão de si que FOI um visionário.
Ali, do balcão, alguém dirá, incontidamente, que FOI um filósofo.
O sol já não mandava reflexos para a nossa mesa, indicador de que a hora do meio-dia estava passada.
As palavras que estávamos a escutar sabiam a bucólica melodia chegada na brisa dos bosques floridos da nossa ALDEIA natal.
Por entre eles, o amor e as aventuras, e as aventuras de amor nos fizeram dar conta da vida.
Lembrámo-nos desse despertar para o mundo. E nele ficámos adormecido, envolto nas cores das sensações determinadas pelo corpo de estímulos assim posto à nossa frente.
A serventia do chá e do «palmier» criou o pequeno intervalo para o nosso devaneio.
Aquele indizível olhar amendoado – cor - de – esmeralda voltou a pousar em nós.
No leve levantar da sobrancelha lemos a pergunta - pedido para continuar o discurso.
- É um gosto continuar a ouvi-la - murmurámos.
Mexeu a metade de pacote de açúcar deitado no chá, tirou um guardanapo e, com a delicadeza de uma pitonisa de Delfos, colheu o «palmier» e levou-o aos lábios. Pousou-o com suavidade.
Notámos que ao pastel só lhe faltava uma folhinha do tamanho das flores dos malmequeres.
Continuou:
- Já visitei muitos Povos.
Estive em Angola e Moçambique; no Canadá, Estados Unidos e Brasil.
Conheço muitos países europeus.
Em todos encontrei Transmontanos.
Tal como em si, em todos notei a distinção de Transmontanismo - excepto em dois territórios: em Lisboa e no Brasil.
Achei muito estranho.
Lá, no Brasil e em Lisboa, os Transmontanos preferem a vaidade dos tiques e retoques brasileiros e lisboetas ao orgulho da sua forma de falar; preferem a lamechice da insinuação pseudo - diplomática à franqueza directa do “entre quem é!”.
Nos meses de Verão, pelo Azibo, Bragança, Termas do Alto Tâmega, Festas e arraiais reparei, e certifiquei-me, na preocupação que esses seus comprovincianos, sedeados em Lisboa, exibiam o falar à moda da «Linha», da «Baxa» ou … da Rotunda do Relógio!
E os chegados do Brasil, com ou sem dente d’ouro a rir-se-lhes, aproveitavam todas as oportunidades para o linguajar com açúcar amarelo e em “lulo-dilmês”, numa mistura de gorjeios de quiriquiri e os de arara-canindé com os pios do pichororé e do surucuá, em pose de vetustos «coronés» fazendeiros.
Cruzes, canhoto!
Um instintivo serrar de maxilares denunciou a nossa contrariada concordância com a apreciação da «Rotunda».
Fez que compôs a colherzinha, rodou ligeiramente o pires, e aquele indizível olhar amendoado – cor - de – esmeralda tornou a trazer doçura ao nosso espanto!
- Quantas perguntas fez a si mesmo e quantas gostaria de já me ter feito neste pequenino intervalo?
A curiosidade primária rouba-nos toda a atenção para qualquer futilidade. É linear, venal, precipitada e, até, sórdida.
A curiosidade transcendente, complexa, metódica, espalha-se pelo universo da percepção. É escalar e sublime.
Por isso, os comportamentos gerais que encaramos no nosso meio ambiente local revelam um fértil campo de sensações, e só aqui e ali uns tufos de percepções.
Da relação imediata entre sujeito e objecto resultam as primeiras; da organização sintética de elementos psíquicos, as segundas.
Assim, voltamos à curiosidade que nas «massas populares» provoca um livro na mão de um vizinho ou de um estranho a passear pela sua rua ou a tomar um pingo, a hora habitual, no “Pão – Quente” d’ao pé da porta.
Até as crianças se sentem tentadas a sair das mesas dos papás, das titis e dos avós e vir rondar a sua mesa.
Já reparámos que fala com elas, lhes põe à disposição o bloco de apontamentos e quantos lápis, lapiseiras, marcadores e canetas traz consigo.
Algumas mães, já o ouvimos, mal entram aqui, logo dizem para o filhote mais crescido:
-“Olha ali o teu amigo!”.
E tantas ainda continuam sem saber o seu nome.
- A mim pouco me importa. Embora reconheça, e esteja atento, à importância que todos dão ao reconhecimento e ao chamamento pelo seu próprio nome - atrevemos a interrupção.
Percebemos um pontinha de ar expectante.
Hesitámos em continuar a falar.
Ainda estávamos à procura das simetrias e dos complementos que nos ajudassem a compreender a surpresa acontecida.
Não houve ainda pressentimento.
Fazemos esforço para ordenar ideias, catalogar juízos e construir raciocínios.
Recolhemos as imagens e os sons, mas ainda não conseguimos combinar-lhes uma forma.
Assim, abrimos a mão, virando a palma para cima, em convite para que continuasse.
Sorveu mais um gole de chá como quem derrete um beijo tão desejado.
Um fugaz aumento de brilho do olhar deu mais esplendor ao seu sorriso.
- Memória. Lembrança. Recordação. Saudade.
Saudade!
Noto em si a colina de saudades que transporta.
O seu olhar está cheio de suspiros. Por isso os tem sempre húmidos.
- Também nós procuramos o caminho de Pasárgada, onde possamos viver as realidades dos nossos sonhos, as nossas fantasias, a nossa liberdade, enfim! – nem demos conta da fuga destas palavras.
Ela quase riu com franqueza.
Tomou-nos a mão.
Que doçura!
Estremecemos de corpo e alma.
Flor del llano! - chamou-nos.
Tocaram-nos no ombro.
Uma voz despertou-nos:
- Procuram por si.
Sobressaltámo-nos.
A xícara do «pingo» estava meada.
As televisões anunciavam o «Telejornal da Uma».
-Um licor de Genciana-das-Boticas e fica bom! - receitou uma voz algures.
- Senhora da Livração nos acuda! – exclamámos, despedindo-nos.
Luís Fernandes
“A VIDEIRA e o CASTANHEIRO de SOUTELINHO”
Era uma vez um peregrino de saudades, que aproveitou um dia longo de Verão para rumar a uma Normandia de fronteira.
Madrugou.
E logo foi o primeiro - primeirinho a pôr o pé no campo de concentração , “livre – e - democrático”, de romeiros, lá no Largo do Anjo.
Não sabemos se do Gabriel, Miguel ou Rafael! Mas isso é lá com o “nazireu de empreitada” e presidente municipal.
Os «Caminhos de Santiago” foram substituídos pelas «Rotas do Contrabando”, e estas pelas alcatroadas estradinholas municipais.
A pé já quase ninguém anda - a não ser ao cair da noite, nas «caminhadas da moda» contra o “clesterol” e a favor da «perdida de peso” - não que a gordura é para manter!
Assim, num machimbombo velho e cansado, retornado das picadas do CONGO, onde transportava Pigmeus, lá foram os ferv(o)erosos caminheiros, mais parecidos com um “ pelotão de Caçadores 10” ou mesmo até com uma Brigada de Assalto dos “Dragões de Chaves”, pois iam equipados com disparadores automáticos a lembrar bazucas ou morteiros de 60mm.
Apesar de especializado em morteiros pesados de 160 mm, o Romeiro de Alcácer levava apenas uma fisga de meio furco.
Chegados ao S. CAETANO, este, em vez de abençoar os peregrinos com água benta …ou uma(s) pinga(s), da(s) boa(s), lá planalto do COUTO, asperge-os com uma cacimbada!
Por isso uma célebre “Corneta de S. Caetano”, com história contada no Blogue “Valdanta”, soou constipado-desafinada ao “Merino” que mandou o “Neto da Tia São” para o Garcia!
À procura do sol de «inferno», rumou-se até ao «Meco» 198 – noves fora nada - lá no cimo do Poβo de SOUTELINHO DA RAIA, onde todos fizeram as vezes de «gajeiro de nau Catrineta»… e donde só alguns desceram para “proβar” o «gajeiro “ que empurrou umas rodelas de linguiça e de salpicão numa secreta adega com (antigamente) porta de entrada de … Guardas-Fiscais, do lado de cá, e de «Carabineros», do lado de lá.
Conduzido à Fonte medieval, em recuperação, nasceu-nos a esperança de encontrar por entre os montículos de terra e cascalho alguma flauta doce, que a distracção dos arqueólogos tivesse consentido esquecida.
Não a encontrámos.
Mas um sopro de vento, leve, levezinho, fez-nos voltar o olhar lá para o fundo de uma cortinha que começava logo ali, naquele muro de pedra onde terminava a rua.
Atraído pela arte e deslumbrado com a Natureza.
Perante nós, um frondoso castanheiro. Imponente. Com uma folhagem de um verde pujante. E tingido por madeixas amarelo - prateadas da sua flor.
Ao nosso lado, uma Videirinha elegante, viçosa, estendeu uma gavinha insinuante e fluorescente, e guardou para a posteridade o último testemunho de um jardim natural, outrora passeado por druidas, em cânticos de louvor a Druantia, a Arduinna e a Ailinn.
O sol abriu.
E uma onda de luminosa alegria transportou os peregrinos até ao cimo de CASTELÕES, lá, à SENHORA do ENGARANHO.
Romeiro de Alcácer
“Maldição de S. CAETANO(?)”
É Verão.
Todos os frutos da Natureza sabem que nem um regalo!
E o cabrito, e o cordeiro e o frango assadinhos no forno, que bem apaladados se apresentam, depois do delicado trato dos nossos amigos cozinheiros e amicíssimas cozinheiras!
E não é que a «pinga» de qualquer Adega de um vizinho, ou Regional, da NOSSA TERRA «fica mesmo a matar» com aquele especial molho, onde as batatas assadas envernizam aquela cor coradinha que só os fornos e a lenha daquelas Terras sabem dar?!
Por ali, “come-se que nem um abade”, e “bebe-se que nem um camelo”!
É de admirar?!
Nem por isso!
O sorriso franco e os braços abertos com aquelas gentes nos recebem abrem-nos - e de que maneira! - o apetite.
E a franqueza é sempre tão grande que até nos fazem juntar a sobremesa com a ceia!
Os simples e os modestos, como nós, só têm uma maneira de mostrar o seu reconhecimento: levar o carro e o coração carregadinhos de amizade.
O pior é que nos acontece sempre «o pior» - o nosso regresso é feito com a alma cheiinha de mimos e a mala do carro ou a cabina e a caixa da carrinha atulhadas com saborosas lembranças!
Catancho!
“Incréu” como somos, até nos custa ter de acreditar que o S. CAETANO costuma fazer milagres!
É Verão.
E o fresco de uma sombrinha “que bem que sabe”!
E o S. CAETANO com ela abençoa os seus devotos em visita.
E até os passeantes que por lá andam, e «fazem escárnio» das milagrices que lhe atribuem!
Há uma boa meia dúzia de decénios que lhe fomos apresentado pela nossa AVÓ, num Dia de Festa!
Porque não tivemos «o garrotilho»; porque fomos curado das «sezões»; porque ficámos bom do braço partido (tri-partido!) com aquela enorme turra do carneiro irritado com «A Corneta de S. Caetano»; lá fomos, pela mão d’AVÓ, agradecer-lhe estes milagres!
A ele, S. CAETANO, tão sábio, tão rico e tão poderoso, iam, e vão, os pobres e os pobrezinhos levar «a esmola»!
E, como se não bastasse a longa caminhada, desde o termo de Samaiões, ainda tivemos de «esturricar» ao sol, carregadinho com as roupas, a coroa e a estátua, a cruz ou o ramo que nos davam o ar e a figura de «ANJINHO», numa procissão mais lenta do que «passo de boi»!
É Verão.
E hoje lá fomos ao “S. CAETANO”, recordar as promessas (da AVÓ) por nós cumpridas, e cobrar o prazer de sombrinha, ora apetecida.
Próximo do banco onde, de olhos fechados nos parecia melhor apreciarmos a sombra e o sossego do lugar, e com mais harmonia e emoção desfilariam aquelas recordações distantes, dois casais de «velhotes», mais ou menos da nossa idade, conversavam filosoficamente.
Trocavam histórias de milagres de amor, de saúde e de sorte.
-….“Nunca mais deixa de ser burro”! - ouvimos. E ficámos com a atenção desperta.
-“’Ind’à semana passada fomos bisitar o Delfim, que está entrabado numa cadeira de rodas, Estábamos eu, ele, a mulher, a filha e o genro, cá fora de casa, ao fresco.
O rapaz…
-O rapaz! - exclamou, e interrompeu, uma voz feminina (que presumimos ser da Rapariga que o orador tomou por Mulher, provavelmente no altar do S. CAETANO).
-Ele debe ser da nossa idade, ou até mais «belho» um pouco! - acrescentou a «madama».
-Bem, «Rapaz» foi uma “forma de dezer”.
O Rapaz vinha despedir-se.
Como lhe tinham prometido umas saladas, deixou a mala do carro «a direito» do portão, que já estava aberto.
Estava a filha do Delfim a dizer que esperasse um bocadinho, enquanto ia buscar as alfaces - que até eram de duas “calidades” - quando rompe por meio de nós, que estábamos sentados à roda do Delfim, o filho do Jeremias e da Teresa, genro e filha do Delfim e d’Augusta.
«Nem água “bem”, nem água “bai”».
“Quer-se dezer”: nem bom-dia, nem boa-tarde.
“Fez questã” de meter o carro dentro do pátio. E como tebe de fazer duas ou três manobras para entrar, ficou muito incomodado.
“Bai daí”, o cumprimento dele, birando-se para o que «nunca mais deixa de ser burro», foi resmungar que «aquela biatura estaba mal estacionada».
Ele queria meter o carro «cá dentro» e «quase que nem podia»!
Todos ficámos com cara de parbos!
O Jeremias, pai do garoto, ficou mais «marelo» do que a cera.
A Teresa “afucinhou” a cabeça no chão, e disse que ia buscar umas «curgétes».
A mulher do Delfim, a Ti’Augusta, ficou mais corada do que um pimento bermelho do Cambedo.
A mim, deu-se-me cá uma bolta no’stômago!
O que «nunca mais deixa de ser burro» ia para se alebantar para ir arrumar o “carroço”.
- “Agora já não é preciso. Já consegui entrar” – sentenciou, no mesmo tom zangado e refilão, o neto do Delfim e filho do Jeremias.
E sumiu-se dentro de casa.
A avó desabafou:
-Não façam caso. As autoridades são sempre assim!
Afinal, somos todos bu---rros!
Qualquer labrego que «entre prá Guarda ou prá Polícia» fica logo com a mania de que “tem o rei na barriga”.
E até acha que a consideração que as pessoas têm pela sua família não é mais do que a sua obrigação - porque ele «é gê-éne-érre», «impõe respeito» e «têm que lhe mostrar medo»!
- Tamém! Não precisas de exagerar! - atalhou a mulher.
- Pois não!
Mas se fosse cá eu, com os conhecimentos, amizades e família que ele, o que «nunca mais deixa de ser burro», tem lá em Lisboa, ‘inda por cima na Guarda, ai não, que não punha este fedelho a «piar fino»!
Quantos da NOSSA TERRA, que estão por esse mundo fora, bisitam tanta gente cá na Aldeia; telefonam para tantos, no Natal e na Páscoa; se alembram dos anos deste e daquele; e, lá onde estão, recebem, e dão apoio, aos amigos e bizinhos como esse «burro»?! - sentenciou o companheiro que se tinha mantido atento e caldo durante a conversa.
Não quisemos ouvir mais.
Abandonámos a nossa sombra.
Virámo-nos para a Igreja do S. CAETANO e exclamámos cá para dentro:
- Como pode haver gente tão soberba, tão «ordinária», e a mostrar tanta falta de respeito, cá pelas bandas de S. CAETANO?!
Ou será que será gente das vizinhanças de S. DOMINGOS?!
Não é na Natureza, no sol ou na chuva, no frio ou no calor, nas subidas ou nas descidas, nas noites ou nos dias; com os lagartos e as cobras, com os ursos ou os leões, com a petinga ou as baleias que se nos azeda a vida.
Ela azeda-se-nos na relação com o “OUTRO” - o ser humano!
Sentimos a hora amaldiçoada. Regressámos a casa.
Afinal, a arrogância salazarenta ainda medra por aí!...
Romeiro de Alcácer
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Património e Tradição versus Desenvolvimento Local
Segundo a sua acepção clássica, o conceito de património refere-se ao legado que herdamos do passado e que transmitimos a gerações futuras. Todas as manifestações materiais de cultura criadas pelo Homem têm uma existência física num espaço e num determinado período de tempo.
Algumas destas manifestações destroem-se e desaparecem, esgotadas na sua funcionalidade e significado. Outras sobrevivem aos seus criadores, acumulando-se a outras expressões materiais.
E, através da própria dinâmica da existência, estes objectos do passado alimentam, pela sua permanência no tempo, a criatividade de novas gerações de produtores de objectos, que acrescentam elementos às gerações anteriores. E assim a cultura flui.
No entanto, nem todos os vestígios do passado podem ser considerados património. O património não é só o legado que é herdado, mas o legado que, através de uma selecção consciente, um grupo significativo da população deseja legar ao futuro. Ou seja, existe uma escolha cultural subjacente à vontade de legar o património cultural a gerações futuras.
E existe também uma noção de posse por parte de um determinado grupo relativamente ao legado que é colectivamente herdado. Como afirma Ballart na sua obra “O Património Histórico e Arqueológico – Valor e Uso”, a noção de património surge “quando um indivíduo ou um grupo de indivíduos identifica como seus um objecto ou um conjunto de objectos”.
Esta noção de património, com a ideia de posse que lhe é implícita, sugere-nos imediatamente que estamos na presença de algo de valor. Valor que os seres humanos, tanto individual como socialmente, atribuem ao legado material do passado, valor no sentido do apreço individual ou social atribuído aos bens patrimoniais numa dada circunstância histórica e conforme o quadro de referências de então.
Neste sentido o património é, e a este respeito existe hoje um consenso generalizado, “uma construção social”, da forma como o define Llorenç Prats em Antropologia e Património. Construção social, ou se se quiser cultural, porque é uma idealização construída.
Aquilo que é ou não é património, depende do que, para um determinado colectivo humano e num determinado lapso de tempo, se considera socialmente digno de ser legado a gerações futuras.
Toda a construção patrimonial é uma representação simbólica de uma dada versão da identidade, de uma identidade “manufacturada” pelo presente que a idealiza.
Assim sendo, o património cultural compreenderá então todos aqueles elementos que fundam a identidade de um grupo e que o diferenciam dos demais.
Neste sentido, o elemento determinante que define o conceito de património é a sua capacidade de representar simbolicamente uma identidade. E, sendo os símbolos um veículo privilegiado de transmissão cultural, os seres humanos mantêm, através destes, estreitos vínculos com o passado.
É através desta identidade passado-presente que nos reconhecemos colectivamente como iguais, que nos identificamos com os restantes elementos do nosso grupo e que nos diferenciamos dos demais.
O passado, dá-nos um sentido de identidade, de pertença e faz-nos conscientes da nossa continuidade como pessoas através do tempo.
A nossa memória colectiva modelada pelo passar do tempo não é mais de que uma viagem através da história, revisitada e materializada no presente pelo legado material, símbolos particulares que reforçam o sentimento colectivo de identidade e que alimentam no ser humano a reconfortante sensação de permanência no tempo.
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Hoje, porém, a forma como a sociedade actual se relaciona com o passado é profundamente influenciada pelo extremo dinamismo que a caracteriza e pela tremenda aceleração da velocidade da mudança social no período moderno.
Por esta razão, os modelos de identificação outrora estabelecidos com o passado, sob a forma de tradição, perdem continuidade. Mas, por outro lado, a história e os seus objectos ganham um valor e um interesse sem precedentes.
Face ao fantasma da ruptura e da desordem provocado pela ausência de valores simbólicos e de identificação, a sociedade reclama, numa explosão de nostalgia, a recuperação do passado.
E no contexto desta corrente social nostálgica, o património surge como uma forma de recuperação especialmente eficaz.
Através do património o indivíduo sequestra um pedaço de passado, sob a forma de totens pessoais, em relação aos quais percebe uma vinculação directa.
Apesar da manifesta homogeneização de diversos aspectos do quotidiano, verifica-se hoje uma reafirmação das identidades colectivas face às tendências da uniformização individual.
Estas preocupações traduzem-se num aumento da importância atribuída à preservação do património, como elemento de afirmação das singularidades locais.
O desafio que se nos coloca é o de utilizar os recursos patrimoniais numa perspectiva de desenvolvimento durável, assente em critérios de qualidade, para que os seus benefícios resultem numa efectiva melhoria da qualidade de vida dos cidadãos.
O património constrói-se, “activa-se”, significando que toda a operação de construção ou de activação patrimonial comporta em si mesma um propósito ou finalidade, uma idealização construída por uma sociedade determinada.
Devemos, por último, ter em devida conta Augusto Santos Silva quando nos alerta para o carácter dinâmico do património ao nos alertar que “o que definimos hoje como valor patrimonial não é o mesmo que definíamos noutras épocas. E o que valorizamos hoje como referência patrimonial – por exemplo um sítio monumental – é o resultado de múltiplas e, muitas vezes, contrárias intervenções humanas.
Em suma, conceitos como inovação e tradição, num contexto de sustentabilidade, pressupõem em primeiro lugar, espaços vividos, habitados, com estratégias realistas de desenvolvimento sócioecómico, onde a fixação de populações é o factor determinante.
Entre o liberalismo selvagem, que não reconhece valores ecológicos e culturais, e o ambientalismo radical que só reconhece florzinhas e passarinhos, o desafio para as comunidades locais que queiram apostar no seu desenvolvimento é o de abrirem-se ao exterior.
Abrirem-se modernizando-se e implicando-se num reinvestimento do seu passado, reestruturação do seu património, na manutenção e revitalização das suas tradições. Realçando a topofilia, o elo emocional entre uma pessoa e um lugar ou envolvente física, o mesmo que dizer, o sentimento de pertença a um lugar ou região de origem, de residência, de trabalho ou de lazer.
Como afirmam Roca e Oliveira, na obra A paisagem como elemento da identidade e recurso para o desenvolvimento, temos todas as razões para acreditar que para além dos efeitos benéficos derivados da coesão entre as «forças» locais e regionais, um forte sentido de topofilia entre os actores e agentes de desenvolvimento, individuais e institucionais, poderão favorecer a compatibilização com as «forças» globalizadas no processo de (re)valorização das identidades territoriais.
Dado que a topofilia reflecte bem o nível de satisfação das pessoas com os vários parâmetros da qualidade de vida sobre um dado território (de carácter ambiental, económico, cultural e político, entre outros), então será de esperar que um mais forte sentido de pertença territorial poderá ser complementar ao fortalecimento do poder de atracção dos lugares e das regiões.
Em síntese, nestas questões do património, tradição e inovação, com vista ao desenvolvimento local, que é o mesmo que dizer, das comunidades e populações locais, em ordem à modernidade, que não é mais que pugnar pela qualidade de vida, numa perspectiva sustentável, de respeito pela manutenção e preservação de todos os recursos por forma a que as gerações vindouras os também possam usar, todos somos operários humildes desta construção ciclópica do futuro.
Não há patrões nem caciques – todos somos primus inter pares.
Enfim, oxalá tenha contribuído para aclarar e nos recentrar quanto ao que nos leva a estar aqui neste blogue a falar de uma cidade e de um concelho que tanto amamos e que tanto espera de todos os flavienses, ou seja, encontrarmos novas metas e construirmos novos desafios em ordem a um melhor futuro das comunidades que integram as nossas aldeias.
(António de Sousa e Silva)


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