Domingo, 30 de Abril de 2017

O Barroso aqui tão perto...

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Hoje no “Barroso aqui tão perto” não tivemos tempo de preparar mais uma aldeia barrosã para mostrar aqui no blog, no entanto, esta rubrica não é feita só com as aldeias e lugares do Barroso, pois tudo que tem como tema essa região tem também aqui lugar, como vai ser o caso de hoje.

 

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A Intervenção – Associação para a Promoção e Divulgação Cultural, com sede em Chaves, desde há 10 anos que tem dedicado a sua intervenção na realização de congressos internacionais de Animação Sociocultural e na publicação de livros, contando no momento com 16 congressos realizados e mais de 20 livros publicados.

 

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Neste fim-de-semana ( de 28 a 30 de Abril), em Ponte da Barca, a Intervenção levou a efeito mais um Congresso Internacional, este subordinado ao tema “Animação Sociocultural: Turismo Rural e Desenvolvimento Comunitário”, no qual participaram mais de 40 especialistas/conferencistas nacionais e estrangeiros, dois dos quais barrosões que também eles Animadores, têm marcado presença nestes congressos. Refiro-me ao Padre Lourenço Fontes e ao Professor Doutor Carlos Fragateiro que proporcionaram ao congresso uma conversa com a seguinte abordagem: a organização de eventos, congressos de medicina popular, as sextas-feiras 13, a animação sociocultural, o teatro religioso, a intervenção comunitária e o empresário turístico no espaço rural com o projeto Hotel Rural de Mourilhe. Em suma, dois barrosões em conversa que se tornaram naturalmente em embaixadores do Barroso,  onde o Turismo Rural e o Desenvolvimento Comunitário estavam a ser debatidos. Ouro sobre azul.

 

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Uma vez que também nós estamos envolvidos nestes congressos, não resistimos ao registo em imagem dessa conversa entre dois barrosões e a partilhá-las aqui neste espaço dedicado ao Barroso, mas também a imagem de um encontro entre o Barroso com o Padre Lourenço Fontes e o Nordeste Transmontano com um careto/diabo.  

 

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 22:08
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Domingo, 13 de Março de 2016

O Barroso aqui tão perto... Vilar de Perdizes/Padre Fontes

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Cá estamos de novo no Barroso de Montalegre. No último fim de semana não passámos de Meixide que, para quem vai de Chaves, é a primeira aldeia do Concelho de Montalegre, logo a seguir a Soutelinho da Raia. Aliás Soutelinho é a aldeia mais próxima de Meixide e esta, a mais próxima de Soutelinho da Raia. Apenas uma curiosidade.

Vamos então deixar para trás Meixide com a promessa de lá voltarmos, tudo porque apenas tenho imagens desta aldeia com neve, junto à estrada, pois como o nosso destino geralmente é sempre mais além e os nossos regressos são sempre tardios, a aldeia tem-se esquivado à nossa objetiva, mas num destes dias não escapa, a paragem está prometida.

 

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Logo a seguir a Meixide temos de tomar a nossa primeira grande decisão, pois a estrada divide-se em duas opções para chegar a Montalegre, quer via Pedrário, quer via Vilar de Perdizes, vamos lá dar. Há muito que a minha opção é via Vilar de Perdizes para fazer o regresso via Pedrário. Assim, hoje, também é por Vilar de Perdizes que vamos e por lá ficaremos, aliás muitas das vezes é mesmo o nosso destino.

 

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Se o Barroso fosse um colar de pérolas, Vilar de Perdizes seria uma pérola desse colar. Razões, muitas, desde as ligadas à história, à arqueologia, à raia, às lendas, mas sobretudo e para mim com mais valia, a comunidade em si composta pela aldeia (casario) e as pessoas que a habitam, em suma, o povo/povoação.

 

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Padre Lourenço Fontes no alto da Serra do Larouco acompanhando Professores da UTAD e Animadores Socioculturais

 

Voltando outra vez ao Barroso colar de pérolas e a Vilar de Perdizes ser uma das suas pérolas, todos os colares têm uma pérola principal, a maior, mais vistosa, a que ocupa o centro do colar e, também para mim, essa pérola principal está, ou vive, em Vilar de Perdizes e dá pelo nome de Padre Lourenço Fontes. Tanto assim é que me atrevo a dizer, sem qualquer pudor, que o Barroso tem duas épocas, a APF e a DPF em que a primeira é Antes do Padre Fontes e a segunda, Depois do Padre Fontes. Padre, Etnólogo, antropólogo, historiador, guia turístico, é de tudo um pouco, mas sobretudo é um grande Animador Sociocultural que abanou o Barroso e o despertou para constar no mapa de Portugal com letras grandes. No fundo e na realidade, despindo-o de todos esses rótulos, o seu segredo está em ser um Homem simples, do povo, que o ama e tem orgulho nele, que ama o berço e o enaltece partilhando com todos, a sua história, os usos e costumes, saberes e sabores de um povo, mas também as crenças e mezinhas que curavam todos os males de uma terra que sempre foi agreste e difícil de viver, terra fria onde o frio além de congelar, doía.

 

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Padre Lourenço Fontes no miradouro da Corujeira em Montalegre acompanhando Fotógrafos da Associação Lumbudus

 

Curiosamente vamos associando o Padre Lourenço Fontes como um Barrosão de Vilar de Perdizes quando na realidade ele é natural de Cambezes do Rio. Melhor, penso eu, será dizer que ele é filho e natural do Barroso. Para a história, além de uma basta obra publicada ficará o Padre que afrontou a Igreja com os “Congressos de Medicina Popular” e o Padre das “Noites das Bruxas” que desde 2002 acontecem em Montalegre em todas as sextas-feiras 13 e o Ecomuseu de Barroso que o Município de Montalegre atribuiu o nome de Espaço Padre Fontes, como um espaço de memória do Barroso. Para quem o conhece, é um Homem simples, divertido, amigo e sempre pronto para enaltecer e dar a conhecer o Barroso.

 

 

 

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Domingo, 27 de Setembro de 2015

Padre Lourenço Fontes e o Barroso

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Uma das vistas desde o topo da Serra do Larouco

Como sempre aos fins-de-semana trago por aqui o nosso mundo rural, geralmente o flaviense. Desde há muito, também, que para mim Chaves não se limita aos seus limites geográficos de concelho. Entendo antes uma pequena região à qual me sinto pertencer e sinto ser a “minha terra”, composta pelos concelhos vizinhos, incluindo os galegos, e só depois é que vem o restante reino maravilhoso de Trás-os-Montes. Digamos que este meu pequeno território é uma pérola no meio do tal Reino Maravilhoso. Tudo isto para dizer que o meu mundo rural que hoje trago aqui é o do Barroso, mas não só, pois também o Padre Lourenço Fontes tem, hoje, aqui assento.

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Padre António Lourenço Fontes

Pois tudo começa num Congresso de Animação Sociocultural em Murça, no qual o Padre Fontes, também ele um Animador Sociocultural, participou e onde a organização do congresso programou fazer-lhe uma pequena homenagem passando um dia com Ele no seu Barroso. Esse dia foi marcado para 25 de setembro (ontem) e alargado a todos os que quisessem participar. Claro que nem que fosse só por ter o Padre Lourenço Fontes com cicerone e homenageado, uma enciclopédia viva sobre o Barroso, não poderia faltar a este encontro/homenagem, mas também porque sabia de antemão que iria ser um dia bem passado, em boa companhia e na qual iria aprender e conhecer mais um bocadinho do Barroso, como sempre acontece quando temos por companhia o seu embaixador Padre Fontes.

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Padre Loureço Fontes explicando os frescos da capela de N.Srª das Neves em Vilar de Perdizes

O programa era simples e feito à medida de um dia. Claro que tinha de começar por Vilar de Perdizes, terra onde o Padre Loureço Fontes inicia a sua grande divulgação do Barroso: com os autos religiosos, os congressos de Medicina Popular, os jogos populares, etc. Esta foi a terra onde durante meio século o Padre Fontes foi pároco, animador sociocultural, psicólogo, médico, conselheiro…) muito antes ainda de dar luz às sextas-feiras 13 da Vila de Montalegre.

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Rocha em pleno Larouco - A cabeça do cão perdigueiro português

Após a visita a Vilar de Perdizes havia que subir ao Larouco, mas antes havia que visitar o autódromo de Montalegre (já na serra do Larouco) onde à tarde iria decorrer o uma prova do Campeonato Nacional de Ralicross/Kartcross e só depois a subida, sempre comentada que nos ajuda a descobrir a cabeça do cão perdigueiro a caminho do ponto mais alto da serra atingidos aos 1535 metros de altura, de onde tudo se vê e se está mais próximo do céu. Topo também dedicado ao desporto com duas pistas de parapente e nos dois últimos anos final de etapas da Volta a Portugal em Bicicleta.

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Grupo que subiu ao topo ponto mais alto do Larouco - A vaidosa já lá estava

Após o desfrute das alturas do Larouro a inevitável descida para visitar Montalegre e o seu EcoMuseu, o castelo e as ruas do centro histórico de Montalegre.

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Torres do Castelo de Montalegre

O suficiente para se poder chegar à Aldeia de Mourilhe / Hotel Restaurante Rural (Hotel Assobrado) para um almoço dos diabos. E o assombro deu-se com aperitivos: ferradura afumada, presunto dependurada na lareira do inferno, caldo de urtigas malditas, pão que o diabo amassou, vinho excomungado da terra santa, seguido de vitela embruxada acompanhada com batata com murro da bruxa branca. Para sobremesa: Rabanada com mel de bruxa voadora, café negro como o diabo e quente como o inferno. Doce com mel. Licor e chá levanta o pau do diabo. E o programa poderia terminar aqui que já terminava mais que bem.

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Entrada no Hotel Restaurante Rural de Mourilhe para um almoço dos diabos...

Mas embaixador que é embaixador tem de cumprir os seus nobres desígnios de representar e oferecer a sua terra, para além de o corpo pedir mesmo algum exercido para amaciar um almoço embruxado. Uma visita ao convento de Pitões das Júnias caia na perfeição numa pequena viagem comentada pelo cicerone Padre Fontes.

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Alguns participantes assistindo a uma aula do Padre Fontes - Pitões das Júnias

Convento de Pitões, há muito abandonado e maioritariamente em ruínas mas que mesmo assim é digno de ser apreciado, principalmente pela sua envolvência e por poder ser apreciado quer envolto nas suas ruinas quer do cimo do anfiteatro natural de onde se pode apreciar todo o conjunto. Já lá fui umas dezenas de vezes e volto lá sempre com a curiosidade e ansiedade das vezes primeiras. Há magia naquele local.

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Vista geral do Mosteiro de Pitões das Júnias

Para rematar, ou quase, faltava mesmo qualquer coisinha para melhor digerir o almoço dos diabos. Nada melhor que uma queimada de aguardente devidamente “rezada”, de novo em Mourilhe / Hotel Restaurante Rural (Hotel Assobrado).

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Padre fontes a elaborar a queimada de aguardente

E foi assim, um resumo bem resumido de tudo que se passa na companhia do Padre Lourenço Fontes, um embaixador do Barroso. Em conversa com um dos docentes da UTAD que se juntaram a esta homenagem, concordámos em que o Barroso ficará para sempre marcado por duas épocas, a do antes Padre Fontes e a do depois Padre Fontes.

 

 

 

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Domingo, 22 de Junho de 2014

Moure - Uma aldeia do mundo rural flaviense

 

Os que por aqui vêm com regularidade sabem que aos fins de semana as aldeias têm de marcar presença neste blog, contudo não é de todo muito fácil cumprir essa promessa, pois para as trazer aqui tenho que, com alguma antecedência, passar e estar nessas mesmas aldeias. É certo que não há aldeia do nosso concelho onde eu ainda não tenha estado e lamento, mas lamento mesmo, mas mesmo muito, que das primeiras vezes em que fui às nossas aldeias não tivesse então uma câmara fotográfica para fazer alguns registos, os de então, e não vai lá muito tempo, pois as minhas primeiras incursões pelo mundo rural flaviense aconteceram nos anos 70 do século passado.

 

 

Para a História 30 ou 40 anos nada significam, principalmente quando a nossa História é milenar e tão rica em acontecimentos importantes, mas a par dessa História milenar e rica de grandes acontecimentos há toda a História de um povo que ninguém conta nem cabe nos livros História.  Há dias, aquando do encontro de fotógrafos Lumbudus em terras do Barroso tive oportunidade de, no Ecomuseu do Barroso, comprar uma suposta segunda edição do livro Negrões – Memória Branca, com fotografias de Gérard Fourel e textos de Gilles Cervera. As imagens são impressionantes, mexem connosco e fazem toda a tal História que não cabe nos livros de História. Trago aqui o exemplo deste livro porque o mesmo é feito com imagens de há trinta e tal anos atrás, do tempo em que eu não tinha câmara fotográfica, mas que ainda retenho na memória imagens idênticas.

 

 

 

Claro que em trinta e tal anos as nossas aldeias não se modificaram assim tanto e ainda é possível entrar por elas adentro e encontrar muitas das casas, ruas e lugares de então, pois é, mas a grande diferença é que então, há trinta e tal anos,  era quase impossível tomar uma imagem numa aldeia onde não aparecessem pessoas, crianças ou velhos,  ou galinhas, ou cães, ou vacas, ou burros ou até mesmo tudo isto numa só imagem (as imagens de Gérard Fourel são um testemunho disso), hoje, na maioria das nossas aldeias, entra-se, está-se e sai-se sem encontrar alma viva. E regresso ao livro de Gérard Fourel, ao prefácio da primeira edição, onde o Padre Fontes a alturas tantas dizia: “ (…) São assim mansas, ainda que negras, enlameadas, solitárias e submergidas as aldeias transmontanas. Esta quietude bíblica, pastoril, onde o tempo caminha a passo de caracol, onde nem crianças nem velhos sabem quanto anos têm, e todos sorriem à chuva, à neve, à nudez, criando para si este mundo de granito, a desafiar os séculos. E esta terra e esta gente que deslumbra a alma do poeta, do artista, do guloso fotógrafo que tenta guardar na retina da película o prato suculento, estendido na toalha branca da natureza nevada, ou negra pela lama e chuva. Hoje seremos únicos no mundo, mas foi assim (…)” Pois é, mas foi assim, era assim, mas já não é, já não há história para contar a jeito de gente de crianças e velhos sem saberem a idade. Já agora um aparte, aparte da história de hoje – A segunda edição do livro Negrões – Memória Branca, embora aumentada, está muito mais pobre sem as sábias palavras do prefácio do Padre Lourenço Fontes, que, vá-se lá saber porque, não constam nesta segunda edição.

 

 

Pois as imagens de hoje (tomadas ontem) vão de encontro àquilo que por aqui disse. Nem crianças nem velhos nas ruas, pitas e cães nem vê-los, uma estação abandonada que faz as memórias e um comboio que há 30 anos ainda lá parava, pinturas de vende-se por tudo que é sítio e, curiosamente, umas vistosas e novas placas toponímicas colocadas nas ruas e portas de casas abandonadas, não vá alguém perder-se nas poucas ruas desertas. Valha-nos a natureza que contra tudo e contra todos insiste em nascer e renascer para nos dizer que a beleza, embora selvagem, ainda existe.

 

As imagens de hoje são de Moure, aqui a meia dúzia de quilómetros de Chaves, uma aldeia que por sinal é bem simpática com olhares lançados para poente e para o Rio Tâmega cujo sussurro o silêncio da aldeia deixa ouvir, que ainda tem alguma vida (eu sei) mas que de todas as vezes que por lá fui nos últimos anos insiste em não sair à rua.       

 

 

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Sábado, 25 de Maio de 2013

Emcerramento do I Congresso Internacional de Animação Sociocultural - Gerontologia e Geriatria

Conferência de Encerramento do Padre Lourenço Fontes

 

Capa do livro do Congresso

 

Encerrou hoje em Boticas o I Congresso Internacional de Animação Sociocultural – Gerontologia e Geriatria. Claro que quando estes assuntos são tratados em congresso por especialistas, as conclusões são sempre positivas e novos horizontes são abertos na resolução dos problemas e temas debatidos. Seria impossível trazer aqui todas as intervenções e mesmo as conclusões, e depois elas estão todas reunidas em livro, mas há uma intervenção que quero deixar aqui na íntegra, não só pelo seu autor ser uma autoridade aqui na região, a nível nacional e internacional, mas também por ser feito de toda uma cultura vivencial  no terreno junto e entre a nossa gente. Refiro-me ao Padre António Lourenço Fontes e à sua conferência de encerramento deste Congresso Internacional intitulada “O Envelhecer nas Terras do Barroso” que, com a devida vénia e autorização do autor de seguida reproduzo[1] :


Padre Lourenço Fontes


Envelhecer em Barroso  


Há uma arte de envelhecer, viver com regras ditadas pela tradição, da sabedoria popular barrosã. Vamos dar uma olhadela aos ditos e provérbios que andam de boca em boca e marcam a conduta geral de novos e velhos. Já que ditos velhos são evangelhos.


São muitos e valiosos os valores positivos,  apreciados pelas famílias dos nossos idosos e pela sociedade que os rodeia.


Velhos são os trapos, para dizer que ainda tem muito para dar. Quem de novo baila bem, de velho jeito lhe tem. Bailar cantar faz bem: quem canta seu mal espanta. Gostam de contar, cantar, rezar, ser ouvidos, orgulham-se até do sofrimento passado. Dizia uma idosa desgostosa da vida de emigrante: en France rien chante, au Portugal, tout le monde chante.


É triste ser velho, dizem em desabafo. Um velho triste é um triste velho. Para muitos é a única idade que não se recorda, nem deixa saudades. Bocage escrevia: já Bocage não sou, à cova escura, meu estro vai parar desfeito em vento…


São o equilíbrio e estabilidade da família, pelo saber de experiencia feito. Os avôs são pais duas vezes, além da genética, passam a tradição, a cultura barrosã, os contos, as lendas, as artes e ofícios, as rezas e mezinhas, a medicina ervanária, o cancioneiro e jogos infantis, a religiosidade popular, aos netos. Sentem-se válidos, com gosto e ilusão pela vida. Quem corre por gosto não cansa.




Têm o seu lugar de destaque na família, na mesa, e na comunidade da aldeia e é cabeça de casal, representa a família, conforme as posses ocupa o seu tempo, na agricultura, vai coas vacas, apoiado no cajato, com a rês, leva o burro a comer, vai à erva para os porcos de ceva, torna a água aos lameiros, vai à feira e as festas da sua devoção, cumpre promessas aos santos, vai aos velórios e funerais, cuida das campas dos seus.


 O velho tinha razão. Atrás de mim virá, quem bom de mim fará. Serve de consolação para os mais velhos quando,  reconhecidos. O velho e o menino vão para onde lhe fizerem carinho.


Envelhecer e viver no mundo rural Barrosão, na casinha pobre, mas cheia de memórias e vivências, com o seu pé-de-meia, a reforma poupada, para o fim da vida, ou para amimar filhos e netos, com nova ou velha profissão, prolonga a vida e dá-lhe sabor.


Hoje o telefone, substituiu as cartas, muitos não sabem ler.  O Ipad com o skype, facebook aproxima os avós dos netos e filhos distantes mantendo a proximidade e companhia, se iniciados e ensinados a descobrir esta nova tecnologia.


 Gosta de regressar vivo ou morto ao seu torrão natal, onde é estimado, chorado e sufragado, onde repousam os antepassados. Ruim é o pássaro que não volta à sua ribeira.  


São os idosos os mais resistentes povoadores, animadores e defensores enraizados, heróis vencedores, combatentes na agricultura, defesa do ambiente, educadores, moradores, conservadores de cultura popular, jogos, medicina, religiosidade popular, que merecem carinho, dedicação, atenção, na esperança de um futuro promissor de bem-estar com a natureza, a família. Em aldeias desertas restam eles guias turísticos, de rostos e mãos enrugadas, alvos de fotógrafos e cineastas, jornalistas. São enciclopédia aberta, inédita, neste Barroso  antigo, velho, paraíso a descobrir.


Cada idoso que morre é uma biblioteca que se enterra, e perde, se não for registada. Mais velho que a sé de Braga, diz-se para valorizar o saber do idoso. O diabo sabe muito, porque é velho



ASPETOS NEGATIVOS


A ameaça de maus tratos, a doença, a solidão, o abandono, a pressão para fazer testamento, escritura, doação, ou venda de bens, o perigo da braseira, de caírem ao lume de morrerem sem amparo, são muitas vezes pressões que aceleram o fim, o desgosto de viver, lágrimas de desconforto. Chegam a pedir a Deus que os leve, desabafam dizendo que são um estorvo, que já não servem para nada.


O que o berço dá a tumba o leva. Acabadas as obras da casa diz-se: ninho feito, pássaro morto. Velho mudado é velho enterrado. Alguns mudam cada mês, andam à roda pelos filhos, ou estranhos, muitas vezes no estrangeiro desgostosos, fechados, onde não conhecem nada e ninguém. Pedra mudada não cria musgo. Nem sempre se adaptam ao novo ambiente, às noras, ou sogras.   Filhos criados, trabalhos dobrados . São muitas vezes os únicos moradores na aldeia, no bairro.


Lembramos a lenda do filho que leva o velho ao monte e ao deixá-lo lhe dá a capa, o velho lhe diz: leva metade da capa, para quando fores velho te trouxerem para o monte.  Filho és pai serás como fizeres assim toparás. Casa de pais, escola de filhos. Cada um sair aos seus não é pecado.


Quem faz testamento, antes que morra, merece com uma cachaporra. Os novíssimos do velho são 4: Muita tosse, pouca posse, pingar-lhe o nariz, não saber o que diz. Cabra manca não tem sesta, e se a tem pouco lhe presta. Burro velho, erva tenra. Burro velho não aprende línguas. Burro velho não toma andadura e se a tem pouco lhe dura. Velhos ao canto.  Homem velho, mulher nova, filhos até à cova. Casamento e mortalha no céu se talham.


Em toda a Europa na terceira quarta da quaresma serrava-se a velha, avó. Em Vilar de Perdizes mantemos o ritual que consiste num cantar um responso em latim de noite à porta das avós, terminando com ruídos de latas, serras, gritos. Em Tourém é de dia que os rapazes da escola vão atormentar cada velha ate lhe darem uma pouca de palha que simboliza a velha e vão queimá-la com barulho de muitos chocalhos que abanam com gritos e choros: minha velhinha... Em S. António de Monforte os homens fazem sair de casa as avós, que vão todas juntas pela manhã passar o dia fora da aldeia, no monte Pitorca, só regressando à noite.


Muitos são vítimas do abandono dos filhos, emigrados ou não. É melhor ser cão na vila, que velho em muitas aldeias, criticam algumas famílias. Outros ficam-lhes com as magras reformas, em troca ou promessa de cuidados, usando as economias dos pensionistas para combater a crise atual e o desemprego de filhos e netos.


O cancioneiro Barrosão está cheio de romances, cantigas referindo-se aos defeitos e valores do idoso.

 

Hei-de amar-te até à morte

Até depois de morrer,

Até debaixo da terra,

Meu amor podendo ser.

 

Do tempo que já passou

Do tempo que já  lá vai.

Minha mãe já se não lembra,

Quando namorou meu pai.

 

Eu  casei-me com um velho

Hei-de me fartar de rir

Fiz-lhe a cama alta

Onde não possa subir.

 

Casei-me com uma velha

Por causa da filharada.

Pega o diabo da velha

Traz-me dez duma ninhada

 

Minha sogra morreu ontem,

O diabo vá com ela.

Deixou-me a chave da adega

O vinho bebeu-o ela…

 

Eu hei-de morrer cantando,

Já que chorando nasci

Não tenho porque chorar

Chore o diabo por ti.

 

Bocage poeta de sonetos brilhantes, confessou:


“Já Bocage não sou, à cova escura, meu estro vai parar desfeito em vento… eu me arrependo…. Oh se me creste gente impia, rasga meus versos crê na eternidade.


Citando Camões, grande Camões…só terei paz na sepultura.

 

Padre António Lourenço Fontes



[1] As imagens de ilustração são da responsabilidade do blog

 

 

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Terça-feira, 22 de Dezembro de 2009

Petição "Padre Fontes"

Foto de Gaspar Jesus

 

Chegou  à minha caixa de correio electrónico um mail a anunciar uma petição online  intitulada “Padre Fontes”, onde na mesma consta o seguinte texto:

“Os abaixo assinados, conhecedores das relevantes iniciativas e actividades que, ao longo de toda a sua vida, o Padre António Lourenço Fontes, de Vilar de Perdizes, levou a efeito em prol da defesa das tradições sociais e culturais de Trás-os-Montes, em geral, e dos usos e costumes de Barroso, em particular, atraindo meios académicos e mobilizando a imprensa nacional e internacional para dar visibilidade à sua região, contribuindo assim para a recuperação, preservação e desenvolvimento turístico e económico das comunidades locais, estão convictos de que seria justo e merecido que o Exmo. Senhor Presidente da República lhe atribuísse um dos graus das Ordens Honoríficas Portuguesas como forma do reconhecimento da Nação e do Estado para com quem “por obras valerosas se vai da lei da morte libertando”.

 

Independentemente  de pessoalmente achar que as tais “Ordens Honorificas” da Presidência da República a maior parte das vezes não passarem de puro folclore da cagança nacional, assinei e publicito esta petição pública por achar que o Padre Fontes é um verdadeiro merecedor de qualquer homenagem que lhe seja feita, porque com a sua simplicidade de barrosão mas também de padre, elevou e publicita Montalegre, o Barroso e não só,  aos parâmetros nacionais com aquilo que a região de mais puro tem: as suas crenças, usos e costumes, mas também valorizando e aceitando a fé para além do institucionalmente aceite (ou correcto).

 

Convenhamos também dizer que por trás do Padre Fontes há um povo e uma autarquia que acreditou e valorizou os seus projectos.

 

A petição online, para o caso de a querer assinar,  está aqui:

http://www.peticaopublica.com/PeticaoVer.aspx?pi=PF2010

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publicado por Fer.Ribeiro às 13:00
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