Quinta-feira, 5 de Janeiro de 2017

Palavras colhidas do vento...

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O blogue Chaves faz doze anos de existência e claro que não poderia deixar de saudar o feliz evento. Doze anos em idade de gente é idade de dúvidas e interrogações, que não, no caso de um blogue, antes se poderia falar de certezas, respeitável existência e garantia de perdurabilidade.

 

Por isso, embora soe a juiz em causa própria, felicito o Fernando Ribeiro e todos os colaboradores que participam no blogue, e em relação a mim, salvaguardada a contradição… abstenho-me.

 

E de aniversários se trata mais o que vier. A minha irmã, um dia depois de regressar ao “Alentejo profundo”, como diz, também comemorou aniversário.

 

Desde o restaurante onde janto, organizei um coro improvisado, formado pela cozinheira e os donos e cantamos-lhe os “parabéns a você…” ao telefone. Com tanto sucesso o fizemos, que, não estranhem se à vossa porta na noite de Reis, aparecer um barbudo com ares de indigente, uma cozinheira com gorro e avental, uma empregada de mesa com o respectivo pano no braço e laçarote, e alguém com uma factura na mão… correspondente ao valor da cantoria.

 

A quem não correu bem o aniversário, festejado nos últimos dias de Dezembro do ano defunto, foi ao meu irmão. Ofereceu-se uma viagem a Paris, acompanhado da mulher e uma das filhas e apanhou uma séria gripe que o levou a ser internado num hospital parisiense. E dali só teve alta com a recomendação expressa de não sair do quarto de hotel.

 

Muito azar e o que se chama: “ver Paris por um canudo.”

 

Chama-me a Dona Maria e diz que tem uma coisa a contar-me de que vou gostar. Aproximo-me e recita-me ao ouvido:

 

- “ Mário Esteves, vê lá se podes dar a tua cabeçada,

    Que a cabeçada faça o seu serviço.

    E se a bola meteres nas redes,

    Ninguém tem nada com isso!”

 

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Referia-se ao meu pai que jogou futebol.

 

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Mas a Dona Maria não se ficou por aqui.

 

“Sabe, antes na cidade, havia uma rivalidade muito grande entre o Atlético e o Flávia (clubes que deram origem ao Desportivo de Chaves). Eu sempre fui do Atlético, como toda a sua família que conheci muito bem. Num jogo, o Riconcas do Atlético, rebentou a bola. O Grangeia, guarda-redes do Flávia, exclamou:

 

- Rapazes, já nem Cristo nos tira a vitória!

O Atlético estava a perder três a zero!”

O Riconcas ouviu e ripostou com raiva:

“- Nem Cristo, nem o c…! Não haveis de a levar!

Sabe qual foi o resultado?” Pergunta-me.

 

“ Cinco a três, ganhou o Atlético!” E despede-se nos seus sorridentes noventa anos.

 

Mário Esteves

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publicado por Fer.Ribeiro às 13:00
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Quarta-feira, 3 de Outubro de 2012

Palavras colhidas do vento... por Mário Esteves

 

As portadas das janelas do sótão dum vizinho batem furiosamente… Há muito que o prédio se encontra desabitado e à venda. Há tanto tempo como a placa de “platex” que oscila na varanda e que a agência imobiliária lá segurou com uns arames, para anúncio de venda, viu o papel lá colado se desgarrar e ir parar a um ignoto destino.

 

A chuva fustiga os vidros das janelas e o vento anuncia o Outono recém-chegado e traz um clamor longínquo dos derradeiros e acidentados dias dum Verão quente, nos quais a pacatez proverbial do país se viu submersa por uma vaga de revolta que encheu avenidas e ruas da capital e de algumas cidades.

 

Em frente do edifício que aloja uma delegação do FMI, agentes da polícia de intervenção instalaram um perímetro de segurança, protegendo as instalações da ira dos populares. Como os manifestantes engrossem, surgem petardos e arremesso de objectos. Uma moça destaca-se do ajuntamento que grita, percorre os poucos metros que a separa do cordão policial e abraça um polícia. O acto espontâneo, ou não, é captado por um fotógrafo, que a fará circular pela internet.    

Fotografia de Nuno Botelho/Expresso

Não vou dizer que não senti um arrepio de emoção quando escutei velhas consignas de um Abril desbotado com o decorrer dos tempos, como folhas secas, que os tristes e sonolentos varredores camarários, pela madrugada, mal repostos e saídos do aconchego dos lares, amontoam na berma, pachorrentamente, para que o carro do lixo que os segue atrás e a alguns metros, ronceiramente, as recolha.

 

Os jornais fizeram primeiras páginas a condizer e os mais ingénuos acreditaram que isso podia ser um começo… Claro que os sinos tocaram a rebate e uma das medidas mais contestadas do Governo, se assim se pode qualificar, ou todas elas, como na rua aconteceu, foram objecto de uma análise do vetusto Conselho de Estado, tendo os venerandos conselheiros, numa reunião que contou com a esclarecedora intervenção do ministro das finanças e entrou pela noite dentro, à excepção do Dr. Mário Soares que saiu antes, sem que a imprensa tenha noticiado se chegou a se pronunciar – mas cremos que sim –, exprimiram as suas respeitáveis opiniões.

 

Nos dias prévios, à convocação desse Conselho, o presidente dum dos partidos da coligação governamental, ministro de estado e titular da pasta dos Negócios Estrangeiros, reduzira-se a um mutismo, apenas quebrado portas a dentro dos muros partidários, tendo os seus pares do secretariado multiplicado as intervenções contra aquela medida governamental.  

 

Finda a reunião, caída a TSU, o senhor Presidente da República declarou oficialmente a crise política enunciada entre os partidos da coligação governamental, inexistente; aliás, como declarara, dias antes, durante uma visita que fizera à província, creio que a um campo de golfe.

 

Compreendia o descontentamento popular, não podia ignorá-lo, mas como também dissera nos primeiros e tímidos rebentos de insatisfação popular, não era ingénuo…

 

Entretanto a CGTP manifestou-se no Terreiro do Paço.

 

Alguns partidos da oposição, com representação parlamentar, declararam a intenção de apresentar uma moção de censura ao governo. Outro, maioritário na oposição, declara que a moção apenas serve os partidos que apoiam o governo… enfim, a direita…

 

Um consultor do governo apelida de ignorantes os empresários e um destes responde-lhe que nunca trabalhou na vida…

 

Doem-me as costas… ou tudo de uma só vez …

 

Na praça permanecem ainda as esplanadas.

 

Praça que continua a ser conhecida como jardim, embora deste apenas reste umas quantas árvores, que constituem testemunhas oficiais do equilíbrio reclamado entre a preocupação ambiental e o novo ordenamento urbano. Novo ordenamento urbano foi a designação que escolhi, e pode-se dizer que me esforcei, para definir a politica monótona, de tanto repetida, de tudo reduzir a espaços planos e empedrados, o que antes era um jardim com um pequeno lago no meio, canteiros, plantas, floreiras com hidranjas, duas filas de árvores, contornado por uma via, e à direita e à esquerda mais um renque de árvores, nos passeios, junto aos edifícios.

Antigo Postal Ilustrado do Jardim das Freiras

É fim da tarde. No exterior dos cafés, nas mesas, jazem cinzeiros, pequenos pratos com chávenas manchadas de uma espuma castanho-escura nos rebordos, garrafas de plástico vazias, que os empregados se esqueceram de levantar. Grupos de três, quatro pessoas, ainda se encontram na esplanada, sentados, próximo da entrada para o interior do café e outros ligeiramente mais afastados, os braços apoiados nos tampos das mesas ou recostados na parte de trás dos assentos, junto ao vidro das montras corridas.

 

Reformados, professores nos intervalos ou fim das aulas, um ou outro a fazer tempo entre os afazeres diários, a consulta ao dentista, esperar pelos netos ou filhos que saem da escola, da mulher que nunca mais vem das compras ou do cabeleireiro, outros, simplesmente numa pausa do flanar pelas ruas.

 

Quem passa, apercebe-se sem dificuldade dos retalhos das conversas.

 

 

Duas senhoras ainda jovens, o chão coberto de sacos de papel, conversam animadamente e por momentos soltam gargalhadas, que as fazem encostar para trás, uma, os braços estendidos, a outra com eles cruzados no busto e a ambas baixar perigosamente a orla da blusa junto aos seios.

 

 

Numa mesa próxima, alguém levanta o rosto enfronhado nas páginas dum jornal desportivo, dá um jeito aos óculos, quase na ponta do nariz e regressa à leitura.

 

“ …Parece que saiu do partido e vai candidatar-se à Câmara…” – Escuta-se.

 

“ Como não o escolheram, escolheu-se.” – Diz o companheiro de mesa, a coçar a calva.

 

“ Olha qué capaz de tirar muitos votos ao outro…” E faz sinais de assentimento com a cabeça, ao mesmo tempo que pensa no genro desempregado e se talvez não seja o melhor momento…

 

“Quês ver, co gajo me vai multar… Isto, umas vezes pode-se estacionar, outras não…”

 

– Levanta-se apressadamente e ainda é possível ouvi-lo:

-“ Oh… senhor agente, só foi o tempo de ir ali registar o euromilhões…” E por lá fica à volta do agente.

 

Mais além.

 

“ Isto só lá vai com os militares.” E acrescenta, certo de ser bem escutado:

 

- “Não tenham dúvidas!”

 

Próximo, alguém se move um pouco na cadeira e olha para o lado, sem evitar o que um amigo, que por certo, ainda arrasta um pouco a perna direita, restos de um rebentamento duma mina no Ultramar, lhe confiara ironicamente sobre quem acabara de falar.

 

“ Sem esse homem, Portugal teria sofrido uma derrota afrontosa em África, o 25 de Abril nunca se teria dado e o 25 de Novembro teria sido um fiasco...”

 

Num canto da esplanada, próximo já da montra dum estabelecimento de roupa.

 

“ Os gajos estão à rasca, mais um apertão e lá vão todos de escantilhão…”

 

“ Como na Grécia…”

 

 – Observa alguém que bebe em pequenos sorvos o café, e limpa atabalhoadamente os pêlos da barba que quase lhe cobrem os lábios, com as costas da mão.

 

“ Esses são uns filósofos!”

 

“ Pois é, lá nasceu a democracia e a pena de desterro…” – Responde o de barbas e que ainda conserva a chávena de café nos dedos.

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Quarta-feira, 6 de Junho de 2012

Palavras colhidas do vento... por Mário Esteves

 

Frequentámos a mesma escola, a Escola da Estação, a escola dos “soqueiros”, assim chamada depreciativamente pela maior proveniência dos alunos do Bairro Operário ou Bairro Marechal Carmona, que, naqueles tempos, se alguns calçariam socos, outros já usariam outro calçado.

 

Grande parte seriam filhos de gente humilde, mas por lá andaram filhos de doutores e outros de classe média, que têm muito orgulho de lá terem frequentado a escola régia, como então se dizia, apesar da república já implantada e a viverem-se tempos do Estado Novo, não se furtando à convivência dos menos favorecidos pela fortuna, salvo nos jogos de futebol, por motivos à vista - já imaginaram uma canelada com socos ou botas de atanado com reforço de “testeiras” metálicas na biqueira ?...-,  no recreio, no logradouro em frente ao armazém da recolha dos cereais - é verdade, no concelho colhia-se trigo e centeio… -, ou num lameiro ao lado da Estação da CP, onde, frequentes vezes corriam, esbaforidos, sacola de serapilheira a tiracolo, a lata dos lápis (marca Viarco), o ponteiro e a caneta (pena) de aparo a chocalhar com a lousa, afugentados pelo irado dono, de varapau a descrever círculos ameaçadores no ar, que se queixava de lhe espantarem as crias e arrasarem aquele pedaço da pastagem, pequeno estádio onde as balizas eram duas pedras e já eram visíveis as peladas…

 

Escola da Estação que hoje mais parece um ovo estrelado na paisagem urbana, apesar do mérito das actividades que no seu interior se desenvolvem… dá ideia de ao pintar, alguém ter derramado acidentalmente um balde de tinta amarela e achando por bem o efeito garrido causado e para não despender mais energias, poupou-se ao bom senso estético e trabalho, fazendo alastrar a mancha por toda a superfície das paredes exteriores do edifício.

 

O vetusto imóvel não merecia tal desplante, agora, que se encontra a viver uma recatada e discreta reforma, enfronhado na memória das gerações de alunos, contínuos e professores que por lá passaram.

 

Perdoem a divagação…

 

 

 

 

Encontramo-nos agora algumas vezes à mesa do mesmo restaurante.

 

E à volta, poucos sabem que é um herói, e para variar, reconhecido.

 

Mereceu honras de ser destacado na imprensa regional e nacional, no entanto, disso não faz ostentação, nem o repete até à saciedade, como alguns fariam, por bem menos.

 

Num longínquo dia de Abril, do ano de 1966, a Senhora Isaura da Conceição, moradora no Bairro do Cruzeiro do Telhado, como assinala o Notícias de Chaves *, escutou o silvo próximo do comboio e saiu de sua casa.

 

Estarrecida - e seguimos de perto a descrição do mesmo jornal -, observou “uma criança de tenra idade se quedava tranquilamente entre os carris”, alheia ao perigo mortal, eminente.

 

Tentou retirar a criança, mas as forças e a distância não lhe permitiam acudir a tempo de salvá-la do avanço da locomotiva, pelo que gritou, desesperada, pedindo ajuda a um grupo de rapazes que brincava perto da via-férrea.

 

Daquele grupo, um dos rapazes, deparando-se com aquela tragédia prestes a ocorrer, correu à linha, ainda chegou a tropeçar, mas levantou-se e num salto, agarrou como pode a criança, indo cair do outro lado do carril, com ela abraçado.

 

O autor do artigo do jornal que temos vindo a citar, conclui a narrativa deste acto do seguinte modo:

 

-“Os dois rolaram pelo chão, talvez magoados, mas livres de perigo. Nesse mesmo instante, por assim dizer, o comboio passava, trepidante, pesado, monstruoso e veloz.”

 

Na altura, existia uma iniciativa conjunta da Sociedade Espanhola de Radiodifusão e da Ibéria, com representação em Portugal, do Rádio Clube Português, designada por: “Operação Plus Ultra”, que premiava anualmente crianças que se tinham destacado por actos de heroísmo.

 

O júri nacional, na sua segunda reunião, decidiu escolher o jovem flaviense, como merecedor do prémio.

 

Tinha onze anos, acabara com sucesso o exame da então “quarta classe da instrução primária”, em Julho daquele ano, e o seu nome era e é: David Teixeira da Silva; morava no Bairro Marechal Carmona e trabalhava com o seu pai, como aprendiz de pintor da construção civil.

 

 


 

Como disse, coincido algumas vezes com o David nos intervalos para o almoço, e numa dessas vezes perguntei-lhe se não teria algumas recordações do prémio que recebera.

 

Respondeu-me sem qualquer presunção que tinha algumas “coisas”.

 

As “coisas” que tinha são as imagens que a seguir divulgamos:

 

 

Chegada ao aeroporto de Barajas, Madrid

 

A receber o prémio

 

Reportagem da revista “Flama” das quais retiramos as ilustrações que seguem, sem quaisquer comentários e com as legendas originais:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Na crónica anterior falámos de campeões, nesta falamos de heróis… e de Chaves!

 

Mário Esteves

 


* Não citamos o autor, por que o recorte do jornal cedido pelo amigo David é um artigo distribuído por páginas, do qual apenas tem a parte mais relevante, excluindo o final que certamente seria assinado.

 

 

- As fotografias e ilustrações foram gentilmente cedidas por David Teixeira da Silva e a ele pertencem em exclusiva e plena propriedade. 

 

 

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Quarta-feira, 2 de Maio de 2012

Palavras colhidas do vento... por Mário Esteves

 

Um colega Gracindo* fiel devoto de Morfeu, após o périplo habitual e vespertino pelas tortuosas canelhas da Alta de Coimbra e com o mesmo apreço pelas tasquinhas que nelas havia, as quais visitou a preceito e com tanto rigor, que, ainda os Emissores Associados de Lisboa não passara o “ E Depois do Adeus”, de Paulo de Carvalho** e já ele mergulhara num sono tão sólido como o Penedo da Saudade.

 

E continuou imperturbável, muito depois da Rádio Renascença transmitir a “Grândola, Vila Morena”, de Zeca Afonso.

 

E pela madrugada, nem os gritos e a vozearia registados no vetusto Gracindal*, os quais faziam parte dos costumes da casa – embora, desta vez, parecessem demasiado ruidosos e excessivos -,  fizeram que acordasse, pois nas brumas do adormecimento, sentia-os contraditoriamente, irreais,  próximos ou longínquos.

 

No entanto, acordou cedo, maldisposto e até um pouco zangado.

 

Levantou-se e foi às aulas.

 

Percorreu os poucos metros da Rua da Matemática, que separavam esta da travessa para onde davam a Sé Nova e o Museu Machado de Castro, e lá chegado, subiu a ladeira entre a Faculdade de Medicina e a Faculdade de Letras, que contornou, até ficar junto à Porta Férrea.

 

Aqui ficou surpreendido, por estar fechada e nas proximidades meia dúzia de estudantes.

 

Ainda sonolento, perguntou ao pálido archeiro*** que estava no corredor que conduz ao Pátio da Universidade:

 

-“ Então, isto está fechado?”

 

- “ Parece que há uma revolução em Lisboa …” Respondeu o archeiro, nervoso e afastando-se.

 

E o colega Gracindo, entre o estremunhado e a incredulidade, murmurou:

 

-“ Logo hoje, que me levantei cedo para vir às aulas!”

 

 E regressou ao quarto e meteu-se novamente na cama …!

 

Andou bem a Câmara Municipal de Chaves ao incluir uma “aula de hidroginástica” no programa do 25 de Abril.

 

Nada melhor para um desempregado, que assim vê uma possibilidade de o ajudar a preservar a saúde, perante o espectro da continuidade da sua condição até as contas estabilizarem.

 

Os reformados ou pensionistas, têm também um meio que desconheciam e lhes dá a necessária resistência cardiorespiratória quando recebem o vale postal com as importâncias correspondentes às suas exíguas reformas.

 

Para outros melhora-lhes “a resistência (…) e a flexibilidade”, ficando mais aptos perante os azares da vida, sejam banqueiros ou industriais caídos em desgraça ou as suas vítimas.

 

Pode-se dizer que não há classe social que não possa deixar de beneficiar com esta saudável prática.

 

Até eu, que no meu interesse pela “hidroterapia”, procurei algumas informações e desencantei que este singular exercício aeróbico pode proporcionar-me “um gasto calórico de 260 a 400 kcal por hora”!

 

Agora, falta que a Câmara Municipal de Chaves, junte a originalidade à pragmática e depois dos adequados estudos económico-financeiros, nos quais, inevitavelmente se incluem a procura dos “recursos humanos idóneos”, crie a tal “aula de hidroterapia” e dê a conhecer o preçário. Ou será gratuita?

No entanto, creio que os munícipes e a população em geral deste “intr (inc) oikado” País, do que mais necessitam, são de aulas de natação … a fim de não se “afogarem em dívidas”ou aprenderem a nadar para pagá-las!

 

 

Afinal não é só o tempo que anda trocado.

 

Preparava-me eu para desfilar no 1º de Maio - e que vontade tinha! -, com a malta trabalhadora, fosse sindicalizada ou não, da UGT ou CGTP, e vejo toda a gente a correr para o Pingo Doce!

 

Como é?

 

Vim a saber, primeiro, que naquela cadeia de supermercados, todos os artigos estavam à venda a metade do preço, e depois, correctamente, que no caso de compras iguais ou superiores a cem euros, se pagava apenas metade.

 

Como nada me surpreende, até achei bem, não só a decisão do grupo Jerónimo Martins, como compreensível a afluência desmesurada das pessoas aos supermercados daquele grupo.

 

E até nas minhas lucubrações, pensei como seria bonito e revolucionário, viver a festa (?) do trabalhador, deste modo, com este espírito benemérito.

 

Já imaginaram carros alegóricos ao 1.º de Maio, ornamentados, a desfilarem pelas ruas deste País, o Pingo Doce em primeiro - que foi o da ideia -, depois por ordem alfabética, os restantes, a venderem todos os produtos que comercializam a metade do preço aos pobres trabalhadores!

 

Qual ASAE, Sindicato do Comércio ou “dumping”, que o valha! 

 

Mesmo que fosse uma vez por ano, era bonito, digno e um acto responsável perante a crise que vivemos. Até poderiam depois subir os preços …

 

Como disse, nada me surpreende, mas não deixa de me dar voltas à cabeça, que, perante este gesto magnânimo do Grupo Jerónimo Martins, não terá sido uma incoerência a sua deslocalização**** para a Holanda?

 



 

* Gracindo: quem, enquanto estudante, morou na República do “Gracindal” ou mais tarde, desaparecida aquela, no mesmo edifício onde se situava, na Rua da Matemática, n.º 35, em Coimbra.

 

** “E Depois do Adeus”, letra de José Niza, composição de José Calvário, cantada por Paulo de Carvalho.

 

*** Que pertence ao Corpo de Guarda dos Archeiros da Universidade de Coimbra. No meu tempo exerciam de contínuos, e tinham funções protocolares em cerimónias solenes. A maioria dos estudantes atribuía-lhes ainda funções policiais de repressão e vigilância.

 

**** Cito com a devida vénia um excerto do editorial do Jornal de Negócios, de 4 de Janeiro do corrente ano: “o que custa a engolir não é que Soares dos Santos [presidente da JM] tenha cortado o passado com Portugal, esse mantém-no e continua a pagar impostos. É que tenha cortado o futuro. É que tenha decidido investir fora daqui porque aqui não tem por onde crescer, para procurar lucros fora de Portugal, criar postos de trabalho fora de Portugal e, então sim, pagar impostos desse futuro fora de Portugal. Mas investir fora do País não é traição. É apenas desistir dele.”

 


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publicado por Fer.Ribeiro às 23:58
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Quarta-feira, 18 de Abril de 2012

Palavras colhidas do vento... por Mário Esteves

 

Numa das anteriores crónicas referi-me ao filme de Manoel de Oliveira - O Auto da Primavera -, filmagens que decorreram em Curalha e como actores participaram parte da população local, que, também é designado como Auto da Paixão ou Auto da Mui Dolorosa Paixão de Jesus Cristo, como vem recolhido no I volume do livro, dedicado a Trás os Montes: Teatro Popular Português, de Azinhal Abelho, editado pela Editora Pax, de Braga, no ano de 1968.

 

Este autor, na nota crítica a esta representação popular, indica vários locais onde se realizava e cita testemunhos de Firmino Martins, que o “colhe (u) de registo da menina Maria Barreira, de Moimenta - Vinhais”; do Padre António Mourinho que o encenava em Duas Igrejas - Miranda do Douro e ele mesmo, recebeu a notícia de um amigo que lhe disse também realizar-se em Izeda e após mencionar o filme de Manuel Oliveira, diz tê-lo assistido em Bustelo – Chaves.

 

Imagem retirada do livro "Teatro Popular Português", de Azinhal Abelho, editado pela Editora Pax, de Braga, no ano de 1968

 

O texto do auto contido no citado livro é cópia dum “casco emprestado em Agrochão – Vinhais”, sustentando o autor que o mesmo tem acrescentos retirados da “Vida de Jesus”, de Plínio Salgado. Para uma maior autenticidade???, o autor procedeu a uma revisão do Auto, seguindo um exemplar arquivado no Museu de Arte Popular de Lisboa.

 

Durante algum tempo tive na minha posse um texto dactilografado, que me emprestou o Fernando Lobo, de Vila Verde da Raia, que pertencera ao espólio de sua mãe, regente escolar naquela povoação, mas, infelizmente, não tirei qualquer cópia e se tal aconteceu, deve estar por aí imerso nas imensas pilhas de documentos que estão distribuídos pelos vários compartimentos da morada familiar.

 

Imagem retirada do livro "Teatro Popular Português", de Azinhal Abelho, editado pela Editora Pax, de Braga, no ano de 1968

 

Durante algum tempo porfiei com o Senhor António Rosa, habitual ensaiador do auto em Curral de Vacas (Santo António de Monforte), para me emprestar o manuscrito em papel almaço, bastante manuseado, pois dele se servia no decorrer do auto para fazer o papel de ponto. No entanto, apesar das minhas tentativas, o homem era muito cioso do vetusto guião, herança dos “antergos”, como ele bem dizia em galaico-português.

 

Assisti a muitas representações e recordo que as últimas foram em Curral de Vacas e Faiões; era demasiado criança e por isso de Bustelo, apenas tenho vagas imagens, que, por certo, serão mais recriações do que escutava, do que propriamente reproduções verazes.

 

Imagem retirada do livro "Teatro Popular Português", de Azinhal Abelho, editado pela Editora Pax, de Braga, no ano de 1968

 

Privei de perto com “personagens”, que de tanto repetirem as figuras que representavam, em vez do nome da pia baptismal, passaram a ser Centúrios, Herodes, Longuinhos …     

 

Daí, estas histórias que me foram contadas e que, aqui reproduzo, sem, no entanto confirmar a sua veracidade, excepto a última, da qual fui protagonista e que retirei de um meu anterior escrito para a “ Voz de Chaves”, na sua segunda encarnação, e de um efémero mensário publicado em Santo António de Monforte.

 

Aprisionado Jesus, numa das últimas deixas, Caifás, esqueceu-se dos “versos” e depois de um silêncio expectante da multidão presente, emendou:

 

-“ Que o levem a Pilatos, que é o regedor da freguesia …!”

 

Numa das derradeiras cenas, Cristo no martírio da cruz, e os “soldados” romanos entre chufas, uns a beberem vinho e outros a jogarem às cartas, estes levaram tão a preceito o seu desempenho, que os espectadores ouviram perfeitamente:

 

-“ Ó…Há bocado não assististe a copas e agora apareces com elas …!

 

Dia de feira em Chaves e na sala de espera do escritório aguardavam alguns clientes. Ao fim da manhã, entrou um dos últimos para atender e depois de me cumprimentar, disse:

 

-“ O senhor doutor, com as relações que tem, ao morrer, por certo vai direitinho ao Céu!”

 

Surpreendido pelo que escutara, após alguns instantes, respondi:

 

- Primeiro, ainda é muito cedo para morrer, embora a morte não escolha a hora, e depois creio não merecer tanto, mas porque diz isso?

 

-“ Bem, desde que aqui estou, vi entrar no escritório a nossa senhora de Curral de Vacas e depois foi a vez do cristo de Faiões!”

 

Na verdade, as pessoas que referira desempenharam nesse ano esses personagens no Auto da Paixão, que realizaram naquelas povoações…

 

Depois da Pascoela, realiza-se em Chaves, a festa da Senhora das Brotas.

 

Recordo que era uma festa organizada pelas costureiras e caixeiros, que no dia maior da festa, quase sempre a uma segunda-feira, gozavam da generosidade de uma certa isenção do horário de trabalho.

 

 

Ainda tenho em mente o caminho velho que conduzia ao Forte de São Neutel, pejado de pessoas, entre estudantes, recrutas e o pessoal do comércio, que se deslocava para o bailarico, normalmente abrilhantado por uma das bandas da cidade – os Canários ou os Pardais -, ou então, mais tarde por um conjunto de música moderna, no qual revejo alguns componentes, sem distinguir o nome que os juntava, tantos foram e coincidiam em formações distintas.

 

Mas, a imagem mais viva e antiga que mantenho, é dos presos da antiga cadeia comarcã ali situada, atirarem cordas por entre as grades e os familiares nelas prenderem cestas com alimentos, tabaco e uma ou outra carta.

 

Mais recentemente, não posso esquecer os últimos folares da Páscoa e o rancho, mais o necessário acompanhamento vinícola, do Tio Juca e tantos outros, que faziam da romaria da Senhor das Brotas se desvanecesse quase à hora de regressar ao trabalho no dia seguinte.  

 

Mário Esteves


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publicado por Fer.Ribeiro às 23:45
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Quarta-feira, 28 de Março de 2012

Palavras colhidas do vento... por Mário Esteves

 

Conheço o Fernando dos tempos de Coimbra, quando ele, após uma agitada vida universitária em Lisboa e a tropa, ali foi encalhar e concluir a licenciatura em direito. Fomos vizinhos na Rua da Matemática, porta com porta, melhor, janela com janela, pois naquele tempo, babado por um derriço, chamava-me a altas horas da noite da sua janela para me declamar a correspondência poética em louvor da inspiradora musa.


Já leva três romances publicados, sob o pseudónimo de Fernando Dadim - sendo o nome próprio o seu e o apelido em honra de um bisavô, natural daquela freguesia -, e como passasse pela Ladeira da Brecha, pedi-lhe que me autografasse o último – O Suicídio dos Pássaros -, que recentemente comprei na livraria Ana Maria.


E é a propósito do autógrafo, que escrevo estas breves palavras, por que sobre a sua obra literária, outros, lavrarão sentença, certamente favorável, pois disso estou inibido por amizade.


Em tempos o Fernando, ofereceu-me uns alfarrábios jurídicos, entre os quais umas Anotações ao Código e Legislação Penal do ano de 1903, publicado por Trindade Coelho.


E é das páginas iniciais do agora desactualizado calhamaço, que cito uma das mais impressionantes e emotivas dedicatórias que já tive ocasião de ler. Diz assim:


 A

Manoel Barradas

Jornaleiro de Santa Eulália

Que

Por amor de

Uma mulher

Se deixou condenar por

Homicidio e roubo

Estando

Inocente

Dedica

O seu admirador e amigo

Trindade Coelho

 

No domingo passado decidi calcorrear algumas das povoações galegas da raia, com a intenção inicial de afastar o tédio, mais do que numa jornada nostálgica. Devo dizer que a partir do momento em que A – 24, começou a ter portagens - tantos anos de isolamento, tantas desigualdades em relação ao interior norte … -, há muito que não me fazia ver por aquelas ou outras paragens, afectas àquele ónus. No entanto, por necessidade - tive que efectuar uma ressonância magnética em Lordelo -, fui obrigado a comprar o aparelhómetro nos correio, e não bastasse isso, o raio das geringonça, a cada passo da côngrua, emite um pequeno e irritante silvido, que, mais ou menos causa o embaraço que sentimos depois de tudo termos pago ao passar pela caixa registadora de um estabelecimento e à saída, solta semelhante ruído ou mais prolongado. Depois de conferidas as compras, ao invés do que sucede na A – 24, pedem-nos desculpas.


Passei por Feces, pela “cafetaria Paco”, onde o Manolo teve a amabilidade de me oferecer um “cortado”, parei junto ao irmão de outro Manolo, já falecido, que foi casado com a filha da “Lixa”, reformado há muito dos “Altos Hornos de Viscaya”, que não me reconheceu, salvo quando lhe disse que era o Marinho; pelos comércios, agora fechados do Baldomero, do Quinto e a antiga tenda do Felisindo (pai), e junto à casa onde morava o Senhor Demétrio, encarregado postal; recordei o enorme mapa de Espanha, pendurado numa das paredes e as emissões da RNE, precedidas do hino espanhol, o tecto de madeira em forma de masseira, a larga mesa, onde nos dias de festa presidia o “cura” ladeado do mestre de escola, o cabo de carabineiros de tricórnio, o quarto obscuro onde dormia, quando lá pernoitava nas férias, a cama de folhelhos, que mal caído nela, parecia abraçar-nos…


A fachada brasonada mantém-se quase inalterável, mas a longa varanda está em ruína.


A casa do Senhor Agustin, que era natural de Puebla del Caramiñal e ali casara, estava fechada, mas ainda assim lembrei-me das longas folhas de tabaco postas a secar no alpendre e no palheiro.


Os incipientes amores sob os amieiros nas margens frescas do Tâmega…


As primeira pedaladas numa bicicleta manhosa e quando me enfiei contra uma meda de palha, o Sidrito, gritou:


- “Pero que te matas!”


Quando cheguei a casa de meus pais, então nos Correios de Vila Verde da Raia, ufano, o primeiro que disse, foi que já sabia falar espanhol. E a minha mãe:


-“Então fala lá …”


Quando lhe repeti o grito assustado do Sidro, ela, temerosa, murmurou:


-“ O que este rapaz teria andado a fazer …”


Como as recordações se soltassem naturalmente a catadupas, decidi rumar a Oimbra, onde tenho parentela, que revejo de anos a anos, para não dizer lustros e por isso não lhes conheço poiso certo.


Lá chegado, parei num pequeno café e perguntei se ali estava alguém da família Esteves.


De imediato, me indicou uma pessoa, que estava sentada de costas para mim, sozinho, frente a uma mesa.


Fui na sua direcção e perguntei-lhe se conhecia uns primos de Chaves. Respondeu-me, que, efectivamente, tinha uns primos em Chaves, onde ia todos os domingos com a mulher, à tarde, passear no Tabolado, até à ponte pedonal, junto às azenhas do Agapito.


E que ainda há dias ao passar por Vila Verde da Raia, dissera, apontando os Correios, que ali morara um primo.


Disse-lhe que era filho. A partir daí, não o conhecendo a ele pessoalmente, perguntei por aqueles de que tenho mais viva memória.


A Maribel, professora reformada do Conservatório de Música de Orense, estava doente, mas, ainda assim, cheguei à fala com ela através de telefone. O Toño, mais uma vez, andava pela América do Sul - creio que já conhece todos os países daquele continente -, à procura duma “chica”...


E foi por ele, durante a conversa, que tomei conhecimento que em Verin decorria a feira do Lázaro.


“ Em Chaves a Feira dos Santos e em Verin, a feira do Lázaro”


Despedi-me apressadamente e fui até Verin.


Oh! Decepção, tristeza…!


Aquele Lázaro, parecia que Cristo ainda não tinha passado por lá.


Uma feira, mais ou menos igual à dos “Saberes e Sabores” de Chaves e pouco mais. Nem me atrevi ir à praça.


Pedi um cartaz, não havia; o programa era mais do que humilde, pobre mesmo.


Não era a feira que eu recordava com um mar de gente e o tradicional jogo de futebol entre o Desportivo e o Clube local, ou outros de maior renome.


E não querendo comentar “em seara alheia”, apenas me limito a ilustrar esta crónica, com uma fotografia da autoria de Xosé Vasquez Árias (Rizo), que, recentemente foi objecto de uma merecida homenagem, com a publicação de um livro de fotografias por parte da “Diputacion de Ourense”, na qual falta esta, e que considero ter sido realizada numa feira do Lázaro de antanho, opondo as equipas do Desportivo de Chaves e o Ourensana.

 

Mário Esteves, capitão de equipa do Desportivo de Chaves, acompanhado de ilustre e bela dama, num jogo com o Ourensana,

por ocasião do Lázaro, vendo-se ao fundo o Gualter.

Fotografia Rizo propiedade de Mário Esteves - Direitos Reservados

 

O Vasco foi durante muito tempo empregado dos meus tios, salvo uns meses, por desinteligências da parte dele e provocadas por uma falsa amizade que lhe cobiçava o lugar. Tendo reconhecido o erro em que caíra, pediu para regressar e os meus tios, aceitaram-no novamente e ali permaneceu até a doença o impedir.


O Vasco morava na Travesso da Trindade, num prédio de rés-do-chão, no qual habitava, com a idosa mãe, em compartimentos separados por tabiques e à frente com uma simples cortina. A cozinha era ao lado dos quartos e resumia-se a um fogão de gás, uma mesa e poucas cadeiras.


Mas, a parte principal era um forno de lenha.


Recordo que a padieira da entrada do casinhoto tinha por baixo umas inscrições romanas, desconhecendo-lhe o paradeiro, após a demolição da humilde edificação.


Bem, o que interessa agora, era que nesse forno a maior parte das moradoras da Rua do Sol, Rua de Santa Maria, Correio Velho e outras ruas limítrofes, levavam os folares a cozer.


Para os distinguir uns dos outros, colocavam-lhes marcas. Acontece que algumas das marcas desapareciam após a passagem pelo forno, o que gerava discussões nada condizentes com a Páscoa, a decorrer; principalmente quando uns não tinham crescido o suficiente ou tinham um aspecto menos apetecível.


Então, o Vasco com a premência duma próxima fornada e para pacificação do mulherio, perguntava:

-“Querem ver que são meus?”


Era o suficiente para de novo reinar a paz e as senhoras, reconciliadas com o espírito pascal, colocavam os folares da discórdia nos tabuleiros de madeira cobertos por um pano alvo, e com com eles já na cabeça, protegida por um trapo enrodilhado ... ala que se faz tarde, transportá-los até ao destino, deles rescendendo um aroma que fazia crescer água na boca a todos quantos estavam no Largo do Pelourinho.
  
     

Mário Esteves

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Quarta-feira, 21 de Março de 2012

Palavras colhidas do vento... por Mário Esteves

 

Desafortunadamente, a minha tia Estrelita, à qual me referi na última crónica faleceu, após tenaz resistência contra a doença que, como um raio a varou. Durante a primeira semana deu esperanças de vir a sobreviver, mas a morte inexorável que nunca deixou de ensombrar a cama de hospital onde jazia, acabou por vencer.

 

Fica a memória da sua existência à família e amigos, e permita-se-me destacar a companhia permanente até ao seu decesso, na vida dos sobrinhos, talvez mais na minha e de meus irmãos. De tal forma que, muitas vezes a minha mãe dizia, com alguma indisfarçável contrariedade:

 

- “ O vosso pai tem duas casas, esta e a das irmãs…”

 

As irmãs, eram as tias Estrelita e Maria.

 

Fotografia prop. de Mário Esteves - Direitos Reservados

Traseiras do Palace Hotel de Vidago

Ao centro a Tia Estrelinha, ladeada do lado esquerdo pela minha mãe

e do lado direito pela minha tia Lina (materna), ainda viva e residente em São Paulo, Brasil.

 

Não recordo umas férias estivais de infância e até de adolescência, que não nos acompanhasse.

 

Leça da Palmeira ou a Costa da Caparica, na desaparecida FNAT, são testemunhos visíveis nas amarelecidas fotografias do álbum familiar.

 

E não posso esquecer, que, após o falecimento de meu pai, praticamente adoptou o meu irmão mais novo, que de resto, antes peregrinava entre a casa dos pais e das tias.

 

Muito haveria a dizer de minha tia; sobejam nas minhas reminiscências, além da saudade e o afecto que perdurarão, o arquivo oral da genealogia familiar, histórias próximas e alheias e um exemplo de tenacidade.

 

Quando faleceu o meu avô paterno, sob a direcção esforçada e atenta de minha avó, foi ela e os irmãos - adolescentes, quase umas crianças -, que assumiram o negócio familiar de armador, percorrendo os caminhos poeirentos a pé ou em azémolas - já por si carregadas com as tralhas do ofício e caixas com os forros das charolas, cetim, luzideiras, flores de papel apergaminhado, de várias cores… -, postas à sua disposição  pelos mordomos, até às aldeias festivas, para ornamentar os andores com uma maestria insuperável, que lhes granjeou amizades e merecida fama.

 

Que descanse em paz!

 

Fotografia prop. de Mário Esteves - Direitos Reservados

 

Não se pretende que estas crónicas que vou debitando e nos últimos tempos de forma errante se transformem em obituários. No entanto, creio que os leitores compreenderão a sua razão de ser.

 

Assim como a evocação do falecimento recente e inesperado da D. Quinhas. Pessoa afável, com quem me cruzava diariamente junto à porta de sua humilde morada, na Rua do Sal, às horas das refeições e a caminho da pensão onde me amesendo ou na frutaria da esquina da mesma rua ou próximo da Igreja Matriz.

 

Inevitável falar da sua bonomia, dos breves momentos de cavaqueio sobre o quotidiano, quando nos encontrávamos e do fiel companheiro Ruca, um rafeiro de pelo acastanhado e ocre, que tratava com desvelo e que não acede a deixar de permanecer em frente à porta da casa da bondosa dona.

 

Com alguma relação ao que escrevi na crónica na qual falava da doença de minha tia e da qual veio a falecer - custa a crer e rememorar a forma sentida e comovente como a D. Quinhas me deu os pêsames pelo passamento de minha tia e pensar que, também ela e de forma brutal, pouco tempo decorrido, perderia a vida -, vou passar de largo sobre a polémica que, entretanto a sua morte gerou, com declarações do Presidente da Câmara Municipal de Chaves, do Ministro da Saúde e que opõe os Hospitais de Chaves e o de Vila Real.

 

Chaves, Rua do Sal - D. Quinhas à porta de Casa (25.Fev.2012)

 

E como me foi dado a conhecer, que a razão desse litígio é alheia aos familiares da saudosa finada, não posso deixar de lamentar que a política se faça sobre o irremediável, embora respeite a legitimidade das entidades no apuramento de responsabilidades, a existirem, sejam elas quais forem. A isso estão obrigadas.

 

Mas, como diz uma minha amiga:

 

-“ As desculpas não se pedem, evitam-se.”

 

 

Por parecer inoportuno, atendendo ao teor desta crónica, não vou repetir o que se passa na Rua Bispo Idácio, perto da confluência desta rua com a Ladeira da Brecha, nas noites de sábado para domingo, e que motivou mais uma participação na PSP.

 

No entanto não poderia deixar de me congratular com o artigo de Sandra Pereira, também colaboradora deste blogue, na “Voz de Chaves”.

 

Os sofridos moradores agradecem.

 

Assim tivessem motivos para agradecer às autoridades que poderiam pôr termo a este massacre.

 

Mário Esteves

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Quarta-feira, 22 de Fevereiro de 2012

Palavras colhidas do vento... por Mário Esteves

 

Mais duas semanas de ausência.

 

Uma arreliadora gripe e a doença grave de um familiar, a única irmã viva de meu pai, já com noventa e um anos, retiraram-me a vontade de escrever, embora neste período fartos motivos para o fazer existiram, alguns dos quais não resisto, agora, de os registar.


Sempre respeitei o trabalho alheio e mesmo às vezes mal servido, nunca apresentei uma queixa.

 

 Talvez, por que também eu tento servir o melhor que possa quem me procura.

 

Reconheço, que muitas das vezes, enfrento situações difíceis, suporto pessoas e actos, que caem na má educação, na incompreensão, mas passados aqueles momentos vêm outros que os compensam.

 

Ser operador do INEM é uma actividade, na qual se deve atender que, na maior parte das vezes, senão sempre, quem chama, quem recorre a esses serviços de urgência, encontra-se sob uma grande pressão, próxima do desespero, ansioso, impaciente, na resposta ao seu apelo de ajuda, seja próprio ou de outrem.

 

O que menos se espera ao marcar o 112, é alguém surgir com uma bateria de perguntas, algumas com sentido e outras totalmente desprovidas dele, do género:

 

- E o doente ainda respira?

 

Caso que seria de chamar a funerária e não propriamente o INEM.

 


De todos os modos, na impossibilidade de o fazer pessoalmente, aproveito este espaço para pedir publicamente desculpas à operadora que me atendeu, pelo meu comportamento incorrecto, mesmo atendendo ao estado de excitação em que me encontrava, ainda que do outro lado possa ter existido alguma falta de sensibilidade.

 

Sou humano e apesar dos meus esforços ainda não atingi a serenidade dos deuses!

 

Há pouco congratulei-me com uma moção aprovada sobre o Hospital de Chaves.

Apesar da perda de valências e especialidades, já do meu conhecimento, não esperava que o estado a que chegou o hospital, fosse tão alarmante.

 

Nada tenho contra o pessoal em serviço nesse hospital e até é digno e louvável o esforço que dão mostras perante a mais confrangedora falta de condições. 

 

Ocasionalmente justifica-se a falta de macas na urgência, devido à afluência extraordinária de utentes e mesmo os tempos de espera.

 

Agora o inexplicável, o absurdo é que é intolerável.

 

Pedir uma almofada aos familiares de um doente que vai ser internado, por no hospital não existirem em quantidade suficiente, não lembra a um cidadão mais ou menos europeu.

 

E pelo que me disseram, não são apenas as fronhas!

 

São lençóis … - “os que existem, por grosseiros, provocam feridas e irritações na pele dos idosos”  -, e pasme-se… até medicamentos!

 

Por isso, caro concidadão, se for internado no Hospital de Chaves, não se esqueça e leve consigo a almofada, lençóis, e quem sabe lá, no futuro, talvez a cama e o soro!

 

Como diria alguém da chamada “quinta coluna”, que costumava assentar arraiais para os lados do Largo das Freiras, quando havia Largo…

 

“ Ai, Chaves, Chaves …!”

 

 

Fotografia de Mário Esteves

 

Esta crónica era para ser escrita ontem, terça-feira de Entrudo.

 

Quando for publicada estaremos na Quaresma, mas tal não invalida que troquemos as voltas ao calendário e falemos do Entrudo.

 

Na falta de “madamas” ou “caretos” no concelho ou a sua abundância, fomos ao arquivo e desempoeiramos memórias de um Entrudo muito peculiar e que ocorre em Viana do Bolo e Vilariño do Conso, na vizinha Galiza.

 

Claro que, quando se fala em Entrudo na Galiza, pensa-se de imediato em Verin, Xinzo ou Lasa, isto é, nos cigarróns, pantalhas e peliqueiros, figuras típicas dos Carnavais dessas localidades.

 

É a segunda vez, que me lembre, que esta crónica excede os limites de Chaves e posso dizer com inteira razão.

 

Porque o Entrudo em Viana do Bolo e Vilariño do Conso, ainda que menos conhecido, nada ficam a dever aos outros, pela autenticidade e enraizamento nas tradições populares.

 

O Entrudo em Viana, começa por erguerem um mastro na praça, onde pendem dois bonecos: o lardeiro e a lardeira.

 

Depois, para os gastrónomos segue-se a festa da androlla, que é uma degustação popular e gratuita daquilo que nos chamamos o butelo, o palaio ou paloio, que é um enchido de carne de porco, onde predominam as costelinhas e cabaça, acompanhadas de pão e vinho.

 

Posteriormente e no dia de Entrudo, desfilam os “boteiros”, a “mula” e o “maragato”.

 

A “mula” é uma representação do mesmo animal, feito com cobertura de palha e que três jovens suportam, sob a arreata do “maragato” O “maragato” é uma espécie de bufarinheiro, que vem das terras de Castela.

 

Tudo isto, é feito sob o som de bombos, a que os locais chamam “tamburrada”.

 

Fotografia de Mário Esteves

 

Não se parece a Calahorra, na Semana Santa, mas aproxima-se muito.

 

Agora, e depois de uma breve e sucinta descrição do Entrudo em Viana do Bolo, o que mais destaco é a exuberância das vestes do “boteiro”, mais prolixas e coloridas, que outras figuras do Entrudo galego.

 

Ah! Não se esqueçam ao passar por Viana do Bolo, de comprar os “Vianos”, chocolate com mel, que é uma delícia!

 

Ps. Esta é a quinquagésima crónica, agradeço o convite do Fernando Ribeiro, bem assim as fotografias que acompanharam os textos, e permita-se-me mostrar a minha gratidão pelo incentivo a M., aos meus sobrinhos, à Cristina, ao Fjr-Barreiro e a todos os leitores que me têm acompanhado com indulgência.   

 

Mário Esteves

 

 

 

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Quarta-feira, 1 de Fevereiro de 2012

Palavras colhidas do vento... por Mário Esteves

 

Há pouco tempo falei com um funcionário da Câmara de Chaves sobre as tropelias que ocorrem no fim-de-semana no centro histórico e referi expressamente um edifício mesmo em frente ao meu escritório, que tem no rés-do-chão um passadiço entre a rua Direita e a rua Bispo Idácio.

No início tinha várias lojas, agora reduzidas praticamente a três; o proprietário duma tapou todas as montras que davam para o corredor, ficando apenas as que incidem para uma espécie de átrio paralelo à rua Direita.

Outro, no lado oposto e com a mesma situação da anterior, manteve a montra original que na maior parte dá para a rua Direita e noutra que também detém, foi obrigado a tapá-la com uma chapa ondulada de zinco, tantas as vezes lhe partiram o vidro.

 

Resta a única que tem montra para o interior e que já foi várias vezes assaltada.

Aquilo que alguns persistem em chamar um centro comercial, tem ainda um quarto de banho, a maior parte das vezes fechado e do qual se exala um cheiro nauseabundo.

Já existiram portas nas duas frentes, que foram retiradas, mantendo-se uma só portada, na entrada pela rua Bispo Idácio.

Durante a noite e para lá dela, já madrugada, o local é refúgio de meliantes que ali assentam arraiais, principalmente nas noites de sábado para domingo, transformando-o em parte numa autêntica lixeira e não hesitando em urinar e defecar, com particular relevo na parte mais próxima da rua Bispo Idácio.

 

Os lojistas lá vão limpando, mas seja por questões pessoais, de ser um mais vezes a limpar que outro, ou até por acomodação, a verdade é que, por vezes os dejectos e a urina ficam por largo tempo naquele espaço, obrigando o passante e os vizinhos a suportar o cheiro pestilento.

Pois, expunha o nojento assunto ao tal funcionário camarário, dizendo-lhe que estava em causa a salubridade e higiene pública, quando lhe escutei:

-“ Manda-se lá o veterinário municipal …!”


Estava no estágio, quando me caiu nas mãos um assunto de contrabando. De acordo com a participação da guarda-fiscal fora apreendida uma égua no Açude, nas proximidades do ribeiro que serve de fronteira e que naquele sítio desagua no rio Tâmega.

No entanto, o proprietário da égua, dizia que o animal fora apreendido já em Vila Verde da Raia, no quinteiro junto à casa.

E tinha várias testemunhas que corroboravam esse facto.

Apresentei um requerimento ao delegado da comarca, onde levantava a questão e solicitava que, enquanto durasse o inquérito e até à audiência de julgamento, a existir, que o proprietário do equídeo apreendido fosse nomeado seu fiel depositário.

O delegado despachou no sentido do proprietário se deslocar ao posto da guarda-fiscal e transportar o animal, à sua custa e meios, ao antigo matadouro, a fim do veterinário municipal lhe efectuar um exame, constando expressamente do despacho, se “era possível determinar a sua proveniência …”

Só depois dele daria a sua anuência à nomeação do proprietário como fiel depositário.
Arranjou-se um camião para transportar o animal e com uma cópia do despacho, acompanhei-o à guarda-fiscal e depois ao antigo matadouro, onde hoje estão instalados os armazéns e oficinas da câmara.

Quando lá cheguei, disse ao primeiro empregado que encontrei ao que ia e perguntei onde ficava o gabinete do veterinário.

 

 

 

 

Fomos conduzidos a uma pequena sala e disseram-nos que aguardássemos um pouco, que o veterinário nos atenderia logo que pudesse.

Pedimos um pouco de presteza por que a manhã já declinava.

Recebidos pelo veterinário, entreguei-lhe o despacho do delegado e aquele depois de lhe passar os olhos, perguntou-me:

-“ O animal que língua fala?”

Eu sorri e ele:

-“ É que eu não sou fluente em castelhano …”


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Quarta-feira, 25 de Janeiro de 2012

Palavras colhidas do vento... por Mário Esteves

 

Fiquei sem internet e os caros leitores sem crónicas.

No final, um dos motivos deveu-se a uma questão de deslocalização da empresa a quem pago a serventia, que apesar do motivo indicado, continua a pagar impostos à Fazenda Nacional e manteve alguns serviços, nomeadamente o número telefónico de atendimento ao cliente, que marcado, surge uma gravação, que repete:

- “ Chegou à linha de atendimento ao cliente de (…), para problemas com a facturação, marque um, para novos serviços, marque dois (…), para falar com um assistente, marque sete, neste caso a chamanda custar-lhe-á …”

Outro dos motivos seria a relação tormentosa que essa empresa mantém com um parceiro contratual - desconheço se legítima, de facto ou puro concubinato… e bem  estava eu para me preocupar pela vida privada de pessoas ou outras entidades…-, a quem era atribuída grande parte da responsabilidade da avaria.

De tal modo, que cheguei a sonhar ter contratado umas calças a um alfaiate, e quando as ia levantar, o prestimoso costureiro respondia:

- Caro amigo e cliente, a parte correspondente à perna esquerda está concluída, a outra é obra doutro colega, e não sei quando a terminará …!

Enfim, como o meu estado estivesse à beira de uma síncope fulminante, lá apareceu uma alma caridosa, que condoída do meu triste penar, me resolveu o problema em vinte e quatro horas.

Daqui, a minha gratidão eterna, à benemérita!

Mas, não serei eu só a ter problemas no quotidiano, embora tal não me sirva de refrigério.

Aliás a minha desventura com a internet não se compara por forma alguma às dificuldades que grassam indistintamente por todo o lado.


Fotografia de Màrio Esteves

 

Um alto dignitário de um estado europeu fez uma visita a um país africano, onde parece existir uma grande colónia de compatriotas, a maior parte professores e jovens desempregados, aliciados a emigrarem por vários representantes governamentais dessa mesma nação.

Aguardava-o no aeroporto, o mais elevado plenipotenciário, que usava as vestes tradicionais da região, rodeado pelos ministros e altas autoridades, estas vestidas mais formalmente.

Logo que desceu da aeronave, que, segundo os jornalistas foi obrigada a fazer várias escalas noutros aeroportos, a fim de serem reparadas pequenas avarias, o ilustre visitante, vendo as vestimentas do seu homónimo, de chofre, espetou-lhe:

- Não me diga que também lhe sucede. O que ganha não chega para pagar as despesas das funções que desempenha?

Um ministro desse país, no início duma reunião do Conselho Europeu, distribuiu um embrulhinho contendo pastéis de nata, a todos os seus confrades e delegações, acompanhado dum bilhetinho que dizia:

 - Saborosos, não?

Agradeço os vossos bons ofícios, no sentido de encontrarem entre o vosso dinâmico sector empresarial, interessados em comercializarem em grande dimensão (tipo McDonald`s) este excelente produto da minha terra.

Com os melhores cumprimentos,
O ministro (…)

No final dessas reuniões, refiro-me ao Conselho Europeu, ignoro se a vossa disposição será a mesma que a minha ao ver pela televisão aquelas imagens solenes que nos são transmitidas. O descer dos flamantes automóveis, os motoristas a abrir as portas, as caras sorridentes e taciturnas, os assessores carregados de pastas e dossiers, todos apressados como se fossem para o trabalho.

Depois, o ambiente distendido no interior da sala de reuniões, os lugares devidamente assinalados, as inevitáveis garrafas de água mineral, sorrisos cúmplices entre ministros e secretários, saudações efusivas ou discretas, ajuntamentos vários, e cerram-se as portas. Reabrem-se e escutam-se quase sempre as declarações que se repetem de anteriores concílios, sempre a bem da unidade europeia e dos povos felizes que somos em termos aderido ao Tratado Europeu e a cornucópia de vantagens que daí vem, apesar de algumas pequenas questões que seguramente serão superadas no futuro e que não põem em causa a unidade europeia face algumas políticas pouco prudentes e à hostilidade de alguns mercados.

A fim de dar uma maior autenticidade à coisa, não seria melhor que essas reuniões fossem um pouco como a Oktoberfest ou a Tomada da Bastilha, amenizadas pela presença e a música do Quim Barreiros?

Numa cidade do interior norte do País, no seu centro histórico e numa das artérias com algum movimento, às quatro da manhã, um laborioso cidadão esmera-se em bater com um paralelo de granito no vidro de uma montra.

Apesar do barulho, tenta uma e outra vez, aguardando um intervalo de cerca de quinze minutos entre as pancadas.

Em vão, o vidro é mais resistente que a sua obstinada persistência.

Desanimado, abandona a pedra no local e afasta-se.

Mais um no desemprego…

Toneladas, milhares e um ror de gente …

Nessa mesma cidade, anuncia-se uma feira, à semelhança de outras em vilas e cidades próximas.
Passados uns dias, a feira é cancelada.

As toneladas e os milhares de produtos típicos a comerciar na feira, já foram vendidos antes da abertura!

 

 

 

No domingo passado, depois de almoço, fomos a pé, eu e o meu irmão, a Vila Verde da Raia, por um dos caminhos da Veiga e pelas margens do rio Tâmega. Depois regressamos a Chaves, do mesmo modo, agora pela estrada de Vila Verde a Outeiro Seco.

As extracções de areia deram um aspecto singular ao rio, havendo sítios de uma rara beleza e paisagem idílica.

Pena que os empreiteiros e outros … estejam a desfazer-se do entulho em vários locais do trajecto.

Doloroso foi regressar, também, o meu irmão a queixar-se do calcanhar - mazela antiga -, e eu duma bolha na planta do pé, a partir da Senhora da Azinheira.

Por pouco, não parecíamos dois estropiados, um amparado no outro, a caminho de Santiago.

 

Mário Esteves

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Quarta-feira, 4 de Janeiro de 2012

Palavras colhidas do vento... por Mário Esteves

 

Embora me tenha afastado um pouco da imprensa regional, de quando em vez lá respigo uma ou outra notícia de meu agrado ou de mágoa pelo que acontece no concelho ou num plano mais vasto, em Trás-os-Montes.


Li, ainda no ano que findou, que a Assembleia Municipal de Chaves tinha aprovado várias moções por unanimidade:


- A continuidade dos benefícios fiscais às empresas do interior do país em sede de IRC; à permanência do pólo em Chaves da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro; à isenção do pagamento de taxas de portagem na A-24, aos residentes e empresas do distrito de Vila Real, atendendo aos “indicadores sócio económicos” serem inferiores à média nacional e a falta de alternativas; à manutenção da comarca de Chaves, no âmbito da nova organização judiciária e “à consolidação e reforço das suas competências”; à criação da Unidade Local de Saúde (USL) do Alto Tâmega e à conservação da “urgência médico-cirúrgica”do Hospital de Chaves e à melhoria de qualidade dos serviços por ele prestados; à criação da Comunidade Intermunicipal (CIM) do Alto Tâmega.


Não importa de quem partiu a iniciativa ou apresentou a proposta, interessa serem questões cruciais para o concelho e que revertem para uma melhor qualidade de vida de seus habitantes.


Sei, que o resultado destas moções será prejudicado pela situação económico-financeira do país, e possivelmente como outras, não terão eco no governo. No entanto é um sinal positivo, que as secções locais dos partidos políticos estão a dar, ao aproximar-se dos anseios da população, sob pena de caírem no descrédito, cada vez mais progressivo e preocupante.


Impõe-se uma maior e efectiva influência dessas secções nos centros de decisão desses partidos. 


Em Chaves, a unidade perante interesses locais fulcrais e prementes já peca por tardia.


A não ser que estas deliberações sejam “sol de pouca dura”!


Como acontecia na minha meteórica passagem pela Assembleia Municipal de Chaves.


Na qual, os grupos parlamentares minoritários apresentavam propostas semelhantes àquelas que ora foram deliberadas, com o mesmos objectivos, e que a representação partidária maioritária reprovava, para minutos depois apresentar uma de idêntico teor que era aprovada com os votos dos correligionários.


O meu tio Alberto, pouco depois do 25 de Abril, foi eleito como membro da Junta de Freguesia de Chaves.


Após tomar posse, nas reuniões seguintes, as discussões partidárias assumiam tamanho relevo, que prejudicavam a actividade daquele órgão, pelo que, às tantas, esse meu tio farto das questiúnculas que se eternizavam e um pouco de acordo com a formação militar que recebera no Regimento de Cavalaria, designada ainda pelos “Dragões de Chaves”, a que pertenceu até à sua desmobilização, foi obrigado a intervir e irritado perguntou aos seus pares:


- “ Mas, afinal, não somos todos de Chaves?”


E como prosseguissem aquelas teimas partidárias, levantou-se e nunca mais lá pôs os pés!


E não se pense que esta falta de solidariedade apenas ocorre na política.

 

Umas das primeiras equipas, senão a primeira, do Clube Atlético Flaviense

Em cima da direita para a esquerda , o meu tio Alberto é o segundo ao lado do Zé Bandeira.

Em baixo no mesmo sentido, o quarto é o meu falecido pai, acompanhado do lado esq. pelo Flávio.

Direitos de Imagem Reservados.


Quando estava no Ginásio Clube de Chaves, a equipa de seniores de voleibol numa jornada da Taça de Portugal, defrontava o Leixões, então crónico campeão nacional, no pavilhão gimnodesportivo, logo após um jogo do Desportivo no Estádio Municipal.


Assisti à primeira parte e depois dirigi-me à cabine sonora do Estádio, que ficava na bancada central e pedi para anunciarem o jogo do Ginásio.


Perante a minha estupefacção, recusaram!


Também, na minha passagem pela Associação Desportiva Flaviense, apesar da colaboração na cedência de jovens jogadores para os escalões de formação do Desportivo, os conflitos eram permanentes.


A Associação era designada pejorativamente como o Bairro ou Bairro dos Índios, sendo estas as expressões mais suaves.


De tal modo que no Notícias de Chaves, um cronista desportivo chegou a acusar os jogadores seniores do Bairro Operário, do roubo das redes das balizas do Estádio Municipal, após um jogo nele disputado para a Taça da Associação de Futebol de Vila Real., e que motivou a uma resposta de repúdio no mesmo jornal, assinada pelo Solicitador Madureira, como gosta de ser chamado, que na realidade foi por mim escrita.


Recordo, que concluía, pedindo desculpa pelo facto de existirmos como Associação e pelo Bairro Operário situar-se em Chaves…


Na maior parte, esta falta de solidariedade ou unidade tem como causa, questões pessoais ou rivalidades nocivas aos interesses comuns dos flavienses e do concelho.

 

Manuel Esteves - Direitos de Imagem Reservados


O meu avô paterno, tendo saído dos Bombeiros Voluntários Flavienses, e não importa agora indicar os motivos dessa saída, pelo tempo decorrido e o respeito que me merecem os descendentes das pessoas que a motivaram, foi fundador da Associação dos Bombeiros de Salvação Pública, seu primeiro presidente e comandante do corpo de bombeiros.


Numa das tentativas para a fusão das duas associações, foi proposto que todo o corpo de bombeiros dos “de cima”* fosse integrado nos “de baixo”*, respeitando-se a graduação, à excepção do meu avó, que era excluído.

Apresentada aquela proposta à assembleia-geral dos Bombeiros de Salvação Pública, foi recusada por unanimidade não só pelos sócios como por todos os membros do corpo de bombeiros.


Frequentemente recorro a factos de familiares, que poderá ser excessivo, mas não o faço com intuitos de hagiografia.


E quem pensar o contrário repondo do mesmo modo que um ilustre flaviense, que, participando numa récita no desaparecido Teatro da Rua do Correio Velho, depois sede dos “Canários”, como se esquecesse duma deixa começou a titubear, provocando uma pateada geral.


Zangado, virou-se para o público e exclamou:


-“ Ora, metei o cu cá drento!”


Ou seja, por analogia, ousem meter-se neste humilde ofício de escrevinhador…


 

** Expressões populares usadas na identificação das duas associações.

 


 

Tomei conhecimento que a Direcção dos Bombeiros Voluntários Flavienses, pediu a demissão colectiva e estão com uma Comissão Administrativa. Faço sinceros votos para que regressem em pouco tempo à normalidade estatutária e superem as dificuldades que presentemente têm, que não devem ser muito diferentes às que quase todas as associações de bombeiros voluntários são confrontadas hoje em dia.

 

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Quarta-feira, 28 de Dezembro de 2011

Palavras colhidas do vento... por Mário Esteves

 

 

Sempre gostei de presépios.


Antes das férias de Natal, na Escola Primária de Vila Verde da Raia, no final das aulas, os trabalhos escolares de uma tarde, consistiam em levarmos um cesto e percorrermos soutos e pinhais para colhermos musgo e líquenes das árvores, umas pedras, materiais que depois usávamos para fazermos o presépio da escola.


Iam rapazes e raparigas e quando empinavam os carreiros, começávamos a andar para trás ou estacávamos, impostores, simulando fadiga, aguardando que elas passassem para a frente, na esperança de apreciarmos outras paisagens…


Algumas mordiam o isco, outras, manhosas, conhecedoras da marosca, acompanhavam-nos no fingido cansaço ou então sorriam, cúmplices, e desviavam-se à procura de azevinho ou então apontando para o meio dos arbustos, diziam:


- Olha merogos!


E os mais larpeiros precipitavam-se para o lugar que elas assinalavam com o dedo esticado e quando lá chegavam, nem merogueiros, quanto mais merogos!


E elas a rirem-se, os dentes da cor da geada, os lábios do fruto frustrado, a face rosada e o peito a arfar da gargalhada.


- Ah! Ah! Ah! Querias merogos …!


Recolhido o musgo, os rapazes, esquadrinhavam na aldeia, próximo das tabernas, maços de cigarros vazios, retirando-lhes a prata, que servia para fazer de rigueiro, e no lugar dos Pegões, nas margens do rio Tâmega, onde as mulheres lavavam a roupa, apanhavam areia fina, para desenhar os caminhos.

 

Presépio da Casa de Santa Marta - Chaves


As imagens do presépio, compradas a algum barraqueiro dos Santos, vindo de Barcelos, estavam guardadas nas arrumações da escola em caixas de madeira, onde antes bem resguardada estivera marmelada que se vendia às porções, na taberna do senhor Zezinho ou do Simão. Num dos lados, ainda se podia ler: Confeitaria Estrela.


E extasiados debruçávamo-nos uns nos outros para as ver sair pelas mãos dos professores.


E nem faltavam: o moleiro, as lavadeiras, o pescador, o fogueteiro, o matador das cebas, o ferreiro, o soldado, os músicos, sabe-se lá …; algumas, apesar das toscas feições lembravam pessoas de verdade e de tal forma, que, admirado, havia quem não se continha e exclamasse:


- Olha o tio Zé Ribeiro!


E outro:


- Aquele parece mesmo chapadinho ao tio João Bexigas!


Depois de montado o presépio, era tempo de o mirarmos de alto a baixo, até chegar ao último dia de classe.

 

Encerrada a escola, o presépio, por assim dizer, hibernava. Havia o da igreja, mas o nosso era melhor!


Passadas as férias, regressávamos à escola, e apesar de lá continuar o presépio, se uns olhavam para ele com satisfação, um que outro passava por ele de cabeça baixa; por certo teriam recebido do Menino Jesus algum troço de carvão!


Vieram outros dias e tive a oportunidade de ver e admirar outros presépios com mais engenho e arte, mas não posso deixar de dizer, que sempre me ficou o encanto daqueles que acompanharam a minha infância.


Conheci muitos, de escultores afamados, como Machado de Castro ou António Ferreira, ou a eles atribuídos, espalhados um pouco por todo o país, com uma execução que raia os limites da perfeição, não só pela beleza das imagens, como o enquadramento barroco e a preocupação esmerada no detalhe, pelo que, muitas vezes dá a sensação de ser uma obstinação haver quem continue a fazer presépios.


Não obstante, e é bom não esquecer, que apesar de tudo, a matéria mais usada na sua construção é a cortiça e predominantemente, o barro.

 

Fotografia de Mário Esteves - Presépio de Arturo Baltar


Mais para o presente e desde já me confesso admirador do escultor, Arturo Baltar, tive o privilégio de estar presente há dois ou três anos, numa das suas exposições, patrocinada pela Caixanova, realizada em Orense, onde a par de obras que retratam aspectos da realidade rural galega do século dezanove, também existiam outras que apresentavam diversas passagens do Advento.


Mais tarde tomei conhecimento que na Igreja de San Cosme e San Damián, no bairro do mesmo nome de Ourense, estava exposto um presépio da sua criação (na Galiza e em Espanha, conhecidos por Belén), desde 1982, e recentemente remodelado.


Se antes admirava o notável barrista, mais entusiasmado fiquei, não só pela obra em si, mas pelos aspectos característicos e semelhantes que se podem observar, serem comuns à Galiza e Trás-os-Montes.


E em Chaves perguntarão vocês?


Não há nada?


Há, sim senhor, um presépio na Casa de Santa Marta, feita há alguns anos pela Irmã Laurentina, com alma e devoção, outro tanto de dedicação e trabalho, que, conhecido por alguns eleitos (entre os quais este Blogue), apenas agora goza de justa fama e atenção de todos que o visitam e até dos jornais e televisão.


Mas que me perdoem, o presépio que mais admiro e perdoem a debilidade, é o de meu pai, feito há bastante tempo, ainda era um adolescente.

 

Imagem de Mário Esteves - Direitos reservados sobre a imagem


A então Associação Comercial de Chaves promoveu um concurso de montras de Natal e o meu pai decidiu fazer um presépio. Usou barro das cerâmicas para modelar o estábulo e o casario de Belém, que passaram pelo forno da padaria do senhor Bento Ferreira, em Vila Verde da Raia.


As palmeiras eram feitas de galhos de pinheiro e na extremidade superior, onde surgem uma espécie de alvéolos, colou penas de galinha, previamente pintadas de verde.


Já não me recordo se ganhou o primeiro ou o segundo prémio, mas uma coisa sei, nesse ano, as pessoas reuniam-se aos magotes para ver a montra.


E se naquele tempo por estes lados, ninguém conhecia o cultivo de bonsai, muitos se interrogaram como o meu pai tinha reduzido palmeiras ao tamanho do presépio, tal era a verosimilhança!

 

 Mário Esteves

 


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Quarta-feira, 21 de Dezembro de 2011

Palavras colhidas do vento... por Mário Esteves

 

Não sei se foi um sonho ou um pesadelo. Mas como todos os sonhos e pesadelos, neles há sempre um pouco de realidade.

 

Nos anos sessenta do século passado, vivia com os meus pais na parte da residência da Estação dos Correios de Vila Verde da Raia e dava os primeiros passos na Escola Primária, que alguns teimavam em chamar escola régia, alojada num edifício que antes fora posto da guarda fiscal.

 

Foi meu professor nesses primeiros anos o Professor Trino, precocemente falecido e do qual tenho gratas recordações.

 

Ao evocar esses tempos, apossam-se das minhas narinas o cheiro da tinta proveniente dos pequenos recipientes colocados em orifícios na parte superior das carteiras. Por baixo do tampo havia uma estante onde a maior parte dos alunos colocavam as pastas de serapilheira ou de algodão grosseiro de algum saco de farinha já sem uso, onde guardávamos os livros, os cadernos, a pena de aparo, o lápis roído na extremidade superior, uma borracha que mais parecia uma bolinha de miolo de pão e um mata-borrão que já tivera feição regular e agora se aproximava muito da forma de um continente ou de uma ilha, onde os relevos estavam devidamente assinalados por manchas de tinta.

 

À noite, quando fazia as obrigações, apesar da cor vermelha, via no meu, um pequeno céu, igual ao que transparecia das três telhas de vidro que existiam no tecto de um quarto da casa do caseiro da família de meu pai, para onde me escapulia assiduamente, pelo prazer de estar, sentar-me no escano ou num tosco escabelo ou mocho, junto à lareira e cear da travessa comum e principalmente dormir na mesma cama com os filhos do caseiro - um rapaz mais velho e uma rapariga da minha idade -, uns, do lado que se costuma dizer do travesseiro, e outra do lado oposto, cobertos por lençóis grossos de linho e rudes mantas de lã, que faziam cócegas na pele, como a aparente devassidão da presença de outro sexo no mesmo espaço.

 

Além do parco material escolar, havia também, como não, o recreio. O pião ou a piorra saltavam do bolso e rodopiavam no logradouro, mostrando a habilidade de uns e a ineptidão de outros.

 

Ou então, era a escacha pessegueiros: “Ò de saques…”! E lá saltava um cacho do pião a alguém, que, por certo não se ficaria, e na próxima seria ele a chispar estilhas no pião do adversário! 

 

Assim como uma velha e roída bola de cauchu, mercada a baixo preço e por subscrição no Baldomero de Feces, rolava, e mais que a agilidade na finta ou no toque, ou a pontaria no pontapé, a técnica era para os que calçavam botas, evitarem o embate dos socos predominantes.

 

Apesar da idade, já nos amestrávamos no jogo da choca, isto, no terreiro junto ao fontanário de “cima”, quem ao chegar a Vila Verde da Raia vira para a estrada de Curral de Vacas e por aí a cima.

 

Outros recintos eram os largos onde pontificavam outros fontanários: o do meio, onde antes se faziam os arraiais das festas do Senhor dos Milagres e da Senhora das Neves e o do fundo do povo, já à entrada da Veiga e onde num canto se ferravam as bestas.

 

A maior parte dos meus colegas, a única realidade que conheciam, era os limites da aldeia e da raia. Outros horizontes, só quando iam à inspecção ou assentavam praça.

 

Conta-se, que um deles, no exame da quarta classe, que era feito em Chaves, onde eu já por então me encontrava a estudar na Escola da Estação, sendo-lhe perguntado qual era a capital de Portugal, respondeu:

 

- “Feces de Abajo.”*

 

A realidade dos pais pouco mais era diferente dos filhos. A maioria apenas se deslocava à sede do concelho por necessidade ou então nos dias de feira. Ocupados na dura e pouco profícua lavoura e na arriscada actividade do trelo, as excepções eram as feiras anuais de Monforte, na vizinhança do castelo do mesmo nome, e a dos Santos, em Chaves.

 

Foi neste ambiente que comecei a conhecer os trilhos do contrabando e pouco mais tarde, do “salto”, que é o que interessa agora.

 

Muitas vezes, quando ia de manhã para a escola, bem me apercebia da presença fugidia duns desconhecidos, a rumarem em direcção à raia, percorrendo alguns metros da Estrada Nacional e arriscando a prisão, até se perderem por carreiros mais seguros, se nessa empresa, na altura, se pudesse falar em cautelas e segurança.

 

E noutras, à noite, não podia ignorar os vultos que se ocultavam atrás das árvores e dos muros dos Correios, a aguardar… Nas noites gélidas do Inverno, tal era o desespero, chegaram lá a pernoitar, enroscados nos capotes, com grãos de geada a brilharem sob o luar, de tal forma que o meu pai, condoído, chegou a alojá-los no interior, na parte destinada ao público.

 

Acabei por concluir a quarta classe em Chaves, com o Professor Ferreira, que a par de ser um excelente e respeitado professor, foi Delegado Escolar e mais tarde presidente da Assembleia Municipal.

 

Estava no primeiro ou segundo ano do Liceu, quando a professora de língua portuguesa, pediu a todos os alunos e alunas que leccionava, já não sei em que período, que fizessem uma redacção sobre um tema de livre escolha.

 

Resolvi pôr no papel as minhas memórias da emigração até então.

 

Numas férias de verão assistira na Costa da Caparica, na FNAT, num cinema ao ar livre, ao filme: La strada, de Federico Fellini. Participavam como actores: Anthony Quinn (Zampano) e a própria mulher do realizador, Giulietta Masina (Gelsomina) e Richard Basehart (Il Matto); este último desempenhou o papel de almirante Nelson, numa série televisiva, Voyage to the Bottom of the Sea, que passou na TVE, sob o título de Viaje al fondo del mar, que era seguido com entusiasmo aos sábados, ao fim da tarde, por quase todos os meus colegas de turma, tanto que chegámos a recrear por brincadeira as aventuras desta série, nas garagens do Delmar e do Mário Evangelista, também falecido prematuramente.

 

Embora o argumento do filme nada tenha a ver com a emigração, misturei as minhas reminiscências com a tristeza, isso sim, que me causaram aquelas imagens a preto e branco, principalmente a do final, que se não me engano, Zampano e Gelsomina ocupam toda a largura da tela, e focados de costas, começam a caminhar por uma estrada deserta até desaparecerem gradualmente da visão do espectador.

 

“Si non è vero è bem trovato.”

 

Tinha um pressentimento que o que escrevera era algo inédito e com merecimento.

 

E de facto a confirmação veio poucos dias depois, quando a professora elogiou o texto não só na minha turma, como o leu em todas, masculinas e femininas, o que me trouxe uma glória efémera, pelo menos entre as colegas.

 

Por isso não posso deixar de considerar um grande disparate e impróprias de um governante, as afirmações de Passos Coelho, em relação aos professores e à emigração, apesar dos contextos diferentes de hoje e ontem.

 

Emigrar não é uma solução, é um recurso, possivelmente dos derradeiros.

 

E se tal é admissível ouvir dum desempregado, seja ele jovem ou adulto, licenciado ou não, nunca, mas, mesmo nunca, deve ser escutado, da voz de um governante, pelo que isso significa de abandono, descrença, resignação, incapacidade, demissão das suas responsabilidades.

 

Sob pena de que lhe aconselhem também e com muita razão, a mesma receita:

 

- Emigre Senhor Primeiro-ministro!

 

Ainda para mais, quando há bem pouco, veio nos jornais que o governo suspendera a docência dos professores que trabalhavam junto às diversas comunidades de emigrantes portugueses espalhados por esse mundo fora.

 

 


 

* Povoação galega logo a seguir à fronteira de Vila Verde da Raia.

 

Como a próxima crónica será após o dia vinte e cinco, desejo a todos os leitores das Crónicas e visitantes do Blogue Chaves, um santo Natal.

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Quarta-feira, 7 de Dezembro de 2011

Palavras colhidas do vento... por Mário Esteves

 

Eu sei que me comprometi a ser pontual e assegurar o espaço de quarta-feira, mas as promessas se existem é para serem incumpridas, isto de acordo com alguns dos valores actualmente predominantes … que não são os meus.

 

Acontece que uma arreliadora e pertinaz constipação me tem prostrado num estado de abulia geral e não só foi a causa do incumprimento, como me impediu estar presente ao convívio de Vilarelho das Raia (XVI Encontro de Blogues e Fotógrafos LUMBUDUS), ainda para mais, na companhia de meu sobrinho, que demonstra uma certa tendência para as artes, como antes se dizia, nomeadamente para a pintura, e ultimamente a fotografia.

 

Como passei este tempo todo a arrastá-lo para esse encontro, temo que será difícil voltar a entusiasmá-lo para outros do mesmo género, tendo em conta, que, primeiro errei a data e depois fui obrigado a cancelar a minha presença e a dele, pelos motivos já adiantados.

 

Como ele é jovem, espero que continue a gostar de fotografia e possamos estar presentes no próximo.

 


 

Nos meus inícios de advocacia, em pleno estágio, e vão uns anitos, numa audiência, o juiz disse a uma testemunha bastante idosa, para responder às perguntas do advogado, indicando-lhe a minha pessoa, na altura com vinte e poucos anitos.

 

A testemunha, céptica, que, com a juventude que aparentava, pudesse ser advogado, olhou para mim e ainda dubitativo, disse:

 

- “ Ora, pergunte lá, menino …”

 

Desnecessário será descrever a reacção dos presentes e até eu, depois da perplexidade inicial, também achei graça e recomposto, prossegui com naturalidade.

 


 

No escrito que alinhavara há uma semana, destinado às Crónicas (…) e que não chegou a ver a luz do dia, em jeito de homenagem, falava do Padre Avelino Augusto da Silva, cujo falecimento tomei conhecimento pela sobrinha e acamado não pude estar presente ao funeral desse inesquecível amigo.

 

Ainda bem que não o publiquei, por que, como em tempos, após um artigo sobre a relação dele com Miguel Torga, publicado na “Voz de Trás-os-Montes”, que mereceu elogios de seu director, na semana seguinte recebi a notícia que o Padre Avelino sofrera um enfarte, e nesse transe escrevi outro para o mesmo semanário, que sabiamente não lhe concedeu honras de edição, pois, demasiado emotivo, resultava pouco logrado e a desmerecer do anterior.

 

O facto de aqui pretender modestamente preitear uma pessoa que conheci, não tem só a ver com a amizade de anos, que posso afirmar, existe desde a minha infância.

 

O Padre Avelino, tendo nascido em São Martinho de Anta, onde acabou por paroquiar até à sua resignação, não se ficou apenas pelo sacerdócio; multiplicou-se por outras actividades e cargos. Foi presidente do S. C. de Vila Real e da Associação de Futebol de Vila Real, para citar algumas das funções que desempenhou.

 

Também não são estes aspectos de sua vida que quero evocar ou a sua predisposição para ajudar os amigos, por quem chegava a passar por verdadeiros embaraços.

 

Numerosas pessoas lhe ficaram a dever favores e outras tantas, até o emprego e disso posso dar fé.

 

Mas, além da intenção que transparece destas linhas, a razão de trazer a figura do Padre Avelino a este lugar, é a sua relação com Chaves.

 

Desde que me conheço, que me habituei a ver o Padre Avelino como assíduo frequentador das Caldas de Chaves, onde criou uma sólida amizade com o Doutor Mário Carneiro, e com o tempo mais amigos granjeou.

 

Também chegou a ser um adepto fervoroso do Desportivo de Chaves e a deslocar-se ao Estádio Municipal, para assistir jogos, sempre que as suas obrigações lhe permitiam, principalmente, quando o Desportivo disputava a Primeira Divisão, e algumas vezes, a Segunda, apesar do seu amor primeiro: o Sport Club de Vila Real.

 

No entanto, tenho para mim, que o mais relevante e como flaviense a ele devo estar grato, ter sido o Padre Avelino, companheiro de caçarias e vizinho de Miguel Torga, em São Martinho de Anta - a casa e a quinta de um são paredes meias com a modesta casa doutro -, ter entusiasmado o celebrado escritor e a sua esposa Andrée Crabeé Rocha, a visitar repetidas vezes as termas flavienses e quem sabe, possivelmente também influenciado aquele autor a incluir na sua obra, e refiro-me aos Diários, algumas passagens sobre a cidade e outros lugares do concelho.

 

O Padre Avelino era afamado caçador e tinha justa admiração por uma cadela, de tal modo, que gostava de contar por pilhéria, que numa jornada de caça, encontrou por um desses carreiros do Douro, uma carroça carregada de giestas, puxada por um cavalo, e à frente um aldeão do lugar.

 

Descia ele a riba que dava para o caminho, e já neste, a cadela especou na direcção da carroça, dando sinais evidentes de caça próxima.

 

Olhou para todos os lados, mas nada vislumbrava, até que, num pressentimento dirigiu-se ao dono da carroça e falou-lhe:

 

- “ Porventura, o amigo, não leva aí entre as giestas uma lebre ou uma perdiz?”

 

- “ Quem me dera, Senhor!” - respondeu o aldeão.

 

E persistiu:

 

-“ Mas olhe que eu tenho plena confiança na minha cadela e ela nunca me deixou mal.”

 

O condutor da carroça, já exasperado:

 

-“ Sobrado ando eu de mantença para desdenhar de uma perdiz ou até uma rola!”

 

E o Padre Avelino a insistir:

 

-“ A cadela, em todos estes anos, nunca me falhou.”

 

Então o aldeão, coçou o queixo, depois tirou o velho e ensebado chapéu, passou uma das mãos pelo cabelo que começava a escassear, o rosto inquisitivo e numa expressão de incredulidade, quase imperceptível, murmurou:

 

- “ Não será por me chamar … perdigão?”

 


 

Sinais do tempo:

 

Nada há mais revoltante que alguém que deve o lugar que ocupa por compadrio político, esteja a tirar o emprego a quem a ele acedeu honestamente.

 

 Mário Esteves

 

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Quarta-feira, 23 de Novembro de 2011

Palavras colhidas do vento... por Mário Esteves

 

Eu não sei porque a segurança dos cidadãos e do património, são valores normalmente associados ao conservadorismo e de parecerem ser repudiados pelos progressistas.

 

Não quero situar historicamente a questão, nem fazer valer como factos indesmentíveis, categóricos, aqueles conceitos.

 

No entanto, não posso deixar de reconhecer que existem em determinadas circunstâncias, grupos avessos a qualquer evolução, seja ela qual for, por comodidade, por se sentirem melhor perante quadros sociais perfeitamente definidos, se tal é possível, e por crerem, definitivamente, que o presente com as sua imperfeições, sempre é melhor que uma actualidade em mutação, na qual o mais certo é verem a sua própria condição contestada, assim como os cimentos da sua própria existência ou do modelo da sociedade, na qual, grande parte viveram.

 

Para maior complexidade, a verdade é que, nem sempre as alterações sociais, implicam necessariamente a desordem, o banditismo ou outros fenómenos semelhantes.

 

E como esta não é a escrita, deliberadamente, usada nestas crónicas, nem o fim que nelas se prossegue é a análise social ou o folhetim, inteiramente legítimos, antes e por opção, notas esparsas, ligeiras e simultaneamente com alguma intenção de estimular a reflexão, com pretensões de bem-humoradas, nem sempre conseguidas e com raízes na naturalidade, direi e como comentário comum às reacções da crónica da semana passada, que, implantada a República, em 5 de Outubro de 1910, foi o povo aderente à revolução que se preocupou em defender a ordem pública, nomeadamente opondo-se de armas nas mãos às possíveis pilhagens de bancos e outras instituições.

 

Assim nem sempre o passado é melhor … é simplesmente passado.

 

E conhecendo muito bem o falecido Chefe Oliveira, que prestou serviço na PSP de Chaves, pessoa que estimei, assim como parte de sua família - que chegou a residir em frente de minha morada na então Rua da Cadeia, actualmente Bispo Idácio, designadamente uma filha que casou com o meu bom amigo Alcino, antigo jogador do Desportivo -, não posso deixar de referir que a sua actividade, embora com uma eficácia reconhecida, não gera a aprovação geral quanto aos processos, que, apesar de comuns à época, à luz dos dias de hoje, seriam no mínimo controversos.

 

 

É inegável que há muito existe um problema de ordem pública no chamado Centro Histórico de Chaves e pretender ocultá-lo, minimizá-lo ou como às vezes oiço, considerando-o como natural no presente e uma mera consequência da rebeldia juvenil, então … meus Senhores, estaremos a amamentar as crias que mais tarde nos vão devorar.

 

Por outro lado é certo que no centro histórico habitam cada vez menos cidadãos eleitores, mas também não deixa de ser verdade, que ainda é o coração da cidade.

 

E se ao pretender-se governar em função dos cadernos eleitorais é uma atitude pouco ética, mesmo criminosa, de profundo desrespeito pelas minorias, ignorar as pessoas que trabalham no centro histórico, no comércio ou nos serviços nele existentes e que constatam a insegurança dos moradores, é rematada estupidez, e a consequência mais lógica será estes começarem a pôr as barbas de molho, aqueles que as têm, pois não tardará muito a viverem a mesma preocupação e angústia.

 

Em França, a esposa de Luís XVI, Maria Antonieta, observando a insatisfação e a antipatia que a sua pessoa gerava nas classes menos abastadas, na sua incredulidade altaneira, interrogou um dos seus lacaios das razões daqueles sentimentos.

 

Consta-se que o humilde servo respondeu:

 

- É a falta de pão, Majestade.

 

Ao que a Rainha, surpreendida, objectou:

 

- Que comam “brioche”!

 

E como sabem, acabou no cadafalso.

 

A coisa não será para tanto e há aqui um evidente exagero, mas não como à primeira vista, possam pensar.

 

Que diria, após uma noite mal dormida pelo ruído exterior, os olhos ainda estremunhados, e visse os vidros da montra de seu comércio ou da porta de entrada de sua casa partidos, ou a frente da sua habitação ornamentada de “minis”, e se queixasse às autoridades, fossem elas as que fossem, e obtivesse como resposta:

 

-Vá para um condomínio fechado!

 

Claro, que se fosse um autarca, nas próximas eleições não votaria nele.

 

Pelo menos, não deveria, que ele há gente para tudo.

 

Apesar do aviso, que esta não era uma crónica “normal” cedi à tentação do momento e prossegui no mesmo. Paara acabar, só mais uma coisa.

 

Durante o mandato de Rudolph Giuliani, como “mayor” de Nova Iorque, foi muito comentada a sua política “de vidro partido”, tendo mesmo sido recebida com grande entusiasmo por parte dos meios liberais.

 

Essa política assentava no princípio, que não se prestando atenção a um vidro partido, tal iria incitar a que mais vidros fossem quebrados.

 

Sendo certo que a criminalidade baixou consideravelmente, aquela prática, sem deixar de ter algum sucesso como atrás disse, aparentemente foi abalada por um caso de corrupção que envolvia o chefe da polícia de Nova Iorque, familiar próximo do próprio Giuliani.

 

Actualmente é contestada por recentes trabalhos de sociólogos “avant garde”.

 

No entanto tenho para mim, que o pior é a indiferença, a condescendência, o “deixa andar…”, “atrás de mim quem vier, feche a porta”.

 

 

 

Já aqui falei da República e também no escrito da outra semana mencionei o Coronel Bento Roma.

 

Em família, e principalmente às minhas tias do Correio Velho, sempre lhes escutei que o Coronel Bento Esteves Roma, seria parente do meu avô paterno.

 

Ora, este era monárquico, e como não ignoram, Bento Roma, além de militar distinto, e com uma carreira ilustre no Corpo Expedicionário Português, na administração civil e militar, tanto em Portugal como nas antigas Colónias, até a um relativo obscurecimento, a que não seria estranho, em 1949, ter apoiado a candidatura do General Norton de Matos à Presidência da República e pertencido à sua Comissão Central, teve papel preponderante na contenção das incursões monárquicas.

 

Pelo quê, também não surpreende que o meu avô, um dia, dado a acentuada costela republicana de Bento Roma, chegasse a casa e exclamasse:

 

- Roma ardeu!

 

A minha avó:

 

- Ai! Credo! Que desgraça e houve muitos mortos e casas …

 

- Ó mulher, não foi a capital de Itália, foi o parente, a quem não mais volto a dar uma palavra!

 

Mário Esteves

 

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