Terça-feira, 30 de Abril de 2013

Pedra de Toque

 

Sem ti

 

Não percebo nem aceito o teu desaparecimento súbito.


Pareceu-me um milagre que em vez de benesse, carreou tristeza.


Interrogo-me, questiono-me mas não vislumbro explicação.


A tua tez pálida de branca, a tua boca contrastantemente rubra, o teu sorriso que se adivinhava radioso quando a abrias,


Continuam uma obsessão!...


A tua pele ficou e permanece colada aos meus dedos.


Não me canso da tua imagem embrulhada na música que tocas e que nunca ouvi.


Os teus sonhos permanecem agitados dentro de mim.


E quando a noite era desejada e a ansiedade indescritível já feria, chegou o eclipse sombrio.


Sem mais deixaste-me, após uma breve troca de mensagens, agarrado à saudade.


Não sei teu paradeiro.


Não sei se ficaste com alguma coisa dos nossos momentos.


Adorava desvendar os mistérios que povoam tua cabeça e o que estremece bem fundo no centro do teu peito.


Nunca deixei de te ver espelhada nas águas do meu rio.


Creio que também.


Sinto-te ainda quando lanço o meu olhar baço às montanhas distantes.


Gostava que me ouvisses na escuridão do quarto onde te espero.


Que sentisses o meu amor que sobrevive na ternura dos lençóis em que te envolves.

 

Eu vou-me quedando, triste,


Por vezes, momentaneamente feliz,


E dolorosamente, SEM TI!...

 

 

António Roque



publicado por Fer.Ribeiro às 03:51
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Terça-feira, 16 de Abril de 2013

Pedra de Toque

 


Os indiferentes


 

São os que passam incólumes, sorridentes e desinteressados ao lado da hecatombe, do desastre.


As notícias que revelam o aumento da miséria, a presença de crianças no Hospital de Santa Maria e noutros, levadas por elementos da escola e a quem são diagnosticadas fome, o crescente número de casais desempregados, as falências a aumentarem a ritmo crescente, as instituições de solidariedade social a não terem mãos a medir face aos carenciados e desempregados,


Todas estas novas e muito mais que anunciam o flagelo, não deveriam deixar indiferentes as pessoas minimamente atentas.

                       

Mas a indiferença acontece.

                       

O que me incomoda de sobre maneira.

                       

Ainda há quem se preocupe neste cenário de tragédia e drama com o supérfluo, com o luxo, com a moda.

                       

Ainda há quem viva do espavento, do exibicionismo constante.

                       

Outros permanecem obcecados com minudências, com colecionismos caros mas nunca se lhes é ouvida qualquer palavra para com os que sofrem, para com a indispensável justiça social que os desprotegidos necessitam com premência.

                       

Dói-me verificar como assistem impávidos ao cortejo da desgraça que corrói vidas, que provoca aflição e que motiva revolta que tantas vezes conduz ao suicídio.

                       

As amizades que vão acontecendo online nas redes sociais, quando são demonstrativas desse alheamento perante os valores supremos da solidariedade e da dignidade humanas, não podem ser senão para desfazer.

                       

Sem qualquer arrependimento é o que eu faço, cada vez mais, com um simples “clic”.


 

António Roque



publicado por Fer.Ribeiro às 09:00
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Terça-feira, 2 de Abril de 2013

Pedra de Toque

 

 

O Arrabalde

 

         É, desde há muito, o centro da minha cidade.

 

         Nasci perto e, por isso, conheço-lhe as esquinas, os recantos, as gentes.

 

         No Arrabalde, confluem a rua do Tabolado, a rua 25 de Abril, a rua do Olival, a rua das Longras e as ruas de Santo António e Direita, estas durante muitos anos das mais comerciais da cidade.

 

         Utilizo na toponímia mais a designação tradicional das vias, de que os nomes apostos nas placas indicativas.

 

         O povo conhece-as por aqueles nomes.

 

         Nas décadas de 50/70, o Arrabalde era muito movimentado e, consequentemente, ponto de encontro dos flavienses, nomeadamente dos que moravam mais longe e aqui se deslocavam para se socorrerem dos serviços públicos (notários, conservatórias, tribunal) ou para fazerem compras nos estabelecimentos comerciais.

 

         As principais e mais antigas lojas da cidade situavam-se nesta praça.

 

         Tenho ainda vivo o retrato delas e dos seus donos.

 

         Os Silva Mocho, que faziam esquina, dominavam o negócio de mercearia, louças e derivados. Era a grande loja do ramo na cidade, comercializando ainda a granel produtos agrícolas. Os filhos comandavam o balcão onde com ajuda de empregados competentes (uma saudação especial para o senhor Manuel Ventura) atendiam muita freguesia.

 

         Logo ao lado, a Casa Prego, propriedade do Sr. David Ferreira e do Sr. Prego, este que fora emigrante no Brasil. A minha memória diz-me que aí também se vendiam produtos alimentares (mercearia).

 



         Ao lado em direcção à Rua do Olival, a Sr.ª Berta que vendia “farrapos” como então se dizia das indispensáveis roupas. Mulher pesada, sentada à porta do seu posto de vendas, mãe do Gilberto, meu amigo mais velho que morreu cedo.

         A leitaria do Sr. António também era muito frequentada. O pequeno Sr. António era um adepto fervoroso do Desportivo, que na bancada cabeceava a pontapeava ao ritmo dos nossos atletas.

 

         Colada a esta, a Cesarina, que vendia frutas, legumes, fumeiro e outras iguarias.

 

         Mulher do povo, afável, brejeira, era de resposta fácil e conhecia ricos e pobres que atendia, igualmente, com simpatia e boa disposição.

 

         As novidades da terra contavam-se e comentavam-se, quase em primeira mão, na muito frequentada loja da Cesarina.

 

         A Nair, sua irmã, felizmente ainda entre nós, vendia também “farrapos” num baixo ao lado.

 

         A seguir estava o Sr. Manuel com a sua esposa Barbara (o Manel da Barbara), que concorriam com a Cesarina na venda dos mesmos produtos mas sem o mesmo sucesso.

 

         Na rua que dá acesso às Longras, o Sr. Garcia de Oliveira, conhecido por Rouquinho, com móveis, o Sr. Manuel Santos Costa, conhecido por Manuel da Casaquinha, com fazendas, a moradia e o consultório do Dr. Jaime, distinto médico escolar e o Curião, que lembro de manguitos, de bata comprida cinzenta, a tirar do saco e a pesar o feijão e outras leguminosas.

 

         Quase em frente ao tribunal, a loja dos Sr.s Machados, muito visitada por rurais, que ai compravam fazendas e confeções.

 

         Ao lado, a casa dos Montezinhos, onde eu adquiria lousas, ponteiros e cadernos para levar para a escola primária.

 

         Conhecidíssimos no burgo, nomeadamente por serem pessoas muitíssimo poupadas, o que motivou que se alcunhassem, como sendo iguais aos Montezinhos, os que muito amealhavam e não gastavam.

 

         Três edifícios imponentes e sobranceiros dominavam o largo: o Banco Ultramarino, o Banco Pinto e Sotto Mayor e o Palácio da Justiça.

 



         Muito perto do segundo, ficava a Casa de Saúde do Dr. Alcino, médico brilhante, que sarou e cuidou de muita gente, Casa de Saúde essa instalada num bonito prédio ainda hoje muito admirado por quem nos visita.

         Por baixo, a oficina do Sr. Abel sapateiro, um bom profissional, clarinetista exímio na banda dos Pardais.

 

         Era um homem educado, asseado, popular e gentil.

 

         Paredes meias, a tasca do Barral, o espanhol que por aqui se fixou e que confecionava bons petiscos.

 

         Na esquina com a Rua Direita, o estabelecimento de fazendas do Sr. António Joaquim dos Santos que, segundo me contam, não deixou por cá descendência.

 

         A barbearia da praça era propriedade do Tótó Pinga e aí, para além da barba e cabelo, cortava-se na casaca e discutia-se futebol e outras minudências.

 

         O Sr. Artur Freire, homem inteligente e bonacheirão, pai de dois bons amigos, era dono da loja de mercearia e derivados instalada onde se encontra actualmente a Electro Flavia.

 



         Não quero deixar de referir ao finalizar esta fotografia do velho Arrabalde, o Quiosque Central, onde ainda conheci o seu fundador, o Sr. Morais, e que foi continuado até ao presente pelo seu neto, o sempre jovem Zeca Morais, agora acolitado pelo seu filho Helder, todos gente simples, gente boa, estimada e respeitada.

 

         Aliás naqueles tempos severos e difíceis, onde as pessoas, mesmo com meios de fortuna distintos, todas elas se conheciam e cultivavam a conversa, a laracha, mas a vida ia correndo na cidade maneirinha.

 

         Salvo excepções (raras) os homens e as mulheres eram simples e populares e deles nasceram figuras que ficaram perenes nas estórias da nossa terra, a linda cidade de Chaves.

 

         O Arrabalde continua uma bela praça circundada por edifícios de arquitetura apreciada, que merece, por isto e por tudo o que foi dito, este destaque.

 

         Contudo, em termos de movimento já não é o que era, apesar de, por aqui, ainda desaguarem, em especial nos dias de feira, muitos cidadãos do burgo e das aldeias vizinhas.

 

         Actualmente existem vários centros na cidade.

         Mas a “geografia” do Arrabalde ainda se lá mantem.

 

         Só que os aqui estabelecidos (já pouquíssimos aqui habitam), e os que por vezes aqui descem,

 

         Já não cantam a Marcha de Chaves, com a mesma alma e fervor com que cantavam os que por aqui moravam e trabalhavam nos anos cinquenta a setenta

 

 

António Roque

 

 

 

publicado por Fer.Ribeiro às 02:10
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Terça-feira, 19 de Março de 2013

Pedra de Toque

 


O barulho do silêncio


 

Bloqueei.

Eu bem perscruto os silêncios.

Eu bem tento desvendar os horizontes.

Eu não paro de me extasiar com a beleza que me surpreende.

Mas nem nada, nem coisa nenhuma me move.

Fico parado, inerte, à espera, quiçá de Godot…

Se a minha mãe cá estivesse, teria a certeza do colo que, com permanência preciso.

Mas apesar de não ter partido, já foi.

A felicidade espreita das tuas mãos decepadas e da tua boca roxa que aparecem em sonhos.




Não entendo este desassossego, esta angústia permanente.

O azul do mar revolto com a espuma das águas a beijar cintilante a areia da praia é tão importante como o paladar intenso do café do bairro.

As ruas são o passadiço para saborear a alma.

As pessoas sorridentes e as outras de semblante carregado, lá seguem, lá deambulam para as suas vidas difíceis.

Paro na secretária.

A brancura do papel convida-me, excita-me.

A noite chega.

Pacifica-me porque é terna.

E eu vou soltando palavras ao mesmo tempo que escuto melodias,

Por dentre o barulho do silêncio.

 

António Roque



publicado por Fer.Ribeiro às 08:00
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Terça-feira, 5 de Fevereiro de 2013

Pedra de Toque

 

Não sou capaz…


 

Não sou capaz de te esquecer.


Nem sequer me deste tempo de te descobrir.


Mas ficaste.


Os contornos do teu corpo ainda os sinto nas minhas mãos vazias.


A seda da tua pele colou-se à ponta dos meus dedos.


A tua saliva fez vincadamente parte dos meus sabores.


Os teus olhos abertos, penetrantes, devassaram-me quando me fixaram e me olharam no instante em que o carro parou na penumbra da noite.


Estremecendo aproximei meus lábios dos teus enquanto as pálpebras cerravam nas nossas faces ansiosas.


As bocas abriram-se levemente e foi então que com um dedo trémulo afagaste o meu rosto, percorrendo-o.


Despedimo-nos e eu segui com a música que tocaste no teu piano.


Mais tarde quando te quis reaver, sem razão, tinhas evitado a felicidade.


Muitas noites deixaram de ser escuras porque as passei em claro procurando-te no silencio das madrugadas redentoras.


Como amanhã é meu dia especial pode ser que surjas por dentre o nevoeiro radiosa na tua elegância e beleza a poisar com doçura teu olhar sobre o meu.


Faz isso por favor, por bondade.


É que eu, não sou capaz de te esquecer.


 

António Roque



publicado por Fer.Ribeiro às 02:47
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Terça-feira, 22 de Janeiro de 2013

Pedra de Toque

 

PEDRA DE TOQUE

 

O ENCONTRO


 

Encontrei-a, por acaso.


Falamos pouco sobre muitas coisas que tínhamos para dizer.


Achei-a gasta, triste mesmo no sorriso.


Mas sempre sensível, brilhante, inteligente.


Depois… Depois pensei nela, a minha amiga que tinha doçura nos sonhos e no ainda muito que poderia dar na construção sobre as pedras velhas da cidade com o sentido das gentes.


Magoa-me saber das pessoas lúcidas que permanecem recolhidas, balizando-se na rotina do quotidiano.


Com condenável impunidade, muitas foram vítimas dos males da vida.


Sem o merecerem, quedaram-se doridas, imbuídas da fraqueza legítima.


 Tantas vezes madrasta a vida tolhe as que são ricas por dentro, impossibilitando-as do nobre gosto de compartilharem.


Ah, se eu fosse capaz de as carrear de novo para o fascínio da luta que só finda (findará) no cais imenso, fraterno e solidário…


Ah, se eu por encanto inventasse o elixir, o tónico para minorar as agonias que roem no peito e nos coíbem a alma e os gestos…

 

Revi-a, por acaso, diante de um livro.

A testemunha ideal para solenizar o encontro.

Porque o som das palavras também tem melodia.

 

António Roque



publicado por Fer.Ribeiro às 03:10
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Terça-feira, 8 de Janeiro de 2013

Pedra de Toque

 


CHOVE

 

Chove tanto.


Chove persistentemente.


A chuva incomoda, humidifica, trespassa, chega aos ossos (parece…) e dói.


Os dias tornam-se núbios, cinzentos, tristes.


Tenho no entanto, que agradecer à chuva, o fascínio que me assolou quando A vi toda molhada, após uma bátega inesperada que caiu naquela tarde de um estio acalorado.


O seu cabelo curto e negro ficou belamente despenteado e o seu vestido simples totalmente colado ao corpo, moldando as formas, era prazer para os sentidos.


Quando a vi na praça com seu rosto lívido, enfeitado pela sua boca tingida de sangue vivo, fotografei-a, com os olhos enfeitiçados e prendia para sempre na retina da saudade.


Apeteceu-me impulsivamente correr para ela, enlaçá-la e como na Serenata à Chuva (um filme de vida), dançar chapinhando, sapateado nas poças do largo, junto ao candeeiro da rua.


Ela sorriu ao meu espanto.


Mais tarde conheci-A.


E quando toquei seu rosto e saboreei o sangue dos seus lábios acariciei-lhe as ancas, abracei seu corpo e cerrei os olhos arrebatado.


Fiquei cativo.


Agora quando ela me invade, quase sempre quando durmo e desdurmo, percorrendo o meu corpo inteirinho eu em silêncio rezo, agradecendo à chuva abençoada, o momento raro de beleza e sensualidade que me permitiu.


Chove.


Chove tanto…


 

António Roque



publicado por Fer.Ribeiro às 01:37
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Terça-feira, 11 de Dezembro de 2012

Pedra de Toque

 

Milagre dos milagres

 

Quando o Outono chega atapetando os jardins com folhas amarelas, os dias escurecem, eu fragilizo-me e escureço também.


O sobrolho frange, a tristeza instala-se e eu zango-me com a vida.


Quem me vale é ELA.


Ainda ontem quando me preparava para repousar, vi estampado no espelho da casa de banho o reflexo do desassossego, da depressão que ronda.


Descobri então que as poucas rugas do muito sentir, vincavam em demasia a minha face.


Sofrido, fui para a cama acarinhando um livro que li para amaciar o sono.


Não tardou muito que escutei os teus passos levíssimos, que ouvi com a mesma nitidez com que na minha infância escutei os do Menino Jesus, na véspera de Natal, a caminho da lareira para deixar a prenda.


 Vi então o teu olhar sereno que conheci no automóvel que conduzias, a evidenciar-se no teu rosto muito claro.


Pedi-lhe proteção para os pesadelos da noite, que na escuridão tanto me doem.


Tu esboçaste aquele sorriso que se entranha e pasmei-me na fragância do teu corpo, que docemente debruçaste sobre mim.


Com tua boca sedenta e húmida, deslizaste lentamente por todos os recantos do meu rosto, que pincelaste, qual Frida Kahlo do meu deslumbramento, com a tua língua aveludada e quente.


Trememos e com as nossas mãos afagamos a macieza da pele, ternura em que nos envolvemos até à loucura do espasmo total, até à vertigem do êxtase.


Aconchegados e inebriados, adormecemos de prazer no abraço estreito e envolvente.


Pela manhã, com o sol a penetrar a frincha da janela, acordei mas como sempre já não estavas.


Quando me procurei no espelho, milagre dos milagres, a lisura da minha pele retornada e as rugas de sentir e de sofrer, tinham-se diluído na felicidade.


Bem hajas, meu amor!...

 

António Roque


publicado por Fer.Ribeiro às 03:39
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Terça-feira, 27 de Novembro de 2012

Pedra de Toque

 

 

Fraco é o homem…

 

Desapareceste, subitamente.


Deixaste-me, sem mais.


Foram as sardas num rosto tisnado de uma adolescente com quem me cruzei, que me lembraram a tua fuga, a nossa estória.


Na altura, e já lá vão muitos anos, abateu-se sobre mim uma tristeza profunda.


O dia escureceu. A lua minguou.


Fiquei doente e só com ajuda, saí lentamente da turbação em que caíra.


Julgo que foste a primeira mulher de quem gostei.


A primeira que mereceu  minha paixão.


Os teus olhos muito abertos que adivinhavam os meus pensamentos e segredos, a lisura da tua pele em todos os recantos e a tua boca, sobretudo o sumo que nela bebia, a minha seiva.


Com a tua inesperada partida provocaram doloroso abatimento de que ainda hoje momentaneamente sofro, sempre que me apareces à tona no rio da minha memória.


Um bom amigo, sabedor desse amor apodou-me de fraco pelo desassossego sofrido em que me afundara.



Esbocei um sorriso de lástima e para dentro de mim gritei.


Fraco é o homem que não ama.


Soube, bastante mais tarde, que grave doença te levara para sempre.


Nesse dia em silêncio rumei ao jardim onde nos abraçamos, onde trocamos beijos infindos, onde por milagre o amor aconteceu e aí, com a sua respiração funda nos meus ouvidos a percorrer-me o corpo todo, deixei flores brancas que levei e apesar de não saber rezar, inventei uma oração onde te perdoei todo o mal e pedi aos deuses religiosamente para te proporcionarem paz e serenidade.


As únicas testemunhas deste gesto solitário foram os frondosos amieiros que choravam sobre o Tâmega.


No regresso em surdina repeti vezes sem conta.

 

Fraco é o homem que não ama!…


 

António Roque



publicado por Fer.Ribeiro às 01:37
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Terça-feira, 14 de Agosto de 2012

Pedra de Toque - Alguns

 

Alguns

 

O melhor do mundo são as crianças, dizia o poeta.


Atrevidamente, mas com alguma legitimidade, vou ser um pouco mais abrangente e dizer-vos que para mim o melhor do mundo são as pessoas.


Contudo, dentre estas, existem algumas perfeitamente insuportáveis.


Não consigo entender por exemplo, a inveja desmedida que alguns bolsam tornando-se arrogantes e forçosamente estúpidos.


Já Zenha, um príncipe da politica, tecendo encómios aos portugueses, dizia que o maior defeito que afetava muitos dos nossos compatriotas era uma inveja desmedida e tola.


Normalmente estes espécimes são tipos vaidosos, incapazes do esforço que lhes permita subir ao lugar onde não estão e gostariam de estar.


Tornam-se depois maus, intratáveis, deixando de merecer a estima e a amizade daqueles que com eles são forçados a conviver.


Conheço um ou outro, que mesmo os colegas de trabalho adorariam ver pelas costas.


Às vezes acordam, e modificam-se.


Percebem que o valor dos outros é respeitável, que os proventos e os bens do vizinho não têm que os incomodar.


Por isso, limam-se, emendam-se, tornam-se sociáveis, deixam de se perturbar com o que os outros têm e procuram com o trabalho com dignidade e cordialidade, a sua valorização.


Outros não. Odeiam até ao fim o sucesso do vizinho. Espumam para dentro quando descobrem que o parceiro tem mais bens ou dinheiro, subiu mais degraus na escada da vida.


Envelhecem com a invidia a corroer-lhes as qualidades inerentes a qualquer ser humano, murchando-as quando elas afloram.


Apesar de me incomodarem e de me nausearem quando com eles cruzo, o que às vezes acontece,

Peço aos deuses de todas as religiões que os iluminem e lhes deem lucidez.

 

António Roque



publicado por Fer.Ribeiro às 02:28
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Terça-feira, 7 de Agosto de 2012

Pedra de Toque - Festas e Romarias


FESTAS E ROMARIAS


 

O Verão é tempo de festas e romarias.


***


O povo acorre e entusiasma-se.


Engalanam-se as ruas.


Adornam-se os andores.


A procissão passa solene e respeitosa enquanto os sinos repicam.


Cumprem-se promessas em joelhos que sangram nas voltas à capela ou em divisas que esvoaçam no cetim dos andores.



Depois é o almoço, o farto e longo almoço, preparado com esmero de véspera, onde se saboreia o bom cabrito ou o cordeiro regado pelo melhor vinho.


Reúne-se a família. As portas escancaram-se para os amigos.


***


A banda saúda na arruada a população, seguida por putos eufóricos e atentos entendidos.


Os foguetes que abriram os festejos ouvem-se repetidamente com admiração e orgulho.


Chega a noite. O arraial.


Os coretos iluminam-se.


Vem o despique das bandas com suas modas, com suas marchas.


Dançam velhos e novos.


Aqueles recordam sonhos do passado, estes recriam sonhos do presente.


A mesa sempre recheada permanece para as curtas pausas do bailarico.


A alegria é uma constante nos corações.


O fogo de artifício pasma os circunstantes. A música pára enquanto olhos se fixam nas lágrimas coloridas que por magia se diluem no horizonte.


Recomeça o baile.


A animação transborda.


Até que o cansaço e os primeiros clarões da aurora anunciam o fim da farra.



No dia seguinte haverá trabalho.


Mas para o ano haverá festa.


 

António Roque



 

publicado por Fer.Ribeiro às 03:17
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Terça-feira, 31 de Julho de 2012

Pedra de Toque - Dr. João Morais

 

DR. JOÃO MORAIS

 

 

Médico distinto, exerceu a sua actividade durante dezenas de anos na nossa cidade.

 

Pereceu já em 1991.

 

Nesse ano ou no seguinte, em reunião da Câmara Municipal, foi proposta e aprovada por unanimidade uma moção para atribuição do nome de uma rua ao saudoso médico.

 

Julgo que há cerca de três semanas, foi colocada uma placa com o seu nome na via que liga as termas até às imediações da discoteca Platz.

 

Foi, no nosso entendimento, acertada a escolha até porque era o trajecto que ele percorreu durante muitos anos, sobretudo no período termal, da sua residência, na Rua do Tabolado, para o balneário da Caldas, onde deu consultas imenso tempo.

 

Esta homenagem, agora concretizada, é um tributo justíssimo a um flaviense que trabalhou incessantemente para minorar o sofrimento de muita gente da cidade e do concelho.



Muito procurado para sarar e tratar doenças pulmonares, curou muitas tisicas ajudando com reconhecida competência e generosidade gente pobre, gente modesta.

 

Homem consensual, mesmo dentro da sua classe, estimado e respeitado por todos, era reconhecidamente uma pessoa boa, um homem de grande coração.

 

Foi marido dedicado e pai extremoso.

 

Depois de Coimbra, onde se licenciou na Faculdade de Medicina, vivendo alguns anos na Estrela do Norte, república de trasmontanos, onde teve, entre outros, como companheiro Adolfo Rocha, o consagrado Miguel Torga, de quem era amigo, regressou a Chaves, a sua cidade, e aqui se fixou até ou seu decesso.

 

Conversador nato, sabia muito da sua terra, tendo eu tido com ele o privilégio de aprender o pouco que sei sobre Chaves dos anos 40/50.

 

Tem, agora e finalmente, perpetuado o seu nome na cidade que tanto amou.

 

Chaves e os imensos amigos com quem conviveu, lembram-no com enorme saudade.

 

Paz à sua alma.

 

António Roque

publicado por Fer.Ribeiro às 03:29
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Terça-feira, 24 de Julho de 2012

Pedra de Toque - Figuras

 

FIGURAS

 

                  

Em tempos, aquando de uma Feira do Livro, pediram-me para dissertar sobre Figuras de Chaves.

 

Tema vasto e fascinante que me mereceu logo entusiasmo.

 

Contudo, alertei os amigos convidantes, que a sessão teria de ser limitada, restrita, dada a impossibilidade de, quando muito num par de horas, abordar de forma plena, abrangente, inúmeras figuras que deixaram estórias ou fizeram história nesta velha urbe.

 

Foi muito bom constatar a presença daqueles que estão sempre, que não deixam de aparecer quando Chaves é o pomo das conversas.

 

E lá surgiram os bons amigos que não resistem sempre que a cidade apela, porque lhe calcorrearam as ruas e vielas, porque a respiraram em noites frias de neblina, em fins de tarde de estios saudosos.

 

Na tela desta cidade, onde a vista se perde nos montes que a cercam, no verde da veiga, demos umas pinceladas breves, lembrando gentes que semearam bondade, humor, generosidade, graça, pitoresco, que só a lembrança de alguns vai retendo.

 

O diálogo nasceu depois, simpático, afável, e todos viajamos gostosamente pelas estradas da memória, parando no primeiro apeadeiro dado o adiantado da hora.

 

Ficou a promessa de em breve reatarmos a marcha.

 

Chaves é caldo de cultura para saborearmos contos, ditos, estórias, feitos de muitos homens e mulheres que amaram a cidade.

 

Em muitas conversas.

 

Em alguns textos, mormente aqui neste blog.

 

Quiçá, em breve, em livro.

 

António Roque

 

 

 

publicado por Fer.Ribeiro às 03:02
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Terça-feira, 17 de Julho de 2012

Pedra de Toque - As Novelas

 


AS NOVELAS


Fala-se delas muitas vezes em tom depreciativo.


Dizem alguns que são vistas ou lidas só por fúteis, só por ignorantes.


Para esses, as novelas que as televisões exibem e conquistam audiências (os parolos…), são todas de fraca qualidade e mal representadas.


Vê-las é perder tempo e deixar de aprender com acalorados debates, boas séries ou interessantes documentários.


No nosso entendimento, generalizar, in casu, é um autêntico disparate.


Vamos por partes.


Consagrados escritores portugueses e não só, escreveram ótimas novelas.


Outros deram o seu contributo para adaptação ao género de notáveis obras literárias contribuindo para a produção e realização. Estou-me a lembrar dos nossos irmãos do outro lado do Atlântico, de novelas extraordinárias apreciadíssimas em todo o mundo.


À guisa de exemplo, menciono a Gabriela, a Tieta do Agreste, o Bem Amado, o Astro (agora em nova versão), podendo elencar ainda muitas outras.


Reconheço que algumas portuguesas que têm passado na TVI e que por vezes “espreito” não me agradam e por isso não as sigo.


Estórias similares e repetitivas, servidas por diálogos fracos e sem conteúdo, mal interpretadas por atores (alguns bons) que certamente dispõem de pouco tempo para o estudo das personagens e por outros (as) que não têm nada mais que um palmo de cara e um corpo vistoso.


Admito melhorias técnicas e lamento não ter visto a novela premiada por falta de oportunidade.


A SIC agora apoiada na enorme experiência da Globo, tem melhorado a qualidade das que produz, o que merece aplauso.


Vale contudo a pena apreciar as novelas brasileiras produzidas pela dita Globo.


Se é certo que chegam algumas demasiado açucaradas que não devem merecer a atenção do público mais exigente, outras passam superiormente realizadas e interpretadas cujos enredos espelham com nitidez, inteligência e por vezes até com poesia, a sociedade brasileira com os seus dramas e problemas, muitos deles transversais porque preocupam a humanidade nos tempos que correm.


Escrevo esta crónica porque me tenho deliciado assistindo à novela que a SIC transmite a desoras e que tem por título “Insensato Coração”.


Muito bem dirigida e realizada, sempre com ritmo apreciável, a trama é-nos contada por um elenco de estupendos atores e atrizes que nos colam ao televisor.


Dentre eles permito-me destacar três incontornáveis figuras do teatro, cinema e televisão do Brasil porque nos brindam com interpretações geniais, fabulosas.


Refiro-me aos consagrados António Fagundes, Glória Pires e porque não Natália do Vale.


Amante desde sempre da arte de representar, também não me é indiferente o trabalho do restante elenco que, sem quebras, consegue manter um nível superior.


Dentro em breve, estreia o remake da Gabriela, inspirada na obra do grande Jorge Amado que, segundo notícias, está a obter enorme êxito nas terras de Cabral.


Não perderei, porque li e reli o romance e porque apreciei imenso a primeira versão que nos anos 70/80 conseguiu estrondoso sucesso no nosso país.


 

Termino pedindo aos que me leem que vejam primeiro as novelas que as televisões transmitem e que só depois critiquem e digam de sua justiça.

 

António Roque

 

 

publicado por Fer.Ribeiro às 03:30
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Terça-feira, 10 de Julho de 2012

Pedra de Toque - A Cidade Invicta

 

 

A cidade Invicta

 

E sempre leal. O Porto. A capital do Norte, pelo Douro beijada.


Gosto do Porto.


Comecei a gostar da cidade quando a saboreei da Serra do Pilar, onde fiz tropa e depois quando calcorreei a Constituição e ruas limítrofes, território onde minha irmã e família “acamparam”.


Depois as Antas e a zona circundante onde a minha ex-mulher e os meus estimados sogros viveram muitos anos.


Mais tarde, com amigos, curti a Ribeira a despontar com os seus simpáticos bares onde se discutia irreverentemente a política, a literatura e as artes.

 


Durante muito tempo visitei frequentemente os tribunais, as seguradoras e escritórios de colegas queridos nas ruas e praças da cidade antiga.


Não vou elencar os belos monumentos do Porto como, entre tantos outros, os Clérigos, o Palácio da Bolsa e, porque não, a recente Casa da Música, obra grandiosa e emblemática.


Claro que aprecio o deslumbrante Magestic, o citadino Guarany, a premiada livraria Lello ou o académico café Piolho que foi palco para mim de um episódio trágico-cómico que vivi nos anos sessenta.


Banqueteei-me algumas vezes na grande Abadia, na típica Mamuda ou no castiço Aleixo para as bandas de Campanhã.


É um deleite ler a história e as histórias da cidade desde tempos imemoriais até aos nossos dias nos textos brilhantes, lúcidos e competentes de Germano da Silva, Hélder Pacheco e Manuel António Pina, este sempre poeta, também contundente perante as injustiças que têm afetado o norte, mormente o grande Porto.

 


Distingo as suas gentes, o seu povo, a sua pronúncia com os seus ditos, as vendedeiras do Bulhão ou as peixeiras da Ribeira, bem como o bulício da belíssima Avenida da Liberdade e da comercial Santa Catarina.


Gosto do velho casario que se estende até ao mar.


Também me enleva o cheiro característico das ruelas e calçadas, as pedras sujas e gastas com o seu ar grave e sério, da cantaria que nos esconde o mistério dessa luz própria, bela e sombria, parafraseando, com a devida vénia, Carlos Tê e lembrando Rui Veloso.


Gostos dos flavienses que adoram o Porto mas não esquecem a cidade Natal. Mas também de todos os tripeiros que adotaram esta terra de Flávio como sua segunda “pátria”, aqui voltando com regozijo e saudade.

Dentre estes destaco Altino Santos Cunha, por acaso meu cunhado muito amigo, portuense de gema apaixonado, mas que ama Chaves, quasi, tanto quanto eu.


 

Quando regresso à cidade que me viu nascer após longa viagem, fico feliz, prazer idêntico àquele que sinto quando visito o Porto, depois de algum tempo ausente.


Porto! Porto! Porto!


António Roque

 

 

publicado por Fer.Ribeiro às 01:04
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