Sábado, 29 de Julho de 2017

Pedra de Toque

pedra de toque copy.jpg

 

Dina, princesa negra

 

                        As mulheres tratavam das pequenas leiras, com os filhos no dorso baloiçando.

                        Envolviam-se em panos do Congo próximo, garridos, de belos desenhos, que as embelezavam.

                        Na zona não eram demasiado negras, antes tinham uma tez que lembrava as mulheres de Cabo Verde.

                        Na lavra trabalhavam duramente.

                        No meio do capim conseguiam parir sozinhas.

                    Bebiam, dançavam frenéticas ao som do batuque e aquando de um óbito deixavam moeda aos familiares do falecido e faziam farra para minorarem a saudade e a dor do ente querido que partia.

                        Um adolescente de 12/13 anos que me acompanhava sempre que podia e a quem eu ajudava, que era tratado pelos meus camaradas de armas por buta Costa (o pequeno Costa), porque o grande era eu, disse-me um dia que a Dina gostava de me conhecer.

                        A Dina era falada pelo pessoal da “guerra”, não só pelos seus 16/17 anos mas também pela sua beleza negra com sua boca sensual plantada no rosto perfeito.

                        Vivia na sanzala, mas fora educada pelos padres da missão. Sabia estar, contar e escrever pelo seu nome falando, para além do seu dialeto, um português escorreito com um sotaque “bonito mesmo”.

                        Aos que a catrapiscavam, educadamente brindava-os com um sorriso furtivo.

                        Dos outros, ela, ladina, fugia para a missão ou para a proteção paterna.

                        A Dina para mim era África, castanha de sóis irreais.

                        Quando de jipe, ao fim da tarde passava a caminho do quartel, vi-a à sombra de um embondeiro com acácias por perto, mascando folhas e esperando a chuva que caía sempre ao fim da tarde sobre a terra quente deixando um cheiro agradável e inconfundível que se impregnava nas narinas.

 

                        Um dia ao passar ouvi a Dina cantar.

                        Cantava em voz doce e negra.

                        Fiquei em silêncio, embevecido, a ouvi-la.

                        Quando viu que a escutava parou a melodia e eclipsou-se.

                       

                        Estive 8 meses em terra da Damba.

                        Depois rumei a Luanda, à justiça militar.

                        Regressei ao Puto (metrópole) 20 meses mais tarde.

 

                        De África trouxe o meu espanto pela enormidade de Angola, pela beleza da baía de Luanda, trouxe também o sabor da água do Bengo que bebi, e sobretudo,

                        O sorriso único da Dina, que me enfeitiçou de tal sorte que ainda hoje me aparece nas paredes do meu quarto e me ilumina.

 

António Roque

 

 

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Sábado, 15 de Julho de 2017

Pedra de Toque

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pedra de toque copy.jpg

 

 

 

 

 

 

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Sábado, 27 de Maio de 2017

Pedra de Toque

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PARA JÁ ME BASTAM…

 

Quando o desespero passa por mim, deixa-me marcas e eu, acolho meu corpo nas águas límpidas que regam as orquídeas e as rosas de Angola, flores de África que permanecem coladas aos meus olhos e ao meu cheiro.

 

A inquietação mexe por dentro e projeta-me para os sonhos irreais, por vezes doces, por vezes tumultuosos.

 

A certeza de que gosto de ti, apesar de insistires em manteres-te ausente, amacia-me a vida.

 

 

Nem que seja só por mim, vem e traz o teu sorriso branco e ainda aquela camélia que nasce no teu peito todas as primaveras,

Por ora, já me bastam…

 

António Roque

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Sábado, 20 de Maio de 2017

Pedra de Toque

pedra de toque copy.jpg

 

                        Dá-me a tua boca

 

                        Escrever,

                        É tantas vezes esquecer.

 

                        Eu vou sofrendo, vou esquecendo

                        Vou sonhando.

 

                        Porque,

                        A felicidade acontece

                        Nas estrelas do teu corpo.

 

                        Dá-me a tua boca,

                        Para eu respirar.

 

 

                       António Roque

 

 

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Sábado, 1 de Abril de 2017

Pedra de Toque

pedra de toque copy.jpg

 

O AMOR É ASSIM!...

 

                   Desce a montanha, solta o cabelo,

                   Não pises os jasmins que te aparecerem no caminho,

                   E vem ter comigo.

                   Eu espero-te na cidade deserta,

                   Preenchida tão só pelos monumentos,

                   Que a história nos legou.

                   Estarei à beira rio, sentado numa pedra,

                   A apreciar absorto a velha Madalena,

                   Espelhada nas águas remansosas do Tâmega.

 

                   Vem, traz as mãos, o teu corpo, as tuas causas,

                   Que enredadas nas minhas nos levarão pela cidade linda,

                   Carreando a indignação contra o compadrio reinante,

                   A ignorância que grassa, contra a corrupção que se sussurra,

                   Contra o imobiliário que domina, sempre, sempre, de braço dado com negócios estranhos.

                   Os nossos filhos querem uma cidade viva, uma cidade dos e para os flavienses, com sua história preservada.

                   Temos de lembrar o que anda esquecido, ou seja, QUE O FUTURO TEM PASSADO.

                   Tu, ao meu lado, serás pilar, serás ajuda para despertamos as gentes que imperiosamente têm de acordar.

                   A tarefa que me proponho contigo é ciclópica, é gigantesca, quiçá, ilusória, até porque o medo cerceia a coragem.

                   Mas com a luminosidade dos teus olhos, com a força dos teus dedos, e com a música das palavras que a tua boca profere, chegaremos a bom porto, companheira.

 

                   Já cansados, com o crepúsculo a aproximar-se, regressemos ao rio, em busca do amor que nos poderá revigorar para cumprirmos nosso desejo.

                   Deixemos as pontes, que são miragens para a outra margem, e caminhemos junto aos choupos com a passarada a testemunhar nossa presença.

                   Porque “o amor cria-se em qualquer chão” (Miguel Torga, dixit) faremos da lameira nosso poisio para eu saborear com ternura teu colo, para segredarmos nossa paixão, para darmos imaginação às mãos na descoberta dos nossos corpos e avidez às nossas bocas suculentas, até à plenitude, até ao êxtase, até à loucura da vertigem.

 

                   Depois do silêncio nos brindar, recompostos, imaculados, iniciaremos o retorno à cidade fantasma mas mais leves, mais fortes, mais unidos para o combate porque quem não luta perde sempre (Brecht).

                   Os pássaros seguiram-nos com o seu chilreio.

                   Ao longe o latido de um cão.

                   Num instante começou a escurecer.

                   A felicidade está nestes cibinhos.

 

                   O amor é assim, o amor é assim…

                   Pelo menos para mim!...

                       

António Roque

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Sábado, 25 de Março de 2017

Pedra de Toque

pedra de toque copy.jpg

 

VI-TE, UM DIA…

 

Na tua tez só o sorriso que esboçavas, irradiava.

 

Estavas sentada num banco de um jardim desflorido, poeirento e permanecias inerte às pessoas raríssimas que passavam junto a ti.

 

Gostei dos teus cabelos lisos, despenteados (uma preferência muito antiga).

 

Resolvi depois de dar umas voltas por entre a poeira e o lamaçal, sentar-me num banco algo distante do teu mas donde podia adivinhar-te os pensamentos e a inquietude que te perturbava.

 

 Seguia o teu olhar que parecia medir os troncos despidos das enormes árvores onde não cabia o teu abraço.

 

Senti tremer meu coração, enquanto a brisa esfriava.

 

Num instante cobicei a brancura do mar imenso que não estava por ali, mas tão só o rio que corria remansado.

 

Por momentos olhei-me por dentro.

 

E vi aquele jardim verde (ai verde, que te quero verde…), frondoso, florido, pasto de amores incontidos da juventude onde, o chilrear dos pássaros e a melodia das bandas, enlevavam.

 

Quando despertei vi-te já longe meneando teus cabelos compridos revoltos, seguindo elegante e distinta, para o mundo, para o sonho.

 

O entardecer aos poucos escondeu-te o vulto.

 

Fiquei triste como o breu.

 

Apeteceu-me então rezar à “Nossa Senhora das Coisas Impossíveis que acreditamos em vão…”, que por vezes faz o favor de me aturar.

                       

António Roque

 

 

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Sábado, 11 de Março de 2017

Pedra de Toque

pedra de toque copy.jpg

 

Chaves, março 2017

 

Tenho de te escrever.

 

Devo-te esta carta já há algum tempo.

 

É a forma que tenho de estar comigo e contigo com mais intimidade.

 

Leio-te em comentários fogazes de quem me sente, retendo meus olhos nas tuas fotos onde me apareces cada dia mais longínqua.

 

Eu vou vagueando para ti, recuperando de um ano que passou e que não foi bom.

 

Sozinho, dolorosamente sozinho, como nunca estive.

 

O meu tédio combato-o com as palavras que vou desenhando nestas folhas, arredio dos sonhos com que ia, temerariamente, adoçando a minha vida.

 

Não sei, ou talvez saiba onde estás…

 

Julgo-te embrulhada na descrença, no desânimo, no pessimismo, na renúncia à partilha.

 

O sol que tem dissipado a névoa e o frio penetrante, têm-me salvado da tua imagem que se desfaz na bruma, quando te procuro, sem encontrar teus lábios, cuja cor os distinguem e que doces de húmidos sempre me apetecem.

 

O teu olhar mantém a neblina do desejo frenético contigo.

 

Que saudades tenho das tuas pernas que tremendo toquei, quando a meu lado viajamos na noite, que não consegui encantar.

 

Gentes pela vitória do clube da minha cidade que me habituei a gostar, desde que menino e moço ia ver os jogos pela mão segura do meu saudoso pai.

 

Foram breves instantes que clarearam a minha vida e que levaram a tristeza para outras paragens.

 

Hoje a tua voz suave e quente foi um surto de encantamento que me chegou ao âmago e se abraçou ao meu sentimento.

 

Quedei-me sereno, roendo uma maçã no teu regaço.

 

Fica bem. Um beijo.

 

António Roque

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Sábado, 4 de Março de 2017

Pedra de Toque

pedra de toque copy.jpg

 

 

 

                        Até a primavera nos florir…

 

                        Há tanta emoção no ar,

                        Que nem o frio nem a chuva

                        A conseguem ignorar.

 

                        As palavras são pequenas

                        E não descrevem serenas

                        As levadas que em sobressalto

                        Deslizam pelo teu corpo.

 

                        Quero-te encantada a mim

                        Respirando para meus sonhos

                        Pela tua boca carmim.

 

                        Olha com meus olhos

                        A brancura da geada…

                        E no meu ombro,

                        Escuta o silêncio do vento

                        Que sopra ao ritmo acelerado

                        Dos meus beijos.

 

                        Nas minhas mãos,

                        Antes que desperte a madrugada,

                        Aquece teu coração,

                       

                        Até a primavera nos florir…

 

                            António Roque

 

 

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Sábado, 18 de Fevereiro de 2017

Pedra de Toque

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Coro Misto da Universidade de Coimbra



Nas férias da Páscoa de 1964, o Coro Misto da Universidade de Coimbra, efectuou uma digressão pelo norte do país e realizou um sarau em Chaves, no velho e saudoso Cine-teatro.

Para além da exibição coral, o Coro apresentou também o seu grupo de fados de Coimbra, cuja estrela era o jovem Bernardino, a quem carinhosamente tratávamos por Berna,e que mais tarde veio a fazer grande sucesso na Lusa Atenas.

O espectáculo foi um êxito.
Havia dois flavienses no grupo, eu e o meu estimadíssimo colega e grande amigo, Dr. António José Gomes Teles Grilo.

Fomos recebidos com a reconhecida hospitalidade flaviense.

Os colegas adoraram "a cidade linda" e na partida levaram saudade.

Após a récita, fomos brindados com um beberete e um bailarico nos espaços do antigo Duque de Bragança, festa que a comissão de antigos estudantes de Coimbra, que organizou a recepção, nos ofereceu.

 

est-coimbra.jpg

 

Na foto que posto, tirada na dita festinha, estou acompanhado de uma bonita colega, de quem fiquei muito amigo, e por um ilustre flaviense, na altura "jovem", com pouco mais de quarenta anos.


Reconhecem-no?



Foi tudo no tempo em que tínhamos muito orgulho na nossa cidade milenar.



António Roque

 

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Sábado, 24 de Dezembro de 2016

Pedra de Toque

pedra de toque copy.jpg

 

O SORRISO DAS CRIANÇAS

 

Os antepassados, ainda que por momentos, vêm sempre à minha ceia de Natal.

 

Viajam nas asas do menino Jesus ou nos trenós do Pai Natal.

 

Entram na nossa memória e depois diluem-se na alegria dos filhos e sobretudo nas gargalhadas e na euforia dos netos, que olham ansiosos para os embrulhos das prendas.

 

A reunião à volta da mesa já dura pouco mais que o repasto. A televisão veio estragar, veio intrometer-se no convívio das famílias, nas conversas que tantas vezes se prolongavam até à hora da missa do galo.

 

Vai-se mantendo contudo, ainda que de forma mais restrita, a ementa alusiva à época.

 

O bolo-rei e o polvo são reis na mesa bem como a doçaria tradicional. Ai as minhas filhós de jerimum…

 

No fim as crianças, ávidas, abrem os embrulhos e rejubilam com os presentes.

 

Os adultos, por vezes, também são brindados.

 

Eu este ano tive uma prenda muito especial, que ficará para sempre gravada na minha lembrança.

 

Quiçá os deuses, mas sobretudo, os médicos, enfermeiros e auxiliares dos cuidados intensivos e intermédios do Hospital de São João, com extrema competência, simpatia, desvelo e carinho “ressuscitaram-me” um ente muito querido e ofertaram-me a mais gostosa prenda de Natal que tive em toda a minha vida.

 

Para eles o mais perene agradecimento.

 

Para esquecer as agruras e a saudade dos que me cuidam lá de muito longe… neste Natal também estará o sorriso dos meus netos.

 

Que melhores prendas eu podia ter?!

António Roque

 

 

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Sábado, 19 de Novembro de 2016

Pedra de Toque - No retrato de onde me olhas...

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No retrato de onde me olhas…



Este outono, tem sido o inverno do meu desassossego, do meu descontentamento.

Dura há mais de um mês dentro de mim.

Carregado de névoa, por vezes de negritude, que provocam sofrimento, dor intraduzível.

O sono não chega e quando espreita não tranquiliza, por isso as noites doem.

O teu sorrido que sempre me perseguiu e me iluminava na tristeza não estava lá,

Substituíram-no por tubos e por máquinas.

Eu bem implorei aos santos que não tenho.

O meu fervor era tanto que, se calhar, ouviram-me.

Creio, contudo, que as preces dos muitos, muitos amigos que tens, surtiram efeitos.

Há cinco dias, pela primeira vez, a tua mãe deu-me a nova que os médicos lhe transmitiram:

O pulmão começou a regenerar e pronunciaram, então, a mágica palavra que, angustiado e dolorosamente, desesperava ouvir.

A minha filha apresentava melhoras, ainda que ligeiras.

Ontem já esboçou um sorriso e a esperança inundou-nos o coração.

No retrato de onde me olhas e proteges, no nosso escritório, muito junto a mim,

Eu vi, claramente visto, um brilho nos teus olhos lindos e um esgar de vida que me emocionou até à comoção.

Foi então, milagre dos milagres, que o sol começou a raiar bem no centro do meu peito, espraiando-se por toda a alma.

E o dia aos pouco clareou…



António Roque

 

 

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Sábado, 12 de Novembro de 2016

Pedra de toque - Por uma carícia tua

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Por uma carícia tua

 

Gosto de sentir teu corpo abençoado,

na minha boca a respirar.

Nunca ouvi a tua voz,

mas pressinto pelo teu olhar fundo

e pelas palavras com que te despes

que a tua voz tem música.

A música que me adormece,

a música que me desperta,

a música que me abraça!....

Por uma carícia tua,

tocaria o céu com as minhas mãos ....

 

Antonio Roque

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publicado por Fer.Ribeiro às 17:04
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Sábado, 17 de Setembro de 2016

Pedra de Toque - As Curvas da Madrugada

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AS CURVAS DA MADRUGADA

 

O sol, clareia-me,

Quando escureço.

 

Depois

Quando a noite

Desce à cidade deserta,

Só o sibilar do vento

Embala o meu silêncio.

 

Nas ruas que andarilho

Não me cruzo com os passos de ninguém.

 

Procuro-te, então na copa das árvores,

Nos fetos dos bosques, na sombra densa

Onde, misteriosa, te escondes dos meus beijos.

 

Quando adormeço,

Moras comigo.

 

Mas quando desperto

Nas curvas da madrugada,

Acaricio-me nos teus cabelos.

 

 

António Roque

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publicado por Fer.Ribeiro às 00:57
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Sábado, 3 de Setembro de 2016

Pedra de Toque - A Minha Almofada

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A MINHA ALMOFADA

 

Tenho uma ótima relação com a minha almofada.

 

Nela apoio a minha cabeça com que penso e com que sinto, já muito cansada.

 

Quando não tenho a minha almofada comigo passo mal.

 

Ela acompanha-me em noites difíceis com insónias intermináveis, que me levam por vezes a ser duro com ela, que então viro e reviro com injusta agressividade.

 

Mas quando por fadiga o sono se aproxima, acabo acariciando-a e com ela entro nos braços de Orfeu, envolvidos num abraço terno.

 

Nas noites de Cabíria, eu levo-a em pensamento para o pecado, pelos recantos luarentos da cidade à procura de uns cabelos revoltos, de uns dentes luzidios de brancos, de umas mãos carentes estendidas.

 

Depois no retorno ao meu leito, ela surge alva, real, minha amiga, minha doce companheira, minha fiel confidente, que escuta os poemas que balbucio, encantado pela noite, postada em todas as arestas do meu espaço.

 

E falo com ela que escuta as minhas angústias, que ouve as minhas preces, que enxuga as minhas lágrimas, que pressente o meu afecto e ternurentamente se entrelaça ao meu ventre.

 

Nas noites de amor ela escuta os meus gemidos e plangente viaja até ao Olimpo, ao som dos meus suspiros.

 

É testemunha perene dos meus resquícios de felicidade.

 

Adoro a minha almofada, a sua brancura, a sua lisura, a paciência com que acaricia meus sonhos e acalmia com que embala o meu repouso sempre difícil.

 

A minha almofada crismei-a de Maria,

Nome de mãe, nome de filha, nome de avó,

Nome de mulher.

 

António Roque

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 16:04
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Sábado, 13 de Agosto de 2016

Pedra de Toque - Este sábado vou à verbena

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ESTE SÁBADO VOU À VERBENA.

 

Este sábado vou à verbena no jardim público.

 

Já pedi à minha mãe que me preparasse a camisa de verão, mais pinoca que possuo.

 

A minha colega, que tenho debaixo de olho e que vou catrapiscando, já me disse que também vai.

 

Pedi-lhe que levasse um vestido branco mas não referi que lhe quero dedicar um disco pela cabine sonora.

 

Ainda não me decidi por nenhum.

 

1600-(44872)

 

Mas como a jovem tem olhos castanhos e dado o meu estado, provavelmente vou dedicar-lhe a bela canção “Olhos castanhos” cantada por Francisco José, o homem que tinha o coração na voz.

 

Já estou a ouvir o meu amigo Domingos eletricista a dizer ao microfone roufenho “O disco que se segue é dedicado à menina de vestido branco que passeia pela ala central deste jardim, por um admirador”.

 

Vários corações vão palpitar, algumas faces vão corar, mas o momento será inesquecível.

 

Depois de jantar vou aperaltar-me.

 

Vestirei a camisa que minha mãe passará impecavelmente e as calças com vinco.

 

A maior perda de tempo será diante do espelho para fazer a risca e a poupa.

 

Não é nada fácil mas abusarei do fixador e da brilhantina que o meu pai sempre tem na casa de banho.

 

Irei esperar a arruada da banda que desperta a cidade para a festa e alvoroça a miudagem.

 

1300-Canarios-1.jpg

Banda de Música de "Os Canários" - Foto de Arquivo do Blog Chaves Antiga

 

Atravessarei com amigos a ponte romana a caminho do belo, fresco, frondoso e florido jardim.

 

Pararei uns minutos a apreciar os peixes de cores garridas e exóticas que “brincam” no lago, junto do coreto.

 

Hoje vão tocar alternadamente a banda 1º de Setembro “Os Canários” e o conjunto “Os Tigres”, composto de bons amigos e que tem granjeado muito sucesso.

 

Consegui a benevolência da minha avó quando me deu uns trocados para o disco pedido, umas idas ao ringue, e uma laranjada na casa portuguesa.

 

1300-tigres.jpg

Grupo musical Tigres - Fotografia de Arquivo do Blog Chaves Antiga

 

Ainda dançarei duas musiquinhas com duas colegas, a tal e outra, esta para disfarçar.

 

Não perderei um passo doble pela banda e o Ma Vie de Alain Berriere, pelos Tigres, tema que adoro e que quero dançar com a menina de branco.

 

Regressarei antes da meia noite, hora marcada para entrar em casa, talvez um pouco ultrapassada mas então terei de descalçar os sapatos para não ouvir “sermão e missa cantada”.

 

Um miúdo de 15/16 anos não pode nem deve pisar o risco.

 

Ainda passarei na ponte para saborear o fresco e ouvir o coaxar das rãs e dos ralos.

 

Acordei triste e assarapantado.

 

Abri os olhos e vi que a menina de vestido branco estava nenhures, não havia Canários, não havia Tigres, não havia o jardim público cheiinho de sonhos, com discos pedidos e com verbenas.

 

Assumidamente piegas, confesso que estou com uma lágrima no canto do olho.

 

António Roque

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 17:05
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