Quarta-feira, 5 de Junho de 2013

Leituras de um olhar

 


 

 

Viagem

 

Como tão só cansado

Esta curta travessia se faz longe…

 

Do pouco que levo e deixo,

O que arrasto e me anima

É ainda tudo quanto tenho

E uma ideia confusa:

 

Não sei se o primeiro ou derradeiro

Mas, só, procuro naquela margem

O que esta não me deu



Fotografia de António Tedim - Texto de Paulo Chaves



 

publicado por Fer.Ribeiro às 01:14
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Quarta-feira, 29 de Maio de 2013

Leituras de um olhar

 


 

 

Longe e tão próximo

 

Ali, onde se perde o olhar,

Como se ali fosse o infinito,

Distantes os braços esguios

Se abraçam apenas no olhar

 

Apontam um rumo natural

Como se o céu beijasse

E ao longe  de quem vê

Aproxima quem é distante

 

Assim, olhar o infinito

Encurta a visão

Porque o tempo não pára.

 

 

Fotografia de António Tedim - Texto de Paulo Chaves

publicado por Fer.Ribeiro às 02:33
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Quarta-feira, 22 de Maio de 2013

Leituras de um olhar

 


 

 

Amizade

 

Ele, perdido por achar

Escondido no alto do monte:

Quem à claridade o vê

Confunde-o com o vento,

Quem na escuridão o escuta

Quer ver a luz e o rumo

 

É pequeno, à luz do dia

E grande na vastidão da noite…

 

Também poderia ser assim

Mas sucumbe-me o desejo:

Só quando o Mar bravo afasta e atormenta

Quer ele encontrar um porto seguro

Quando manso e claro

Por mais alto que esteja é ignorado



Fotografia de António Tedim - Texto de Paulo Chaves



publicado por Fer.Ribeiro às 09:00
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Sexta-feira, 26 de Abril de 2013

Largo da Madalena

 

 

LARGO DA MADALENA


Secou na praça o fontenário romântico

o silêncio da água fechou a tarde

num aroma de musgo e limo verde.

Apenas se ouve o pânico

de um corvo rouco

poisado na boca aberta

de um santo barroco

do frontão da igreja

escura e deserta.

E o corvo grasna assim seja.

O resto é o ruído da sombra dos muros nus à roda

tece-lhes o tempo o perfil no chão o puro atrito

do eco agudo de um grito

devolvido à nossa boca muda

pelo gosto salgado do granito.

 

Fernão de Magalhães Gonçalves, Andamento, Coimbra : 1984.

publicado por Fer.Ribeiro às 03:04
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Terça-feira, 19 de Março de 2013

Pedra de Toque

 


O barulho do silêncio


 

Bloqueei.

Eu bem perscruto os silêncios.

Eu bem tento desvendar os horizontes.

Eu não paro de me extasiar com a beleza que me surpreende.

Mas nem nada, nem coisa nenhuma me move.

Fico parado, inerte, à espera, quiçá de Godot…

Se a minha mãe cá estivesse, teria a certeza do colo que, com permanência preciso.

Mas apesar de não ter partido, já foi.

A felicidade espreita das tuas mãos decepadas e da tua boca roxa que aparecem em sonhos.




Não entendo este desassossego, esta angústia permanente.

O azul do mar revolto com a espuma das águas a beijar cintilante a areia da praia é tão importante como o paladar intenso do café do bairro.

As ruas são o passadiço para saborear a alma.

As pessoas sorridentes e as outras de semblante carregado, lá seguem, lá deambulam para as suas vidas difíceis.

Paro na secretária.

A brancura do papel convida-me, excita-me.

A noite chega.

Pacifica-me porque é terna.

E eu vou soltando palavras ao mesmo tempo que escuto melodias,

Por dentre o barulho do silêncio.

 

António Roque



publicado por Fer.Ribeiro às 08:00
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Quarta-feira, 6 de Março de 2013

Leituras de um olhar

 


 

 

 

A dureza do sorriso

 

 

Triste quem

não souber beber aquele sorriso

até à última gota

 

Ele que é feito de chuva e pó

 

E a vida dura perdura

por entre a luz daquele sorriso




Fotografia de António Tedim - Texto de Paulo Chaves



publicado por Fer.Ribeiro às 04:14
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Quarta-feira, 22 de Fevereiro de 2012

Frustração

 

 

 

 

Chaves, 4 de Setembro de 1989

 

 

 

Frustação

 

Foi bonito

O meu sonho de amor

Floriram em redor

Todos os campos em pousio.

Um sol de Abril brilhou em pleno estio,

Lavado e promissor.

Só que não houve frutos

Dessa primavera.

A vida disse que era

Tarde demais.

E que as paixões tardias

São ironias

Dos deuses desleais.

 

Miguel Torga, in Diário XV

 

publicado por Fer.Ribeiro às 02:54
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Sábado, 11 de Fevereiro de 2012

Pecados e Picardias - Por Isabel Seixas

 

Espaço de ilusão

 

Chamei-lhe frontalidade e ousei ultrajar

O teu espaço de ilusão que há décadas

Estavas a murar

 

Sim aquele de tão guardado nem tu

Sabias de ti

Edificaste um teu mundo que dinamitei

E destruí,

Sinto a tua desilusão nem sei

Se me redimi

 

Ao ver-te agora despido da ilusão

Que te senti

Que hei-de fazer assim que posso fazer

Por ti

 

Abordei-te com a ternura que também sinto

Por ti

Apreendi a distância que puseste

Para mim

 

Aproximo-me cautelosa

Desculpa por ser assim

Respeitaste e eu engenhosa

Não te respeitei a ti

 

Agora que abri brechas

É urgente consertar

Qualquer espaço de ilusão

É para não se tocar...

 

Isabel Seixas

In Espaço de ilusão

publicado por Fer.Ribeiro às 23:21
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Quinta-feira, 19 de Janeiro de 2012

Duas imagens e um poema

 

No meu percurso estudantil tive a sorte de ter um professor que me despertou para a poesia. Nunca até então tinha lido verdadeiramente um poema. Até aí poesia era uma sucessão de palavras com algum sentido, outras vezes sem sentido nenhum e que tanto rimavam, como não, onde se brincava com as palavras que se apresentavam sempre de uma forma esguia que saía fora do formato normal de um texto de prosa. Com esse professor aprendi que a poesia não deveria ser olhada e muito menos lida com essa leviandade. Com ele, aprendi que a poesia é a verdadeira arte da palavra e do dizer, que pode até ter o poder e mais força, que um verdadeiro exército, ou, como diria o José Carlos Ari dos Santos – a palavra é uma arma – e eu até aí não sabia.

Gosto sempre de deixar os créditos das fontes, dos despertares e daqueles que verdadeiramente me ensinaram. O professor a que me refiro chamava-se José Henriques e tenho-o como uma das referências do Liceu de Chaves.

 

 

 

Tudo isto a respeito das duas imagens de hoje, que são a mesma, mas não o são. Numa há a tal poesia colorida, cheia de música e rima que encanta pela forma e pela luz doirada. É um cliché feito com um olhar leviano sobre um entardecer, apenas isso, mas, se apurarmos o olhar veremos que há muito mais que entardeceres doirados, que há muitas imagens, sentimentos e até um porto de partida ou chegada onde alguém espera ou se despede de um momento que nunca irá acontecer.


publicado por Fer.Ribeiro às 00:30
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Sábado, 19 de Novembro de 2011

Pecados e Picardias - Por Isabel Seixas

 

Sabe a pouco

 

Sabe a pouco a ilusão  ténue desvanecida

Sem tempo de se  gerar a maturação pedida

Aquele dar a época por perdida Sabe a pouco

E …ela nem foi vencida foi um tormento louco

 

Nem o homem megalómano de  tão ausente

Nem a mulher autómato servil e tão  carente

Fomentaram a culpa ou foram vaga inocência

Apenas souberam a pouco de luz e inteligência

 

 Por saber tão a pouco ensombram-se os luxos

Avivam-se memórias desses predizíveis fluxos

E o norte virá em bandeja de metal num andor

 

Quem nos contará já sabia que acontecia de cor

Ninguém os quis ouvir fez-se ouvidos de mouco

Porque a história se não se repetir sabe a pouco

 

Isabel seixas

publicado por Fer.Ribeiro às 03:44
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Sábado, 1 de Outubro de 2011

Pecados e Picardias - Por Isabel Seixas

 

Dos Ganhos e Perdas

 

Estaremos atentos

 

Não serão névoas, não serão sombras,

Que nos deixarão as trevas das ondas

Fúteis por ficar com o tudo e o mais

Sôfregas por poderes de si surreais

 

Não serão os ganhos a gerar as perdas

Que nos trarão a mágoa sem as  regras

Lástimas de todo  um conformismo só

Que nos abalroam sem razão e sem dó

 

Não serão os amuos de meninos bem

Que Nos darão as perdas  de ninguém

Em troca de nada sem ganho nenhum

 

Não serão os tempos e de ânimo leve

Que levem  liberdade sem volta breve

Ou  nos escondam de homem comum

 

Isabel Seixas

 


publicado por Fer.Ribeiro às 23:57
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Quarta-feira, 31 de Agosto de 2011

(In)dependência saboreada de imagens trocadas

 

Hoje apetece-me estar comodamente só. Não sei se pela chuva ter chegado, se pelo dia ter ficado estranhamente escuro. Convém arranjar sempre uma desculpa para estes estados que nos invadem e se entranham, momentos em que procuro a poesia para nela encontrar algum conforto. Parto para a estante, percorro-a de ponta a ponta na esperança de não encontrar livro nenhum, e não encontro, porque não quero ler, não me apetece ler, apenas ficar comodamente só.

 


 

Fumo um cigarro. Saboreio-o quase em silêncio até ao fim. Não fosse a chuva e o silêncio seria total, como se houvesse silêncios e pudesse estar comodamente só,  e escrevo. Pasmo mais que escrevo. Estou aqui sem estar, mas escrevo quando me apetecia estar comodamente só, sem letras, sem palavras, mas escrevo, pasmo e escrevo mais uma palavra e cada palavra custa, dói. Procuro novo livro mas abandono de novo…só me apetece ficar comodamente só.

 

 

Ai como me apetece estar comodamente só , mas insisto em levantar-me e percorrer de novo a estante. Não leio os títulos, já os conheço e não me apetece ler. Saboreio outro cigarro. Tenho o cinzeiro cheio de beatas, saboreei-os todos, a chuva continua a cair e a mim, continua a apetecer-me ficar comodamente só…

 

- Ei, pchiiut, pchhhhh, acorda!

- Ãh! Arranja aí um cigarro!

 


 

Ainda hoje vamos ter por aqui o regresso das “Palavras Colhidas do Vento” de Mário Esteves. Até lá, fiquem comodamente…como vos apetecer, se puderem, claro.

 

 

publicado por Fer.Ribeiro às 02:48
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Sexta-feira, 19 de Agosto de 2011

Discursos Sobre a Cidade - Por José Carlos Barros

 

REGRESSOS

 

dois poemas de José Carlos Barros

 

 

 

SEGIREI

 

 

o fumo da lareira já nem sai dos telhados

são onze da noite

não há um único movimento nas

ruas e nos quelhos

 

a neblina subiu do rio

parece suspensa de fios invisíveis um

pouco acima das

pedras irregulares

do largo

 

se alguém gritasse

se alguém corresse na encosta com um archote

se alguém viesse à janela a

estender as colchas da infância

talvez o tempo retomasse

vagarosamente

o seu novelo espesso

de labirinto

 

 

 

 

NÃO DEVIA CHEGAR DE NOITE

 

não devia chegar de noite a estes lugares

onde tudo o que um dia foi

parece emergir do fundo dos poços dos quintais

eco de outras vozes mais antigas

reverberação insidiosa dos segredos

palavras roídas pelo lado de

dentro das próprias frases

 

fantasmas vagueiam em

silêncio contra o

fundo indefinido dos pinheiros bravos

o meu avô a colher as maçãs camoesas

e a guardá-las no cesto de vimes entrançadas da

presa das tílias

o táxi do senhor adriano a aproximar-se

vagarosamente da

bomba de gasolina

uma criança

que podia ser eu

a correr de olhos vendados nos

andaimes da obra dos bombeiros

voluntários

 

a sombra

mancha de óleo nas paredes das casas

cobrindo o alcatrão da estrada do rio

parece encerrar o tempo nas

suas cápsulas

de vidro

 

e não há um rumor

um único movimento

os ponteiros do relógio da torre parados a

meio da noite

entre as quatro

e as cinco horas

da tarde

 

 

 

in "RUMOR", 2011.

 

http://casa-de-cacela.blogspot.com

 

 

publicado por Fer.Ribeiro às 01:57
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Quarta-feira, 19 de Janeiro de 2011

Momentos de poesia ou puros devaneios

 

 

 

só pode ser paixão...


 

Há sentimentos que por mais explicados que sejam, quer pela ciência quer apenas pela crença ou até a emoção, são difíceis de entender. A paixão por exemplo, é mais entendível como doença do que como um sentimento. Talvez seja até uma forma de depressão, que também não entendo, é difícil de entender e explicar, no entanto, não duvido que tanto a paixão como a depressão, são bem reais e fazem mossa. Depois há o amor, que nada tem a ver com paixões e depressões, mas que,de tão  intenso, se torna cego – dizem -  como se o amor tivesse olhos. E tem. Por isso, às vezes, não será de estranhar que o amor leve à paixão ou à depressão e,  aqui o inverso, nem sempre ou nunca, é verdadeiro…mas o que mais estranho no amor é o próprio amor e a cegueira dos seus olhos, quando há amor pela contradição, pelo estranho, pelo incompreensível, pelo irreal… talvez até consiga compreender o amor do arquitecto que o leva a imitar uma coluna com 2000 anos de idade…já não entendo muito bem como a ciência sincronizada das engrenagens da mecânica se enamora com tanta ternura por uma imitação em betão do passado. Desconfio que não seja amor, pois só pode ser paixão.

 

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 01:11
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Sábado, 15 de Janeiro de 2011

Habita-me

 

 

 

 

 

Habita-me a beleza dos dedos que delineiam a imagem do amanhecer. Vejo-te a ler um livro frio cantado pelos neófitos da beleza. Lembras-me uma criança junto às nuvens que provocam as trovoadas. Enrolas-te nos signos dos dias ímpares e nadas na concentração do azul do mar. Por mais que veja, ou te beije, a insatisfação é o que sobra.

 

Não olhes para mim, tenta adivinhar-me pelo sorrido das sombras.

 

João Madureira - Poesia

publicado por Fer.Ribeiro às 03:26
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