Viagem
Como tão só cansado
Esta curta travessia se faz longe…
Do pouco que levo e deixo,
O que arrasto e me anima
É ainda tudo quanto tenho
E uma ideia confusa:
Não sei se o primeiro ou derradeiro
Mas, só, procuro naquela margem
O que esta não me deu
Fotografia de António Tedim - Texto de Paulo Chaves
Longe e tão próximo
Ali, onde se perde o olhar,
Como se ali fosse o infinito,
Distantes os braços esguios
Se abraçam apenas no olhar
Apontam um rumo natural
Como se o céu beijasse
E ao longe de quem vê
Aproxima quem é distante
Assim, olhar o infinito
Encurta a visão
Porque o tempo não pára.
Fotografia de António Tedim - Texto de Paulo Chaves
Amizade
Ele, perdido por achar
Escondido no alto do monte:
Quem à claridade o vê
Confunde-o com o vento,
Quem na escuridão o escuta
Quer ver a luz e o rumo
É pequeno, à luz do dia
E grande na vastidão da noite…
Também poderia ser assim
Mas sucumbe-me o desejo:
Só quando o Mar bravo afasta e atormenta
Quer ele encontrar um porto seguro
Quando manso e claro
Por mais alto que esteja é ignorado
Fotografia de António Tedim - Texto de Paulo Chaves
LARGO DA MADALENA
Secou na praça o fontenário romântico
o silêncio da água fechou a tarde
num aroma de musgo e limo verde.
Apenas se ouve o pânico
de um corvo rouco
poisado na boca aberta
de um santo barroco
do frontão da igreja
escura e deserta.
E o corvo grasna assim seja.
O resto é o ruído da sombra dos muros nus à roda
tece-lhes o tempo o perfil no chão o puro atrito
do eco agudo de um grito
devolvido à nossa boca muda
pelo gosto salgado do granito.
Fernão de Magalhães Gonçalves, Andamento, Coimbra : 1984.
O barulho do silêncio
Bloqueei.
Eu bem perscruto os silêncios.
Eu bem tento desvendar os horizontes.
Eu não paro de me extasiar com a beleza que me surpreende.
Mas nem nada, nem coisa nenhuma me move.
Fico parado, inerte, à espera, quiçá de Godot…
Se a minha mãe cá estivesse, teria a certeza do colo que, com permanência preciso.
Mas apesar de não ter partido, já foi.
A felicidade espreita das tuas mãos decepadas e da tua boca roxa que aparecem em sonhos.
Não entendo este desassossego, esta angústia permanente.
O azul do mar revolto com a espuma das águas a beijar cintilante a areia da praia é tão importante como o paladar intenso do café do bairro.
As ruas são o passadiço para saborear a alma.
As pessoas sorridentes e as outras de semblante carregado, lá seguem, lá deambulam para as suas vidas difíceis.
Paro na secretária.
A brancura do papel convida-me, excita-me.
A noite chega.
Pacifica-me porque é terna.
E eu vou soltando palavras ao mesmo tempo que escuto melodias,
Por dentre o barulho do silêncio.
António Roque
A dureza do sorriso
Triste quem
não souber beber aquele sorriso
até à última gota
Ele que é feito de chuva e pó
E a vida dura perdura
por entre a luz daquele sorriso
Fotografia de António Tedim - Texto de Paulo Chaves
Chaves, 4 de Setembro de 1989
Frustação
Foi bonito
O meu sonho de amor
Floriram em redor
Todos os campos em pousio.
Um sol de Abril brilhou em pleno estio,
Lavado e promissor.
Só que não houve frutos
Dessa primavera.
A vida disse que era
Tarde demais.
E que as paixões tardias
São ironias
Dos deuses desleais.
Miguel Torga, in Diário XV
Espaço de ilusão
Chamei-lhe frontalidade e ousei ultrajar
O teu espaço de ilusão que há décadas
Estavas a murar
Sim aquele de tão guardado nem tu
Sabias de ti
Edificaste um teu mundo que dinamitei
E destruí,
Sinto a tua desilusão nem sei
Se me redimi
Ao ver-te agora despido da ilusão
Que te senti
Que hei-de fazer assim que posso fazer
Por ti
Abordei-te com a ternura que também sinto
Por ti
Apreendi a distância que puseste
Para mim
Aproximo-me cautelosa
Desculpa por ser assim
Respeitaste e eu engenhosa
Não te respeitei a ti
Agora que abri brechas
É urgente consertar
Qualquer espaço de ilusão
É para não se tocar...
Isabel Seixas
In Espaço de ilusão
No meu percurso estudantil tive a sorte de ter um professor que me despertou para a poesia. Nunca até então tinha lido verdadeiramente um poema. Até aí poesia era uma sucessão de palavras com algum sentido, outras vezes sem sentido nenhum e que tanto rimavam, como não, onde se brincava com as palavras que se apresentavam sempre de uma forma esguia que saía fora do formato normal de um texto de prosa. Com esse professor aprendi que a poesia não deveria ser olhada e muito menos lida com essa leviandade. Com ele, aprendi que a poesia é a verdadeira arte da palavra e do dizer, que pode até ter o poder e mais força, que um verdadeiro exército, ou, como diria o José Carlos Ari dos Santos – a palavra é uma arma – e eu até aí não sabia.
Gosto sempre de deixar os créditos das fontes, dos despertares e daqueles que verdadeiramente me ensinaram. O professor a que me refiro chamava-se José Henriques e tenho-o como uma das referências do Liceu de Chaves.
Tudo isto a respeito das duas imagens de hoje, que são a mesma, mas não o são. Numa há a tal poesia colorida, cheia de música e rima que encanta pela forma e pela luz doirada. É um cliché feito com um olhar leviano sobre um entardecer, apenas isso, mas, se apurarmos o olhar veremos que há muito mais que entardeceres doirados, que há muitas imagens, sentimentos e até um porto de partida ou chegada onde alguém espera ou se despede de um momento que nunca irá acontecer.
Sabe a pouco
Sabe a pouco a ilusão ténue desvanecida
Sem tempo de se gerar a maturação pedida
Aquele dar a época por perdida Sabe a pouco
E …ela nem foi vencida foi um tormento louco
Nem o homem megalómano de tão ausente
Nem a mulher autómato servil e tão carente
Fomentaram a culpa ou foram vaga inocência
Apenas souberam a pouco de luz e inteligência
Por saber tão a pouco ensombram-se os luxos
Avivam-se memórias desses predizíveis fluxos
E o norte virá em bandeja de metal num andor
Quem nos contará já sabia que acontecia de cor
Ninguém os quis ouvir fez-se ouvidos de mouco
Porque a história se não se repetir sabe a pouco
Isabel seixas
Dos Ganhos e Perdas
Estaremos atentos
Não serão névoas, não serão sombras,
Que nos deixarão as trevas das ondas
Fúteis por ficar com o tudo e o mais
Sôfregas por poderes de si surreais
Não serão os ganhos a gerar as perdas
Que nos trarão a mágoa sem as regras
Lástimas de todo um conformismo só
Que nos abalroam sem razão e sem dó
Não serão os amuos de meninos bem
Que Nos darão as perdas de ninguém
Em troca de nada sem ganho nenhum
Não serão os tempos e de ânimo leve
Que levem liberdade sem volta breve
Ou nos escondam de homem comum
Isabel Seixas
Hoje apetece-me estar comodamente só. Não sei se pela chuva ter chegado, se pelo dia ter ficado estranhamente escuro. Convém arranjar sempre uma desculpa para estes estados que nos invadem e se entranham, momentos em que procuro a poesia para nela encontrar algum conforto. Parto para a estante, percorro-a de ponta a ponta na esperança de não encontrar livro nenhum, e não encontro, porque não quero ler, não me apetece ler, apenas ficar comodamente só.
Fumo um cigarro. Saboreio-o quase em silêncio até ao fim. Não fosse a chuva e o silêncio seria total, como se houvesse silêncios e pudesse estar comodamente só, e escrevo. Pasmo mais que escrevo. Estou aqui sem estar, mas escrevo quando me apetecia estar comodamente só, sem letras, sem palavras, mas escrevo, pasmo e escrevo mais uma palavra e cada palavra custa, dói. Procuro novo livro mas abandono de novo…só me apetece ficar comodamente só.
Ai como me apetece estar comodamente só , mas insisto em levantar-me e percorrer de novo a estante. Não leio os títulos, já os conheço e não me apetece ler. Saboreio outro cigarro. Tenho o cinzeiro cheio de beatas, saboreei-os todos, a chuva continua a cair e a mim, continua a apetecer-me ficar comodamente só…
- Ei, pchiiut, pchhhhh, acorda!
- Ãh! Arranja aí um cigarro!
Ainda hoje vamos ter por aqui o regresso das “Palavras Colhidas do Vento” de Mário Esteves. Até lá, fiquem comodamente…como vos apetecer, se puderem, claro.
REGRESSOS
dois poemas de José Carlos Barros
SEGIREI
o fumo da lareira já nem sai dos telhados
são onze da noite
não há um único movimento nas
ruas e nos quelhos
a neblina subiu do rio
parece suspensa de fios invisíveis um
pouco acima das
pedras irregulares
do largo
se alguém gritasse
se alguém corresse na encosta com um archote
se alguém viesse à janela a
estender as colchas da infância
talvez o tempo retomasse
vagarosamente
o seu novelo espesso
de labirinto
NÃO DEVIA CHEGAR DE NOITE
não devia chegar de noite a estes lugares
onde tudo o que um dia foi
parece emergir do fundo dos poços dos quintais
eco de outras vozes mais antigas
reverberação insidiosa dos segredos
palavras roídas pelo lado de
dentro das próprias frases
fantasmas vagueiam em
silêncio contra o
fundo indefinido dos pinheiros bravos
o meu avô a colher as maçãs camoesas
e a guardá-las no cesto de vimes entrançadas da
presa das tílias
o táxi do senhor adriano a aproximar-se
vagarosamente da
bomba de gasolina
uma criança
que podia ser eu
a correr de olhos vendados nos
andaimes da obra dos bombeiros
voluntários
a sombra
mancha de óleo nas paredes das casas
cobrindo o alcatrão da estrada do rio
parece encerrar o tempo nas
suas cápsulas
de vidro
e não há um rumor
um único movimento
os ponteiros do relógio da torre parados a
meio da noite
entre as quatro
e as cinco horas
da tarde
in "RUMOR", 2011.
http://casa-de-cacela.blogspot.com
só pode ser paixão...
Há sentimentos que por mais explicados que sejam, quer pela ciência quer apenas pela crença ou até a emoção, são difíceis de entender. A paixão por exemplo, é mais entendível como doença do que como um sentimento. Talvez seja até uma forma de depressão, que também não entendo, é difícil de entender e explicar, no entanto, não duvido que tanto a paixão como a depressão, são bem reais e fazem mossa. Depois há o amor, que nada tem a ver com paixões e depressões, mas que,de tão intenso, se torna cego – dizem - como se o amor tivesse olhos. E tem. Por isso, às vezes, não será de estranhar que o amor leve à paixão ou à depressão e, aqui o inverso, nem sempre ou nunca, é verdadeiro…mas o que mais estranho no amor é o próprio amor e a cegueira dos seus olhos, quando há amor pela contradição, pelo estranho, pelo incompreensível, pelo irreal… talvez até consiga compreender o amor do arquitecto que o leva a imitar uma coluna com 2000 anos de idade…já não entendo muito bem como a ciência sincronizada das engrenagens da mecânica se enamora com tanta ternura por uma imitação em betão do passado. Desconfio que não seja amor, pois só pode ser paixão.
Habita-me a beleza dos dedos que delineiam a imagem do amanhecer. Vejo-te a ler um livro frio cantado pelos neófitos da beleza. Lembras-me uma criança junto às nuvens que provocam as trovoadas. Enrolas-te nos signos dos dias ímpares e nadas na concentração do azul do mar. Por mais que veja, ou te beije, a insatisfação é o que sobra.
Não olhes para mim, tenta adivinhar-me pelo sorrido das sombras.
João Madureira - Poesia


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