12 anos

Segunda-feira, 12 de Junho de 2017

Quem conta um ponto...

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346 - Pérolas e diamantes: O vazamento das evidências

 

Laurent Binet escreveu um livro suficientemente divertido sobre Roland Barthes (escritor, sociólogo, crítico literário, semiólogo e filósofo francês que fez parte da escola estruturalista, influenciado pelo linguista Ferdinand de Saussure), partindo da suposição de que afinal não morreu por causa de um acidente estúpido mas antes vítima de um homicídio premeditado.

 

Ou seja, o maior crítico literário do século XX terá sido assassinado por possuir qualquer coisa de muito poderosa.  

 

A Sétima Função da Linguagem parte de uma frase inicial: “A vida não é um romance.”

 

De facto, a morte de Barthes deu-se em circunstâncias um pouco tristes. Foi atropelado quando saía de um almoço com François Mitterrand, então candidato à presidência da França.

 

Ser mestre na utilização da linguagem, todos o sabemos, é muito proveitoso. A semiótica é útil para entender o mundo e a retórica é útil para lidar com ele.

 

Para atingir o poder, a linguagem é uma arma poderosa. Binet, para construir o seu romance, parte do princípio de que a linguagem é a arma mais poderosa do mundo e há mesmo quem mate para dominar o seu segredo.

 

Roland Barthes era um descodificar do modo humano de comunicar. Possuía até uma qualidade intelectual que os medíocres apreciam imenso: conseguia falar de bifes com batatas fritas, de carros, de filmes do James Bond, fazendo uma abordagem muito lúdica da Linguística.

 

Afinal, segundo os entendidos, a Semiologia é isso mesmo: uma disciplina que aplica os métodos da crítica literária a objetos não-literários. É o estudo da vida dos signos no seio da vida social.

 

Lá pelo meio do livro aparecem estudantes de alpargatas e peúgas distribuindo panfletos onde se pode ler: À Espera de Godard, peça em um ato, a que eu gostaria de ter assistido.

 

E também existem as personagens que buscam a verdade. Os medíocres estão espalhados por todo o lado. E a verdade… A verdade… “Onde é que ela começa, onde é que ela acaba… Estamos sempre no meio de alguma coisa.”

 

A verdade só existe se for exibida. É um símbolo. E um símbolo escondido não serve para nada. Não existe.

 

Por exemplo, Jean Daniel escreveu um editorial sobre Mitterrand no Nouvel Obsevateur, em 1966, onde apresentou esta certeza: “Este homem não dá só a impressão de não acreditar em nada: perante ele, sentimo-nos culpados de acreditar em alguma coisa. Ele insinua, como quem não quer a coisa, que nada é puro, que tudo é sórdido e que nenhuma ilusão é permitida.”

 

Numa conversa entre espiões de gabarito, a dado momento uma personagem pensa que nada existe de mais desconfortável para alguém disposto a mentir do que ignorar o nível de informação do seu interlocutor.

 

Quando se mente, há que mentir, como pensa o camarada Kristoff, apenas num ponto. E num só. Em tudo o resto tem de se ser perfeitamente honesto.

 

Barthes detesta aborrecer-se, mas oferecem-lhe tantas oportunidades que não lhe resta outra solução se não aceitá-las. Sem saber bem porquê, convenhamos.

 

Os políticos aprenderam já há muito tempo que para se ter sucesso é necessário possuir um elevado grau da arte de enunciar as evidências.

 

Barthes, sempre conciliador, alegava: “Uma evidência não se demonstra, vaza-se.”

 

A arte de governar afinal não passa de nos convencer de que o governo não é responsável por nada.

 

Por isso lhe dói o balanço das contas.

 

“O momento difícil de uma vida, a dele, a vossa, a minha, de toda a vida que se pretende ambiciosa, é aquele em que se inscreve o sinal na parede a dizer-nos que começamos a imitar-nos a nós mesmos.”

 

A linguagem, quer queiramos ou não, serve para produzir uma mensagem que só adquire sentido no momento em que existe um destinatário. Apenas os loucos tagarelam no deserto.

 

Ainda não apurei se o Laurent Binet é ou não um bom romancista, o que sim sei é que a sua fasquia é muito alta, pois considera que “se houver Deus, ele será um mau romancista”.

 

João Madureira

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Segunda-feira, 20 de Junho de 2016

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295 - Pérolas e diamantes: O Lado de Guermantes

 

 

Hoje tencionava falar-vos da razão que leva as pessoas que são vítimas da fome, da incúria, da corrupção e da opressão, de cada vez que há eleições, a darem a sua entusiástica aceitação aos políticos que lhes tornam a vida insuportável.

 

Tencionava, mas já não tenciono. De boas intenções está o inferno cheio. A verdade é que desisti do intento porque não consigo atinar com tais desvarios humanos. Cheguei à conclusão de que estão para lá do meu entendimento.

 

Hoje vou levar-vos “Para o Lado de Guermantes”, o volume três do “Em busca do Tempo Perdido”, de Marcel Proust, que retrata, durante sete livros, uma época e uma consciência da França desde a III República até à Primeira Guerra Mundial. Daí a multitude de personagens socialmente situadas e psicologicamente analisadas com uma minúcia deliciosa e uma subtileza desconcertante.

 

Para Proust, a realidade autêntica vive no inconsciente e só a magia da memória involuntária a recupera.

 

O duque de Guermantes, por exemplo, tem vaidade na mulher mas não gosta dela. Segundo o narrador da “Recherche”, cada um de nós vê mais belo o que vê à distância, o que vê nos outros. Porque as leis gerais que regulam a perspetiva na imaginação tanto se aplicam aos duques como aos outros homens. E não só as leis da imaginação, mas as da linguagem.

 

Naquela época as pessoas eram delicadas e uma dona de casa não podia atrever-se a enviar um cartão acrescentando à mão: “uma xícara de xá”, “um chá dançante”, ou “um chá musical”.

 

Naqueles tempos tomava-se muito chá logo desde pequenino. Mas conhecedoras da delicadeza, as donas de casa, também não ignoravam a impertinência.

 

Os serões da aristocracia eram bem frequentados. As elites eram genuínas. Não faziam de conta.

 

Por exemplo, a senhora Leroi, uma visita lá de casa, conhecia eminentes personalidades europeias. Sendo ela uma mulher agradável que fugia ao tom das literatas, evitava falar das questões do Oriente aos primeiros-ministros, tanto como da essência do amor aos romancistas e aos filósofos.

 

Uma vez, uma dama mais pretensiosa perguntou-lhe o que era o amor. Ela limitou-se a responder: “O amor? Faço-o muitas vezes mas nunca falo dele.”

 

A duquesa de Guermantes, por seu lado, quando as celebridades das letras e da política lhe rompiam portas adentro, limitava-se a pô-las a jogar póquer. Muitas vezes, elas apreciavam mais isso do que as grandes conversas de ideias gerais a que as obrigava a senhora de Villeparisis.

 

Lá pelo meio de esclarecedores diálogos, Bloch lembra-nos que a divina Atena, filha de Zeus, colocou no espírito de cada um o contrário do que está no espírito do outro.

 

E também falavam de “mentalidade”, na nova “mentalidade” que o caso Dreyfus estava a abrir em França e no mundo Ocidental.

 

O duque de Guermantes, um antidreyfusista, que possuía um caderninho cheio de citações e que as relia antes dos grandes jantares, tomou nota dessa nova palavra e prometeu servir-se dela quando achasse conveniente. Desde logo porque lhe agradava. Naqueles tempos nada era deixado ao acaso.

 

Quando alguém achou engraçado um dito espirituoso de apoio aos dreyfusistas, o duque de Guermantes fez questão de dizer que lhe era indiferente que fosse engraçado ou não. “Não dou qualquer importância ao espírito”, rematou. E podia-o fazer porque estava em sua casa.

 

No seu canto a duquesa, murmurava para o seu círculo mais íntimo: “Ele não pensa uma palavra do que está a dizer. É por certo por ter feito parte das Câmaras, onde ouviu discursos brilhantes que não significavam nada.”

 

Viviam-se tempos conturbados. Os mais esclarecidos tentavam atalhar as manobras antimilitaristas por parte da esquerda mais radical. Mas, avisavam, também não tinham de aceitar as disputas encorajadoras por aqueles elementos de direita que, em lugar de servirem a ideia patriótica, apenas pensavam em servir-se dela.

 

Entretanto, os mais libertários faziam o que sempre fazem: pediam o impossível. Pedir tudo é uma forma de não se conseguir nada. É como arrombar uma porta aberta.

 

João Madureira

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Segunda-feira, 9 de Maio de 2016

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289 - Pérolas e diamantes: o presidente, o poeta, o ministro e o homem da fruta

 

 

Espalhou-se entre nós uma espécie de saturação da novidade.

 

Marcelo Rebelo de Sousa, no seu primeiro discurso numa cerimónia do 25 de Abril, armou-se de coragem e distribuiu recados à esquerda e à direita, conseguindo assim receber mais aplausos do que é normal. O país assiste pachorrento a um banho de “marcelomania”.

 

Marcelo, que como é seu timbre e feitio, já foi contra e a favor do Acordo Ortográfico, resolveu ir a Moçambique e, entre outras minudências, mostrou vontade de reabrir a discussão sobre o AO, pois confia que nem Maputo nem Luanda vão ratificar o polémico documento.

 

O ex-comentador político quer a todo o custo surgir como presidente de todos os portugueses e, se não lhe põem barreiras, também de alguns espanhóis e de muitos cidadãos da CPLP.

 

Generoso nos sorrisos, nos abraços e nos beijos, o novo presidente parece querer ser parcimonioso na distribuição das medalhas. No dia 10 de Junho apenas vai condecorar uma pessoa: Margarida de Santos Sousa, a corajosa porteira que socorreu em sua casa feridos dos atentados na discoteca parisiense Bataclan que mataram mais de 100 pessoas, em abril de 2015. Ao contrário de Cavaco, Marcelo pretende ser contido na atribuição de medalhas que considera só se justificarem em casos excecionais.

 

Talvez fascinado com Jerónimo de Sousa, o senhor presidente Marcelo escolheu João Caraça, representante da Gulbenkian em Paris e filho do matemático comunista Bento de Jesus Caraça, para presidir às comemorações do 10 de Junho, que este ano decorrerão na capital francesa.

 

Quem também anda exaltado é o laureado poeta Manuel Alegre que no dia 25 de Abril recebeu o prémio Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores, por pérolas poéticas como esta intitulada “País”: “Não sei se sem poemas há país / ou sem eles se perde o pé a fé e até / esse país que está onde se diz / Ai Deus e o é? // Alguns julgam que é tanto vezes tanto / capital a multiplicar por capital / país é um café e a mesa a um canto / onde um poeta sonha e escreve e é Portugal. // Levantou-se a velida levantou-se a alma. / Por mais que o mundo nos oprima e nos esprema / há sempre um poema que nos salva / país é onde fica esse poema.”

 

Eufórico e a encher-se de prémios e medalhas, o rei do Clube dos Poetas Vivos foi mesmo mais longe, até onde nunca tinha ido, e confessou que não votou no Marcelo Rebelo de Sousa. Mas da próxima vez já não sabe. “Se isto continuar assim, se calhar voto”.

 

Que alegre anda o Manuel da “Praça da Canção”. Já não se canta como soía.

 

Imbuído desta mesma euforia anda também o senhor ministro da Educação que decidiu mais uma vez mudar os currículos das escolas públicas nacionais. Resolveu para isso deixar as instituições decidir 25% dos currículos, criar disciplinas e reforçar matérias. As metas impostas pelo seu antecessor Crato vão ser encurtadas, pois, na sua perspetiva, a “Matemática e o Português são tão estruturantes como as artes”, talvez querendo inverter a ordem dos fatores para servir como metáfora.

 

O senhor ministro faz parte do eterno problema de estarmos sempre a voltar ao mesmo. Cada novo governo cede sempre à tentação corriqueira de mudar o que encontrou feito e concluído. É essa instabilidade permanente que prejudica quem menos devia ser prejudicado em todo o sistema de ensino: os alunos.

 

Finalmente Pinto da Costa vai a julgamento. E não é nem por causa do Apito Dourado ou da salada de frutas em que anda metido vai para alguns anos. Ele, Antero Henrique e outros arguidos serão julgados no âmbito da “Operação Fénix” por terem contratado os serviços de uma empresa de segurança ilegal. Ao todo, são 57 os acusados de associação criminosa, exercício ilícito de segurança privada, extorsão e coacção. 

 

É o FCP a perder em todas as frentes. Três anos de penúria de títulos podem acabar em desastre. Quem anda à chuva molha-se.

 

Arturo Pérez-Reverte tem razão. Aos tontos não há forma de convencê-los a que deixem de o ser. É preciso descer ao seu nível. E, nesse sentido, os tontos são imbatíveis.

João Madureira

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Segunda-feira, 25 de Abril de 2016

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287 - Pérolas e diamantes: o amor e a retórica

 

 

Elias Canetti escreveu que ciência e verdade são conceitos idênticos. Quando uma pessoa se aproxima da verdade afasta-se dos homens. A vida quotidiana, qual auto de fé, é uma teia superficial de mentiras.

A vida ensina-nos, e nós costumamos aprender, a identificar-nos com todo o tipo de pessoas. Depois habituamo-nos. Apanhamos o gosto desse vai e vem perpétuo que nos incita a confundirmo-nos com as personagens que nos agradam.

Há homens que se deixam invadir por aquela sensação maravilhosa de euforia apenas conhecida por aqueles que se dão ao luxo de adquirirem confiança depois de se terem assegurado contra qualquer tipo de deceção.

Para quem o tem, o carácter determina até o aspeto físico. Eu sou um homem alto e magro.

Quem visitar um santuário no Japão com toda a certeza que verá à beira dos caminhos crianças agachadas junto de muitas gaiolas com pássaros cativos. As aves são previamente adestradas a baterem as asas e a alvoroçarem-se com uma cativante e expressiva agitação de trinados e gorjeios.

Os peregrinos budistas que visitam os templos compadecem-se delas e salvam-nas pensando dessa forma salvar as suas próprias almas. Em troca de algum dinheiro, as crianças abrem as portas das gaiolas e libertam os pássaros. Resgatar animais é por lá um costume enraizado.

Não lhes importa minimamente que ainda antes de chegarem ao templo, os passarinhos adestrados voltem a ser novamente engaiolados pelos seus donos.

O mesmo pássaro chega a servir centenas ou mesmo milhares de vezes como objeto da piedade dos peregrinos.

Todos sabem muito bem o que se passa logo após voltarem as costas. Depois de cumprido o ritual, o destino dos animais é-lhes indiferente.

A nossa espiritualidade vive de rituais. As almas, mesmo furiosas, estão vazias. Habituamo-nos a falar de princípios como os cegos falam das cores.

Canetti escreveu que até os homens mais fortes provam a si mesmos a sua integridade fazendo rodeios.

Já Gershom Wald, o personagem culto e torturado de Judas, de Amos Oz, considera que a desconfiança, a mania da perseguição e mesmo o ódio humano são muito menos destrutivos do que, por exemplo, o amor. “O amor do género humano tem um sabor antigo a rios de sangue. A meu ver o amor gratuito é muito pior do que o ódio gratuito: os que amam a humanidade inteira, os paladinos da redenção do mundo, aqueles que em cada geração se erguem para nos salvar sem que alguém nos salve deles, esses são justamente…”

Não, não tenham receio de contradizer o escritor. Antes pelo contrário, ele anima-se quando discordam dele. Até o podem morder, mas desde que sejam mordidelas a brincar. Nem tudo é para ser seguido à letra. Senão éramos todos ou escritores ou cães. Valha-nos Deus. Está na hora de bebermos um chá.

Se calhar está também na hora de escrever um poema novo. O problema surge quando tentamos fugir de um cão raivoso e encontramos um lobo esfaimado.

Termino citando o sábio e amargurado israelita Gershom Wald, que perdeu o seu filho único na guerra contra o inimigo palestiniano.

“Eu, meu caro, não acredito no amor universal. A capacidade de amor é limitada. Um homem pode amar cinco homens e mulheres, talvez dez e, às vezes, mesmo quinze. E mesmo isso, só raramente. Mas se alguém me disser que ama o Terceiro Mundo no seu todo, ou a América Latina, ou o sexo feminino, isso não é amor, mas retórica. Pura demagogia. Palavra de ordem. Não fomos feitos para amar mais do que um punhado de pessoas. O amor é um acontecimento íntimo estranho e contraditório.”

 João Madureira

 

PS – Jesus e todos os seus apóstolos eram judeus e filhos de judeus. No entanto, na imaginação popular cristã, o único que ficou marcado com o ferrete do judaísmo – e por isso mesmo como representante de todo o povo judeu – foi Judas Iscariote. Quando os enviados dos sacerdotes e os guardiões do Templo vieram prender Jesus, todos os apóstolos se assustaram e, temendo pelas suas vidas, dispersaram rapidamente. Só Judas permaneceu.

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Segunda-feira, 4 de Abril de 2016

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284 - Pérolas e diamantes: o exemplo, o respeito e a tradição

 

Estrabão, já no início do século I d. C., referindo-se aos Belgas, mas pensando com toda a certeza nos Lusitanos, escreveu que “toda a raça a que agora chamam «Gálica» é muito belicosa… mas muito simples. E, por isso, se são provocados, juntam-se de imediato para o combate, abertamente e sem circunspeção, pelo que quem os queira derrotar por meio de estratagemas consegue vencê-los com facilidade.”

 

Por esses tempos, César, diz Suetónio, não se importava com o “estilo de vida nem riqueza dos seus homens, mas apenas com a sua coragem”, por isso construiu um império e chegou a ser seu imperador.

 

Tinha aprendido com as nomeações dos seus tribunos e perfeitos, que o haviam desiludido tempos atrás. Nomeações decididas tendo como base as recomendações e os favores.

 

Na época de César eram raros os filhos dos senadores que não sabiam latim ou grego. Quanto ao grego, o ensino ficou provavelmente a dever-se a um escravo de origem helénica (paedagogus), que tratava das crianças.

 

As figuras passadas eram enfatizadas nas aulas devido ao seu orgulho em serem romanas.

 

As crianças aprendiam a admirar as excecionais qualidades romanas, tais como a dignitas, pietas e virtus, termos que possuíam uma ressonância própria e muito mais poderosa do que o seu equivalente atual, dignidade, piedade e virtude.

 

Dignitas era o comportamento despretensioso que patenteava claramente a importância e responsabilidade de um homem, impondo dessa forma o respeito.

 

Tal comportamento era importante para qualquer cidadão romano, sobretudo se ele pertencia à aristocracia e ainda mais se ocupasse um cargo de magistratura.

 

Naquela altura as elites davam o exemplo ao povo. Atualmente, as nossas elites tendem a seguir os maus exemplos do povo.

 

A pietas abarcava não apenas o mero respeito pelos deuses mas também pela família e parentes, pelas leis e tradições da República.

 

A virtus possuía fortes tendências militares, englobando não apenas a coragem física mas também a confiança, a coragem moral e as qualidades que se exigiam tanto aos soldados como aos comandantes.

 

Os comandantes eram os primeiros a morrer liderando as suas legiões.

 

Atualmente contam-se as verdades aos conhecidos lá de fora, mantendo os que nos são próximos na ignorância.

 

Os líderes invetivam-nos, condenam-nos à sua própria biografia. São por vezes cosmopolitas e mundanos como Mr. Hyde, e, outras vezes, modestos como Mr. Jeckyll. E até jogam connosco à bisca lambida.

 

Procedem como os agricultores relativamente aos patos do curral, cortam-lhes as asas para que não levantem voo quando os outros os chamam nas suas peregrinações para norte.

 

Sozinhos, não sabemos para onde nos dirigirmos. E quando não sabemos para onde ir, nenhum caminho serve.

 

Prometem sempre qualquer coisa que parece que vai chegar e nunca mais chega. São apenas remedeios, preparativos para qualquer coisa que está sempre uns passos mais à frente.

 

Pressentimos a felicidade. Mas quando pensamos que está para chegar, ela passa ao lado, escapa-se, desaparece.

 

Todas as cores partidárias fazem parte da mesma nódoa.

 

Contam-nos sempre a mesma história. Dizem-nos que é verdadeira. Nós sabemos que é mentira.

 

A desilusão é fictícia.

 

Real só mesmo a tristeza.

 

 João Madureira

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Segunda-feira, 7 de Março de 2016

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280 - Pérolas e diamantes: lá à frente também chove

 

E de repente os pais entraram na discussão política em Portugal. E não foi da melhor maneira. O BE comportou-se como um elefante dentro de uma loja de porcelana.

É claro que cada um tem o pai (ou pais) que lhe calhou em sorte. Por exemplo, o pai de Magnus Pym, O Espião Perfeito de John le Carré, era tão aldrabão que se chegava a enganar a ele próprio. E, sobretudo, o que é desprezível, enganava o filho com o amor que lhe devotava.

Um dia o filho, já secretário comercial e funcionário encarregado dos vistos da embaixada britânica nos EUA, respondeu em carta a Rick: “Querido Pai. Fico muito contente por aprovares a minha nomeação. Infelizmente não estou em posição que me permita tentar convencer Pandita Nehru a conceder-te uma audiência, para lhe apresentares o teu plano de apostas mútuas no futebol, embora imagine com facilidade o avanço que isso poderia representar para a economia periclitante da Índia.”

O BE, mais papista que o Papa, resolveu utilizar a imagem de Jesus num cartaz para fazer uma campanha a assinalar a aprovação da lei que permite a adoção por casais do mesmo sexo, dizendo que “Jesus também tinha 2 pais.”

Dois pais também parece ter a brilhante ideia de nacionalizar o Novo Banco: não só o Partido Comunista, o que não é de estranhar, mas também o economista Vítor Bento, ex-conselheiro de Estado, primeiro presidente do ex-BES e um neoliberal assumido.

O Vítor economista veio lançar a ideia, peregrina por certo, de que a eventual nacionalização do NB serve para evitar que a consolidação na banca seja liderada por entidades externas. O PCP aplaude de pé. O PS espera sentado que a solução, qual fruto maduro, lhe caia no regaço.

Taur Matan Ruak, o presidente timorense, talvez sentindo-se órfão de mãe, resolveu acusar os dois putativos pais da independência de Timor Leste, Xanana e Alkatiri, de beneficiarem amigos e familiares em contratos do Estado, comparando tais privilégios aos que existiam no tempo do antigo ditador Indonésio Suharto, que eles combateram de armas na mão.

Matan Ruak disse no Parlamento que Xanana e Alkatiri usam a unanimidade e o entendimento para terem “poder e privilégios”. Bem-vindos sejam pois, estes dois progenitores, ao sistema democrático.

Mas voltemos ao BE. Bernardo Ferrão, no Expresso, disse que “imbecil” era a palavra certa para definir o polémico cartaz sobre a adoção gay com a imagem de JC.

A mim, que sou agnóstico, a provocação aos católicos deixou-me parcialmente indiferente. Não alinho em guerras ideológicas, nem sexuais e muito menos religiosas.

O que me deixa triste é que nem na provocação conseguimos ser criativos. As palavras impressas no cartaz são a tradução de dois placares da St. John’s United Methodist Church, publicitados nos EUA e no Canadá, um em inglês (Jesus had two dads and he turned out just fine) e outro em francês (Jesus aussi avait deux papas!).

É o nosso triste fado, nem na “imbecilidade” conseguimos ser originais.

Esta esquerda chique e bem vestida faz-me lembrar o tio do João, de um texto de António Mota, que depois de o seu sobrinho soprar as velas do bolo de aniversário, pega num caixote, senta-se no terraço e começa a encher balões. E ali fica toda a tarde: Pfffffffff… Pffffffffff… Pfffffffff…. Depois larga-os. E os balões lá vão subindo, guiados pelo vento, em várias direções. Não sabe para onde se dirigem nem onde vão parar. Nem isso lhe interessa. Acredita que algumas das sementes que levam dentro hão de germinar. Claro que dali poderão nascer algumas papoilas, mas delas nunca uma seara rebentará.

Na Tertúlia de Mentirosos, Jean-Claude Carrière refere um conto da tradição chinesa, que passo a contar aos estimados leitores, como forma de conclusão que tem a enorme vantagem de não ser conclusão nenhuma.

Um homem caminha lentamente à chuva. Um outro passa por ele apressado e pergunta-lhe: Porque não andas mais depressa? O homem lento responde: Lá à frente também chove.

 

João Madureira

 

 

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Segunda-feira, 22 de Fevereiro de 2016

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278 - Pérolas e diamantes: a concisão da insinceridade

 

Vendo a guerra de guerrilhas terrorista, bombista e malabarista a alastrar pelas cidades da Europa e a campanha contra o Daesh a alastrar no Médio Oriente, lembro-me de um provérbio Abecásio que diz: “Se a água se incendiar, como é que se pode apagar?”

 

Os abecásios e os georgianos tiveram uma guerra civil há bem pouco tempo, de contornos um pouco sinistros. A implosão da URSS continua a fazer tremer a terra com as suas réplicas.

 

A escola e a cultura da guerra está impregnada na matriz da humanidade. Na Abecásia, quando nasce um menino, os parentes oferecem-lhe um punhal de ouro. Ao lado do punhal penduram um chifre para o vinho.

 

Os abecásios bebem o vinho pelo corno, como se fosse um copo, por isso apenas o podem pousar na mesa depois de o engorgitarem até ao fim. É o alibi perfeito para a borracheira. Depois é só pegar no punhal. O ouro exige mais ouro. A guerra mais guerra. E a borracheira, nova borracheira.

 

Olga V., no livro O Fim do Homem Soviético – um tempo de desencanto, de Svetlana Aleksievitch, conta que um dia os georgianos e os abecásios bombardearam uma jaula de macacos. À noite, os georgianos perseguiram alguém pensando que era um abecásio. Quem mais poderia ser? Feriram-no. Ele gritava, como é natural. Por seu lado, alguns abecásios descobriraram-no e logo pensaram que era um georgiano. Quem mais poderia ser? Perseguiram-no, dispararam contra ele. Quando amanheceu viram que se tratava de um macaco ferido. Tanto abecásios como georgianos declararam uma trégua e foram salvar o macaco. “Se fosse um homem matavam-no… Eles andam como zombies. Acreditam que estão a praticar o bem. Mas será possível praticar o bem com uma metralhadora ou um punhal?”

 

Isto é Kusturica em estilo puro… e duro.

 

Então vamos lá encher de novo os chifres e beber. Vai a cima e vai abaixo, vai ao centro e bota baixo.

 

Por isso é que os homens e as mulheres para semente rareiam.

 

Na Rússia de Putin apareceram uns cartazes que foram muito além da imaginação ao poder do Maio de 68: “Vocês nem imaginam quem nós somos.” Ou este que traduz o bloqueio democrático da nossa sociedade: “Eu não votei nestes patifes, votei noutros patifes.”

 

É mesmo verdade, não existem revoluções de veludo. O campo de batalha é sempre ocupado pelos saqueadores.

 

Gritámos nas ruas que o povo é quem mais ordena. Qual o quê! Os comícios são espetáculos políticos baratos. O circo é bem mais interessante.

 

O povo nunca decide nada, são os indivíduos ilustres aqueles que dispõem as peças do xadrez político a seu belo prazer. Na partição do brinde, eles ficam constantemente com o bolo e a nós toca-nos sempre o buraco, que é ainda menos do que a fava do bolo-rei.

 

Não faz sentido mudar de governo se nós próprios não mudarmos.

 

A grande tese de Darwin não se baseia, como erradamente muitos pensam, na ideia de que são os mais fortes aqueles que triunfam. Darwin chegou à conclusão de que os vencedores da luta pela sobrevivência são os seres mais capazes de se adaptarem ao meio ambiente. São os medíocres aqueles que sobrevivem para perpetuarem a espécie.

 

O filólogo russo Sergei S. Averintsev disse que construímos as pontes sobre os rios da ignorância, mas que, entretanto, as torrentes mudaram o leito dos rios.

 

O futuro, por mais que nos custe a admitir, é absolutamente imprevisível.

 

Perguntaram um dia a Nabokov porque é que juntava os problemas de xadrez com os poemas. Respondeu que os problemas são a poesia do xadrez, pois exigem do compositor as mesmas virtudes que caraterizam toda a arte digna desse nome: originalidade, invenção, harmonia, concisão, complexidade e uma esplêndida insinceridade.

 

Para completar o ramalhete, eu acrescentar-lhe-ia a arte da política, desde logo pela sua admirável “insinceridade”.

 

O meu sonho foi idêntico ao do original escritor, pois sempre ambicionei vir a ter uma longa e excitante carreira como obscuro conservador de lepidópteros num grande museu.

 

Sei que falhei, mas foi por pouco. Mas as borboletas continuam aí à mão de semear.

João Madureira

 

 

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Segunda-feira, 25 de Janeiro de 2016

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274 - Pérolas e diamantes: a serenidade dos sorrisos

 

Continuo a pensar que Jorge de Sena, no seu agreste discurso proferido a 10 de junho de 1977, nas comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, presididas por Vítor Alves, resumiu a alma portuguesa de forma crua, mas real, bem ao jeito dos visionários desprezados pelos medíocres de sempre.

 

Passo a citá-lo, socorrendo-me do livro Vítor Alves – O Homem, O Militar, O Político, de Carlos Ademar: «Continua vivo “esse vício centralista da nossa tradição administrativa”, que, “sem perda da autoridade central”, continua a “manter unido um dos povos mais anárquicos do mundo e o menos realista quando de política se trata (…). Os portugueses são de um individualismo mórbido e infantil de meninos que nunca se libertaram do peso da mãezinha; e por isso disfarçam a sua insegurança adulta com a máscara da paixão cega, da obediência partidária não menos cega, ou do cinismo mais oportunista quando se veem confrontados, como é o caso desde Abril de 1974, com a experiência da liberdade.”

 

Foi com ele que aprendemos o poder de um sorriso sereno.

 

Triste continua a ser o nosso fado. Nos tempos que correm, salvo raras e honrosas exceções, não votamos em alguém. Votamos sempre contra alguém.

 

Esta gente faz sempre o contrário do que dizem os poetas. Por isso é que nunca acertam. Maiakovski avisou: “Primeiro é preciso transformar a vida para cantá-la em seguida”.

 

Cantar por cantar, que o façam os melhores.

 

Costumo encontrar algumas vezes a minha avó passeando no meio dos livros de Gabriel Garcia Márquez. Fico deslumbrado e cheio de saudades.

 

Aparece-me, para meu espanto, vestida com “a escrupulosa serenidade da pessoa acostumada à pobreza”. Quando se lembrava do meu falecido avô João Lorde, evidenciava o seu corpo rígido e seco e “um olhar que raras vezes correspondia à situação, como o olhar dos surdos”. A sua palidez e os seus movimentos “possuíam aquela suave eficácia das pessoas acostumadas à realidade” e revelava sempre “aquela expressão de decorosa simplicidade com que os pobres chegam a casa dos ricos”.

 

Depois ao sétimo dia chove e eu fecho o livro dos salmos tristes. A vida é quase sempre assim. Quase sempre. Quase. Sempre.

 

Eu recordo-me… Amarcord… do lindo caos que se seguiu ao 25 de Abril de 1974, dessa revolução naif onde abundavam as ideias e as quimeras. Também elas murcharam, como os cravos. Agora é tudo de plástico, cravos, comida, ideias e tudo.

 

E depois entrámos na Europa. Bruxelas disse-nos o que tínhamos a fazer. Com a verdade nos enganou. O dinheiro foi distribuído às mãos cheias, mas ao povo chegaram apenas os trocos.

 

Alguma coisa mudou, temos de reconhecer. Os ricos ficaram mais ricos. Os amigos das cores partidárias subiram alto.

 

Atualmente todos achamos que vivemos melhor porque podemos andar num carro em segunda mão que continuamos a pagar ao banco. Os filhos, mesmo os licenciados, vivem às custas dos pais. Uns chamam-lhe progresso, outros crédito.

 

Os que puxam pela memória recordam-se que do 25 de Abril apenas nos resta o feriado. E qualquer dia nem isso.

 

Por hoje termino citando o narrador do romance de Marcel Proust, O Lado de Guermantes, quando semivirado para o seu amigo Robert de Saint-Loup diz: “Cada um é o homem da sua ideia; há muito menos ideias que homens, e assim todos os homens da mesma ideia são semelhantes. Como uma ideia nada tem de material, os homens que só materialmente rodeiam o homem de uma ideia em nada a modificam”.

 

Por tirada tão filosófica, o amigo Saint-Loup «dando-lhe palmadas como a um cavalo que tivesse chegado em primeiro lugar à meta rematou: “Tu és o homem mais inteligente que conheço, sabes”.»

 

Os diplomatas querem saber o que toda a gente pensa, os oportunistas concentram-se em perceber o que as pessoas fazem. Mas só os tolos jogam à roleta.

 

João Madureira

 

 

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Segunda-feira, 18 de Janeiro de 2016

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273 - Pérolas e diamantes: o ardil da cultura

 

Quando lemos livros, muitas das vezes iludimo-nos. Outras, desiludimo-nos. É o ardil da cultura. E, por muito que nos custe, só nos desiludimos porque primeiro algo, ou alguém, nos iludiu.

 

Desta vez enfunei-me como uma vela panda ao vento.

 

A primeira desilusão surgiu-me quando alguém alvitrou a hipótese, consistente por acaso, de Os Lusíadas, de Luís de Camões, serem um plágio da Eneida, de Virgílio.

 

Amuei. Mas continuei a ler ambos os livros sem me importar, por aí além, com a insinuação. A dúvida é legítima. Mas não foram só obras ou gestos dos outros que nós tentámos copiar. Também fomos exemplo.

 

De certeza que se lembram dos principais factos relativos aos primeiros anos da nossa história enquanto nação.

 

Lembram-se, com certeza, que a rainha D. Urraca era a regente do Condado Portucalense, nominalmente dependente de Leão e Castela. Após a sua morte, em 1127, sucede-lhe no trono Afonso VII, intitulado “imperador de toda a Hispânia”. De imediato procurou a vassalagem dos demais reinos e também do Condado Portucalense, que desde há algum tempo evidenciava inclinações autonómicas ou mesmo independentistas.

 

Em 1128, o nosso querido e estimado Afonso Henriques, então com o sangue todo na guelra devido aos seus 20 anos, foi eleito chefe dos Barões, grupo de interesses que temia a influência galega sobre Portucale. Diz a história que o receio foi tanto que o futuro rei se viu forçado a batalhar contra as forças da sua própria mãe, Teresa de Leão, na altura perdida de amores por um nobre galego. Estou em crer que o complexo de Édipo teve alguma coisa a ver com a nossa independência, mas essa já é outra história que aqui agora não cabe.

 

O jovem Afonso Henriques vence as tropas dos seus adversários nos campos de São Mamede e assume a liderança política do condado, manifestando desde logo a firme intenção de lutar pela sua independência. E até alargar as suas fronteiras.

 

Preocupado com esta situação, Afonso VII decide fazer um cerco a Guimarães, na altura sede do condado, exigindo da parte do seu primo Afonso Henriques um juramento de vassalagem. Este decide então enviar o seu aio Egas Moniz como mensageiro para comunicar ao imperador que Afonso Henriques aceitava a submissão.

 

Por várias razões, em 1131, Afonso Henriques decide mudar a sua capital para Coimbra. Não só muda de capital como muda de ideias. Cheio de força, resolve anular os laços que o ligavam a Afonso VII. Em 1137 invade a Galiza e trava a batalha de Cerneja, da qual saem vitoriosos os portucalenses.

 

No meio de tudo isto, está um homem que preza a sua palavra acima de tudo. Como Afonso Henriques não cumpriu o acordado, segundo reza a lenda, Egas Moniz desloca-se a Toledo, então a capital do Império, descalço e com uma guita ao pescoço. Acompanhado pela esposa e respetivos filhos, colocou ao dispor do imperador a sua própria vida e a dos seus, como garantia da manutenção do juramento realizado nove anos antes.

 

O imperador, impressionado com tanta honradez, perdoou-o e disse-lhe para voltar em paz a Portucale.

 

Este episódio é recontado por Camões no Canto III dos Lusíadas (estrofes 35-40).

 

Pois lendo o hilariante A Vida e Opiniões de Tristam Shandy fiquei a saber que o gesto de Egas Moniz foi seguido, aquando de um cerco a Calais, por Eustace de St. Pierre, que num gesto de bravura, foi o primeiro a oferecer-se como vítima para salvar os seus concidadãos, elevando assim o seu nome à fileira de heróis.

 

Na rendição de Calais, em 1347, após um ano de cerco levado a cabo pelo monarca Inglês Eduardo III, os habitantes foram salvos de um massacre pelo tal Eustace, que se apresentou perante o rei descalço e de corda ao pescoço.

 

Foi com o aio do primeiro rei de Portugal que aprendemos a ser pobres mas honrados.

 

Aprendemos isto na escola, na altura em que, como escreveu Jorge Luis Borges, qualquer casa era um candelabro onde ardiam as vidas dos homens como velas isoladas.

 

E é citando o escritor argentino que termino por hoje: “Felizmente, o copioso estilo da realidade não é o único; há também o da recordação, cuja essência não é a ramificação dos acontecimentos mas o perdurar de aspetos isolados. É esta poesia a natural da nossa ignorância, e não vou procurar outra.”

 

 João Madureira

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Segunda-feira, 11 de Janeiro de 2016

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272 - Pérolas e diamantes: a sensatez e a idiotice

 

 

Por cá é mal entendida, e até condenada, a atitude salutar de mudar de ideias. Aqui nasce-se parvo e morre-se néscio. Mas para se mudar de ideias é necessário tê-las. De outra forma é impossível.

 

O mundo dos sábios divide-se entre aqueles que fazem perguntas idiotas sobre coisas sensatas e aqueles que fazem perguntas sensatas sobre coisas idiotas. Nenhum deles dá respostas válidas. Muitos nem sequer se dignam responder. Limitam-se a inverter a ordem dos fatores.

 

Duas palavras há que se adequam perfeitamente ao tempo que vivemos: “equívoco” e “inconsequência”. Os sujeitos que as impõem são quase admiráveis no seu jeito diabólico.

 

Continuamos a viver prisioneiros de dois fantasmas passados: o do Salazarismo e o do 25 de Abril. Por isso somos um país de oportunidades perdidas. A adesão à União Europeia é disso a prova mais concludente. E quanto ao futuro… bem, o futuro virá claramente carregado de tempestade verbal.

 

Relativamente ao fascismo, convém lembrar as palavras de Gregorio Marañon (Psicologia do Gesto): “A grande lição que a história nos dá cada dia, e que nós nunca queremos aprender, é que nunca existiu tirania que não hajam merecido os que a sofrem. Na realidade, o tirano é sempre o vingador das nossas próprias culpas.”

 

Os poderosos deste mundo prometem, e oferecem-nos, como prenda pelo nosso bom comportamento eleitoral um talhão de terreno na Lua. A nós dá-nos sempre um jeitaço. Aos nossos descendentes, quando o espaço lunar se esgotar, dar-lhes-ão uma leira em Marte, talvez com um poço de água salgada no meio. O seu futuro como proprietários é risonho.

 

Os pobres e desventurados encontram sempre uma pedra para atirar a quem está ainda mais abaixo do que eles.

 

Vai um tempo para cavalos loucos. Os defensores do multiculturalismo serôdio conseguiram que, por exemplo, na Grã-Bretanha seja permitido aos prisioneiros a prática do paganismo nas suas celas, incluindo orações, cânticos, leitura de textos “religiosos” e rituais.

 

Os prisioneiros podem usar mantos sem capuz, paus flexíveis em forma de varinhas mágicas, cálices e pedras rúnicas. Estas práticas infantis e ridículas, segundo o Daily Mail de 18 de outubro de 2005, seguiram-se a uma decisão governamental que permitiu a um marinheiro da Marinha Real ter o direito de executar rituais satânicos e adorar o demónio a bordo da fragata HMS Cumberland.

 

No cerne do multiculturalismo está a peregrina ideia do igualitarismo em que a cultura e o estilo de vida de toda a gente têm igual valia e estatuto moral. Ou seja, a moralidade foi privatizada.

 

Atualmente já não se pergunta “o que está correto?”, mas sim “o que é correto para mim?”

 

São Paulo foi substituído por Jean-Jacques Rosseau. O pecado original deu lugar à doutrina da inocência original. O prevaricador foi substituído pelo bom selvagem.

 

A emergência do individualismo e o ataque feroz à autoridade abriram o caminho para uma ofensiva ainda mais fundamentalista à cultura ocidental. As doutrinas niilistas do pós-modernismo hoje em voga reduziram tudo, sobretudo os conceitos de verdade e objetividade, à ausência de sentido.

 

Os códigos morais da nossa sociedade estão a ser profundamente subvertidos e enfraquecidos à medida que caem todas as barreiras. Por exemplo, grupos anteriormente marginalizados, como as mães solteiras ou os transexuais, transformaram-se atualmente nos árbitros da moralidade.

 

Este tipo de relativismo moral leva a que as pessoas sejam incapazes de fazerem distinções morais baseadas nos comportamentos. Este tipo de equivalência ética transforma-se invariavelmente em inversão moral, desculpando os “grupo-vítima” e culpando a “maioria opressora”. Tentam levar a “luta de classes” para o campo dos costumes.

 

Está claro que todas estas questões devem ser discutidas com moderação. Mas nunca devendo esquecer que a tal moderação deve incluir sempre razoabilidade, veracidade e equidade.

 

O que mais me preocupa é ver por aí os nossos pais ou avós encurralados em prédios dotados de conforto e lindas flores de plástico, que já não se chamam asilos, mas antes casas de repouso ou da terceira idade ou outro eufemismo pelo estilo, gastando o tempo que lhes resta com joguinhos de crianças.

 

Os argumentos para a situação até têm o seu peso: os apartamentos em geral são pequenos, cada geração tem a sua própria maneira de viver, os filhos trabalham e por isso não têm tempo para lhes dispensar os cuidados que necessitam. As instituições que cuidam deles prestam-lhes uma eficiente atenção, por vezes até melhor do que a família pode prestar.

 

Tudo isto é verdade. As pessoas são mesmo carinhosas e os profissionais são competentes e atenciosos. Mas o carinho de uma enfermeira, de um médico e de uma assistente social não compensam a solidão porque passam nem substituem o amor e o carinho familiares. Esse é insubstituível.

João Madureira

 

 

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Segunda-feira, 4 de Janeiro de 2016

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271 - Pérolas e diamantes: o capital inútil da inteligência

 

A nossa pobreza ainda não é tão desesperada ou congénita como a dos países latino-americanos (pelo menos a das personagens dos romances neorrealistas brasileiros), conhecida entre nós como pobreza franciscana, mas tem muito a ver com aquele tipo de pobreza confiada na lotaria, no euro milhões e nas raspadinhas.

 

Os remediados apostam mais nas comissões, nas influências, no jogo de bastidores, na má-língua, na hipótese da modesta possibilidade, nas cunhas, recomendações e, na falta disto tudo, na esperança.

 

A nossa pobreza consola-se com a hierarquia e aposta sobretudo em Deus. Mas como todos somos seus filhos, fica-lhe mal escolher um de entre milhões. A isto chegamos com a enorme ajuda dos que nos governaram.

 

No Aleph, Borges, através da voz de um mendigo cego e sábio, dá-nos conta de que “não há geração que não tenha quatro homens justos que secretamente sustentam o universo e o justificam diante do Senhor... Mas onde encontrá-los se andam perdidos e anónimos pelo mundo e não se reconhecem quando se veem e nem eles mesmos sabem do alto mistério que cumprem? Alguém então opinou que, se o destino nos negava os sábios, teríamos que buscar os insensatos.”

 

Esta é a nossa desdita, o de termos escolhidos os insensatos em vez de continuar a procurar os homens justos.

 

Mas estas coisas têm sempre dois pontos de vista, que dependem muito da posição que cada um ocupa na sociedade. Nisso estamos de acordo com Longino que, no seu Tratado do Sublime, refere que o conselheiro de Alexandre o Grande, Parménion, ter-lhe-ia dito que se ele fosse Alexandre aceitaria os termos de paz oferecidos pelo inimigo, ao que Alexandre respondeu que os aceitaria se fosse Parménion.

 

Mas também é verdade que, como muito bem diz o pai de Tristram Shandy, é praticamente impossível assentar duas ideias sobre um assunto sem fazer uma hipálage. E o que é isso?, perguntarão os estimados leitores, como muito bem o fez o tio de Tristram, um indefetível militar de carreira. Ao que o pai de Shandy respondeu: “A carroça à frente dos bois.” Tendo o digno militar, de seu nome Toby, inquirido: “E o que estão os bois a fazer aí?”

 

António Sérgio defendia que a polémica é necessária ao progresso da cultura. Dizia que “o primeiro dever de quem faz críticas é ser crítico (e crítico consigo próprio), como o do guerreiro é guerrear e o do marujo é ser marujo: querer ser crítico e odiar o espírito de livre-exame, é ser marinheiro e ter terror à água”.

 

Luiz Pacheco escreveu um dia que “neste país, de baixo a cima, é tudo acintoso quanto não seja elogioso – que se lixem!”

 

Mas eu ainda sou daqueles que pensam que só os cães têm dono.

 

Dei recentemente uma olhadela ao livro Pessimismo Nacional, de Manuel Laranjeira – por vezes tenho destas depressões intelectuais –, e a sua tese bateu-me fundo. Na sua perspetiva, os portugueses são um povo sem coesão nem consciência cívica, pois a sua única consciência é a “consciência moral do servo”.

 

Atentem nestas suas palavras e depois digam-me de vossa justiça: “Numa terra onde homens de génio como Antero de Quental, Camilo e Soares dos Reis, têm de recorrer ao suicídio como solução final duma existência de luta inglória e sangrenta; numa sociedade onde o pensamento representa um capital negativo, um fardo embaraçoso para jornadear pelo caminho da vida; num povo onde essa minoria intelectual, que constitui, o orgulho de cada nação, se vê condenada a cruzar os braços com inércia desdenhosa, ou a deixá-los cair desoladamente, sob pena de ser esterilmente derrotada; num país, onde a inteligência é um capital inútil onde o único capital deveras produtivo é a falta de vergonha e a falta de escrúpulos…” Afinal, que terra é?

 

O Padre António Vieira explicava: “Se servistes a pátria que vos foi ingrata, vós fizestes o que devíeis, ela o que costuma.”

 

Termino citando Luiz Pacheco: “Revolto-me por coisas de que já tinha obrigação de só rir e pouco”.

 

João Madureira

 

 

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Segunda-feira, 14 de Dezembro de 2015

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269 - Pérolas e diamantes: o estrondo

 

Vaidoso, vulgar, manipulador, demagogo, narcisista, cínico, estatista, burocrata, maníaco, altivo, autocrata, despótico, carismático, egocêntrico, justiceiro, pseudo-iluminado, bimbo, banal, curto, limitado, paroquial, parolo, prepotente, medroso, sem brilho, sem dimensão, arrivista, reacionário, obtuso, confuso, cego, surdo, esquálido, interesseiro, inepto, simplista, oportunista, populista, mediano, salazarzinho de subúrbio, imitação barata, vingativo, tosco, arrogante, um bom hipócrita, pequeno, piroso, pusilânime.

 

Desta forma lisonjeira foi Cavaco Silva caraterizado pelo extinto jornal Independente, dirigido então pelo “irrevogável” Paulo Portas e pelo menino do laço, Miguel Esteves Cardoso.

 

Os autores da compilação são os jornalistas Filipe Santos Costa e Liliana Valente, autores do livro O Independente – A Máquina de Triturar Políticos.

 

Desafio os leitores mais ousados a tentarem riscar um único desses atributos imputados ao senhor presidente Aníbal sem que lhes não pese a consciência por estarem a faltar à verdade.

 

De uma coisa temos a certeza, é que tanto Cavaco Silva como Pedro Passos Coelho, bem assim como o inexprimível Paulo Portas, sempre acreditaram que a governação de um país tem de ser de indiferença face ao empobrecimento generalizado dos portugueses, com a ideia peregrina de que o empobrecimento é moralmente bom pois não só purifica como regenera.

 

No fundo, para eles a pobreza é uma virtude… nos outros. O Estado, qual demónio incandescente, tudo o que toca torna impuro. No fundo sentem que a troika, que eles ajudaram a entrar no país, é uma espécie de castigo divino para redimir os portugueses.

 

Contas feitas, o senhor Passos e o inefável Portas, retiraram a centenas de milhares de portugueses cerca de 25% do poder de compra, gente que está longe de poder ser apelidada de remediada. E nem uma palavra de consolo conseguiu transmitir-lhes.

 

Para eles, o desemprego é apenas uma abstração numérica, uma estatística, uma infelicidade, enfim: o destino.

 

Claro que os tempos são duros e o espaço de manobra acanhado, mas, santo Deus, o entusiasmo verbal com que anunciavam a aplicação das medidas mais gravosas era quase obsceno.

 

O Governo anterior caiu com enorme estrondo porque a maioria dos portugueses percebeu que o discurso fleumático de PPC e PP esteve sempre prisioneiro de meia dúzia de generalidades e vacuidades sobre o país, o seu tecido económico e social, cativo de outra meia dúzia de ilusões, refém de convicções pífias sobre receitas económicas e colado a lugares-comuns sobre a necessidade dos sacrifícios.

 

Estou em crer que não sugeriram a flagelação, o látego e o cilício por considerarem que ainda não se encontravam reunidas as condições para a purificação dos portugueses ser aceite sem alguma revolta. Mas vontade não lhes faltou.

 

A sua estratégia assentou sempre no medo, pois sabem que ele é eficaz como garante da passividade. Depois de interiorizado, o medo conduz à ideia da sua inevitabilidade. Mas o medo é também uma arma de dois gumes, quando termina ou enfraquece, potencia a vingança.

 

Manuel António Pina sempre esteve convicto de que um bom verso tem certamente mais hipóteses de durar do que um primeiro-ministro, ou um presidente. Escreveu numa das suas crónicas que “daqui a 50 ou 100 anos, o mais que algum rato de Universidade provavelmente conseguirá dizer sobre Cavaco Silva depois de ter vasculhado em todos os arquivos, é que foi um primeiro-ministro do tempo de Eugénio de Andrade”. Sobre a sua presidência, estou certo de que nem em nota de rodapé algo será encontrado.

 

No fundo, são eles os responsáveis pelo triunfo da mediocridade e da vulgaridade. Os sonhos de liberdade, de justiça e paz estão hoje reduzidos ao tamanho de um cartão de crédito nas mãos dos empresários de sucesso.

 

Os nossos políticos e governantes são como os chefes de uma repartição do Estado. No fundo limitam-se a executar as decisões tomadas por outros.

 

O corretor da Bolsa de Londres, Alessio Rastani, definiu bem o seu sonho de lobo em relação aos cordeiros que somos todos nós: “O nosso trabalho é ganhar dinheiro com a crise. Todas as noites sonho com mais uma recessão”.

 

Faço votos para que o programa do atual governo não seja mais um exercício de ficção. Não quero que o sonho de Alessio Rastani se transforme outra vez no nosso pesadelo.

 

João Madureira

 

 

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Segunda-feira, 7 de Dezembro de 2015

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268 - Pérolas e diamantes: confissões de um provinciano

 

Chegou agora a vez dos intelectuais entrarem em guerra e de usarem as palavras para desencadear os devidos efeitos colaterais na populaça. Exemplo paradigmático é o de Clara Ferreira Alves atirando fogo sobre as elites: “Temos políticos muito ignorantes”.

 

O nosso diário mais popular, o CM, resolveu, por seu lado, disparar sobre o novo executivo de esquerda: “Costa chama cega e cigano para o Governo”. Com prosa tão elevada, não ficava nada mal que o nosso jornal de referência terminasse a tarefa, sugerindo-lhes nós, para a palermice ficar completa, que os seus jornalistas se atrevessem a escrever “preto no branco”: “Monhé lisboeta chama para o Governo negra, cega e cigano”. Assim ficava o recado dado sem as discriminações evidentes.

 

Já agora talvez até não fosse má ideia sugerir (à cautela, pois têm grandes probabilidades de acertar) que no executivo socialista também estão representados os homossexuais, maçons e até judeus.

 

Já o prestigiado escritor espanhol (madrileno?) Javier Marías deu uma entrevista ao ípsilon onde se fez porta-voz de um antiportuguesismo militante e serôdio. Este intelectual castelhano decidiu lançar mísseis balísticos contra o nosso melhor treinador de todos os tempos dizendo: “Mourinho foi o pior que aconteceu ao Real Madrid em toda a sua história. Não só por ser uma personagem venenosa e contrária ao espírito tradicional do clube, mas também por ser péssimo treinador”.

 

Não satisfeito com a tirada assassina, este admirador de Shakespeare, que encontra inspiração para os títulos dos seus livros nas obras do dramaturgo inglês, profetizou: “Tenho a impressão de que este ano, no Chelsea, os jogadores estão a perder de propósito para se livrarem dele.”

 

Afinal os castelhanos ainda não esqueceram Aljubarrota nem a nossa velhíssima aliança com a Inglaterra.

 

Nós por cá, indiferentes às más-línguas e invejas seculares, lá vamos fazendo a nossa vidinha de todos os dias. Como europeus periféricos, quase suburbanos, empenhamo-nos em exercer cabalmente a nossa vocação de compradores fanáticos. Fazer compras, para nós, é como dançar o vira. Aos fins de semana lá vamos para as grandes superfícies dar liberdade à nossa veia consumista.

 

Depois ficamos inseguros e confrontamo-nos com o eterno dilema cristão: Devemos conquistar a felicidade ou deveremos ser infelizes para que os outros possam ser felizes?

 

Gostamos de ficar sentimentais, como sucede com a gente rude. Por isso simpatizamos com os políticos que exibem a sua generosidade, todos falinhas mansas, muito, mas mesmo muito, simpáticos, visitando eleitores pobres e idosos em misericórdias, sorrindo, beijando crianças, cumprimentando toda a gente com o ar mais aprazível do mundo… e desaparecendo logo que as câmaras das televisões se desligam.

 

E apreciamos aqueles comentadores que quando lhe fazem a pergunta que encomendaram ao apresentador do programa respondem sempre que a questão tem várias respostas. De seguida catalogam-nas em A, B e C; sendo que a C vem depois da B e a B logo a seguir à A. Mas também temos de contar com a D, a E e muito possivelmente com a F.

 

São pessoas chatas. Alguns de entre nós, os mais educados, consideram que os Marcelos, os Marques Mendes, os Santanas e os Vitorinos, são chatos, não por quererem, mas porque já nasceram assim. Argumentam que ninguém nasce chato por intenção, tal e qual como não se possui um nariz como o do Pinóquio, ou o do Sócrates, porque nos apetece.

 

Outros, nos quais me incluo, acham que as pessoas são chatas deliberadamente. É uma opção pessoal. O que eles verdadeiramente apreciam é o prazer de ouvir a sua própria voz, quer ela seja nasalada, rápida, arrastada ou simplesmente rrridícula…

 

Nós por cá costumamos dizer que alguém possui tendências artísticas quando diz que leu para aí mais de vinte e cinco livros, que consegue pronunciar Baudelaire corretamente e que sabe distinguir um champanhe Moët & Chandon de uma garrafa de espumante da Raposeira, ou um Brie de um Camembert.

 

Os snobes fascinam-nos. Mesmo os revolucionários que sonham com a sociedade onde todos lerão Shakespeare nos transportes públicos e aprenderão a tocar saxofone ou flauta transversal.

Kipling escreveu que cada um tem o seu medo, ou coisa parecida. O meu medo é esse mesmo: o medo de ter medo deles.

 

Afligem-me porque são pessoas que combinam em doses certas a beleza, a experiência, a vaidade e a crueldade. Tudo isto embrulhado com o papel celofane da ingenuidade.

 

Pobre de mim, que sou tão provinciano.

 

João Madureira

 

 

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Segunda-feira, 30 de Novembro de 2015

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267 - Pérolas e diamantes: o estado das coisas

 

Portugal é um país invejoso. Repare-se por exemplo no tom pomposamente difamatório e hipócrita que tantas vezes carateriza a cobertura televisiva de determinados acontecimentos, ou interprete-se o quão satisfatório é para as pessoas verem os outros portugueses serem humilhados.

 

Tudo isto originado e produzido pela televisão. Umas vezes em direto e outras em diferido. De facto, a vida dos portugueses tem o formato e a qualidade dos folhetins televisivos. É artificial e quase sempre medíocre.

 

O jornalista, e ensaísta inglês, Malcolm Muggeridge referiu esta triste evidência quando se deu conta que “a televisão não foi inventada para tornar os seres humanos desprovidos de conteúdo, mas é uma emanação da vacuidade deles”.

 

Os chineses possuem uma fórmula simpática e inteligente de abençoar as pessoas dizendo: que possas viver em tempos desinteressantes.

 

Quando oiço a gente que pertenceu ao famigerado governo de Passos Coelho e Paulo Portas falar do sucesso da sua governação lembro-me sempre de um meu amigo que quando alguém, muito compenetrado, lhe disse isso se riu tanto que caiu do sofá.

 

Quão admiravelmente eles argumentaram, e argumentam, baseados em factos errados e respondendo sempre num tom que é constituído por duas partes de brincadeira e apenas uma parte séria.

 

Tristram Shandy conta que os antigos Godos da Alemanha se fixaram primeiro na região entre os rios Vístula e Oder. Depois assimilaram os Hérulos, os Rúgios e outros clãs dos Vândalos. Possuíam estes povos o sensato hábito de debaterem sempre duas vezes as coisas de importância para o Estado.

 

Uma vez faziam-no sóbrios e outra bêbados. Sóbrios para que não lhes faltasse prudência e bêbados para que não lhes falhasse o vigor.

 

Dessa forma também agia o pai do opinativo Tristram. Sempre que alguma questão difícil e de maior gravidade necessitava de ser resolvida na família, e para a qual fosse necessária ao mesmo tempo grande sobriedade e grande vigor e determinação, ele reservava a noite de um domingo de cada mês, bem assim como a noite de sábado imediatamente anterior, para a debater na cama com a sua esposa. Desta forma gerou o hilariante Tristram.

 

A isto chamava o senhor, um tanto humoristicamente, os seus leitos de justiça.

 

Mas porque duvidava um pouco da bebida, o progenitor de Tristram Shandy adaptou o procedimento, reservando no entanto toda a filosofia a ele inerente.

 

Em todas as discussões delicadas, quando previa que não conseguia dar um passo sem correr o risco de ter “as suas senhorias, ou as suas reverências” a caírem-lhe em cima, escrevia tudo com a barriga cheia e depois corrigia em jejum. Ou então escrevia em jejum e só depois corrigia com a barriga cheia.

 

Quando escrevia de barriga cheia, fazia-o como se nunca mais tivesse de escrever em jejum enquanto vivesse, isto é, livre das preocupações e dos terrores do mundo.

 

Mas quando redigia em jejum, a história já era completamente diferente, pois manifestava pelo mundo toda a consideração e respeito possíveis.

 

Também eu manifesto pelo mundo toda a consideração e respeito possíveis e “mostro-me dono de um quinhão tão grande (pelo menos enquanto dura o jejum) dessa virtude subalterna da discrição como os melhores de entre vós”.

 

Penso que tal procedimento “vos há de fazer bem ao coração. E à cabeça também, contando que o entendais”.

 

Os políticos que já lá vão, sobretudo Cavaco Silva, mas também o Pedro Passos Coelho e Paulo Portas, fazem-me lembrar Proteu, o Velho do Mar da mitologia grega, que tinha o dom da profecia, mas que mudava de forma sempre que o interrogavam, para evitar responder.

 

Eles são todos tão modestos que dão pena. Tal como o pai de Tristram, vou terminar recorrendo à prolepsis (resposta antecipada a um argumento), referindo que a modéstia – tal como a fome, a sede, ou o sono –, não é boa nem má, ou vergonhosa ou outra coisa qualquer. É apenas uma forma hábil de se referirem a Diógenes.

 

João Madureira

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Segunda-feira, 16 de Novembro de 2015

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265 - Pérolas e diamantes: coisas do Mafarrico

 

A política tem apetência pelas leis da simetria.

Todos sabemos que o diabo, por ser calculista e dissimulado, é muito dado à intervenção política. Por isso é que a gente de direita o encosta à esquerda e o pessoal da esquerda o cola à direita.

De facto, o demónio tanto é um funcionário humilde e cumpridor das ordens que lhe dão sem discutir, acreditando servir a pátria, mesmo praticando as suas patifarias reacionárias, descobrindo estupefacto que aprecia a ordem e a hierarquia, sendo por isso profundamente conservador.

Como, por outro lado, o mafarrico é também um exaltado cidadão que contesta todas as ordens impostas pela sociedade burguesa e os seus lacaios, menos as do diretório partidário a que é fiel, crendo servir o seu povo, mesmo executando os seus desaforos revolucionários, ou libertários, ou igualitários, descobrindo que ama a organização, a comunidade e a Internacional, sendo por isso profundamente progressista.

Tanto a direita como a esquerda são, à imagem e semelhança do seu mestre, velhas raposas matreiras, protagonistas de muitas vitórias e outras tantas derrotas, e também capazes de apresentar as últimas como se das primeiras se tratasse.

A verdade é que Mefistófeles deu sempre uma mãozinha a todos os grandes líderes.

Mas numa coisa temos de convir, agora já não se mune dos velhos instrumentos de tortura e por vezes até agita nas mãos o seu raminho de oliveira.

Estou em crer que atualmente é tão centrista que reza para que a breve trecho seja possível um bloco central em Portugal. E quando o diabo reza é porque já está por tudo. Os extremos que se cuidem. Valha-nos Deus.

O mafarrico é mafarrico porque nunca acredita plenamente em ninguém, nem em Deus, e parte sempre do princípio de que cada verdade contém em si mesma uma mentira.

Foi ele quem nos ensinou que a utopia comunista não residia na teoria mas antes na maneira de a transpor para a prática. Como são disso prova irrefutável os milhões de vítimas contabilizados pelas organizações internacionais.

A submissão, uma vez interiorizada, atrofia o ser humano até ao fim da sua existência. O diabo sabe-o melhor do que ninguém.

O mafarrico não sabe discutir, argumentar e fundamenar. Apenas é capaz de mandar e obedecer.

O diabo é mesmo malvado porque só existe na alma de cada ser humano. Os ataques terroristas em Paris são disso o máximo exemplo paradigmático.

Por vezes transforma-se num insuportável comentador televisivo, ou num dos inenarráveis apresentadores de concursos para mentecaptos ou ainda num dono de televisão que diz prestar um serviço público quando não permite que se difunda mais do que lixo telenoveleiro envolto em papel celofane.

Travestido de personagem bíblica, divaga sobre sermões da montanha, camelos que não entram, com vossa licença, no cu da agulha; sobre parábolas de ricos avarentos que morrem sequinhos como as palhas; no milagre da multiplicação dos pães, dos peixes, dos chouriços e dos tachos, panelas e potes para a gente séria dos aparelhos partidários; nos porcos desalmados que se lançam ao vazio estragando tanto presunto, febras e rojões, questionando o auditório com a irrazoabilidade de para se salvar alguma coisa ter de se perder tanta outra.

Por isso é que o diabo nos tenta com a sua tese de que se Cristo viesse de novo à Terra, a História da Humanidade não sofreria qualquer alteração.

O diabo é tão dissimulado que criou uma espécie de síntese entre a verdade e a sonegação de determinados factos sem nunca se poder afirmar que está a mentir.

Convém não esquecer – pelo menos eu não esqueço – que foram os diabretes da direita neoliberal, liderada por Passos Coelho e Paulo Portas, que durante quatro anos de “ajustamento”, e de forma silenciosa, iniciaram a dissolução dos principais organismos do Estado, estigmatizando os funcionários públicos, cortando forte e feio nos salários, congelando as promoções e progressões nas carreiras, desmotivando de forma intencional e assertiva todos os que trabalham na administração central, regional e local.

Mas parece que chegou o tempo do esconjuro. Não sei é, se os exorcistas são capazes de tamanha tarefa.

Vade retro Satanás!

 

João Madureira

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 09:00
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