Segunda-feira, 20 de Maio de 2013

Quem conta um ponto...

 

Pérolas e diamantes (38): implosão e amizade

 

No momento em que escrevo esta crónica está a chover e o dia teima em manter-se triste e cinzento. Também eu estou triste porque sinto a pátria a implodir perante a inépcia de uns e a arrogância de outros. Sinto que o Governo da Nação é um mal sem cura, pois apenas consegue sobreviver da desgraça alheia, alimentando-se do desespero das pessoas, perseguindo e aniquilando classes sociais, direitos estabelecidos e expectativas legítimas. Criando uma tal mol humana de desempregados que é já uma calamidade social da qual talvez nunca conseguiremos recuperar. 

 

Quem serviu o seu país com lealdade não sabe quanto tempo mais será capaz de aguentar sem ser levado a fazer um protesto radical que ponha definitivamente cobro a este atentado à liberdade e à coesão social e política. Este Governo está a por tudo em causa, até a fé.

 

Já não temos fé nem na autoridade, nem na verdade e muito menos nos políticos. Chegamos ao ponto em que questionamos toda e qualquer instituição. Já ninguém acredita em nada. Nem no protesto.

 

Dizem que ele é inútil. Também Cristo protestou e por isso morreu na Cruz. Será que foi inútil o seu sacrifício? Protestar é agora uma obrigação que temos para connosco mas, sobretudo, para com os outros e para com a sociedade em geral.

 

Vivemos num mundo de mentira e arrogância, onde até um Governo eleito democraticamente se acha no direito de perseguir e amedrontar todo um povo. Ainda nos é difícil de compreender esta necessidade de vingança, esta sanha neoliberal, esta afronta aos trabalhadores, esta perseguição sem quartel aos funcionários públicos e aos reformados. 

 

A sociedade ocidental lidou com o comunismo e conseguiu vencê-lo. Agora é imperioso lidar com o capitalismo e domesticá-lo. E a seguir, como muito bem disse John Le Carré, temos de ir saber onde está a esperança, pois neste momento não a conseguimos encontrar. Tal como ele, também nós continuamos à procura da esperança para entender onde é que os nossos filhos e os nossos netos irão viver. É triste chegar a velho e perceber que pouco ou nada muda.

 

O nosso primeiro-ministro, e o seu ministro das Finanças, tal como Thatcher, apaixonaram-se pelo dinheiro, como uns velhos avarentos. E não desistem de tudo privatizarem. Qualquer dia até privatizam o ar que respiramos.

 

Os nossos ministros, especialmente o nosso-primeiro e o seu alter-ego Vítor Gaspar, são como os ministros que povoam o último romance de Le Carré: incompetentes. É muito difícil saber como agir face a tanta ignorância e incompetência ministerial. Afinal, como é que se procede perante a estupidez? Le Carré dá uma pista: “Talvez a esperança esteja apenas naquilo que cada um de nós pode fazer.”

 

Olhando para quem nos dirige, seja no Governo Central, seja nas autarquias, tudo indica que a incompetência é uma espécie de cultura. Parece que alguns rapazes, que nada mais fizeram na vida do que furar dentro dos partidos do poder, resolveram meter-se na política para preencherem o seu vazio, a sua inépcia e as suas frustrações. E agora somos nós os que vamos pagar as vacas ao dono.

 

Definitivamente, os nossos políticos não estão à altura da gravíssima situação histórica em que vivemos.

 

Como lembra o filósofo francês Gilles Lipovetsky, vivemos na era do vazio e na sociedade da decepção.

 

Antes de terminar, aqui deixo um aviso à navegação. Eu nunca compreendi “esse” medo de ficar sozinho. Nisso penso o mesmo que o Pedro Mexia: “Ficamos sozinhos quando somos exigentes. Ficamos sozinhos quando não mentimos. Ficamos sozinhos quando defendemos as nossas convicções. É um preço que estou disposto a pagar. E há, digamos, dez pessoas de quem gosto, dez pessoas sobre quem não me engano, e dez pessoas é um mundo.”

 

E depois o mundo volta a encher-se de pessoas.

 

João Madureira

 

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Segunda-feira, 13 de Maio de 2013

Quem conta um ponto...

 


Pérolas e diamantes (37): humor com humor se paga

 

Há uns dias encontrei o meu bom amigo F. e fiquei radiante. Tanto eu como ele somos, além de amigos, como referi, apreciadores de bons livros de humor, sobretudo de romances picarescos. Dizem por aí que os livros são os nossos melhores amigos, mas permitam-me discordar um poucochinho, pois, apesar de os livros serem dos meus maiores amigos, e eu deles, claro está, os meus melhores amigos ainda são pessoas da qualidade e da humildade do meu afetuoso F.

 

Nós partilhamos muitas coisas, sobretudo amizade, mas também livros e alguma informação acerca deles. Desta vez falei-lhe do meu entusiasmo pelo livro de Jaroslav Hasek, O Bom Soldado Svejk, cujo protagonista vive enredado nas aventuras e desventuras do seu regimento de infantaria durante a Primeira Guerra Mundial. Falei-lhe do tom satírico, que aparece aliado a um uso expedito e subversivo da língua, recorrendo a expressões obscenas, ao calão e a jogos linguísticos de sentido múltiplo, instrumentos que Hasek utiliza magistralmente para evidenciar o absurdo da guerra.

 

Falei-lhe das tragédias ao mesmo tempo terríveis e burlescas de faca e alguidar, da miséria, do horror e da violência, ao lado dos prazeres da vida e do encontro da consolação, que mais não são do que a descrição da natureza humana, e que fazem deste livro um clássico da literatura universal.

 

Eu ali pegadinho ao meu entusiasmo, a ver se o estimulava em relação ao livro e ele a dizer-me que se eu queria falar de humor então que ouvisse esta: “O senhor presidente veio a público afirmar que a Câmara de Chaves fechou as contas relativas ao ano de 2012 com um resultado líquido positivo de 3 milhões de euros. Então como é que uma autarquia cuja dívida, segundo o PSD, é de cerca de 41 milhões de euros, e segundo o PS de Paula Barros, é aproximadamente de cerca de 50 milhões, encerra as contas com resultados líquidos positivos? Será um milagre? Esta é boa não é?” E riu-se. E eu também me ri, por o ver rir a ele. Pois o meu amigo tem um sentido de humor muito apurado e umas gargalhadas contagiantes.

 

Ele para ali: “Ah! Ah! Ah!” E eu também: “Ah! Ah! Ah!” “E olha”, disse-lhe eu, “o soldado Svejk, a páginas tantas, encontra um tal cozinheiro ocultista que confidencia a um segundo-sargento contabilista: ‘Meu caro amigo, existe a precariedade de todas as manifestações, formas e coisas. A forma é precariedade e a precariedade é forma. A precariedade não é distinta da forma e a forma não é distinta da precariedade. O que é precariedade, é forma, o que é forma, é precariedade.’”

 

“E isso que raio é?, perguntou-me ele. E riu-se: “Ah! Ah! Ah!” E eu também me ri: “Ah! Ah! Ah!” “De que ris tu?”, perguntou-me ele. E eu: “Do sutra do cozinheiro ocultista.” E ele: “Eu pensei que era das palavras do nosso ilustre edil. E eu: “A esse senhor já não lhe encontro piada nenhuma.” E ele: “Mas tens de reconhecer que a tem”. E eu: “Piada tem é o Svejk, quando um pouco mais à frente, referindo-se ao tal cozinheiro ocultista diz: ‘Só faz é apreciações um bocadinho disparatadas. Passa a vida a exprimir umas coisas sobre umas formas quaisquer, que uma forma não é uma forma e que aquilo que não é uma forma é que é uma forma e que essa forma, por seu lado, não é forma nenhuma.’” E ele: “É um pouco como João Batista, que apesar de a Câmara ter uma dívida colossal, profere que até encerrou as contas do ano com lucro. Ah! Ah! Ah!” E eu: “Ah! Ah! Ah!” E ele: “O argumento é hilariante, não é? Ah! Ah! Ah!” E eu: “Não, a mim esse tipo de argumentação enganosa não me faz rir. O que me faz rir é o Svejk… Ah! Ah! Ah! Muito mais à frente, diz-lhe o tenente Dub: ‘Penso que está a ver onde quero chegar…’”

 

E ele: “A Câmara de Chaves é uma das 71 autarquias resgatadas (com contrato de empréstimo)…” E eu: “‘Com certeza, estou a ver perfeitamente – respondeu Svejk. – O senhor fala tal e qual o canalizador Pokorný, em Budejovice…’” E ele: “… para poderem pagar as suas dívidas aos fornecedores, transformando a dívida de curto em longo prazo (maturidades entre 14 a 20 anos)…” E eu: “‘Esse, quando as pessoas lhe perguntavam: «Este ano tomou banho no Rio Malse?», respondia: «Não tomei, mas em contrapartida este ano vai ser bom para a ameixa».’  Ah! Ah! Ah!” …

 

E ele: “Ah! Ah! Ah! Isto acontece porque à Camara de Chaves já nenhum banco lhe empresta um tosto. Por isso tem de recorrer ao Estado. Assim como o Estado Português recorre à Troika. Isto quer dizer que a nossa autarquia está arruinada… E eu: “Ou então perguntavam-lhe: «Este ano já comeu cogumelinhos?» e ele respondia «Não comi, mas dizem que esse novo sultão de Marrocos é muito boa pessoa». Ah! Ah! Ah!” E ele: “A Câmara, apesar dos tais 3 milhões de lucro… Ah! Ah! Ah! Pediu emprestado 7.873.426.62 euros. E eu: “Este ano já comeu cogumelinhos? Ah! Ah! Ah!” E ele: “A Câmara teve lucro e viu-se obrigada a pedir um empréstimo de 7.873.426.62 euros. Ah! Ah! Ah!”

 

E eu: “Ah! Ah! Ah! O Svejk é cá um prato.” E ele: “Olha que o nosso presidente não lhe fica atrás. Ah! Ah! Ah!” E eu: “Ah! Ah! Ah!” E ele: “Ah! Ah! Ah!” E eu: “Ah! Ah! Ah!” E ele: “Ah! Ah! Ah!” E eu: “Ah! Ah! Ah!” E ele: “Ah! Ah! Ah!” E estivemos nisto para aí vinte minutos até que chegaram as nossas esposas e demos por terminada a sessão para irmos jantar juntos. Elas, apesar de excelentes esposas e amigas, não possuem, ou não partilham, do nosso sentido de humor.

 

Ah! Ah! Ah!

 

João Madureira

 

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Segunda-feira, 6 de Maio de 2013

Quem conta um ponto...

 

Pérolas e diamantes (36): o pequeno mundo dos políticos

 

 

Há um escritor português contemporâneo que aprecio muito, ou melhor, que tem um livro que me deslumbrou quando o li. O escritor chama-se Mário de Carvalho e livro intitula-se Um Deus Passeando Pela Brisa da Tarde.

 

O livro recomendo-o vivamente, mas desta vez vou falar do escritor, ou melhor, de duas pertinentes e esclarecedoras entrevistas que deu aos periódicos Expresso e Jornal de Negócios. Eu não o acompanho em tudo, pois é muito à esquerda para o meu gosto. No entanto, esta classificação é problemática pois lembro que, nos tempos que correm, até a Dr.ª Manuela Ferreira Leite é vista no PSD como uma terrível e perigosa esquerdista.

 

Mário de Carvalho disse uma frase que me tocou especialmente: “A gravidade puxa-nos para baixo”, querendo com isto referir-se à mediocridade, à intolerância, à inveja, à conspiração e ao compadrio. E justificou-o afirmando que o fascismo é natural nas pessoas, pois elas gostam de mandar umas nas outras. Daí os tiraninhos e os tiranetes de província armados em autarcas e os tiranetes e tiraninhos sentados nas cadeiras do poder em Lisboa, justificando o injustificável, defendendo o indefensável e mentindo como se dissessem a verdade.

 

Pois o que custa, lembra o escritor, é o “progressismo”, porque implica esforço, ir mais além, fixar normas e construir instituições que afastem os homens da animalidade.

 

Nós estamos a entrar num período decisivo da nossa história às arrecuas. E a nós flavienses isso está a custar-nos o dobro, pois se do lado do governo central nos chega a chuva em forma de tormenta, aqui para os lados do nosso concelho troveja forte e feio.

 

Mário de Carvalho disse que, para escapar à repressão fascista, teve de se ausentar do país. E sabem por onde passou? Pois por Chaves, que sempre foi terra de gente hospitaleira, honrada e tolerante. Aqui chegou de camioneta, com a mochila às costas, e, conta ele com algum humor, logo foi catrapiscado por uma mocinha camponesa que com ele engraçou. Mas não teve tempo para o namoro, pois foi levado de táxi até à fronteira e ali atravessou a ribeira pelo caminho de pedras, “como na anedota com Jesus Cristo”.

 

Em Espanha foi dar a uma “terra miserável”, onde mandou chamar, com lhe disseram, o sr. Pepe. Foi na sua casa de novo-rico que dormiu num quarto repleto de bonecas espanholas que mexiam os olhos. Como se o pesadelo das bonecas fosse pouco, o alegre Pepe obrigou-o a escutar a cassete com a canção do “Porompompero” durante toda a viagem. Nunca mais pôde ouvir aquilo.

 

Depois falou dos políticos, pois ele, com a sua idade e experiência, conhece-os de ginjeira. Disse que os atuais são muitos fracos, não querendo com isso afirmar que não são inteligentes, mas que a maioria deles é incompatível com as funções que ocupa e incapaz de compreender um fenómeno nas suas várias dimensões. “São pessoas a quem foram inculcadas, à partida, uma série de noções que estão fechadas dentro delas e não são capazes de lá sair. O seu mundo é muito pequenino.”

 

Depois esclarece a razão pela qual a ideologia dominante dos nossos governantes é contra o Estado e contra a regulação. É que é a necessidade de regulação o que origina a lei. E a lei, para esta gente, é um empecilho (veja-se a contestação surda e mesquinha à Constituição e ao Tribunal Constitucional), um embaraço. Eles são contra o Estado pela simples razão de que é o máximo garante e defensor da lei e da regulação.

 

Sobre o papel dos intelectuais, aos quais o poder tanto persegue e calunia, refere que “o nosso espaço de reflexão individual tem sido assoberbado pelo poder e pelas televisões”. Por isso é que existe a desvalorização dos intelectuais. Uma desvalorização da literatura e das artes. É que “o saber é incómodo, está a mais, é maçador.” Interessa-lhes muito pouco o que possa dizer um filósofo, um escritor ou um cientista. “É um pouco nivelar por baixo”.

 

E este governo, e a grande maioria das autarquias, ao desinvestirem tão drasticamente na educação e na cultura, estão a nivelar por baixo. Muito por baixo. É uma espécie de fascismo servido às pinguinhas.

 

É mesmo como diz um amigo meu: “Semeámos flores, nasceram-nos cardos. Enganaram-nos novamente com a embalagem das sementes. Temos de mudar de vendedor.”

 

 

João Madureira

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Segunda-feira, 29 de Abril de 2013

Quem conta um ponto...

 


Pérolas e diamantes (35): contemplações e algumas deduções

 

 

Foi num fim de semana que finalmente descobri a destrui… desculpem, a transformação do Jardim das Freiras numa praça rasa com um tanque ao fundo. Afinal o seu destino, ou melhor, a sua função, é converter-se num terreiro militar, numa montra de propaganda das nossas forças militares.

 

Em vez de passearmos em redor dos canteiros de flores, vimo-nos, eu e a Luzia, a deambular entre provectas viaturas do exército português, metralhadoras e pistolas com aspeto de serem já do tempo da primeira guerra mundial. Também contemplámos G3 do período da guerra colonial. Ai que saudades!

 

Observámos ainda pais babados a fotografar os seus filhotes alindados com capacetes militares ao volante de carros de assalto blindados. Foi enternecedor observar crianças a brincarem às guerras, os militares a fazerem de animadores culturais e os pais a servirem de repórteres fotográficos, como se estivessem no Afeganistão dos Pequeninos. Uma lágrima rebelde esteve mesmo para me correr pela face abaixo, mas eu, para não dar parte de fraco, consegui aguentá-la. Porra, um homem não chora.

 

Mas não era disto que hoje vos queria falar, mas sim de mais uma apresentação (acho que já vamos na sétima ou oitava) de António Cabeleira como candidato à Câmara de Chaves. Desta vez veio a terreiro afirmar que é o “candidato da verdade”. Mas era escusado, porque no senhor candidato isso é uma redundância. Todos o sabemos.

 

Desta vez veio comunicar que o seu lema é “Todos por Chaves”. O que quer dizer que também me inclui a mim na sua ideia, no seu lema e na sua vontade. Desde já lho agradeço. Mas tenho de lhe pedir desculpas, pois não consigo acompanhá-lo nem na vontade, nem na verdade, nem no lema. Não consigo, não é porque não queira. É mesmo por manifesta incapacidade para o seguir em tão difícil desiderato. Neste caso, desculpe-me senhor candidato, serão “Todos por Chaves”, menos um. No entanto, desejo-lhe as maiores felicidades.

 

Igualmente afirmou que pretende “unir a família social-democrata”. Então ela está desunida? Má notícia nos transmite. Mas acho que exagera. Nós não acreditamos. Que eu saiba ela está mais unida do que nunca. E, como todos sabemos, o povo unido jamais será vencido.

 

Promete ainda “fazer o melhor possível pelos flavienses”. Disso ninguém duvida. Os doze anos de gestão autárquica do PSD são disso a melhor prova: o centro da cidade é hoje um espaço privilegiado de comércio e turismo, a população residente aumentou significativamente, o nosso tecido industrial amplificou-se como nunca. E até já temos uma fábrica de pastéis de nata no imenso complexo construído em Outeiro Seco. E, como se isto fosse pouco, o Hospital de Chaves aumentou as suas valências, o Tribunal ganhou um estatuto de dignidade que a todos enche de orgulho e o Ensino Superior vai ser substancialmente ampliado, pois a UTAD está a pensar seriamente em transferir os seus melhores cursos para Chaves.

 

Além disso, o senhor candidato é um estratega experimentado, sagaz e audacioso. Ora vamos lá às evidências. António Cabeleira, passa de segundo na lista da Câmara a primeiro. João Batista, atual presidente, passa a candidato a presidente da Assembleia Municipal e António Vicente, o atual presidente da AM, passa para 14º na lista da candidatura do PSD. Basta este pormenor para nos apercebermos que quem mexe assim nas listas, é um jogador de xadrez espantoso.

 

Do resto das suas promessas nem é bom falar, pois elas são tão boas, tão atuais e inéditas, que encheríamos páginas e páginas de jornais e mesmo assim, estamos em crer, não conseguiríamos dar-vos nem sequer uma pálida imagem da sua pertinência e profundidade. 

 

Sobre o combate político, AC limitou-se a criticar o PS por ter levantado “suspeitas sem qualquer sentido” em relação à dívida da Câmara, que para o PSD é de 40 milhões e para o PS é de 50 milhões. A nós, seja qual for a cifra parece-nos uma cratera do tamanho das que a chuva provocou em Marvão. A verdade é que o PS de Paula Barros não veio ainda a público apresentar os seus números. Ao que nos disseram, o “aparelho” partidário anda entretido a compor as listas autárquicas. Pelos vistos não consegue fazer as duas coisas ao mesmo tempo.

 

Chegou-nos aos ouvidos que foi constituído em Chaves o “Movimento Autárquico Independente”, mas deve ser boato, pois se nem o PSD nem o PS dizem nada é porque não existe. Nós até vimos um cartaz na sua sede. Mas pode tratar-se apenas de uma alucinação. João Neves não era capaz de fazer uma desfeita dessas aos partidos do sistema.

 

 João Madureira

 

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Segunda-feira, 22 de Abril de 2013

Quem conta um ponto...

 

 

Pérolas e diamantes (34): imagens de uma cidade (III)

 

 

Quando por vezes tive de apanhar o comboio para ir viver durante algum tempo fora da nossa cidade, mal ouvia o barulho da marcha das rodas nos carris, era violentamente tomado pelo sentimento de comunidade e de pertença ao coração de Chaves, como nunca me tinha acontecido antes.

 

Era nos períodos da partida e da chegada que me lembrava, tomado por uma dor ao mesmo tempo absurdamente triste e alegre, da Ponte Romana e sentia dentro de mim o seu tempo antigo, o tempo muito antigo da nossa cidade, a dilatar-se e a preencher-me com a sua figura ancestral e digna.

 

Na cidade havia (há) riqueza, mas conjuntamente pobreza (também ainda a há, e muita), coabitando lado a lado com a nossa grande história. As ruas principais enchiam-se de gente e os bairros metiam-se dentro de si, apesar da sensibilidade evidente das pessoas às novas realidades e às diferentes ideias que chegavam de fora. 

 

Por detrás da sua beleza monumental, era esse o segredo de Chaves: a relação fragmentada, mas duradoura e solidária, da nossa vida quotidiana.

 

As palavras relativas às nossas qualidades gerais, ao nosso espírito gregário, à nossa singularidade enquanto cidade, transformaram-se em discurso indireto sobre a nossa própria vida.

 

Agora, o discurso político e partidário tomou conta do nosso estado mental. Como se lhe pertencesse o núcleo principal da vida da nossa cidade. Mas isso é um embuste. Nós, os flavienses, não os que se dizem, mas os que o são desde sempre e para sempre, constituímos o centro essencial do nosso burgo. Nós mesmos. Não eles, mas nós. Nós os que lhe pertencemos desde sempre e para sempre.

 

Por outras palavras: através da contemplação da nossa cidade, agora quase vencida e acabrunhada, esmagada e triste pelo que lhe está a acontecer, ainda mais triste e acabrunhada do que eu, sinto dolorosamente que alguém tem de lhe deitar a mão para que não feneça debaixo da nossa indiferença.

 

Porque, apesar dos atentados que sofreu, e continua a sofrer, Chaves ainda mantém a sua beleza caraterística, que vagas sucessivas de “bárbaros” não conseguiram destruir. Ainda tem a riqueza da sua história, ainda possui os seus mistérios, que bem podem ser os remédios para os nossos sofrimentos. Talvez tenhamos de amar a nossa cidade como amamos a nossa família. Provavelmente não nos resta outra solução.

 

Numa noite destas, com a cabeça um pouco aturdida por algum vinho, lancei-me de novo numa caminhada pelas ruas mais estreitas e escuras da nossa cidade, para as sentir tremer e dar-me conta da sua tristeza. E senti-me dentro dela como se estivesse num filme antigo de que eu gostava.

 

Não sei porquê, mas senti-me feliz. E foi essa felicidade que quis apanhar para a conservar e poder falar dela como uma possibilidade. Como quem leva à boca um fruto maduro ou como quem acariciava um berlinde quando era criança.

 

Tive então vontade de regressar a casa pelas ruas vazias, sentar-me à secretária e escrever o que estão agora a ler.

 

Mais uma vez volto a citar Joaquim Pessoa: “E porque toda a coragem é necessária, toda a esperança é legítima.”

 

 

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Segunda-feira, 15 de Abril de 2013

Quem conta um ponto...

 


Pérolas e diamantes (33): imagens de uma cidade (II)

 

 

Dizia-me a minha avó: “Tens muito orgulho, meu neto. Mas isso agrada-me. Porque na vida o mais importante não é o dinheiro ou a suposta cultura que vem nos livros, mas sim o orgulho. E é o facto de as pessoas serem orgulhosas o que lhes dá independência e liberdade.”

 

Foi dessa forma que consegui aprender a olhar para a nossa cidade: com orgulho. E ela, a nossa a cidade, retribuiu-me da mesma maneira.

 

Quando se olha uma cidade deste modo, e se vivermos durante muito tempo no seu espaço, para que consigamos fundir as imagens (paisagens, ruas, pontes, praças, casas, jardins, monumentos, pessoas) com os nossos sentimentos mais genuínos e profundos, ao fim de certo tempo tudo isso, tal e qual como as canções que nos recordam paixões, amores e desenganos, transforma-se em princípios que nos revelam em pormenor determinados sentimentos e estados de alma.

 

Por isso é que a nossa cidade (a nossa orgulhosa cidade) é para mim um lugar alegre e acolhedor porque a primeira vez que a vi explodia nela a força telúrica da primavera. Nos seus jardins as crianças e os adultos brincavam, sorriam e falavam com o mesmo entusiasmo e fervor dos pássaros assobiadores.

 

E o Castelo, meu Deus, o Castelo! Observei-o primeiro de longe, quando entrei na cidade numa camioneta onde também vinham a família e a mobília. Mas foi à noite o momento do deslumbramento. A lua transformava os edifícios num admirável conjunto de chiaroscuro (e vai mesmo assim em italiano culto para impressionar) tão ao gosto de Leonardo da Vinci, dando-lhe um ar, como se o resto não fosse suficiente, de um filme de Fellini. Amarcord (io me ricordo). Eu lembro-me!

 

As formas sombrias, banhadas por uma luz prateada e pálida, faziam ressaltar todo o mistério das suas ruas e a majestade do Castelo. A Torre de Menagem, as suas ameias e os telhados das casas sobressaíam na noite como se de uma fotografia inefavelmente bela se tratasse, que vista uma vez apaixona para a vida inteira. A parede grossa das muralhas e a sua fortaleza fizeram-me sentir a sua grandiosidade invencível.

 

A partir daí, esse passou a ser o núcleo fundamental do meu círculo de encanto. O amor é mesmo assim. E quem ama verdadeiramente a nossa cidade sabe de certeza absoluta aquilo a que me refiro.

 

Depois apaixonei-me também pelos seus lugares tristes, que também os tem (e cada vez mais), pelos seus bairros, as suas ruas estreitas, pelas suas paisagens singulares que mudam ao sabor inconformista das estações.

 

Alguma coisa tem de significar nascer num determinado lugar do mundo e em determinado momento da humanidade. Tenho para mim que é nesse “determinismo” que se oculta a misteriosa alquimia entre a formação da nossa própria personalidade e a cidade onde sempre vivemos.

 

Penso que é na captação da luz e das sombras da nossa cidade, na absorção da sua génese e na imersão dentro da sua alma verdadeira que descortinamos a forma e o sentido.

 

Por isso amamos as suas ruelas, os seus monumentos, o seu esplendor e mesmo a sua ruína. Amamos a sua cintilação milenária. Amamo-la porque é nossa, mas, sobretudo, porque lhe pertencemos.

 

João Madureira

 

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Segunda-feira, 8 de Abril de 2013

Quem conta um ponto...

 


Pérolas e diamantes (32): imagens de uma cidade (I)

 

 

Acho que foi Benjamin Disraeli (1804-1881; escritor e político britânico de origem judaica e italiana, com raízes portuguesas e primeiro-ministro do Reino Unido) quem disse: “Se a versão é mais pitoresca do que o facto, conte-se a versão.»

 

E sendo os factos aquilo que são, pelo menos ao nível do nosso burgo e da política que nele se teima em fazer, desta vez vou tentar transmitir a minha versão pessoal do amor por uma cidade.

 

Por muito que o queiramos disfarçar, cada um de nós possui dentro de si um texto que é metade visível e outra metade encoberto, baseado em preconceitos e devaneios, ou, como se costumava dizer noutros tempos, num idealismo que dá ser e sentido ao nosso juízo e às nossas ações. E é nesse texto onde encontramos o objetivo para a vida.

 

Quando me zango, ou deprimo, ou ambas as coisas, a cidade toma por vezes um outro rosto. As cores vivas das ruas e das casas que a fazem ser-nos familiar apagam-se de repente. E as pessoas para nós conhecidas transformam-se em gente misteriosa que desde há séculos caminha desesperadamente pelos passeios em busca de sentido e de um destino promissor, sempre sonhado, mas sempre adiado.

 

Os parques, os jardins e as praças transfiguram-se em sítios despidos e sujos, onde os postes elétricos parecem extraterrestres e os cartazes publicitários cobrem as paredes das casas em ruínas, onde os blocos de betão anónimos e feios adquirem a configuração de mostrengos. Chaves, de repente, fica vazia como a minha alma.

 

Instala-se em mim a sensação de que existe qualquer coisa de insuficiente, de malévolo e de incompleto, tanto na minha alma, como na minha vida, como na cidade. Então conjeturo que o pior ainda está para acontecer, se não tivermos a coragem de atalhar a tempo a génese do seu ressurgimento.

 

Um verdadeiro sentimento de tristeza insuportável e destrutivo se apodera das ruas estreitas e abandonadas e esmaga-me a alma. Mas como não há bem que sempre dure, penso, para meu consolo e sanidade mental, também não há mal que nunca acabe.

 

Esta tristeza, de que toda a cidade se sente aprisionada, apesar do nosso orgulho, e também da nossa resignação, começa a infiltrar-se na alma dos que continuam a acreditar num futuro que seja verdadeiro e não uma ficção estéril e medíocre.

 

Teremos nós o triste desígnio de capitularmos como capitularam os líderes do seu destino mais recente? Ou de cometermos os mesmos erros e apostarmos nas mesmas soluções, nos mesmos protagonistas e nos asfixiantes aparelhos partidários?

 

Houve um período da minha vida em que sozinho (ou por vezes na companhia de um ou dois amigos mais chegados), fazia caminhadas noturnas que duravam horas. Caminhava até onde me levavam as pernas, observava as montras, olhava para os restaurantes, para os cafés, atravessava as pontes, imergia nos caminhos e nos bairros velhos (até morava num), mergulhava na penumbra, dava a volta às praças, sentava-me nos jardins solitários, olhava para os cartazes e as tabuletas, parava à porta do cinema, de onde tinham saído há pouco tempo centenas de pessoas alegres e confiantes depois de terem visto mais um filme de cobóis, ou de amor ou, ainda, um filme histórico ou uma comédia italiana tão ao meu gosto de jovem inocente, olhava para as gotas de chuva caindo nas pedras das ruas, ou nas poças que se formavam, olhava para as luzes da cidade e para os faróis dos carros.

 

Foi nessa altura que se apoderou de mim o desejo, e que ainda mantenho, para mal dos meus pecados, de correr para casa e de fixar essas imagens por escrito, obsessivamente, sentindo em mim a comoção de um sentimento feito de felicidade, de alegria e de ardor. Nessa altura ainda não sabia o que a vida me destinava. Mas acreditava no futuro. Hoje os jovens nem a isso se podem agarrar.

 

João Madureira

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Segunda-feira, 1 de Abril de 2013

Quem conta um ponto...

 


Pérolas e diamantes (31): as previsões e os números

 

 

1 - Correia de Campos, o já saudoso ministro da Saúde de José Sócrates (o Ressuscitado), em entrevista ao “jornal i” afirmou, preto no branco, que “a Troika são pessoas como nós”, o problema foi que encontraram pela frente “uns panhonhas como são os nossos atuais governantes, que não são capazes de bater o pé ou até ficam satisfeitos porque lhes cortaram 600 milhões…”

 

Daí é que enquanto o povo grita “que se lixe a Troika”, Pedro Passos Coelho, Vítor Gaspar e Miguel Relvas ouvem apenas “como é fixe a troika”.

 

Mas o problema não acaba aqui. Nisso todos somos um pouco culpados. Por isso é que Joseph Stiglitz avisa que a “Europa poderá ter de deixar morrer o euro”.

 

Então onde reside a nossa culpa?, perguntarão os estimados leitores. A culpa está no facto de comermos e calarmos, pois todos os sacrifícios que estamos a fazer são quase exclusivamente para mantermos a moeda única europeia.

 

Maria Filomena Mónica insurge-se contra a moda das avaliações estúpidas. E tem razão, pois a sétima avaliação realizada pela Troika foi feita num braço de ferro negocial com momentos que todos adivinhamos de crispação. Mas apenas isso. De facto, o que se tornou evidente é que é o próprio Governo quem desconfia dos seus números.

 

E lá voltamos à pergunta inquietante: Porque é que Gaspar nunca acerta uma previsão? Ele próprio, o sábio que lê o futuro das contas do país nas entranhas das aves, respondeu em direto e ao vivo: “Não sei!”

 

Ou seja, o nosso super-ministro das Finanças erra todos os números e não sabe qual é a razão. É muito provável que o erro seja dos números, ou, ainda melhor, da realidade, da crua e mentirosa realidade que teima em o contestar a todo o momento. Os especialistas registam que o desvio estre “as estimativas originais e os novos números é abissal”. E pode mesmo agravar-se.

 

Mas numa coisa pode este Governo cantar vitória. De facto, a Standard & Poor’s deixou de ter uma perspetiva negativa sobre Portugal. Segundo a sua simpática avaliação, a dívida pública portuguesa estabilizou os seus juros.

 

Por isso rejubilamos, pois à imagem e semelhança da Igreja Católica, cujos cardeais elegeram um Papa admirador dos pobres, e do seu máximo representante na terra, Francisco de Assis, também a nossa dívida sagrada estabilizou no lixo, que é, como muito bem titulou o “Expresso”, o standard dos pobres.

 

Isto apesar de Portugal estar em recessão profunda, de o desemprego estar num nível recorde e dos juros da dívida serem um buraco negro, agora mais ou menos estável, que apenas nos consome mais dinheiro do que toda a riqueza que produzimos enquanto país.

 

Mas rejubilemos, o “franciscano” Papa Francisco tem sentido de humor e não deixa de o evidenciar desde as janelas do Vaticano. Pobretes mas alegretes, lá diz o povo.

 

Henrique Monteiro, na sua coluna do “Expresso”, atento aos sinais, escreveu que “há momentos em que, sem sabermos porquê, somos otimistas.” E por isso vem de encontro àquilo que pensamos, ou nós vamos ao encontro dele, pois para o caso tanto monta.

 

Para o senhor Henrique, “o primeiro sinal é global. A eleição do Papa recaiu num argentino que parece modesto e que gosta”, ó meu Deus, “de futebol e de tango”. Imaginem só!

 

Depois refere outro sinal positivo, o “manifesto” que pede aos deputados uma coisa muito simples: que alterem as regras da sua eleição, para que passe a haver primárias para os eleitores de cada partido poderem determinar quem querem ver a representá-los e, também, que sejam permitidas candidaturas independentes.

 

Ou seja, parece que nesses dois sinais enxerga o otimismo que nos vai contagiar, pois, e é ele que o lembra, amparando-se em “O Leopardo” de Tomasi di Lampedusa, que “se queremos que tudo fique como está, é preciso que tudo mude”.

 

Desta maneira salva-se o Vaticano e a Democracia. A nós, pobres mortais, ou escrivas de província, apenas nos resta esquecer os escândalos de pedofilia no clero, mandar os números do desemprego e os juros da dívida para trás das costas e emigrar. E o último a embarcar que, por favor, não se esqueça de apagar as luzes do aeroporto.

 

Como escreveu o filósofo José Gil, os portugueses estão a ser expulsos do seu espaço e paradoxalmente continuam a habitá-lo.

 

2 – Também cá pelo burgo são os números que dividem o poder, instituído, e a oposição, estabelecida. Não coisas tão triviais, e mesquinhas, como o termos deixado morrer, destruir ou definhar, o Jardim das Freiras, o Jardim Público, o Hospital, o Tribunal, o Centro Histórico, o Comércio Local, as Tradições, as Festas Populares e a Cultura. Aqui mesmo debaixo da nossa pacata indiferença e sob a nossa infinita saudade e compaixão. Não sei se teremos perdão.

 

Mas voltemos aos números da discórdia. O presidente da Câmara sustenta que a dívida do município é de cerca de 40 milhões de euros. A líder da oposição, estabelecida, contrapõe que essa dívida é de cerca de 50 milhões de euros. Por causa do ping-pong, João Batista desafia a líder do PS a mostrar “onde está a dívida escondida”. Cá ficamos à espera, pois com os números, e com a verdade, lembremos, não se brinca.

 

Para nós, cidadãos comuns, apenas nos parece que sendo a dívida de 40 ou 50 milhões é muito dinheiro. Muito dinheiro mesmo, que alguém vai ter de pagar com língua de palmo. Já agora adivinhem quem.

 

Pelo meio, o senhor presidente, face às críticas de dinheiro mal gasto por parte da líder do PS, contrapõe, com o seu característico sorriso e bonomia, que “houve obra e muita”. É até bem possível que exista, mas também é provável que a grande maioria dela esteja escondida em lugar incerto. E, como todos sabemos, o que não é visto não é lembrado.

 

Como muito bem recorda a Bíblia ao comum dos mortais: Não te esqueças que és pó e ao pó vais voltar.

 

Pegando no aforismo, lembramos aos políticos de serviço: Não te esqueças que és povo e ao povo terás de voltar.

 

Que a consciência nos seja leve.

 

João Madureira

 

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Segunda-feira, 25 de Março de 2013

Quem conta um ponto...

 


Pérolas e diamantes (30): a loucura de Nietzsche

 

 

Começo esta crónica quase sem palavras, claramente tão poucas como as que existem no filme “O Cavalo de Turim”, do húngaro Béla Tarr, película que conquistou o Urso de Prata – Grande Prémio do Júri no Festival de Berlim em 2011 – e foi, segundo o autor, o filme que encerrou a sua carreira.

 

O filme começa com o ecrã em negro e com as seguintes palavras do narrador: “Turim, 3 de janeiro de 1889. O filósofo Friedrich Nietzsche sai de casa. Ali perto, um camponês luta com a teimosia do seu cavalo, que se recusa a obedecer. O homem perde a paciência e começa a chicotear o animal. Nietzsche aproxima-se e tenta impedir a brutalidade dos golpes com o seu próprio corpo. Naquele momento perde os sentidos e é levado para casa, onde permanece em silêncio por dois dias. A partir daquele trágico evento Nietzsche nunca mais recuperará a razão. Ficando aos cuidados da sua mãe e irmãs até ao dia da sua morte, a 25 de agosto de 1960.”

 

A seguir vê-se um cavalo a puxar uma carroça e um velho em cima dela. Depois o filme tenta recriar o percurso do camponês, da sua filha, do velho cavalo doente e a sua vida miserável. E não sai disso, metido quase sempre dentro de quatro paredes, numa contemplação aflitiva do vento e das folhas feita através de uma janela minúscula. De Nietzsche nunca mais se ouve falar, nem se sabe muito bem porque foi citado.

 

Eu, ao contrário de Béla Tarr, até vos queria falar do filósofo alemão, designadamente porque queria chegar a Freud, devido ao facto de andar a ler o livro de Michel Onfray, onde o autor pretende demonstrar que o pai da psicanálise é uma fraude, inspirada, sobretudo, imaginem só, em Friedrich Nietzsche. As voltas que a ciência dá!

 

Mas resolvi deixar essa abordagem do “Anti-Freud” para outra altura, porque a figura de Nietzsche a aproximar-se do camponês que chicoteava o cavalo e a tentar impedir a brutalidade dos golpes com o seu próprio corpo, me fez olhar para as notícias dos últimos dias e ficar em estado de choque.

 

Eu explico. Com a crise que o atual Governo da Nação está a impor, a golpes de chicote, ao país, e com o sucesso que todos sabemos, agora já não nos enganam vendendo gato por lebre, como nos bons velhos tempos, mas sim enfiando-nos carne de cavalo por carne de vaca.

 

Eu sei que a carne de cavalo até é mais barata e saudável, que é rica em ferro pois possui um maior teor de hemoglobina, sendo por isso uma forma de tratamento das anemias e até usada por atletas de alta competição. Sei ainda que tem um baixo teor calórico, ao contrário das carnes vermelhas, e que possui, comparativamente, a mesma gordura da coxa de um frango, sendo boa para prevenir, ou mesmo tratar, problemas relacionados com o colesterol.

 

Mas que, por causa da crise, andem a abater cavalos puro-sangue lusitano e garranos aos milhares, para consumo, deixa-me à beira do desespero.

 

O preço de um potro garrano varia entre os 75 e os 100 euros e o do puro-sangue lusitano atinge certamente valores mais altos.

 

Em 2012 foram abatidos 2.803 cavalos, quatro vezes mais do que em 2011, um aumento de 312%. No que diz respeito aos garranos, a carnificina atingiu mais de metade dos poldros do Minho.

 

Parece que já ninguém sabe muito bem aquilo que há de fazer. Neste estado de coisas, além de se abaterem cavalos (o que seria de Nietzsche se lhe tocasse viver em Portugal), também se abatem empregos aos milhares todos os dias. Mas, nesse aspeto, há sempre gente inteligente que sabe muito bem aquilo que tem de se fazer.

 

João Salgueiro, ex-ministro do PSD e membro do Conselho Económico e Social, possivelmente depois de ter lido o capítulo “Do homem superior” (“Assim Falava Zaratustra”, de Friedrich Nietzsche), resolveu citar Keynes: “Se não sabem o que fazer, ponham metade dos desempregados a abrir buracos e a outra metade a tapá-los. O que interessa é que estejam ocupados.”

 

Não sabemos é se com o dinheiro que vão receber, esses fazedores e tapadores de buracos, conseguirão amealhar o suficiente para conseguirem chegar à carne de garrano, pois a de vaca para eles está ao preço do caviar para Cavaco Silva. Por isso tememos que, depois dos cavalos, sejam os burros as próximas vítimas. O problema é que em Portugal os asininos de raça, não os de condição, estão em vias de extinção.

 

Mas voltemos a Nietzsche (“A Ceia”- “Assim Falava Zaratustra”).

 

“E a propósito: não me tinhas convidado para uma refeição? E repara, todos os que aqui estão tiveram de percorrer um longo caminho. Por certo não vais alimentar-nos com discursos!”

 

“E já todos vós falastes demasiado do perigo de se morrer congelado, afogado, ou de qualquer outro mal; mas nenhum de entre vós pensou no mal de que, pela parte que me toca, sofro, e que é a fome.”

 

“Assim falou o Profeta, mas quando os animais de Zaratustra ouviram estas palavras, fugiram apavorados; pois eles bem viam que tudo o que tinham conseguido trazer durante o dia não era suficiente para encher o estômago àquele único profeta.”

 

“ (…) Assim falava Zaratustra – mas o Rei da direita replicou: “É estranho! Já alguma vez se ouviram palavras tão razoáveis sair da boca de um sábio?”

 

“E em verdade, o que de mais estranho se pode encontrar num sábio, é ele ser razoável e não um burro.”

 

“Assim falava o Rei da direita, surpreendido. Mas o burro sublinhou as suas palavras com um I-han! descontente.”

 

Pelos vistos, com o caminho que isto leva, só nos resta juntarmo-nos ao burro do Zaratustra e

fazer: I-han! I-han! I-han! I-han!

 

Nesta época de vacas anoréxicas, está um tempo para cavalos gordos, economistas inteligentes e para burros filosóficos, tenham eles a condição que tiverem.

 

João Madureira

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Segunda-feira, 18 de Março de 2013

Quem conta um ponto...

 


Pérolas e diamantes (29): o protocolo e as coisas

 

 

A arte existe porque a vida não chega, lembra-nos o poeta brasileiro Fernando Gullar.

 

Observo diferentes fotos antigas de Chaves e penso que esta terra já foi berço de excelentes artistas e também de bons estadistas. Homens que entendiam o exercício da política como uma arte. Mas atualmente, Deus meu, tocamos mesmo no fundo. O que temos em termos de ciclo político autárquico é mau e o que se aproxima não será, quase de certeza, melhor. Que Deus nos ajude, se puder.

 

Eu agnóstico me confesso, mas deixo que o materialismo e a metafísica convivam dentro de mim em afetuosa tensão. Nisso acompanho Fernando Gullar. Não sou religioso, nem acredito em Deus. Mas, apesar de o não ser, considero que o Universo é inexplicável.  

 

Inexplicável é também o que os responsáveis atuais fizeram à nossa cidade e ao nosso concelho. Não sei porquê, mas vem-me à memória o título do livro de Arthur Koestler, “O Zero e o Infinito”.

 

Talvez um dia me inspire a escrever um conto intitulado “O Infinito e o Zero”.

 

A cada dia que passa fico mais estupefacto em relação ao mundo. Porque é que existe a matéria em vez do nada? Dizem que o mundo teve um começo. Falam do Big Bang, dessa enorme explosão de energia e matéria. Mas como é que do nada surge uma deflagração dessa magnitude? É um mistério sem decifração.

 

Também o poder autárquico desta última década continua a ser para mim um mistério sem explicação. Como é que gente com tanta falta de talento para a política foi capaz de se impor no seu partido e de ganhar eleições? Eu gostaria de conseguir entender o enigma, porque considero que é melhor ter uma resposta explicativa das coisas do que não a ter. Afinal estamos sujeitos ao acaso, à Teoria do Caos. Em política, particularmente na nossa cidade, tudo pode acontecer.

 

Foi a ler “O Bom Soldado Svejk”, de Jaroslav Hasek, que descobri uma possível resposta, não para a explicação da origem do Universo, pois isso era pedir demais a um livro humorístico, mas sim para a vitória do atual poder autárquico. Que também pode ser extensível a anteriores executivos camarários e de algumas juntas de freguesia.

 

O bom soldado Svejk conta, a dado momento, a história de um homem que num interrogatório, quando lhe perguntaram se tinha alguma objeção ao protocolo, disse: “Independentemente da forma como se passaram as coisas, sempre se passaram de alguma forma, até à data não houve vez nenhuma em que não se tivessem passado de alguma forma.”

 

De facto, em Chaves, depois de tanto esforço por parte das autoridades civis e militares, depois de tantos presidentes de câmara, vereadores, presidentes de junta, assessores, secretários, doutores, arquitetos, engenheiros, deputados, deputadas, governadores civis e marechais, até à data não houve vez nenhuma em que as coisas não se tivessem passado de alguma forma. E nós somos testemunhas de que nunca ninguém pôs em causa o protocolo, independentemente da forma como se passaram as coisas, pois elas, as coisas, sempre se passaram, e passam, de alguma forma.

 

Também nós flavienses, à imagem e semelhança do valente soldado Svejk, perante os absurdos colossais e insondáveis dos nossos políticos, e das suas políticas, resistimos oferecendo a mais veemente cooperação.

 

Foi Montesquieu, nas suas Cartas Persas, que deu origem a uma tradição humorística que pretendia demonstrar quão ridículo é o mundo se observarmos os seus princípios civilizacionais com olhos de um extraterrestre.

 

Estamos em crer que os discursos da gente que nos governa são todos inspirados no coronel Salzburgo, um dos muitos personagens do livro de Hasek. O militar padece da mania de definir enciclopedicamente qualquer objeto que lhe apareça ao alcance da mão, ou do discurso: “Um livro, meus senhores, é um conjunto de folhas de papel de recorte diferente e formato diverso que é coberto de carateres impressos e depois agrupado, cosido e colado. Pois. Sabeis, meus senhores, o que é a cola? A cola é um preparado glutinoso para fazer aderir papel, madeira e outras substâncias.”

 

E perante a nossa teimosia em não querermos ser tratados como imbecis, esses nossos dirigentes de certeza que olham para nós com os olhos, e as intenções, do catequista violento do delicioso livro de Hasek, que “pretendia aproximar toda a gente de Deus” à força de porrada. Pois, como conta o bom soldado Svejk, ele esbofeteou um aluno porque apresentara determinadas dúvidas relativamente à Santíssima Trindade. “Recebeu três estalos. Um por Deus Pai, o segundo pelo Filho de Deus, e o terceiro pelo Espírito Santo.”

 

Estimados leitores, pelo que vou lendo, escutando e observando, cada vez mais me convenço que Mark Twain tem toda a razão: “A Humanidade tem apenas uma arma eficaz: o riso.”

 

E é bem verdade que cá por Chaves também nos rimos… para não chorar.

 

João Madureira

 

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Segunda-feira, 11 de Março de 2013

Quem conta um ponto...

 


Pérolas e diamantes (28): Confissões de um sapateiro

 

 

Por mais voltas que deem aos factos, há pessoas que, devido à sua forte personalidade, se não fizerem parte da solução farão, obrigatoriamente, parte do problema. É a vida, como muito bem diz o meu filho João Vasco.

 

E quem não quer ser lobo não lhe veste a pele. E às bodas e batizados só vão os convidados. Além disso, longe vão os tempos em que fazer política se resumia em sorrir para as câmaras fotográficas, cumprimentar as pessoas e não ter ideias, porque esse é o caminho perfeito para perder a razão e tudo o que se ambiciona.

 

Essa é a perspetiva dos indolentes, dos convencidos e dos autistas. Política sem ideias é um abismo. E quem se mete por esse caminho perde forçosamente. Não só a razão, repetimos, como tudo o resto.

 

A política não tem horror ao vazio, como é vulgar ouvir dizer. Não. A política tem horror à qualidade, à verticalidade, à frontalidade, à independência, à criatividade e às ideias. Então da política na província nem é bom falar.

 

E os aparelhos partidários (Ó meu Deus, os aparelhos partidários!), porque são abstrusos e extremamente conservadores, não toleram e muito menos digerem a divergência e a discussão livre das ideias. Quase sempre rejeitam a qualidade e abominam a independência de caráter e de pensamento. Sobretudo a independência em relação aos poderes instalados.

 

Os aparelhos partidários (Ó meu Deus, os aparelhos partidários!) apenas funcionam em espírito de manada. E, porque são acéfalos, rejeitam a diversidade.

 

Pessoas que pensam da mesma maneira não conseguem adiantar ideias, nem projetos, nem soluções. Unicamente são capazes de discutir e aprovar sempre a mesma ideia, sempre o mesmo projeto, sempre a mesma solução, mesmo que a tentem disfarçar sob o manto diáfano da diversidade.

 

Quando todos pensam da mesma maneira é porque não pensam coisa nenhuma.

 

Por mais que digam o contrário, as pessoas que se metem na política, afirmando sempre que é pela defesa intransigente da causa pública, apenas pensam em si próprias. Pensam sempre primeiro nelas e só depois é que pensam nos outros. Raras são as exceções. E aí estão as distintas regras para o confirmar: os ministros, os presidentes de câmara e a grande maioria dos que aspiram a sê-lo.

 

Eu conheço esses políticos altruístas e os estimados leitores também.

 

Os sorrisos, os abraços, a falta de compreensão da realidade e a total ausência de ideais próprias e consistentes podem ajudar a ganhar eleições, mas nunca conseguirão desenvolver uma cidade, uma região e um país.

 

E aí estão as provas: o país falido, as autarquias empenhadas até às orelhas, os governos regionais insolventes, as cidades a caírem aos bocados, as pessoas no desemprego, muitas delas a passar fome e privações de toda a ordem.

 

Podem dizer-me que nem sempre assim acontece. Mas, cético como sou, desconfio das palavras e atenho-me à realidade. E a realidade diz-me que a história tende a repetir-se indefinidamente.

 

É como nos livros e nos filmes policiais: o criminoso volta sempre ao local do crime.

 

Olho agora para o ecrã do computador e ponho-me a pensar nas variadas situações que fui vivendo nos últimos meses e concluo: Não vá o sapateiro além da chinela. Eu, sapateiro me confesso.

 

E seja o que Deus quiser. O meu peditório acaba aqui, pois já dei para ele mais do que me era exigido. E faço-o com uma citação de um poema do livro de poesia Sentimento do Tempo de Giuseppe Ungaretti: “EternoEntre uma flor colhida e outra dada / o inexprimível nada”.

 

E nunca se esqueçam que nem todas as flores são bonitas, nem todas as flores são úteis, nem todas as flores cheiram bem. Há até flores de estufa que não cheiram a nada.

 

Quando me falam em flores, lembro-me sempre d’ As Flores do Mal de  Charles Baudelaire.

 

Eu, definitivamente, sou mais do lado dos poetas.

 

João Madureira

 

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Segunda-feira, 4 de Março de 2013

Quem conta um ponto...

 

 

Pérolas e diamantes (27): a tempestade e a bonança ou vice-versa…

 

 

 

 

Já a minha avó me dizia: Para perdoar tudo, precisamos de compreender. E eu bem queria compreender porque foi necessário gastar tanto dinheiro na cidade de Chaves e ela estar cada vez mais degradada. Eu bem queria compreender porque se destrói um jardim e em seu lugar se coloca um lajedo tão impessoal e frio que dá pena. Eu bem queria compreender porque se gastaram 500 mil euros na requalificação do Jardim Público e os melhoramentos se limitaram ao abate de árvores centenárias e à destruição de vários canteiros de flores. Eu bem queria compreender porque se levantou duas vezes o piso da Rua de Santo António e postaram lá umas cestas de plástico de um mau gosto inexplicável, para ficar igual ou pior.


 

 

Eu bem queria compreender porque se gastou uma pipa de massa na construção da pomposamente denominada Plataforma Logística e ainda no famigerado Mercado Abastecedor, em Outeiro Seco, para atualmente estarem completamente abandonados. “Atualmente” é uma maneira de dizer, pois é bom que se lembre que desde a sua construção estes “elefantes brancos” estiveram sempre vazios.


 

 

Eu bem queria compreender estas e outras coisas que fizeram à nossa cidade, mas não consigo. Não consigo eu, não conseguem os estimados leitores e, estamos em crer, nem mesmo os mandantes de tais dislates o compreendem.


 

 

Também em Chaves, as exceções são mais do que as regras e as palavras tontas dos nossos autarcas mais do que as mães. Mas numa coisa temos de dar-lhes razão: na sua teimosia em conseguir que o nosso concelho regredisse umas décadas. Aconteceu-lhes o mesmo que aos burros. Eu explico. A população puxou por eles de dianteira, como manda o bom senso. Só que aos burros, se queremos que eles andem para a frente, é preciso puxar-lhes pelo rabo. Enganámo-nos. Enganaram-nos. Mas já aprendemos. Pelo menos o seu jeito e a sua manha.


 

 

Uma pessoa que me quer bem disse-me que é bom que me liberte de sarilhos. “Que sarilhos?”, perguntei-lhe. “Da política”, respondeu-me sem pestanejar. “A política é sempre um sarilho.” Eu disse-lhe que para esse peditório já dei. E, a propósito, citei-lhe o político americano Eugene MacCarthy: «Estar na política é parecido com ser treinador de futebol – tem que se ser suficientemente esperto para perceber o jogo e estúpido ao ponto de julgar que se é importante.» E eu de futebol não percebo nada e muito menos quero ser treinador seja daquilo que for. A mim já me basta o que me basta.


 

 

Por isso nos identificamos muito mais com os movimentos da sociedade civil que fazem manifestações apartidárias. Ali as expressões que dizem respeito aos sentimentos de indignação por parte das populações são genuínas.


 

 

É urgente restaurar a confiança como o valor mais importante das instituições públicas. É necessário colocar à frente das autarquias gente de coragem, gente honesta e trabalhadora e que tenha, acima de tudo, espírito de missão. E por aqui me fico. Ou me queria ficar, não fosse essa pessoa que me estima colocar um ponto de interrogação na equação.


 

 

Disse-me, relativamente à política autárquica, enquanto tomávamos café: “O poder autárquico atual e a oposição são cara e coroa da mesma moeda.” “Como assim?”, perguntei eu. Ao que ela respondeu: “Se de um lado chove do outro troveja.” “Ei, para aí com a trovoada. Não metas tudo no mesmo saco”, avisei-a eu, à pessoa claro. E essa pessoa: “Eu bem não queria, mas não sei, não sei não. É necessário que te vás preparando. À falta de melhor, é bom que não te esqueças de rezar a Santa Bárbara.”


 

 

Confesso que fiquei um pouco perturbado. Eu explico porquê. Essa pessoa é inteligente, muito inteligente mesmo. Apesar de difícil. É tão difícil que as pessoas até têm medo de abrir a boca à sua frente, porque está sempre a interpretar. E repara em todas as nuances e em todos os pormenores. Por isso também é desconfiada. Mas quer-me bem. Eu isso sei-o de fonte segura.


 

 

Por causa das coisas tentei contemporizar. “Sabes que sou simpático até com quem não me paga na mesma moeda.” Aqui fiz um pequeno intervalo porque me ri, e ela, a pessoa que me quer bem, também. Depois continuei: “Muitas vezes não sou bem compreendido naquilo que quero dizer… Mas com a idade fiquei mas sábio, sei quando não devo levar as coisas a peito!” Ela, a tal pessoa que me quer bem, contrapôs: “Tens de aprender a ceder um bocadinho. Ouve o que te dizem os outros. Tu estás sempre a…” “A quê?” “Bom, deixa lá, vamos antes falar de futebol…


 

 

Já a minha avó me dizia: Para perdoar tudo, precisamos de compreender.

 

 

 

 João Madureira


 

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Segunda-feira, 25 de Fevereiro de 2013

Quem conta um ponto...

 

Pérolas e diamantes (26): obsessões

 

 

Enquanto fotografo a Rua Direita, situada bem no centro da minha cidade em ruínas, fixo-me no meu rosto refletido nos vidros das montras das lojas vazias e abandonadas e reparo na minha cara triste e magoada. Penso: Tenho a cara de feição com os tempos que correm. E tento sorrir, mas até o sorriso me sai triste.

 

Penso de seguida, e por um momento, nos homens que dizem que a governam e fico impressionado com tanta palavra vã e com tanto sorriso tonto. Eu sei que o hábito faz o monge, que a sela faz o cavalo, mas não sei se um fato e uma ambição desmedida fazem um bom presidente de câmara.

 

Obsessões, dirão uns, mas eu contraponho que não é por uma mentira ser muitas vezes repetida que passa a ser verdade. E o alardeado progresso dos últimos dez anos de gestão autárquica não passa disso mesmo, de uma mentira constantemente repetida, por muito que se afirme o contrário.

 

E os argumentos que se invocam são tão desfasados da realidade que chegam a ser confrangedores. E olhem que não é por evidenciarem um simplismo aflitivo. Não. O problema está mesmo na sua total falta à verdade. É claro que, como muito bem lembra António Aleixo: «P'ra mentira ser segura / e atingir profundidade / tem de trazer à mistura / qualquer coisa de verdade.»

 

Se tivessem existido políticas de desenvolvimento e progresso, o coração da nossa cidade não estava a cair aos pedaços, o hospital não se tinha transformado num mero centro de saúde, o tribunal não se tinha transfigurado num “juízo de paz” para brincar à justiça, nem os nossos jovens tinham rumado a outras terras à procura de um futuro que a sua lhe nega.

 

Sim, reconheço, essas são as minhas obsessões. Mas a maior é Chaves e a sua defesa intransigente. Essa é a minha obsessão de décadas. Por isso é que continuo a falar de coisas incómodas e de pessoas importantes. Importantes, é bom dizê-lo, no cargo que exercem, mas quase insignificantes na qualidade do seu desempenho.

 

Obsessivos são esses senhores que não querem largar o poder, que se agarram a ele como lapas, que utilizam todas as estratégias para calar e silenciar as vozes incómodas. Esses sim, são obsessivos e a sua obsessão destrói. Destrói casas, ruas, centros históricos, hospitais, tribunais e, o que ainda é mais grave, destrói o futuro e a esperança. Destrói a nossa juventude.

 

E fazem-no porque em vez de tentar compreender e dialogar com os cidadãos do seu concelho e de aproveitarem o saber dos mais capazes e sérios para defenderem a causa pública, são apenas bons a utilizar o trunfo de saber de cor o nome e a morada de todos os militantes e respetivos cônjuges e filhos, a quem, de vez em quando, fazem favores ou arranjam empregos para compensar a militância partidária. Por isso é que não existem na nossa terra associações ou instituições públicas que não sejam controladas por militantes, ou simpatizantes, do PSD. Uma mão chega, e sobra, para enumerar as honrosas exceções.

 

A política, para ser nobre e justa, tem de se basear na defesa de ideais e convicções e não ter um pé na demagogia e outro no arranjismo. Por isso é que os portugueses acham que quem vai para a política vai para fazer o mal e não para fazer o bem.

 

Eu ainda sou do tempo em que quando um homem tomava uma decisão nem duas juntas de bois o demoviam da sua intenção. E lembro-me bem que as pessoas lutavam por um argumento imparcial e não por um tacho ou prebendas. Antigamente os homens justos e honrados negavam-se a apanhar as migalhas que os poderosos, e os seus lacaios, lhes ofereciam. Preferiam passar fome. Podia faltar-lhes o pão, mas nunca lhes faltava a honra e a dignidade.

 

Atualmente tudo se compra e tudo se vende ao desbarato. Eu sei que a honra não se come e a palavra dada não alimenta ninguém, mas é triste ver o preço tão baixo da desonra e assistir aos saldos da palavra dada, dos princípios, da coerência e da honestidade. É triste e confrangedor.

 

Já me tentaram envergonhar pelos meus presumíveis excessos argumentativos em defesa de Chaves e das suas gentes, pelo meu idealismo, aconselhando-me a autocensura, ou a escrever sobre música. Mas eu não segui o conselho porque não consigo. Sou vítima dos princípios indomáveis com que fui criado. E também sei que aquela nossa tão conhecida capacidade de aguentar o inaguentável se volta inexoravelmente contra nós.

 

Eu milito no grupo dos que consideram que é preferível uma derrota a seguir à qual possamos eleger pessoas novas, do que uma vitória e manter os mesmos de ontem. E daqui não saio. O poder pelo poder é uma estupidez.

 

Para terminar, e com a vossa licença, não resisto a citar o Cântico Negro de José Régio: «"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces / Estendendo-me os braços, e seguros / De que seria bom que eu os ouvisse / Quando me dizem: "vem por aqui!" / Eu olho-os com olhos lassos, / (Há, nos olhos meus, ironias e cansaços) / E cruzo os braços, / E nunca vou por ali...»


João Madureira


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Segunda-feira, 18 de Fevereiro de 2013

Quem conta um ponto...

 

Pérolas e diamantes (25): porcos, suspeitos e capitais

 

 

Há pouco tempo deu-se na A1 um descarrilamento de porcos que provocou atrasos nos autocarros que levavam professores para uma manifestação em Lisboa. Os dirigentes sindicais, um pouco a sério e também um nadinha a brincar, levantaram suspeitas de que tantos porcos à solta na autoestrada talvez fosse uma nova arma do Governo contra a contestação dos tão mal amados, e vilipendiados, docentes portugueses.

 

De suspeitos, os porcos, que não os nossos governantes, passaram a vítimas. Pelo menos um foi filmado a levar um pontapé no traseiro por parte de um agente da GNR. Ora tal ato bárbaro fez com que as chefias da GNR se apressassem a condenar a conduta do agente da autoridade e anunciassem a abertura de um inquérito para investigar em que circunstâncias é que o pontapé ocorreu. O GNR vai ser ouvido em breve e, estamos em crer, o porco também. Os nossos governantes é que não, pois têm mais que fazer.

 

De facto, o suíno começa a ocupar o seu verdeiro lugar na nossa sociedade. Já chega de estigmatização de animal tão nobre. Nisso concordo com o Zeca, o protagonista do romance Porno Popeia de Reinaldo Moraes: “O Porco é o melhor amigo do homem, muito mais do que o cão e até do que o frango.”

 

E tanto assim é que Bruxelas impôs a Portugal novas regras que visam garantir o bem-estar dos suínos, propondo mesmo multas para os seus produtores. Essas novas regras visam garantir, por exemplo, a concretização dos, e passamos a citar, “contactos sociais” que as porcas estabelecem facilmente com os outros suínos, mas para as quais necessitam de “liberdade de movimentos e um ambiente variado”, e, continuamos a citar, para que conste, “deverá, portanto, ser proibido manter as porcas em confinamento rigoroso contínuo”.

 

Além de proibir o isolamento, Bruxelas impõe para cada animal espaços com as dimensões mínimas, que serão de 1,64 m2 para marrãs e de 2,25m2 para porcas, além de pavimento sólido com a respetiva drenagem.

 

E é bom que assim seja, pois ele, o nosso conhecido reco, como muito bem defende o Zeca, é o melhor amigo do homem. Pelo menos do homem transmontano. Por exemplo, em Montalegre, a Feira do Fumeiro, também conhecida como a romaria do São João das Chouriças, levou à capital barrosã cerca de 70 mil forasteiros que deixaram lá cerca de milhão e meio de euros. Por isso é que o presidente da Câmara fez um apelo aos jovens para que não emigrem e façam chouriças e outro fumeiro, porque dessa forma cria-se emprego e desenvolve-se a economia local e nacional.

 

Os enchidos, e o restante fumeiro de carne de porco, tornaram Vinhais na capital do fumeiro, Mirandela na capital da alheira, a Mealhada na capital do leitão, Montijo na capital do porco, Barrancos na capital do presunto e Ourique na capital do porco alentejano. Já agora, Chaves é a capital do quê?

 

Sabemos que Olhão é a capital do marisco, Santa Luzia é a capital do polvo, São Brás de Alportel é a capital da cortiça, Portimão é a capital da sardinha, Rogil é a capital da batata-doce, Moura é a capital do azeite alentejano, Estremoz é a capital do mármore, e Chaves, afinal, é a capital do quê? De que raio Chaves é capital?

 

Sabemos também que Bucelas é a capital do arinto, Almeirim é a capital da sopa de pedra, Cartaxo é a capital do vinho, Santarém é a capital do gótico, Bombarral é a capital da pera rocha, Peniche é a capital da onda, Óbidos é a capital do chocolate, Golegã é a capital do cavalo, Marvão é a capital da castanha, Caldas da Rainha é a capital da cerâmica e do comércio tradicional, Entroncamento é a capital do comboio, Ferreira do Zêzere é a capital do ovo, Marinha Grande é a capital do vidro, Alvaiázere é a capital do chícharo, Miranda do Corvo é a capital da chanfana, Lousã é a capital do livro e… Chaves é a capital do quê? De que raio Chaves é capital?

 

Sabemos ainda que Fundão é a capital da cereja, Vila Nova de Poiares é a capital universal da chanfana e do artesanato e da gastronomia, Montemor-o-Velho é a capital do arroz, Coimbra é a capital do saber português, Penacova é a capital da lampreia, Anadia é a capital do espumante, Linhares da Beira é a capital do parapente, Celorico da Beira é a capital do queijo da Serra, Armamar é a capital da maçã de montanha, São João da Madeira é a capital do calçado, Castelo de Paiva é a capital das águas bravas, Penafiel é a capital do vinho verde, Paredes é a capital do design, Paços de Ferreira é a capital do móvel, Felgueiras é a capital do calçado, Favaios é a capital do moscatel, Vila Nova de Famalicão é a capital do móvel antigo, Caldas das Taipas é a capital da cutelaria, Braga é a capital do barroco, Melgaço é a capital ibérica do rafting, Vila Pouca de Aguiar é a capital do granito, Valpaços é a capital do folar e… Chaves, meu Deus, é a capital de quê? De que raio Chaves é capital?

 

João Madureira

 

publicado por Fer.Ribeiro às 09:00
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Segunda-feira, 11 de Fevereiro de 2013

Quem conta um ponto...

 

Pérolas e diamantes (24): a lenta agonia da zona história de Chaves

 

 

Aos domingos, depois do almoço, eu e a Luzia costumamos ir tomar a bica ao Sport e a seguir passeamos pela cidade. No café encontramos sempre as mesmas pessoas. Quase todas elas idosas. Invariavelmente falam umas com as outras ou, então, olham para a praça sempre vazia onde até o tanque e o repuxo deixaram de cumprir com a sua obrigação, pois estão secos e inoperantes. Sinais dos tempos. O quiosque está sempre fechado e o Aurora também. Aos domingos parece que o centro da cidade fecha para balanço.

 

Depois do café tomado descemos a rua de Santo António e, ou viramos à esquerda caras à rua do Olival, ou, então, infletimos à destra para subirmos a rua Direita. Raramente nos cruzamos com mais do que meia dúzia de pessoas.

 

No passado domingo, virámos à direita. Quem diria. O dia estava cinzento e soprava um vento arisco com todo o aspeto de ser galego. Encolhemo-nos dentro dos nossos casacos e lá fomos pelo lajedo fora.

 

Nós já nos habituámos à desolação, mas, mesmo assim, quase sempre subimos a rua em silêncio remordendo a nossa tristeza.

 

Muitas das casas ameaçam ruína, dezenas de estabelecimentos comerciais encontram-se vazios e outros estão de tal maneira protegidos por portas de metal que mais parecem garagens.

 

A tristeza que nos invade não tem fim. Grande parte dos edifícios está habitada por sombras, fantasmas, ratos ou aranhas. Desta vez chegámos mesmo a ouvir o silêncio. Aqui e ali ainda eram visíveis copos de plástico e algumas garrafas de cerveja. São alguns dos vestígios das noites atribuladas na zona histórica da nossa cidade.

 

Vieram-me logo à memória as palavras do senhor Marcolino ao DN: “Vivo nesta rua há mais de 60 anos e nunca vi tal coisa. É um pandemónio. Então à noite é demais, consumo e venda de droga, de álcool por menores na via pública e filas de homens a entrar nas casas onde estão as prostitutas.”

 

Foi este estado de coisas que levou a que alguns dos “heróis resistentes”, que ainda teimam em morar no centro histórico da nossa cidade, elaborassem uma petição pública online onde acusam o executivo camarário de ter pouca, ou nenhuma, sensibilidade para a limpeza da zona, declarando que “nas ruas do centro histórico, por todo o lado se veem dejetos humanos e garrafas de bebidas alcoólicas partidas, as casas estão degradadas, afastando não só a população residente mas também os comerciantes ali instalados há dezenas de anos”.

 

Uma moradora colocou o dedo na ferida: “Como é que se pode morar na zona histórica se atualmente é só droga e prostituição?”

 

O que vai proliferando por ali é a droga e a prostituição, negócios que são ilegais, perigosos e confrangedores. O DN dá conta de que uma senhora de 52 anos que, após ter morado durante quarenta anos na zona, acabou por sair dali devido ao medo. E desabafou: “Dantes só tínhamos a «Z…», mas agora esta tornou-se empresária do ramo e são às dezenas as prostitutas.»

 

E a fama está em crescendo, porque o negócio da droga e da prostituição não tem deixado de aumentar. Mas a agiotagem também se vai governando com a miséria humana, pois ainda há gente que negoceia a cedência de casas degradas para a troca de serviços.

 

As mulheres são de diversas origens. Além das portuguesas, passeiam-se por ali africanas, brasileiras e romenas. Convém talvez dizer que a prostituição por aquelas bandas não é prática recente, desde que Chaves é Chaves sempre existiu esse hábito na zona, só que em pequena escala.

 

Ao DN, curiosamente, nem o senhor presidente da Câmara, nem o senhor vice se atreveram a dar um arzinho da sua graça. Para dar a cara, desculpando a autarquia da situação, o executivo PSD destacou desta vez o senhor vereador Penas que declarou à comunicação social que as situações referidas na petição são da competência da PSP, adiantando que a autarquia está a regularizar o horário do funcionamento dos bares.

 

Pelos vistos, a culpa morre sempre solteira. Mas é importante que se lembre que a responsabilidade pela requalificação urbana é da autarquia, a dinamização das políticas de urbanização é da inteira responsabilidade da autarquia, a defesa do património é da responsabilidade da autarquia e a defesa do bom nome da nossa cidade é da responsabilidade da autarquia. A não ser assim, para que raio serve a Câmara? Para cobrar a conta da água e do saneamento e fazer propaganda ilusória sobre a Eurocidade?

 

O problema é que a nossa Câmara apenas se preocupa com a gestão do dia-a-dia e da dinamização de projetos, ou megalómanos, ou ridículos. António Cabeleira em vez de atuar em defesa da sua cidade e das suas gentes, entretém-se a tecer loas à Eurocidade e a gastar dinheiro em projetos que nada nos trazem, nem nada adiantam.

 

Em vez de requalificar a zona histórica da cidade, que, bem vistas as coisas, é o coração da nossa urbe, esta gestão autárquica consome o tempo a dizer que vai fazer o que não faz, prometendo fundações e outras fantasias que apenas vão contribuir ainda mais para que o buraco financeiro atinja proporções alarmantes.

 

Quando a Câmara remete as culpas da degradação da Zona Histórica para os ombros da PSP só pode ser num ato de profundo cinismo, ou, então, de má-fé. A gestão da nossa urbe está entregue a desistentes, a gente que não ama a sua cidade, que despreza as suas gentes, que maltrata a nossa memória, que colocou em ruínas o coração da nossa velha cidade e que é incapaz de ter uma atitude de dignidade para com os seus concidadãos.

 

Por isso é que a petição põe o dedo na ferida ao acusar os responsáveis autárquicos de “desinteresse” e de prestarem “uma pouco cuidada atenção social e urbanística” à zona compreendida entre a rua Direita e a Rua do Poço, incluindo as ruas de Santa Maria Maior, General Sousa Machado até ao largo da Câmara de Chaves.

 

Os signatários exigem, a quem de direito, uma cidade mais segura e uma mais atenta atuação policial. Jorge Machado, proprietário de um bar na zona, disse à Voz de Chaves que “há um abandono das forças policiais e autárquicas ao contrário do que se passa nas outras cidades, que tentam reavivar e tornar os centros mais atrativos.”

 

Os signatários, e já agora os subscritores, entre os quais eu me incluo, solicitam à Câmara um plano simples de pintura de paredes, colocação de caixotes do lixo nas ruas principais, tomada de medidas para acabar com a degradação dos edifícios que transbordam lixo para as ruas e outras que se venham a mostrar urgentes e adequadas.

 

Mas, estamos em crer, que depois de a autarquia ter gasto todo o dinheiro que tinha, e não tinha, em foguetório e festas e festas e foguetório, o que vai restar é o conhecido gesto do senhor presidente em falar com as pessoas e nada fazer.

 

Os dois primeiros subscritores foram já apanhados nessa estratégia, pois, e passo a citar novamente a Voz de Chaves, “chegaram a reunir com a autarquia flaviense, mas apesar do «interesse» e da «conversa positiva», até hoje nenhuma medida foi tomada”.

 

Enquanto o consumo de álcool, as drogas, a prática de prostituição e as ruas se enchem de lixo na zona histórica da nossa cidade, a autarquia ignora ostensivamente o problema e faz como Pilatos, lava dali as suas mãos.

 

Por isso é que urge devolver a identidade aos flavienses, porque Chaves necessita urgentemente de ser de novo colocada na senda da centralidade e do desenvolvimento, pois, ao contrário do que a gestão de João Batista e António Cabeleira propagandeou aos quatro ventos, a nossa cidade não se modernizou, antes se descaracterizou, não se desenvolveu, estagnou, fruto de uma administração imobilista e apriorística, esbanjou dinheiro à tripa forra, daí a sua dívida real ultrapassar os 50 milhões de euros.

 

É urgente renovar as nossas potencialidades, criar condições de atratividade, fazer com que grande parte dos nossos jovens regressem, motivar os flavienses e acreditar de novo na sua capacidade de trabalho, apostar na criatividade e pugnar pela melhoria de serviços e não pela sua degradação, desqualificação ou extinção.

 

Esta gestão autárquica é, definitivamente, um atraso de vida. E quando for embora já vai tarde.

 

 João Madureira

 

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