Segunda-feira, 15 de Janeiro de 2018

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375 - Pérolas e diamantes: Viver na era do caos

 

O jornalista e ensaísta italiano, naturalizado americano, Federico Rampini veio a Portugal fazer uma análise ampla das tendências políticas e económicas dos últimos 25 anos, partindo do princípio de que vivemos na era do caos, pois a globalização fez falhar muitas das promessas, aumentou as desigualdades, fazendo com que a resposta à incerteza passe pelo populismo e o nacionalismo. Mas, em certos setores, parece que o tal ambiente caótico é visto como o terreno ideal para a criatividade.

 

Foi disso que Rampini veio falar: das ameaças e das oportunidades da era do caos.

 

A nível geopolítico o caos sobrevém das guerras, das guerras civis e da emigração em massa provocada pela instabilidade daí resultante. O segundo caos é a nível económico, com o crescimento incontrolado das desigualdades, sobretudo nas gerações mais jovens. De facto, o futuro parece pouco animador, pois, muito provavelmente, os nossos filhos serão mais pobres do que nós, o que é um fenómeno novo.

 

A maioria de nós já não acredita que com a educação é possível alcançar um melhor nível de vida.

 

Existe ainda o caos ambiental e o caos tecnológico.

 

Em Silicon Valley, as pessoas acreditam que o “caos” é uma palavra maravilhosa. Os que lá vivem e trabalham acham que é fantástico viver num mundo caótico porque é aí que as oportunidades florescem.

 

O caos geopolítico está a ser criado pelo facto de o Ocidente estar a perder a hegemonia, entrando num declínio irreversível. O centro do mundo está a deslocar-se para a Ásia. Isto quer dizer que estamos a entrar num período em que temos o declínio de um império, mas ainda não temos um novo império.

 

Vivemos num mundo que é menos desigual entre nações mas que é mais desigual no seu interior.

 

As desigualdades são tanto ao nível dos rendimentos como das oportunidades. Quando se olha para o sistema educativo vê-se de que maneira a desigualdade de rendimentos, de riqueza, se traduz numa desigualdade de oportunidades.

 

E o sonho europeu também se vai desfazendo à medida que o tempo passa e os problemas não se resolvem. A larga maioria dos países europeus já deixou de acreditar na Europa porque os seus líderes impuseram as famigeradas políticas de austeridade, sobretudo pela pressão da Alemanha. Agora é a sua legitimidade que está em causa. As gerações mais jovens perderam 10 anos das suas vidas sem terem arranjado um emprego a sério.

 

Triunfou a visão mercantilista. Na perspetiva de Federico Rampini, a Alemanha construiu a sua economia de modo a garantir um excedente permanente com os outros países, pois esse país necessita que os outros sejam mais fracos e menos bem geridos, sejam menos competitivos, de modo a que ela própria os absorva. Esta, lembra Rampini, é a regra básica do funcionamento do modelo alemão. Por isso nunca se esforçaram para exercerem uma hegemonia benéfica para o resto da Europa.

 

A crise financeira desencadeou uma nova perspetiva sobre o nosso sistema económico, pois afinal ele não é só ineficiente e instável, como também é profundamente injusto.

 

Todos nós vimos os Governos socorrerem os bancos, mas serem relutantes em estender o subsídio de desemprego aos que, sem culpa nenhuma, não conseguiram arranjar emprego depois de meses e meses de procura.

 

O problema é que o sistema não funciona, pois nem os governos nem o sistema judicial consideraram culpados os promotores da desgraça. Foram os bancos que provocaram a crise e foram os banqueiros aqueles que se safaram.

 

De facto, se ninguém é responsável, se nenhum indivíduo pode ser culpado pelo que aconteceu, isso significa que o problema reside no sistema político-económico.

 

Na sua opinião os políticos traíram-nos, os banqueiros roubaram-nos e, de uma maneira geral, as elites fizeram falsas promessas que não cumpriram, sobretudo em relação à globalização.

 

 João Madureira

 

 

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Segunda-feira, 8 de Janeiro de 2018

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374 - Pérolas e diamantes: O incómodo e a ignorância

 

Há os que são odiados pelo que representam e também há muita gente amada pelo que faz. Juízos de valor não faço. Ensinaram-me que tudo é relativo.

 

A única obrigação que assumi perante mim próprio foi a de escrever o melhor possível. Quando tentamos satisfazer as expectativas e as exigências de outros acabamos, invariavelmente, por cair na mediocridade. Só ouvindo a nossa voz interior é que podemos produzir algo de duradouro.

 

A verdadeira cultura consiste naquilo de que nos lembramos depois de termos esquecido tudo o resto.

 

Acredito na poesia, pois não há dimensão mais espiritual do que a poesia. A poesia é a disciplina suprema.

 

A literatura deixou de ser útil. É apenas residual. Perdeu quase todo o impacto sobre a sociedade. Eu cresci na admiração pelos intelectuais. Eram os heróis do meu tempo.

 

Há por aí espalhado muito talento estéril.

 

O incómodo é permanecermos parados no meio das dúvidas, debaixo de camadas e camadas de hábitos que fazem resvalar o chão que pisamos.

 

Tal como Jonathan Franzen, necessito de ter um romance em construção porque posso frequentar todos os dias esse espaço. Dessa forma a minha vida adquire sentido.

 

Entristeço-me com a falta de cultura, sobretudo com a falta de cultura dos homens que se dedicam à política. Esses enormes burocratas do sistema partidário.

 

Parte substancial dos dirigentes políticos que todos conhecemos foi-se treinando na carreira partidária. Fora daí são como peixe em terra. Começaram desde pequeninos. E foi na prática da vida partidária que adquiriram os tiques conspirativos e manipuladores de direção e gestão.

 

Como todos sabemos, a maioria deles transporta consigo uma simpatiquíssima ignorância. Citam filósofos de trazer por casa e algumas frases e lugares comuns que respigam dos livros de autoajuda. São mestres em literatura de badana e em frases soltas. Não possuem nenhum conhecimento básico consolidado.

 

Foram eles os que nos enganaram, esses lacaios keynesianos, tão amados pelos bancos e pelos média. E também os economistas comportamentalistas que sabiam que o mercado não é influenciado por taxas de juro e flutuações do PIB, mas, sim, pela ganância, pelo medo e pela ilusão fiscal.

 

As pessoas não são pobres por terem tomado opções erradas, tomam opções erradas porque são pobres.

 

A pobreza não é um simples título de jornal. É uma realidade bem lixada.

 

Parece que uns têm de perder para outros ganharem.

 

Querem-nos fazer acreditar que há limites para aquilo que o dinheiro pode fazer acontecer. Mas, por muito que nos custe a todos, não há. O dinheiro é o hábito mais fácil de adquirir.

 

Não interessa de onde as ideias vêm, mas para onde elas vão e nos conduzem. Ninguém consegue ver a floresta estando no meio das árvores.

 

Exasperam-me aqueles políticos que se comportam como os polícias que além de nos passarem a multa ainda nos dão um sermão. Costumo dizer que ou uma coisa ou outra.

 

Depois há os irritantes que nos perguntam aquilo que estamos a ler e que nos dizem aquilo que estão a ler, o que pretendem ler, o que se arrependem de ter lido e que dizem às pessoas aquilo que leram, mas que na verdade nunca leram.

 

Já há muito tempo que me fartei de ser como o Godard, de ver o cinema através dos olhos da crítica.

 

João Madureira

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Segunda-feira, 25 de Dezembro de 2017

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O brincalhão

 

Quem tem amigos não morre na cadeia. Dito de outra forma, os meus amigos são aquilo que eu sou. Eu tenho amigos de todos os gostos e feitios. E gosto de todos eles. De todos sem exceção. Eles são tão diferentes uns dos outros que muitas vezes me pergunto como é que eu posso ser amigo de todos, ou todos podem ser meus amigos, sem nos questionarmos sobre o motivo das nossas diferenças, ou indiferenças. Todos diferentes todos iguais, lá diz, com toda a sapiência, a nossa escola democrática e inclusiva. E, contrariando o José Régio, e apesar de tudo, e apesar do Dantas, do Pim, do Almada Negreiros e do Paulo Portas, eu sei que vou por aí.

 

R. é o meu amigo mais brincalhão. É um patusco. Um homem capaz de pôr uma pedra a rir, ou, o que é ainda mais difícil, pôr a Manuela Ferreira Leite às gargalhadas. Tudo o que ele diz tem o condão de provocar uma risada imediata. Até se ri de si próprio com muita galhardia e independência. Qualquer frase articulada pelo R. tem graça, mesmo quando não tem graça nenhuma. E é isso que ele gere com abundante mestria: a capacidade de, do nada, conseguir estimular um sorriso em toda a gente, quer seja amiga ou inimiga, de esquerda ou de direita, católica ou não católica, homem ou mulher, gay ou lésbica, ecologista ou inimigo da natureza, branco, mulato ou preto, rico ou pobre, transmontano, não trasmontano ou indistinto, etc.

 

A última vez que o encontrei, disse-me, sem se rir, circunstância que provocou de imediato o meu sorriso, que leu numa revista uma reportagem dando conta que a pobreza começa a ser visível em muitos sectores da nossa população. Mas que fome sempre existiu. E que ele foi uma vítima dessa senhora vestida de preto.

 

Por mor das coisas, e do estilo, aqui vos deixo a sua prosa oral em registo direto e ao vivo.

 

«A fome, no meu tempo, provocava o riso, pois os pobres até se riam com ela. E quanto mais fome mais riso. Hoje as crianças pobres queixam-se que as suas mães às vezes só lhes dão meio copo de leite. Antes meio copo do que nenhum. No meu tempo, eu, que até nem era considerado pobre, ao pequeno-almoço, em minha casa classificado como mata-bicho, comia um caldo de unto acompanhado com um naco de pão centeio mais duro do que a própria fome. E ria-me muito quando o meu pai dava um peido e dizia “com a devida licença de vossemecês”. E a fome, desde que não seja permanente, pode ser fonte de saúde. E libertar os gazes do intestino também. Pelo menos é isso o que dizem alguns cientistas. E os médicos informam que devemos comer pouco: pouco peixe, pouquíssima carne, especialmente de vaca, que é a mais cara, e dizem que a abusar nas proteínas abusemos do atum e das sardinhas em lata, que são dos alimentos mais baratos que podemos encontrar em qualquer supermercado. Hoje morre-se muito mais de fartura do que de fome. A maioria das crianças é obesa. E a maioria dos adultos também. E sofrem do colesterol, da diabetes, da hipertensão, tudo doenças provocadas pelo excesso de gordura, sal e açúcares. A pobreza pode ser uma forma de combater esses flagelos. As crianças comem menos, bebem menos, crescem menos, engordam menos, brincam menos, estudam menos e todos sabemos que crianças que estudam menos são muito mais fáceis de aturar, não têm tendência a desenvolver aquele vício irritante de estarem sempre a questionar o porquê das coisas. E os pais podem poupar porque compram menos comida, menos roupa, menos brinquedos e menos livros e cadernos e esferográficas. E os livros são um verdadeiro luxo e custam tanto dinheiro que, a existir poupança na sua aquisição, pode ser encaminhado para uma conta poupança reforma que, a ser iniciada na infância, pode vir a representar a principal fonte de sustento na velhice, pois a segurança social qualquer dia dá o berro.

 

Escrevem por aí os jornalistas que muitas crianças relatam que às vezes querem leite, mas sabem que as mães vão logo dizer não, pois sabem que elas não podem. Se as mães não podem, que peçam aos pais. Pois eles devem servir para alguma coisa. Eu quando era pequeno utilizava muito essa táctica. Quando pedia algo à minha mãe e ela não mo dava, logo de seguida ia ter com o meu pai para ver se conseguia dali alguma coisa. Ele por vezes dava-me o que lhe pedia. Outras vezes não. No entanto nunca perdia a graça e dava sempre um peido repetindo “com a licença de vossemecês”. Era conforme o bom humor e a disponibilidade. Lembro-me que leite não pedia, nem ao meu pai nem à minha mãe, pois sabia que leite era coisa que lá em casa não se consumia. Também dizem que muitas crianças referem que vão a casa da madrinha para tomarem banho. Tomar banho na minha infância era luxo semanal, quando era. Pois no Inverno não havia banho para ninguém. E as casas eram tão frias e acanhadas que só em pensar uma pessoa em despir-se, fosse para o que fosse, podia estimular uma forte constipação ou uma pneumonia. E não havia antibióticos para tomarmos. As doenças eram curadas com o tempo e com a sorte de cada um. E muitos de nós tinham mesmo azar e batiam a bota. Algumas famílias relataram às televisões que jantam muitas vezes arroz com molho. Agora são os pobres aqueles que têm acesso direto aos meios de comunicação social. Raramente lá vemos um rico. Um pobre passa fome, lá vai a televisão a correr bater à porta do casebre para dar voz à pobreza. Ora essas reportagens apenas servem para deprimir ainda mais o país, dando uma má imagem de Portugal, das nossas instituições democráticas, do nosso Governo e, sobretudo, do Estado Social. Muitas vezes comi as batatas cozidas secas acompanhadas com azeite rançoso ou com banha de porco ou os chícharros misturados com couves cortadas sem pinga de gordura, quer fosse vegetal ou animal. E não morri. Nem ninguém foi lá a casa perguntar se tinha fome, se dava banho ou se apenas bebia meio copo de leite ao pequeno-almoço. Antigamente passávamos fome e ninguém se metia connosco, nem ninguém tinha prazer em noticiar a pobreza alheia. Quando andava na tropa e vinha de viagem até cá cima para visitar a família, muitas vezes comi uma sandes de molho de vitela. E ainda cá estou. E também ninguém me entrevistou para o jornal. Cada um vivia como podia sem disso fazer alarde. A pobreza era vivida com vergonha e todos queríamos sair dela. Hoje todos querem ser pobres para aparecerem na televisão ou nos jornais, para serem citados pelos políticos, para serem beijados, abraçados e elogiados pelo presidente da República, para fazerem parte das estatísticas, para lhes darem roupa, comida, carinho, educação e protagonismo. Ser pobre hoje é quase um estatuto. A não se ser rico, o melhor é ser-se pobre. Pois os remediados são tão pobres como os pobres mas não são tão ajudados, nem aparecem tanto na televisão, nem nos programas de apoio ao que quer que seja. Está provado que o cidadão português necessita de ser apoiado em tudo. Um pobre chegou ao pé de um ministro e pediu-lhe uns óculos porque via mal ao longe. Que teve uns mas partiu-os. Outro lamentou-se que os pais dormem nuns cobertores no chão. Uma criança pobre confessou que gostava de fazer uma colecção do Mundial mas o pai não o deixou gastar dinheiro com cromos. À primeira vista todos estes depoimentos são enternecedores. Mas se o senhor ministro desse uns óculos a todos aqueles que os partem até eu partia os meus que já estão gastos, velhos e cansados como o dono. Eu cheguei a dormir num enxergão de palha coberto por um liteiro escutando o gracioso retinir dos guizos das vacas dos meus avós. E que encanto tinha aquele tlintlintlintlim.»

 

Depois de ouvir o meu amigo atentamente, e sempre com um sorriso nos lábios, disse-lhe em jeito de remate, pois tinha de ir passear o cão: «Catarina Portas tornou a falar aos jornais do seu sucesso empresarial e disse textualmente que “o nosso atraso pode ser o nosso avanço”. Com tanto e tão bom atraso é bem possível que esteja carregada de razão. Nós só lá vamos se potencializarmos aquilo no que somos bons: pobreza, lamechice e atraso. Então avante camarada avante…», levantei-me e fui-me embora. Ele, com um sorriso maroto nos lábios, atirou-me: presunção e água benta, cada um toma a que quer…

 

 

PS – Por falarmos em apostar no nosso atraso para conseguir o progresso, aqui fica uma proposta arrojada. Neste Inverno invente e misture peças clássicas gastas, com peças novas dos saldos, dado que agora ninguém se atreve a criticar seja quem for por andar com as calças rotas, os casacos coçados e as sapatilhas sujas, pois isso é tão essencial como usar marcas de criadores nacionais. E sempre fica mais barato. As peças com influências dos anos 50 e 70 invadem as passerelles e representam uma moda orgulhosamente nacional. Por isso tente, pois é no tentar, dizem os mais criativos e empreendedores, que está o ganho.

 

João Madureira

 

 

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Segunda-feira, 18 de Dezembro de 2017

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372 - Pérolas e diamantes: Sinal dos tempos

 

Emmanuel Macron, o Presidente da República francês, disse em entrevista ao Expresso que “precisamos de desenvolver o heroísmo político”. Assim mesmo, de mãos abertas em concha virada para riba e de olhar vago no infinito.

 

Depois foi-se ao Hegel, pois, segundo ele, o filósofo alemão acreditava que um indivíduo pode, de facto, a qualquer momento encarnar o Zeigeist (significa espírito da épocaespírito do tempo ou sinal dos tempos), seja lá isso o que for, mas também que o indivíduo nem sempre tem a consciência de que o está a fazer.

 

Friedrich Hegel chegou mesmo a descrever Napoleão Bonaparte como “o Weltgeist (espírito mundial) a cavalo”. Só que Macron não consegue ir tão longe, não acredita que uma única pessoa possa, de facto, orientar a história.

 

Ele estabeleceu para si o tentar encorajar a França e o povo francês a mudarem e a desenvolverem-se mais. O que já não é pouco.

 

Eis senão quando, a meio da entrevista, entra na sala o Nemo, o cão do Presidente, e senta-se.

 

Perguntam então ao dono porque lhe deu tal nome. Macron conta que o cão foi abandonado enquanto cachorro e que passou um ano num abrigo para animais. Ele tinha decidido que queria um cão de um abrigo. Normalmente, lembra aos entrevistadores, os Presidentes têm cães de raça pura, mas o Nemo é uma mistura de Labrador com Griffon. “Absolutamente adorável. Um golpe de sorte, não é? Do abrigo de animais para o Palácio do Eliseu.” Diretamente e de forma limpa. E confessa: “Gosto bastante da ideia, mesmo que ele tenha pouca ideia de onde acabou por vir parar.”

 

Ou seja, mesmo que para o povo francês a eleição de Macron possa ter sido mais do mesmo, já o mesmo não podemos dizer acerca dos cães gauleses e do mais.

 

Claro que para Emmanuel Macron nada ficou na mesma, pois perdeu a inocência dado que ser Presidente da República muda a vida de forma drástica. E também a de certos cães.

 

Na sua perspetiva, o cargo que ocupa não é sobretudo político ou técnico. É, antes de mais, simbólico. Dado que “precisamos de desenvolver uma espécie de heroísmo político.”Não significa que Macron queira ser herói. Não. “Mas há que ter recetividade à criação de grandes narrativas.”

 

Dizem que o presidente é distante. Ele contrapõe que está a pôr fim à cumplicidade entre política e os media, dado que “um Presidente deve manter os media a uma certa distância”.

 

E, claro, também é modesto, pois respondeu que talvez esteja a seguir os passos de Mitterrand (outro presidente francês conhecido pela sua inextricável sobriedade), que queria realmente moldar a Europa.

 

Na sua opinião, e já agora também na minha, o problema dos debates sobre a Europa é que se transformaram em disputas entre especialistas e advogados.

 

Ele sonha com uma Europa baseada em três coisas: soberania, unidade e democracia. Quer que ela seja uma garantia de paz, prosperidade e liberdade duradoras, pois urge “terminar com esta guerra civil europeia, cuja existência não queremos admitir, e parar de ver constantemente se somos melhores do que o nosso vizinho nisto ou naquilo”. E deixar de permitir que se desenvolva uma espécie de derrotismo coletivo, propagandeado sobretudo por quem fala mal da Europa e quer desistir dela.

 

Lá pelo meio da entrevista falou da sua admiração por Angela Merkel, já que são “duas pessoas que procedem metodicamente” e que adoram pormenores. Nas cimeiras, lembra Macron, são dos poucos chefes de Estado e de Governo que tomam notas. Por isso adora as discussões que têm os dois.

 

Sobre os partidos convencionais franceses considera que já não têm capacidade para unir as pessoas. Defende ainda a urgência de uma revolução cultural, para poder transformar “a educação, o mercado de trabalho e o sistema de pensões”.

 

Uma coisa me une ao senhor Presidente francês, o gosto por Bach, pois ambos achamos extraordinário não encontrar na música do génio alemão elementos decorativos.

 

Noutra coisa também coincidimos, na admiração pelo escritor francês Michel Houellebecq, que é, sem dúvida nenhuma, “o romancista que melhor descreve as fobias e os medos contemporâneos” e retrata como muito poucos o caráter pós-moderno da nossa sociedade.

 

A terminar a entrevista falou das muitas coisas que mudou desde que chegou ao Eliseu. “Tudo”. Disse ele. O seu gabinete, por exemplo, que agora é totalmente diferente. Desfez-se de um tapete gigante e pesado e muita mobília. Tornou tudo mais leve e moderno e proporcionou mais espaço aos artistas contemporâneos.

 

Até nós, neste lado da Península Ibérica, ficámos embasbacados e, por que não dizê-lo desassombradamente, autenticamente estupefactos, com o ritmo e o alcance das transformações protagonizadas por Emmanuel Macron.

 

Bem haja, senhor Presidente, e, já agora, dê por nós um biscoito ao cão e faça-lhe uma festinha à maneira.

João Madureira

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Segunda-feira, 11 de Dezembro de 2017

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371 - Pérolas e diamantes: Os efabuladores sentimentais

 

Por vezes acordamos sobressaltados e não sabemos bem porquê. Outras vezes lembramo-nos que os sonhos são sempre idênticos, enquanto lá fora se ouve o frufrulhar das ramagens ou os passos silenciosos dos gatos ou, ainda, o ruído conhecido das ruas tranquilas.

 

Parece que as fotografias que retemos na memória sabem tudo e não explicam nada.

 

Também Cristo foi vítima de maquinações políticas e por isso sucumbiu dolorosamente vítima de um processo armadilhado. Temos de confiar nas pessoas que são serenas como a água, mesmo não sabendo o que há no fundo do rio. Ou seja, devemos evitar turvar a água.

 

Umas vezes estão os brancos no poder e as coisas correm mal, depois vêm os vermelhos e a coisa repete-se.  

 

Uma coisa sei, os animais não sabem denunciar, nem caluniar. Os humanos sim, por isso se distinguem deles. A moral é apenas uma disciplina.

 

Na semana em que Mario Draghi fez um apelo para, em nome da Europa, sugerir um aumento de salários e pensões, os patrões portugueses, pela voz de António Saraiva, queixaram-se em Bruxelas do OE português, indignando-se com a hipótese de o salário mínimo nacional passar para os incríveis 600 euros mensais.

 

Já a PGR informou o Estado-Maior do Exército de que não pode promover a tenente-general o major-general Tiago de Vasconcelos, colocado no EMGFA desde o início do ano. Tudo se deve a uma queixa, alegando, entre outros, o crime de falsificação de documentos. Ao que tudo indica, o general deverá passar à reserva.

 

Soares, o filho de Soares, deputado socialista, defendeu que o ex-líder do CDS-PP Paulo Portas foi “um excelente ministro da defesa, se não o melhor”, elogiando a solução encontrada para a OGMA e a respetiva compra de submarinos.

 

A cidade do Porto rejubilou com a deslocação da sede do Infarmed de Lisboa para o Norte. Mas nem meia dúzia de dias eram passados e logo o Governo recuou. Afinal, no Porto, parece que vão operar sobretudo os serviços administrativos e de suporte. Em Lisboa continuarão a funcionar 70% dos serviços anunciados pelo ministro da Saúde. Os laboratórios, os serviços mais especializados e cuja despesa ascende a 40 milhões de euros vão permanecer na capital. Ou seja, a deslocação é uma falácia. Eu gostava de saber como reagiriam os lisboetas se a decisão fosse ao contrário. Em matéria de regionalização, todos os partidos são iguais. Mas há uns que são mais iguais do que outros.

 

Está na hora de dividirmos o país ao meio, com fronteira no Mondego. Depois que se amanhem como puderem.

 

O único que faz que anda mas não anda, apenas sorri e ilude, é o senhor Presidente da República de Lisboa e dos Algarves. Já o apelidam de “Presidente dos Afetos”. Ele diz que sim. E sorri. Sai de Belém e vai até ao Hospital São Francisco Xavier, cumprimenta o ministro da Saúde, sorri, beija três velhinhas e volta a sorrir. Depois abraça um bombeiro e fica com cara de caso.

 

Regressa a Lisboa e passa um bocado da noite com os sem-abrigo. Sorri, beija e torna a beijar. E abraça de novo. Dizem que Deus está em todo o lado. Eu desconfio. Mas confirmo que o nosso Presidente, esse sim, é omnipresente. Gosta, sobretudo, de aparecer onde há tragédia, ou infelicidade. Os ministros e secretários de Estado apreciam chorar no seu ombro e abraçá-lo como se fosse um santo.

 

Marcelo dorme pouco. Aproveita as insónias para praticar o bem durante a noite. Ele e as televisões, já que não dá um passo sem que um ou vários repórteres o sigam para todo o lado. Marcelo Rebelo de Sousa beija tudo aquilo que mexe. E diz coisas que mais parecem uma espécie de genéricos de opinião, muito parecidos com as tretas que debitava todas as semanas na TVI e que o levaram à presidência. Dizem que era ele quem escrevia as perguntas que o jornalista depois lhe fazia, o mesmo para as cartas a que ele respondia.

 

Mas não está sozinho nesta sua peregrinação pelo meio das desgraças. Assunção Cristas, e o seu cortejo funerário, seguem-lhe as pisadas. Tenta ganhar votos contando os mortos. Quer deixar a impressão de que lhes reza pela alma.

 

Mas o que mais incomoda na senhora é dizer coisas diametralmente opostas ao que afirmava quando estava no governo. Agora é vê-la, em plano sindical, exigir o aumento das pensões e o descongelamento das carreiras da função pública.

 

Não tarda nada, ainda a vamos ver de joelhos em Fátima, de vela na mão, a cumprir a promessa do milagre de ter conseguido quase duplicar a miserável votação do PSD em Lisboa.

 

João Madureira

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Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017

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368 - Pérolas e diamantes: 1917 – Revolução ou Contrarrevolução?

 

A revolução russa continua a significar o derrube de um regime decadente, obscurantista e retrógrado, caraterizado essencialmente pela servidão abjeta do mundo rural e também pela exploração das classes trabalhadoras urbanas. Materializou as esperanças dos deserdados da terra e transmitiu ânimo a todos aqueles que pelo mundo fora ansiavam e lutavam pela transformação social apregoada pelos filósofos e pelos revolucionários socialistas e anarquistas, desde a denominada Primavera dos Povos e a publicação do Manifesto Comunista, em 1848, a que se seguiu a Comuna de Paris, em 1871.

 

Mas foi a própria realidade que começou por contrariar as teses de Karl Marx sobre a putativa revolução, pois não ocorreu nos países mais avançados, como o Reino Unido, a França ou a Alemanha, mas num país atrasado, quer do ponto de vista social ou  industrial: o Império Russo.

 

Marx afirmou que “as revoluções são as locomotivas da História”, coisa em que acreditei na minha juventude, mas atualmente inclino-me mais para a tese de Alexandre Chubine (professor de História e investigador do Instituto de História Universal e da Academia de Ciências da Rússia) e que é uma analogia interessante, de que “as revoluções são arietes da História”, pois “a revolução não funciona como uma locomotiva mas antes como um martelo-pilão que derruba os obstáculos que impedem o seu avanço”.

 

Segundo Chubine, Lenine, apercebendo-se da crescente crise económica e social que alastrava na Rússia, defendeu de imediato, não reformas, mas uma transformação radical. Para o professor de História russo, a razão do aparecimento de Lenine deveu-se ao facto de todos os outros lhe terem cedido o lugar, porque estavam à espera da assembleia constituinte.

 

Assim, a conclusão a tirar é a de que uma vez iniciada, não se deve tentar travar uma revolução. Os bolcheviques, no final, com o apoio das fações mais desesperadas, mais dinâmicas e mais militarizadas, “tomaram o poder e fizeram sozinhos as reformas radicais. Contra todos os outros…”

 

Os círculos do poder russo não souberam reagir a tempo à gravidade da situação. A sua educação e a sua formação impediu-os de perceberem a realidade onde estavam inseridos. E isso foi-lhes fatal.

 

Máximo Gorki, em momento de honestidade intelectual, que depois abandonou para servir o déspota Estaline, escreveu: “Desconfio especialmente de um russo quando o poder lhe chega às mãos. O mesmo que era escravo, torna-se o déspota mais tremendo, mal tenha hipótese de se tornar no amo do seu vizinho”.

 

O regime que resultou da revolução comunista, sobretudo a partir de Estaline, afirmando-se baseado nas assembleias de trabalhadores e soldados, era essencialmente uma ditadura sanguinária que dizimou toda a vanguarda revolucionária de 1917. Disseminou a fome pelos campos e eliminou toda e qualquer semente de dissidência, enviando milhões de pessoas para a morte nos gulags. Instalou uma ditadura de medo e denúncia que eliminou oficialmente qualquer tipo de discurso de oposição.

 

Os marinheiros de Kronstadt, em 1921, aperceberam-se já tarde do logro em que tinham caído: “Ao levar a cabo a Revolução de Outubro, a classe operária esperava alcançar a sua emancipação. Mas o resultado foi uma escravidão ainda maior. O poder da monarquia, com a sua polícia e a sua guarda, passou para as mãos dos usurpadores comunistas, que não deram ao povo liberdade mas sim o medo permanente da tortura da Cheka, cujos horrores ultrapassaram de longe o domínio da guarda nos tempos do czarismo.”

 

Manuel S. Fonseca, no seu livro Revolução de Outubro – Cronologia, Utopia e Crime, apresenta uma tese interessante: “Talvez a revolução tenha sido, afinal, uma contrarrevolução, com tudo o que as contrarrevoluções trazem: ditadura, prisão, tortura, fome e morte.”

 

O então jovem aprendiz de torcionário, e mais tarde um dos mais sanguinários ditadores políticos de que há memória (Koba, o Terrível, vulgarmente conhecido como Estaline), tinha já escrito no Pravda em 1912: “A plena identidade de interesses só pode existir no cemitério.”

 

O que sucedeu a seguir já estava escrito nas estrelas. A Revolução de Outubro abriu o maior açougue humano de que há memória e o comunismo inaugurou, no início do século XX, a maior carnificina humana de sempre. Bem maior do que a nazi. Conviver com a realidade dos factos, por vezes, é a maior das torturas.

 

Martin Amis tem uma curiosa explicação para o sucedido. Na sua opinião, o comunismo não foi uma boa ideia que se transformou em má ou se desviou do seu delirante caminho. “Não. Foi uma má ideia desde o início. Carregada de certezas, de pedantismo, de energia e horror.” O escritor inglês considera que o principal adversário do ideário e da praxis marxista-leninista foi a própria natureza humana. “Os líderes bolcheviques compreenderam de forma sublime essa limitação – imediatamente. A sua resposta foi deixar o programa intacto e mudar a natureza humana.”

João Madureira

 

 

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Segunda-feira, 13 de Novembro de 2017

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367 - Pérolas e diamantes: O Vendido

 

Ainda se escrevem livros assim: irónicos e dolorosos, hilariantes e cruéis, satíricos e mordazes. Provavelmente o livro de Paul Beatty é das coisas mais interessantes que li ultimamente. Dwight Garner escreveu no The New York Times que as primeiras cem páginas de O Vendido são as mais cáusticas e mais tesas que leu num romance americano nesta última década, pelo menos.

 

Me, o personagem afro-americano mais azarento do universo ficcional recente, é exemplarmente educado por um pai violentamente excêntrico e sociólogo obcecado pela questão racial que não desiste de lhe inculcar uma cultura de resistência.

 

Ensina-lhe princípios sociológicos estruturantes. Fala-lhe, por exemplo, do “efeito espectador” que ensina que quanto mais pessoas estejam perto para dar uma ajuda, menos provável é que ela seja prestada. Só que o pai de Me desenvolveu a hipótese de que tal efeito não se aplicava aos negros, uma raça cuja sobrevivência, na sua perspetiva, sempre dependeu da entreajuda em momentos de necessidade.

 

Por isso obrigou o seu filho a permanecer parado num dos cruzamentos mais movimentados do seu bairro, com notas de dólar a espreitarem-lhe dos bolsos, com um aparelho eletrónico moderno e brilhante enfiado nas orelhas, com um colar de ouro estilo hip-hop ao pescoço, e, inexplicavelmente, também com um conjunto de tapetes personalizados para um Honda Civic pendurados no braço como um pano no braço de um empregado de mesa, e, enquanto as lágrimas lhes corriam pela face, o seu próprio pai assaltou-o. Bateu-lhe diante de uma multidão de espectadores que não assistiram durante muito tempo. A indiferença, pelo vistos, não tem cor.

 

Ia o assalto ainda em dois murros na cara quando algumas das pessoas se aproximaram do assaltante e, em vez de auxiliarem a vítima, ofereceram ajuda ao agressor. Ajudaram a dar-lhe uma sova, começando a desferir cotoveladas e golpes de wresteling no pobre aprendiz até o porem inconsciente.

 

Quando o pobre e infeliz Me começou a recuperar a consciência, ainda os seus atacantes, suados e com o peito a arquejar, tentavam recobrar do seu esforço e do respetivo altruísmo.

 

A caminho de casa, o “paizão” pôs-lhe um braço consolador sobre os ombros doridos e deu-lhe um sermão sobre como ele não teve em conta o “efeito manada”.

 

Dava-lhe também cursos intensivos de desenvolvimento infantil tentando reproduzir o estudo da consciência da cor em crianças negras dos Drs. Kenneth e Mamie Clark, utilizando bonecos brancos e negros, mas numa versão mais revolucionária.

 

Um dia apresentou-lhe dois cenários com subtexto sociocultural para saber qual deles curtia mais.

 

O Cenário I apresentava o Ken e a Barbie Malibu trajados com fatos de banho a condizer, ostentando as respetivas máscaras e óculos de mergulho, a relaxar em frente à piscina da Casa do Sonho.

 

No Cenário II, aparecia Martin Luther King Jr., o Malcolm X, a Harriet Tubman e um sempre em pé oval e castanho correndo e balançando-se num matagal pantanoso, fugindo a sete pés de uma matilha de pastores alemães que chefiavam uma multidão armada composta pelos G.I. Joe do Me vestidos com roupas do Ku Klux Klan.

 

O rapaz ficou confuso, mas tirou a conclusão óbvia: os brancos ganham porque possuem acessórios melhores.

 

Resumindo e concluindo, depois de todas as experiências falhadas, o pai queimou as folhas com as suas conclusões na lareira. O seu filho, “estatisticamente insignificante”, destrui-lhe todas as esperanças. Me foi para o seu pai uma experiência social falhada.

 

Passou então a dedicar-se ao bairro. Apesar de, segundo o seu filho, não demonstrar muito jeito para cavalos, era conhecido em Dickens como Encantador de Pretos. “Sempre que um mano que tinha «perdido a puta da cabeça» precisava de ser convencido a descer de uma árvore ou de um precipício, ele era chamado. Apenas se fazia acompanhar da sua bíblia da psicologia social, The Planning of Change de Bennis, Benne e Robert Chin, um psicólogo sino-americano lamentavelmente subestimado.”

 

As pessoas achavam que era o seu altruísmo o que lhe permitia aproximar-se tanto dos tresloucados, mas para o seu filho, o segredo residia na sua voz que possuía um tom grave de doo-wop, pois falava em fá sustenido.

 

Mais de uma vez Me teve vontade de perguntar ao seu pai porque é que nunca lhe falou no mesmo tom reconfortante que usava com os seus “clientes”, mas nunca o fez porque sabia que, “em vez de obter uma resposta, ia levar com o cinto”, e o seu processo de cura “ia envolver mercurocromo, e, em lugar de ficar de castigo, teria uma sentença de entre cinco e três semanas de imaginação ativa junguiana”.

 

O Vendido foi vencedor do Man Booker Prize de 2016 e “é uma sátira mordaz que desafia os pilares sagrados da vida urbana, da Constituição norte-americana, do movimento dos direitos civis, da relação pai-filho, feita à medida para o despontar do século XXI”.

 

João Madureira

 

 

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Segunda-feira, 6 de Novembro de 2017

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366 - Pérolas e diamantes: A insatisfação e o disparate

 

Na “nota do editor” do último número da revista LER refere-se que no seu discurso de aceitação do Nobel, Bob Dylan citou a Odisseia, de Homero, A Oeste nada de novo, de Erich Maria Remarque, e Moby Dick, de Herman Melville. Mas parece que o laureado se enganou, ou fez confusão, com a frase: “Alguns homens a quem são infligidos ferimentos são conduzidos a Deus, outros são conduzidos à amargura.”

 

A frase é bela e enigmática. Só que tem a particularidade de não existir em nenhum dos livros de Melville. As más-línguas dizem que a frase, tal como outras usadas por Dylan no seu discurso, foi retirada de um site dedicado a comentários de livros para estudantes do secundário.

 

Por falar em distinções, Manuel Alegre foi distinguido com o Prémio Camões. Mal soube da decisão apressou-se a dizer, na sua conhecida e reconhecida humildade, e com a serenidade que todos lhe conhecemos que “é natural que me atribuam este prémio. Até podia ter sido mais cedo.”

 

E daqui nos vamos até ao reino dos confrades e das respetivas confrarias. Há-as para todos os gostos e feitios. Algumas são mesmo picarescas. Desde a Confraria da Moenga, uma associação eborense formada por amigos que “se juntavam no Moinho do Cu Torto para cada um mostrar as suas artes culinárias”, até à Confraria dos Rojões da Bairrada com Grelo e Batata à Racha, passando pela picante Confraria da Urtiga (de Fornos de Algodres).

 

De facto vivemos na era da arte culinária, em contraponto com literatura de cariz erótico-disfuncional. Segundo o The Irish Independent, “cientistas que avaliaram os sentimentos emocionais, a linguagem corporal e a frequência cardíaca de leitoras, encontraram menos sinais de excitação e de prazer no best seller de E. L. James, As Cinquenta Sombras de Grey, do que em 30 Minute Meals, um livro de culinária de Jamie Oliver”.

 

É caso para dizer ora foda-se, pois, tal como Rodrigo Guedes de Carvalho, também eu prefiro “o palavrão ao eufemismo.”

 

Mas é com Rodrigo dos Santos que ficamos a saber como se chega a best seller. Desde logo porque o autor surpreende-nos evidenciando a nossa ignorância. Com os seus livros ficamos a saber que “o marxismo não foi criado por Marx” e que, ó horror dos horrores!, que o inventor do comunismo, apesar de judeu, era racista. Descobrimos também que Cristóvão Colombo era Português, além de que “ninguém sabia que a própria Bíblia tem indícios de que Maria não era virgem e que Marcos e Lucas não escreveram os evangelhos com os seus nomes”.

 

Num dos romances da Trilogia, uma personagem tem mesmo a ousadia de explicar que “o bolchevismo e o fascismo são irmãos marxistas gémeos”, ao que o outro exclama para nossa, e sua, surpresa: “Que disparate!”

 

Nos seus romances há diálogos que se estendem por dezenas de páginas e dão-se mesmo nos lugares mais inverosímeis: na maternidade, no dentista, na rua, no táxi e até na praia.

 

Eu continuo a desconfiar daquelas pessoas que ostentam penosamente a sua cabeça ereta e que desenham uma expressão tão amigável que roça a cretinice. É que não há ninguém assim tão amável.

 

Há suspeições injustas que perseguem até os mais inocentes. Como muito bem diz o poeta citado por Jerome K. Jerome, em Três homens num barco: “Quem pode escapar à calúnia?”

 

No fundo a Humanidade é composta por gente insatisfeita. Parece que “todos têm aquilo que não querem, e os outros têm aquilo que eles querem. Os homens casados têm mulheres, e não parecem querê-las; e os jovens solteiros choram porque não têm mulher. Gente pobre, quase sem meios para viver, tem filhos saudáveis. Casais velhos e ricos morrem sem filhos e ninguém a quem deixar o seu dinheiro.”

 

 João Madureira

 

 

 

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Segunda-feira, 30 de Outubro de 2017

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365 - Pérolas e diamantes: A estupidez (parte 2)

 

Porventura, a forma mais vulgar de estupidez é o preconceito racial.  E é uma estupidez mundial.

 

Em Social Psychology of Internacional Condut (1929), G.M. Stratton defende que “o preconceito constitui uma das características da natureza humana”. E chega a duas conclusões interessantes: “Embora seja universal, o preconceito racista nunca, ou raramente, é inato. Não nasce connosco. As crianças de raça branca, por exemplo, não manifestam qualquer preconceito quanto às crianças ou amas de cor até à altura em que as famílias lho incutem.”

 

Nos célebres versos de South Pacific, Oscar Hammerstein repete no estribilho: “Para odiar tem de se ser ensinado.”

 

  1. M. Sratton conclui que “o preconceito rácico adquirido nada tem de racial. Entre ele e as características raciais não existe qualquer relação, nem tão pouco com o sentimento de estranheza: ele é apenas, e por toda a parte, uma reação ante a ideia de uma ameaça coletiva… O que habitualmente se designa por preconceito “racial” não passa, de facto, de mera resposta coletiva a ameaças de perdas ou perdas reais; resposta que não é inata, mas, sim, alimentada pela tradição e por impressões recentes de prejuízos sofridos há pouco”.

 

De facto, toda a estupidez é medo. O ser humano sensato ou inteligente tem possibilidade de sublimar e vencer os seus preconceitos. O estúpido tornar-se-á inevitavelmente seu escravo.

 

No entanto, o preconceito é apenas uma causa de um mal maior: a intolerância, que é a força impulsionadora. O preconceito é passivo, enquanto a intolerância é ativa.

 

Não foi o preconceito que fez com que as Igrejas Cristãs, alegando heresia, tivessem queimado os fiéis umas às outras. Foi a intolerância.

 

No entanto, estas duas formas de estupidez caminham, quase sempre, a par. E chegam mesmo a confundir-se.

 

O individuo preconceituoso é até capaz de não permitir que o seu filho frequente uma escola aberta a crianças de todas as raças e religiões, mas apenas o intolerante fará tudo para suprimir esses estabelecimentos de ensino.

 

Mas nada disto teria muita importância se o homem estúpido só a si próprio se prejudicasse. Por muito que nos custe, a estupidez é a arma mais mortífera do Homem, é a epidemia mais assoladora e o seu luxo mais oneroso. O preço da estupidez é incalculável.

 

As várias formas de estupidez já custaram à humanidade mais do que qualquer guerra, epidemia ou revolução.

 

Uma das formas mais dispendiosas da estupidez é, muito provavelmente, a burocracia. Se poupássemos uma décima parte da quantidade de papel utilizado em formulários, relatórios, regulamentos e atas, e com essas economias adquiríssemos livros e compêndios escolares, a esta altura já não existiriam analfabetos no mundo.

 

Paul Tabori, no seu livro História Natural da Estupidez, conta que entre as duas últimas guerras mundiais estava na moda um insulto em forma de interrogação. Costumava perguntar-se: “Olha lá, a estupidez incomoda-te?”

 

Parece que, infelizmente, não incomoda lá grande coisa. Mas se se tratasse de uma dor de dentes, há muito que se teria tentado remediá-la.

 

Mesmo parecendo que não, a estupidez, de facto, dói muito. Mas é raro que incomode o estúpido.

 

Esta é a tragédia do mundo em que vivemos.

 

O livro, que recomendo vivamente, trata da estupidez, da baboseira, da vacuidade, da presunção, da idiotice, da cobardia, da estultícia, da imbecilidade e da estolidez. Ocupa-se também dos otários, dos alarves, dos asnos, dos mentecaptos, dos ressabiados, dos insensatos e dos calinos. Apresenta ainda uma galeria de broncos, brutos, simplórios e monos. Analisa e observa atos de irracionais, insensatos, enxebres e apoucados.

 

A estupidez, pela virtude da sua especial natureza, sempre foi alvo de sátira e denúncia. Mas foi por causa dessa sua peculiar caraterística que “sobreviveu a milhões de ataques, mesmo aos mais rudes, sem nada sofrer; e, no fim, continua a resistir, triunfante e gloriosa”.

 

João Madureira

 

 

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Segunda-feira, 23 de Outubro de 2017

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364 - Pérolas e diamantes: A estupidez

 

Há muito tempo que eu desconfiava de uma coisa que me parecia axiomática: a estupidez é natural. Mas agora tirei isso a limpo, depois de ler o brilhante livro de Paul Tabori (A História Natural da Estupidez).

 

Segundo o autor, a estupidez é muito provavelmente até necessária, não só para ocupar os escritores satíricos, mas também para oferecer distrações a dois grupos minoritários: os realmente sensatos e os suficientemente sensatos para se aperceberem de que são estúpidos.

 

Como todos sabemos, a estupidez é como o fumo do tabaco. Não só é prejudicial para os que a sofrem mas também para os que por ela são rodeados.

 

O autor adverte-nos de que não conseguiu escrever uma história completa da estupidez, o que ainda mais nos impressiona, pois o assunto é vastíssimo.

 

É muito desagradável de admitir que se possa escrever mais sobre a estupidez humana do que sobre o seu bom senso.

 

A abrangência da obra é notável. Cita casos incríveis de estupidez, desde a ganância do ser humano pelo ouro ao amor pelos títulos e pelas cerimónias, passando pela prisão nas teias da burocracia, pela subtileza da lei e pela gíria legal, descrevendo a crença em mitos e a descrença nos factos, bem assim como o fanatismo religioso, as idiossincrasias e idiotices sexuais e a tragicomédia dos que buscam incessantemente a mocidade eterna. 

 

Conta casos como o de um membro da Academia das Ciências de França que teimava e insistia na ideia de que o fonógrafo de Edison não passava de um truque barato de ventriloquismo e da técnica de Hermipo que prolongava a vida pela inalação do hálito de virgens.

 

A estupidez, diz Paulo Tabori amarguradamente, é a arma mais mortífera do Homem, a praga mais devastadora e o luxo mais caro. Como dizia Schiller, até os deuses lutam em vão contra ela.

 

Há homens estúpidos que possuem muitos conhecimentos, como também existem homens sensatos cujos conhecimentos são muito limitados.

 

Na realidade, o conhecimento difuso e exuberante encobre, a maioria das vezes, a estupidez. Por outro lado, o bom senso muitas vezes manifesta-se em gente pouco culta.

 

De facto, em todos os seus atos, o ser humano ambiciona sempre ser superior ao seu semelhante, quer seja a jogar a feijões ou na busca dos milhões. O que receia é que as suas intenções se tornem muito evidentes. Por isso tenta escondê-las, receando que o fingimento não resulte, temendo sobretudo o malogro das suas ambições. Por isso também se coíbe de agir (estupidez passiva) ou então atua inutilmente (estupidez ativa).

 

Segundo Feldmann, a estupidez é sobretudo medo, medo de nos expormos às críticas, quer do outro quer de nós próprios.

 

A estupidez adquire várias formas e manifestações distintas. Há pessoas que só a demonstram no recato do lar ou em ambientes restritos. Outros sentem orgulho em a expor publicamente. Outros só se tornam estúpidos quando são forçados a falar ou a escrever qualquer coisa de seu.

 

A estupidez pode ser limitada ou irrestrita.

 

Charles Richet defende que “o homem estúpido não é o que não compreende determinada coisa, mas sim aquele que, compreendendo-a suficientemente, atua como se não a tivesse compreendido”.

 

O preconceito é, definitivamente, uma das formas mais notáveis de estupidez.

 

Ranyard West resume a ideia perfeitamente no seu livro A Psicologia e a Ordem Universal.

 

“O preconceito humano é universal. Depende de uma necessidade humana: o respeito do individuo por si próprio. Existem vários processos de o cérebro humano conseguir ignorar os factos, mas nenhum que lhe permita pôr de parte o desejo de autolatria. Nós, homens e mulheres, procuramos sempre ter boa opinião de nos próprios. Para atingir tal fim, precisamos de mascarar, aos nossos olhos, a verdade, servindo-nos dos expedientes mais diversos. Negamos, esquecemos, perdemo-nos a explicar as próprias faltas e exageramos as dos outros.”

 

O preconceito é estupidez. Os franceses não são libertinos, os negros não são inferiores e os judeus não são usurários.

 

Uma coisa sei: é possível ter-se boa opinião de si próprio sem se ter má opinião acerca dos outros.

 

 João Madureira

 

 

 

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Segunda-feira, 16 de Outubro de 2017

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363 - Pérolas e diamantes: Divagações

 

Hawthorne mostrou ao mundo que os escritores americanos podiam ser shakespearianos. Até Melville fez a sua tentativa. Segundo Daniel J. Boorstin, antes e durante a escrita de Moby Dick, o escritor norte-americano esteve “hipnotizado”, lendo e relendo Shakespeare, nomeadamente Rei Lear, Hamlet e Tímon de Atenas.

 

Melville venerava Shakespeare, considerando-o “o mais profundo dos pensadores”, mestre da “grande arte de dizer a verdade, mesmo que velada e fragmentariamente”. O que mais apreciava não era “o grande homem da comédia e da tragédia […] Mas as coisas sonhadoras que há nele; aqueles seus ocasionais lampejos da verdade intuitiva; aquelas explorações rápidas, breves, do próprio eixo da realidade”, pois eram essas coisas que faziam de Shakespeare Shakespeare.

 

De facto, os americanos sempre foram idealistas e um pouco excêntricos. Major Douglas, um economista autodidata, resolveu avisar o mundo de que tinha um remédio para todos os males sociais. O seu plano de “crédito social” fundamentava-se na ideia de que as depressões podiam ser evitadas e a justiça social alcançada pela manipulação do sistema monetário.

 

Melville era contrário à fama. Chegou mesmo a justificar a sua obscuridade. Escreveu que “toda a fama é patrocínio”, por isso pedia: “Deixem-me ser infame. Quanto mais a nossa civilização avança nas suas linhas presentes, tanto mais a ‘fama’ se torna desprezível, especialmente a dos escritores.”

 

Está visto e provado que até os génios têm momentos de desatino. Por exemplo, Dostoievski era um jogador inveterado e chegou mesmo a ser arrastado por Belinski para um círculo de reformadores atraídos por modelos ocidentais, que conspiravam secretamente contra a autoridade czarista. De facto, viveu numa era que, como observou o arguto viajante francês marquês de Custine, “em Petesburgo mentir continua a ser desempenhar o papel de um bom cidadão; dizer a verdade, mesmo tratando-se de assuntos aparentemente sem importância, é conspirar.”

 

Já Joyce dedicou o seu génio a tornar a escrita uma linguagem supremamente ininteligível.

 

Quando lhe perguntaram porque escreveu Finnegans Wake, respondeu de forma maliciosa, não para pedir desculpa mas para se vangloriar: “Para manter os críticos ocupados durante trezentos anos.” Possivelmente partilhava a estupefação de Einstein que achava que o mistério eterno do mundo era a sua compreensibilidade.

 

Também existe a possibilidade de partilhar a ideia do enigmático elogio de Henri Rousseau a Picasso, nomeadamente a Les demoiselles: “Picasso, você e eu somos os maiores pintores do nosso tempo, você no estilo egípcio, eu no estilo moderno!”

 

Já Picasso, nos seus últimos anos de vida, teve este lamento: “As pessoas não compram os meus quadros, compram a minha assinatura.”

 

De facto, o mundo ainda vive preso do mito da Arca de Noé que, por incrível que pareça, é uma história partilhada em todas as partes do mundo. Mesmo o Corão (surata XI, versículos 27 a 51) segue com grande fidelidade o Génesis e faz um relato pormenorizado do Dilúvio e de como Deus salva Noé: “A Arca poisou sobre o monte al-Judi” (versículo 46), um maciço montanhoso de quase quatro mil metros de altitude, situado na região de Mossul, no Curdistão iraquinano.

 

O Poema Gilgamesh, possivelmente a fonte que inspirou o relato bíblico, encontrado numa tábua cuneiforme em Nínive, capital da Assíria, conta na primeira pessoa o desembarque de uma arca no monte Nisir, a nordeste da Babilónia.

 

O mito hindu do Dilúvio, contido na Satapatha Brahmana, refere-se a uma “montanha no Norte”, onde Manu ata o seu barco a uma árvore, a conselho do seu amigo peixe gigante.

 

Os gregos mencionam o monte Parnaso ou as montanhas da Tessália, onde o navio de Deucalião chegou e Pirra após o dilúvio da mitologia helénica.

 

Lendas idênticas são narradas desde o Alasca até ao Peru.

 

Basicamente, todas as civilizações antigas possuem histórias similares sobre a destruição do mundo através de uma enorme inundação e sobre uma nau salvadora, o que nos leva a pensar que se trata de um mito funcional para a maioria dos povos antigos e que, muito provavelmente, foi adotado pelo cristianismo.

João Madureira

 

 

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Segunda-feira, 9 de Outubro de 2017

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362 - Pérolas e diamantes: A pose da naturalidade


O romance de cavalaria medieval, que foi o alvo predileto de Cervantes, desenvolveu-se na França do século XII e espalhou-se depois por toda a Europa. Além de altamente convencional, também era escrito em versos fáceis de recitar e só depois em prosa.

“Romance” significou de início uma obra em francês, derivada do latim, a língua de Roma.

Os romances medievais, ao contrário do que muita gente pensa, não eram crónicas de batalhas campais, como as travadas entre Gregos e Troianos, mas histórias de cavaleiros lendários dedicados a Jesus Cristo e às suas amadas, de torneios e de castelos encantados, com um suplemento de dragões e monstros, todos sob o feitiço de grandes magos. E eram coisas pouco divulgadas. A edição dos livros exigia trabalho muito elaborado e moroso.

Apenas com o progresso tecnológico da tipografia no século XIX é que o livro se transformou em veículo popular para um novo público leitor, tão sequioso de uma história imaginária de boatos picantes e últimas novidades.

Os autores, com a cumplicidade dos seus editores, adquiriram rápida aceitação. Finalmente podiam saber daquilo que os leitores gostavam, sentindo-se cada vez mais tentados a dar-lhes o que eles queriam. Como diz Daniel J. Boorstin: “O autor-criador tornou-se, pois, o público do seu público.”

No seu livro Os Criadores, o autor refere que Dickens, entusiasta e compassivo, era, ao contrário de Balzac, um homem de paixões. Pomposamente democrata, permaneceu um vitoriano populista. “A minha fé nos governadores”, escreveu em 1869, “é, no seu todo, infinitesimal; a minha fé no povo governado é, no seu todo, ilimitada.”

Nem a sua experiência como jornalista no Parlamento aumentou a sua confiança nas assembleias representativas. O autor dos hilariantes Cadernos de Pickwick passou pela Câmara dos Comuns “como um homem” e na Câmara dos Lordes “não cedeu a nenhuma fraqueza, exceto ao sono”.

Confessou que viu muitas eleições “sem nunca ter tido vontade (qualquer que fosse o partido a ganhar) de estragar o chapéu atirando-o ao ar”. Nem o que observou no Congresso de Washington alterou as suas opiniões. Dickens nunca “lamentou nem se orgulhou de qualquer corpo legislativo”.

O génio é sempre obra do acaso. E quase sempre as pessoas que o possuem são torturadas e perseguidas por obsessões contínuas. O sublime Leonardo da Vinci, enquanto jovem, comprava pássaros no mercado a fim de os libertar. E caminhava pelo seu próprio pé, pois, como Miguel Ângelo escreveu: “Aquele que segue outro nunca o alcançará”.

Dostoyevsky dizia que “as ideias voam pelos ares, mas são condicionadas por leis que não compreendemos. As ideias são contagiantes, e uma ideia que se poderia crer prerrogativa de alguém possuidor de grande cultura pode entrar no espírito de um ser simples e descuidado e apoderar-se dele.

Oscar Wilde gostava de brincar com o seu paradoxo afirmando bem alto que “ser natural é apenas um pose”.

O pai de Montaigne tinha como objetivo educativo para o seu filho aliá-lo com “o povo e aquela classe de homens que precisa da nossa ajuda”. Ensinou-lhe que “o dever manda primeiro olhar para o homem que nos estende os braços e só depois para aquele que nos volta as costas”.

Talvez tudo não passe de uma questão de fé.

Montaigne divide os filósofos em três categorias: os que afirmam terem encontrado a verdade, os que negam poder a verdade ser encontrada e os que, como Sócrates, confessam a sua ignorância e continuam a procurar. Apenas os últimos são sensatos.

Mas a fé pode ser como a de Montaigne: “uma corda que sustenta o enforcado”.

Quando jovem, Benjamim Franklin não se interessava francamente pelas belezas da natureza, ou da literatura, nem tão pouco o emocionavam a poesia, a arquitetura ou o romance histórico. “Muitas pessoas gostam de narrativas sobre edifícios e monumentos antigos, mas por mim confesso que, se conseguisse encontrar nas minhas viagens uma receita para fazer queijo parmesão, isso me daria mais prazer do que uma cópia da inscrição de uma qualquer pedra-de-não-sei-quê.”

Franklin chegou a ser um dos líderes da Revolução Americana, conhecido por suas citações e experiências com a eletricidade. Além disso foi jornalista, editor, autor, filantropo, político, abolicionista, funcionário público, cientista, diplomata, inventor e xadrezista estadunidense.

Escrevia como recomendava, de forma “simples, clara e concisa”, e persuadia os seus leitores a apadrinharem um objetivo prático e quase sempre valoroso. Tinha como intenção “promover um saber que seja útil”.

O seu Conselho a Um Amigo Para a Escolha de Uma Amante era o reflexo disso mesmo: “Prefira mulheres velhas a jovens”. As suas razões terminavam desta forma: “Oitava e última: elas ficam tão gratas!”

 

João Madureira

 

 

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Segunda-feira, 2 de Outubro de 2017

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361 - Pérolas e diamantes: A verdade e os tolos

 

Não vale a pena dar-lhe muitas voltas, bem vistas as coisas tudo depende do coração. Afinal, toda a gente acredita naquilo que quer acreditar. Todos sabemos muito bem que sabemos muito bem que sabemos muito bem.

 

As notícias de última hora que inspiram os jovens repórteres inexperientes, mas com muito bom aspeto, são as da pobreza. Até o senhor presidente da República não se cansa de abraçar e beijar os sem-abrigo.

 

As histórias dos desgraçadinhos de Lisboa e arredores espalham-se pelo país como uma doença sentimental. E as perguntas são sempre prementes e ocas: Como é ter fome? Como é não ter casa?

 

Os canais de televisão patrocinam-se dessa forma, transmitindo o desespero em direto. Os ricos deliciam-se sentimentalmente com a pobreza.

 

Mas os restaurantes estão cheios de pessoas, as sapatarias repletas de sapatos e sapatilhas e donzelas e pseudo-atletas.

 

E as lojas de roupa rejubilam de atestadas por pseudo-manequins ambulantes. A felicidade cabe-lhes toda na exclamação: “Agora já não precisamos de ir às compras ao estrangeiro!”

 

Para terminar o triângulo virtuoso, os especialistas emitem as suas opiniões especializadas… a valor de saldo: “Alguém vai ter de pagar o preço do Progresso”.

 

E, ó ironia das ironias, não acreditam em quem lhes diz a verdade porque sabem que na cabeça dos tolos só a verdade é que aproveita. Afinal, a quem é que interessa a verdade?

 

Aos tolos.

 

 A quem?

 

Aos tolos.

 

O mundo agora é só vídeos. Estou em crer que até o primeiro-ministro e o presidente da República tomam as decisões importantes baseados nos vídeos que visualizam no iphone.

 

Também eles fazem parte da realidade… dos filmes.

 

Nos restaurantes apinhados, todos, mas mesmo todos, suspendem as refeições e imobilizam os sorrisos para tirarem uma selfie

 

com a ementa…

 

com o empregado de mesa…

 

com o papá e a mamã…

 

e a avó…

 

e o namorado…

 

ou namorada…

 

uns com os outros e outros com os uns…

 

e o pobre do cão a ladrar lá longe no canil…

 

e o gato a miar sozinho, ou mal acompanhado, no gatil…

 

E depois passam as selfies de uns telemóveis para os outros e dos outros para os uns para os uns e os outros as contemplarem. Nada mais interessa, nem sequer a comida, sobretudo a boa, porque fica mal na fotografia.

 

Disfarça-se a obesidade com os sorrisos.

 

O fotoshop é bué de mentiroso, mas as pessoas são ainda muito mais.

 

As infraestruturas tomam conta de nós, sobretudo as ligadas à impunidade.

 

Os centros comerciais reluzem, as metrópoles rebentam de turistas, os vales transformam-se em lindos lameiros de golfe. As novas personagens de tudo aquilo que é velho tornam-se inesquecíveis. Todos somos apanhados pelas novíssimas marés da gargalhada.

 

Estamos superlotados de vacuidade.

 

Só respondemos às perguntas indiretas.

 

Destroçaram-nos as histórias.

 

Quem são os heróis?

 

Os tempos estão a mudar…

 

Tretas…

 

Afinal qual é a moral desta história?

 

João Madureira

 

 

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Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017

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360 - Pérolas e diamantes: Quanto vale a Democracia?

 

 

No seu livro Contra a Democracia, Jason Brennan, parte do princípio de que a democracia é o melhor sistema viável, mesmo assim não é lá grande coisa, e por isso se torna necessário melhorá-lo, mesmo que seja com menor participação.

 

O grande filósofo moral do século XIX, John Stuart Mill, argumentava que devemos instituir qualquer forma de governo que produza os melhores resultados.

 

Apesar de Mill ter a esperança de que envolver as pessoas na política as tonaria mais inteligentes e mais preocupadas com o bem comum, afirma que algumas formas de governo podem deixar-nos estúpidos e passivos. No entanto existem outras que podem tornar-nos perspicazes e ativos.

 

Apesar das boas intenções, as formas mais comuns de compromisso político não só falham em educar-nos ou enobrecer-nos, como tendem inexoravelmente para a estupidificação e a corrupção.

 

O economista Joseph Schumpeter bem lamenta: “O cidadão típico desce a um nível de desempenho mental inferior assim que entra no campo político. Argumenta e analisa de um modo que prontamente reconheceria como infantil na esfera dos seus interesses reais. Torna-se novamente um primitivo.”

 

Em 1800, 70% a 80% dos americanos com direito a voto votavam nas principais eleições. Agora, no máximo, votam 60% para as eleições presidenciais e cerca de 40% para as eleições intermédias, estaduais ou locais. Por isso é que os democratas rangem os dentes.

 

Segundo Brennan até existe um lado positivo no declínio democrático, pois a democracia no seu país está mais inclusiva do que nunca, com cada vez mais pessoas convidadas a assumir uma posição na mesa das negociações políticas. Contudo, cada vez menos pessoas respondem ao convite.

 

Os principais teóricos políticos querem que a política se infiltre em mais aspetos da vida. Pretendem mais decisão política. Partem do pressuposto que a política nos enobrece e que a democracia é uma forma de capacitar a pessoa comum a assumir o controlo das suas circunstâncias.

 

Jason Brennan considera mesmo que os “humanistas cívicos” consideram a própria democracia como a vida boa, ou, pelo menos, um chamamento superior.

 

Segundo o cientista político e filósofo americano, existem três tipos de cidadãos democráticos:

 

Os hobbits, que são sobretudo apáticos e ignorantes sobre a política, pois carecem de opiniões fortes e firmes sobre a maioria das questões políticas. Preferem seguir as suas vidas diárias sem prestar muita atenção à política. É o típico não votante.

 

Os hooligans, que são os fanáticos desportivos da política. Têm ideias fortes e firmes sobre o mundo. Podem apresentar argumentos para as suas crenças, mas não conseguem explicar pontos de vista alternativos de um modo que as pessoas com outras visões considerem satisfatórias. Consomem informação política, embora de uma forma tendenciosa. Tendem a desprezar as pessoas que discordam delas, sustentando que as pessoas com as ideias alternativas sobre o mundo são estúpidas, más, egoístas ou, na melhor das hipóteses, estão profundamente enganadas. A maior parte vota regularmente, participa nas atividades políticas e são membros filiados em partidos políticos.

 

Os vulcanos, que são os que pensam científica e racionalmente sobre a política. As suas opiniões são fortemente sustentadas em ciência social e filosofia. São autoconscientes, e apenas confiam naquilo que os indícios permitem. Conseguem explicar pontos de vista diferentes e visões alternativas de forma satisfatória. Interessam-se por política, mas, ao mesmo tempo, são imparciais. Evitam ser tendenciosos ou irracionais. Não pensam que todos aqueles que discordam deles são estúpidos, maus ou egoístas.

 

Estes são os tipos ideais ou arquétipos conceptuais. Algumas pessoas encaixam-se melhor do que outras nestas descrições. Ninguém consegue ser um verdadeiro vulcano, pela simples razão de que todas as pessoas são pelo menos um pouco tendenciosas.

 

Infelizmente, a maioria das pessoas enquadra-se nos moldes hobbit e hooligan, ou encontra-se lá pelo meio.

 

De facto, a política não é valiosa para a maior parte das pessoas. E a democracia tem os seus defeitos e mesmo os seus limites.

 

Uma coisa devíamos ter presente no ato de votar: “A tomada de decisão política não é escolher para si próprio; é escolher para todos.”

 

Alguns filósofos defendem que a democracia é um procedimento de tomada de decisão inerentemente justo.

 

Jason Brennan, não está pelos ajustes. Argumenta que o valor da democracia é puramente instrumental, pois “a única razão para favorecer a democracia sobre qualquer outro sistema político é que é mais eficaz a produzir resultados justos, de acordo com padrões de justiça independentes do procedimento”.

João Madureira

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Segunda-feira, 18 de Setembro de 2017

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359 - Pérolas e diamantes: Os escritores devem andar loucos

 

 

Os escritores devem andar loucos. Louquinhos da silva. O nosso conterrâneo transmontano Rentes de Carvalho, ainda radicado na Holanda, anunciou há uns meses atrás que iria votar em Geert Wilders, o líder do partido da extrema-direita. Na Holanda parece que não lhe ligaram muito. Já por cá chamaram-lhe de tudo, até senil. De facto, o escritor tem 86 anos, mas dissesse ele que iria votar no BE ou no PC de lá e até lhe teciam loas. E das grossas.

 

Muitos dos nossos escrivas e comentaristas de esplanada descobriram agora que os seus livros não prestam, partindo do princípio de que quem vota em Wilders só pode escrever livros reles ou escabrosos. Já outros afirmaram mesmo que não voltariam a ler um livro de Rentes de Carvalho. Estou em crer que esses tais outros nunca leram nenhum dos interessantes romances do escritor. Eu sim li e vou continuar a ler. E até os recomendo vivamente.

 

Eu não me indigno com essas coisas. A escritora Patrícia Reis, sim. Até se questionou, coitada dela, como é que se pode “amar um escritor que afirma que vota na extrema-direita por ter vizinhos árabes e não se sentir seguro?”

 

Nem eu, nem, estou em crer, Rentes de Carvalho caímos nessa ratoeira do sentimentalismo piegas que enxama as redes sociais, que tenta confundir os livros com a pessoa que os escreveu. 

 

Ele escreve e diz o que pensa de uma forma livre e direta, sem estar a pensar nos likes que vai conseguir nas publicações do Facebook. Além disso é um escritor cheio de humor, inteligência, lucidez e, acima de tudo, é um excelente cultor da língua portuguesa.

 

Eu admiro-o por isso. Por prezar a sua liberdade acima de tudo. Por não se deixar ir no politicamente correto, nas declarações brandas e medíocres dos adeptos da lágrima fácil e dos sentimentos cultivados nos centros comerciais.

 

A sua liberdade é rara e no nosso país é mesmo uma excentricidade, daí a confusão com senilidade. Daí a zanga dos escritores que participam alegremente nas vernissages da esquerda e que esquecem sempre os gulags do seu descontentamento.

 

Os milhões de cadáveres produzidos pela ditadura do proletariado continuam enterrados na vala comum da hipocrisia e debaixo dos muros da vergonha e das cortinas de ferro do leninismo.  

 

Numa sua crónica, publicada no Mazagran, Rentes escreveu, antecipando em muitos anos a resposta aos indignados do costume: “O meu medo é notar que com os anos me vou tornando razoável em excesso, quase doentiamente tolerante. É disso que quero que me guardeis, Senhor. Dai-me raivas. Mantende viva em mim a capacidade de me enfurecer. Deixai que continue a chamar as coisas pelo seu nome, a criticar sem medo, a rir de mim próprio, e livrai-me até ao último momento das aceitações que crescem com a idade”.

 

Abençoado sejas, estimado Rentes.

 

António Lobo Antunes, em entrevista a João Céu e Silva, no ano de 2007, comparou as opções políticas à afetividade das opções clubísticas. Transcrevo: “Há pessoas de direita mais democratas que as de esquerda, há partidos de esquerda mais conservadores, as ideologias foram-se dissolvendo e a maior parte dos partidos são frentes e aqueles que ainda têm ideologia, ela está caduca. O único partido que vejo com corpo ideológico mais ou menos coerente é o Partido Comunista, mas é de um tempo que já não existe. As conquistas de Abril, onde estão?”

 

A liberdade, a independência e a dignidade continuam a ser um arquipélago no meio da imensidão da estupidez humana.

 

No entanto, o grito de revolta de Pissarev continua válido: “Para o homem comum um par de botas conta muito mais do que as obras completas de Shakespeare ou de Puchkine.”

 

Mas eu continuo a conseguir fazer a distinção entre a catedral de Chartres e a Disneylândia e entre o Europeu de Futebol e os Concertos de Brandeburgo de Bach.

 

João Madureira

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publicado por Fer.Ribeiro às 02:39
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