12 anos

Segunda-feira, 24 de Abril de 2017

Quem conta um ponto...

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339 - Pérolas e diamantes: O dedo e a Lua

 

Arrelia-me e desconcerta-me a tacanhez e o desplante com que certa gente, e alguma rapaziada de esquerda, critica o Museu de Arte Contemporânea de Chaves. Até porque combater a arte é coisa fácil em meios provincianos. Parece mesmo que dá votos.

 

À falta de melhor argumento, ataca-se a cultura porque dá despesa. Quando oiço estas alarvidades, fico com os pelos em pé. Que até não são muitos, mas… são rijos.

 

Muitos nem sequer se dão ao trabalho de lhe fazer uma pequena visita. Argumentam que os bilhetes são caros, que o edifício custou uma pipa de massa ou que as obras de Nadir Afonso os exasperam. Ou, o que ainda é mais ridículo, que o presidente da Câmara é o António Cabeleira.

 

Fazem-me lembrar os pintores denominados Pré-Rafaelistas que, segundo, Hélia Correia, tinham tanta aversão a Rafael que falavam com desprezo da Transfiguração, chamando-lhe pomposa e antiespiritual, sem no entanto nunca para ela terem olhado.

 

Pelos vistos, não aprenderam nada com o exemplo do Centro Cultural de Belém, hoje a joia da coroa cultural de Lisboa.

 

Fica mal a gente séria e responsável tentar vender estes argumentos comprados aos ressabiados que lustram as cadeiras dos nossos cafés.

 

Depois engalanam-se com prosápia e enfeites argumentativos, tentando evidenciar uma desajeitada modéstia que aprendem sempre muito à pressa, pois as eleições impõem o seu calendário e o candidato anterior foi proveitosamente queimado pelas disputas intestinas dentro do partido.

 

São como os lobos que, a pouco e pouco, se vão orientando na direção de um novo líder da matilha.

 

Correm de um lado para o outro à procura da certeza, sem nunca a conseguirem alcançar.

 

Uma consciência limpa é o melhor travesseiro.

 

Parecem preiteantes mirando-se nas biqueiras dos sapatos estendendo gel pelo cabelo e puxando as mangas do casaco adquirido no Corte Inglês. Por vezes vestem os sucedâneos do burel para se disfarçarem de povo. Viciaram-se na crítica fácil e em criarem uma espécie de mal-estar permanente. Lutam contra as evidências e as emoções como quem luta contra os insetos.

 

Apreciam a regularidade da vida, se possível sem nenhum acontecimento particular. Até os domingos parecem incomodá-los.

 

Cada um faz o que pode. Os idiotas costumam fazer idiotices e os espertos, por vezes, fazem idiotices ainda maiores. Que Deus nos dê paciência.

 

São sempre generosos com a crítica e pouco dados ao elogio. Acham que um pensamento acaba sempre por achar um pensador.

 

A mediocridade é sempre penosa.

 

Aprenderão ao envelhecer que as coisas se tornam simples. E também que não vale a pena alterar os hábitos e os princípios apenas pelo prazer de se parecer moderno.

 

Creio que leram Jacques Lacan e acreditaram que quanto mais formos ignóbeis melhor nos correm as coisas.

 

Cito-lhes de graça Michel Houellebecq: “De qualquer maneira, o amor existe, uma vez que se pode observar os seus efeitos.”

 

Ou então Henri de Régnier: “A solidão não é possível senão em muito jovens, quando temos pela frente todos os sonhos, ou então em muito velhos, quando temos para trás todas as recordações.”

 

E termino com um velho provérbio chinês: “Quando o sábio mostra a Lua, o idiota olha para o dedo.”

 

João Madureira

 

 

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Segunda-feira, 17 de Abril de 2017

Quem conta um ponto...

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338 - Pérolas e diamantes: É preciso ter fé

 

A beleza consegue ter um alcance infinito. Mas o mesmo podemos afirmar acerca da desgraça.

 

Dizem-nos descuidados. Sim, talvez o sejamos. Mas muitas vezes um cuidado excessivo pode transformar-se numa outra forma de descuido.

 

É bem verdade que a política caiu em desgraça. Não é uma coisa que se recomende a gente séria e honesta. Mas todos sabemos que se não vivermos a política é a política que nos vive a nós, ou vive por nós, ou além de nós.

 

Quem comanda o Estado é mestre em arranjar soluções ainda antes de ter arranjado um problema.

 

Intriga-me, e arrelia-me, o argumento do nosso país ter caído na ratoeira da dívida pública e da austeridade. A esses pergunto: Será que Portugal algum dia saiu de lá?

 

As pessoas que dizem que não temos escolha são é demasiado cobardes para escolher. Deixam correr a linha para endrominar o peixe.

 

Uma pessoa vai para a metrópole e começa logo a pensar em grande, a falar eloquentemente e a augurar enormes mudanças. Depois, quando volta à província, começa a magicar se a sua bazófia não terá inchado tanto como o ego.

 

A província é boa para criar filósofos. Dizem eles que somos servidores da nossa terrinha, que tanto amam, e nós com eles, nos feriados ou dias santos.  

 

Mas o ser humano é aquilo que é. Muita gente, mesmo no meio das grandes desgraças, prefere escolher o mal que já conhece em vez do bem que aprendeu a idealizar.

 

Apenas os tolos e os malucos continuam a sonhar.

 

Por vezes as guerras param porque os adversários se esqueceram das razões que os levaram a tal desatino. Outras vezes apenas ficam cansados de lutar.

 

Lembro-me do aforismo do marechal de cavalaria Budionny, o comandante preferido de Estaline: “Tanto me dá quem enfrento. Eu gosto é de golpear com a espada.”

 

Continuamos a ter uma visão infantil do mundo. Vivemos ainda segundo o abecedário. E o nosso professor é o presidente Marcelo Rebelo de Sousa. Não conseguimos amadurecer. Infantilizamo-nos. Pior, deixámo-nos infantilizar.

 

Estes últimos anos de crise económica, financeira e social, foram um duro golpe na nossa vida e na nossa imaginação. No nosso porvir. Começámos a sentir medo do futuro. Ensinaram-nos a viver com a carteira alheia e a pagar os juros da dívida com língua de palmo. 

 

Andávamos com a cabeça cheia de utopias. Dizem os sábios que se a fé na razão abandona o homem, na sua alma instala-se o medo, como num selvagem. O diabo, afirmam os versados, gosta de se ver refletido nos espelhos da irracionalidade.

 

O negócio mais rentável é o medo. Vendem o medo da bancarrota, da austeridade, do empobrecimento, da desgraça. Pouco mais temos para negociar no mercado mundial. Vendemos o nosso sofrimento para honrarmos os acordos monetários.  

 

Este mundo pós-modernista vende-nos o futuro na província em largos cartazes onde se podem ver uma vaca enfeitada com papel crepe guardada por uma velhota embrulhada em papel celofane.

 

E eu não sei se me hei de rir ou chorar.

 

Afinal onde está o fogo da política, a energia da polémica, a excitação da querela, a proclamação do amor pela humanidade e a luta de classes? Tudo se desvaneceu, eclipsado pelas nuvens do conformismo e da subserviência.

 

Acredito que a fé na verdade, na beleza e na benignidade da natureza humana é a forma mais elevada do bem. Por isso, agora compreendo o motivo por que o muçulmano Avicena, ao terminar um dos seus dias dedicados ao pensamento, se tratava invariavelmente com vinho e mulheres.

João Madureira

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Segunda-feira, 10 de Abril de 2017

Quem conta um ponto...

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337 - Pérolas e diamantes: Uma limonada, por favor…

 

Não há nada como a realidade para nos fazer rir até às lágrimas.

 

Quando a República Islâmica do Irão começou a censurar as dobragens dos filmes e das séries apareceram então os grandes momentos do cinema americano em terras de Alá.

 

A meio de um filme de cobóis, um indivíduo todo ajaezado de americano do bom velho oeste, entrava no saloon, com os coldres ajustados na anca e dizia ao barman: “Quero uma limonada!” Então a barman, com a mão ligeiramente a tremer, servia-lhe um copinho de um líquido que o cobói emborcava de um trago, momentos antes de repetir: “Serve-me outra limonada!”

 

Os espetadores de televisão riam-se até lhes doer o estômago. Mas em casa, o mais longe possível dos guardas da revolução.

 

Longe também vão os tempos dos grandes romances que uniam ocidente e oriente. Dom Quixote, segundo os peritos, é o primeiro romance árabe. O primeiro romance árabe e europeu. Não é por acaso que Cervantes o atribui a Sayyd Ibn al-Ayyil, que ele grafa como Cide Hamete Benengeli. O primeiro grande louco da literatura universal dá-se a conhecer ao mundo através da pena de um historiador mourisco da Mancha.

 

Segundo uma das personagens principais do livro Bússola, de Mathias Enard, “dever-se-ia recuperar a Torre dos Loucos para nela criar um museu da loucura que começaria com os santos orientais loucos de Cristo, os Dom Quixotes, e incluiria não poucos orientalistas. Um museu da mistura e da bastardia.”

 

Loucos existem espalhados um pouco por todo o mundo. No Brasil existe, pelo menos, um que dá pelo nome de Marcelo Mirisola, que escreve, segundo Vitor Rosa, de “forma louca, libertária e ácida”.

 

O seu livro, O azul do filho morto, “possui a estranha alegria – ou a felicidade clandestina – daqueles que preveem a derrota de antemão”.

 

O seu alter-ego leva uma “vida de tatu filhadaputa”. Recusaram-lhe o seu primeiro original, intitulado Um pouco de Mozart e genitálias, fazendo-me recordar o já saudoso amigo e pintor Rui Rodrigues, artista dado também a esses temas. “Azar de quem recusou”.

 

Para ele, os editores, fora um seu que lhe paga umas cascas de alho por ele escrever o que escreve, são, além de outras coisas que deixo bem quietinhas nas páginas do romance, “analfabetos, cegos por opção, degenerados, mercenários e débeis mentais. Vale a mesma coisa pros jurados de concursos literários e pros poetas em geral”. Ele odeia poetas.

 

Pior do que poeta só “livro psicografado”, que lhe lembra um tal Emanuel, que é o espírito de um porco, “apenas não é mais covarde, tarado e mau-caráter do que escritor de livro infantil”, incluindo aí os escritores de manuais de autoajuda e livros policiais, pois “enredo é coisa de criança”.

 

Admite que foi batizado na Igreja do Calvário, entre exus e orixás, que sendo aquilo que são, mesmo assim são mais honestos porque admitem deliberadamente serem analfabetos, não escrevendo livros bem intencionados. “Sincretismo dá nisso.”

 

Admite que sempre disse que ser feliz é fácil. Quer ver é alguém “ser infeliz e abrir mão dos malditos orgasmos e do chocolate importado. Aí é que é preciso ter talento, bom humor negro e pessimismo… e não gozar jamais”.

 

Por mais que se esforce, e nisso eu junto-me a ele, não consegue perceber por que razão a “famigerada classe média desaprendeu de sofrer por causa da Tevê a cabo. E a tecnologia, no final das contas, acabou servindo pra caipira desalmado apertar botãozinho e escolher a pior programação”.

 

Também eu, como ele, acreditava nas canções de Simon & Garfunkel, e na sua pretensa “afinidade”. Mas foi tudo ilusão. Foi tudo do tamanho de um chiclete que depois de mastigado, sem tino nem destino, se deita fora.

 

Não entendam este escrito como um apelo à leitura do livro, pois a obra destina-se apenas a reservoir dogs. Até porque “se existe verdade é por descuido”.

 

João Madureira

 

 

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Segunda-feira, 3 de Abril de 2017

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336 - Pérolas e diamantes: Tragédia e comédia

 

Uma quadra de Omar Khayyam reza o seguinte: “Fui à mesquita, roubei um tapete. / Muito mais tarde senti-me um malandrete. / Voltei à mesquita: o tapete estava roto, / Precisei de arranjar outro.”

 

Naqueles velhos tempos os tapetes ainda voavam pacificamente transportando jovens príncipes ou velhos sábios.

 

Depois começaram a voar mais alto e transformaram-se em enormes aviões que se arremessaram contra altas torres no império das américas. As mil e uma noites transformaram-se em horror.

 

Consumou-se mediaticamente o combate das civilizações, que mais não é do que a guerra das religiões.

 

Deus e Alá tentam provar qual deles é o maior.

 

Alá, de espada em punho e pela mão dos seus guerreiros-mensageiros, entretém-se a degolar infiéis.

 

Já Deus contemporizou na sua raiva e no seu ciúme e tornou-se o grande inimigo dos carneiros.

 

Ainda nos perguntamos por que medonha razão, ou objetivo divino, resolveu trocar, no momento do sacrifício, o filho de Abraão por um cordeiro e não por uma galinha, um grilo, uma gipsófila ou um cravo vermelho.

 

Dessa sua divina opção resultou a enorme perseguição aos ovinos por séculos e séculos. E ainda hoje se mantém, com o sucesso que todos conhecemos, e prosseguimos. O cordeiro pascal é ainda a nossa forma de celebrar a ressurreição do seu filho.

 

Por falar em animais, não se sabe ao certo por que razão o homem se afeiçoou aos cães. Sabemos que Wagner leu “O Mundo Como Vontade e Representação” de Schopenhauer em setembro de 1854, precisamente no momento em que começa a compor Tristão e Isolda. Um dramalhão que dá seguimento ao mito dos amores pecaminosos e terríveis que apenas podem terminar em morte.

 

Dizem que Schopenhauer nunca amou ninguém como amou Atma, o seu cão. Contam também que o filósofo alemão nomeou o seu cão herdeiro universal.

 

A loucura não é apenas coisa de deuses. É também privilégio dos humanos.

 

Álvaro de Campos, essa criatura criada pelo semideus Pessoa, tenta seguir Apollinaire, que era amante do Oriente e de paquetes e que também fumava ópio, misturando drogas e viagens.

 

Na sua bíblia, que um amigo me ofereceu em dezembro de 1983, com uma dedicatória de Álvaro Cunhal, este um semideus do comunismo, leio no Opiário: “É antes do ópio que a minha’alma é doente. / Sentir a vida convalesce e estiola / E eu vou buscar ao ópio que consola / Um Oriente ao oriente do Oriente.”

 

Afinal é de lá que nos chega tudo aquilo que somos. Para o bem e para o mal. Valha-nos Deus, o divino pai de Jesus, o salvador e Alá, o misericordioso, e Maomé o seu profeta dileto.

 

O problema foi quando os deuses nos começaram a fazer favores. Thomas Bernhard ouviu-os e resolveu registar uma sua frase célebre: “As pessoas vingam-se dos favores que lhes fazemos.” Não sabemos é se o divino autor do desabafo foi Alá, o misericordioso, ou o divino Deus da cristandade. Seja quem seja, a confissão aí ficou como aviso.

 

A condenação caiu sobre os artistas europeus, em forma de tuberculose, a maleita pública e social, ou sífilis, a doença íntima e vergonhosa.

 

Primeiro alinho os tuberculosos mais conhecidos: Rimbaud, Gauguin, Goethe, Miguel Ângelo, Brahms, Picasso e Hesse.

 

Agora os sifilíticos: Nerval, Van Gogh, Rückert, Proust, Roth, Musil e Hesse, que era ambas as coisas. E muito provavelmente Beethoven, daí a sua surdez, e a quem descobriram outros males: hepatite e cirrose.

 

E Pessoa também tinha muitas doenças. E adições. E ainda por cima amava a poesia de Khayyam. Este parece ter sido feito depois de beber uns copos e de ler algumas quadras do poeta persa: “Ao gozo segue a dor, e o gozo a esta. / Ora o vinho bebemos porque é festa, / Ora o vinho bebemos porque há dor. / Mas de um e de outro vinho nada resta. “

 

Que os deuses nos apanhem confessados.

 

João Madureira

 

 

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Segunda-feira, 27 de Março de 2017

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335 - Pérolas e diamantes: Só os burros…

 

Confesso que as entrevistas já me começam a aborrecer um bocadinho. Algumas são tão enfadonhas que dão sono logo na primeira resposta. Outras prolongam o enfado e o sofrimento até à segunda pergunta. Existem porém outras que se podem ler até ao fim. Mesmo que, por vezes, nos provoquem um abrir de boca lá pelo meio, que nós disfarçamos para podermos continuar a lê-la sem problemas de consciência ou de pudor.

 

Foi o caso da entrevista de António Barreto ao Sol. A mim avivou-me a memória, o que desde já lhe agradeço. De facto, a nossa entrada no século XXI tem sido um bocado dura. Sobre o futuro, o tempo o dirá. Mas o século passado foi um horror. E dos grandes. Foi o pior século de todos, mesmo parecendo o contrário.

 

Do ponto de vista das realizações positivas podemos lembrar a paz e a riqueza, a penicilina, a aspirina, a esferográfica, a televisão, os computadores e os telemóveis. Mas o século XX ficará na História como o século onde se desenrolaram as piores guerras da Humanidade, onde houve o maior número de mortos e torturas da Humanidade. Execuções sumárias, campos de concentração, prisões em massa, intolerâncias inimagináveis, comunismo, fascismo e nazismo.

 

Pelo menos numa coisa Mário Soares teve razão: o comunismo é o grande embuste da História.

 

Mas deixemos falar António Barreto: de tudo aquilo que o comunismo prometeu, nada realizou. “Nem o internacionalismo, nem a paz, nem a igualdade, nem o progresso científico e tecnológico, nem a democracia. Tudo isso, o comunismo destruiu. E o comunismo tem no século XX tantas responsabilidades ou mais que o nazismo… o comunismo foi uma das grandes chagas do século XX.”

 

Para não nos ficarmos só pelos pareceres vagos das palavras, passemos aos números. Na União Soviética, o comunismo foi responsável por cerca de 45 milhões de mortos. Na China o número ficou-se pelos 35 milhões. Já para não falar do vergonhoso tratado feito entre a União Soviética e a Alemanha nazi que deu de barato dois anos para Hitler invadir a Europa e incendiar o mundo.

 

Como não podia deixar de ser, os entrevistadores conduziram o entrevistado para os caminhos de confronto com o seu antigo partido. O PS acha que António Barreto é agora um bocado de direita. Ele responde que os socialistas “terão feito mais arranjinhos com a direita” do que ele. “Com a direita política, com a direita económica, com a direita financeira, com a direita cultural…”

 

E dá exemplos: tudo o que aconteceu na economia e na banca. “Houve uma grande promiscuidade entre os interesses económicos e políticos de alguma direita e de alguma esquerda do PS.”

 

Daí nasceu a “peste negra que é o BES e a família Espírito Santo”. Que coincidiu com uma “espécie de praga, a praga Sócrates. Faz lembrar uma praga bíblica”.

 

Ele há cada coincidência. É como a crença na existência das bruxas.

 

“Tudo o que correu mal em Portugal acaba sempre por pôr em realce a ligação entre o BES e o PS de Sócrates.”

 

António Barreto interroga-se, como nós nos interrogamos, de como é possível que exista um buraco de seis mil milhões na CGD, de quatro ou cinco mil milhões no BES, de três ou quatro mil milhões no BPN e ninguém saiba de nada. “Não há culpados nisto tudo? Não há ladrões?”

 

De facto, “a democracia portuguesa está penhorada e cativa por causa da economia e do sistema financeiro”.

 

Se dos processos do BES e de Sócrates, e da CGD já agora, nada resultar de substantivo, haverá “uma espécie de afundamento definitivo da Justiça portuguesa, talvez da democracia portuguesa”. 

 

Sinto que por vezes há necessidade de sermos conservadores porque há coisas do passado que é importante guardar: certos afetos familiares, alguns valores identitários, carinho pela História e por algumas tradições. Rejeitando, no entanto, as velharias bafientas e a autoridade sem sentido, nem objetivo. Mas também existe a necessidade de ser progressista, porque o futuro é uma coisa que devemos construir em comum e em liberdade.

 

Além, disso, e como dizia Mário Soares: Só os burros é que não mudam de opinião.

 

 João Madureira

 

 

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Segunda-feira, 20 de Março de 2017

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333 - Pérolas e diamantes: O carinho enternecedor da burguesia

 

A propósito do seu último livro “Os Pobres”, a socióloga Maria Filomena Mónica deu uma interessante entrevista ao jornal de Negócios onde defende que em Portugal existe uma espécie de “apartheid” social, pois a composição da sociedade portuguesa é de tal forma desigual, e essa desigualdade é já tão antiga, que surge aos nossos olhos como uma coisa normal e banal.

 

Esta sua preocupação com a pobreza teve início logo na sua adolescência, quando, na companhia de freiras, foi levada a um bairro de lata em Lisboa para poder ver os pobres no seu meio e dessa forma iniciar o seu treino para exercer a caridade. Disseram-lhe que exercendo a caridade rapidamente iria para o céu. MFN não considerou que a sua viagem para o céu justificasse aquilo que viu.

 

Na sua perspetiva, “a caridosa burguesia tradicional cultivou a pobreza dos outros com um carinho enternecedor. Nunca lhe passou pela cabeça que talvez fosse possível acabar com ela ou, pelo menos, tratar muito seriamente disso”.

 

No seu livro pode ler-se este belo naco de prosa: “Cultivavam-se os pobrezinhos, regavam-se com bocadinhos de pão com conduto, com pequenas moedas e cultivava-se sobretudo a sua pobreza. Havia a comida dos pobres, as visitas dos pobres e a sexta-feira que era dia dos pobres.”

 

Esta crítica ao antigamente, também se estende até aos dias de hoje. Reconhece que as redes de solidariedade social, muitas delas com presença de pessoas católicas, até realizam um bom trabalho. Mas a ideia que lhe está por trás é que os ricos estão por cima dos pobres.

 

De facto, estas redes apoiam mas não estimulam as pessoas a sair da pobreza. Habituam-nas a pensar que a pobreza é uma coisa normal. Sim, existem pobres e qual é o problema? O problema é que não devia haver. Ou pelo menos não deviam existir tantos. Propaga-se então a ideia de que não são iguais a nós, de que não têm as mesmas necessidades, de que se satisfazem com menos. Esse é o carimbo da desigualdade. E a desigualdade ali fica como uma espécie de barreira intransponível.

 

De um lado os ricos, que necessitam das melhores coisas. Do outro lado, eles, que são pobres, só necessitam do básico e servido em pequenas doses para não oparem.

 

Desde cedo que MFN abandonou a religião. Ou melhor, foi expulsa da Igreja por um padre. Foi um drama para a sua mãe, que era dirigente da Ação Católica Portuguesa.

 

Revoltava-a a visão da pobreza por parte da Igreja, onde os pobres estavam sempre a mendigar a ajuda dos ricos, e onde estes, sob o olhar majestático de Deus, se viam obrigados a exercer a caridade.

 

Para ela, isto era um sinal de que a Igreja não tinha compaixão por aqueles que mais sofriam e dava boa consciência aos ricos, que tricotavam três casacos de bebé para dar no Natal e iam para casa. “Eu não conseguia fazer isso.”

 

Não se resignava à glorificação do sofrimento. Os pobres eram resignados e aceitavam a doutrina de Cristo, pensando que “estavam ali para serem pobres e não havia nada a fazer. Pessoalmente, eu não quero ser resignada, não queria e não quero sê-lo no futuro”.

 

Na sua infância, a socióloga conviveu com pessoas das boas e católicas famílias portuguesas. Até das mais antigas. Considera no entanto que, apesar da sua bondade, não lhes passava pela cabeça que a desigualdade social é um crime. Já os seus colegas universitários, que eram todos do MES (Movimento de Esquerda Socialista), achavam que os pobres iriam desaparecer de um dia para o outro. Ela também achava, mas depois verificou que não era assim.

 

Eles aí permanecem com todo o seu esplendor. Apesar disso, pensa que com todas as críticas que se possam fazer à sociedade portuguesa, “não há comparação entre aquilo que se vive hoje e o que se vivia há 50 anos. Portugal melhorou bastante e as pessoas, às vezes, esquecem-se. A tendência é para glorificar o passado. O passado, para algumas pessoas, tornou-se um mito. Dantes é que era bom. Dantes, mas quando?! Só se for no século XII”.

 

Apesar de pertencer à secção dos portugueses ricos, Maria Filomena Mónica não se deixa apanhar na teia do ceticismo. É que os ricos são todos iguais, mas há os que são mais iguais do que outros.

 

Oiçamos a sua opinião sobre a União Europeia: “Não posso dar-me ao luxo de ser uma eurocética. Porque não pertenço a um país rico. Se pertencesse à Escandinávia, seria eurocética.”

 

João Madureira

 

 

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Segunda-feira, 13 de Março de 2017

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332 - Pérolas e diamantes: A essência do engano

 

 

A História e a vida ensinaram-me a acreditar que é perigoso acreditar muito no que quer que seja.

 

Uma outra coisa aprendi por mim próprio: a verdadeira decadência implica não levar nada demasiado a sério. Sobretudo a arte decadente. Mas também as ideologias. E ainda a religião.

 

Philip Kerr, no seu livro “O Projeto Janus”, põe o padre Bandolini a atribuir a culpa de toda a Reforma à cerveja forte.

 

Para ele, o vinho é uma bebida perfeitamente católica, porque torna as pessoas ensonadas e cúmplices. Já a cerveja torna-as agressivas. Por isso, os países que consomem muita cerveja forte são sobretudo protestantes. E os países onde se bebe muito vinho são católicos romanos.

 

Já os russos emborcam vodka que é uma bebida que ajuda a atingir o perdão, pois não tem nada a ver com Deus. Por isso é que agora os comunistas andam a bater com o punho direito no lugar onde lhes fica o coração.

 

Em verdade vos digo: a essência do engano, pelo menos na opinião de Bernie Gunther, um ex-agente dos serviços secretos, e personagem principal do livro de Kerr, não é a mentira que se diz, mas as verdades que se contam para a apoiar.

 

Desconfio sempre das ditas qualidades pessoais dos designados como políticos mediáticos. Desconfio da sua oratória demasiado assertiva e folclórica, do seu enorme ativismo, dos seus dotes invulgares de atores, porque, dessa forma, pretendem encobrir a sua falta de convicções políticas sérias.

 

O seu objetivo principal é apenas aparecerem na fotografia, satisfazendo assim a sua “mediopatia”, a sua necessidade de serem queridos e admirados, o seu desejo de protagonismo.

 

Por isso é que é frequente ouvi-los dizer uma coisa num dia e no seguinte afirmar exatamente o contrário e, sobretudo, dizer a uns e a outros o que cada um deles quer escutar.

 

Raramente participam nas discussões de ideias. Esperam que as partes em conflito, por convicção ou por esgotamento, decidam a seu favor e cheguem a um acordo. Nessa altura, armados da sua oratória e autoridade de líderes, limitam-se a reafirmar a posição vencedora e a ratificar o acordo.

 

Não têm posição séria sobre nada, ou quase nada, a não ser seguir o seu inefável desejo de continuar no cargo que ocupam ou em conseguir outro melhor.

 

São pessoas de ação porque a sua vida depende disso. Vão a toda a parte, assistem a todas as reuniões, festas e homenagens, batizados, bodas e funerais.

 

Em vez de resolverem os problemas, adiam-nos ou transformam-nos em problemas diferentes. Adiam tudo para a última hora.

 

Nietzche apercebeu-se que os seres humanos não conseguem suportar demasiada realidade. Defendia que a verdade é nociva para a vida. Por isso abominava a nossa diminuta moral pequeno-burguesa.

 

O pior é deixarmo-nos acreditar que temos razão por já a termos tido.

 

Não há nada que mais nos agrade do que ver um tipo a dar cabo de outro.

 

Uma coisa aprendi ao longo destes anos: os mentirosos nunca mentem, apenas alteram a verdade. Até porque a ser mentira, a sua mentira, é apenas boa, é somente uma mentira nobre, uma mentira oficiosa, uma mentira salvadora.

 

Afinal, a quem interessa a verdade?

 

Górgias, que viveu quatro séculos antes de Cristo, disse que a poesia (naquele tempo a ficção ou o romance) é um engano em que quem engana é mais honesto do que quem não engana, e que quem se deixa enganar mais sábio do que quem não se deixa enganar.

 

Após estes anos todos, continuo a fazer a mesma prece que Reinhold Niebuhr: Senhor, concede-nos a graça para aceitarmos com serenidade as coisas que não podem ser mudadas, coragem para mudar as que devem ser mudadas e sabedoria para distinguir umas das outras.

 

 João Madureira

 

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Segunda-feira, 6 de Março de 2017

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331 - Pérolas e diamantes: Conluio de malvados

 

 

Começo a ficar um pouco farto daquelas pessoas que se vangloriam de fazerem as coisas bem. Sempre com um dedo apontado ao céu e outro ao seu próprio umbigo. Concordo com a sua trupe de bajuladores. De facto eles fazem muito bem todas as coisas sem importância.

 

Vivemos numa fase atípica da nossa democracia. Provavelmente perigosa. Temos liberdade, mais de quarenta anos dela. Continuamos a dizer aquilo que queremos. Mas eles, os que mandam, fazem invariavelmente o que planeiam. 

 

No fundo devemos tentar encontrar o nosso ponto de gravidade. Devemos insistir na procura da coragem, da força e da determinação. Não nos devemos limitar a fazer lixo. As nossas vidas são tão insignificantes. Até os nossos inimigos são insignificantes. Nem sequer vale a pena desperdiçar as nossas forças com eles. 

 

Eu procuro ir de encontro às palavras para inventar a realidade. Se formos bons, as histórias narram-se sozinhas. A nós cabe-nos repeti-las e transmiti-las. Temos de tentar fazer ver o mundo para além das nossas convicções.

 

Tento afastar a fadiga e reaprender a humildade de quem sabe saber pouco.

 

Aprendi com Cervantes que o sorriso e a ironia nascem do desencanto e da consciência de tudo aquilo que é trágico. É através da desilusão que se chega à fraternidade e ao amor. Tal como Dostoiévski, acredito que o Dom Quixote basta para justificar a Humanidade.

 

Deus nos livre de todos aqueles que – e cito Aristóteles – se apressam a executar uma ordem antes de ouvi-la por inteiro, pois assim só podem errar.

 

Por vezes chego a pensar – e a sentir, valha-me Deus – que não existe cidade à qual voltaríamos de tão bom grado as costas, quando nela habitamos, como Chaves. Mas também não existe nenhuma outra à qual se deseja tanto voltar, mal a deixamos.

 

É uma maldição esta contínua oscilação entre a ideia fixa de partir e a mania de voltar, entre a impossibilidade de suportá-la e, ao mesmo tempo, de passar sem ela.

 

Por vezes sinto-me como o judeu descrito por Kafka: “Eu escrevo diversamente do que falo, falo diversamente de como penso, penso diversamente de como devo pensar, e assim por diante até à mais profunda obscuridade.”

 

O grande escritor romeno Norman Manea resumiu de forma magistral o mundo em que vivemos: “No grande mercado livre e carnavalesco do mundo de hoje nada mais parece audível se não for escandaloso, mas nada é suficientemente escandaloso para se tornar memorável.”

 

Acho que foi Kapuscinski quem escreveu que uma árvore encantadora também pode proporcionar um duro bastão para zurzir.

 

Afinal, apenas a cultura permite separarmo-nos das nossas raízes e assumir um comportamento cosmopolita.

 

E não vale a pena pensar que os nefelibatas, os bajuladores e os carreiristas escrevem sem conhecimento de causa, dizendo muitas vezes que não aconteceu nada. Quando isso acontece lembro-me sempre da anedota daquela freira jovem e bonita que quando lhe perguntaram qual a razão de ter sido a única que escapou à violação de um grupo de delinquentes que tinham assaltado o seu convento, respondeu: Não sei… eu só disse «Não».

 

Eu sou um homem com defeitos, não com “defeitozinhos”. Platão ensinou-nos que “lá onde um homem se expõe livremente, nasce espontâneo o conluio dos malvados”.

 

Todos sabemos que um génio pode escrever coisas insignificantes, que não merecem ser lidas, mas se nos informarem que esta página ou aquela obra é de um génio somos forçados a atribuir-lhe significados que na realidade não se encontram lá. E isso não se aplica apenas aos génios, mas a todo aquele que goze de uma certa notoriedade.

 

Mesmo na educação, apenas é eficaz a evidência dos valores, não a sua predicação.

 

João Madureira

 

 

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Segunda-feira, 27 de Fevereiro de 2017

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330 - Pérolas e diamantes: a mão herética do deus António Lobo Antunes

 

Deixem que vos confesse uma coisa: eu aprecio bem mais as entrevistas do que os romances de António Lobo Antunes. Pode parecer uma confissão herética, mas é verdadeira. Ele, na sua imensa modéstia, diz que escreve com a mão de Deus. E que os seus romances (?) são polifónicos. A mim soam-me mais como música estocástica de Iánnis Xenákis. A sua dita polifonia é, por assim dizer, uma dissonância permanente que nos leva quase até ao absurdo e à incompreensão.

 

Talvez por isso, como referiu ao Expresso, não é fácil viver com ele pois parece estar sempre em guerra civil. Não revelou foi contra quem ou a favor de quê.

 

Às vezes pensa, e bem, creio eu, como Verdi, que com os seus 82 anos, quando lhe perguntaram porque não escrevia a sua autobiografia, respondeu: “Já levei 60 anos a maçar as pessoas com a minha música e agora vou maçá-las com a minha escrita?”

 

Além disso considera que todos os livros são autobiográficos. Que vida tão emaranhada deve ter experimentado o senhor. Que coisa sem sentido.

 

Diz que quando escreveu as cartas de guerra à sua namorada “era bonito que se fartava. Agora é um monstro”. Provavelmente, na sua simplicidade introspetiva, um monstro das letras.

 

Conheceu o pugilista Mike Tyson, que considera “inteligente que se farta”, na Public Library de Nova Iorque. O que foi um dos momentos altos da sua vida, pois o nosso eterno candidato ao Nobel é um apaixonado pelo boxe. Quem diria! Até pensou escrever um livro sobre pugilismo.

 

O boxe, para Lobo Antunes, é muito bonito. O seu pai organizava combates entre os seus filhos na casa de banho, com a porta fechada à chave para a mãe não entrar. Eram miúdos.

 

Diz que espera escrever apenas mais dois livros e acabou-se, pois tem “medo de escrever porcarias...  De não ter sentido crítico, pois os escritores que vivem muito tempo começam a fazer porcarias e não percebem”. O que não é, definitivamente, o seu caso. Nem pouco mais ou menos.

 

O nosso estimado romancista foi muito precoce. Segundo diz, e segundo a sua mãe contava, aos dois anos já falava espanhol. Aos 13 anos o seu pai deu-lhe uma segunda edição de “Mort a Crédit”, de Céline, e ficou deslumbrado.

 

Quando o filho disse ao pai que queria ser escritor, ele logo o avisou: “Isso não é boa ideia, estuda, namora. Porque se fores escritor não podes fazer mais nada.”

 

O António não queria ser António, que era o nome do avô, mas sim Sérgio. Ele até gostava muito do avô, mas embirrava com o nome. O avô levava-o aos museus a Itália e dava-lhe “explicações enormíssimas em frente de cada quadro. Depois havia os escarradores.” Ele “só gostava dos escarradores. Queria lá saber dos quadros! Velasquez? Meninas? Queria lá saber”.

 

Diz que acredita em Deus, mas que está sempre zangado com ele. O que não admira, pois continua a estar zangado com o falecido José Saramago. Nunca teve nada contra ele, diz ele. Mas o Saramago tinha-lhe “um pó, uma inveja”. Nunca percebeu porquê.

 

Ele, o Saramago, na opinião do António, “achava-se mesmo um grande escritor”. Ele, o António, que gostaria de se chamar Sérgio, “sempre achou aquilo (os livros do José, especialmente o “Memorial de Convento”) “uma merda”. O Saramago, além de escritor de merda, na opinião do António, possuiu sempre o defeito de ter “mulheres de direita, enquanto se afirmava comunista”. E cita Juan Marsé para arrasar Saramago: “Non es un escritor es um predicador.”

 

Os bons escritores, diz o António, devem ser humildes.

 

Por isso é que Lobo Antunes chegou a fazer um teste de QI e descobriu que tinha 187.

 

A sua mãe costumava dizer: “Não há nada mais estúpido do que um homem inteligente”. Na opinião do seu filho tem toda a razão.

 

Terminamos com um seu desabafo: “A quantidade de coisas estúpidas que fiz ao longo da vida…”

 

João Madureira

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Segunda-feira, 20 de Fevereiro de 2017

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329 - Pérolas e diamantes: Donald Trump é kitsch

 

Oiço Marine Le Pen falar e tenho uma sensação de déjà vu. A senhora, dizem, é de extrema-direita. É contra o euro, a união europeia e a NATO. Exatamente o mesmo discurso do PCP e do BE em Portugal que, dizem, é a extrema-esquerda portuguesa, partindo do princípio, claro está, de que o PS é a esquerda, ou é de esquerda, ou é socialista, já que partido é-o de facto, com as vantagens que todos lhe reconhecemos, sobretudo para os seus dirigentes e apaniguados

 

Ao que tudo indica estão-se a trocar os nomes e os níveis semânticos mais populares da política. A esquerda parece uma nova direita e a direita encaminha-se, já não para o centro, mas diretamente para a esquerda. Talvez tenha sido por isso que, nos EUA, Donald Trump conquistou os votos dos operários da indústria do rust belt (cintura da ferrugem). Também ele é contra a NATO, a União Europeia e o euro. Ou seja, defende os mesmos princípios teóricos de Jerónimo de Sousa, Catarina Martins, Marine Le Pen e de Nigel Farage.

 

Em França, o direitista Fillon, foi apanhado por, enquanto deputado, ter criado um emprego fictício para a mulher, Penelope Fillon, e para dois dos filhos, o que lhes permitiu receber centenas de milhares de euros de fundos parlamentares. O centrista Emmanuel Macron foi quem mais beneficiou com a escandaleira. Dizem as sondagens que pode ser ele o próximo presidente francês, isto se a putativa “frente republicana” se unir contra a extrema-direita de Le Pen.

 

Numa coisa Emmanuel tem razão: “Alguns políticos fingem falar em nome do povo, mas são apenas ventríloquos.”

 

Também Angela Merkel se vê atrapalhada nas sondagens, já que pela primeira vez uma delas colocou a chanceler alemã atrás do social-democrata Martin Schulz. 

 

É tudo uma questão de imparidades. Por causa delas, os bancos registam todos os anos centenas de milhões de euros de perdas em créditos concedidos. Assumem agora que essas dívidas são incobráveis. A destruição de valor é gigantesca. Desde 2008, ultrapassa os 40 mil milhões de euros. Uns não pagam porque foram à falência, outros safam-se porque as garantias que deram não são executáveis. 

 

Joe Berardo, esse génio dos negócios e altruísta da arte, por exemplo, pediu mil milhões de euros à Caixa, ao BES e ao BCP para comprar ações. Deu na altura como garantia outras ações que valiam, dizem os analistas financeiros, cerca de 5 euros. A dívida de milhões da Ongoing aos bancos já citados foi dada também como praticamente perdida. A Lone Star, candidata à compra do Novo Banco, também já veio dizer que o crédito concedido ao construtor civil José Guilherme (o tal senhor que ofereceu um presente de 14 milhões de euros a Ricardo Salgado) está perdido.

 

Como se isto fosse pouco caiu-nos em cima a eleição do inenarrável Trump. O escritor Paul Auster considera que, por causa disso, o futuro da América está em risco. E põe o dedo na ferida: “Apesar das belezas da Constituição Americana, os EUA é um país fundado em dois enormes crimes: o genocídio dos indígenas e a escravatura durante 350 anos. É obsceno!”

 

No seu país, diz Auster, “ninguém quer saber de intelectuais ou escritores. As únicas figuras públicas que as pessoas gostam de ouvir são os atores de cinema”, e, digo eu, os demagogos do kitsch.

 

Eu explico. Kitsch, é uma espécie de ideia artística que envolve a falsificação da verdadeira arte, ou, então, o seu rebaixamento sensacionalista. Pretende tornar aceitável tudo aquilo que, na existência humana, é intolerável e se esconde atrás de uma fachada de sentimentalismo barato, beleza enganadora e virtude aparente.

 

Kitsch, defende Javier Cercas, “é uma mentira narcisista que esconde a verdade do horror e da morte”. Da mesma forma que “o kitsch estético é uma mentira estética – uma arte que, na realidade, é uma arte falsa –, o kitsch histórico é uma mentira histórica – uma história que, na realidade, é uma falsa história.”

 

Trump pertence ao kitsch político, porque é um embuste político, uma realidade adulterada e fabricada, uma mentira estética, uma história falsa.

 

Tudo isso é Trump. Donald Trump é tudo isso e, se calhar, até é um pouco mais.

 

PS - Peço que, se vos for possível, me desculpem estes apartes aparentemente insubstanciais. Mas eu não me pretendo esconder atrás dessa perspetiva cobardolas de não escrever o que me sai da alma, para, em troca, escrevinhar aquilo que acham que devo escrever para agradar aos críticos, aos falsos amigos e aos néscios oficiosos.

 

João Madureira

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Segunda-feira, 13 de Fevereiro de 2017

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328 - Pérolas e diamantes: entre o status quo e a ira de Deus

 

A politóloga argentina Pia Mancini defende que uma das causas da apatia das pessoas em relação à política está ligada ao sistema, pois hoje em dia a democracia representativa preocupa-se exclusivamente com as relações dentro da corporação. Deixou de se centrar na educação dos cidadãos sobre a participação, o debate e a tomada de decisões. Qualquer projeto de lei é inacessível para quem não for advogado, “outra elite que luta para manter o status quo”. 

 

Estamos tentados a pensar que quem manda verdadeiramente em Portugal, mais até do que as direções partidárias, são os lóbis constituídos e arregimentados pelos grandes escritórios de advogados sediados em Lisboa e que devem despachar o serviço em franca camaradagem com os principais ministérios.

 

Por isso é que triunfa o politicamente correto. José Rentes de Carvalho acha que se abateu A Ira de Deus sobre a Europa.

 

Numa entrevista à revista Sábado, refere que “não há espaço para todos na Europa”.

 

Na sua perspetiva, o politicamente correto vai ser a desgraça das sociedades ocidentais “porque é a negação de uma realidade e do espírito crítico, a busca de harmonias impossíveis, a exigência de nos pôr a todos a olhar para o mesmo lado, a marchar com o mesmo passo, a aceitar a mesma dieta sob pena de desagradarmos ao grupo”.

 

JRC não entra no caminho fácil da banalização do medo ao bárbaro ou do complexo de culpa do branco. Ele acha que o perigo está “nesta identificação ingénua com «os pobrezinhos», os infelizes, os deixados por conta no que já se pode chamar de Terceiro Mundo, por ser agora ofensivo”.

 

Parece que os bárbaros não demonstram lá “muito interesse pelo carinho que lhes querem dispensar, preferindo tomar nas mãos o próprio destino, segundo a sua religião e tradições, dispensando as modas de conduta vigentes em São Francisco, Berlim ou Amsterdão”.

 

Ou seja, os atentados na Europa estão a acabar com o politicamente correto. O Brexit e a ascensão dos partidos xenófobos e racistas são disso o sinal máximo. As pessoas estão cada dia mais intolerantes, quer seja em nome de Alá ou de Deus.

 

E é possível que a sacudidela que se aproxima não venha do lado da política, mas sim da economia. “A dura realidade da precisão de três refeições ao dia, o abrigo de um teto e roupa para vestir, não se condói com os sentimentos fictícios do Facebook.”

 

Não lhe parece que as populações estejam agora mais intolerantes. “Já o eram, mas dá ideia de que aos poucos irão deixando a apatia, descobrindo que de facto podem ter voto na matéria”.

 

O escritor português, radicado na Holanda, diz que observa sinais de que os muçulmanos e as multidões da África, que deixaram de ser pacíficas, definiram como objetivo colocar um ponto final na velha ordem ocidental. Por isso, “a Europa vai continuar a ser presa fácil do islão”.

 

De facto, aos muçulmanos sobra-lhes o que aos europeus falta: “Fé, orgulho no seu ideal, um sonho a realizar. A Europa aparenta ocupar-se mais com a superficialidade do dia a dia, as férias, o rock, o hedonismo, o que é de pouca valia como propósito na vida”.

 

Perguntaram-lhe se tem medo. Ele, lá do alto dos seus 86 anos respondeu que medo não tem, tem apenas tristeza, “porque num mundo em que parecem imensas as possibilidades de melhoria para todos, gastamos a vida e o tempo em inimizades, conflitos bárbaros, entretemo-nos com criancices”, fazendo passar a ilusão de que atualmente as pessoas não “envelhecem a caminho de alguma sabedoria”, evidenciando a tendência de retrocederem para o infantilismo.

 

Questionaram-no sobre a possibilidade de uma guerra de civilizações na Europa. Respondeu que se lho tivessem perguntado antes da guerra dos Balcãs (1991-2001), a sua resposta seria não. Hoje não arrisca previsões.

 

 João Madureira

 

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Segunda-feira, 6 de Fevereiro de 2017

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327 - Pérolas e diamantes: esquerda, direita, em frente marche (II)

 

Foi nos anos 80 e 90 que se assistiu a uma recuperação da onomástica tradicional, fenómeno que se alastrou a outras camadas socioeconómicas.

 

Em 2015 circulou no Facebook um texto intitulado «Devolvam o nome aos “betos!!!”». À primeira vista satírico, o apelo em defesa do classicismo dos nomes próprios insurge-se contra a denominada democratização a que os nomes de elite foram sujeitos, perdendo, dessa forma, os atributos distintivos.

 

Afinal parece que existe luta de classes na hora de escolher o nome dos filhos. A esquerda democratizou e banalizou a onomástica e a direita volta agora a apostar nos traços distintivos dos nomes de família com pedigree.

 

Aliás, convém não esquecer que num país dito sociologicamente de esquerda, num programa da RTP de 2007, Salazar foi escolhido pelos telespectadores, em votação democrática e muito participada, como “o maior português da História”.

 

É bem verdade que se pode dizer, como alguém o fez, que se pode tirar o homem da província, mas não a província do homem. Dentro de nós mora um salazarzinho acomodado e irónico que invocamos quando nos dá jeito. Otelo, o máximo capitão de Abril, chegou a desabafar que “precisamos de um homem honesto e inteligente como Salazar”.

 

Foi através do Independente e da Kapa que me apercebi que a direita urbana e sofisticada reivindicava para si um corpus de referências que também era meu: a banda desenhada de Corto Maltese, de Hugo Pratt; as obras de ficção científica de Phillip K. Dick, de onde surge um dos melhores filmes de sempre: Blade Runner; e as distopias pós-apocalípticas de Frank Herbert, autor de Dune, que também deu origem ao filme com o mesmo nome, onde participa como ator convidado Sting; ou a música de inspiração céltica, hoje tão em voga.

 

António Araújo, no seu livro Da Direita à Esquerda, lembra-nos que nos anos 80 a direita portuguesa, urbana e sofisticada, entra na movida lisboeta em convívio aberto com a esquerda, convergindo nos espaços de moda, na noite e no hedonismo de uma visão libertária em matéria de costumes.

 

Era uma “direita que era de esquerda”. Tal atitude foi um grande contributo para combater algo extremamente enraizado nos portugueses: a fronteira que separa a esquerda da direita, o tal esquema dicotómico maniqueísta que, bem vistas as coisas, costuma dar sempre a prevalência à esquerda. 

 

Com a esquerda urbana a virar à direita, o catolicismo, predominantemente conservador, também fez o seu aggiornamento à esquerda, ou seja, tenta ser neutro. José Tolentino Mendonça, um dos nomes mais representativos de uma vivência do catolicismo despojada de conotações político-ideológicas vincadas, põe-se a poetizar como um leigo.  E fá-lo com qualidade.

 

Aliás, a subversão desta dicotomia tem mesmo ocorrido ao mais alto nível da Igreja. Podemos mesmo perguntar: o Papa Francisco é de direita ou de esquerda?

 

Agora proliferam por aí os livros de análise e diagnóstico sobre a crise, com um cardápio sobre a bula terapêutica que nos prometem a cura, “como tirar Portugal da crise” (João Ferreira do Amaral), ou “resgatar o País” (José Gomes Ferreira). Todos eles com a fotografia dos autores na capa, conferindo a si próprios o estatuto de “intelectuais públicos”, estando nós em crer que serão mais públicos do que intelectuais.

 

Com a puta da crise ressurgiram com todo o esplendor as associações de apoio social e de voluntariado. Isabel Jonet, católica assumida, é a sua cara mais mediática. Todos nos lembramos das suas declarações como presidente do Banco Alimentar Contra a Fome: “Se não temos dinheiro para comer bifes todos os dias, não podemos comer bifes todos os dias”.

 

O Movimento Sem Emprego respondeu-lhe, a dado passo, numa carta: “A sua influência aumenta na proporção da miséria que nos vai impondo” e “sabemos que é rica e privilegiada e nunca falou de fome com a boca vazia”. 

 

Nós não vamos tão longe. Estamos em crer que algumas vezes o fez, nomeadamente quando mastigou os tenros bifes de vaca dessa zona.

 

Fora o juízo dicotómico da polémica, uma coisa sabemos: há muita gente que vive da fome e da desgraça dos outros, tanto física como espiritualmente.

 

A investigadora Raquel Varela afirmou que a cruzada de Isabel Jonet lembrava as campanhas do Movimento Nacional Feminino.

 

Numa carta que dirigiu à senhora presidente Jonet dizia, entre outras verdades: “As tropas de famintos são uma mina de ouro para as instituições que vivem à sombra do Estado a gerir a caridade”, pois a “caridade usa a fome como arma política”.

 

João Madureira

 

 

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Segunda-feira, 30 de Janeiro de 2017

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326 - Pérolas e diamantes: esquerda, direita, em frente marche (I)

 

Na nota introdutória do seu livro Da Direita à Esquerda, António Araújo coloca a seguinte questão: “Além de estúpido, caçar Pokémons é de esquerda ou de direita?” Provavelmente a pergunta não tem resposta, pois a maior parte das coisas que fazemos na vida não se conseguem enquadrar dentro desta dicotomia.

 

A obra defende que “as práticas, os hábitos e os consumos socioculturais da esquerda e da direita se encontram cada vez mais próximos, obedecendo a uma lógica de espetáculo que tudo absorve e corrompe”.

 

A seu ver, a grande clivagem que persiste encontra-se naquilo que divide elites e não elites, pois a maioria das polémicas que subsistem na esfera pública situam-se, “hoje como ontem, num âmbito elitista, urbano e sofisticado. O povo mantém-se sensatamente afastado dessas quezílias”.

 

Do que conseguiu apurar, a grande diferença continua a persistir, à esquerda, no seu apego a uma noção de conflito, ao passo que a direita prefere uma abordagem mais consensual e de compromisso com a realidade. No entanto, observa-se que, atualmente, esse padrão está em vias de mudança, “sendo ainda cedo para avançar prognósticos, sobretudo num tempo tão incerto e volátil”.

 

Em Portugal, depois do 25 de Abril, existiram alguns traços distintivos que não me foram estranhos e que rememorei durante a leitura do livro.

 

Em 1986, Diogo Freitas do Amaral, trouxe para a ribalta alguns traços distintivos do seu (da direita, claro está, pois o homem já virou à esquerda há alguns anos) cariz classista. Na sua campanha presidencial popularizou a moda dos sobretudos verdes de loden, de inspiração austríaca e protagonizou uma batalha eleitoral à americana, de grande espetacularidade, que incluiu até chapéus de palhinha… feitos de plástico. 

 

Nos tempos de Cavaco Silva, a direita começou a exibir os seus Rolls-Royce pelas avenidas de Lisboa, a divertir-se no Bananas e a recuperar os solares e as casas de família, graças aos fundos europeus vocacionados para o denominado turismo rural, o agroturismo e o turismo de habitação.

 

Apareceu então o arquiteto Tomás Taveira, impondo a sua visão pós-moderna, muito peculiar, reinventando a tradição, ao reunir vários arquétipos ancestrais da portugalidade: a guitarra portuguesa no edifício-sede do Banco Nacional Ultramarino (1989) e as famigeradas Torres das Amoreiras (1985), que pretendiam evocar os elmos de guerreiros medievais, relembrando castelos de reis e princesas.

 

Nos anos 80 surgiram na cena musical os Heróis do Mar, numa onda de revivalismo que, mais tarde, havia de desembocar no projeto Madredeus, ou nos Sétima Legião, onde pontuavam nomes como Rui Pregal da Cunha, Pedro Ayres Magalhães, Carlos Maria Trindade e Rodrigo Leão.

 

O autor das letras das canções dos Madredeus era Francisco Ribeiro Menezes, que integrava as vozes do coro. Mais tarde enveredou pela carreira diplomática, chegando a exercer funções como chefe de gabinete do primeiro-ministro Pedro Passos Coelho.

 

As voltas que o mundo dá.

 

À esquerda, aparece Rui Veloso e Carlos Tê com o álbum Ar de Rock, rompendo, talvez sem querer, por completo, com a tradição baladeira e de cantautores dos anos 60 e do imediato pós-25 de Abril.

 

À direita, emerge o Miguel Esteves Cardoso, o famoso MEC, exibindo ao mundo português adereços rétro: o simbólico papillon no colarinho da camisa, óculos redondos, uma língua irrequieta sempre pronta a lamber os beiços secos e um Volkswagen carocha preto. Afirmava-se na altura monárquico e estudioso, para não dizer fã, da Saudade, do Sebastianismo e do Integralismo Lusitano.

 

Ou seja, a década de 80 foi marcada por uma espécie de neorromantismo muito pop, ou um neoconservadorismo muito kitsh, que, sendo diferentes na génese, convergiam na redescoberta e na hipervalorização do mundo rural de classe, com os seus solares e casas de família, e na arquitetura com materiais naturais.  

 

Mais tarde, o revivalismo conservador foi apanhado por uma ideia histriónica de recuperação de gosto duvidoso, denominado entre nós como português suave, baseado em condomínios privados apelidados de villas (mas com dois ll, para evitar confusões com a pequena burguesia de província), e atividades como o hipismo, a caça, as touradas e o turismo de habitação.

 

Passados 10 anos, dois após a fundação d’O Independente aparece a revista Kapa.

 

Tenho de reconhecer que foram os grandes responsáveis pelo meu desvio de direita.

 

Eu pecador me confesso.

João Madureira

 

 

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Segunda-feira, 23 de Janeiro de 2017

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325 - Pérolas e diamantes: sobre um monólogo de Chernobyl, pensando em Almaraz

 

 

Num livro de Svetlana Alexievich um homem foge do mundo para passar a viver no paraíso, onde não há pessoas, apenas animais. Pássaros e outros animais. Esqueceu-se da sua própria vida. Pensa que as pessoas são injustas porque o Senhor é imensamente paciente e misericordioso.

 

E porquê?, pergunta ele a si próprio e logo respondendo: “O homem não pode ser feliz. Não deve. O Senhor viu Adão solitário e deu-lhe Eva. Para a felicidade, não para o pecado. Mas o homem não consegue ser feliz. Eu, por exemplo, não gosto do crepúsculo. Desta transição, como agora… Da luz para a noite… Penso, mas não consigo compreender onde estive antes…”

 

Para ele, o homem é requintado só no mal, mas simples e acessível nas palavras cândidas do amor.

 

Depois de fugir do mundo, nos primeiros tempos vagueou pelas estações ferroviárias. Gostava delas porque estavam cheias de gente. Mas ele estava só.

 

Como carregava o pecado, foi para Chernobyl. Passou-lhe a ser indiferente viver ou não viver, pois a vida humana é como uma flor: “Desabrocha, mirra e acaba no fogo.”

 

Passou a gostar de pensar. Em Chernobyl pode-se morrer tanto do ataque de um animal como do frio. E também se pode morrer de pensar.

 

Por lá não se vê um ser humano em dezenas de quilómetros. Expulsa o Demónio pelo jejum e pela oração. O jejum é para a carne, a oração para a alma. Confessa que nunca se sente só. “Um crente não pode ser solitário.”

 

Passa pelas aldeias. Nos primeiros tempos encontrava massa, farinha, óleo vegetal e enlatados que as pessoas deixaram no momento das evacuações.

 

Agora procura os túmulos, pois as pessoas deixam comida e bebida aos mortos. “Mas eles não precisam disso…”

 

E não se ressentem com ele…

 

Apesar da radioatividade, nos campos cresce centeio selvagem e na floresta há bagas e cogumelos.

 

Ali, em Chernobyl, está à vontade. E lê muito. Por ali é fácil encontrar livros. Não se encontram jarros de barro, garfos ou colheres, mas livros arranjam-se sem dificuldade.

 

E lembra-se de algumas ideias que leu num de que não recorda o título nem o nome do autor. Mas memorizou a ideia: “O mal em si não é uma substância, mas a privação do bem, assim como a escuridão não é outra coisa senão a ausência da luz.”

 

Ali sozinho, pensa na morte. Passou a gostar de pensar e o silêncio favorece a preparação.

 

Um dia expulsou da escola uma loba com os seus dois filhos que lá viviam.

 

“Pergunta: Será verdadeiro o mundo consubstanciado na palavra? A palavra está entre o homem e a alma. Pois é…”

 

Sente mais próximo de si os pássaros, as árvores e as formigas. Dantes não conhecia tais sentimentos.

 

“O homem é aterrorizador… E estranho…”

 

Ali não lhe apetece matar ninguém. Arranjou uma cana de pesca e costuma ir pescar. Pois é…

 

Mas não dispara contra os animais.

 

O seu herói preferido é Mychkin que disse: “Como é possível ver uma árvore e não estar feliz?” Pois é…

 

Gosta de pensar. “Mas o homem queixa-se mais do que pensa…”

 

“Para que serve perscrutar o mal? O mal também não é a física!”

 

Tem medo do homem. Mas pretende sempre encontrá-lo. “Um bom homem. Pois é…”

 

Em Chernobyl ou vivem os bandidos, que se escondem, ou alguém como ele. Um mártir.

 

“O meu nome? Não tenho passaporte. A polícia levou-mo… Espancou-me: «Porque andas a vaguear?» «Não ando a vaguear; ando-me a arrepender.» Espancaram-me ainda mais. Bateram-me na cabeça… Escreva então: servo de Deus, Nikolai… Agora, um homem livre.”

 

João Madureira

 

 

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Segunda-feira, 16 de Janeiro de 2017

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324 - Pérolas e diamantes: incarnar segundo as leis

 

Quando visitei pela primeira vez o museu Quai d’Orsay e observei um quadro de Vicent van Gogh senti-me como Po, o Panda do Kung Fu, quando entrou no átrio proibido onde está guardado o Rolo do Dragão, viu uma obra preciosa de pintura sacra e exclamou, com veneração, como não podia deixar de ser: “Nunca vi senão cópias desta pintura”, momento dignamente ascético e com uma referência à distinção da cópia e da cópia da cópia.

 

Reconheço que senti gozo e prazer, numa leitura freudiana, claro está. Isto fez-me lembrar a oposição entre os pelagianos (o pelagianismo foi um conceito teológico que negava o pecado original) e Agostinho de Hipona. Para os pelagianos, o gozo era em si mesmo uma coisa boa que podia ser mal usada, enquanto para Agostinho, o gozo era uma coisa má, mas que, no interior do casamento, podia ser bem usada.

 

Este mesmo dilema sentiram os militantes comunistas perante a atitude a tomar relativamente à “libertação sexual”, oscilando entre dois extremos: de um lado estavam os wilhelm-reichianos (pelagianos), que insistiam na capacidade libertadora da sexualidade livre e do outro situavam-se os marxistas-leninistas ascéticos (agostinianos), que zurziam na “sexualidade livre”, considerando-a como um fenómeno ilustrativo da decadência burguesa, tendo como propósito confundir o povo e desviar a sua energia dos objetivos revolucionários.

 

No fundo, um corpo limpo e roupas asseadas podem, apesar de tudo, esconder uma alma suja. Afinal o heroísmo e o erotismo podem fazer parte da perversão humana.

 

Em Gallipoli, Mustafa Kemal Ataturk disse às suas tropas: “Não vos dou ordem de lutar, dou-vos ordem de morrer. Enquanto morremos, outras tropas e outros comandantes poderão chegar e render-nos.”

 

Como diz Slavoj Zizek, o sacrifício do reagrupamento para a batalha decisiva “é a última tentação a que devemos resistir, a última máscara com que uma atitude não ética se disfarça como se fosse a própria ética”.

 

Marcuse bem nos avisou: “A liberdade é a condição da libertação”. Por outras palavras: “Se transformarmos a realidade tendo como objetivo realizarmos os nossos sonhos, sem transformarmos esses nossos sonhos, terminaremos, mais cedo ou mais tarde, por regressar à realidade anterior.”

 

Quando nos confrontam com as crianças que morrem de fome e nos dizem, por exemplo, que com o preço de dois cafés podemos salvar a vida de uma delas em África, a verdadeira mensagem é a de que pelo preço de duas bicas, cada um de nós pode continuar a levar a sua vida agradável e relativamente ignorante, não só livre de problemas de consciência, mas até consolado pela participação ativa na luta contra a fome.

 

No século IV, quando o cristianismo logrou impor-se como religião do Estado do Império Romano, Hilário, o bispo de Poitiers, avisou os seus congéneres: “O imperador não vos traz a liberdade pondo-vos na prisão, mas trata-vos com respeito no seu palácio e assim torna-vos seus escravos.”

 

E a radicalidade ainda torna as coisas mais complicadas. Durante a Revolução Cultural, os Guardas Vermelhos levaram tão a sério o apelo à auto-organização popular fora do enquadramento do Estado-Partido, que o Partido Comunista reagiu organizando os seus Guardas Escarlates, que pretendiam ser ainda mais vermelhos do que os Guardas Vermelhos, embora, evidentemente, ao serviço do Partido.

 

Em 2007, os órgãos de informação liberais do ocidente tiveram motivo para rir, pois a Administração dos Serviços Religiosos do Estado chinês publicou a “Ordenação Nº 5”, uma lei destinada a entrar em vigor no mês seguinte. O seu perfil abrangia “as medidas administrativas a tomar quanto à reencarnação de budas vivos no budismo tibetano”.

 

Alertava-se o povo para o facto deste “importante passo de institucionalização da administração da reencarnação”, definir os procedimentos a observar por quem pretenda reencarnar, ou seja, resumindo: proíbe-se os monges budistas de reencarnarem sem autorização do governo, pois ninguém, fora da China, pode exercer influência sobre o processo de encarnação, e apenas os mosteiros chineses podem solicitar as necessárias autorizações.

 

Afinal o comunismo ainda não desistiu de controlar tudo. E se já orienta o próprio capitalismo, só lhe falta mesmo dirigir a incarnação.

 

Deus que se cuide, pois os camaradas chineses já andam no seu encalce. 

 

 João Madureira

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 09:00
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