Segunda-feira, 24 de Julho de 2017

Quem conta um ponto...

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352 - Pérolas e diamantes: Diversão e cultura

 

Há por aí gente dita importante que possui o complexo de Sansão: fazem desmoronar o templo à sua volta. Sei que são capazes de organizar coisas complicadas. Mas não tenho a certeza de que possam organizar coisas simples. São até capazes de decidirem uma questão antes mesmo de pensarem nela.

 

Qualquer pessoa que queira ter influência sobre o que se passa à sua volta tem de ser, em certa medida, um oportunista. Mas a verdadeira distinção existe entre aqueles que adaptam os objetivos à realidade e aqueles que procuram moldar a realidade à luz dos seus objetivos.

 

O negativismo tem de acabar. É necessário gerar algo de positivo porque se não teremos de ficar por aqui como guardiões do caos. E para sempre. Alguns dos laços ligados às convenções já pouco significado têm. Devemos julgar os homens pelos seus méritos. O poder não pode ser um fim em si mesmo.

 

Até se compreende a ambição e a cobiça, mas os verdadeiros farsantes misturam a irresponsabilidade e o diletantismo. E isso acaba por ser obsceno.

 

Quando alguém emana uma postura serenamente autoritária, devemos sempre reparar para além da capa superficial, pois quase sempre existem pequenas fissuras que nos revelam outra pessoa menos edificante.

 

Os partidos são hoje, mais do que nunca, uma agência distributiva de favores em troca de consenso. Os ideais, pobres coitados, fazem já só parte do mobiliário. Não há pior maldade do que a superficialidade.

 

George Steiner tem razão: vivemos numa cultura de piedade elegante, pois estamos sempre a pedir desculpa e a dizer quão profundamente os acontecimentos nos afetam, sem nada fazermos para alterar o estado atual das coisas.

 

Mas um bom pensamento acaba sempre por encontrar um pensador. A cultura não é só o somatório de distintas atividades, é mesmo um estilo de vida. Os consumidores limitam-se a ser consumidores de aparências.

 

Vivemos num tempo cultural onde a semântica incorporou a incultura disfarçada de cultura popular.

 

Hoje já não há ninguém inculto. Somos todos cultos. Já ninguém sabe verdadeiramente o que é cultura. Tudo o é e já nada o é. Vivemos no meio desse paradoxo.

 

Muita da gente que nos vendem por culta não é séria. Divertem-se a jogar com as ideias e as distintas teorias. São como artistas de circo que jogam com cilindros, lenços e cartas e nos divertem e até nos maravilham quando tiram coelhos da cartola. Só que não convencem.

 

Vargas Llosa tem razão. Na civilização do espetáculo, infelizmente, a influência que a cultura tem sobre a política, em vez de exigir que mantenha certos padrões de excelência e integridade, contribui para a deteriorar moral e civicamente, estimulando o que possa haver nela de pior, por exemplo, a simples farsa.

 

O atual ritmo cultural dominante vai substituindo as ideias e os ideais, os debates intelectuais e os programas culturais pela publicidade e pelas aparências. É o jogo do faz de conta.

 

A raiz do problema está na banalização lúdica da cultura predominante. O valor supremo é agora a diversão. As pessoas abrem um jornal ou ligam a televisão ou até se atrevem a comprar um livro para passar o tempo, no sentido mais corriqueiro do termo. Detestam martirizar o cérebro com preocupações, dúvidas e questões mais difíceis. Pretendem apenas distrair-se. Querem esquecer-se das coisas sérias, profundas, preocupantes. Entregam-se nas mãos dos devaneios leves e agradavelmente superficiais, que a seu ver são saudavelmente estúpidos.

 

Van Nimwegen estudou os efeitos da internet no nosso cérebro e nos nossos hábitos e concluiu que confiar aos computadores a solução de todos os problemas cognitivos reduz “a capacidade dos nossos cérebros para construir estruturas estáveis de conhecimento”. Ou seja: quanto mais inteligente for o nosso computador, mais parvos seremos.

 

Só as boas leituras fazem com que a nossa memória arrecade a memória do tempo. De outra forma é impossível.

 

João Madureira

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Segunda-feira, 17 de Julho de 2017

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351 - Pérolas e diamantes: O carro à frente dos princípios

 

 

Eu sou daqueles que consideram que tem de existir o primado do fator moral sobre o aspeto material.

 

Podem denominar este meu convencimento como romântico e excêntrico, mas eu penso que na política, tal como em qualquer outro domínio da atividade humana, o caráter, os valores e as convicções são pelo menos tão importantes como os outros fatores descritos, em termos gerais, como “económicos”. 

 

Mesmo as melhores leis, e até a legislação mais progressista, não valem sequer a tinta com que são impressas se as qualidades morais dos homens que têm de as aplicar forem duvidosas.

 

A inteligência e a mera perfeição técnica dos métodos de pensar e analisar não são os únicos – nem sequer os mais elevados – valores universais.

 

Brincar com a inteligência, sem convicções profundas, sem crença e sem autodisciplina, pode levar a que a nossa civilização esteja condenada provavelmente ao declínio e até ao desaparecimento.

 

Muitos dos nossos “brilhantes” universitários que enxameiam o espaço político são tolos sofisticados que se limitam a serem ensinados. Revelam-se céticos em relação às opiniões e ingénuos quanto aos factos que se limitam a engolir de forma acrítica, quando devia ser precisamente o contrário. Daí o primado da tecnocracia e do “economês”.

 

Há gente que para dizer alguma coisa espera até poder dizer tudo, acabando por não dizer nada.

 

As pessoas influentes ensinam pelo exemplo e não pelo dogma, porque representam os valores, em vez de os demonstrarem.

 

A distinção entre velhaco e herói continua a fazer-se menos pela sua ação do que pela sua motivação e isso, quer queiramos, quer não, contribui para a erosão das nossas restrições morais.

 

É necessário reforçar o consenso moral, sem o qual a função humana perde todo o sentido.

 

A sinceridade no debate público continua a poder ser medida em “decibéis”. E a verdade está a preço de saldo.

 

Ensaia-se a quadratura do círculo, tentando cada um representar tantos pontos de vista diferentes quanto possível. O que leva ao grau zero da diferença. E sem diferença, não existe verdade e muito menos democracia autêntica.

 

Cada um tenta imitar a aparência rococó, complexa, esculpida a golpes de computador, mas superficial, como pedras semipreciosas elaboradamente cortadas.

 

Os seus discursos são como balões cheios de hélio, feitos para subir e perderem-se no éter, pois colocam sempre pouco em jogo.

 

Aprenderam com a lei de Sayre: "Em qualquer disputa, a intensidade do sentimento é inversamente proporcional ao valor das questões em jogo".

 

A mim parecem-me o teatro kabuki. Ou então atores de teatro amador, nunca conseguindo livrar-se do característico papel de vilão shakespeariano.

 

Falam, e insistem, na necessidade da escolha, mas, para nossa desilusão, não apresentam nada para escolhermos. Nem propostas, nem carisma, e muito menos ideias. Escondem-se atrás do seu putativo charme exposto em cartazes (a)berrantes, que mais não são do que a extensão do seu ego.

 

Quando as minhas informações mudam, altero as minhas conclusões.

 

O segredo da independência está em agir independentemente. Uma pessoa pode nem sequer ter como objetivo o êxito. O melhor é seguir a lei da vida e não partir do princípio de que as coisas se saiam bem.

 

Só quem não faz cálculos é que possui a liberdade que os distingue das pessoas mesquinhas e os torna imunes às vigarices.

 

Não podemos exigir a perfeição antes da ação. Não podemos querer ser todos iguais.

 

As pessoas já conseguem distinguir atividade de ação. E preferem sempre a segunda.

 

A forma do futuro não é automática. O futuro é constituído pela visão, a ousadia e a coragem do presente.

 

O que o compromete é colocar as conveniências acima dos princípios.

 

João Madureira

 

 

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Segunda-feira, 3 de Julho de 2017

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349 - Pérolas e diamantes: Estátuas e enigmas

 

Todos, ou quase todos, nos rimos com a verdade. Apreciamos a filosofia do corrupto Enoch “Nucky” Thompson, tesoureiro da Câmara de Chicago no filme de Martin Scorsese, que perorava: “Nunca deixes que a verdade estrague uma boa história.”

 

Além disso, para o Capuchinho Vermelho, o mundo a sério é aquele onde os lobos falam.

 

E a menina cresceu e o lobo transformou-se em homem-touro que aprecia imenso desabotoar-lhe o vestido e tombá-la a seus pés. Atualmente já não usa roupa interior. O seu corpo é o de uma pintura de Rafael, com os seios densos, cintura fina, ancas largas, ombros ligeiramente descaídos e sexo rapado. Usa também um corte de cabelo que faz lembrar uma princesa cartaginesa.

 

A maioria dos seres humanos não suporta a verdade. Nisso seguem os historiadores, que se refugiam no conforto intelectual de si mesmos, nas suas verdades, nos seus lugares seguros, evitando os temas mais difíceis e desagradáveis, rendendo-se aos velhos ídolos e clichés ideológicos, quando não à chantagem política.

 

O mesmo se aplica aos pretensos fazedores de opinião e distintos líderes políticos em ascensão, que não param de procurar o Feiticeiro de Oz na Cidade Esmeralda com a esperança de lhe pedirem o que mais desejam, para, inevitavelmente, descobrirem que ele não passa de um impostor.

 

Os meios imorais conduzem a fins imorais e geram tipos imorais, seja em que situação for.

 

Agora, os museus estão sempre repletos de grandes obras e também de turistas japoneses. Por isso é preciso ter coragem para suportar o muro amarelo que nos separa dos quadros mais famosos. E o que mais me intriga é o facto de eles os fotografarem sem sequer os olhar.

 

Depois do Axel e da Marina terem visitado Veneza, pois eles gostam de viver os seus destinos, também eu e a Luzia temos programada uma visita a essa cidade italiana. Esqueçam a Praça de S. Marcos. Iremos direitinhos ao Campo Santo Stefano, depois de cruzar o Grande Canal, para ver a estátua de Niccolo Tommaseo, um escritor e político, logo desinteressante, que os venezianos alcunham de Cagalibri: o caga-livros, por causa da estátua, que dá mesmo a sensação de cagança livreira. Para ironia, ironia e meia.

 

Lembra-me a frase de Leibniz: “A educação pode tudo: ela faz dançar os ursos.” E até levar pessoas a Veneza para ver a estátua de Niccolo Tommaseo.

 

Mas a vida de um intelectual não é fácil. Posso mesmo dizer que é desanimadora. Andam sempre à procura de unicórnios e só encontram rinocerontes. Mas, mesmo assim, os mais estoicos, que são geralmente os mais parvos, não desistem.

 

Alguns são tão desinteressantes que provocam sonolência a si próprios. Outros vestem-se sempre a rigor para ir passar recados à oposição. Antigamente iam para castrati

 

O povo não sabe se os deve amar ou querer-lhes mal.

 

São elegantes e frios. Adoram a tradição. São mais generosos com o lume do que com o alimento.

 

Os capitães de Abril já cá não estão, mas o poder anda disseminado por toda a parte. A arte está em apanhar os bocados e reconstituir o puzzle.

 

Entra neles uma tal vontade de agradar que aprenderam a contrair os músculos da cara num sorriso.

 

O problema dos homens não reside tanto em serem maus ou bons, mas antes em serem fracos.

 

João Madureira

 

 

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Segunda-feira, 26 de Junho de 2017

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348 - Pérolas e diamantes: O efeito boomerang

 

Há pessoas que convertem em literatura tudo o que tocam. A realidade e a ficção, para eles, não têm fronteira. Conseguem montar espetáculo em qualquer lugar onde estejam, preservando uma assombrosa expressividade coloquial.

 

É tudo gente do melhor. Há uma expressão vulgar que diz que o talento de uma pessoa se mede pelo número de medíocres que o rodeiam e que o tentam lixar. Aos meus inimigos, desejo-lhes saúde. E eles quem são? Pois…

 

Isto é uma coisa do senso comum, da sageza das relações.

 

Tenho mais medo dos meus amigos. Porque dos inimigos, daqueles que conheço, defendo-me bem. Tenho já longa prática.

 

Eu até gosto dos meus inimigos. Já os elogios, suspeito mais deles do que da censura, mesmo impertinente, injustificada, invejosa.

 

Atenção, eu não quero ser original, nem engraçadinho. Para esse peditório já dei. E muito. Agora uso a minha liberdade para urinar junto aos muros, quando não há casa de banho por perto. É da idade. Da idade e da resiliência.

 

Dizem que o país mudou. Mas é engano. O que mudou foi a estupidez. Por vezes parece que há golpes de mágica e tudo muda, mas essa perspetiva não é realista. As aparências enganam.

 

Tudo tem significado. Tudo.

 

Deixem que vos conte uma anedota. Um homem regressa a casa, noite cerrada, completamente bêbado, e pelo caminho encontra uma freira com o hábito e o chapéu. Com as forças que lhe restam, atira-se a ela e dá-lhe uma sova das valentes. Depois da sova, levanta-a do chão e diz-lhe: “Mas, Batman, julgava-te mais forte!”

 

A grande lição de Semiologia (ciência geral dos signos que estuda os fenómenos de significação) de Roland Barthes consiste no apontar do dedo a qualquer acontecimento do universo e advertir que ele significa alguma coisa. Ele repetia sempre que o semiólogo, quando passeia pelas ruas, procura significação onde os outros apenas veem acontecimentos. Ensinou-nos que se diz sempre alguma coisa com a maneira de vestir, de pegar num copo, na maneira de andar, sorrir e com as insinuações disfarçadas de brincadeiras…

 

Por isso me dedico à literatura, porque não se é obrigado a fixar um sentido, mas joga-se com esse sentido.

 

Fascina-me o Japão porque é um mundo em que não conheço nenhum código. Santo Agostinho dizia que o texto da Bíblia era uma floresta infinita, por isso podia-se sempre submetê-lo a uma regra de falsificação.

 

As Mitologias de Barthes são brilhantes análises semiológicas, porque a vida está sujeita a um bombardeamento contínuo de mensagens que nem sempre manifestam uma intencionalidade direta, mas que tendem, a maior parte das vezes, por causa da sua finalidade ideológica, em apresentar-se sob uma aparente “naturalidade” do real.

 

Gramsci tem uma frase premonitória: “A crise consiste precisamente no facto de que o antigo morre e o novo não pode nascer.”

 

Laurent Binet (A Sétima Função da Linguagem), através da sua personagem Bifo, refere que “se a classe dominante perdeu o consentimento, ou seja, se ela já não é dirigente, mas unicamente dominante e unicamente detentora de uma força de coerção, isso significa que as grandes massas se desligaram das ideologias tradicionais, que elas já não acreditam naquilo em que acreditavam antes…”

 

Todos sabemos que o conhecimento de um mecanismo de manipulação não nos defende forçosamente dele. Basta atentar na publicidade, na comunicação. A maior parte das pessoas sabe como funcionam, que recursos utilizam, mas, mesmo assim, é influenciada por elas.

 

Aviso à navegação. Eu não abandono os conceitos e os princípios como se abandona um cão.

 

As pessoas querem arrebanhar tudo, tragar tudo, manipular tudo. Ver, decifrar, aprender, não os influencia. Vivem debaixo do anonimato. Atiram a pedra e escondem a mão.

Podem manipular a maledicência, propagar a intriga e estender a mentira, mas de uma coisa não são capazes: alterar as leis da física.

 

Lembro: Olhem que o efeito boomerang existe.

 

 

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Segunda-feira, 19 de Junho de 2017

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360 - Pérolas e diamantes: A escrita e o anzol

 

Gonzalo Torrente Ballester escreveu, tentando responder a uma pergunta incómoda, que a génese da obra de arte aproxima-se mais do exemplo do trabalho e da persistência do que na biologia do nascimento humano. A liberdade, o acaso e a vontade conscientes são os fatores reais e decisivos. “Não creio que exista nenhuma obra de arte que não pudesse ter sido de outra maneira e obviamente melhor do que é.”

 

Afinal porque se escreve? Depois de vários projetos mais ou menos falhados, ou de alguns com sucesso, a resposta até poderá ser: para nada.

 

Para vos animar, quero desde já dizer que este “nada” não é uma resposta radical e negativa. Esses tempos já lá vão.

 

À boa maneira de uma ave canora, podia dizer que o intelectual vive enquanto pensa e escreve. Sim, é esse o seu modo de ser e de estar no mundo. “E só nisto já encontra justificação”, como afirmou o escritor galego.

 

Afinal estamos neste mundo “sem termos sido ouvidos nem achados, e, sobretudo, sem que o tenhamos pedido; mas o pior é que os outros também o esquecem e se põem a fazer exigências e a pedir justificações, até do mero existir”.

 

A justificação impõe-se por si própria. E o fado que cada um carrega para percorrer o seu caminho de pensar e escrever apenas a ele diz respeito. Os fins sublimes são mera ficção, parvoíces, tontarias. “Escrevemos porque sim, ou porque gostamos, ou porque não sabemos fazer outra coisa.”

 

Muitos procuram uma finalidade no ato da escrita. Uns proclamam razões e inconveniências. Outros choram baba e ranho em cima daquilo que escrevem. Outros, ainda, arremessam a pedra e escondem a mão. Há feitios para tudo. Muitas vezes escrever resulta num ato gratuito e num esforço inglório. É meio falhanço. E depois?

 

Como justificação relato-vos a história que contaram a Torrente Ballester de um rouxinol que um belo dia descobriu que ninguém lhe ouvia o doce canto e que, desiludido, decidiu ser carpinteiro, como o seu vizinho de árvore. Nesse ofício, obviamente, nem sequer atingiu a mediania.

 

Não é necessário perguntarmo-nos por que escrevemos, pois essa questão encaminha-nos invariavelmente para a falácia das grandes transcendências. Cada um deve fazer aquilo que tem de fazer e não lhe dar muita importância. Devemos revelar mesmo uma certa indiferença perante o ato verificável de que a voz do rouxinol não tem o público que merece. E quando chegar a hora de nos calarmos e emudecermos, aceitá-la de bom grado e em paz. Devemos fazer como aquele toureiro que após cada lide, fosse ela boa, mediana ou má, dizia invariavelmente: “Aí têm.”

 

Além disso, cada leitor de um romance lê, apesar do mesmo texto, um romance diferente, dependendo sempre da sua maneira de ver o mundo, da sua experiência de vida e não da palavra textual.

 

Gonzalo Torrente Ballester avisou-nos: “A palavra dispara setas, e muitas delas perdem-se longe do alvo.”

 

A fórmula é geral. Mesmo o Dom Quixote, que é o primeiro romance ocidental, é a história de um jogo que se escreve jogando.

 

O romancista define-se não por aquilo que é, mas sim por aquilo que escreve.

 

Devemos sempre desconfiar tanto dos mitificadores como dos desmitificadores.

 

O necessário é cada um percorrer o seu caminho pois ele leva-nos, pelo menos, ao seu próprio fim.

 

Eu ainda sou dos que acreditam que, por muito errado que um caminho possa ter sido, alguma coisa acabamos sempre por descobrir. Ninguém o percorre em vão.

 

Afinal são os poetas que tradicionalmente se dirigiam ao povo, com as histórias clássicas consideradas épicas como são o caso da Ilíada, da Canção de Rolando, Mio Cid ou mesmo Os Lusíadas, com palavras ao serviço da sua glorificação, que nos tentaram “fazer engolir sem protesto o anzol do poder”. 

 

Roland Barthes dizia que a escrita “é o lugar do político no sentido lato, ou seja, a escrita é aquilo mediante a qual ele se exprime, mesmo se o escritor não é disso consciente, o que ele é socialmente, a sua cultura, origem, a sua classe social, a sociedade que o rodeia”.

 

Antes de terminar, quero citar Laurent Binet, autor do romance A Sétima Função da Linguagem, que sabe da dificuldade de aproximar o leitor dessa função: “Quando escrevo uma cena ou uma frase, gosto que não haja apenas uma função, só psicológica ou só poética. Essa cena também serve para dar um passo em frente e jogar com os símbolos.”

 

Claro que a linguagem é um código. Mas nunca se esqueçam que toda a descodificação é uma nova codificação.

 

No campo da ficção, Roland Barthes defendeu que a linguagem é a arma mais poderosa do mundo e há quem mate para dominar o seu segredo.

 

A vida não é um romance. Os romances é que podem fazer parte da vida. Da minha fazem, com toda a certeza. E da vossa também, por muito que nos custe a todos acreditar. 

 

PS – Texto lido na apresentação do romance “O Homem Sem Memória”, de João Madureira, no dia 16/6/2017, em Chaves.

 

 

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Segunda-feira, 5 de Junho de 2017

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345 - Pérolas e diamantes: Hot Dogs

 

Depois da Guerra Fria, os seus silenciosos heróis passaram à clandestinidade na mesma sociedade que protegeram. Talvez se sintam agora dissidentes. Quase como estrangeiros no seu próprio país.

 

Antigamente nem sequer eram recebidos nas divisões das traseiras. Agora acomodaram-se às pessoas e às situações.

 

Talvez ensinem em universidades onde lhes é dedicada alguma atenção, que será seguida de alguma confiança e é até provável que gozem de algum apoio.

 

Dizem o que as outras pessoas disseram antes delas: Quem pode, faz; quem não sabe, ensina.

 

Perderam a sua utilidade, a sua unidade e o seu objetivo, porque viram demasiado, omitiram demasiado e conciliaram demasiado.

 

Mas será que alguma vez o desespero e a pobreza humana constituíram séria preocupação para alguma nação rica? Estou em crer que não. Mas eu sou um incréu, não posso servir de exemplo.

 

Habituei-me a misturar o tremendamente sério com o tremendamente frívolo, tentando fazer com que a diferença entre um e outro seja pequena. Faz parte do manual de sobrevivência em sociedade.

 

Aprendi a libertar-me do medo porque sei que as pessoas medrosas nunca aprendem.

 

A maioria das vezes não se ganha. O outro lado é que simplesmente perde. Os conflitos ideológicos, em vez de nos libertarem, reprimiram-nos. A guerra, que diziam fria, terminou. Pelo menos é isso que dizem. O que importa é a esperança.

 

De uma coisa me arrependo, do tempo e das capacidades que desperdiçámos, para nada.

 

Fingíamos que as coisas não existiam, ou então fingíamos que não eram importantes. Era esse o manual de sobrevivência de um revolucionário.

 

Nunca é com a mentira que vamos derrotar os mentirosos.

 

Sei agora que do lado de lá, onde estavam os putativos amigos, mentiam para esconder o seu mau sistema. Do lado de cá também nos mentiam para esconder as supostas verdades.

 

Falavam do respeito pelo individuo, do amor à diversidade e à discussão, na crença de que só se pode governar justamente com o consentimento dos governados. E enalteciam a nossa capacidade de ver o ponto de vista dos outros – sobretudo nos países que explorámos, quase até ao aniquilamento, para os nossos próprios objetivos.

 

Em defesa de uma suposta retidão ideológica, enchemo-nos de uma compaixão deífica, a raiar a indiferença.

 

Apesar das ladainhas ocidentais, é ainda onde nos encontramos. Na indiferença estratégica.

 

Aparentando o contrário, a nossa sociedade continua a proteger os fortes contra os fracos. Apenas aperfeiçoámos a arte da mentira pública.

 

Horace Walpole escreveu que “este mundo é uma comédia para os que pensam e uma tragédia para os que sentem”.

 

Por isso é que, salvo raros momentos, o nosso presente é uma comédia e o nosso passado foi uma tragédia.

 

Por incrível que possa parecer, dizer não é sempre mais fácil do que dizer sim. Deixar de sentir não é deixar de existir. Além disso, a filosofia tem de servir para alguma coisa.

 

Também eu teimei durante algum tempo em ser, ou parecer, conservador. Mas que diabo é que existe por aí de bom que se possa conservar?

 

Eu sei que a vida ou é uma busca ou não é nada. Mas, convenhamos, não é com o aproximar da idade da reforma que uma pessoa se deve disponibilizar a vaguear perdido e a dar voltas à cabeça sobre a maneira de reinventar a humanidade.

 

Agora compreendo, depois de muito estudar a multiculturalidade e os seus apóstolos,  

a razão porque tanto os cambojanos como os tailandeses apostam grossa maquia no número de vezes que uma rã vai arrotar.

 

É com a chegada do verão que se escuta o frenético tagarelar dos insetos.

 

João Madureira

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Segunda-feira, 29 de Maio de 2017

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344 - Pérolas e diamantes: Convém usar… mas não abusar

 

 

Todos aqueles que atualmente trabalham arduamente sentem que estão a ser usados, que os seus impostos estão a ser gastos ou para resgatar bancos e banqueiros ou então para subsidiar pessoas que se recusam a trabalhar.

 

Os Governos mais não fazem do que ajudar substancialmente os que provocaram a crise, em vez de se preocuparem em ajudar os que mais sofrem.

 

Mas também convém dizer que sem os Estados, os bancos teriam cometido abusos ainda maiores.

 

Em tempos de crise, a solução verdadeira para combater a desigualdade reside em dirigir o foco sobre a comunidade em vez de se apostar na defesa do interesse pessoal.

 

A ideologia fundamentalista dos mercados apenas serve os interesses dos poderosos, sobretudo à custa do resto da sociedade.

 

Muitos dos que não conseguem trabalho, sobretudo entre os mais jovens, emigram; as famílias separam-se e o nosso país vê-se esventrado dos seus cidadãos mais talentosos.

 

Todos nos apercebemos que é falso o sentido de considerarmos como garantidos os êxitos do passado na criação de uma sociedade e uma economia mais iguais e mais justas. Temos de nos preocupar novamente com a crescente desigualdade e com as suas consequências sociais, políticas e ideológicas.

 

Cortar nos investimentos no bem-comum ou enfraquecer os sistemas de proteção social põe em risco os valores básicos da nossa sociedade. A questão, embora não parecendo, é mais política do que económica.

 

Mas também é necessário reconhecer que o crescimento da desigualdade tem algo a ver com a globalização e a substituição de trabalhos semiqualificados por novas tecnologias e pelo trabalho terceirizado.

 

O problema não é que a globalização seja boa ou má. O que é má é a maneira como os governos a gerem, somente em benefício de interesses especiais.

 

Joseph Stiglitz, Prémio Nobel da Economia, tem razão: “A interconetividade entre os povos, os países e as economias de todo o mundo é um desenvolvimento que pode ser usado com a mesma eficácia, tanto para promover a prosperidade como para espalhar a ganância e a miséria.”

 

Os mercados apenas se têm concentrado na “riqueza” dos ricos, passando os custos ambientais à sociedade e abusando dos trabalhadores.

 

Joseph Stiglitz defende que é imprescindível reduzir a desigualdade, pois só dessa forma conseguiremos salvar a nossa economia, a nossa democracia e a nossa sociedade.

 

Um pouco por todo o mundo, os governos mostram não serem capazes de resolver os problemas económicos fulcrais, incluindo o desemprego, deixando cair os valores universais de justiça, sacrificados pela ganância de alguns, apesar da retórica em contrário.

 

Uma coisa sabemos: a desigualdade crescente não é algo de inevitável. Joseph Stiglitz, defende que são os interesses financeiros quem, no processo de criação de riqueza, sufocam o verdadeiro e dinâmico capitalismo. É a ideologia neoliberal quem tornou a sociedade intoleravelmente injusta. 

 

Os jovens manifestantes que agora se juntam aos pais, aos avós e aos professores, não são nem revolucionários, nem anarquistas. Não querem derrubar o sistema. Acreditam ainda na democracia e no processo eleitoral, acreditam que é possível pôr a funcionar os governos, lembrando-lhes apenas que têm de prestar contas ao povo. Estão indignados com a taxa de desemprego entre os 30% e os 40%.

 

Três temas ressoam em força por esse mundo fora: os mercados não funcionam como devem, porque bem vistas as coisas, não são nem eficientes, nem estáveis; e o sistema político e o sistema económico são fundamentalmente injustos. 

 

E os três estão intimamente relacionados entre si. A desigualdade é causa e consequência do falhanço do sistema político e contribui para a instabilidade do nosso sistema económico, que, por sua vez, contribui para uma maior desigualdade, originando uma espiral recessiva onde mergulhámos e da qual só poderemos emergir através de políticas devidamente concertadas.

 

João Madureira

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Segunda-feira, 22 de Maio de 2017

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343 - Pérolas e diamantes: Tudo é relativo

 

Esta situação aflitiva e inverosímil ligada aos casos mediáticos de corrupção passiva para a prática de atos contrários aos deveres do cargo, fraude fiscal qualificada, branqueamento de capitais, falsificação, recebimento indevido de vantagem e tráfico de influências imputada a políticos, banqueiros e fauna similar, faz-me lembrar o velho provérbio brasileiro de “quem rouba pouco é ladrão e quem rouba muito é barão”.

 

Mas hoje não quero ir por aí. Prefiro viajar até ao Brasil e lembrar que D. Pedro foi acolhido no Rio de Janeiro, por volta do ano 1821, no tempo da “Independência ou morte” de forma esfuziante. O então Perpétuo defensor do Brasil apercebeu-se de que eram justos os clamores do povo fiel que “preferia um inimigo declarado a um amigo traidor”.

 

Prefiro cair no meio da revolução republicana e, através da leitura de Machado de Assis (Esaú e Jacó), assistir de palanque à condição humana no meio do rebuliço.

 

Aí se narra o hilariante caso do senhor Custódio, proprietário de uma pastelaria, que mal tinha acabado de encomendar uma nova tabuleta para a sua tradicional “Confeitaria do Império”, é informado que no Brasil tinha triunfado a República.

 

Mandou recado ao mestre pintor para interromper o trabalho, que na altura em que o tinha visto pela última vez, exibia a palavra “Confeitaria” e a letra “d”. Pensava que a letra “o” e a palavra “Império” estivessem ainda apenas delineadas a giz. No entanto, para desespero do senhor Custódio, o trabalho já estava terminado.

 

Por que necessitava de uma nova placa, Custódio procurou a ajuda do Conselheiro Aires. Sugeriu que o nome passasse para “Confeitaria da República”. Mas ficaram com medo de que em poucos meses pudesse existir nova revolta e mais uma vez o nome do local tivesse de ser alterado.

 

O sábio Conselheiro sugeriu então o nome “Confeitaria do Governo”, que calhava bem com qualquer regime. No entanto concluíram que qualquer governo tem oposição e que se ela fosse das boas poderia despedaçar a tabuleta.

 

Aires arriscou sugerir que Custódio deixasse o título original: “Confeitaria do Império”, acrescentando apenas “fundada em 1860”, a fim de acabar com as dúvidas.

 

Mas “parecia que o confeiteiro, marcando a data da fundação, fazia timbre em ser antigo”, o que naquela época de modernidade não soava lá muito bem.

 

Decidiu-se então pelo próprio nome do dono: “Confeitaria Custódio”. Terminava assim a complexa conversação. «Gastava alguma cousa com a troca de uma palavra por outra, “Custódio” em vez de “Império”, mas as revoluções trazem sempre despesas.»

 

Problema bicudo surgiu com a escolha de um novo Hino Nacional. O vencedor do concurso foi o Hino da Proclamação da República. Apesar das modernices, o velho marechal Deodoro disse “preferir o velho”, embora existissem suspeitas de que o autor fosse D. Pedro I. Mesmo a Bandeira Nacional, a despeito das interpretações surgidas posteriormente de que o verde era uma referência às matas do país e o amarelo uma alusão às riquezas minerais, seguia ostentando os seus vínculos com a tradição imperial: o verde, cor heráldica da Casa Real Portuguesa de Bragança; e o amarelo, cor da Casa Imperial Austríaca de Habsburgo.

 

Mas as mudanças eram claras: o indígena, símbolo dileto do Império, foi substituído pela figuração republicana de uma mulher heroica. Deste modo, nada ficava como dantes.

 

Coisa de somenos foi o debate em torno do direito de voto. O que era bom tinha de se manter. Como nos bons velhos tempos do “Império”. Só seriam considerados eleitores os brasileiros adultos, do sexo masculino (apesar da heroica figura republicana), que soubessem ler e escrever. Além do voto das mulheres, estava proibido o voto dos mendigos, dos soldados, praças e sargentos, e dos integrantes de ordens religiosas que impunham renúncia à liberdade individual.

 

Nesse republicano e democrático sistema eleitoral três tipos de procedimentos ficaram famosos. A eleição de “bico de pena”, que significava o não reconhecimento do eleito pela Comissão de Verificação da Câmara dos Deputados – procedimento que eliminava os adversários, anulando a sua eleição. O “voto de cabresto”, que era um ato de lealdade do votante ao chefe local. E por fim, o “curral eleitoral”, que aludia ao barracão onde os votantes eram mantidos sob vigilância e ganhavam uma boa refeição, só saindo dali na hora de depositar o voto – que recebiam num envelope fechado – diretamente na urna.

 

Depois veio a ditadura. O general Geisel foi das mais proeminentes figuras da repressão.

 

Em 1977, posto perante as perguntas dos jornalistas sobre os instrumentos de controlo que criou, caraterísticos de um sistema político autoritário, afirmou: “Todas as coisas no mundo, exceto Deus, são relativas”. E rematou: “O Brasil vive um regime democrático dentro de sua relatividade.”

 

João Madureira

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Segunda-feira, 15 de Maio de 2017

Quem conta um ponto...

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342 - Pérolas e diamantes: O admirável mundo liberal… e outras tretas

 

 

É num sistema económico admiravelmente liberal que uns quantos acumulam fortunas consideráveis enquanto outros, muitos outros, apodrecem no desemprego e na miséria.

 

Esse liberalismo económico, acompanhado por um sistema sexual perfeitamente liberal, é a extensão do campo da luta a todas as idades da vida e a todas as classes da sociedade.

 

Perplexos? Pois não devem ficar já que é essa a “Extensão do domínio da luta” de Michel Houellebecq, no seu primeiro romance, agora editado em Portugal.

 

Essa é a odisseia de um informático de meia-idade que observa os movimentos humanos e as banalidades que se desenrolam nos cafés bares ou em desinteressantes reuniões de trabalho. É aí que ele elabora uma teoria completa sobre o liberalismo, seja ele económico ou sexual.

 

No fundo, é um romance de falhados e abandonados responsáveis por elevarem a rotina a modo de vida.

 

Logo no início, o seu herói luta contra a ideia de ser paspalho por ter de admitir que perdeu o carro. Ele sabe que, a partir desse momento, passará a ser considerado anormal, ou fantoche. O que redundaria em nítida imprudência. O seu software não está preparado para isso.

 

Entretém-se então a escrever diálogos entre animais, onde se aprende muita coisa, nomeadamente sobre vacas bretãs.

 

A vaca bretã, por exemplo, ao longo do ano não pensa senão em pastar. O seu focinho brilhante sobe e desce com uma regularidade impressionante… “e nem um tremer de angústia lhe vem perturbar a expressão patética dos seus olhos castanhos-claros”.

 

No entanto, em determinados períodos não especificados, uma espantosa revolução ocorre no seu ser. “Os seus mugidos intensificam-se, prolongam-se, a sua própria textura harmónica modifica-se até relembrar, por vezes, de maneira espantosa, algumas queixas que escapam aos filhos do homem. Os seus movimentos são mais rápidos, mais nervosos, por vezes assume um trote curto.”

 

E o que pretendem as vacas bretãs? Pois, “encher-se”. E os criadores enchem-nas, “mais ou menos diretamente; a seringa da inseminação artificial pode, de facto, se bem que às custas de algumas complicações emocionais, substituir, nesta função, o pénis de um touro”.

 

Depois o animal acalma-se, regressa ao seu estado anterior de “meditação atenta, pois, após este feito, alguns meses mais tarde, dará à luz um esplendoroso pequeno vitelo. O que é, diga-se de passagem, benéfico apenas para o criador”.

 

Houellebecq tem razão: “A escrita não alivia nada. Traz à memória, delimita. Introduz uma suspeita de coerência, a ideia do realismo.” É como quando nadamos, que a cada movimento que exercemos nos deixa mais perto do afogamento.

 

De facto, mais vale observar sapateiras a trepar umas por cima das outras dentro de um aquário de uma marisqueira, prontas a ser consumidas.

 

E o mundo lá se vai uniformizando. “Os meios de telecomunicação progridem; o interior dos apartamentos enriquece-se com os novos equipamentos. As relações humanas tornam-se progressivamente impossíveis (…) O terceiro milénio promete.”

 

Esta mediocridade é penosa. Boa vida e repleta de qualidade e interesse é a dos quadros superiores. Uns gostam de ténis, outros apreciam a equitação e muitos são praticantes de golfe. No entanto, enquanto uns “são doidos por filetes de arenque; outros detestam-nos”. Apreciam ter “os pés enraizados” em “espessas alcatifas cinzento pérola”. E os escolhidos anunciam-nos, através de um graffiti: “Deus quis desigualdades, não injustiças”.

 

De facto, o terceiro milénio promete.

 

João Madureira

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Segunda-feira, 8 de Maio de 2017

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341 - Pérolas e diamantes: O desfasamento

 

Foi a divina Atena, a filha de Zeus, quem, se não me engano, colocou no espírito de cada um o contrário do que está no espírito do outro. Por isso é que a vida é bela e as discussões e dissidências fazem parte da existência em sociedade.

 

Devemos sempre lembrar-nos de que a opinião que temos uns dos outros, as relações de amizade, os laços familiares, etc., nada têm de fixo, antes são, como dizia Marcel Proust, eternamente móveis como o mar.

 

Por isso é que casais aparentemente muito unidos se separam e amigos que julgávamos inseparáveis dizem infâmias acerca um do outro. Mesmo as grandes alianças entre os povos se desfazem em pouco tempo.

 

Uma coisa no entanto sei: para as pessoas puras tudo é puro. Mas elas são tão poucas.

 

Depois vêm os aborrecimentos. Como dizia o senhor de Charlus, nada é mais agradável do que sofrer aborrecimentos por uma pessoa que valha a pena.

 

O lamento do aristocrata continua válido. “São as pessoas do meu mundo que não leem nada e têm uma ignorância de lacaios. Dantes, os criados de quarto do rei eram recrutados entre os grandes senhores, e agora os grandes senhores pouco mais são do que criados de quarto.”

 

Como válida continua a ser a história daquele homem que julgava ter numa garrafa a princesa da China. Era perseguido por essa loucura. Curaram-no dela. Logo que deixou de estar louco, ficou estúpido.

 

Existem maleitas de que se não deve querer curar ninguém, pois são as únicas que nos protegem de infortúnios ainda mais graves.

 

Por vezes chove e venta e depois instala-se uma neblina fria que só se levanta lá para o meio-dia. Mas quando o sol chega, nós renascemos e a existência permanece intacta dentro de nós. Essa mudança de tempo basta para recriar o mundo e nos recriar a nós.

 

Que podemos então dizer se aquilo que jugávamos inicialmente provável se veio a revelar falso e num terceiro momento tornou a ser verdadeiro?

 

A necessidade de falar impede-nos não só de ouvir, como de ver.

 

Por isso nos rimos. Rimo-nos quando percebemos que existe um desfasamento entre aquilo que esperamos que as coisas sejam e aquilo que descobrimos que elas verdadeiramente são.

 

Com a ajuda de Ricardo Araújo Pereira, transcrevo agora um excerto de The Importance of Being Earnest.

 

“Jack: Gwendolen, é terrível para um homem descobrir subitamente que, ao longo de toda a sua vida, não disse outra coisa a não ser a verdade. Serás capaz de me perdoar?”

 

“Gwendolen: Serei. Porque sinto que és capaz de mudar.”

 

Aristóteles disse que o riso é exclusivo dos homens. Nisso distinguimo-nos dos outros animais. E igualmente de Deus.

 

RAP tem uma hipótese. Ei-la, por junto e atacado: “O homem é o único que ri porque também é o único que tem consciência da sua própria extinção. Os animais desconhecem que vão morrer, e Deus sabe que é eterno.”

 

Afinal, o artista é um homem mediano. A obra de arte mais não é do que o resultado do esforço de uma mente específica.

 

O escritor é, segundo Gonzalo Torrente Ballester, um homem capaz de produzir imagens coerentes e de as expressar por palavras.

 

Escrever é um ofício, por mais que os defensores do êxtase místico e da musa desaforada pretendam negá-lo, ou reduzir ao mínimo a sua importância.

 

“Devemos ter sempre presente que Miguel Ângelo, além de genial escultor, era um perfeito canteiro.”

 

O filósofo espanhol Arauguren avisou-nos que apesar de vivermos demasiado longe de onde as coisas se decidem para podermos participar diretamente na sua elaboração, vivemos demasiado perto para as ignorarmos e deixarmos que a nossa realidade segregue as suas próprias superestruturas. 

 

João Madureira

 

 

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Segunda-feira, 24 de Abril de 2017

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339 - Pérolas e diamantes: O dedo e a Lua

 

Arrelia-me e desconcerta-me a tacanhez e o desplante com que certa gente, e alguma rapaziada de esquerda, critica o Museu de Arte Contemporânea de Chaves. Até porque combater a arte é coisa fácil em meios provincianos. Parece mesmo que dá votos.

 

À falta de melhor argumento, ataca-se a cultura porque dá despesa. Quando oiço estas alarvidades, fico com os pelos em pé. Que até não são muitos, mas… são rijos.

 

Muitos nem sequer se dão ao trabalho de lhe fazer uma pequena visita. Argumentam que os bilhetes são caros, que o edifício custou uma pipa de massa ou que as obras de Nadir Afonso os exasperam. Ou, o que ainda é mais ridículo, que o presidente da Câmara é o António Cabeleira.

 

Fazem-me lembrar os pintores denominados Pré-Rafaelistas que, segundo, Hélia Correia, tinham tanta aversão a Rafael que falavam com desprezo da Transfiguração, chamando-lhe pomposa e antiespiritual, sem no entanto nunca para ela terem olhado.

 

Pelos vistos, não aprenderam nada com o exemplo do Centro Cultural de Belém, hoje a joia da coroa cultural de Lisboa.

 

Fica mal a gente séria e responsável tentar vender estes argumentos comprados aos ressabiados que lustram as cadeiras dos nossos cafés.

 

Depois engalanam-se com prosápia e enfeites argumentativos, tentando evidenciar uma desajeitada modéstia que aprendem sempre muito à pressa, pois as eleições impõem o seu calendário e o candidato anterior foi proveitosamente queimado pelas disputas intestinas dentro do partido.

 

São como os lobos que, a pouco e pouco, se vão orientando na direção de um novo líder da matilha.

 

Correm de um lado para o outro à procura da certeza, sem nunca a conseguirem alcançar.

 

Uma consciência limpa é o melhor travesseiro.

 

Parecem preiteantes mirando-se nas biqueiras dos sapatos estendendo gel pelo cabelo e puxando as mangas do casaco adquirido no Corte Inglês. Por vezes vestem os sucedâneos do burel para se disfarçarem de povo. Viciaram-se na crítica fácil e em criarem uma espécie de mal-estar permanente. Lutam contra as evidências e as emoções como quem luta contra os insetos.

 

Apreciam a regularidade da vida, se possível sem nenhum acontecimento particular. Até os domingos parecem incomodá-los.

 

Cada um faz o que pode. Os idiotas costumam fazer idiotices e os espertos, por vezes, fazem idiotices ainda maiores. Que Deus nos dê paciência.

 

São sempre generosos com a crítica e pouco dados ao elogio. Acham que um pensamento acaba sempre por achar um pensador.

 

A mediocridade é sempre penosa.

 

Aprenderão ao envelhecer que as coisas se tornam simples. E também que não vale a pena alterar os hábitos e os princípios apenas pelo prazer de se parecer moderno.

 

Creio que leram Jacques Lacan e acreditaram que quanto mais formos ignóbeis melhor nos correm as coisas.

 

Cito-lhes de graça Michel Houellebecq: “De qualquer maneira, o amor existe, uma vez que se pode observar os seus efeitos.”

 

Ou então Henri de Régnier: “A solidão não é possível senão em muito jovens, quando temos pela frente todos os sonhos, ou então em muito velhos, quando temos para trás todas as recordações.”

 

E termino com um velho provérbio chinês: “Quando o sábio mostra a Lua, o idiota olha para o dedo.”

 

João Madureira

 

 

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Segunda-feira, 17 de Abril de 2017

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338 - Pérolas e diamantes: É preciso ter fé

 

A beleza consegue ter um alcance infinito. Mas o mesmo podemos afirmar acerca da desgraça.

 

Dizem-nos descuidados. Sim, talvez o sejamos. Mas muitas vezes um cuidado excessivo pode transformar-se numa outra forma de descuido.

 

É bem verdade que a política caiu em desgraça. Não é uma coisa que se recomende a gente séria e honesta. Mas todos sabemos que se não vivermos a política é a política que nos vive a nós, ou vive por nós, ou além de nós.

 

Quem comanda o Estado é mestre em arranjar soluções ainda antes de ter arranjado um problema.

 

Intriga-me, e arrelia-me, o argumento do nosso país ter caído na ratoeira da dívida pública e da austeridade. A esses pergunto: Será que Portugal algum dia saiu de lá?

 

As pessoas que dizem que não temos escolha são é demasiado cobardes para escolher. Deixam correr a linha para endrominar o peixe.

 

Uma pessoa vai para a metrópole e começa logo a pensar em grande, a falar eloquentemente e a augurar enormes mudanças. Depois, quando volta à província, começa a magicar se a sua bazófia não terá inchado tanto como o ego.

 

A província é boa para criar filósofos. Dizem eles que somos servidores da nossa terrinha, que tanto amam, e nós com eles, nos feriados ou dias santos.  

 

Mas o ser humano é aquilo que é. Muita gente, mesmo no meio das grandes desgraças, prefere escolher o mal que já conhece em vez do bem que aprendeu a idealizar.

 

Apenas os tolos e os malucos continuam a sonhar.

 

Por vezes as guerras param porque os adversários se esqueceram das razões que os levaram a tal desatino. Outras vezes apenas ficam cansados de lutar.

 

Lembro-me do aforismo do marechal de cavalaria Budionny, o comandante preferido de Estaline: “Tanto me dá quem enfrento. Eu gosto é de golpear com a espada.”

 

Continuamos a ter uma visão infantil do mundo. Vivemos ainda segundo o abecedário. E o nosso professor é o presidente Marcelo Rebelo de Sousa. Não conseguimos amadurecer. Infantilizamo-nos. Pior, deixámo-nos infantilizar.

 

Estes últimos anos de crise económica, financeira e social, foram um duro golpe na nossa vida e na nossa imaginação. No nosso porvir. Começámos a sentir medo do futuro. Ensinaram-nos a viver com a carteira alheia e a pagar os juros da dívida com língua de palmo. 

 

Andávamos com a cabeça cheia de utopias. Dizem os sábios que se a fé na razão abandona o homem, na sua alma instala-se o medo, como num selvagem. O diabo, afirmam os versados, gosta de se ver refletido nos espelhos da irracionalidade.

 

O negócio mais rentável é o medo. Vendem o medo da bancarrota, da austeridade, do empobrecimento, da desgraça. Pouco mais temos para negociar no mercado mundial. Vendemos o nosso sofrimento para honrarmos os acordos monetários.  

 

Este mundo pós-modernista vende-nos o futuro na província em largos cartazes onde se podem ver uma vaca enfeitada com papel crepe guardada por uma velhota embrulhada em papel celofane.

 

E eu não sei se me hei de rir ou chorar.

 

Afinal onde está o fogo da política, a energia da polémica, a excitação da querela, a proclamação do amor pela humanidade e a luta de classes? Tudo se desvaneceu, eclipsado pelas nuvens do conformismo e da subserviência.

 

Acredito que a fé na verdade, na beleza e na benignidade da natureza humana é a forma mais elevada do bem. Por isso, agora compreendo o motivo por que o muçulmano Avicena, ao terminar um dos seus dias dedicados ao pensamento, se tratava invariavelmente com vinho e mulheres.

João Madureira

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Segunda-feira, 10 de Abril de 2017

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337 - Pérolas e diamantes: Uma limonada, por favor…

 

Não há nada como a realidade para nos fazer rir até às lágrimas.

 

Quando a República Islâmica do Irão começou a censurar as dobragens dos filmes e das séries apareceram então os grandes momentos do cinema americano em terras de Alá.

 

A meio de um filme de cobóis, um indivíduo todo ajaezado de americano do bom velho oeste, entrava no saloon, com os coldres ajustados na anca e dizia ao barman: “Quero uma limonada!” Então a barman, com a mão ligeiramente a tremer, servia-lhe um copinho de um líquido que o cobói emborcava de um trago, momentos antes de repetir: “Serve-me outra limonada!”

 

Os espetadores de televisão riam-se até lhes doer o estômago. Mas em casa, o mais longe possível dos guardas da revolução.

 

Longe também vão os tempos dos grandes romances que uniam ocidente e oriente. Dom Quixote, segundo os peritos, é o primeiro romance árabe. O primeiro romance árabe e europeu. Não é por acaso que Cervantes o atribui a Sayyd Ibn al-Ayyil, que ele grafa como Cide Hamete Benengeli. O primeiro grande louco da literatura universal dá-se a conhecer ao mundo através da pena de um historiador mourisco da Mancha.

 

Segundo uma das personagens principais do livro Bússola, de Mathias Enard, “dever-se-ia recuperar a Torre dos Loucos para nela criar um museu da loucura que começaria com os santos orientais loucos de Cristo, os Dom Quixotes, e incluiria não poucos orientalistas. Um museu da mistura e da bastardia.”

 

Loucos existem espalhados um pouco por todo o mundo. No Brasil existe, pelo menos, um que dá pelo nome de Marcelo Mirisola, que escreve, segundo Vitor Rosa, de “forma louca, libertária e ácida”.

 

O seu livro, O azul do filho morto, “possui a estranha alegria – ou a felicidade clandestina – daqueles que preveem a derrota de antemão”.

 

O seu alter-ego leva uma “vida de tatu filhadaputa”. Recusaram-lhe o seu primeiro original, intitulado Um pouco de Mozart e genitálias, fazendo-me recordar o já saudoso amigo e pintor Rui Rodrigues, artista dado também a esses temas. “Azar de quem recusou”.

 

Para ele, os editores, fora um seu que lhe paga umas cascas de alho por ele escrever o que escreve, são, além de outras coisas que deixo bem quietinhas nas páginas do romance, “analfabetos, cegos por opção, degenerados, mercenários e débeis mentais. Vale a mesma coisa pros jurados de concursos literários e pros poetas em geral”. Ele odeia poetas.

 

Pior do que poeta só “livro psicografado”, que lhe lembra um tal Emanuel, que é o espírito de um porco, “apenas não é mais covarde, tarado e mau-caráter do que escritor de livro infantil”, incluindo aí os escritores de manuais de autoajuda e livros policiais, pois “enredo é coisa de criança”.

 

Admite que foi batizado na Igreja do Calvário, entre exus e orixás, que sendo aquilo que são, mesmo assim são mais honestos porque admitem deliberadamente serem analfabetos, não escrevendo livros bem intencionados. “Sincretismo dá nisso.”

 

Admite que sempre disse que ser feliz é fácil. Quer ver é alguém “ser infeliz e abrir mão dos malditos orgasmos e do chocolate importado. Aí é que é preciso ter talento, bom humor negro e pessimismo… e não gozar jamais”.

 

Por mais que se esforce, e nisso eu junto-me a ele, não consegue perceber por que razão a “famigerada classe média desaprendeu de sofrer por causa da Tevê a cabo. E a tecnologia, no final das contas, acabou servindo pra caipira desalmado apertar botãozinho e escolher a pior programação”.

 

Também eu, como ele, acreditava nas canções de Simon & Garfunkel, e na sua pretensa “afinidade”. Mas foi tudo ilusão. Foi tudo do tamanho de um chiclete que depois de mastigado, sem tino nem destino, se deita fora.

 

Não entendam este escrito como um apelo à leitura do livro, pois a obra destina-se apenas a reservoir dogs. Até porque “se existe verdade é por descuido”.

 

João Madureira

 

 

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Segunda-feira, 3 de Abril de 2017

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336 - Pérolas e diamantes: Tragédia e comédia

 

Uma quadra de Omar Khayyam reza o seguinte: “Fui à mesquita, roubei um tapete. / Muito mais tarde senti-me um malandrete. / Voltei à mesquita: o tapete estava roto, / Precisei de arranjar outro.”

 

Naqueles velhos tempos os tapetes ainda voavam pacificamente transportando jovens príncipes ou velhos sábios.

 

Depois começaram a voar mais alto e transformaram-se em enormes aviões que se arremessaram contra altas torres no império das américas. As mil e uma noites transformaram-se em horror.

 

Consumou-se mediaticamente o combate das civilizações, que mais não é do que a guerra das religiões.

 

Deus e Alá tentam provar qual deles é o maior.

 

Alá, de espada em punho e pela mão dos seus guerreiros-mensageiros, entretém-se a degolar infiéis.

 

Já Deus contemporizou na sua raiva e no seu ciúme e tornou-se o grande inimigo dos carneiros.

 

Ainda nos perguntamos por que medonha razão, ou objetivo divino, resolveu trocar, no momento do sacrifício, o filho de Abraão por um cordeiro e não por uma galinha, um grilo, uma gipsófila ou um cravo vermelho.

 

Dessa sua divina opção resultou a enorme perseguição aos ovinos por séculos e séculos. E ainda hoje se mantém, com o sucesso que todos conhecemos, e prosseguimos. O cordeiro pascal é ainda a nossa forma de celebrar a ressurreição do seu filho.

 

Por falar em animais, não se sabe ao certo por que razão o homem se afeiçoou aos cães. Sabemos que Wagner leu “O Mundo Como Vontade e Representação” de Schopenhauer em setembro de 1854, precisamente no momento em que começa a compor Tristão e Isolda. Um dramalhão que dá seguimento ao mito dos amores pecaminosos e terríveis que apenas podem terminar em morte.

 

Dizem que Schopenhauer nunca amou ninguém como amou Atma, o seu cão. Contam também que o filósofo alemão nomeou o seu cão herdeiro universal.

 

A loucura não é apenas coisa de deuses. É também privilégio dos humanos.

 

Álvaro de Campos, essa criatura criada pelo semideus Pessoa, tenta seguir Apollinaire, que era amante do Oriente e de paquetes e que também fumava ópio, misturando drogas e viagens.

 

Na sua bíblia, que um amigo me ofereceu em dezembro de 1983, com uma dedicatória de Álvaro Cunhal, este um semideus do comunismo, leio no Opiário: “É antes do ópio que a minha’alma é doente. / Sentir a vida convalesce e estiola / E eu vou buscar ao ópio que consola / Um Oriente ao oriente do Oriente.”

 

Afinal é de lá que nos chega tudo aquilo que somos. Para o bem e para o mal. Valha-nos Deus, o divino pai de Jesus, o salvador e Alá, o misericordioso, e Maomé o seu profeta dileto.

 

O problema foi quando os deuses nos começaram a fazer favores. Thomas Bernhard ouviu-os e resolveu registar uma sua frase célebre: “As pessoas vingam-se dos favores que lhes fazemos.” Não sabemos é se o divino autor do desabafo foi Alá, o misericordioso, ou o divino Deus da cristandade. Seja quem seja, a confissão aí ficou como aviso.

 

A condenação caiu sobre os artistas europeus, em forma de tuberculose, a maleita pública e social, ou sífilis, a doença íntima e vergonhosa.

 

Primeiro alinho os tuberculosos mais conhecidos: Rimbaud, Gauguin, Goethe, Miguel Ângelo, Brahms, Picasso e Hesse.

 

Agora os sifilíticos: Nerval, Van Gogh, Rückert, Proust, Roth, Musil e Hesse, que era ambas as coisas. E muito provavelmente Beethoven, daí a sua surdez, e a quem descobriram outros males: hepatite e cirrose.

 

E Pessoa também tinha muitas doenças. E adições. E ainda por cima amava a poesia de Khayyam. Este parece ter sido feito depois de beber uns copos e de ler algumas quadras do poeta persa: “Ao gozo segue a dor, e o gozo a esta. / Ora o vinho bebemos porque é festa, / Ora o vinho bebemos porque há dor. / Mas de um e de outro vinho nada resta. “

 

Que os deuses nos apanhem confessados.

 

João Madureira

 

 

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Segunda-feira, 27 de Março de 2017

Quem conta um ponto...

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335 - Pérolas e diamantes: Só os burros…

 

Confesso que as entrevistas já me começam a aborrecer um bocadinho. Algumas são tão enfadonhas que dão sono logo na primeira resposta. Outras prolongam o enfado e o sofrimento até à segunda pergunta. Existem porém outras que se podem ler até ao fim. Mesmo que, por vezes, nos provoquem um abrir de boca lá pelo meio, que nós disfarçamos para podermos continuar a lê-la sem problemas de consciência ou de pudor.

 

Foi o caso da entrevista de António Barreto ao Sol. A mim avivou-me a memória, o que desde já lhe agradeço. De facto, a nossa entrada no século XXI tem sido um bocado dura. Sobre o futuro, o tempo o dirá. Mas o século passado foi um horror. E dos grandes. Foi o pior século de todos, mesmo parecendo o contrário.

 

Do ponto de vista das realizações positivas podemos lembrar a paz e a riqueza, a penicilina, a aspirina, a esferográfica, a televisão, os computadores e os telemóveis. Mas o século XX ficará na História como o século onde se desenrolaram as piores guerras da Humanidade, onde houve o maior número de mortos e torturas da Humanidade. Execuções sumárias, campos de concentração, prisões em massa, intolerâncias inimagináveis, comunismo, fascismo e nazismo.

 

Pelo menos numa coisa Mário Soares teve razão: o comunismo é o grande embuste da História.

 

Mas deixemos falar António Barreto: de tudo aquilo que o comunismo prometeu, nada realizou. “Nem o internacionalismo, nem a paz, nem a igualdade, nem o progresso científico e tecnológico, nem a democracia. Tudo isso, o comunismo destruiu. E o comunismo tem no século XX tantas responsabilidades ou mais que o nazismo… o comunismo foi uma das grandes chagas do século XX.”

 

Para não nos ficarmos só pelos pareceres vagos das palavras, passemos aos números. Na União Soviética, o comunismo foi responsável por cerca de 45 milhões de mortos. Na China o número ficou-se pelos 35 milhões. Já para não falar do vergonhoso tratado feito entre a União Soviética e a Alemanha nazi que deu de barato dois anos para Hitler invadir a Europa e incendiar o mundo.

 

Como não podia deixar de ser, os entrevistadores conduziram o entrevistado para os caminhos de confronto com o seu antigo partido. O PS acha que António Barreto é agora um bocado de direita. Ele responde que os socialistas “terão feito mais arranjinhos com a direita” do que ele. “Com a direita política, com a direita económica, com a direita financeira, com a direita cultural…”

 

E dá exemplos: tudo o que aconteceu na economia e na banca. “Houve uma grande promiscuidade entre os interesses económicos e políticos de alguma direita e de alguma esquerda do PS.”

 

Daí nasceu a “peste negra que é o BES e a família Espírito Santo”. Que coincidiu com uma “espécie de praga, a praga Sócrates. Faz lembrar uma praga bíblica”.

 

Ele há cada coincidência. É como a crença na existência das bruxas.

 

“Tudo o que correu mal em Portugal acaba sempre por pôr em realce a ligação entre o BES e o PS de Sócrates.”

 

António Barreto interroga-se, como nós nos interrogamos, de como é possível que exista um buraco de seis mil milhões na CGD, de quatro ou cinco mil milhões no BES, de três ou quatro mil milhões no BPN e ninguém saiba de nada. “Não há culpados nisto tudo? Não há ladrões?”

 

De facto, “a democracia portuguesa está penhorada e cativa por causa da economia e do sistema financeiro”.

 

Se dos processos do BES e de Sócrates, e da CGD já agora, nada resultar de substantivo, haverá “uma espécie de afundamento definitivo da Justiça portuguesa, talvez da democracia portuguesa”. 

 

Sinto que por vezes há necessidade de sermos conservadores porque há coisas do passado que é importante guardar: certos afetos familiares, alguns valores identitários, carinho pela História e por algumas tradições. Rejeitando, no entanto, as velharias bafientas e a autoridade sem sentido, nem objetivo. Mas também existe a necessidade de ser progressista, porque o futuro é uma coisa que devemos construir em comum e em liberdade.

 

Além, disso, e como dizia Mário Soares: Só os burros é que não mudam de opinião.

 

 João Madureira

 

 

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