Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017

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368 - Pérolas e diamantes: 1917 – Revolução ou Contrarrevolução?

 

A revolução russa continua a significar o derrube de um regime decadente, obscurantista e retrógrado, caraterizado essencialmente pela servidão abjeta do mundo rural e também pela exploração das classes trabalhadoras urbanas. Materializou as esperanças dos deserdados da terra e transmitiu ânimo a todos aqueles que pelo mundo fora ansiavam e lutavam pela transformação social apregoada pelos filósofos e pelos revolucionários socialistas e anarquistas, desde a denominada Primavera dos Povos e a publicação do Manifesto Comunista, em 1848, a que se seguiu a Comuna de Paris, em 1871.

 

Mas foi a própria realidade que começou por contrariar as teses de Karl Marx sobre a putativa revolução, pois não ocorreu nos países mais avançados, como o Reino Unido, a França ou a Alemanha, mas num país atrasado, quer do ponto de vista social ou  industrial: o Império Russo.

 

Marx afirmou que “as revoluções são as locomotivas da História”, coisa em que acreditei na minha juventude, mas atualmente inclino-me mais para a tese de Alexandre Chubine (professor de História e investigador do Instituto de História Universal e da Academia de Ciências da Rússia) e que é uma analogia interessante, de que “as revoluções são arietes da História”, pois “a revolução não funciona como uma locomotiva mas antes como um martelo-pilão que derruba os obstáculos que impedem o seu avanço”.

 

Segundo Chubine, Lenine, apercebendo-se da crescente crise económica e social que alastrava na Rússia, defendeu de imediato, não reformas, mas uma transformação radical. Para o professor de História russo, a razão do aparecimento de Lenine deveu-se ao facto de todos os outros lhe terem cedido o lugar, porque estavam à espera da assembleia constituinte.

 

Assim, a conclusão a tirar é a de que uma vez iniciada, não se deve tentar travar uma revolução. Os bolcheviques, no final, com o apoio das fações mais desesperadas, mais dinâmicas e mais militarizadas, “tomaram o poder e fizeram sozinhos as reformas radicais. Contra todos os outros…”

 

Os círculos do poder russo não souberam reagir a tempo à gravidade da situação. A sua educação e a sua formação impediu-os de perceberem a realidade onde estavam inseridos. E isso foi-lhes fatal.

 

Máximo Gorki, em momento de honestidade intelectual, que depois abandonou para servir o déspota Estaline, escreveu: “Desconfio especialmente de um russo quando o poder lhe chega às mãos. O mesmo que era escravo, torna-se o déspota mais tremendo, mal tenha hipótese de se tornar no amo do seu vizinho”.

 

O regime que resultou da revolução comunista, sobretudo a partir de Estaline, afirmando-se baseado nas assembleias de trabalhadores e soldados, era essencialmente uma ditadura sanguinária que dizimou toda a vanguarda revolucionária de 1917. Disseminou a fome pelos campos e eliminou toda e qualquer semente de dissidência, enviando milhões de pessoas para a morte nos gulags. Instalou uma ditadura de medo e denúncia que eliminou oficialmente qualquer tipo de discurso de oposição.

 

Os marinheiros de Kronstadt, em 1921, aperceberam-se já tarde do logro em que tinham caído: “Ao levar a cabo a Revolução de Outubro, a classe operária esperava alcançar a sua emancipação. Mas o resultado foi uma escravidão ainda maior. O poder da monarquia, com a sua polícia e a sua guarda, passou para as mãos dos usurpadores comunistas, que não deram ao povo liberdade mas sim o medo permanente da tortura da Cheka, cujos horrores ultrapassaram de longe o domínio da guarda nos tempos do czarismo.”

 

Manuel S. Fonseca, no seu livro Revolução de Outubro – Cronologia, Utopia e Crime, apresenta uma tese interessante: “Talvez a revolução tenha sido, afinal, uma contrarrevolução, com tudo o que as contrarrevoluções trazem: ditadura, prisão, tortura, fome e morte.”

 

O então jovem aprendiz de torcionário, e mais tarde um dos mais sanguinários ditadores políticos de que há memória (Koba, o Terrível, vulgarmente conhecido como Estaline), tinha já escrito no Pravda em 1912: “A plena identidade de interesses só pode existir no cemitério.”

 

O que sucedeu a seguir já estava escrito nas estrelas. A Revolução de Outubro abriu o maior açougue humano de que há memória e o comunismo inaugurou, no início do século XX, a maior carnificina humana de sempre. Bem maior do que a nazi. Conviver com a realidade dos factos, por vezes, é a maior das torturas.

 

Martin Amis tem uma curiosa explicação para o sucedido. Na sua opinião, o comunismo não foi uma boa ideia que se transformou em má ou se desviou do seu delirante caminho. “Não. Foi uma má ideia desde o início. Carregada de certezas, de pedantismo, de energia e horror.” O escritor inglês considera que o principal adversário do ideário e da praxis marxista-leninista foi a própria natureza humana. “Os líderes bolcheviques compreenderam de forma sublime essa limitação – imediatamente. A sua resposta foi deixar o programa intacto e mudar a natureza humana.”

João Madureira

 

 

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Segunda-feira, 13 de Novembro de 2017

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367 - Pérolas e diamantes: O Vendido

 

Ainda se escrevem livros assim: irónicos e dolorosos, hilariantes e cruéis, satíricos e mordazes. Provavelmente o livro de Paul Beatty é das coisas mais interessantes que li ultimamente. Dwight Garner escreveu no The New York Times que as primeiras cem páginas de O Vendido são as mais cáusticas e mais tesas que leu num romance americano nesta última década, pelo menos.

 

Me, o personagem afro-americano mais azarento do universo ficcional recente, é exemplarmente educado por um pai violentamente excêntrico e sociólogo obcecado pela questão racial que não desiste de lhe inculcar uma cultura de resistência.

 

Ensina-lhe princípios sociológicos estruturantes. Fala-lhe, por exemplo, do “efeito espectador” que ensina que quanto mais pessoas estejam perto para dar uma ajuda, menos provável é que ela seja prestada. Só que o pai de Me desenvolveu a hipótese de que tal efeito não se aplicava aos negros, uma raça cuja sobrevivência, na sua perspetiva, sempre dependeu da entreajuda em momentos de necessidade.

 

Por isso obrigou o seu filho a permanecer parado num dos cruzamentos mais movimentados do seu bairro, com notas de dólar a espreitarem-lhe dos bolsos, com um aparelho eletrónico moderno e brilhante enfiado nas orelhas, com um colar de ouro estilo hip-hop ao pescoço, e, inexplicavelmente, também com um conjunto de tapetes personalizados para um Honda Civic pendurados no braço como um pano no braço de um empregado de mesa, e, enquanto as lágrimas lhes corriam pela face, o seu próprio pai assaltou-o. Bateu-lhe diante de uma multidão de espectadores que não assistiram durante muito tempo. A indiferença, pelo vistos, não tem cor.

 

Ia o assalto ainda em dois murros na cara quando algumas das pessoas se aproximaram do assaltante e, em vez de auxiliarem a vítima, ofereceram ajuda ao agressor. Ajudaram a dar-lhe uma sova, começando a desferir cotoveladas e golpes de wresteling no pobre aprendiz até o porem inconsciente.

 

Quando o pobre e infeliz Me começou a recuperar a consciência, ainda os seus atacantes, suados e com o peito a arquejar, tentavam recobrar do seu esforço e do respetivo altruísmo.

 

A caminho de casa, o “paizão” pôs-lhe um braço consolador sobre os ombros doridos e deu-lhe um sermão sobre como ele não teve em conta o “efeito manada”.

 

Dava-lhe também cursos intensivos de desenvolvimento infantil tentando reproduzir o estudo da consciência da cor em crianças negras dos Drs. Kenneth e Mamie Clark, utilizando bonecos brancos e negros, mas numa versão mais revolucionária.

 

Um dia apresentou-lhe dois cenários com subtexto sociocultural para saber qual deles curtia mais.

 

O Cenário I apresentava o Ken e a Barbie Malibu trajados com fatos de banho a condizer, ostentando as respetivas máscaras e óculos de mergulho, a relaxar em frente à piscina da Casa do Sonho.

 

No Cenário II, aparecia Martin Luther King Jr., o Malcolm X, a Harriet Tubman e um sempre em pé oval e castanho correndo e balançando-se num matagal pantanoso, fugindo a sete pés de uma matilha de pastores alemães que chefiavam uma multidão armada composta pelos G.I. Joe do Me vestidos com roupas do Ku Klux Klan.

 

O rapaz ficou confuso, mas tirou a conclusão óbvia: os brancos ganham porque possuem acessórios melhores.

 

Resumindo e concluindo, depois de todas as experiências falhadas, o pai queimou as folhas com as suas conclusões na lareira. O seu filho, “estatisticamente insignificante”, destrui-lhe todas as esperanças. Me foi para o seu pai uma experiência social falhada.

 

Passou então a dedicar-se ao bairro. Apesar de, segundo o seu filho, não demonstrar muito jeito para cavalos, era conhecido em Dickens como Encantador de Pretos. “Sempre que um mano que tinha «perdido a puta da cabeça» precisava de ser convencido a descer de uma árvore ou de um precipício, ele era chamado. Apenas se fazia acompanhar da sua bíblia da psicologia social, The Planning of Change de Bennis, Benne e Robert Chin, um psicólogo sino-americano lamentavelmente subestimado.”

 

As pessoas achavam que era o seu altruísmo o que lhe permitia aproximar-se tanto dos tresloucados, mas para o seu filho, o segredo residia na sua voz que possuía um tom grave de doo-wop, pois falava em fá sustenido.

 

Mais de uma vez Me teve vontade de perguntar ao seu pai porque é que nunca lhe falou no mesmo tom reconfortante que usava com os seus “clientes”, mas nunca o fez porque sabia que, “em vez de obter uma resposta, ia levar com o cinto”, e o seu processo de cura “ia envolver mercurocromo, e, em lugar de ficar de castigo, teria uma sentença de entre cinco e três semanas de imaginação ativa junguiana”.

 

O Vendido foi vencedor do Man Booker Prize de 2016 e “é uma sátira mordaz que desafia os pilares sagrados da vida urbana, da Constituição norte-americana, do movimento dos direitos civis, da relação pai-filho, feita à medida para o despontar do século XXI”.

 

João Madureira

 

 

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Segunda-feira, 6 de Novembro de 2017

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366 - Pérolas e diamantes: A insatisfação e o disparate

 

Na “nota do editor” do último número da revista LER refere-se que no seu discurso de aceitação do Nobel, Bob Dylan citou a Odisseia, de Homero, A Oeste nada de novo, de Erich Maria Remarque, e Moby Dick, de Herman Melville. Mas parece que o laureado se enganou, ou fez confusão, com a frase: “Alguns homens a quem são infligidos ferimentos são conduzidos a Deus, outros são conduzidos à amargura.”

 

A frase é bela e enigmática. Só que tem a particularidade de não existir em nenhum dos livros de Melville. As más-línguas dizem que a frase, tal como outras usadas por Dylan no seu discurso, foi retirada de um site dedicado a comentários de livros para estudantes do secundário.

 

Por falar em distinções, Manuel Alegre foi distinguido com o Prémio Camões. Mal soube da decisão apressou-se a dizer, na sua conhecida e reconhecida humildade, e com a serenidade que todos lhe conhecemos que “é natural que me atribuam este prémio. Até podia ter sido mais cedo.”

 

E daqui nos vamos até ao reino dos confrades e das respetivas confrarias. Há-as para todos os gostos e feitios. Algumas são mesmo picarescas. Desde a Confraria da Moenga, uma associação eborense formada por amigos que “se juntavam no Moinho do Cu Torto para cada um mostrar as suas artes culinárias”, até à Confraria dos Rojões da Bairrada com Grelo e Batata à Racha, passando pela picante Confraria da Urtiga (de Fornos de Algodres).

 

De facto vivemos na era da arte culinária, em contraponto com literatura de cariz erótico-disfuncional. Segundo o The Irish Independent, “cientistas que avaliaram os sentimentos emocionais, a linguagem corporal e a frequência cardíaca de leitoras, encontraram menos sinais de excitação e de prazer no best seller de E. L. James, As Cinquenta Sombras de Grey, do que em 30 Minute Meals, um livro de culinária de Jamie Oliver”.

 

É caso para dizer ora foda-se, pois, tal como Rodrigo Guedes de Carvalho, também eu prefiro “o palavrão ao eufemismo.”

 

Mas é com Rodrigo dos Santos que ficamos a saber como se chega a best seller. Desde logo porque o autor surpreende-nos evidenciando a nossa ignorância. Com os seus livros ficamos a saber que “o marxismo não foi criado por Marx” e que, ó horror dos horrores!, que o inventor do comunismo, apesar de judeu, era racista. Descobrimos também que Cristóvão Colombo era Português, além de que “ninguém sabia que a própria Bíblia tem indícios de que Maria não era virgem e que Marcos e Lucas não escreveram os evangelhos com os seus nomes”.

 

Num dos romances da Trilogia, uma personagem tem mesmo a ousadia de explicar que “o bolchevismo e o fascismo são irmãos marxistas gémeos”, ao que o outro exclama para nossa, e sua, surpresa: “Que disparate!”

 

Nos seus romances há diálogos que se estendem por dezenas de páginas e dão-se mesmo nos lugares mais inverosímeis: na maternidade, no dentista, na rua, no táxi e até na praia.

 

Eu continuo a desconfiar daquelas pessoas que ostentam penosamente a sua cabeça ereta e que desenham uma expressão tão amigável que roça a cretinice. É que não há ninguém assim tão amável.

 

Há suspeições injustas que perseguem até os mais inocentes. Como muito bem diz o poeta citado por Jerome K. Jerome, em Três homens num barco: “Quem pode escapar à calúnia?”

 

No fundo a Humanidade é composta por gente insatisfeita. Parece que “todos têm aquilo que não querem, e os outros têm aquilo que eles querem. Os homens casados têm mulheres, e não parecem querê-las; e os jovens solteiros choram porque não têm mulher. Gente pobre, quase sem meios para viver, tem filhos saudáveis. Casais velhos e ricos morrem sem filhos e ninguém a quem deixar o seu dinheiro.”

 

 João Madureira

 

 

 

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Segunda-feira, 30 de Outubro de 2017

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365 - Pérolas e diamantes: A estupidez (parte 2)

 

Porventura, a forma mais vulgar de estupidez é o preconceito racial.  E é uma estupidez mundial.

 

Em Social Psychology of Internacional Condut (1929), G.M. Stratton defende que “o preconceito constitui uma das características da natureza humana”. E chega a duas conclusões interessantes: “Embora seja universal, o preconceito racista nunca, ou raramente, é inato. Não nasce connosco. As crianças de raça branca, por exemplo, não manifestam qualquer preconceito quanto às crianças ou amas de cor até à altura em que as famílias lho incutem.”

 

Nos célebres versos de South Pacific, Oscar Hammerstein repete no estribilho: “Para odiar tem de se ser ensinado.”

 

  1. M. Sratton conclui que “o preconceito rácico adquirido nada tem de racial. Entre ele e as características raciais não existe qualquer relação, nem tão pouco com o sentimento de estranheza: ele é apenas, e por toda a parte, uma reação ante a ideia de uma ameaça coletiva… O que habitualmente se designa por preconceito “racial” não passa, de facto, de mera resposta coletiva a ameaças de perdas ou perdas reais; resposta que não é inata, mas, sim, alimentada pela tradição e por impressões recentes de prejuízos sofridos há pouco”.

 

De facto, toda a estupidez é medo. O ser humano sensato ou inteligente tem possibilidade de sublimar e vencer os seus preconceitos. O estúpido tornar-se-á inevitavelmente seu escravo.

 

No entanto, o preconceito é apenas uma causa de um mal maior: a intolerância, que é a força impulsionadora. O preconceito é passivo, enquanto a intolerância é ativa.

 

Não foi o preconceito que fez com que as Igrejas Cristãs, alegando heresia, tivessem queimado os fiéis umas às outras. Foi a intolerância.

 

No entanto, estas duas formas de estupidez caminham, quase sempre, a par. E chegam mesmo a confundir-se.

 

O individuo preconceituoso é até capaz de não permitir que o seu filho frequente uma escola aberta a crianças de todas as raças e religiões, mas apenas o intolerante fará tudo para suprimir esses estabelecimentos de ensino.

 

Mas nada disto teria muita importância se o homem estúpido só a si próprio se prejudicasse. Por muito que nos custe, a estupidez é a arma mais mortífera do Homem, é a epidemia mais assoladora e o seu luxo mais oneroso. O preço da estupidez é incalculável.

 

As várias formas de estupidez já custaram à humanidade mais do que qualquer guerra, epidemia ou revolução.

 

Uma das formas mais dispendiosas da estupidez é, muito provavelmente, a burocracia. Se poupássemos uma décima parte da quantidade de papel utilizado em formulários, relatórios, regulamentos e atas, e com essas economias adquiríssemos livros e compêndios escolares, a esta altura já não existiriam analfabetos no mundo.

 

Paul Tabori, no seu livro História Natural da Estupidez, conta que entre as duas últimas guerras mundiais estava na moda um insulto em forma de interrogação. Costumava perguntar-se: “Olha lá, a estupidez incomoda-te?”

 

Parece que, infelizmente, não incomoda lá grande coisa. Mas se se tratasse de uma dor de dentes, há muito que se teria tentado remediá-la.

 

Mesmo parecendo que não, a estupidez, de facto, dói muito. Mas é raro que incomode o estúpido.

 

Esta é a tragédia do mundo em que vivemos.

 

O livro, que recomendo vivamente, trata da estupidez, da baboseira, da vacuidade, da presunção, da idiotice, da cobardia, da estultícia, da imbecilidade e da estolidez. Ocupa-se também dos otários, dos alarves, dos asnos, dos mentecaptos, dos ressabiados, dos insensatos e dos calinos. Apresenta ainda uma galeria de broncos, brutos, simplórios e monos. Analisa e observa atos de irracionais, insensatos, enxebres e apoucados.

 

A estupidez, pela virtude da sua especial natureza, sempre foi alvo de sátira e denúncia. Mas foi por causa dessa sua peculiar caraterística que “sobreviveu a milhões de ataques, mesmo aos mais rudes, sem nada sofrer; e, no fim, continua a resistir, triunfante e gloriosa”.

 

João Madureira

 

 

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Segunda-feira, 23 de Outubro de 2017

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364 - Pérolas e diamantes: A estupidez

 

Há muito tempo que eu desconfiava de uma coisa que me parecia axiomática: a estupidez é natural. Mas agora tirei isso a limpo, depois de ler o brilhante livro de Paul Tabori (A História Natural da Estupidez).

 

Segundo o autor, a estupidez é muito provavelmente até necessária, não só para ocupar os escritores satíricos, mas também para oferecer distrações a dois grupos minoritários: os realmente sensatos e os suficientemente sensatos para se aperceberem de que são estúpidos.

 

Como todos sabemos, a estupidez é como o fumo do tabaco. Não só é prejudicial para os que a sofrem mas também para os que por ela são rodeados.

 

O autor adverte-nos de que não conseguiu escrever uma história completa da estupidez, o que ainda mais nos impressiona, pois o assunto é vastíssimo.

 

É muito desagradável de admitir que se possa escrever mais sobre a estupidez humana do que sobre o seu bom senso.

 

A abrangência da obra é notável. Cita casos incríveis de estupidez, desde a ganância do ser humano pelo ouro ao amor pelos títulos e pelas cerimónias, passando pela prisão nas teias da burocracia, pela subtileza da lei e pela gíria legal, descrevendo a crença em mitos e a descrença nos factos, bem assim como o fanatismo religioso, as idiossincrasias e idiotices sexuais e a tragicomédia dos que buscam incessantemente a mocidade eterna. 

 

Conta casos como o de um membro da Academia das Ciências de França que teimava e insistia na ideia de que o fonógrafo de Edison não passava de um truque barato de ventriloquismo e da técnica de Hermipo que prolongava a vida pela inalação do hálito de virgens.

 

A estupidez, diz Paulo Tabori amarguradamente, é a arma mais mortífera do Homem, a praga mais devastadora e o luxo mais caro. Como dizia Schiller, até os deuses lutam em vão contra ela.

 

Há homens estúpidos que possuem muitos conhecimentos, como também existem homens sensatos cujos conhecimentos são muito limitados.

 

Na realidade, o conhecimento difuso e exuberante encobre, a maioria das vezes, a estupidez. Por outro lado, o bom senso muitas vezes manifesta-se em gente pouco culta.

 

De facto, em todos os seus atos, o ser humano ambiciona sempre ser superior ao seu semelhante, quer seja a jogar a feijões ou na busca dos milhões. O que receia é que as suas intenções se tornem muito evidentes. Por isso tenta escondê-las, receando que o fingimento não resulte, temendo sobretudo o malogro das suas ambições. Por isso também se coíbe de agir (estupidez passiva) ou então atua inutilmente (estupidez ativa).

 

Segundo Feldmann, a estupidez é sobretudo medo, medo de nos expormos às críticas, quer do outro quer de nós próprios.

 

A estupidez adquire várias formas e manifestações distintas. Há pessoas que só a demonstram no recato do lar ou em ambientes restritos. Outros sentem orgulho em a expor publicamente. Outros só se tornam estúpidos quando são forçados a falar ou a escrever qualquer coisa de seu.

 

A estupidez pode ser limitada ou irrestrita.

 

Charles Richet defende que “o homem estúpido não é o que não compreende determinada coisa, mas sim aquele que, compreendendo-a suficientemente, atua como se não a tivesse compreendido”.

 

O preconceito é, definitivamente, uma das formas mais notáveis de estupidez.

 

Ranyard West resume a ideia perfeitamente no seu livro A Psicologia e a Ordem Universal.

 

“O preconceito humano é universal. Depende de uma necessidade humana: o respeito do individuo por si próprio. Existem vários processos de o cérebro humano conseguir ignorar os factos, mas nenhum que lhe permita pôr de parte o desejo de autolatria. Nós, homens e mulheres, procuramos sempre ter boa opinião de nos próprios. Para atingir tal fim, precisamos de mascarar, aos nossos olhos, a verdade, servindo-nos dos expedientes mais diversos. Negamos, esquecemos, perdemo-nos a explicar as próprias faltas e exageramos as dos outros.”

 

O preconceito é estupidez. Os franceses não são libertinos, os negros não são inferiores e os judeus não são usurários.

 

Uma coisa sei: é possível ter-se boa opinião de si próprio sem se ter má opinião acerca dos outros.

 

 João Madureira

 

 

 

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Segunda-feira, 16 de Outubro de 2017

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363 - Pérolas e diamantes: Divagações

 

Hawthorne mostrou ao mundo que os escritores americanos podiam ser shakespearianos. Até Melville fez a sua tentativa. Segundo Daniel J. Boorstin, antes e durante a escrita de Moby Dick, o escritor norte-americano esteve “hipnotizado”, lendo e relendo Shakespeare, nomeadamente Rei Lear, Hamlet e Tímon de Atenas.

 

Melville venerava Shakespeare, considerando-o “o mais profundo dos pensadores”, mestre da “grande arte de dizer a verdade, mesmo que velada e fragmentariamente”. O que mais apreciava não era “o grande homem da comédia e da tragédia […] Mas as coisas sonhadoras que há nele; aqueles seus ocasionais lampejos da verdade intuitiva; aquelas explorações rápidas, breves, do próprio eixo da realidade”, pois eram essas coisas que faziam de Shakespeare Shakespeare.

 

De facto, os americanos sempre foram idealistas e um pouco excêntricos. Major Douglas, um economista autodidata, resolveu avisar o mundo de que tinha um remédio para todos os males sociais. O seu plano de “crédito social” fundamentava-se na ideia de que as depressões podiam ser evitadas e a justiça social alcançada pela manipulação do sistema monetário.

 

Melville era contrário à fama. Chegou mesmo a justificar a sua obscuridade. Escreveu que “toda a fama é patrocínio”, por isso pedia: “Deixem-me ser infame. Quanto mais a nossa civilização avança nas suas linhas presentes, tanto mais a ‘fama’ se torna desprezível, especialmente a dos escritores.”

 

Está visto e provado que até os génios têm momentos de desatino. Por exemplo, Dostoievski era um jogador inveterado e chegou mesmo a ser arrastado por Belinski para um círculo de reformadores atraídos por modelos ocidentais, que conspiravam secretamente contra a autoridade czarista. De facto, viveu numa era que, como observou o arguto viajante francês marquês de Custine, “em Petesburgo mentir continua a ser desempenhar o papel de um bom cidadão; dizer a verdade, mesmo tratando-se de assuntos aparentemente sem importância, é conspirar.”

 

Já Joyce dedicou o seu génio a tornar a escrita uma linguagem supremamente ininteligível.

 

Quando lhe perguntaram porque escreveu Finnegans Wake, respondeu de forma maliciosa, não para pedir desculpa mas para se vangloriar: “Para manter os críticos ocupados durante trezentos anos.” Possivelmente partilhava a estupefação de Einstein que achava que o mistério eterno do mundo era a sua compreensibilidade.

 

Também existe a possibilidade de partilhar a ideia do enigmático elogio de Henri Rousseau a Picasso, nomeadamente a Les demoiselles: “Picasso, você e eu somos os maiores pintores do nosso tempo, você no estilo egípcio, eu no estilo moderno!”

 

Já Picasso, nos seus últimos anos de vida, teve este lamento: “As pessoas não compram os meus quadros, compram a minha assinatura.”

 

De facto, o mundo ainda vive preso do mito da Arca de Noé que, por incrível que pareça, é uma história partilhada em todas as partes do mundo. Mesmo o Corão (surata XI, versículos 27 a 51) segue com grande fidelidade o Génesis e faz um relato pormenorizado do Dilúvio e de como Deus salva Noé: “A Arca poisou sobre o monte al-Judi” (versículo 46), um maciço montanhoso de quase quatro mil metros de altitude, situado na região de Mossul, no Curdistão iraquinano.

 

O Poema Gilgamesh, possivelmente a fonte que inspirou o relato bíblico, encontrado numa tábua cuneiforme em Nínive, capital da Assíria, conta na primeira pessoa o desembarque de uma arca no monte Nisir, a nordeste da Babilónia.

 

O mito hindu do Dilúvio, contido na Satapatha Brahmana, refere-se a uma “montanha no Norte”, onde Manu ata o seu barco a uma árvore, a conselho do seu amigo peixe gigante.

 

Os gregos mencionam o monte Parnaso ou as montanhas da Tessália, onde o navio de Deucalião chegou e Pirra após o dilúvio da mitologia helénica.

 

Lendas idênticas são narradas desde o Alasca até ao Peru.

 

Basicamente, todas as civilizações antigas possuem histórias similares sobre a destruição do mundo através de uma enorme inundação e sobre uma nau salvadora, o que nos leva a pensar que se trata de um mito funcional para a maioria dos povos antigos e que, muito provavelmente, foi adotado pelo cristianismo.

João Madureira

 

 

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Segunda-feira, 9 de Outubro de 2017

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362 - Pérolas e diamantes: A pose da naturalidade


O romance de cavalaria medieval, que foi o alvo predileto de Cervantes, desenvolveu-se na França do século XII e espalhou-se depois por toda a Europa. Além de altamente convencional, também era escrito em versos fáceis de recitar e só depois em prosa.

“Romance” significou de início uma obra em francês, derivada do latim, a língua de Roma.

Os romances medievais, ao contrário do que muita gente pensa, não eram crónicas de batalhas campais, como as travadas entre Gregos e Troianos, mas histórias de cavaleiros lendários dedicados a Jesus Cristo e às suas amadas, de torneios e de castelos encantados, com um suplemento de dragões e monstros, todos sob o feitiço de grandes magos. E eram coisas pouco divulgadas. A edição dos livros exigia trabalho muito elaborado e moroso.

Apenas com o progresso tecnológico da tipografia no século XIX é que o livro se transformou em veículo popular para um novo público leitor, tão sequioso de uma história imaginária de boatos picantes e últimas novidades.

Os autores, com a cumplicidade dos seus editores, adquiriram rápida aceitação. Finalmente podiam saber daquilo que os leitores gostavam, sentindo-se cada vez mais tentados a dar-lhes o que eles queriam. Como diz Daniel J. Boorstin: “O autor-criador tornou-se, pois, o público do seu público.”

No seu livro Os Criadores, o autor refere que Dickens, entusiasta e compassivo, era, ao contrário de Balzac, um homem de paixões. Pomposamente democrata, permaneceu um vitoriano populista. “A minha fé nos governadores”, escreveu em 1869, “é, no seu todo, infinitesimal; a minha fé no povo governado é, no seu todo, ilimitada.”

Nem a sua experiência como jornalista no Parlamento aumentou a sua confiança nas assembleias representativas. O autor dos hilariantes Cadernos de Pickwick passou pela Câmara dos Comuns “como um homem” e na Câmara dos Lordes “não cedeu a nenhuma fraqueza, exceto ao sono”.

Confessou que viu muitas eleições “sem nunca ter tido vontade (qualquer que fosse o partido a ganhar) de estragar o chapéu atirando-o ao ar”. Nem o que observou no Congresso de Washington alterou as suas opiniões. Dickens nunca “lamentou nem se orgulhou de qualquer corpo legislativo”.

O génio é sempre obra do acaso. E quase sempre as pessoas que o possuem são torturadas e perseguidas por obsessões contínuas. O sublime Leonardo da Vinci, enquanto jovem, comprava pássaros no mercado a fim de os libertar. E caminhava pelo seu próprio pé, pois, como Miguel Ângelo escreveu: “Aquele que segue outro nunca o alcançará”.

Dostoyevsky dizia que “as ideias voam pelos ares, mas são condicionadas por leis que não compreendemos. As ideias são contagiantes, e uma ideia que se poderia crer prerrogativa de alguém possuidor de grande cultura pode entrar no espírito de um ser simples e descuidado e apoderar-se dele.

Oscar Wilde gostava de brincar com o seu paradoxo afirmando bem alto que “ser natural é apenas um pose”.

O pai de Montaigne tinha como objetivo educativo para o seu filho aliá-lo com “o povo e aquela classe de homens que precisa da nossa ajuda”. Ensinou-lhe que “o dever manda primeiro olhar para o homem que nos estende os braços e só depois para aquele que nos volta as costas”.

Talvez tudo não passe de uma questão de fé.

Montaigne divide os filósofos em três categorias: os que afirmam terem encontrado a verdade, os que negam poder a verdade ser encontrada e os que, como Sócrates, confessam a sua ignorância e continuam a procurar. Apenas os últimos são sensatos.

Mas a fé pode ser como a de Montaigne: “uma corda que sustenta o enforcado”.

Quando jovem, Benjamim Franklin não se interessava francamente pelas belezas da natureza, ou da literatura, nem tão pouco o emocionavam a poesia, a arquitetura ou o romance histórico. “Muitas pessoas gostam de narrativas sobre edifícios e monumentos antigos, mas por mim confesso que, se conseguisse encontrar nas minhas viagens uma receita para fazer queijo parmesão, isso me daria mais prazer do que uma cópia da inscrição de uma qualquer pedra-de-não-sei-quê.”

Franklin chegou a ser um dos líderes da Revolução Americana, conhecido por suas citações e experiências com a eletricidade. Além disso foi jornalista, editor, autor, filantropo, político, abolicionista, funcionário público, cientista, diplomata, inventor e xadrezista estadunidense.

Escrevia como recomendava, de forma “simples, clara e concisa”, e persuadia os seus leitores a apadrinharem um objetivo prático e quase sempre valoroso. Tinha como intenção “promover um saber que seja útil”.

O seu Conselho a Um Amigo Para a Escolha de Uma Amante era o reflexo disso mesmo: “Prefira mulheres velhas a jovens”. As suas razões terminavam desta forma: “Oitava e última: elas ficam tão gratas!”

 

João Madureira

 

 

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Segunda-feira, 2 de Outubro de 2017

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361 - Pérolas e diamantes: A verdade e os tolos

 

Não vale a pena dar-lhe muitas voltas, bem vistas as coisas tudo depende do coração. Afinal, toda a gente acredita naquilo que quer acreditar. Todos sabemos muito bem que sabemos muito bem que sabemos muito bem.

 

As notícias de última hora que inspiram os jovens repórteres inexperientes, mas com muito bom aspeto, são as da pobreza. Até o senhor presidente da República não se cansa de abraçar e beijar os sem-abrigo.

 

As histórias dos desgraçadinhos de Lisboa e arredores espalham-se pelo país como uma doença sentimental. E as perguntas são sempre prementes e ocas: Como é ter fome? Como é não ter casa?

 

Os canais de televisão patrocinam-se dessa forma, transmitindo o desespero em direto. Os ricos deliciam-se sentimentalmente com a pobreza.

 

Mas os restaurantes estão cheios de pessoas, as sapatarias repletas de sapatos e sapatilhas e donzelas e pseudo-atletas.

 

E as lojas de roupa rejubilam de atestadas por pseudo-manequins ambulantes. A felicidade cabe-lhes toda na exclamação: “Agora já não precisamos de ir às compras ao estrangeiro!”

 

Para terminar o triângulo virtuoso, os especialistas emitem as suas opiniões especializadas… a valor de saldo: “Alguém vai ter de pagar o preço do Progresso”.

 

E, ó ironia das ironias, não acreditam em quem lhes diz a verdade porque sabem que na cabeça dos tolos só a verdade é que aproveita. Afinal, a quem é que interessa a verdade?

 

Aos tolos.

 

 A quem?

 

Aos tolos.

 

O mundo agora é só vídeos. Estou em crer que até o primeiro-ministro e o presidente da República tomam as decisões importantes baseados nos vídeos que visualizam no iphone.

 

Também eles fazem parte da realidade… dos filmes.

 

Nos restaurantes apinhados, todos, mas mesmo todos, suspendem as refeições e imobilizam os sorrisos para tirarem uma selfie

 

com a ementa…

 

com o empregado de mesa…

 

com o papá e a mamã…

 

e a avó…

 

e o namorado…

 

ou namorada…

 

uns com os outros e outros com os uns…

 

e o pobre do cão a ladrar lá longe no canil…

 

e o gato a miar sozinho, ou mal acompanhado, no gatil…

 

E depois passam as selfies de uns telemóveis para os outros e dos outros para os uns para os uns e os outros as contemplarem. Nada mais interessa, nem sequer a comida, sobretudo a boa, porque fica mal na fotografia.

 

Disfarça-se a obesidade com os sorrisos.

 

O fotoshop é bué de mentiroso, mas as pessoas são ainda muito mais.

 

As infraestruturas tomam conta de nós, sobretudo as ligadas à impunidade.

 

Os centros comerciais reluzem, as metrópoles rebentam de turistas, os vales transformam-se em lindos lameiros de golfe. As novas personagens de tudo aquilo que é velho tornam-se inesquecíveis. Todos somos apanhados pelas novíssimas marés da gargalhada.

 

Estamos superlotados de vacuidade.

 

Só respondemos às perguntas indiretas.

 

Destroçaram-nos as histórias.

 

Quem são os heróis?

 

Os tempos estão a mudar…

 

Tretas…

 

Afinal qual é a moral desta história?

 

João Madureira

 

 

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Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017

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360 - Pérolas e diamantes: Quanto vale a Democracia?

 

 

No seu livro Contra a Democracia, Jason Brennan, parte do princípio de que a democracia é o melhor sistema viável, mesmo assim não é lá grande coisa, e por isso se torna necessário melhorá-lo, mesmo que seja com menor participação.

 

O grande filósofo moral do século XIX, John Stuart Mill, argumentava que devemos instituir qualquer forma de governo que produza os melhores resultados.

 

Apesar de Mill ter a esperança de que envolver as pessoas na política as tonaria mais inteligentes e mais preocupadas com o bem comum, afirma que algumas formas de governo podem deixar-nos estúpidos e passivos. No entanto existem outras que podem tornar-nos perspicazes e ativos.

 

Apesar das boas intenções, as formas mais comuns de compromisso político não só falham em educar-nos ou enobrecer-nos, como tendem inexoravelmente para a estupidificação e a corrupção.

 

O economista Joseph Schumpeter bem lamenta: “O cidadão típico desce a um nível de desempenho mental inferior assim que entra no campo político. Argumenta e analisa de um modo que prontamente reconheceria como infantil na esfera dos seus interesses reais. Torna-se novamente um primitivo.”

 

Em 1800, 70% a 80% dos americanos com direito a voto votavam nas principais eleições. Agora, no máximo, votam 60% para as eleições presidenciais e cerca de 40% para as eleições intermédias, estaduais ou locais. Por isso é que os democratas rangem os dentes.

 

Segundo Brennan até existe um lado positivo no declínio democrático, pois a democracia no seu país está mais inclusiva do que nunca, com cada vez mais pessoas convidadas a assumir uma posição na mesa das negociações políticas. Contudo, cada vez menos pessoas respondem ao convite.

 

Os principais teóricos políticos querem que a política se infiltre em mais aspetos da vida. Pretendem mais decisão política. Partem do pressuposto que a política nos enobrece e que a democracia é uma forma de capacitar a pessoa comum a assumir o controlo das suas circunstâncias.

 

Jason Brennan considera mesmo que os “humanistas cívicos” consideram a própria democracia como a vida boa, ou, pelo menos, um chamamento superior.

 

Segundo o cientista político e filósofo americano, existem três tipos de cidadãos democráticos:

 

Os hobbits, que são sobretudo apáticos e ignorantes sobre a política, pois carecem de opiniões fortes e firmes sobre a maioria das questões políticas. Preferem seguir as suas vidas diárias sem prestar muita atenção à política. É o típico não votante.

 

Os hooligans, que são os fanáticos desportivos da política. Têm ideias fortes e firmes sobre o mundo. Podem apresentar argumentos para as suas crenças, mas não conseguem explicar pontos de vista alternativos de um modo que as pessoas com outras visões considerem satisfatórias. Consomem informação política, embora de uma forma tendenciosa. Tendem a desprezar as pessoas que discordam delas, sustentando que as pessoas com as ideias alternativas sobre o mundo são estúpidas, más, egoístas ou, na melhor das hipóteses, estão profundamente enganadas. A maior parte vota regularmente, participa nas atividades políticas e são membros filiados em partidos políticos.

 

Os vulcanos, que são os que pensam científica e racionalmente sobre a política. As suas opiniões são fortemente sustentadas em ciência social e filosofia. São autoconscientes, e apenas confiam naquilo que os indícios permitem. Conseguem explicar pontos de vista diferentes e visões alternativas de forma satisfatória. Interessam-se por política, mas, ao mesmo tempo, são imparciais. Evitam ser tendenciosos ou irracionais. Não pensam que todos aqueles que discordam deles são estúpidos, maus ou egoístas.

 

Estes são os tipos ideais ou arquétipos conceptuais. Algumas pessoas encaixam-se melhor do que outras nestas descrições. Ninguém consegue ser um verdadeiro vulcano, pela simples razão de que todas as pessoas são pelo menos um pouco tendenciosas.

 

Infelizmente, a maioria das pessoas enquadra-se nos moldes hobbit e hooligan, ou encontra-se lá pelo meio.

 

De facto, a política não é valiosa para a maior parte das pessoas. E a democracia tem os seus defeitos e mesmo os seus limites.

 

Uma coisa devíamos ter presente no ato de votar: “A tomada de decisão política não é escolher para si próprio; é escolher para todos.”

 

Alguns filósofos defendem que a democracia é um procedimento de tomada de decisão inerentemente justo.

 

Jason Brennan, não está pelos ajustes. Argumenta que o valor da democracia é puramente instrumental, pois “a única razão para favorecer a democracia sobre qualquer outro sistema político é que é mais eficaz a produzir resultados justos, de acordo com padrões de justiça independentes do procedimento”.

João Madureira

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Segunda-feira, 18 de Setembro de 2017

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359 - Pérolas e diamantes: Os escritores devem andar loucos

 

 

Os escritores devem andar loucos. Louquinhos da silva. O nosso conterrâneo transmontano Rentes de Carvalho, ainda radicado na Holanda, anunciou há uns meses atrás que iria votar em Geert Wilders, o líder do partido da extrema-direita. Na Holanda parece que não lhe ligaram muito. Já por cá chamaram-lhe de tudo, até senil. De facto, o escritor tem 86 anos, mas dissesse ele que iria votar no BE ou no PC de lá e até lhe teciam loas. E das grossas.

 

Muitos dos nossos escrivas e comentaristas de esplanada descobriram agora que os seus livros não prestam, partindo do princípio de que quem vota em Wilders só pode escrever livros reles ou escabrosos. Já outros afirmaram mesmo que não voltariam a ler um livro de Rentes de Carvalho. Estou em crer que esses tais outros nunca leram nenhum dos interessantes romances do escritor. Eu sim li e vou continuar a ler. E até os recomendo vivamente.

 

Eu não me indigno com essas coisas. A escritora Patrícia Reis, sim. Até se questionou, coitada dela, como é que se pode “amar um escritor que afirma que vota na extrema-direita por ter vizinhos árabes e não se sentir seguro?”

 

Nem eu, nem, estou em crer, Rentes de Carvalho caímos nessa ratoeira do sentimentalismo piegas que enxama as redes sociais, que tenta confundir os livros com a pessoa que os escreveu. 

 

Ele escreve e diz o que pensa de uma forma livre e direta, sem estar a pensar nos likes que vai conseguir nas publicações do Facebook. Além disso é um escritor cheio de humor, inteligência, lucidez e, acima de tudo, é um excelente cultor da língua portuguesa.

 

Eu admiro-o por isso. Por prezar a sua liberdade acima de tudo. Por não se deixar ir no politicamente correto, nas declarações brandas e medíocres dos adeptos da lágrima fácil e dos sentimentos cultivados nos centros comerciais.

 

A sua liberdade é rara e no nosso país é mesmo uma excentricidade, daí a confusão com senilidade. Daí a zanga dos escritores que participam alegremente nas vernissages da esquerda e que esquecem sempre os gulags do seu descontentamento.

 

Os milhões de cadáveres produzidos pela ditadura do proletariado continuam enterrados na vala comum da hipocrisia e debaixo dos muros da vergonha e das cortinas de ferro do leninismo.  

 

Numa sua crónica, publicada no Mazagran, Rentes escreveu, antecipando em muitos anos a resposta aos indignados do costume: “O meu medo é notar que com os anos me vou tornando razoável em excesso, quase doentiamente tolerante. É disso que quero que me guardeis, Senhor. Dai-me raivas. Mantende viva em mim a capacidade de me enfurecer. Deixai que continue a chamar as coisas pelo seu nome, a criticar sem medo, a rir de mim próprio, e livrai-me até ao último momento das aceitações que crescem com a idade”.

 

Abençoado sejas, estimado Rentes.

 

António Lobo Antunes, em entrevista a João Céu e Silva, no ano de 2007, comparou as opções políticas à afetividade das opções clubísticas. Transcrevo: “Há pessoas de direita mais democratas que as de esquerda, há partidos de esquerda mais conservadores, as ideologias foram-se dissolvendo e a maior parte dos partidos são frentes e aqueles que ainda têm ideologia, ela está caduca. O único partido que vejo com corpo ideológico mais ou menos coerente é o Partido Comunista, mas é de um tempo que já não existe. As conquistas de Abril, onde estão?”

 

A liberdade, a independência e a dignidade continuam a ser um arquipélago no meio da imensidão da estupidez humana.

 

No entanto, o grito de revolta de Pissarev continua válido: “Para o homem comum um par de botas conta muito mais do que as obras completas de Shakespeare ou de Puchkine.”

 

Mas eu continuo a conseguir fazer a distinção entre a catedral de Chartres e a Disneylândia e entre o Europeu de Futebol e os Concertos de Brandeburgo de Bach.

 

João Madureira

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Segunda-feira, 11 de Setembro de 2017

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358 - Pérolas e diamantes: O azul, o medo, a engorda e a angústia de dormir para ser brevemente acordado

 

Aprendi com a Moira, uma bela personagem do romance A Sociedade dos Sonhadores Involuntários, de José Eduardo Agualusa, que os antigos gregos, tal como os chineses ou os hebreus, não possuíam uma palavra destinada a nomear o azul. Para todos eles o mar era verde, acastanhado ou cor de vinho. Por vezes negro.

 

Na pintura ocidental o mar apenas começa a ser pintado de azul no século XV. Também o céu não era azul. Os poetas designavam-no como rosado, quando amanhecia; incendiado quando se punha; ou leitoso, nas tristonhas manhãs de inverno.

 

Afinal são os nomes que dão existência às coisas. “No princípio era a palavra…”

 

Ai que sono…

 

Ainda hoje me delicio com o pensamento do primeiro pintor, em plena Idade Média, a escolher o tom de azul para colorir o mar. Momentos antes de existir a cor azul. O que seria de mim sem o azul.

 

Mas não é disto que eu quero falar hoje. Desta vez pretendo dar-vos conta da entrevista que Ricardo Sá Fernandes concedeu ao Expresso, advogado que mesmo não sendo melómano prepara os seus processos a ouvir ópera antes de ir para a barra do tribunal.

 

Dói-me a cabeça. Tenho de dormir…

 

Na Justiça, diz ele, 80% das decisões são com certeza justas e equilibradas. No entanto a margem de erro é muito grande. Ninguém se mete a jogar a roleta russa com a probabilidade de 1/5 em ser liquidado. 

 

Claro que a morosidade é um problema, mas para Sá Fernandes a incerteza da Justiça é que é de temer. Além disso, a Justiça erra vezes demais. Todos podemos, lembra ele, ser enganados por uma testemunha que minta bem. E depois, a preguiça, ajuda muito nas decisões erradas, “porque a decisão formal é sempre a mais fácil”.

 

Além disso, as magistraturas e a advocacia são constituídas por “gente que não gosta de ser escrutinada”. E porquê? Na opinião do advogado, “os portugueses são pouco exigentes com o escrutínio”.

 

Dói-me a cabeça…

 

Além disso, afirma o causídico que já foi secretário de Estado, “o português às vezes é muito corajoso, mas por regra é manhoso”. E depois realça o modelo: “Acho que o exemplo que melhor ilustra o que é ser português é o rei D. João VI, que foi um rei que acabou por ter resultados ótimos. Fugiu para o Brasil, garantiu-nos a independência, andou a enganar os franceses e os ingleses. Foi manhoso. Isto é uma caraterística que reflete uma cultura de medo e de falta de frontalidade.”

 

Ricardo Sá Fernandes disse uma vez que os tribunais são casas de mentira. Desta vez, não só corroborou a ideia, como carregou nas tintas: “Não há sítio onde se minta tanto como nos tribunais.”

 

Quero dormir… já não aguento estar acordado… tanto tempo…

 

Pergunta da jornalista: “Quem mente, as testemunhas, os arguidos, os advogados, os juízes?” Resposta do entrevistado: “Todos. Todos mentem, mas é verdade que a maior responsabilidade é a das testemunhas porque elas é que têm de depor sobre os factos. E nós também somos pouco rigorosos a punir os que mentem nos julgamentos.”

 

Apesar de tudo é um homem de fé. De muita fé, atrevo-me mesmo a dizer. Pois além de cristão, é maçom e socialista.

 

Mas eu tenho tanto sono… Será que tenho de acordar mesmo antes de adormecer?

 

Mas Ricardo Sá Fernandes pontualiza, esclarece e declara: “Sou cristão. Revejo-me na Inquisição? Não. Sou maçom. Revejo-me nestas negociatas que há nas lojas? Não. E nos compadrios também não.”

 

Eu, cá de longe, com vossa licença, atrevo-me a concluir o raciocínio: Também é socialista, mas não se revê no Partido.

 

Tenho de me manter acordado, não vá o Diabo tecê-las…

 

Oiçamos o senhor: “O PS, o PSD e o CDS incentivaram em Portugal uma cultura de favores, de nepotismo. Estou ideologicamente próximo do Partido Socialista, mas tem uma prática politica absolutamente inaceitável, de favores, de complacência, com compadrios e situações pouco claras.”

 

A preocupação está lá: “Sinto-me um cidadão que faz tudo para não agir sob o efeito do medo, mas que também tem medo.”

 

Medo de acordar? Medo de dormir? Medo de dormir acordado? Medo de acordar a meio do sonho?

 

Quando está cansado procura o contacto com a natureza em Trás-os-Montes, onde tem a sua casa-refúgio. Em Oura faz vinho, lê livros, passeia e anda de bicicleta.

 

Jesus, no sermão da Montanha, diz mais ou menos isto: “A razão do homem erra, mas há um que faz todas as coisas bem. Sempre, ao longo da viagem da vida, segue este preceito: «Faz aos outros aquilo que gostarias que te fizessem a ti».”

 

Mas também há um ditado popular que diz: “Tudo o que não mata engorda.”

 

Peço desculpa, mas agora vou dormir. É que estou a morrer de sono, depois de tanto tempo acordado. A dor de cabeça é enorme. Eu quero é dormir. Dormir profundamente. A dor de cabeça é enorme.

 

Aspirinas há muitas, seus amáveis palermas.

 

João Madureira

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Segunda-feira, 28 de Agosto de 2017

Quem conta um ponto...

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356 - Pérolas e diamantes: Compaixão pelos buracos da estrada

 

Contento-me com a ideia de que os amigos que me restam podem não ser os melhores do mundo, mas sei que são os meus melhores amigos no mundo, apesar de por vezes me mentirem para não me apoquentarem. Eles sabem que por vezes me pareço com Maquiavel, mas que, definitivamente, não sou maquiavélico.

 

Rendi-me ao sistema filosófico mais simples: já não quero mudar o mundo, tento somente mudar a vida, começando por mim próprio. Já não alinho em seitas ideológicas. Deixei de ser sectário.

 

Não há seres humanos eleitos, nem perfeitos.

 

Esses ditos que tais contentam-se com as roupas e os privilégios. Conheço-os pelos indícios. São os que dizem sempre que sim. Afirmam-se sempre dispostos a discutir tudo porque nunca discutem nada. Os que os rodeiam tocam-se de ombro e proclamam: Olha que postura!

 

Depois do teatro da propaganda e do quererem acordar quem nunca adormeceu na formatura, deixam de revelar interesse em fazer as coisas e até de se interessarem se as conseguem fazer bem.

 

Apenas se preocupam em deixar a imagem de que são ágeis, oportunos, que estão sempre prontos e, evidentemente, sem discutir, sem pensar, sem criar problemas.

 

Querem fazer de nós papalvos, para que se diga deles que são bons rapazes, dignos de confiança, e outras balelas que se pronunciam por conveniência. É tudo engano.

 

A fé já não basta para aceitar a humanidade. O mundo já não é eterno e muito menos estratificado, onde os bons estão no céu, os regulares ocupam o purgatório, os maus se estorricam no inferno e os inocentes, como eu e o estimado leitor, ou leitora, pois para o caso tanto monta, vagueiam pelo limbo, apesar de termos feito as nossas concessões, pensando que a alma é como um saco transparente cheio de virtudes e boas intenções.

 

Há os que com apetite comem do bom e do mau porque, dessa forma, assim manjam duas vezes. Pois que lhes faça bom proveito à barriguinha e ao peito.

 

Esses lembram-me pérolas falsas, também chamadas “pérolas de lúcio”.

 

Aprendi no livro Sangue Azul Gelado, de Iúri Buida, que se podem fazer das escamas da espécie mais comum do citado peixe (Alburnus lucidis, que abunda nos lagos e rios locais lá da Rússia). Misturam-se diminutos cristais de guanina com uma solução de gelatina, vidro líquido ou celuloide, depois injeta-se a substância conseguida numas bolinhas de vidro manufaturadas em pequenas fabriquetas e o resultado final são uns colares de pérolas baratos para as mulheres do povo.

 

Deles devemos fugir e sussurrar, antes de adormecer, a oração infantil: “Vem-te deitar perto de mim, anjo meu, e tu, Satanás, afasta-te de mim, das janelas, das portas, do meu leito.”

 

É da natureza humana a inclinação para o mal, porque o mal não requer nenhum esforço. O bem sim.

 

Eles transformam-se em atores. Vivem as vidas das criaturas imaginárias, transformam o seu aspeto, falam com vozes alheias. São mentirosos, bruxos ou magos que violam a lei natural das coisas ou, então, convertem-se noutras pessoas, mesmo que por um curto período de tempo.

 

No seu futuro existe cada vez mais passado. Não possuem nem ideais nem ideias, somente o desejo de alcançarem o poder, para, aí chegados, encherem a pança e tratarem de adormecer.

 

Transportam sempre consigo o cinismo, a hipocrisia e a irresponsabilidade. Evitam qualquer tipo de esforço intelectual ou emocional. E isso agrada às massas. A cultura, dizem eles, não tapa os buracos da estrada.

 

Tomaesta Ivánovitch, antes de falecer, confidenciou que a compaixão pelos pobres, humilhados e ofendidos nunca se deveria transformar em sentimentalismo, porque os humilhados e ofendidos não são nada melhores do que os que humilham e ofendem. E acrescentou: “Mas isso não significa que não mereçam compaixão.”

 

 

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Segunda-feira, 21 de Agosto de 2017

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355 - Pérolas e diamantes: A fé na palavra imortal

 

O objetivo dos artistas romanos era imortalizar a pessoa em estátuas de bronze ou mármore, para dessa forma “não permitir que as feições humanas fossem esquecidas ou que o pó dos séculos prevalecesse sobre o homem”. O grande objetivo da escultura romana era o de celebrar o indivíduo em toda a aceção da palavra: tornar público, honrar e preservar.

 

Já os gregos eram os novos artífices da retórica e da prosa literária. Isócrates definiu um humanismo grego, uma cultura da língua falada e escrita. Escreveu: “As pessoas a quem chamamos gregos são aquelas que partilham, não o nosso sangue, mas a nossa cultura.” Essa cultura foi essencialmente uma realização de Atenas, que ele, tal como Tucídides, viam como “a escola da Grécia”. Foi a palavra grega, projetada na arte nascente da prosa, que constituiu uma nova força para estabelecer a unidade helénica.

 

Os gregos acreditavam que “as palavras verdadeiras, as palavras em conformidade com a lei e a justiça, os reflexos de uma alma boa e digna de confiança”, iriam construir uma comunidade ainda mais vasta.

 

Todos sabemos agora que a cultura ocidental, a educação que civilizou o Ocidente, se fundamentou nessa fé na palavra imortal.

 

E os cultores dessa arte passaram a ser admirados e até mesmo apaparicados por reis e papas.

 

Chaucer, por volta de 1366, chegou a conhecer Boccaccio e, numa viagem a Itália, chegou a adquirir os livros de Petrarca e a Divina Comédia de Dante.

 

Eduardo III manteve-o ao seu serviço durante muito tempo e, pelos serviços prestados, chegou mesmo a conceder-lhe um jarro de vinho por dia até à sua morte.

 

Mas até as melhores histórias terminam de forma trágica.

 

D.Quixote é vencido pelo Cavaleiro da Lua Branca, que o faz cair do cavalo durante a luta, e este pede-lhe: “Leva a tua lança para casa, ó Cavaleiro da Lua Branca, e leva a minha vida, uma vez que já me roubaste a minha honra.”

 

O Cavaleiro vencedor recusa e apenas exige que “o grande D. Quixote” se retire para a sua aldeia durante um ano.

 

D.Quixote, regressando à sanidade, e ao deixar Barcelona, o local da sua contenda, olha para trás e diz: “Aqui era Troia; aqui a minha sorte, e não a minha cobardia, roubou-me a glória que ganhara; aqui a fortuna aplicou sobre mim as suas fantasias e caprichos; aqui as minhas proezas foram obscurecidas; e aqui, finalmente, a minha estrela pôs-se para não mais nascer.”

 

Já o seu anafado escudeiro, ao aproximar-se da aldeia, põe-se de joelhos e diz: “Abre os olhos, amada terra natal, e contempla o teu filho, Sancho Pança, que para ti regressa. Se não volta rico, volta pelo menos bem derrotado. Abre os braços e recebe também o teu outro filho, D. Quixote, que regressa vencido pelo braço de outro, mas vitorioso sobre si próprio, e isto, disseram-me, é a maior vitória que se pode desejar.”

 

Mas D. Quixote, o engenhoso cavaleiro-fidalgo, não consegue sobreviver por muito tempo à vida pastoril. Com a sanidade recuperada, e com a desilusão que daí lhe advém, vem a doença. Por isso avisa os incautos: “Tenho notícias para vós, gentil senhor. Já não sou D. Quixote de La Mancha, mas Alonso Quijano.”

 

Todos sabemos que depois de termos sido heróis já nunca conseguimos regressar à condição de simples mortais.

 

À beira da morte, o cavaleiro da triste figura, o herói que mais prezo e admiro, vira-se para Sancho e diz: “Perdoa-me, amigo, por ter feito com que parecesses tão louco como eu ao levar-te a cair no mesmo erro, o de acreditar que ainda há cavaleiros andantes neste mundo.”

 

Ao que Sancho responde a chorar (e eu também, confesso-o de lágrimas nos olhos): “Ah, senhor, não morra, e em vez disso aceite o meu conselho e continue a viver durante muitos anos, pois a maior loucura de que um homem pode ser culpado nesta vida é a de morrer sem uma boa razão, sem que ninguém o mate, assassinado apenas pelas mãos da melancolia.”

 

João Madureira

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Segunda-feira, 14 de Agosto de 2017

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354 - Pérolas e diamantes: O desvio ligeiro e o enorme erro

 

 

Aprende-se sempre muito lendo bons livros, além do prazer que nos dão.

 

Com Os Criadores – Uma História dos Heróis da Imaginação aprendi, por exemplo, que a moda de os atletas gregos tirarem a roupa talvez tenha sido imposta quando Orsipo de Mégara, nos jogos olímpicos de 720 a. C., perdeu os calções a meio de uma corrida. Mesmo assim, venceu, e os outros, por companheirismo, seguiram o seu exemplo de nudez.

 

Outros recordam que num dos festivais em Atenas os calções de um dos corredores escorregaram, levando-o a tropeçar antes de chegar à meta. Para evitar, no futuro, acidentes semelhantes, os participantes foram obrigados, por decreto, a apresentar-se nus.

 

Aprendi que “ginástica”, palavra grega para atletismo, significa literalmente “exercícios executados quando se está nu”. Até porque, nos eventos mais populares, a luta livre e o pancrácio, seria muito difícil manter um traje decente.

 

Em Olímpia as mulheres não podiam assistir aos jogos dos homens. Pausânias conta que uma mulher que fosse apanhada nos jogos dos homens seria atirada das ravinas do monte Typaeum.

 

No seu discurso fúnebre, Péricles declarou que a maior glória de uma mulher era os homens não falarem dela, nem bem nem mal. Ao que se sabe, as corridas das mulheres eram organizadas apenas para as “virgens” e o casamento (quase sempre aos 18 anos) acabava com a carreira desportiva da mulher.

 

Embora as competições atléticas exibissem claramente modelos masculinos do corpo adulto, não existiam iguais possibilidades de observar o corpo feminino. Praxíteles (nascido cerca de 390 a. C.) foi designado como o “inventor” do nu feminino, devido à sua Afrodite de Cnido, de lendária beleza.

 

Antes do seu tempo, era o ideal masculino quem dava forma às esculturas femininas.

 

Conta-se que Zêuxis (cerca de 400 a. C.), quando decidiu pintar uma Helena para o templo de Hera, pediu ao povo de Cróton que lhe mostrasse as mais belas virgens para lhe servirem de modelo. Em vez disso, conduziram-no a um ginásio, mostraram-lhe os rapazes que ali treinavam e sugeriram-lhe que imaginasse a beleza das suas irmãs.

 

Parece que os escultores e pintores arcaicos não trabalhavam em estúdio com modelos, mas antes observando rapazes praticando exercício físico.

 

Mas Zêuxis, que não conseguia repousar descansado enquanto outros teimavam em acordar o povo que supostamente dormia na cidade, não se deu por vencido e insistiu num modelo feminino adequado. Veio então o conselho público em seu auxílio e deu-lhe razão.

 

O bom Cícero, que não era hipócrita, escreveu mais tarde que “ele não acreditava poder encontrar num só corpo toda a beleza que procurava” e que por isso selecionou cinco virgens.

 

Os sábios Gregos resolveram imaginar um “inventor” da arte da estatutária e resolveram chamar-lhe Dédalo.

 

Ao que se sabe, o lendário artífice (690 a. C.) nasceu em Atenas, mas sentia-se inquieto e incomodado com um sobrinho que não dormia (razão pela qual não podia ser acordado), que inventara a serra e a roda do oleiro e que tecnicamente ameaçava ultrapassá-lo.

 

O invejoso Dédalo atirou-o da Acrópole, provocando-lhe a morte, pelo que foi obrigado a deixar a cidade.

 

Foi este Dédalo, que no tempo do culto das imagens de madeira, designadas por daedala (“maravilhas da arte”), lhes deu forma humana reconhecível. Diodoro Sículo (historiador grego do século I a. C.) conta que “ao ser o primeiro a abrir-lhes os olhos, afastar-lhes as pernas e erguer-lhes os braços, conquistou a justa admiração dos homens, pois antes do seu tempo as estátuas eram feitas com os olhos fechados e os braços caídos e colados ao corpo”.

 

Outros escultores primitivos, discípulos de Dédalo, ficaram conhecidos como os Dédalis, os quais, segundo se diz, foram os primeiros a esculpir o mármore.

 

Os kouroi (jovens), que se tornaram o protótipo do nu masculino clássico, quase não se distinguem, em termos de postura, das obras egípcias.

 

Policleto, homem que não dormia para não ter de ser acordado pelo príncipe encantado, repetia o axioma de que “a perfeição só se consegue através de muitas contas”. Ou seja, mesmo que um escultor se desviasse apenas ligeiramente de cada uma das suas medidas, o somatório poderia resultar num enorme erro.

 

Ou seja, o cânone podia também proteger o escultor do gosto inconstante do público.

 

Para os despertadores de mesa-de-cabeceira, aqui fica uma história ainda contada sete séculos após a morte de Policleto.

 

Policleto construiu duas estátuas ao mesmo tempo. Uma tinha a nítida intenção de agradar ao público e a outra era feita segundo os princípios do tratado. De acordo com a opinião de cada individuo que visitou o estúdio, foi alterando aqui e ali, mudando a forma, submetendo-a ao juízo de cada um dos observadores. Quando finalizadas, expô-las ao público. Uma maravilhou e a outra foi ridicularizada. Seguidamente Policleto disse: “Mas aquela que não é do vosso agrado foi a que vocês fizeram, enquanto a que vos deslumbra é a da minha inteira responsabilidade”.

 

João Madureira

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Segunda-feira, 7 de Agosto de 2017

Quem conta um ponto...

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Como se escreve um haiku

 

Tenho uma vida tão ocupada, mas gosto tanto de poesia, que a leio em voz alta enfiado no carro enquanto as escovas cilíndricas da lavagem automática fazem o seu serviço. Leio Herberto Helder, Al Berto, António Ramos Rosa, Fernando Echevarría, Fernando Pessoa, etc., tendo como música de fundo os sons mecânicos da estrutura metálica que vai e vem fazendo chuva e depois insiste novamente soprando forte ventania na chapa metálica do meu bólide. Pode não parecer logo à primeira vista, mas um carro a brilhar também tem a sua poesia.

 

Mas não é de lavagens automáticas que vos quero falar hoje. A bem dizer hoje não sei bem do que vos quero falar. E seguramente também não é do meu carro. Podia falar-vos de política, mas não tenho vontade. O que por aí abunda mais são comentaristas políticos, chorões e aldrabões. As televisões estão cheias deles. Há muito quem comente e pouco quem faça. E nas lavagens automáticas também se comenta muita coisa, mas faz-se pouco. São as máquinas quem faz o trabalho árduo. E essas possuem a rara virtude de nada comentarem. Limitam-se a fazer o seu serviço com qualidade. Nas estações de serviço comenta-se o futebol, o preço da gasolina e o tempo. Podemos mesmo dizer que Portugal é um país de comentaristas e pessoas que lavam os seus carros nas lavagens automáticas.

 

As pessoas que vão às estações de serviço gostam muito de comer bolos e beber café. Gostam especialmente de natas, mas também se deleitam com queijadas, croissants, madalenas ou bolas de berlim. As pessoas quando comem, sobretudo bolos, ou bolachas, ou torradas sem manteiga, também têm muita poesia. Especialmente as que comem muito e não engordam. Essas são pessoas afortunadas. Por isso podem ler poesia à vontade pois não lhes provoca efeitos secundários. Não sei se sabem, mas a poesia provoca muitos efeitos secundários. Sobretudo a boa. A outra dá ressaca ou provoca azia.

 

Quando vou a uma lavagem automática, por vezes ponho a música alto para experimentar o som da aparelhagem do meu bólide. E ela tem um som que inebria. Eu comprei o meu bólide, que é um carro sport cheio de genica, por causa, sobretudo, da aparelhagem. Aquela aparelhagem tem muita poesia, é a modos que um poema do Al Berto repleto de vitalidade e sublimação. Depois também gosto de contemplar as gotas de água a deslizar pelo vidro traseiro do meu bólide. Muitas vezes pego na minha Nikon de bolso e fotografo o vidro pejado de linhas sinuosas desenhadas pelas gotas de água sopradas pela maquineta.

 

A minha Nikon de bolso também tem muita poesia. Comparo-a aos poemas haiku. E aqui vos deixo um de minha autoria: No carro sujo / a água / escreve. E é disto que hoje vos vou falar, da poesia haiku e da nobre arte de a escrever.

 

À primeira vista o poema de apenas três versos parece pequeno. E é pequeno. Todos os poemas haiku são pequenos. Têm todos apenas três versos. Mas isso não quer dizer que não dêem muito trabalho a escrever. A poesia é um trabalho árduo. O seu resultado pode parecer singelo, mas não é. Chamo no entanto a vossa atenção para o facto de que o que a seguir se dá conta pode ser o resultado (e foi) de muito mais trabalho do que aquilo que parece. Posso dizer-vos, sem comprometer a minha discrição, que fiz dezasseis cortes, dois acrescentos e cinco revisões.

 

Agora, se estão dispostos à explicação, façam o favor de me seguir. Para escrever o meu haiku comecei por: O meu carro preto e sujo / quando está na lavagem automática a apanhar com a água / fica como se tivesse sido escrito. Convenhamos que assim não fica lá grande coisa. É muito extenso. Há palavras a mais em todos os versos. Então temos de o trabalhar.

 

Desfazemo-nos logo no primeiro verso do pronome possessivo e do primeiro adjectivo, pois os  dados relativos ao proprietário da viatura e à sua cor (não a cor da proprietário, bien sur, mas sim a do bólide) não interessam ao leitor, nem importam à qualidade do poema, nem aproveitam à excelência da linguagem poética, por isso vão fora. O primeiro verso fica então: O carro sujo

 

No segundo verso decido-me por um corte radical (ou melhor será dizer, uma barrela) e fica apenas o nome final que é o elemento fundamental. Então ficamos apenas, e só, com o artigo definido e o nome: a água… Mais um pouco e era harakiri (腹切り) puro, ou Seppuku (切腹). Mas a arte está em saber o que cortar e quando parar.

 

Relativamente ao terceiro verso decido-me mesmo pelo Seppuku (切腹), ou harakiri (腹切り), por isso vai todo à vida e substituo-o pela forma verbal escreve. Sendo assim temos: O carro sujo / a água / escreve.

 

Ficando deste modo, o artigo definido “o” do primeiro verso tem de ser combinado com a preposição “em” para dar lugar ao locativo “no”.

 

Sendo assim, a versão final fica desta forma: No carro sujo / a água / escreve.

 

Podem os amigos leitores comentar que o único adjectivo também podia ir à vida. E até podia, sim senhor. Mas para a água escrever algo que se veja, o carro, na minha perspectiva, tem de estar sujo. E essa foi a razão porque deixei na terceira posição o adjectivo a adjectivar o que tinha de ser devidamente adjectivado.

 

E por hoje é tudo. 

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