Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017

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360 - Pérolas e diamantes: Quanto vale a Democracia?

 

 

No seu livro Contra a Democracia, Jason Brennan, parte do princípio de que a democracia é o melhor sistema viável, mesmo assim não é lá grande coisa, e por isso se torna necessário melhorá-lo, mesmo que seja com menor participação.

 

O grande filósofo moral do século XIX, John Stuart Mill, argumentava que devemos instituir qualquer forma de governo que produza os melhores resultados.

 

Apesar de Mill ter a esperança de que envolver as pessoas na política as tonaria mais inteligentes e mais preocupadas com o bem comum, afirma que algumas formas de governo podem deixar-nos estúpidos e passivos. No entanto existem outras que podem tornar-nos perspicazes e ativos.

 

Apesar das boas intenções, as formas mais comuns de compromisso político não só falham em educar-nos ou enobrecer-nos, como tendem inexoravelmente para a estupidificação e a corrupção.

 

O economista Joseph Schumpeter bem lamenta: “O cidadão típico desce a um nível de desempenho mental inferior assim que entra no campo político. Argumenta e analisa de um modo que prontamente reconheceria como infantil na esfera dos seus interesses reais. Torna-se novamente um primitivo.”

 

Em 1800, 70% a 80% dos americanos com direito a voto votavam nas principais eleições. Agora, no máximo, votam 60% para as eleições presidenciais e cerca de 40% para as eleições intermédias, estaduais ou locais. Por isso é que os democratas rangem os dentes.

 

Segundo Brennan até existe um lado positivo no declínio democrático, pois a democracia no seu país está mais inclusiva do que nunca, com cada vez mais pessoas convidadas a assumir uma posição na mesa das negociações políticas. Contudo, cada vez menos pessoas respondem ao convite.

 

Os principais teóricos políticos querem que a política se infiltre em mais aspetos da vida. Pretendem mais decisão política. Partem do pressuposto que a política nos enobrece e que a democracia é uma forma de capacitar a pessoa comum a assumir o controlo das suas circunstâncias.

 

Jason Brennan considera mesmo que os “humanistas cívicos” consideram a própria democracia como a vida boa, ou, pelo menos, um chamamento superior.

 

Segundo o cientista político e filósofo americano, existem três tipos de cidadãos democráticos:

 

Os hobbits, que são sobretudo apáticos e ignorantes sobre a política, pois carecem de opiniões fortes e firmes sobre a maioria das questões políticas. Preferem seguir as suas vidas diárias sem prestar muita atenção à política. É o típico não votante.

 

Os hooligans, que são os fanáticos desportivos da política. Têm ideias fortes e firmes sobre o mundo. Podem apresentar argumentos para as suas crenças, mas não conseguem explicar pontos de vista alternativos de um modo que as pessoas com outras visões considerem satisfatórias. Consomem informação política, embora de uma forma tendenciosa. Tendem a desprezar as pessoas que discordam delas, sustentando que as pessoas com as ideias alternativas sobre o mundo são estúpidas, más, egoístas ou, na melhor das hipóteses, estão profundamente enganadas. A maior parte vota regularmente, participa nas atividades políticas e são membros filiados em partidos políticos.

 

Os vulcanos, que são os que pensam científica e racionalmente sobre a política. As suas opiniões são fortemente sustentadas em ciência social e filosofia. São autoconscientes, e apenas confiam naquilo que os indícios permitem. Conseguem explicar pontos de vista diferentes e visões alternativas de forma satisfatória. Interessam-se por política, mas, ao mesmo tempo, são imparciais. Evitam ser tendenciosos ou irracionais. Não pensam que todos aqueles que discordam deles são estúpidos, maus ou egoístas.

 

Estes são os tipos ideais ou arquétipos conceptuais. Algumas pessoas encaixam-se melhor do que outras nestas descrições. Ninguém consegue ser um verdadeiro vulcano, pela simples razão de que todas as pessoas são pelo menos um pouco tendenciosas.

 

Infelizmente, a maioria das pessoas enquadra-se nos moldes hobbit e hooligan, ou encontra-se lá pelo meio.

 

De facto, a política não é valiosa para a maior parte das pessoas. E a democracia tem os seus defeitos e mesmo os seus limites.

 

Uma coisa devíamos ter presente no ato de votar: “A tomada de decisão política não é escolher para si próprio; é escolher para todos.”

 

Alguns filósofos defendem que a democracia é um procedimento de tomada de decisão inerentemente justo.

 

Jason Brennan, não está pelos ajustes. Argumenta que o valor da democracia é puramente instrumental, pois “a única razão para favorecer a democracia sobre qualquer outro sistema político é que é mais eficaz a produzir resultados justos, de acordo com padrões de justiça independentes do procedimento”.

João Madureira

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Segunda-feira, 18 de Setembro de 2017

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359 - Pérolas e diamantes: Os escritores devem andar loucos

 

 

Os escritores devem andar loucos. Louquinhos da silva. O nosso conterrâneo transmontano Rentes de Carvalho, ainda radicado na Holanda, anunciou há uns meses atrás que iria votar em Geert Wilders, o líder do partido da extrema-direita. Na Holanda parece que não lhe ligaram muito. Já por cá chamaram-lhe de tudo, até senil. De facto, o escritor tem 86 anos, mas dissesse ele que iria votar no BE ou no PC de lá e até lhe teciam loas. E das grossas.

 

Muitos dos nossos escrivas e comentaristas de esplanada descobriram agora que os seus livros não prestam, partindo do princípio de que quem vota em Wilders só pode escrever livros reles ou escabrosos. Já outros afirmaram mesmo que não voltariam a ler um livro de Rentes de Carvalho. Estou em crer que esses tais outros nunca leram nenhum dos interessantes romances do escritor. Eu sim li e vou continuar a ler. E até os recomendo vivamente.

 

Eu não me indigno com essas coisas. A escritora Patrícia Reis, sim. Até se questionou, coitada dela, como é que se pode “amar um escritor que afirma que vota na extrema-direita por ter vizinhos árabes e não se sentir seguro?”

 

Nem eu, nem, estou em crer, Rentes de Carvalho caímos nessa ratoeira do sentimentalismo piegas que enxama as redes sociais, que tenta confundir os livros com a pessoa que os escreveu. 

 

Ele escreve e diz o que pensa de uma forma livre e direta, sem estar a pensar nos likes que vai conseguir nas publicações do Facebook. Além disso é um escritor cheio de humor, inteligência, lucidez e, acima de tudo, é um excelente cultor da língua portuguesa.

 

Eu admiro-o por isso. Por prezar a sua liberdade acima de tudo. Por não se deixar ir no politicamente correto, nas declarações brandas e medíocres dos adeptos da lágrima fácil e dos sentimentos cultivados nos centros comerciais.

 

A sua liberdade é rara e no nosso país é mesmo uma excentricidade, daí a confusão com senilidade. Daí a zanga dos escritores que participam alegremente nas vernissages da esquerda e que esquecem sempre os gulags do seu descontentamento.

 

Os milhões de cadáveres produzidos pela ditadura do proletariado continuam enterrados na vala comum da hipocrisia e debaixo dos muros da vergonha e das cortinas de ferro do leninismo.  

 

Numa sua crónica, publicada no Mazagran, Rentes escreveu, antecipando em muitos anos a resposta aos indignados do costume: “O meu medo é notar que com os anos me vou tornando razoável em excesso, quase doentiamente tolerante. É disso que quero que me guardeis, Senhor. Dai-me raivas. Mantende viva em mim a capacidade de me enfurecer. Deixai que continue a chamar as coisas pelo seu nome, a criticar sem medo, a rir de mim próprio, e livrai-me até ao último momento das aceitações que crescem com a idade”.

 

Abençoado sejas, estimado Rentes.

 

António Lobo Antunes, em entrevista a João Céu e Silva, no ano de 2007, comparou as opções políticas à afetividade das opções clubísticas. Transcrevo: “Há pessoas de direita mais democratas que as de esquerda, há partidos de esquerda mais conservadores, as ideologias foram-se dissolvendo e a maior parte dos partidos são frentes e aqueles que ainda têm ideologia, ela está caduca. O único partido que vejo com corpo ideológico mais ou menos coerente é o Partido Comunista, mas é de um tempo que já não existe. As conquistas de Abril, onde estão?”

 

A liberdade, a independência e a dignidade continuam a ser um arquipélago no meio da imensidão da estupidez humana.

 

No entanto, o grito de revolta de Pissarev continua válido: “Para o homem comum um par de botas conta muito mais do que as obras completas de Shakespeare ou de Puchkine.”

 

Mas eu continuo a conseguir fazer a distinção entre a catedral de Chartres e a Disneylândia e entre o Europeu de Futebol e os Concertos de Brandeburgo de Bach.

 

João Madureira

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Segunda-feira, 11 de Setembro de 2017

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358 - Pérolas e diamantes: O azul, o medo, a engorda e a angústia de dormir para ser brevemente acordado

 

Aprendi com a Moira, uma bela personagem do romance A Sociedade dos Sonhadores Involuntários, de José Eduardo Agualusa, que os antigos gregos, tal como os chineses ou os hebreus, não possuíam uma palavra destinada a nomear o azul. Para todos eles o mar era verde, acastanhado ou cor de vinho. Por vezes negro.

 

Na pintura ocidental o mar apenas começa a ser pintado de azul no século XV. Também o céu não era azul. Os poetas designavam-no como rosado, quando amanhecia; incendiado quando se punha; ou leitoso, nas tristonhas manhãs de inverno.

 

Afinal são os nomes que dão existência às coisas. “No princípio era a palavra…”

 

Ai que sono…

 

Ainda hoje me delicio com o pensamento do primeiro pintor, em plena Idade Média, a escolher o tom de azul para colorir o mar. Momentos antes de existir a cor azul. O que seria de mim sem o azul.

 

Mas não é disto que eu quero falar hoje. Desta vez pretendo dar-vos conta da entrevista que Ricardo Sá Fernandes concedeu ao Expresso, advogado que mesmo não sendo melómano prepara os seus processos a ouvir ópera antes de ir para a barra do tribunal.

 

Dói-me a cabeça. Tenho de dormir…

 

Na Justiça, diz ele, 80% das decisões são com certeza justas e equilibradas. No entanto a margem de erro é muito grande. Ninguém se mete a jogar a roleta russa com a probabilidade de 1/5 em ser liquidado. 

 

Claro que a morosidade é um problema, mas para Sá Fernandes a incerteza da Justiça é que é de temer. Além disso, a Justiça erra vezes demais. Todos podemos, lembra ele, ser enganados por uma testemunha que minta bem. E depois, a preguiça, ajuda muito nas decisões erradas, “porque a decisão formal é sempre a mais fácil”.

 

Além disso, as magistraturas e a advocacia são constituídas por “gente que não gosta de ser escrutinada”. E porquê? Na opinião do advogado, “os portugueses são pouco exigentes com o escrutínio”.

 

Dói-me a cabeça…

 

Além disso, afirma o causídico que já foi secretário de Estado, “o português às vezes é muito corajoso, mas por regra é manhoso”. E depois realça o modelo: “Acho que o exemplo que melhor ilustra o que é ser português é o rei D. João VI, que foi um rei que acabou por ter resultados ótimos. Fugiu para o Brasil, garantiu-nos a independência, andou a enganar os franceses e os ingleses. Foi manhoso. Isto é uma caraterística que reflete uma cultura de medo e de falta de frontalidade.”

 

Ricardo Sá Fernandes disse uma vez que os tribunais são casas de mentira. Desta vez, não só corroborou a ideia, como carregou nas tintas: “Não há sítio onde se minta tanto como nos tribunais.”

 

Quero dormir… já não aguento estar acordado… tanto tempo…

 

Pergunta da jornalista: “Quem mente, as testemunhas, os arguidos, os advogados, os juízes?” Resposta do entrevistado: “Todos. Todos mentem, mas é verdade que a maior responsabilidade é a das testemunhas porque elas é que têm de depor sobre os factos. E nós também somos pouco rigorosos a punir os que mentem nos julgamentos.”

 

Apesar de tudo é um homem de fé. De muita fé, atrevo-me mesmo a dizer. Pois além de cristão, é maçom e socialista.

 

Mas eu tenho tanto sono… Será que tenho de acordar mesmo antes de adormecer?

 

Mas Ricardo Sá Fernandes pontualiza, esclarece e declara: “Sou cristão. Revejo-me na Inquisição? Não. Sou maçom. Revejo-me nestas negociatas que há nas lojas? Não. E nos compadrios também não.”

 

Eu, cá de longe, com vossa licença, atrevo-me a concluir o raciocínio: Também é socialista, mas não se revê no Partido.

 

Tenho de me manter acordado, não vá o Diabo tecê-las…

 

Oiçamos o senhor: “O PS, o PSD e o CDS incentivaram em Portugal uma cultura de favores, de nepotismo. Estou ideologicamente próximo do Partido Socialista, mas tem uma prática politica absolutamente inaceitável, de favores, de complacência, com compadrios e situações pouco claras.”

 

A preocupação está lá: “Sinto-me um cidadão que faz tudo para não agir sob o efeito do medo, mas que também tem medo.”

 

Medo de acordar? Medo de dormir? Medo de dormir acordado? Medo de acordar a meio do sonho?

 

Quando está cansado procura o contacto com a natureza em Trás-os-Montes, onde tem a sua casa-refúgio. Em Oura faz vinho, lê livros, passeia e anda de bicicleta.

 

Jesus, no sermão da Montanha, diz mais ou menos isto: “A razão do homem erra, mas há um que faz todas as coisas bem. Sempre, ao longo da viagem da vida, segue este preceito: «Faz aos outros aquilo que gostarias que te fizessem a ti».”

 

Mas também há um ditado popular que diz: “Tudo o que não mata engorda.”

 

Peço desculpa, mas agora vou dormir. É que estou a morrer de sono, depois de tanto tempo acordado. A dor de cabeça é enorme. Eu quero é dormir. Dormir profundamente. A dor de cabeça é enorme.

 

Aspirinas há muitas, seus amáveis palermas.

 

João Madureira

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Segunda-feira, 28 de Agosto de 2017

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356 - Pérolas e diamantes: Compaixão pelos buracos da estrada

 

Contento-me com a ideia de que os amigos que me restam podem não ser os melhores do mundo, mas sei que são os meus melhores amigos no mundo, apesar de por vezes me mentirem para não me apoquentarem. Eles sabem que por vezes me pareço com Maquiavel, mas que, definitivamente, não sou maquiavélico.

 

Rendi-me ao sistema filosófico mais simples: já não quero mudar o mundo, tento somente mudar a vida, começando por mim próprio. Já não alinho em seitas ideológicas. Deixei de ser sectário.

 

Não há seres humanos eleitos, nem perfeitos.

 

Esses ditos que tais contentam-se com as roupas e os privilégios. Conheço-os pelos indícios. São os que dizem sempre que sim. Afirmam-se sempre dispostos a discutir tudo porque nunca discutem nada. Os que os rodeiam tocam-se de ombro e proclamam: Olha que postura!

 

Depois do teatro da propaganda e do quererem acordar quem nunca adormeceu na formatura, deixam de revelar interesse em fazer as coisas e até de se interessarem se as conseguem fazer bem.

 

Apenas se preocupam em deixar a imagem de que são ágeis, oportunos, que estão sempre prontos e, evidentemente, sem discutir, sem pensar, sem criar problemas.

 

Querem fazer de nós papalvos, para que se diga deles que são bons rapazes, dignos de confiança, e outras balelas que se pronunciam por conveniência. É tudo engano.

 

A fé já não basta para aceitar a humanidade. O mundo já não é eterno e muito menos estratificado, onde os bons estão no céu, os regulares ocupam o purgatório, os maus se estorricam no inferno e os inocentes, como eu e o estimado leitor, ou leitora, pois para o caso tanto monta, vagueiam pelo limbo, apesar de termos feito as nossas concessões, pensando que a alma é como um saco transparente cheio de virtudes e boas intenções.

 

Há os que com apetite comem do bom e do mau porque, dessa forma, assim manjam duas vezes. Pois que lhes faça bom proveito à barriguinha e ao peito.

 

Esses lembram-me pérolas falsas, também chamadas “pérolas de lúcio”.

 

Aprendi no livro Sangue Azul Gelado, de Iúri Buida, que se podem fazer das escamas da espécie mais comum do citado peixe (Alburnus lucidis, que abunda nos lagos e rios locais lá da Rússia). Misturam-se diminutos cristais de guanina com uma solução de gelatina, vidro líquido ou celuloide, depois injeta-se a substância conseguida numas bolinhas de vidro manufaturadas em pequenas fabriquetas e o resultado final são uns colares de pérolas baratos para as mulheres do povo.

 

Deles devemos fugir e sussurrar, antes de adormecer, a oração infantil: “Vem-te deitar perto de mim, anjo meu, e tu, Satanás, afasta-te de mim, das janelas, das portas, do meu leito.”

 

É da natureza humana a inclinação para o mal, porque o mal não requer nenhum esforço. O bem sim.

 

Eles transformam-se em atores. Vivem as vidas das criaturas imaginárias, transformam o seu aspeto, falam com vozes alheias. São mentirosos, bruxos ou magos que violam a lei natural das coisas ou, então, convertem-se noutras pessoas, mesmo que por um curto período de tempo.

 

No seu futuro existe cada vez mais passado. Não possuem nem ideais nem ideias, somente o desejo de alcançarem o poder, para, aí chegados, encherem a pança e tratarem de adormecer.

 

Transportam sempre consigo o cinismo, a hipocrisia e a irresponsabilidade. Evitam qualquer tipo de esforço intelectual ou emocional. E isso agrada às massas. A cultura, dizem eles, não tapa os buracos da estrada.

 

Tomaesta Ivánovitch, antes de falecer, confidenciou que a compaixão pelos pobres, humilhados e ofendidos nunca se deveria transformar em sentimentalismo, porque os humilhados e ofendidos não são nada melhores do que os que humilham e ofendem. E acrescentou: “Mas isso não significa que não mereçam compaixão.”

 

 

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Segunda-feira, 21 de Agosto de 2017

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355 - Pérolas e diamantes: A fé na palavra imortal

 

O objetivo dos artistas romanos era imortalizar a pessoa em estátuas de bronze ou mármore, para dessa forma “não permitir que as feições humanas fossem esquecidas ou que o pó dos séculos prevalecesse sobre o homem”. O grande objetivo da escultura romana era o de celebrar o indivíduo em toda a aceção da palavra: tornar público, honrar e preservar.

 

Já os gregos eram os novos artífices da retórica e da prosa literária. Isócrates definiu um humanismo grego, uma cultura da língua falada e escrita. Escreveu: “As pessoas a quem chamamos gregos são aquelas que partilham, não o nosso sangue, mas a nossa cultura.” Essa cultura foi essencialmente uma realização de Atenas, que ele, tal como Tucídides, viam como “a escola da Grécia”. Foi a palavra grega, projetada na arte nascente da prosa, que constituiu uma nova força para estabelecer a unidade helénica.

 

Os gregos acreditavam que “as palavras verdadeiras, as palavras em conformidade com a lei e a justiça, os reflexos de uma alma boa e digna de confiança”, iriam construir uma comunidade ainda mais vasta.

 

Todos sabemos agora que a cultura ocidental, a educação que civilizou o Ocidente, se fundamentou nessa fé na palavra imortal.

 

E os cultores dessa arte passaram a ser admirados e até mesmo apaparicados por reis e papas.

 

Chaucer, por volta de 1366, chegou a conhecer Boccaccio e, numa viagem a Itália, chegou a adquirir os livros de Petrarca e a Divina Comédia de Dante.

 

Eduardo III manteve-o ao seu serviço durante muito tempo e, pelos serviços prestados, chegou mesmo a conceder-lhe um jarro de vinho por dia até à sua morte.

 

Mas até as melhores histórias terminam de forma trágica.

 

D.Quixote é vencido pelo Cavaleiro da Lua Branca, que o faz cair do cavalo durante a luta, e este pede-lhe: “Leva a tua lança para casa, ó Cavaleiro da Lua Branca, e leva a minha vida, uma vez que já me roubaste a minha honra.”

 

O Cavaleiro vencedor recusa e apenas exige que “o grande D. Quixote” se retire para a sua aldeia durante um ano.

 

D.Quixote, regressando à sanidade, e ao deixar Barcelona, o local da sua contenda, olha para trás e diz: “Aqui era Troia; aqui a minha sorte, e não a minha cobardia, roubou-me a glória que ganhara; aqui a fortuna aplicou sobre mim as suas fantasias e caprichos; aqui as minhas proezas foram obscurecidas; e aqui, finalmente, a minha estrela pôs-se para não mais nascer.”

 

Já o seu anafado escudeiro, ao aproximar-se da aldeia, põe-se de joelhos e diz: “Abre os olhos, amada terra natal, e contempla o teu filho, Sancho Pança, que para ti regressa. Se não volta rico, volta pelo menos bem derrotado. Abre os braços e recebe também o teu outro filho, D. Quixote, que regressa vencido pelo braço de outro, mas vitorioso sobre si próprio, e isto, disseram-me, é a maior vitória que se pode desejar.”

 

Mas D. Quixote, o engenhoso cavaleiro-fidalgo, não consegue sobreviver por muito tempo à vida pastoril. Com a sanidade recuperada, e com a desilusão que daí lhe advém, vem a doença. Por isso avisa os incautos: “Tenho notícias para vós, gentil senhor. Já não sou D. Quixote de La Mancha, mas Alonso Quijano.”

 

Todos sabemos que depois de termos sido heróis já nunca conseguimos regressar à condição de simples mortais.

 

À beira da morte, o cavaleiro da triste figura, o herói que mais prezo e admiro, vira-se para Sancho e diz: “Perdoa-me, amigo, por ter feito com que parecesses tão louco como eu ao levar-te a cair no mesmo erro, o de acreditar que ainda há cavaleiros andantes neste mundo.”

 

Ao que Sancho responde a chorar (e eu também, confesso-o de lágrimas nos olhos): “Ah, senhor, não morra, e em vez disso aceite o meu conselho e continue a viver durante muitos anos, pois a maior loucura de que um homem pode ser culpado nesta vida é a de morrer sem uma boa razão, sem que ninguém o mate, assassinado apenas pelas mãos da melancolia.”

 

João Madureira

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Segunda-feira, 14 de Agosto de 2017

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354 - Pérolas e diamantes: O desvio ligeiro e o enorme erro

 

 

Aprende-se sempre muito lendo bons livros, além do prazer que nos dão.

 

Com Os Criadores – Uma História dos Heróis da Imaginação aprendi, por exemplo, que a moda de os atletas gregos tirarem a roupa talvez tenha sido imposta quando Orsipo de Mégara, nos jogos olímpicos de 720 a. C., perdeu os calções a meio de uma corrida. Mesmo assim, venceu, e os outros, por companheirismo, seguiram o seu exemplo de nudez.

 

Outros recordam que num dos festivais em Atenas os calções de um dos corredores escorregaram, levando-o a tropeçar antes de chegar à meta. Para evitar, no futuro, acidentes semelhantes, os participantes foram obrigados, por decreto, a apresentar-se nus.

 

Aprendi que “ginástica”, palavra grega para atletismo, significa literalmente “exercícios executados quando se está nu”. Até porque, nos eventos mais populares, a luta livre e o pancrácio, seria muito difícil manter um traje decente.

 

Em Olímpia as mulheres não podiam assistir aos jogos dos homens. Pausânias conta que uma mulher que fosse apanhada nos jogos dos homens seria atirada das ravinas do monte Typaeum.

 

No seu discurso fúnebre, Péricles declarou que a maior glória de uma mulher era os homens não falarem dela, nem bem nem mal. Ao que se sabe, as corridas das mulheres eram organizadas apenas para as “virgens” e o casamento (quase sempre aos 18 anos) acabava com a carreira desportiva da mulher.

 

Embora as competições atléticas exibissem claramente modelos masculinos do corpo adulto, não existiam iguais possibilidades de observar o corpo feminino. Praxíteles (nascido cerca de 390 a. C.) foi designado como o “inventor” do nu feminino, devido à sua Afrodite de Cnido, de lendária beleza.

 

Antes do seu tempo, era o ideal masculino quem dava forma às esculturas femininas.

 

Conta-se que Zêuxis (cerca de 400 a. C.), quando decidiu pintar uma Helena para o templo de Hera, pediu ao povo de Cróton que lhe mostrasse as mais belas virgens para lhe servirem de modelo. Em vez disso, conduziram-no a um ginásio, mostraram-lhe os rapazes que ali treinavam e sugeriram-lhe que imaginasse a beleza das suas irmãs.

 

Parece que os escultores e pintores arcaicos não trabalhavam em estúdio com modelos, mas antes observando rapazes praticando exercício físico.

 

Mas Zêuxis, que não conseguia repousar descansado enquanto outros teimavam em acordar o povo que supostamente dormia na cidade, não se deu por vencido e insistiu num modelo feminino adequado. Veio então o conselho público em seu auxílio e deu-lhe razão.

 

O bom Cícero, que não era hipócrita, escreveu mais tarde que “ele não acreditava poder encontrar num só corpo toda a beleza que procurava” e que por isso selecionou cinco virgens.

 

Os sábios Gregos resolveram imaginar um “inventor” da arte da estatutária e resolveram chamar-lhe Dédalo.

 

Ao que se sabe, o lendário artífice (690 a. C.) nasceu em Atenas, mas sentia-se inquieto e incomodado com um sobrinho que não dormia (razão pela qual não podia ser acordado), que inventara a serra e a roda do oleiro e que tecnicamente ameaçava ultrapassá-lo.

 

O invejoso Dédalo atirou-o da Acrópole, provocando-lhe a morte, pelo que foi obrigado a deixar a cidade.

 

Foi este Dédalo, que no tempo do culto das imagens de madeira, designadas por daedala (“maravilhas da arte”), lhes deu forma humana reconhecível. Diodoro Sículo (historiador grego do século I a. C.) conta que “ao ser o primeiro a abrir-lhes os olhos, afastar-lhes as pernas e erguer-lhes os braços, conquistou a justa admiração dos homens, pois antes do seu tempo as estátuas eram feitas com os olhos fechados e os braços caídos e colados ao corpo”.

 

Outros escultores primitivos, discípulos de Dédalo, ficaram conhecidos como os Dédalis, os quais, segundo se diz, foram os primeiros a esculpir o mármore.

 

Os kouroi (jovens), que se tornaram o protótipo do nu masculino clássico, quase não se distinguem, em termos de postura, das obras egípcias.

 

Policleto, homem que não dormia para não ter de ser acordado pelo príncipe encantado, repetia o axioma de que “a perfeição só se consegue através de muitas contas”. Ou seja, mesmo que um escultor se desviasse apenas ligeiramente de cada uma das suas medidas, o somatório poderia resultar num enorme erro.

 

Ou seja, o cânone podia também proteger o escultor do gosto inconstante do público.

 

Para os despertadores de mesa-de-cabeceira, aqui fica uma história ainda contada sete séculos após a morte de Policleto.

 

Policleto construiu duas estátuas ao mesmo tempo. Uma tinha a nítida intenção de agradar ao público e a outra era feita segundo os princípios do tratado. De acordo com a opinião de cada individuo que visitou o estúdio, foi alterando aqui e ali, mudando a forma, submetendo-a ao juízo de cada um dos observadores. Quando finalizadas, expô-las ao público. Uma maravilhou e a outra foi ridicularizada. Seguidamente Policleto disse: “Mas aquela que não é do vosso agrado foi a que vocês fizeram, enquanto a que vos deslumbra é a da minha inteira responsabilidade”.

 

João Madureira

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Segunda-feira, 7 de Agosto de 2017

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Como se escreve um haiku

 

Tenho uma vida tão ocupada, mas gosto tanto de poesia, que a leio em voz alta enfiado no carro enquanto as escovas cilíndricas da lavagem automática fazem o seu serviço. Leio Herberto Helder, Al Berto, António Ramos Rosa, Fernando Echevarría, Fernando Pessoa, etc., tendo como música de fundo os sons mecânicos da estrutura metálica que vai e vem fazendo chuva e depois insiste novamente soprando forte ventania na chapa metálica do meu bólide. Pode não parecer logo à primeira vista, mas um carro a brilhar também tem a sua poesia.

 

Mas não é de lavagens automáticas que vos quero falar hoje. A bem dizer hoje não sei bem do que vos quero falar. E seguramente também não é do meu carro. Podia falar-vos de política, mas não tenho vontade. O que por aí abunda mais são comentaristas políticos, chorões e aldrabões. As televisões estão cheias deles. Há muito quem comente e pouco quem faça. E nas lavagens automáticas também se comenta muita coisa, mas faz-se pouco. São as máquinas quem faz o trabalho árduo. E essas possuem a rara virtude de nada comentarem. Limitam-se a fazer o seu serviço com qualidade. Nas estações de serviço comenta-se o futebol, o preço da gasolina e o tempo. Podemos mesmo dizer que Portugal é um país de comentaristas e pessoas que lavam os seus carros nas lavagens automáticas.

 

As pessoas que vão às estações de serviço gostam muito de comer bolos e beber café. Gostam especialmente de natas, mas também se deleitam com queijadas, croissants, madalenas ou bolas de berlim. As pessoas quando comem, sobretudo bolos, ou bolachas, ou torradas sem manteiga, também têm muita poesia. Especialmente as que comem muito e não engordam. Essas são pessoas afortunadas. Por isso podem ler poesia à vontade pois não lhes provoca efeitos secundários. Não sei se sabem, mas a poesia provoca muitos efeitos secundários. Sobretudo a boa. A outra dá ressaca ou provoca azia.

 

Quando vou a uma lavagem automática, por vezes ponho a música alto para experimentar o som da aparelhagem do meu bólide. E ela tem um som que inebria. Eu comprei o meu bólide, que é um carro sport cheio de genica, por causa, sobretudo, da aparelhagem. Aquela aparelhagem tem muita poesia, é a modos que um poema do Al Berto repleto de vitalidade e sublimação. Depois também gosto de contemplar as gotas de água a deslizar pelo vidro traseiro do meu bólide. Muitas vezes pego na minha Nikon de bolso e fotografo o vidro pejado de linhas sinuosas desenhadas pelas gotas de água sopradas pela maquineta.

 

A minha Nikon de bolso também tem muita poesia. Comparo-a aos poemas haiku. E aqui vos deixo um de minha autoria: No carro sujo / a água / escreve. E é disto que hoje vos vou falar, da poesia haiku e da nobre arte de a escrever.

 

À primeira vista o poema de apenas três versos parece pequeno. E é pequeno. Todos os poemas haiku são pequenos. Têm todos apenas três versos. Mas isso não quer dizer que não dêem muito trabalho a escrever. A poesia é um trabalho árduo. O seu resultado pode parecer singelo, mas não é. Chamo no entanto a vossa atenção para o facto de que o que a seguir se dá conta pode ser o resultado (e foi) de muito mais trabalho do que aquilo que parece. Posso dizer-vos, sem comprometer a minha discrição, que fiz dezasseis cortes, dois acrescentos e cinco revisões.

 

Agora, se estão dispostos à explicação, façam o favor de me seguir. Para escrever o meu haiku comecei por: O meu carro preto e sujo / quando está na lavagem automática a apanhar com a água / fica como se tivesse sido escrito. Convenhamos que assim não fica lá grande coisa. É muito extenso. Há palavras a mais em todos os versos. Então temos de o trabalhar.

 

Desfazemo-nos logo no primeiro verso do pronome possessivo e do primeiro adjectivo, pois os  dados relativos ao proprietário da viatura e à sua cor (não a cor da proprietário, bien sur, mas sim a do bólide) não interessam ao leitor, nem importam à qualidade do poema, nem aproveitam à excelência da linguagem poética, por isso vão fora. O primeiro verso fica então: O carro sujo

 

No segundo verso decido-me por um corte radical (ou melhor será dizer, uma barrela) e fica apenas o nome final que é o elemento fundamental. Então ficamos apenas, e só, com o artigo definido e o nome: a água… Mais um pouco e era harakiri (腹切り) puro, ou Seppuku (切腹). Mas a arte está em saber o que cortar e quando parar.

 

Relativamente ao terceiro verso decido-me mesmo pelo Seppuku (切腹), ou harakiri (腹切り), por isso vai todo à vida e substituo-o pela forma verbal escreve. Sendo assim temos: O carro sujo / a água / escreve.

 

Ficando deste modo, o artigo definido “o” do primeiro verso tem de ser combinado com a preposição “em” para dar lugar ao locativo “no”.

 

Sendo assim, a versão final fica desta forma: No carro sujo / a água / escreve.

 

Podem os amigos leitores comentar que o único adjectivo também podia ir à vida. E até podia, sim senhor. Mas para a água escrever algo que se veja, o carro, na minha perspectiva, tem de estar sujo. E essa foi a razão porque deixei na terceira posição o adjectivo a adjectivar o que tinha de ser devidamente adjectivado.

 

E por hoje é tudo. 

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Segunda-feira, 24 de Julho de 2017

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352 - Pérolas e diamantes: Diversão e cultura

 

Há por aí gente dita importante que possui o complexo de Sansão: fazem desmoronar o templo à sua volta. Sei que são capazes de organizar coisas complicadas. Mas não tenho a certeza de que possam organizar coisas simples. São até capazes de decidirem uma questão antes mesmo de pensarem nela.

 

Qualquer pessoa que queira ter influência sobre o que se passa à sua volta tem de ser, em certa medida, um oportunista. Mas a verdadeira distinção existe entre aqueles que adaptam os objetivos à realidade e aqueles que procuram moldar a realidade à luz dos seus objetivos.

 

O negativismo tem de acabar. É necessário gerar algo de positivo porque se não teremos de ficar por aqui como guardiões do caos. E para sempre. Alguns dos laços ligados às convenções já pouco significado têm. Devemos julgar os homens pelos seus méritos. O poder não pode ser um fim em si mesmo.

 

Até se compreende a ambição e a cobiça, mas os verdadeiros farsantes misturam a irresponsabilidade e o diletantismo. E isso acaba por ser obsceno.

 

Quando alguém emana uma postura serenamente autoritária, devemos sempre reparar para além da capa superficial, pois quase sempre existem pequenas fissuras que nos revelam outra pessoa menos edificante.

 

Os partidos são hoje, mais do que nunca, uma agência distributiva de favores em troca de consenso. Os ideais, pobres coitados, fazem já só parte do mobiliário. Não há pior maldade do que a superficialidade.

 

George Steiner tem razão: vivemos numa cultura de piedade elegante, pois estamos sempre a pedir desculpa e a dizer quão profundamente os acontecimentos nos afetam, sem nada fazermos para alterar o estado atual das coisas.

 

Mas um bom pensamento acaba sempre por encontrar um pensador. A cultura não é só o somatório de distintas atividades, é mesmo um estilo de vida. Os consumidores limitam-se a ser consumidores de aparências.

 

Vivemos num tempo cultural onde a semântica incorporou a incultura disfarçada de cultura popular.

 

Hoje já não há ninguém inculto. Somos todos cultos. Já ninguém sabe verdadeiramente o que é cultura. Tudo o é e já nada o é. Vivemos no meio desse paradoxo.

 

Muita da gente que nos vendem por culta não é séria. Divertem-se a jogar com as ideias e as distintas teorias. São como artistas de circo que jogam com cilindros, lenços e cartas e nos divertem e até nos maravilham quando tiram coelhos da cartola. Só que não convencem.

 

Vargas Llosa tem razão. Na civilização do espetáculo, infelizmente, a influência que a cultura tem sobre a política, em vez de exigir que mantenha certos padrões de excelência e integridade, contribui para a deteriorar moral e civicamente, estimulando o que possa haver nela de pior, por exemplo, a simples farsa.

 

O atual ritmo cultural dominante vai substituindo as ideias e os ideais, os debates intelectuais e os programas culturais pela publicidade e pelas aparências. É o jogo do faz de conta.

 

A raiz do problema está na banalização lúdica da cultura predominante. O valor supremo é agora a diversão. As pessoas abrem um jornal ou ligam a televisão ou até se atrevem a comprar um livro para passar o tempo, no sentido mais corriqueiro do termo. Detestam martirizar o cérebro com preocupações, dúvidas e questões mais difíceis. Pretendem apenas distrair-se. Querem esquecer-se das coisas sérias, profundas, preocupantes. Entregam-se nas mãos dos devaneios leves e agradavelmente superficiais, que a seu ver são saudavelmente estúpidos.

 

Van Nimwegen estudou os efeitos da internet no nosso cérebro e nos nossos hábitos e concluiu que confiar aos computadores a solução de todos os problemas cognitivos reduz “a capacidade dos nossos cérebros para construir estruturas estáveis de conhecimento”. Ou seja: quanto mais inteligente for o nosso computador, mais parvos seremos.

 

Só as boas leituras fazem com que a nossa memória arrecade a memória do tempo. De outra forma é impossível.

 

João Madureira

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Segunda-feira, 17 de Julho de 2017

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351 - Pérolas e diamantes: O carro à frente dos princípios

 

 

Eu sou daqueles que consideram que tem de existir o primado do fator moral sobre o aspeto material.

 

Podem denominar este meu convencimento como romântico e excêntrico, mas eu penso que na política, tal como em qualquer outro domínio da atividade humana, o caráter, os valores e as convicções são pelo menos tão importantes como os outros fatores descritos, em termos gerais, como “económicos”. 

 

Mesmo as melhores leis, e até a legislação mais progressista, não valem sequer a tinta com que são impressas se as qualidades morais dos homens que têm de as aplicar forem duvidosas.

 

A inteligência e a mera perfeição técnica dos métodos de pensar e analisar não são os únicos – nem sequer os mais elevados – valores universais.

 

Brincar com a inteligência, sem convicções profundas, sem crença e sem autodisciplina, pode levar a que a nossa civilização esteja condenada provavelmente ao declínio e até ao desaparecimento.

 

Muitos dos nossos “brilhantes” universitários que enxameiam o espaço político são tolos sofisticados que se limitam a serem ensinados. Revelam-se céticos em relação às opiniões e ingénuos quanto aos factos que se limitam a engolir de forma acrítica, quando devia ser precisamente o contrário. Daí o primado da tecnocracia e do “economês”.

 

Há gente que para dizer alguma coisa espera até poder dizer tudo, acabando por não dizer nada.

 

As pessoas influentes ensinam pelo exemplo e não pelo dogma, porque representam os valores, em vez de os demonstrarem.

 

A distinção entre velhaco e herói continua a fazer-se menos pela sua ação do que pela sua motivação e isso, quer queiramos, quer não, contribui para a erosão das nossas restrições morais.

 

É necessário reforçar o consenso moral, sem o qual a função humana perde todo o sentido.

 

A sinceridade no debate público continua a poder ser medida em “decibéis”. E a verdade está a preço de saldo.

 

Ensaia-se a quadratura do círculo, tentando cada um representar tantos pontos de vista diferentes quanto possível. O que leva ao grau zero da diferença. E sem diferença, não existe verdade e muito menos democracia autêntica.

 

Cada um tenta imitar a aparência rococó, complexa, esculpida a golpes de computador, mas superficial, como pedras semipreciosas elaboradamente cortadas.

 

Os seus discursos são como balões cheios de hélio, feitos para subir e perderem-se no éter, pois colocam sempre pouco em jogo.

 

Aprenderam com a lei de Sayre: "Em qualquer disputa, a intensidade do sentimento é inversamente proporcional ao valor das questões em jogo".

 

A mim parecem-me o teatro kabuki. Ou então atores de teatro amador, nunca conseguindo livrar-se do característico papel de vilão shakespeariano.

 

Falam, e insistem, na necessidade da escolha, mas, para nossa desilusão, não apresentam nada para escolhermos. Nem propostas, nem carisma, e muito menos ideias. Escondem-se atrás do seu putativo charme exposto em cartazes (a)berrantes, que mais não são do que a extensão do seu ego.

 

Quando as minhas informações mudam, altero as minhas conclusões.

 

O segredo da independência está em agir independentemente. Uma pessoa pode nem sequer ter como objetivo o êxito. O melhor é seguir a lei da vida e não partir do princípio de que as coisas se saiam bem.

 

Só quem não faz cálculos é que possui a liberdade que os distingue das pessoas mesquinhas e os torna imunes às vigarices.

 

Não podemos exigir a perfeição antes da ação. Não podemos querer ser todos iguais.

 

As pessoas já conseguem distinguir atividade de ação. E preferem sempre a segunda.

 

A forma do futuro não é automática. O futuro é constituído pela visão, a ousadia e a coragem do presente.

 

O que o compromete é colocar as conveniências acima dos princípios.

 

João Madureira

 

 

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Segunda-feira, 3 de Julho de 2017

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349 - Pérolas e diamantes: Estátuas e enigmas

 

Todos, ou quase todos, nos rimos com a verdade. Apreciamos a filosofia do corrupto Enoch “Nucky” Thompson, tesoureiro da Câmara de Chicago no filme de Martin Scorsese, que perorava: “Nunca deixes que a verdade estrague uma boa história.”

 

Além disso, para o Capuchinho Vermelho, o mundo a sério é aquele onde os lobos falam.

 

E a menina cresceu e o lobo transformou-se em homem-touro que aprecia imenso desabotoar-lhe o vestido e tombá-la a seus pés. Atualmente já não usa roupa interior. O seu corpo é o de uma pintura de Rafael, com os seios densos, cintura fina, ancas largas, ombros ligeiramente descaídos e sexo rapado. Usa também um corte de cabelo que faz lembrar uma princesa cartaginesa.

 

A maioria dos seres humanos não suporta a verdade. Nisso seguem os historiadores, que se refugiam no conforto intelectual de si mesmos, nas suas verdades, nos seus lugares seguros, evitando os temas mais difíceis e desagradáveis, rendendo-se aos velhos ídolos e clichés ideológicos, quando não à chantagem política.

 

O mesmo se aplica aos pretensos fazedores de opinião e distintos líderes políticos em ascensão, que não param de procurar o Feiticeiro de Oz na Cidade Esmeralda com a esperança de lhe pedirem o que mais desejam, para, inevitavelmente, descobrirem que ele não passa de um impostor.

 

Os meios imorais conduzem a fins imorais e geram tipos imorais, seja em que situação for.

 

Agora, os museus estão sempre repletos de grandes obras e também de turistas japoneses. Por isso é preciso ter coragem para suportar o muro amarelo que nos separa dos quadros mais famosos. E o que mais me intriga é o facto de eles os fotografarem sem sequer os olhar.

 

Depois do Axel e da Marina terem visitado Veneza, pois eles gostam de viver os seus destinos, também eu e a Luzia temos programada uma visita a essa cidade italiana. Esqueçam a Praça de S. Marcos. Iremos direitinhos ao Campo Santo Stefano, depois de cruzar o Grande Canal, para ver a estátua de Niccolo Tommaseo, um escritor e político, logo desinteressante, que os venezianos alcunham de Cagalibri: o caga-livros, por causa da estátua, que dá mesmo a sensação de cagança livreira. Para ironia, ironia e meia.

 

Lembra-me a frase de Leibniz: “A educação pode tudo: ela faz dançar os ursos.” E até levar pessoas a Veneza para ver a estátua de Niccolo Tommaseo.

 

Mas a vida de um intelectual não é fácil. Posso mesmo dizer que é desanimadora. Andam sempre à procura de unicórnios e só encontram rinocerontes. Mas, mesmo assim, os mais estoicos, que são geralmente os mais parvos, não desistem.

 

Alguns são tão desinteressantes que provocam sonolência a si próprios. Outros vestem-se sempre a rigor para ir passar recados à oposição. Antigamente iam para castrati

 

O povo não sabe se os deve amar ou querer-lhes mal.

 

São elegantes e frios. Adoram a tradição. São mais generosos com o lume do que com o alimento.

 

Os capitães de Abril já cá não estão, mas o poder anda disseminado por toda a parte. A arte está em apanhar os bocados e reconstituir o puzzle.

 

Entra neles uma tal vontade de agradar que aprenderam a contrair os músculos da cara num sorriso.

 

O problema dos homens não reside tanto em serem maus ou bons, mas antes em serem fracos.

 

João Madureira

 

 

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Segunda-feira, 26 de Junho de 2017

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348 - Pérolas e diamantes: O efeito boomerang

 

Há pessoas que convertem em literatura tudo o que tocam. A realidade e a ficção, para eles, não têm fronteira. Conseguem montar espetáculo em qualquer lugar onde estejam, preservando uma assombrosa expressividade coloquial.

 

É tudo gente do melhor. Há uma expressão vulgar que diz que o talento de uma pessoa se mede pelo número de medíocres que o rodeiam e que o tentam lixar. Aos meus inimigos, desejo-lhes saúde. E eles quem são? Pois…

 

Isto é uma coisa do senso comum, da sageza das relações.

 

Tenho mais medo dos meus amigos. Porque dos inimigos, daqueles que conheço, defendo-me bem. Tenho já longa prática.

 

Eu até gosto dos meus inimigos. Já os elogios, suspeito mais deles do que da censura, mesmo impertinente, injustificada, invejosa.

 

Atenção, eu não quero ser original, nem engraçadinho. Para esse peditório já dei. E muito. Agora uso a minha liberdade para urinar junto aos muros, quando não há casa de banho por perto. É da idade. Da idade e da resiliência.

 

Dizem que o país mudou. Mas é engano. O que mudou foi a estupidez. Por vezes parece que há golpes de mágica e tudo muda, mas essa perspetiva não é realista. As aparências enganam.

 

Tudo tem significado. Tudo.

 

Deixem que vos conte uma anedota. Um homem regressa a casa, noite cerrada, completamente bêbado, e pelo caminho encontra uma freira com o hábito e o chapéu. Com as forças que lhe restam, atira-se a ela e dá-lhe uma sova das valentes. Depois da sova, levanta-a do chão e diz-lhe: “Mas, Batman, julgava-te mais forte!”

 

A grande lição de Semiologia (ciência geral dos signos que estuda os fenómenos de significação) de Roland Barthes consiste no apontar do dedo a qualquer acontecimento do universo e advertir que ele significa alguma coisa. Ele repetia sempre que o semiólogo, quando passeia pelas ruas, procura significação onde os outros apenas veem acontecimentos. Ensinou-nos que se diz sempre alguma coisa com a maneira de vestir, de pegar num copo, na maneira de andar, sorrir e com as insinuações disfarçadas de brincadeiras…

 

Por isso me dedico à literatura, porque não se é obrigado a fixar um sentido, mas joga-se com esse sentido.

 

Fascina-me o Japão porque é um mundo em que não conheço nenhum código. Santo Agostinho dizia que o texto da Bíblia era uma floresta infinita, por isso podia-se sempre submetê-lo a uma regra de falsificação.

 

As Mitologias de Barthes são brilhantes análises semiológicas, porque a vida está sujeita a um bombardeamento contínuo de mensagens que nem sempre manifestam uma intencionalidade direta, mas que tendem, a maior parte das vezes, por causa da sua finalidade ideológica, em apresentar-se sob uma aparente “naturalidade” do real.

 

Gramsci tem uma frase premonitória: “A crise consiste precisamente no facto de que o antigo morre e o novo não pode nascer.”

 

Laurent Binet (A Sétima Função da Linguagem), através da sua personagem Bifo, refere que “se a classe dominante perdeu o consentimento, ou seja, se ela já não é dirigente, mas unicamente dominante e unicamente detentora de uma força de coerção, isso significa que as grandes massas se desligaram das ideologias tradicionais, que elas já não acreditam naquilo em que acreditavam antes…”

 

Todos sabemos que o conhecimento de um mecanismo de manipulação não nos defende forçosamente dele. Basta atentar na publicidade, na comunicação. A maior parte das pessoas sabe como funcionam, que recursos utilizam, mas, mesmo assim, é influenciada por elas.

 

Aviso à navegação. Eu não abandono os conceitos e os princípios como se abandona um cão.

 

As pessoas querem arrebanhar tudo, tragar tudo, manipular tudo. Ver, decifrar, aprender, não os influencia. Vivem debaixo do anonimato. Atiram a pedra e escondem a mão.

Podem manipular a maledicência, propagar a intriga e estender a mentira, mas de uma coisa não são capazes: alterar as leis da física.

 

Lembro: Olhem que o efeito boomerang existe.

 

 

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Segunda-feira, 19 de Junho de 2017

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360 - Pérolas e diamantes: A escrita e o anzol

 

Gonzalo Torrente Ballester escreveu, tentando responder a uma pergunta incómoda, que a génese da obra de arte aproxima-se mais do exemplo do trabalho e da persistência do que na biologia do nascimento humano. A liberdade, o acaso e a vontade conscientes são os fatores reais e decisivos. “Não creio que exista nenhuma obra de arte que não pudesse ter sido de outra maneira e obviamente melhor do que é.”

 

Afinal porque se escreve? Depois de vários projetos mais ou menos falhados, ou de alguns com sucesso, a resposta até poderá ser: para nada.

 

Para vos animar, quero desde já dizer que este “nada” não é uma resposta radical e negativa. Esses tempos já lá vão.

 

À boa maneira de uma ave canora, podia dizer que o intelectual vive enquanto pensa e escreve. Sim, é esse o seu modo de ser e de estar no mundo. “E só nisto já encontra justificação”, como afirmou o escritor galego.

 

Afinal estamos neste mundo “sem termos sido ouvidos nem achados, e, sobretudo, sem que o tenhamos pedido; mas o pior é que os outros também o esquecem e se põem a fazer exigências e a pedir justificações, até do mero existir”.

 

A justificação impõe-se por si própria. E o fado que cada um carrega para percorrer o seu caminho de pensar e escrever apenas a ele diz respeito. Os fins sublimes são mera ficção, parvoíces, tontarias. “Escrevemos porque sim, ou porque gostamos, ou porque não sabemos fazer outra coisa.”

 

Muitos procuram uma finalidade no ato da escrita. Uns proclamam razões e inconveniências. Outros choram baba e ranho em cima daquilo que escrevem. Outros, ainda, arremessam a pedra e escondem a mão. Há feitios para tudo. Muitas vezes escrever resulta num ato gratuito e num esforço inglório. É meio falhanço. E depois?

 

Como justificação relato-vos a história que contaram a Torrente Ballester de um rouxinol que um belo dia descobriu que ninguém lhe ouvia o doce canto e que, desiludido, decidiu ser carpinteiro, como o seu vizinho de árvore. Nesse ofício, obviamente, nem sequer atingiu a mediania.

 

Não é necessário perguntarmo-nos por que escrevemos, pois essa questão encaminha-nos invariavelmente para a falácia das grandes transcendências. Cada um deve fazer aquilo que tem de fazer e não lhe dar muita importância. Devemos revelar mesmo uma certa indiferença perante o ato verificável de que a voz do rouxinol não tem o público que merece. E quando chegar a hora de nos calarmos e emudecermos, aceitá-la de bom grado e em paz. Devemos fazer como aquele toureiro que após cada lide, fosse ela boa, mediana ou má, dizia invariavelmente: “Aí têm.”

 

Além disso, cada leitor de um romance lê, apesar do mesmo texto, um romance diferente, dependendo sempre da sua maneira de ver o mundo, da sua experiência de vida e não da palavra textual.

 

Gonzalo Torrente Ballester avisou-nos: “A palavra dispara setas, e muitas delas perdem-se longe do alvo.”

 

A fórmula é geral. Mesmo o Dom Quixote, que é o primeiro romance ocidental, é a história de um jogo que se escreve jogando.

 

O romancista define-se não por aquilo que é, mas sim por aquilo que escreve.

 

Devemos sempre desconfiar tanto dos mitificadores como dos desmitificadores.

 

O necessário é cada um percorrer o seu caminho pois ele leva-nos, pelo menos, ao seu próprio fim.

 

Eu ainda sou dos que acreditam que, por muito errado que um caminho possa ter sido, alguma coisa acabamos sempre por descobrir. Ninguém o percorre em vão.

 

Afinal são os poetas que tradicionalmente se dirigiam ao povo, com as histórias clássicas consideradas épicas como são o caso da Ilíada, da Canção de Rolando, Mio Cid ou mesmo Os Lusíadas, com palavras ao serviço da sua glorificação, que nos tentaram “fazer engolir sem protesto o anzol do poder”. 

 

Roland Barthes dizia que a escrita “é o lugar do político no sentido lato, ou seja, a escrita é aquilo mediante a qual ele se exprime, mesmo se o escritor não é disso consciente, o que ele é socialmente, a sua cultura, origem, a sua classe social, a sociedade que o rodeia”.

 

Antes de terminar, quero citar Laurent Binet, autor do romance A Sétima Função da Linguagem, que sabe da dificuldade de aproximar o leitor dessa função: “Quando escrevo uma cena ou uma frase, gosto que não haja apenas uma função, só psicológica ou só poética. Essa cena também serve para dar um passo em frente e jogar com os símbolos.”

 

Claro que a linguagem é um código. Mas nunca se esqueçam que toda a descodificação é uma nova codificação.

 

No campo da ficção, Roland Barthes defendeu que a linguagem é a arma mais poderosa do mundo e há quem mate para dominar o seu segredo.

 

A vida não é um romance. Os romances é que podem fazer parte da vida. Da minha fazem, com toda a certeza. E da vossa também, por muito que nos custe a todos acreditar. 

 

PS – Texto lido na apresentação do romance “O Homem Sem Memória”, de João Madureira, no dia 16/6/2017, em Chaves.

 

 

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Segunda-feira, 5 de Junho de 2017

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345 - Pérolas e diamantes: Hot Dogs

 

Depois da Guerra Fria, os seus silenciosos heróis passaram à clandestinidade na mesma sociedade que protegeram. Talvez se sintam agora dissidentes. Quase como estrangeiros no seu próprio país.

 

Antigamente nem sequer eram recebidos nas divisões das traseiras. Agora acomodaram-se às pessoas e às situações.

 

Talvez ensinem em universidades onde lhes é dedicada alguma atenção, que será seguida de alguma confiança e é até provável que gozem de algum apoio.

 

Dizem o que as outras pessoas disseram antes delas: Quem pode, faz; quem não sabe, ensina.

 

Perderam a sua utilidade, a sua unidade e o seu objetivo, porque viram demasiado, omitiram demasiado e conciliaram demasiado.

 

Mas será que alguma vez o desespero e a pobreza humana constituíram séria preocupação para alguma nação rica? Estou em crer que não. Mas eu sou um incréu, não posso servir de exemplo.

 

Habituei-me a misturar o tremendamente sério com o tremendamente frívolo, tentando fazer com que a diferença entre um e outro seja pequena. Faz parte do manual de sobrevivência em sociedade.

 

Aprendi a libertar-me do medo porque sei que as pessoas medrosas nunca aprendem.

 

A maioria das vezes não se ganha. O outro lado é que simplesmente perde. Os conflitos ideológicos, em vez de nos libertarem, reprimiram-nos. A guerra, que diziam fria, terminou. Pelo menos é isso que dizem. O que importa é a esperança.

 

De uma coisa me arrependo, do tempo e das capacidades que desperdiçámos, para nada.

 

Fingíamos que as coisas não existiam, ou então fingíamos que não eram importantes. Era esse o manual de sobrevivência de um revolucionário.

 

Nunca é com a mentira que vamos derrotar os mentirosos.

 

Sei agora que do lado de lá, onde estavam os putativos amigos, mentiam para esconder o seu mau sistema. Do lado de cá também nos mentiam para esconder as supostas verdades.

 

Falavam do respeito pelo individuo, do amor à diversidade e à discussão, na crença de que só se pode governar justamente com o consentimento dos governados. E enalteciam a nossa capacidade de ver o ponto de vista dos outros – sobretudo nos países que explorámos, quase até ao aniquilamento, para os nossos próprios objetivos.

 

Em defesa de uma suposta retidão ideológica, enchemo-nos de uma compaixão deífica, a raiar a indiferença.

 

Apesar das ladainhas ocidentais, é ainda onde nos encontramos. Na indiferença estratégica.

 

Aparentando o contrário, a nossa sociedade continua a proteger os fortes contra os fracos. Apenas aperfeiçoámos a arte da mentira pública.

 

Horace Walpole escreveu que “este mundo é uma comédia para os que pensam e uma tragédia para os que sentem”.

 

Por isso é que, salvo raros momentos, o nosso presente é uma comédia e o nosso passado foi uma tragédia.

 

Por incrível que possa parecer, dizer não é sempre mais fácil do que dizer sim. Deixar de sentir não é deixar de existir. Além disso, a filosofia tem de servir para alguma coisa.

 

Também eu teimei durante algum tempo em ser, ou parecer, conservador. Mas que diabo é que existe por aí de bom que se possa conservar?

 

Eu sei que a vida ou é uma busca ou não é nada. Mas, convenhamos, não é com o aproximar da idade da reforma que uma pessoa se deve disponibilizar a vaguear perdido e a dar voltas à cabeça sobre a maneira de reinventar a humanidade.

 

Agora compreendo, depois de muito estudar a multiculturalidade e os seus apóstolos,  

a razão porque tanto os cambojanos como os tailandeses apostam grossa maquia no número de vezes que uma rã vai arrotar.

 

É com a chegada do verão que se escuta o frenético tagarelar dos insetos.

 

João Madureira

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Segunda-feira, 29 de Maio de 2017

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344 - Pérolas e diamantes: Convém usar… mas não abusar

 

 

Todos aqueles que atualmente trabalham arduamente sentem que estão a ser usados, que os seus impostos estão a ser gastos ou para resgatar bancos e banqueiros ou então para subsidiar pessoas que se recusam a trabalhar.

 

Os Governos mais não fazem do que ajudar substancialmente os que provocaram a crise, em vez de se preocuparem em ajudar os que mais sofrem.

 

Mas também convém dizer que sem os Estados, os bancos teriam cometido abusos ainda maiores.

 

Em tempos de crise, a solução verdadeira para combater a desigualdade reside em dirigir o foco sobre a comunidade em vez de se apostar na defesa do interesse pessoal.

 

A ideologia fundamentalista dos mercados apenas serve os interesses dos poderosos, sobretudo à custa do resto da sociedade.

 

Muitos dos que não conseguem trabalho, sobretudo entre os mais jovens, emigram; as famílias separam-se e o nosso país vê-se esventrado dos seus cidadãos mais talentosos.

 

Todos nos apercebemos que é falso o sentido de considerarmos como garantidos os êxitos do passado na criação de uma sociedade e uma economia mais iguais e mais justas. Temos de nos preocupar novamente com a crescente desigualdade e com as suas consequências sociais, políticas e ideológicas.

 

Cortar nos investimentos no bem-comum ou enfraquecer os sistemas de proteção social põe em risco os valores básicos da nossa sociedade. A questão, embora não parecendo, é mais política do que económica.

 

Mas também é necessário reconhecer que o crescimento da desigualdade tem algo a ver com a globalização e a substituição de trabalhos semiqualificados por novas tecnologias e pelo trabalho terceirizado.

 

O problema não é que a globalização seja boa ou má. O que é má é a maneira como os governos a gerem, somente em benefício de interesses especiais.

 

Joseph Stiglitz, Prémio Nobel da Economia, tem razão: “A interconetividade entre os povos, os países e as economias de todo o mundo é um desenvolvimento que pode ser usado com a mesma eficácia, tanto para promover a prosperidade como para espalhar a ganância e a miséria.”

 

Os mercados apenas se têm concentrado na “riqueza” dos ricos, passando os custos ambientais à sociedade e abusando dos trabalhadores.

 

Joseph Stiglitz defende que é imprescindível reduzir a desigualdade, pois só dessa forma conseguiremos salvar a nossa economia, a nossa democracia e a nossa sociedade.

 

Um pouco por todo o mundo, os governos mostram não serem capazes de resolver os problemas económicos fulcrais, incluindo o desemprego, deixando cair os valores universais de justiça, sacrificados pela ganância de alguns, apesar da retórica em contrário.

 

Uma coisa sabemos: a desigualdade crescente não é algo de inevitável. Joseph Stiglitz, defende que são os interesses financeiros quem, no processo de criação de riqueza, sufocam o verdadeiro e dinâmico capitalismo. É a ideologia neoliberal quem tornou a sociedade intoleravelmente injusta. 

 

Os jovens manifestantes que agora se juntam aos pais, aos avós e aos professores, não são nem revolucionários, nem anarquistas. Não querem derrubar o sistema. Acreditam ainda na democracia e no processo eleitoral, acreditam que é possível pôr a funcionar os governos, lembrando-lhes apenas que têm de prestar contas ao povo. Estão indignados com a taxa de desemprego entre os 30% e os 40%.

 

Três temas ressoam em força por esse mundo fora: os mercados não funcionam como devem, porque bem vistas as coisas, não são nem eficientes, nem estáveis; e o sistema político e o sistema económico são fundamentalmente injustos. 

 

E os três estão intimamente relacionados entre si. A desigualdade é causa e consequência do falhanço do sistema político e contribui para a instabilidade do nosso sistema económico, que, por sua vez, contribui para uma maior desigualdade, originando uma espiral recessiva onde mergulhámos e da qual só poderemos emergir através de políticas devidamente concertadas.

 

João Madureira

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Segunda-feira, 22 de Maio de 2017

Quem conta um ponto....

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343 - Pérolas e diamantes: Tudo é relativo

 

Esta situação aflitiva e inverosímil ligada aos casos mediáticos de corrupção passiva para a prática de atos contrários aos deveres do cargo, fraude fiscal qualificada, branqueamento de capitais, falsificação, recebimento indevido de vantagem e tráfico de influências imputada a políticos, banqueiros e fauna similar, faz-me lembrar o velho provérbio brasileiro de “quem rouba pouco é ladrão e quem rouba muito é barão”.

 

Mas hoje não quero ir por aí. Prefiro viajar até ao Brasil e lembrar que D. Pedro foi acolhido no Rio de Janeiro, por volta do ano 1821, no tempo da “Independência ou morte” de forma esfuziante. O então Perpétuo defensor do Brasil apercebeu-se de que eram justos os clamores do povo fiel que “preferia um inimigo declarado a um amigo traidor”.

 

Prefiro cair no meio da revolução republicana e, através da leitura de Machado de Assis (Esaú e Jacó), assistir de palanque à condição humana no meio do rebuliço.

 

Aí se narra o hilariante caso do senhor Custódio, proprietário de uma pastelaria, que mal tinha acabado de encomendar uma nova tabuleta para a sua tradicional “Confeitaria do Império”, é informado que no Brasil tinha triunfado a República.

 

Mandou recado ao mestre pintor para interromper o trabalho, que na altura em que o tinha visto pela última vez, exibia a palavra “Confeitaria” e a letra “d”. Pensava que a letra “o” e a palavra “Império” estivessem ainda apenas delineadas a giz. No entanto, para desespero do senhor Custódio, o trabalho já estava terminado.

 

Por que necessitava de uma nova placa, Custódio procurou a ajuda do Conselheiro Aires. Sugeriu que o nome passasse para “Confeitaria da República”. Mas ficaram com medo de que em poucos meses pudesse existir nova revolta e mais uma vez o nome do local tivesse de ser alterado.

 

O sábio Conselheiro sugeriu então o nome “Confeitaria do Governo”, que calhava bem com qualquer regime. No entanto concluíram que qualquer governo tem oposição e que se ela fosse das boas poderia despedaçar a tabuleta.

 

Aires arriscou sugerir que Custódio deixasse o título original: “Confeitaria do Império”, acrescentando apenas “fundada em 1860”, a fim de acabar com as dúvidas.

 

Mas “parecia que o confeiteiro, marcando a data da fundação, fazia timbre em ser antigo”, o que naquela época de modernidade não soava lá muito bem.

 

Decidiu-se então pelo próprio nome do dono: “Confeitaria Custódio”. Terminava assim a complexa conversação. «Gastava alguma cousa com a troca de uma palavra por outra, “Custódio” em vez de “Império”, mas as revoluções trazem sempre despesas.»

 

Problema bicudo surgiu com a escolha de um novo Hino Nacional. O vencedor do concurso foi o Hino da Proclamação da República. Apesar das modernices, o velho marechal Deodoro disse “preferir o velho”, embora existissem suspeitas de que o autor fosse D. Pedro I. Mesmo a Bandeira Nacional, a despeito das interpretações surgidas posteriormente de que o verde era uma referência às matas do país e o amarelo uma alusão às riquezas minerais, seguia ostentando os seus vínculos com a tradição imperial: o verde, cor heráldica da Casa Real Portuguesa de Bragança; e o amarelo, cor da Casa Imperial Austríaca de Habsburgo.

 

Mas as mudanças eram claras: o indígena, símbolo dileto do Império, foi substituído pela figuração republicana de uma mulher heroica. Deste modo, nada ficava como dantes.

 

Coisa de somenos foi o debate em torno do direito de voto. O que era bom tinha de se manter. Como nos bons velhos tempos do “Império”. Só seriam considerados eleitores os brasileiros adultos, do sexo masculino (apesar da heroica figura republicana), que soubessem ler e escrever. Além do voto das mulheres, estava proibido o voto dos mendigos, dos soldados, praças e sargentos, e dos integrantes de ordens religiosas que impunham renúncia à liberdade individual.

 

Nesse republicano e democrático sistema eleitoral três tipos de procedimentos ficaram famosos. A eleição de “bico de pena”, que significava o não reconhecimento do eleito pela Comissão de Verificação da Câmara dos Deputados – procedimento que eliminava os adversários, anulando a sua eleição. O “voto de cabresto”, que era um ato de lealdade do votante ao chefe local. E por fim, o “curral eleitoral”, que aludia ao barracão onde os votantes eram mantidos sob vigilância e ganhavam uma boa refeição, só saindo dali na hora de depositar o voto – que recebiam num envelope fechado – diretamente na urna.

 

Depois veio a ditadura. O general Geisel foi das mais proeminentes figuras da repressão.

 

Em 1977, posto perante as perguntas dos jornalistas sobre os instrumentos de controlo que criou, caraterísticos de um sistema político autoritário, afirmou: “Todas as coisas no mundo, exceto Deus, são relativas”. E rematou: “O Brasil vive um regime democrático dentro de sua relatividade.”

 

João Madureira

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publicado por Fer.Ribeiro às 03:21
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