Terça-feira, 14 de Novembro de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. O ÁLVARES.

 

Quando o Álvares foi, pela primeira vez, à Quinta Grão Pará, a menina Aurora escolheu o trajo mais feio que, dentre os seus, assim lhe parecia. Pediu a Zefa de Pitões que lhe (des)ornasse os cabelos com horrendos carrapitos e, a si mesma, maquilhou com tanta brancura, quase a gastar por inteiro o pó d’arroz “Rainha da Hungria”. Estava mesmo a se parecer com uma régia dama; não, porém, a nobre magiar da caixinha de talco, mas sim a falecida Inês de Castro, aquela que em morta foi Rainha.

 

Tais cuidados (ou descuidos) não fizeram com que o Álvares caísse em desistência. A beleza de Aurora era um luzir de pirilampos que, sempre, a escuros e obscuros momentos, haveria de brilhar. Entre goles de chá da Índia e as bolachas com o néctar secreto da Mamã, o viúvo de poses comportadas, mas com olhos lascivos, não tirava suas pupilas da menina pretendida. Naquele comenos, já a considerava sua, no papel e com água benta, destinada a cuidar de si e de seus haveres, inclusive os da carne, para o quê, nas melhor das intenções (das quais o Inferno está sempre cheio), Papá colaborava – Como sabes, Aurita, pois sobre isso já falamos, gostava que dissesses, ao senhor Álvares, se queres que ele assuma contigo os sagrados compromissos do matrimónio.

 

Por alguns segundos, Aurora fez suas meninas vestidas de azul olharem para baixo e fecharem as cortinas de suas janelas. Papá, Mamã e o pretendente puseram-se em penosa expetativa. Finalmente, as meninas desceram até aos lábios e os entreabriram como cortinas, levemente – O senhor Álvares é um homem muito bom, até me agradava sua afeição como marido. Mas espero que não me queira mal, nem ele tenha isso, assim, por uma... uma desagradável desfeita. Ainda não me quero casar – o que fez João Reis fechar a cara, a estremunhar seu visível aborrecimento. Florinda falou à filha, baixinho – Que estás a querer, minha miúda? – e, à moda brasileira – Ficares no caritó?

 

Após um embaraçoso silêncio, Álvares lhe veio em socorro – Ora deixe estar, a menina deve saber o que diz. Além do mais, hoje em dia, não é bom casar uma filha, se dela não forem suas vontades, não é mesmo? Isso era coisa d’antanho. – Pegou seu chapéu, o sobretudo e o guarda-chuva, agradeceu pelo chá, as bolachas e as broas, renovou o boa-tarde a todos e lá se foi, pela Estrada do Raio X, murcho como aquelas ginjas curtidas em aguardente, de uma famosa portinha ao Rossio, em Lisboa.

 

Alguns anos depois, casou-se com uma galega de boas banhas no corpo, boas carnes na cama e bons temperos na cozinha. Isso tudo o fez se esfalfar demais e se estofar nos excessos, tanto os amorosos quanto os culinários, o que, possivelmente, foi a causa de vir a falecer de apoplexia fulminante, tal-qualmente (assim comentava-se) ocorrera com o marido de Adelaide. A morte do Álvares, inclusive, foi em situação (e posição) inusitada, pois o médico, chamado às pressas, encontrou-o no leito conjugal em tal descompostura, que isso tornou-se motivo de comentários jocosos às rodas masculinas e, em alguns ambientes restritos, às femininas.

 

 

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Terça-feira, 7 de Novembro de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. CINEMATÓGRAPHO.

 

A Florinda, dentre os “films” que mais lhe encantaram, foram as cenas dramáticas de “O Contrabandista do Álcool” ou “Alma Mater”, as peripécias cómicas da “Noite de Núpcias de um médico” ou as “Aventuras do professor” e mais os flashes da vida real, como os animais no Jardim Zoológico. Já no início da sessão, um comboio, que parecia vir na direção dos espetadores, fizera a todos abismar. Alguns até recuaram de medo, sobretudo os miúdos, a causar frouxos de riso na plateia.

 

Como iria fazer, posteriormente, de acordo com o já narrado, em relação aos frequentadores habituais de teatro, João Reis, àquela altura, ficou a reclamar daquilo que, ao seu modo de ver, fazia necessária alguma repressão. Tratava-se de certa parcela do público, cujo comportamento deixava muito a desejar. Outro cronista já estivera mesmo a comentar, em um dos jornais flavienses: “Um forasteiro que vá ao Cinematógrapho, poderá julgar que está ao sertão d’ África e não numa terra civilizada. A troco dos poucos vinténs com que pagam os bilhetes, os espectadores julgam-se no direito de praticar toda espécie de desmandos, desde a piada grosseira e soez, até ao batuque dos pés, a revelar uma tendência asinina muito a lamentar. Se o piano deixa de soar, um segundo que seja, logo uma gritaria se levanta - ‘Sanfonia! Sanfonia!’- Cafreal de estupidez e ignorância! Se às vezes a fita escurece um pouco, porque na cena se apagou uma luz, ou porque um comboio vai passando n´um túnel, surgem logo os protestos – “Mais claro! Mais claro!” – incompreensão de verdadeiros selvagens. As mais pueris cenas de amor são sempre sublinhadas com dichotes de uma crueza que revolta. A Polícia e as autoridades estão lá, mas assistem impassíveis a esse espectáculo vergonhoso. Bastaria que dois ou três daqueles selvagens terminassem a noitada no metro quadrado da esquadra policial”.

 

A última sugestão estava bem ao gosto de Papá que, já nos alvores do século XX, fazia questão de lembrar também que, embora fosse considerado chique em sociedade o ato de fumar – Ora pois, pois, pelo bom Deus! Há que dizer aos parvos que não é elegante e, sem dúvida, muito desagradável fumar em sala fechada!

 

À saída, a mencionar a divisão dos filmes de acordo com os rolos guardados em latas apropriadas, um reclamo anunciava o programa da semana seguinte: “1º. “O vinho” (natural); 2º.“Astúcias de montanhês”; 3º, 4º. e 5º; “Vinganças da Bailadeira”; 6º; “Cruel dilema” (drama); e, 7º. “A máquina”, (cómica). Em breve novas e magníficas películas, ainda não vistas pela plateia de Chaves, inclusive a projecção de um film que é a maior sensação da actualidade”. (Tal filme era “ O Nascimento de uma Nação”, de D. W. Griffith).

 

Após a sessão do Cinematógrapho, foram todos saborear alguns gelados na Confeitaria Trajano, que ficava na Rua Direita, próximo ao Arrabalde. Eis então que lá na Trajano, sentados à mesa com os miúdos, Papá segurou as mãos da esposa entre as suas e disse – Ah, minha menina, minha linda Menina Flor! Sei que tens muitas saudades da tua terra, mas verás que tu e eu, cá na minha, ainda seremos muito felizes!

 

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 Largo do Arrabalde. Chaves antiga(PT). Postal Foto Alves

 

 

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Terça-feira, 31 de Outubro de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. CASÓRIO.

 

Não foi lá muito fácil cair nas boas graças do velho Joaquim Lourenço. A questão maior é que, tão logo os coscuvilheiros da cidade não aguentaram mais os seus comichões linguais, foram logo dar ciência ao Lourenção de que o senhor Bernardes já semeara um fruto em terras brasileiras. A criança, que se chamava Zerlindo, fora gerada com uma mulata graciosa, moça prendada e instruída, filha de uma senhora que prestava serviços ao flaviense como arrumadeira. João não o quisera reconhecer de papel firmado, mas contribuía com algumas pecúnias para uma boa instrução e educação do petiz.

 

Aos olhos da inseparável bengala do aveirense, em plena concordância com seu dono, não agradava nem um pouco aquele namoro, que só poderia ir de mal a pior, por causa da vida pregressa do jovem comerciante de Chaves. Nas reflexões do futuro sogro, a vida de mocetão que o flaviense ainda levava também lhe parecia um tanto quanto desregrada, ainda que tudo aquilo não passasse de meras patuscadas entre os rapazes da época, com as chamadas mulheres da vida.

 

Foi preciso que João Reis lhe jurasse, com as mãos na bengala e diante da bela imitação da Santa Ceia de Da Vinci, em destaque na sala de jantar dos Morais Dias – Ao me casar com a menina Flor, deixarei de pronto qualquer atitude que me possa tornar ou parecer um libertino! – e foram também necessárias muitas idas e vindas do Eulálio, nas funções de casamenteiro, em visitas anunciadas com cerimónia à casa do Lourenção, até que este, afinal, mandasse abrir para os noivos as portas de madeira ricamente trabalhadas da Igreja de Santo Alexandre.

 

A um belo entardecer em Belém, com brisas que vinham da baía e ajoelhados diante de outra obra-prima, o altar-mor do referido templo, Florinda e João uniram para sempre suas mãos, seus corpos, suas almas.

 

Seus anseios.

 

  1. FEIRA DOS SANTOS.

 

Era em todo esse amor romântico de Flor e João Reis, que Aurora, agora, punha-se a pensar, enquanto o pai falava sobre o Álvares e a necessidade viril de este senhor ter uma companheira oficial, para lhe preencher as carências da viuvez. Reportando-se à migração do casal para Trás-os-Montes, ao tempo em que ela, Afonso e Aldenora ainda eram pirralhos, Aurita lembrou certas palavras que o Papá dissera a Mamã e esta sempre costumava contar às filhas. Foi certa vez quando, um pouco depois de chegarem a Chaves, Papá levou sua Flor com os outros brasileirinhos até à Feira dos Santos, junto ao Forte de São Neutel, onde iriam conhecer uma grande novidade: o Cinematógrapho.

 

Na Feira dos Santos, o carrossel de cavalinhos era a alegria dos miúdos, juntamente com os ursos, a mulher gorda com barba, os fantoches e outras diversões anunciadas pelos berrantes cornetins. Vendia-se de tudo nas barracas, onde muitos idílios começavam e eram os pontos de encontro dos namorados. Também o eram para os muitos transeuntes que, por ali, apenas vadiavam. Por entre cidadãos de Chaves e os que vinham das aldeias, desfilavam cegos, coxos, aleijados, chaguentos, a maior parte vinda de outros concelhos, todos em sua condição de inoportunos e importunos mendicantes. Nos sítios periféricos da feira, proliferavam, aos termos de um cronista da época, “as tendas de pano verde, batotas por toda parte, com as roletas pataqueiras de diferentes feitios a girar sem parança, todas mais ou menos ajustadas para a ladroagem dos jogos de azar”.

 

A maior atração da feira era o Cinematógrapho ao ar livre, em um vasto recinto do Grupo Desportivo Flaviense, convenientemente preparado para tal. Já em um jornal da própria Vila de Chaves, o anúncio da empresa dizia: “Hoje, às 20 horas, os mais interessantes e atraentes films. Aos intervalos de cada parte, irão apresentar-se o distinto concertista e de bandurra espanhola Señor Don Manuel Lopez e a troupe de Os Característicos, com a actriz Evangelina Correia e o actor Manuel Correia, em apreciáveis números de cançonetas, monólogos, cenas cómicas, pequenas comédias, operetas e trechos de revistas, do repertório dos dois artistas.”

 

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Terça-feira, 24 de Outubro de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. CORAÇÕES FISGADOS.

 

Foi a um mui respeitável e erudito ambiente familiar, um sarau no ricamente mobilado salão de um sobrado colonial, na Cidade Velha, pertencente a um fazendeiro alentejano da Ilha de Marajó, onde uma gorda matrona, a soi disante florentina, engrolava árias de Verdi; uma condessa cabocla declamava poemas de Castro Alves; e, com mais vigor ainda, um impetuoso bacharelando atropelava alguns versos de Baudelaire, em Francês, que João Reis tornou a ver aquela por quem, de amores, já morrera à primeira vista.

 

Teriam sido, talvez, aqueles belos olhos azuis que, conforme nos diz outra antiga canção, póstera àqueles tempos, se verdes, seriam cruéis como punhais e embora não fossem olhos castanhos, leais, nem tão negros de queixumes, eram dois pedacinhos do céu nos quais os dele, ao pousarem de repente, sentiam-se voar como andorinhas sobre um mar de ondas, azuladas por igual?

 

Agora, entre uma valsa e outra, João Reis, com bem mais trato no corpo e melhor aparência no trajar, elegante com o seu chapéu londrino, seu fato completo de linho “H J” e camisas bem engomadas, com botões de madrepérola aos punhos, também ele começou a matar de amor a sua donzela pretendida.

 

No primeiro cavaquear de ambos, a falaram sobre assuntos triviais, como o calor dos trópicos ou as famosas chuvas vespertinas de Belém, a lançarem bátegas ao solo, sempre à hora certa, o flaviense fisgou, enfim, o coração de Flor, aquela que seria sua companheira por todas as fortunas e infortúnios, em todos os anos do resto da existência.

 

Vice-versa.

 

Nessa noite, o pai de Florinda não levara a famosa bengala.

 

 

  1. NAMOROS DE ANTANHO.

 

Deram-se ao namoro típico daqueles tempos, não tão diverso do que seria, então, em sua Chaves natal. O máximo que um rapaz podia aproximar-se, de modo mais contíguo, ao corpo de sua virginal amada, era quando ambos ajoelhavam-se, lado a lado, nos devidos momentos da missa dominical, ou, em outubro, no Círio de Nazaré, ao se alinharem para acompanhar a procissão junto ao Carro dos Milagres ou à Barca dos Marujos.

 

Por essa altura, à noite, na praça do Arraial da Santa, iam assistir a comédias musicadas e burlescas no Theatro Chalet, sempre a lhes acompanhar alguém da confiança paterna para a eterna vigilância. Melhor ocasião, ainda, era quando podiam valsar nos bailes do Clube Atheneu, do Clube Universal ou do Sport Clube ou, mais especialmente, nos saraus dançantes que eram oferecidos pelos donos do Palacete Pinho a seletos convidados, no amplo salão desse prédio azulejado e bem português, ainda hoje existente à Cidade Velha.

 

Algumas vezes, aos sábados à tarde, havia a rara oportunidade de Reis sentar-se à mesma mesa que Flor, em companhia de Esther e de seu noivo Isaac, na terrasse à la Paris do Café da Paz, no salão da “Rotisserie Suíço” ou no Café Central. Nesses cafés, chiques e muito concorridos, croissants e chá inglês (da Índia) alternavam-se com casquinhas de caranguejo ou café com tapioca, bem ao gosto local, além de gelados, refresco de guaraná, sucos de frutas regionais para as meninas e uma boa cerveja paraense para os cavalheiros. O que mais se fazia, então, era comentar com os outros a vida de todos e falar de tudo sobre a vida dos outros. Especialmente no que se referisse ao grand monde local.

 

Às vezes, entre os namorados, a proximidade maior se dava em um passeio de barco a velejar pela baía de Guajará, aos domingos. Toda a família ia reunida, desde o patriarca Lourenção e sua inseparável bengala, até às inúmeras crias da casa e alguns escravos recém-libertos, que ainda habitavam a casa do aveirense. As vigilengas seguiam até às praias fluviais da Vila de Pinheiro (hoje, Icoaraci) ou, mais além, da Ilha do Mosqueiro. A fim de sair da embarcação e alcançar a terra firme, as saias compridas das mulheres erguiam-se alguns centímetros, para que se molhassem apenas os pés.

 

Esses pezinhos desnudos, ás vezes, esbarravam sem querer nos dos rapazes, ao pisarem com muita sensualidade a areia húmida. Tais relâmpagos de contacto epidérmico eram suficientes para fazer corar as donzelas e os homens culparem-se de maus pensamentos. Pior ainda, causavam um grande constrangimento a esses varões que as acompanhavam. Pelo tipo de ceroulas brancas de algodão, usadas na época, temiam os rapazes que se fizesse notar (muitas vezes de modo bem explícito, ainda que involuntariamente) o repentino e incontrolável aumento do que eles deviam guardar bem quieto na braguilha, e agora se transformava em uma inconveniente protuberância.

 

Ainda mais que tudo isso estava a se passar, como sempre, sob a vigilância discreta das mamãs, titias e vovós, cujos olhos policiais nunca os tiravam das meninas e, de soslaio, dos rapazes. Às raparigas competia, por seu turno, ficarem sempre à vista dessas guardiãs. Tais comportamentos, todavia, não eram estranhos aos portugueses. Na terrinha, era tudo similar.

 

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Terça-feira, 17 de Outubro de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. ALCOVITEIRO.

 

Uma tarde, perto da feira do Ver-o-Peso, João apeou do bonde e, ao se desviar dos burros, encontrou um parente distante, o primo Eulálio. A convite deste, foram até à beira do rio apreciar as vigilengas, que pareciam naufragar nas águas verde-musgo do rio Pará, na verdade um braço do Amazonas. As embarcações iam ou vinham, carregadas de balaios de cipó com frutas tropicais, as quais, como o estranho e arroxeado açaí, tinham nomes e sabores difíceis de explicar aos patrícios e forasteiros, tais como uxi, umari, pupunha, araçá...

 

Reis ouviu então do parente que, por mais idade, às vezes lhe dava conselhos de pai, a fatal pergunta – E então, Joãozinho, quando te vais decidir a casar? Por certo que ainda estás bem moço, mas não fica bem continuares assim, sempre às voltas com essas mulheres de certa rua da Campina ou dos becos que vão dar ao Largo das Mercês. Ô rapaz, cuida bem que, qualquer dia, ainda vais te ver com os cupins da tísica a te roer os pulmões! Ou bem pior: com a sífilis a transtornar a tua cabeça e... o resto, se me percebes.

 

Acontece que Bernardes, como trabalhasse demais durante a semana, suas noites de sextas e sábados eram consumidas em pândegas, na alegre companhia de outros rapazes da mesma idade, aos quais não faltavam o bom vinho e a cerveja fresca, de fabricação local. Tudo isso era compartilhado com as belas caboclas que faziam a vida fácil (pelo menos a deles, dos fregueses) em casas de porta e janela ou em sobrados decadentes, que ficavam nas ruas próximas ao cais ou às cercanias do comércio.

 

Era um homem discreto, de boa educação, mas pouco afeito aos modos elegantes da elite económica local, embora esta fosse, em sua maior parte, constituída pelos novos-ricos da borracha, a nata (ou malta) da qual ele fazia parte. Começava, porém, a se ressentir de uma vida social, onde pudesse conhecer as boas raparigas da terra. Decidiu então que já era tempo de frequentar os bailes da sociedade, os saraus familiares, assistir às revistas musicais como “O Seringueiro”, no Theatro Politeama e, de modo especial, às apresentações de óperas e operetas no palco do monumental Theatro da Paz.

 

Disso tudo, muito se encarregou Eulálio, com dedicado empenho. Pouco a pouco, introduziu o primo nas residências das melhores famílias da região, constituídas dos inevitáveis bacharéis, juízes, políticos, funcionários públicos e, especialmente, daqueles comerciantes que viviam à custa dos seringais, nas mais diversas formas.

 

Passou a ser recebido, também, por donos de terras do interior da província, que viviam em cidades nomeadas como as coirmãs lusitanas (Alenquer, Bragança, Breves, Chaves, Faro, Óbidos, Santarém, Viseu e mais que tais) e mantinham na capital suas mansões, a fim de nelas se instalarem, sempre que necessário. Nessas também refestelavam-se, no mor das vezes, os filhos varões a gozar a vida de estudantes no Colégio do Carmo, no Pré-Jurídico do Liceu ou na Faculdade de Direito ao Largo da Trindade, uma das primeiras criadas no país.

 

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Segunda-feira, 9 de Outubro de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. BELÉM DO PARÁ.

 

Muitas cidades brasileiras foram feitas à imagem e semelhança de Lisboa, do Porto e de outras urbes de Portugal. Uma das mais aportuguesadas era Belém do Pará, situada perto da foz do caudaloso rio Amazonas e porto de entrada para a região amazónica. As ruas da Cidade Velha, onde ficam as igrejas da Sé e de Santo Alexandre, o Forte do Castelo (edificado onde e quando, em 1616, a cidade foi fundada), o Arcebispado e o Convento do Carmo, a formar o complexo histórico Feliz Lusitânia (antigo epíteto da cidade), foram abertas há muito tempo antes que Dom Pedro, Primeiro no Brasil e Quarto em Portugal, tentasse conciliar suas traquinadas mulherengas, na Corte do Rio de Janeiro, com as graves decisões políticas do país.

 

A forte presença de imigrados, uns dos Açores e da Madeira, outros beirões e trasmontanos, fazia aumentar ainda mais a expressiva influência lusa nos modos de falar e nos hábitos do dia a dia. Influenciavam até mesmo na culinária, em que o caldo verde e o cozido com legumes conviviam com a paca ao tucupi (ou pato, depois, mas sempre nesse caldo amarelo, extraído da mandioca); a maniçoba (com carnes típicas de feijoada, antigamente, também, com produtos da caça local, mas cozinhadas em uma pasta feita de folhas de maniva, após estas serem cozidas durante cinco dia para perderem a venenosa e mortal toxicidade); o tacacá (tipo de sopa com a goma de tapioca, tucupi, camarão e jambu, uma espécie de agrião do Pará, que deixa nos lábios uma sensação deliciosa); o sumo bem denso e cremoso do açaí, com farinha de mandioca; e outras iguarias primitivas, da culinária indígena.

 

As casas antigas exibiam suas paredes revestidas com azulejos da antiga Mãe Colonial e, apesar de suas ruas estarem situadas em terrenos planos, os sobrados com janelões pareciam recordar, e muito, os sítios da Alfama ou da Ribeira. Podia-se mesmo dizer que as casas da outrora Santa Maria de Belém do Grão Pará, ainda que marcadas por algum exotismo local, eram com certeza, como nos diz uma antiga canção, uma casa portuguesa. Nas residências mais abastadas, certamente ficavam bem, além do São José de azulejo, da sardinha e do bacalhau (às vezes trocado pelo seu primo de água doce, o pirarucu), o pão e vinho sobre a mesa (embora este último também desse lugar, no mor das vezes, ao sumo de cupuaçu, bacuri, taperebá ou outras frutas regionais).

 

Nos prósperos tempos da extração e comércio da borracha na Amazónia, que em nada melhorou a vida dos seringueiros, mas fez enriquecer os donos de seringais, atravessadores, transportadores e comerciantes de Manaus e Belém, a capital do Pará era uma das mais importantes e mais populosas do país. Conta-se, mesmo, que os novos-ricos da terra mandavam lavar, em Paris ou Lisboa, os seus fatos de puro linho.

 

Àqueles fins do século XIX, graças à riqueza que o áureo ciclo da borracha viera trazer à região, eram os tempos de embelezamento e reformas urbanas em Belém. Erguiam-se belos palacetes, tais como o Pinho, o Bolonha e até vistosos palácios, como os que serviram por muitos anos para a sede do Governo da Província e a da Municipalidade. Construíam-se prédios de ferro em Art Nouveau, como os mercados de carne e de peixe, no sítio portuário do Ver-o-Peso. Com seges e vitórias ainda a passear pelas ruas, os coletivos puxados a cavalo logo passariam a dar lugar aos bondes, como passaram a ser chamados, no Brasil, os elétricos ingleses (trainways).

 

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Ancoradouro do Ver-o-Peso, Belém do Pará (BR). Postal público. Autor desconhecido.

 

Essas obras grandiosas eram comandadas pelo célebre Senador Antônio Lemos, tais como a abertura de largas avenidas e praças ajardinadas. Estas fariam Euclydes da Cunha, o escritor de “Os Sertões”, declarar em 1904: “(...) Nunca esquecerei a surpresa que me causou aquela cidade. Nunca São Paulo e o Rio terão as suas avenidas monumentais, largas de 40 metros e sombreadas de filas sucessivas de árvores enormes. Não se imagina no resto do Brasil o que é a cidade de Belém, com seus edifícios desmesurados, as suas praças incomparáveis e com a sua gente de hábitos europeus, cavalheira e generosa. Foi a maior surpresa de toda a viagem”. (Quanto aos hábitos europeus, leia-se: os de portugueses, franceses e, com menor influência, ingleses).

 

Somavam-se a isso as belas alamedas do Bosque Municipal, um enorme quadrado onde até hoje se concentra, com espécimes da flora e da fauna, uma síntese da floresta amazónica; e o Museu Paraense, recém-fundado no então bairro da Rocinha, onde pesquisadores de várias procedências dedicavam-se aos estudos da natureza e do homem na Amazónia, sob a direção do cientista suíço Augusto Emílio Goeldi.

 

No Theatro da Paz, cujo interior é similar, em luxo e arte decorativa, a muitos espaços cénicos da Europa, apresentavam-se companhias inteiras de ópera, francesas e italianas, que seguiam depois para o teatro de igual porte e beleza em Manaus, o outro grande centro comercial da borracha. Tais elencos vinham em paquetes ingleses e alemães a cruzar o Atlântico, em linha direta ao Norte do país, até ao movimentado porto de importações e exportações da Baía de Guajará, sem ao menos passarem pelos de Salvador ou Rio de Janeiro, a então Capital Federal.

 

 

  1. MENINA FLOR.

 

Foi antes de começar uma soirée no monumental teatro, inaugurado há alguns anos no Largo da Pólvora, que João Reis, recém-enriquecido com o comércio da Hevea Brasiliensis, ao dar um breve passar d’olhos pelo interior daquele verdadeiro templo cénico, avistou, no camarote onde se alojava a família de Jacob Benzecri, um dos mais respeitáveis capitalistas da província e com o qual João mantinha transações comerciais, uma linda e elegante rapariga.

 

A menina estava a conversar com a Estherzinha, outra bela jovem, filha de Jacob. Reis perguntou ao Raimundo Peixoto, o Dico, um amigo caboclo que ora o acompanhava, quem era aquela moça que tanto lhe chamara a atenção. Dico falou que seu nome era Florinda de Morais Dias, à qual muitos rapazes chamavam de Flor Linda e era filha de Joaquim Lourenço Dias, um compatriota de Reis, natural de Aveiro, de mãe alemã e pai português. Este era dono da Loja da Lua, armazém de tecidos à Rua XV de Novembro, mas…

 

– Mas, mas… mas o quê, ó raios, ora me diz de uma vez!

 

O amigo aconselhou – Pisa de mansinho no terreiro, que o galo velho alemão cisca bravo no quintal! É um cão de guarda com as filhas! A mãe delas já se foi na epidemia de varíola e o Lourenção tem que se fazer em dois. As filhas só vão às festas com o pai do lado. E tome a bengala! – Bengala?! Mas o que é que essa bengala tem a ver com as meninas? – Raimundo riu e continuou – É que o velho ameaça ou chega mesmo a dar umas bengaladas em qualquer rapaz que venha falar com as filhas… Quanto ao que mais importa, o Lourenção está muito bem de vida; e a educação primorosa que a pequena recebeu, também se deve aos bens deixados por sua mãe e por seu avô materno.

 

Ainda que, para João, essas questões patrimoniais não fossem, àquela altura, o mais importante, soube então que o avô da “Linda Flor” tinha sido proprietário de uma fazenda enorme, que ia desde os fundos da Basílica de Nazaré até à Estrada de São Jerônimo (uma enormidade de terras), mas os Estêvão de Morais quase ficaram sem nada, porque o único filho homem, tio dessa atraente donzela, deu cabo à metade da fortuna do pai, solapando-a com mulheres e jogos.

 

As perspetivas não eram muito animadoras, mas João Reis, embora não fosse dado aos jogos de azar nas casas da Rua da Trindade, onde a roleta corria solta, gostava de arriscar no carteado da vida. Quando olhou novamente para o alto, percebeu que fora visto por Jacob e o cumprimentou. Acenou também à Esther e à bela filha do bravo bicho brabo. A jovenzinha, após um breve aceno, olhou para ele e, pondo o leque de patchouli a lhe tapar a boca, cochichou algo com a amiga. Ambas riram, sem tirar os olhos do rapaz, o que o deixou constrangido.

 

Estava decerto curioso em saber do que andavam a falar e do que lhe havia de ruim, se os bigodes, as suíças, o nariz… Ou talvez algo bom, mas o Dico, ao seu lado, deixou-o ainda menos à vontade – É a tua aparência, João Reis, como te cuidas mal! – e a troçar – Acho que devias ler o “Compêndio de Civilidade” do bispo Dom Macedo Costa.

 

 

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Theatro da Paz, Belém do Pará, 1878. Postal público antigo. Autor desconhecido.

 

 

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Terça-feira, 26 de Setembro de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. HOMEM DE BEM.

 

Há vários dias, Papá rondava os passos de Aurora, como a querer dizer alguma coisa. Uma noite, afinal, quando ela estava a sós com ele e Florinda, João Reis tomou fôlego e, após algumas baforadas de seu finito e já degustado havano, lançou à filha um olhar afetuoso – Bem sei, minha boa Au­rita, que não temos costumes iguais aos dos ciganos, mesmo desses aí em frente que, de tão portugueses já se fizeram, nem parecem mais ser dessa raça – e acentuou dessa raça. Mesmo sem distinguir a alusão sobre raça e não etnia, com o Reis a desconsiderar o que é uma nação cigana, Florinda lançou ao marido um olhar respeitoso, mas de insinuante reprovação pelo tom preconceituoso, que, a ela, nunca sabia bem.

 

Entrementes, a rapariga ficou a pensar – Pronto, cá está de novo o Papá, a me falar do Hernando! Mas o que será que o incomoda, dessa vez, se já nem sei mais daquele gajo, a andar por aí, de lés a lés, pelo mundo? Se eu mesma já cá o tenho, ao peito, como página virada de um velho álbum de recordações?! – e Reis prosseguiu – Espero que estejas a me compreender. Quero falar, na verdade, de uma prática de meu tempo, já pouco usada hoje em dia, mas que muitas famílias ainda gostam de concertar. Afinal, se sou teu pai, e se te eduquei o melhor possível, seria injusto se eu não pudesse, ao menos, aconselhar-te sobre um homem de bem para teu marido.

 

Aurora alcançou, afinal, aonde o pai queria chegar. Em­palideceu. Ainda que sempre a demonstrar uma notória bon­dade, ainda que a ira lhe houvesse, mesmo, como um feio pecado capital, um tantinho de ódio lhe acolheu o coração. Ainda mais quando veio a fatídica pergunta – Conheces o Álvares, aquele distinto senhor que é dono do armazém “O Tesouro Trasmontano”? – Papá tragou mais um pouco do havano e continuou – É um homem ainda em pleno vigor e de muitos bons costumes – ao que Mamã ajuntou – Sua mulher, pobrezinha, que Deus a tenha, já lá se foi para o Céu, nas garras do corvo da Pneumónica.

 

Calada estava, a rapariga e emudecida ficou, horrorizada com aquela ideia dos pais. O senhor Álvares era um homem bom, bem ajeitado e não de todo feio, apesar de gorducho e sem pescoço. Além do mais, tinha lá sua dinheirama nos cofres e nos bancos do Porto, mas... deveria estar mesmo a querer uma rapariga que lhe pusesse a mesa, lavasse as roupas íntimas, cuidasse de seus fatos e suspensórios… Não conseguia ela antever como, após as bênçãos de Deus, po­deria chegar ao sobrado da Rua do Sol, onde morava o pre­tendente e levar como dote um buquê de carinho e algumas migalhas de amor.

 

Não fora por amar e ser amado, conforme a própria Mamã contava, que João Reis se casara com a sua Menina Flor?

 

 

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Terça-feira, 19 de Setembro de 2017

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. BEBEZÃO.

 

O rapaz de maior permanência, na condição de enamo­rado, veio a ser o Gustavinho Bebezão. Era um rapaz com­prido e magricela, filho único do Comendador Aires de Bragança e de dona Maria, senhora que nunca fora rainha nem primeira, mas era também um pouco louca. Ele estava sempre entre os colegas que Afonso, muitas vezes, levava a casa após as aulas no Liceu, para se entreterem com as figuras dos livros da biblioteca de João Reis, ou conhecerem algumas das novidades que os pais trouxeram do Brasil.

 

Dentre as que mais atraíam os rapazes, estava a pequena coleção de aves, répteis ou outros animais exóticos empa­lhados e, agora, já um tantinho entregues ao natural desgas­te. Aqueles olhos sem vida de animais mumificados, aliás, muito assombravam a Maria, quando esta ia limpar a peque­na sala do patrão. Esses bichinhos sem vísceras foram a úni­ca herança deixada por Belmiro Morais, um tio de Florinda que era dado à Taxidermia. A malária dos trópicos (também conhecida em Chaves como maleita) havia levado o pobre cientista a ver de perto a face do deus Tupã, durante uma de suas longas incursões pela selva amazónica. Dizem que, em  seus tremores e delírios finais, ele pedia para ser também empalhado e colocado junto às preguiças, cotias e os mais de sua coleção.

 

Nessas ocasiões, os do lar e os convidados, todos ansia­vam pela hora da merenda quando, com exceção do patriar­ca que, a esta altura, ainda estava a comandar seus funcio­nários no escritório, iam todos provar de tudo que, de bom ou de melhor ao paladar, Florinda pudesse oferecer. Tudo lá, certamente, estava a saber muito bem ao paraíso do ventre, esse éden no qual ninguém recebe castigo de Deus por ter comido demais, nem mesmo por ter saboreado uma simples maçã de origem serpentina, pois lá, nenhum manjar é proi­bido.

 

 

Na primeira vez, Aurora e Gustavo trocaram somente al­guns olhares e sorrisos, ansiosos e inquietos. Na segunda, acabada a merenda, os dois foram a uma das janelas e con­versaram sobre aqueles mil assuntinhos que, não se sabe de que baús eles saem, nem de que maravilhosas lâmpadas de Aladino se esvaem, estão sempre a fazer parte da vida dos jovens, em qualquer tempo e lugar. Na terceira, sentaram-se nas cadeiras de cana-da-índia da sala de estar e ficaram a sussurrar , entre risinhos, com as húmidas mãos a se toca­rem, ávidas, mas não havidas. Enquanto isso, na biblioteca ao lado, os colegas ficavam a troçar – Afonsinho, ó pá! Vais ser cunhadinho do Gustavinho, que, apesar do tamanho, tudo nele é assim como lhe diz a Mamãezinha, com muito inho, pro casamentinho, delezinho, de seu filhinho, queridi­nho, com a Auritinha, tão lindinha.

 

Não houve a quarta vez. Dona Maria, mais transtornada do que a Primeira, em um momento de lucidez ou de loucura (soubesse lá qual dos estados, só mesmo o pobre do marido pachorrento a lhe aturar os nervos; ou então o seu Dom João Sexto miúdo, que temia mais a ela do que a qualquer armada de Napoleão) mandou à senhora dona Florinda os seus pro­teistos de estima e concideração, em um bilhete de muito mal trassadas linhas e, como se vê, de estropiada gramática. Nele, a matrona pedia que se puzece um termo às sandisses do Gustavinho (não fosse ela, como todos diziam, à boca miúda e graúda, a própria sandice em pessoa). Lamentava ser este ainda um miúdo, que mal deixara de ca... (riscou com um xis) de obrar nos cueiros e já lá estava a pensar em faser outros miúdos, ainda que tais sem-vergonhisses venho a si permitire sobre as benssas e confirmassons da Santa Madre Igreija.

 

Seguiam-se numerosos blá-blá-blás e mais que tais.

 

Gustavo Toledo Ayres de Bragança já chegara aos 21 anos, mas, tanto na mente quanto no comportamento geral, não passava de um puto choramingas. A um simples olhar de sua Mamãezinha, metia o rabo entre as pernas e fazia um mé mé mé de carneirinho. Não foi diferente, portanto, o seu agir para com Aurora. Em péssima e nervosa caligrafia, entremeada com borrões de lágrimas, mandou dizer à sua quase futura sempre amada que, doravante, ela podia sen­tir-se desobrigada de qualquer compromisso a que ambos estivessem por firmar.

 

Aurita apenas deu de ombros e concluiu, para si mesma – Se amada não fora, por esse filhote de Mamã Ratazana, um criançola estúpido e cobarde, cheia de amor por ele é que ela, jamais, haveria de ficar. Enquanto isso, o que mais sen­tiu o ratinho, digo, o rapazinho, foi nunca mais ir à casa de Afonso com os colegas e, assim, deixar de roer, digo, deixar de provar os saborosos bolinhos de dona Florinda.

 

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Terça-feira, 12 de Setembro de 2017

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. CARITÓ.

 

Quando Aurora fez 20 anos, a ausência de um rapaz de boas intenções em sua vida começou a preocupar os pais, além de chamar a atenção dos parentes, aderentes e meros conhecidos. – Te cuida, Aurita, olha que vais acabar ficando pra tia – ou, como dizia Mamã, à moda de sua terra natal – Vais acabar no caritó – o que em Tupi, língua dos índios brasileiros, vem a ser “uma gaiola para os pássaros”, mas na linguagem popular significa “ficar solteirona”.

 

Ora pois, engaiolada era a vida de muitas senhoras fla­vienses que, em rodas de chá, a degustar os pastéis de ba­calhau e as bolachas de nata, repetiam, a suspirar, as frases recolhidas de algum desconhecido – “Ai-jesus, que o casa­mento vem a ser mesmo uma prisão! No início, um doce cár­cere; alguns anos depois, uma clausura à qual ele e ela, no dia após dia, acabam por se habituar; já nos anos finais, é um porão sombrio e húmido, masmorra onde só as mágoas e queixumes servem de lenha para aquecer o frio”.

 

A tudo isso, porém, Mamã contestava – Pois eu e o meu Reis, embora não tanto como El-Rei Dom Manuel I, esta­mos sempre venturosos.

 

Diante de tais falatórios, Aurora se constrangia e tenta­va dar atenção aos possíveis pretendentes. Em belos papéis coloridos, circundados por figuras de flores ou anjinhos a tocar flauta, trocava cartas com aquele que estivesse na vez de um pretenso namorado. Não eram cartas portuguesas tão belas, como as de Soror Mariana Alcoforado, mas, nas suas, punha-se a transcrever, com sua perfeita caligrafia, versos de João Ruiz Castelo Branco:

 

“Senhor, me partem tão tristes

os olhos por vós, meu bem

que nunca tão tristes vistes

outros nenhuns por ninguém”

 

Nem essas líricas palavras poderiam, no entanto, expres­sar o que de facto lhe ia n’alma. Carências, latências, vazio. Acabava por ocorrer, afinal, que qualquer Hans sem Gretel que se perdesse em seu bosque, a bruxa loura deitava ao cal­deirão em poucos dias. Ainda por cima, pedia de volta suas cartas com florezinhas, anjinhos, versinhos e o mais.

 

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Terça-feira, 5 de Setembro de 2017

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. PRETENDENTES.

 

Por quatro anos, Aurora não quis namoricar ninguém, por linda que fosse e, sempre, na Missa ou à saída da igreja, os rapazolas estivessem a lhe dirigir tímidos olhares. De logo se retraíam, no entanto, ao perceberem que a válvula mitral da rapariga parecia ou já estava a pertencer a alguém. Um desses admiradores, maldoso, chegou a comentar com os amigos que, de tão secreto, tal felizardo deveria ser algum primo Basílio ou qualquer outra figura proibida da literatura universal.

 

Às raras ocasiões em que as meninas Bernardes expunham seus vestidos novos, a um baile na casa de algum conhecido, parente ou aderente, Aldenora levantava-se muitas vezes da cadeira para valsar no salão. Era apenas uma ou outra vez, porém, que um tipo mais corajoso vinha convidar a menina Aurora, para consigo bailar. Talvez porque o ar de ausente e os eternos silêncios da rapariga parecessem que ela não estava a gostar da festa, ou, simplesmente, preferisse ficar apenas a observar tudo e todos à sua volta.

 

Seu ar de severidade ora atraía, ora afastava os príncipes, ao mesmo tempo que deixava todos com uma sensação de sapos que, por ela, jamais seriam beijados. Não sabiam, porém, tudo aquilo, na verdade, era só um biombo facial, como essas máscaras do carnaval de Veneza, caras postiças, que só revelam aquilo que não se esconde nas verdadeiras faces.

 

À jovem Aurita, na verdade, não lhe fugia o sabor das danças. Portanto, quando lhe davam oportunidade, contradançava com muita graça e alegria.  Em tais ocasiões especiais, fossem nunos, joaquins ou xavieres, acendiam-se fagulhas de esperança aos rapazes, mas estas logo se esvaneciam. Quando eles começavam a ensaiar juras de amor à rapariga, esta, que não era dada a mentir, mas bem lhe comprazia fantasiar, costumava dizer, entre sorrisos contraditórios, que já era noiva de Jesus e, no próximo inverno, iria fazer-se noviça em algum convento das Carmelitas Descalças.

 

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Terça-feira, 29 de Agosto de 2017

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. POPÓ.

 

Afonso só largava os estudos, a essa altura, para namori­car em casa da jovem amada, a menina Maria Ritinha, filha de um dos melhores clientes de João Reis. Papá, no entanto, nem precisava dizer ao rapaz que, às nove, já deveria estar de volta à Quinta. O jovem cumpria isso em geral bem mais cedo, por lhe desgostar a chateza repetida de ficar a conver­sar com a rapariga enquanto, a uma pequena distância, a avó da menina fazia tricô. Essas agulhas e fios serviam apenas, na verdade, de mero pretexto para a vigilância familiar e isso, militarmente, aquela senhora exercia do alto de sua tor­re de menagem, uma velha cadeira de balanço.

 

E havia Popó, o cão.

 

O animal postava-se debaixo do sofá onde os pombinhos, a uma distância quilométrica, mal podiam arrulhar e esticar as penas, a fim de ao menos se tocarem nas pontinhas das asas. Penares do pobre Afonso! Já de si retraído, ao tentar se aproximar um pouco mais da Ritinha, ouvia o rosnar e até os latidos ameaçadores do maldito cão. Ainda mais que o ra­bugento Popó não parecia gostar nem um pouco de Afonso, malgrado as tentativas de este se fazer amigo do animal. Tal amizade, evidentemente, bem viria a calhar para os momen­tos em que a guardiã fosse beber ou verter água, mas a velha sempre retornava com um sádico sorriso de tranquilidade, confiante na guarda de seu cão.

 

Até que, certa noite, o Popozinho, algum tempo já decor­rido no exercício de suas funções de segunda sentinela do namoro de Afonso e Ritinha, achou por bem (ou melhor, por mal) morder levemente a perna do rapaz, quando este, como um casto vampiro, tentava dar um singelo beijo na jugular da rapariga.

 

Foi a gota d’água para que, de uma vez por todas, o rapaz desse por terminado o entediante namoro. Não soubesse ele que, em muitas outras casas da vila flaviense, havia moços e raparigas a vivenciarem a mesma situação diante de mães, tias ou avós. Só que alguns tinham mais sorte, pois muitas dessas vigilantes cochilavam e até roncavam com frequência.

 

Além de que, em geral, não havia Popós!

 

 

  1. VOLTA AO LAR.

 

Até quando levarás contigo as chaves do teu segredo? – a rapariga perguntou a si mesma e lançou um olhar à Torre, como se pudesse deixar lá dentro e para sempre os seus mis­térios, não gozosos mas dolorosos e pudesse fazer, daquele amontoado de pedras, uma sólida e muda confidente dos seus infortúnios.

 

Da amurada, olhou para baixo e, mais uma vez, o punhal do pior dos pecados, a cujos pecadores a Igreja nega os san­tos sacramentos, trespassou-lhe a mente. Lembrou-se então da bela, nobre e virtuosa Dueña Conxeta de Albuez.

 

O esposo de Dueña Conxeta, ensandecido pelos ciúmes, mandara encarcerá-la em uma torre de menagem, junto com os filhos que ele dizia não terem saído de seus fecundos e viris instrumentos.

 

Deu-se então que, a uma triste e fria manhã igual a esta, a pobre mulher aproveitou-se de uma falha dos guardas, su­biu até ao cimo da guarita e, de mãos dadas com os infantes, atirou-se ao abismo. Não sabia a desgraçada que, no dia se­guinte, estava a chegar de Braga o seu confessor espiritual, com o fito de protestar pela inocência da infeliz devota.

 

“Que esta água vá curar-te os males d’ alma” – Ainda a lembrar as palavras do doutor Guimarães, Aurora tomou o caminho de volta a casa, pela Rua do Bispo Idácio e, de­pois, pela Santo António. Ao passar perto de uma venda de louçarias finas, viu Hernando a palear com o caixeiro dessa loja e quis logo ter ao cigano, para lhe dizer das boas novas. Apesar de que estas, ora pois, até que de novas se poderiam chamar, porém boas... estavam longe de ser.

 

ca -carolina (448).jpg

 

Conteve-se. Esgueirou-se furtiva, para não ser vista mais adiante pelos empregados de Papá, que estavam a abrir o armazém da Rua das Couraças. Desceu pela Rua do Rio, seguiu pela Alameda Trajano, resolveu margear o Tâmega e cortar caminho pelas Poldras, como algumas vezes fizera com a Zefa em miúda, quando iam buscar Mamã à casa de tia Hortênsia, na Raposeira.

 

Já do outro lado, perto da Azenha dos Agapito, passou por um sítio beirão do rio, onde as lavadeiras já estavam a começar o seu labor de ensaboar, esfregar, bater, lavar, tor­cer e estender roupas brancas nos areais.

 

Por entre elas, uma miúda com o vestidinho roto e um bibe remendado, um pinguinho de gente com um chapéu de palha na cabeça, carregava um regador quase do seu tama­nho, enquanto as da lavagem cantavam:

 

“O cantar não alivia

penas no meu coração

eu tenho cantado muito

e as penas se me não vão”.

 

ca videira (2).jpg

Lavadeiras no Tâmega.

 

Aurora não queria voltar à quinta, onde seu futuro, ago­ra, era um xis a cruzar raios de incógnitas sobre o coração. Havia um nó na garganta, um enovelamento em seu cor­po, um emaranhado de fios em sua vida, dos quais ela não conseguia o vislumbre de quando e como desatar. Tomou o Caminho das Poldras até à Rua da Solidão, essa via sombria que, como o senhor Durão da Lenda dos Frades Santos, faz muito jus ao nome, uma estradinha deserta entre muros ex­tensos, onde apenas os musgos e uma ou outra casa esprei­tam os passantes. Ao se encontrar na Rua do Caneiro, perto da Quinta, hesitou em seguir adiante. Logo porém se fez coragem e chegou à Avenida D. João I.

 

Deu volta ao muro da casa, entrou pelos fundos do pomar, atravessou-o de novo entre as macieiras, laranjeiras e pesse­gueiros e se atirou chorando aos braços de Zefa, que se pôs também a inundar, com tâmegas d’olhos, o piso da cozinha.

 

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Terça-feira, 22 de Agosto de 2017

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. AMPULHETAS.

 

A descida de areia, na ampulheta dos Bernardes, podia ser vista a se refletir em cada um dos membros da família.

 

Aldenora apegava-se aos livros de contos açucarados (e alguns mais realistas, mas só quando os podia ter à mão, em segredo). Aurélia já estava a vivenciar os seus “dias de his­tórias”, como toda mulher. Mindinha, esta se afastava cada vez mais das bonecas. Quanto à menina Aurita, agora sem contar nem mesmo com os explicadores em domicílio, para diminuir o tédio que a vida reclusa de Papá impunha às fi­lhas, entregava-se cada vez mais a cuidar do jardim e dos seus amores-perfeitos.

 

Acastanhados.

 

Ao contrário de seu irmão, o caladão e ajuizado Afonso, sempre dedicado aos estudos, ao púbere Alfredo apetecia bem mais aproveitar todos os momentos dessa fase única da vida, a adolescência. O que o puto mais apreciava era se entregar aos sagrados princípios do Hedonismo, que não co­nhecia dos livros, mas da prática. Tinha vários amigos, entre as maltinhas de Chaves, principalmente o Zeca Sarmento, o Vitinho Mendes e o Lucas Bó. A todos esses, o que mais agradava era nadar no Tâmega. Nos bons e quentes dias de verão, Alfredinho chegava a casa com os cabelos ainda mo­lhados e Afonso perguntava – Onde nadaste? – e ele, muito orgulhoso de si, respondia – Na Pedra da Bicuda!

 

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 Poldras - Rio Tâmega - Chaves

 

Àquele tempo, os rapazes recebiam suas primeiras lições aquáticas com um colega que já soubesse nadar bem e o aprendizado se fazia em várias etapas, de acordo com a profundidade dos vários sítios do rio. Com Alfredo, não foi diverso (e não o fora também, com Afonso, ao seu tempo). Suas primeiras braçadas e pernas foram rio acima, a um sí­tio mais raso, na Galinheira. Já menos afoito e mais afeito às águas, seus amigos experientes o levaram para a Ola, junto à Ponte Romana.

 

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Os primeiros exercícios de verdade foram no Cachão, junto às Poldras, um belo caminho de pedras, até hoje exis­tente, que era a única alternativa da Ponte Romana, àquela época, para a travessia do Tâmega pelos peões.

 

Lá no Cachão, a malta de putos mergulhava alegremen­te. Quando Alfredo já estava a nadar melhor, o Vitinho e o Lucas Bó o levaram até ao Poço do Leite, junto à presa do Moinho dos Agapito, onde todos já podiam fazer, sem medo e com arte, a travessia do rio.

 

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Tâmega, próximo ao Moinho dos Agapito. Foto de Raimundo Alberto (2010).

 

Os rapazes partiam das margens do Tâmega aos mago­tes, entre chistes, desafios e exibições próprias da idade. Já nadavam de costas, faziam prolongados mergulhos e se ar­remessavam às águas em saltos de anjo, de peixe, de nava­lha. No entanto, aquele que afirmasse, categoricamente, já dar suas braçadas na Pedra da Bicuda, uma parte do rio mais abaixo e mais funda, esse era digno de admiração entre os mais. É que isso significava que o puto já podia considerar­-se um exímio nadador.

 

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Terça-feira, 15 de Agosto de 2017

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. FRADES SANTOS.

 

Durante algum tempo, em tempos que já lá se foram, por volta da meia-noite, almas penadas de frades devotos apa­reciam, entre as árvores do Campo do Tabolado, junto às fontes, a lerem seus breviários, sob a luz de velas que se prendiam aos capuzes, na cabeça de cada um.

 

– Vinham envoltos em seus hábitos de burel e tinham – assim contava Rodrigo, a dramatizar – as mãos e as faces esbranquiçadas! Círculos escuros em volta dos olhos e da boca! Estavam presos, uns aos outros, por correntes que se arrastavam pelo chão! E entoavam… o cântico dos mortos!!!

 

Tomou um gole de Porto, fez uma pausa teatral e, em seguida – Essas terras pertenciam ao senhor Paulo de Maga­lhães, organista da Igreja Matriz. Pois o pobre homem, e to­dos de sua casa, viviam apavorados com o que viam. Aliás, já acreditavam até no que não viam e, piamente, davam fé ao que os outros contavam. E quem conta um conto, aponta dois – ao que Afonso motejou – Mas tu, Rodriguito, sempre nos apontas mais de quatro!

 

O primo riu – O que se deu é que os empregados já não saíam mais à noite. Alguns até chegaram a adoecer de febres e… – o narrador fez um sorriso maroto – de disenterias. Viviam a correr lá pra casinha... – motivo pelo qual riram­-se todos. Rodrigo tomou mais um Porto e prosseguiu – A mulher de Magalhães disse ter visto a alma de um frade a lhe pôr a língua para fora e pegou umas tremuras de maleita. Só ficou boa à custa de penitências e vultosas dádivas de dinheiro que ela ofereceu ao convento, o qual ficava logo ali, coladinho às propriedades do marido, em terras que se es­tendiam até um ponto do caminho para Vilar de Nantes. Fez isso a conselho dos próprios frades dessa irmandade. Estes, aliás, ao contrário das aparições, estavam muito bem vivos e com bastante saúde.

 

A garrafa do Porto estava cada vez mais ébria de va­zio, quando o primo, bem sóbrio, pareceu concluir – En­fim, eram tantos os problemas com essas almas penadas, que o tal organista preferiu partir para sempre de Chaves, com toda a família. – Fez outra pausa e, a julgar que fosse esse o final da lenda, os mais reagiram. O narrador prosse­guiu – Calma, calma, ainda não acabou. O facto é que, toda vez que perguntavam a esses monges sobre as almas pena­das, eles se diziam muito preocupados. No século anterior, uma peste havia dizimado quase toda a congregação que ali praticava. Seriam então de alguns desses frades, com a sua triste e pestilenta memória, as almas que agora estavam ali a assombrar?

 

Já então a pequena Arminda esbugalhava os olhos, en­quanto o contador de histórias seguia o curso da narrativa, assaz interessante – O próximo a se tornar proprietário das terras do organista chamava-se Francisco Durão. E aquele, meus primos, fazia jus ao nome! Saía sozinho pela noite, madrugada afora, devidamente provido de armas e pronto a enfrentar, fosse quem fosse: os vivos, os não vivos, os mor­tos e os não mortos. Pois não é que as almas, desde então,  nunca mais apareceram? O valente Durão ficava a gritar “Ó seus fradecos penados, que raio de almas cagadas são es­sas, que têm medo de levar espada ao cu?

 

Mamã, de imediato, externou-se ofendida nos ouvidos. Rodrigo pediu desculpas e tentou corrigir o chulo palavrea­do – Cá me perdoem, meus caros, na verdade era assim que ele gritava: “quem é que têm medo de levar ferro ao bucho?” – mas apesar do conserto feito, o efeito desconcertava. Al­guns risinhos nervosos tentaram disfarçar o que as faces rubras revelavam. Então, o primo apressou-se em finalizar – O facto é que, mesmo sem a companhia de outros valentes como ele, para enfrentar essas almas tão santas, mas pena­das, Francisco Durão continuou, por muito tempo ainda, a cultivar a quinta com as próprias mãos.

 

A essa altura, já todos perguntavam – e as almas? – ao que Rodrigo sorriu – Ora, pois, o que se deu a conhecer, algum tempo depois, é que esses frades (e estou a falar dos vivos, é claro), colhiam frutos para seu uso diário nas terras vizinhas às suas, ou seja, às do convento e vendiam os exce­dentes. Não satisfeitos com as cercas de sua monástica pro­priedade, usavam a Murada do Campo da Roda, para se es­tenderem até onde mais pudessem. Um visitador da Ordem acabou com o abuso em 1689, pois os religiosos estavam a se utilizar de uma propriedade fora do convento, o que era contra as regras da Ordem.

 

Concluiu, enfim, o narrador – Na esperança de que essas terras fronteiriças voltassem a ser devolutas, os frades pin­tavam o rosto de branco com uma mistura de farinha e clara de ovo, cercavam os olhos e a boca de carvão e faziam a encenação das almas. – Os próprios frades?! – Eles mesmos! Acompanhavam-nos, decerto, alguns serviçais do convento, que se prestavam de bom grado a esse teatro de Grand Guig­nol. O certo é que, depois das incursões noturnas do novo proprietário, as almas dos santos frades nunca mais vieram assustar ninguém. Certamente tinham medo das cacetadas e golpes de espada do ousado dono da quinta, cujo nome era... como se diz? Um pleonasmo!

 

Florinda e as filhas riam, a não poder mais. Logo, porém, Mamã pôs-se a repreender os excessos anticlericais desse parente tão contestador – Meu bom Rodrigo, és mesmo um pândego, mas não fiques a desrespeitar a nossa religião. Cui­da da tua alma, é que é, pois todos nós, um dia… – e o gaiato retrucou, com uma falsa seriedade – Não se preocupe, Tia Flor, quando ouvirem passar ao Raio X umas correntes e, ao chegarem à janela, virem uma aparição toda de branco e com uma vela à cabeça… podem rezar pelo pobrezinho do primo Rodrigo, uma pobre alma que se perdeu… – e, a rir com gosto – perdeu-se, sim, mas logo se foi achar de novo, na Madalena, muito vivo e a bebericar, com os amigos, da­quela água que mata o bicho!

 

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Terça-feira, 8 de Agosto de 2017

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. FOLAR DA FESTA.

João Reis levou toda a família aos festejos, com fitas ver­des e encarnadas nos chapéus dos putos e no seu próprio, assim que tal nos xailes de Flor, das meninas e das criadas. Todos estavam a empunhar bandeirinhas pátrias. Os miúdos logo pediram que o Papá lhes pagasse uma bebida fresca, mais precisamente a “Gazoza Transmontana” que, segundo os reclamos em um jornal (no qual era ela apresentada assim mesmo, com essa grafia de dois zês) era “de facto a melhor”.

 

Mercê de uma pequena distração, Aurora acabou por se perder dos seus. Talvez a célebre e folhetinesca Mão do Destino já estivesse a traçar suas linhas em prol do ciga­no, pois logo uma luva de couro, cor de morcela, tocou no ombro direito da rapariga. Esta, ao se virar, tremeu dos pés à cabeça. Diante dela, mais guapo do que nunca, Hernan­do entreabria os lábios com os dentes ainda não manchados pelo vício do fumo, a lhe oferecer um sorriso que combinava muito bem com o seu maroto olhar. O de sempre.

 

O sorriso de Aurita não tardou a se esboçar, em agradável permuta. Ainda mais que o moço tomou-lhe um lenço que ornava os ombros e, a um zás trás, transformou-o em uma bela flor. Quando ela teve de volta o seu pequeno xaile, ad­mirou-se em ver o flóreo botão se abrir e lhe revelar uma fatia de folar bem flaviense. A menina, então, achou-se até ousada para iniciar alguns momentos de cavaqueio – Como sabeis fazer isso, senhor Camacho? – e ele sorriu de novo, desta vez com malícia – Sei fazer muito mais – mas logo res­pondeu à pergunta de Aurora – Ora, brasilita, é fácil, muito fácil. É apenas um passe de mágica que aprendi por aí, pelo mundo.

 

Foram os dois então para os lados da Torre e, sentados em uma das amuradas em volta, Hernando se pôs a expli­car como tudo era feito. Daí passaram a falar sobre vários assuntos triviais, mas que os faziam tão alegres como par­dais ao milho. Chegaram depois aos relatos das poucas, mas bem vividas aventuras do jovem cigano, algumas com certo exagero por parte do narrador, durante suas viagens por es­panhas, franças e itálias.

 

Dessas vivências de andarilho, que lhe serviam para não esquecer as nómadas origens, havia certas passagens, as mais picantes e mulherengas, que ele certamente omitia. Ou então, como sói acontecer aos contumazes contadores de lérias, como ele, Hernando sempre dizia, a fim de preser­var sua identidade, que tais e mais teriam ocorrido a algum moço da aldeia xis ou ípsilon.

 

Envoltos nesse início de namorico, mal perceberam quando o pai de Aurora chegou, segurou-a firme pelo bra­ço, cumprimentou secamente o rapaz com um – Boa tarde, senhor Camacho, esteja a passar bem; com licença – e mui de pronto afastou-se com a filha, a ralhar entre os dentes – Vamos, menina, andemos de volta a casa, onde lá é que me­lhor estás, pois “quem à boa árvore se abriga, boa sombra o cobre”. E lá também é que te vou explicar porque o povo diz “O lume ao pé da estopa, vem o diabo e assopra.”

 

Logo se juntaram ao resto da família e, com os protestos de Aldenora e a chorosa revolta dos menores, tomaram o caminho de volta à Quinta. O que mais pesava aos miúdos era deixarem de provar, conforme o Papá tinha prometido, as castanhas assadas, os gelados, as tortas de Viana ou os especiais pastéis de Chaves, que se ofereciam em uma con­feitaria recém-inaugurada ao Largo das Freiras.

 

  1. ANOS 20.

 

Então se passaram alguns anos, marcados apenas pelas notícias dos jornais locais ou dos que vinham de Lisboa ou do Porto, sempre lidas por Papá em voz alta ao pequeno-al­moço. Entre as novidades, os costumes dos anos 20, “inde­centes, obscenos, pornográficos”, como a eles se referiam os comentários de João Reis – Ai, Menina Flor, essas coisas que estamos a conhecer... esses países que se perderam nas teias da depravação, tudo isso me deixa preocupado.

 

Sussurrava à esposa – A Lisboa, já andam por lá algumas dessas raparigas do tipo maria-vai-com-as-outras, a se exi­birem com esses vestidos que lhe sobem às pernas, quase a mostrar os joelhos... percebes o decoro, Menina Flor? Pior ainda é o corte de cabelos, mais curto que o dos rapazes, esse tal de “à la garçonne”. Só espero que essa vergonheira toda não nos chegue por cá! – ao que Mamã concordava – Pois estou a pressentir que isso há de ser, como nos alertou a Virgem de Fátima... o fim do mundo!

 

É que aos olhos de muitos flavienses, Paris tornara-se um imenso bordel, onde artistas, intelectuais e outros cidadãos marginais, nativos ou imigrados, exibiam em público sua libertinagem explícita, desde o Louvre aos cabarés de Pigalle, desde Montmartre aos cafés de Sain-Germain-des- Prés. Ao Porto e Lisboa, no entanto, já lá se podiam ver passar pelas ruas algumas raras pessoas de grande ousadia, veementemente execradas por todos aqueles que se abriga­vam sob o manto da grande mãe eclesial, católica, apostólica e romana. As melindrosas, os charletons e os cabelos “à la garçonne” eram ecos de um universo distante, nessa peque­na vila trasmontana, onde as jovens solteiras e as senhoras de bem (pois que, de mal, só as marafonas...) cobriam-se da cabeça aos pés. Certamente que haveriam de existir, toda­via, algumas raparigas que ficassem a suspirar por Lisboa, à moda de “As Três Irmãs”, de Checov, finas e sensíveis mo­ças da Rússia campesina que sonhavam, algum dia, partir para Moscovo.

 

De Moscovo, aliás, quem sempre trazia notícias era o pri­mo Rodrigo, malgrado algumas carrancas de Papá quando o via penetrar na sala de estar da Quinta, agora a medo de que ele, com suas ideias estapafúrdias, acabasse por corromper as cabecinhas de seus miúdos e nelas introduzisse os novos costumes dos anos 20. O rapaz abraçara de corpo e alma as ideias bolchevistas da Revolução Russa de 17 e era conheci­do por suas polémicas nos cafés do Largo das Freiras. Vivia agora a falar de um futuro em que os operários seriam donos das fábricas e dos seus instrumentos de trabalho, não have­ria mais patrões e empregados, todos seriam iguais de facto e com todos os seus direitos perante a Lei.

 

Rodrigo era denunciado várias vezes ao senhor Chefe de Polícia, pelos seus inadequados comportamentos políticos e sociais. Como ele fosse, no entanto, muito querido na cidade e o poder ainda estivesse com os republicanos, anticlericais, bem como o rapaz limitasse as suas ações apenas a palavras e, o melhor atenuante, qualquer deslize seu pudesse atribuir­-se a excessos com a ginja ou com o bom vinho, acabavam por não lhe dar qualquer seriedade.

 

Já esquecidas do incidente sobre as aparições de Nossa Senhora em Fátima, Aldenora e Florinda atiçavam o facho discursista do jovem e, de ambas as partes, as contendas ver­bais se animavam. Ele, a louvar os princípios coletivistas e as igualdades sociais. Elas, a defenderem a Santa Madre Igreja das “ideologias esdrúxulas” e ateias do rapaz. A se valerem da pronta acolhida nas mentes simples como a de Flor, os capitalistas se uniam aos curas das aldeias, para espalhar os boatos de que doutrinas como essas, que do­minavam a cabeça do jovem primo, foram implantadas por “comunistas perversos, que matam os padres, fazem mal às freiras e comem criancinhas”.

 

Às meninas Aurita e Aldenora, no entanto, encantava o facto de, algum dia, as mulheres no mundo inteiro poderem ser mais livres, independentes, trabalhar fora de casa como os homens e, até mesmo – ai que esperança, ainda, àquela altura! – eleger os governantes da pátria. Quando atiçado, porém, em suas posições anticlericais, o rapaz, que também gostava de cometer alguns versos e escrever contos, a partir das lendas colhidas na região, saía-se sempre com algumas histórias de padres e freiras. Não tão picantes, por certo, quanto as que Adelaide fazia Florinda corar de pejo, mas igualmente interessantes, como a Lenda das Almas dos Fra­des Santos.

 

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Terça-feira, 1 de Agosto de 2017

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. RESSURRETO.

Sempre que sabia algo de novo, Zefa corria a contar à menina os boatos que chegavam sobre o cigano. O rapaz já não se amancebava mais com a zíngara de Valpaços. Anda­va agora a oferecer rosas de pano a todas as raparigas de sua gente. Cada dia um lenço diferente, que ele em rosa transfor­mava. Cada dia uma nova ciganinha que, se agora dançava de alegria pelos amores do cínico aldrabão, logo acabaria por lhe prantear o desamor.

 

A isso tudo, porém, Aurora fingia dar de ombros, em um gracioso nem te ligo – amores poucos, ouvidos moucos! – e pedia que não lhe falassem mais sobre aquele tipo, já bem pra lá de esquecido. Se o visse passar pelo Raio X, quando ela fosse à janela, havia de se portar como se o gajo tivesse abraçado a Maldita e estivesse agora a usar o fato de domin­gueira, aquele com que são enterrados os que foram ungi­dos in extremis. Ainda que o encontrasse pertinho de si, era como se Hernando fosse uma caveira assombrada, algum fruto de alucinação nos cochilos após o almoço, que a ela sobreviesse por ter sabido bem (bem além da conta) uma caçarola de feijoada trasmontana ou uma generosa chanfana de porco.

 

Era como se ele fosse, enfim, alguém a quem pudessem resistir, de Aurita, as vozes da mente e os olhos do coração.

 

 

  1. PAZ EM FESTA.

Em novembro de 1919, Chaves estava em festa. Aquilo que a Pneumónica não deixara os flavienses comemorar ao seu devido tempo, agora estava a se cumprir. Festejava-se o primeiro aniversário do término da chamada Grande Guerra.

 

Como por ocasião do bendito armistício, todos estavam a correr às ruas. No Forte de São Francisco, os soldados abri­ram as portas ao povoléu e já lá estavam os vendedores de vinho com suas pipas, enquanto outros acendiam fogueiras para assar castanhas. Estavam também a chegar uns ranchos de aldeias do Barrosão, com suas gaitas, harmónios e guitar­ras. Lojas anunciavam a venda de balões do tipo veneziano ou à moda do Minho, laços de fitas com as cores da bandeira portuguesa, bandeirolas e que tais.

 

A uma das paredes da Torre de Menagem, permanece até hoje uma lápide com os nomes dos flavienses mortos em combate n’ África ou em solo francês. Àquele dia festivo, no espaço em volta da Torre, entre os canhões e as mura­lhas que a cercam e onde, hoje, há belos e bem cuidados jardins, alguns integrantes da Infantaria 19, juntamente com familiares e amigos dos mortos, punham-se a homenagear os heróis.

 

 

castelo-raim-alberto.JPG

 

Torre de Menagem. Chaves (PT). Foto de Raimundo Alberto (2010).

 

Seus nomes, caprichosamente desenhados sobre uma fo­lha de pergaminho, com tinta dourada e caligrafia cursiva, eram lidos em alta e comovida voz. A cada nome pronuncia­do, os presentes oravam: – Primeiro Cabo José Gomes – Os anjos levem sua alma até à glória nos céus! Na santa paz do Senhor! Amém! – Segundo Cabo José Pereira – Os anjos levem sua alma até à glória nos céus… – Soldados José e António Exposto – Os Anjos levem sua alma…

 

No Jardim Público, na Madalena, no Arrabalde, no Tabo­lado, para já se viam as vendedeiras a improvisar barracas, onde ofereciam rissóis, milho cozido, bolos de bacalhau e do que mais houvesse para o bem comer. Outras vendiam sumos de laranja, feitos de pronto. Outras mais, ofereciam bebidas novas, industrializadas.

 

Anunciava-se no jornal que a Banda da Infantaria 19 iria tocar no Jardim Público, ao entardecer, um repertório espe­cial: “Marcha Portuguesa”, de Soller; “Os Murmúrios do Mondego”, de A. Souvinet; “Un jour de fête”, Ouverture, de Scweinsberg; “Un ballo in maschera”, de Verdi; “La Divina Comedia – Il Inferno”, de S.Fiorenzo; “Las Bribo­nas”, zarzuela de R. Callega; “Danse des Bachantes”, de Gounod; “Peer Gynt – Suite 1”, de Grieg; e mais algumas marchas e valsas.

 

Na Praça Camões, parentes e aderentes, amigos e conhe­cidos, davam-se abraços e se punham a comentar a terrível crise económica que se abatera sobre Portugal e quase toda a Europa, após findar a terrível guerra.

 

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