Terça-feira, 16 de Janeiro de 2018

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. PEDIDO.

 

O clima ansioso do encontro pôs-se ainda mais acentuado após a sobremesa, antes que os homens passassem ao pequeno escritório doméstico e as mulheres à sala de estar, a fim de lhes saberem bem o vinho do Porto, os licores e o café.

 

Enquanto Aldenora dirigia seus olhos à alvura da toalha, os mais entreolhavam-se, curiosos. Ao presumível noivo, dirigiam-se os demais olhos ali presentes, com discreta intermitência.

 

Eis então que o rapaz, a suar bem mais, naquela fresca primavera trasmontana, do que um pescador no verão das colónias d’África, após um olhar de soslaio para o sisudo dono da casa, levantou-se de chofre e – Exlecentíssimo... Extelentíssimo... Ex-ce-len-tís-simo senhor João Reis Bernardes, Ex-ce-len-tís-sima senhora dona Florinda, senhor meu Papá, senhora Mamã, me...me...menina Aldenora e todos que estão cá... cá... ne...nesta noite es... especial, a com... compartilhar connosco o vinho e o cão...digo, o vinho e o pão... eu... eu...faz favor, senhor meu pai! Gostava que por mim falasses...

 

Após alguns pigarros teatrais, o pai do pretenso noivo tomou a palavra – Deixa estar, meu rapaz, vou falar por ti, mas, por certo, não vou falar por teu coração, ora pois que esse.... ô meu prezado João Reis, vamos andar com isso de uma vez. Ora pois, pois! Já todos estão a saber por que raios de motivo é que nós todos cá viemos. Meu menino pede a mão de tua filha, a bela e prendada Aldenora, para...para... mas por agora, que fales tu, de novo, e por ti mesmo, ó António Sidónio!

 

O rapaz, ainda mais nervoso – Eu...eu peço a sua bênção, senhor João Reis Bernardes, para que eu... eu quero um sincero compromisso com a menina Aldenora e, portanto… – fez uma pausa e, na ocasião, por estar muito emocionada, a noiva não atentou para o resto – assim que eu… que eu concluir meus estudos, vamos dar corrida aos banhos na Cúria e aos preparos de nosso... nossa futura união, pelos laços sagrados do matrimónio. Ufa! – sentou-se e o pai arrematou – Ufa, digo-te eu. Mas ora pois que falado foi e, portanto, falado está. Tem que ser! Ouçamos agora o que diz a rica menina e o venéreo... ai que me perdoem... o venerável senhor seu pai!

 

A um ato cénico previamente estudado, João Reis deixou passarem correndo, em maratonas pela sala, alguns segundos de silêncio. Enfim – Gostava que me respondesses, ó filha, se te afeiçoas a este menino, filho de nosso prezado Professor António Sidónio de Castro Cordeiro – e a rapariga respondeu, quase em um sussurro – Sim, Papá – e ele – Ora pois… não digo menos disto. Estamos concertados – e, a brindar – Cá vai! À saúde dos noivos! – ao que os mais ergueram suas taças e copos – E de todos nós! – enquanto os manos de Nonô e sua futura cunhada, a baterem com as colheres nos pratos, faziam ecos da alegria geral. Só então a noiva ergueu, enfim, os olhos para o amado. Já que os lábios ainda eram, àquela altura, reprimidos pela sharia cristã, as pupilas de um e de outro, a quem nenhuns podiam negar a liberdade, trocaram entre si muitos, muitos e muitos beijos, molhados de emoção.

 

Aos dias que se seguiram, Aldenora era uma ansiedade só a que chegasse cada sábado, o dia autorizado para que o rapaz visitasse a noiva. Eram tardes ansiosamente esperadas por Nonô, a se esmerar nos melhores vestidos e, quando não fosse o xaile habitual à cabeça, ornava os cabelos com laçarotes ou flores, além de outros adornos próprios das raparigas. Nesses encontros, como já vimos ser de praxe e assim mandarem os bons costumes, os pombinhos jamais eram deixados a sós. Fosse Mamã ou uma das filhas, alguém sempre estava a servir de guardião da moral familiar.

 

À noiva, gostava que sempre fosse Aurora a cumprir tais funções. Com esta irmã, apesar das constantes briguinhas e competições que mantinham entre si, desde miúdas, Aldenora sempre conseguia alguma cumplicidade, a lhe favorecer ao menos um entrelaçar de mãos e alguns rápidos beijinhos às faces. As outras manas também fechariam os olhos, mas não as bocas. Correriam a reportar tudo que ali se passasse à Mamã, menos por maldade, mais por falta do que fazer. As cândidas carícias, porém, eram para os dois jovens o motor que os fazia vislumbrar, cada vez mais, as sendas para o ungido e abençoado leito conjugal...

 

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Terça-feira, 9 de Janeiro de 2018

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. JANTAR DE NOIVADO.

 

Não demorou que chegasse aos ouvidos de Florinda o boato, logo após confirmado, de que uma de suas meninas estava aos namoricos com um dos moços de maior conceito, entre os casadoiros da cidade. Apressou-se João Reis a ter com António Sidónio pai e este que, além de ser homem de muitas propriedades, exercia o insigne cargo de diretor do seu próprio estabelecimento de ensino em Chaves, logo chamou o filho às falas. Perguntou-lhe sobre as reais intenções do rapaz para com Aldenora. Ora, pois, que a rapariga era filha de um conceituado comerciante da vila e, tanto a ela quanto ao pai, devia-se o máximo de respeito e sincera consideração.

 

Tão logo sabidos os enlevos do filho para com a moça, o senhor Sidónio pai acabou por concertar com o Reis um jantar para as duas famílias, na Quinta Grão Pará. Pediu então a sua esposa, dona Joaquina, que mandasse confirmar com dona Flor o dia e a hora de tão importante evento.

 

Mamã aviou-se com a Maria e a Zefa, de tudo que estavam a precisar. Ao jardineiro a dias, sob a supervisão de Aurora, ordenou que deixasse bem cuidados o pomar e o jardim, neste em qual, a essa altura, a filha continuava a plantar amores-perfeitos.

 

Brancos.

 

Além de contar com o Manuel de Fiães, Florinda mandou chamar Crispina Bobadela, de Sant’Aninha de Monforte, para ajudar na limpeza e na cozinha. A proferir várias vezes – Ai-jesus, ai que eu de nada me esqueça! – não deixou de tomar todas as precauções para que o jantar saísse a contento de João Reis, dos convidados, de todos, enfim. Um peixe à moda da Amazónia... ai que, lá isso, era o que mais Florinda gostava de oferecer aos Cordeiro, mas já lhe escasseavam alguns dos condimentos especiais que, de quando em quando, seus parentes brasileiros enviavam de Além-mar (e só alguns resistiam à longa travessia).

 

Mandou buscar muitos pêssegos, figos, uvas e maçãs para ornamentar a bela fruteira de prata e cristal, que a madrinha de Flor lhe dera, como prenda de casamento. Encomendou um cabrito e algumas perdizes. Prepararam-se alheiras, aviou-se o presunto de São Lourenço e não foram esquecidos o queijo curado de ovelha, as compotas caseiras de morangos e a torta de maçã com uvas passas, para servirem de sobremesa.

 

Para cobrir a imensa mesa de nogueira da sala de jantar, tirou-se do baú uma bela toalha, que Flor trouxera de seu torrão natal, confecionada por mulheres rendeiras do Ceará. Veio também desse baú o extenso naperão de linho, bordado a fios de seda, bem como os guardanapos, finamente tecidos por senhoras da Ilha da Madeira. Lavou-se toda a delicada louçaria de porcelana de Vista Alegre, mais as taças e cálices da Boémia e o galheteiro de cristal, com adornos em níquel. Foram lustrados, até brilhar, os açucareiros e bules de prata para o café.

 

Reis abriu um armário do escritório e de lá retirou, para deixá-lo à mão, uma caixa de havanos ainda fechada, com os puros que havia de oferecer ao Professor António Cordeiro e ao menino Sidónio, por já ser este, agora, um homem feito para o mundo.

 

E para Aldenora, sua filha.

 

Jantou-se no silêncio austero das gentes flavienses de então. Cabrito e perdizes estufadas, posta barrosã com batatas a murro, trufas recheadas com presunto de Chaves, um ror de pratos! Aqui e ali, ouvia-se baixinho uma ordem ou outra às criadas, a que servissem de novo água e vinho aos convidados, sempre que a estes lhes apetecessem. Após os talheres se cruzarem nos pratos e anunciarem, solenemente, com suas vozes de tinidos de metal, que todos à mesa estavam bem servidos, dona Joaquina Cordeiro e a toda amável Florinda começaram a falar sobre a próxima inauguração da estação de comboios, ligando Chaves por via férrea ao Porto e a Lisboa, quiçá ao resto do mundo. Reis e Cordeiro pai trocaram alguns comentários sobre novidades políticas ou financeiras de interesse geral.

 

Tristes novas eram os mistérios que ainda cercavam a morte trágica do doutor António Granjo, em um golpe envolvendo civis e militares, na chamada Noite Sangrenta de Lisboa, em outubro do ano anterior (1921). Vários políticos do Governo, tal como esse notável flaviense, foram assassinados em uma só noite, em condições e motivações nunca inteiramente esclarecidas, talvez por elementos ligados aos adeptos da monarquia e, como alguns diziam àquela altura, com o velado apoio da Igreja.

 

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Terça-feira, 26 de Dezembro de 2017

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. BROTAR DE NOVO.

 

Nesse entremeio, ao se afastar um pouco de seus familiares, Aurora notou, diante do mal cuidado chão do Forte junto às muralhas, onde o mato crescia rasteiro e há muito tempo sem corte, que umas senhoras estavam a colher uma plantinha silvestre. Ao se aproximar delas um pouco mais, constatou ser uma espécie de funcho. A pensar em seu querido Papá, que às vezes ficava indisposto por alguns excessos à mesa, Aurora se uniu ao grupo de mulheres para colher os fiolhos, com os quais se faz um chá, ótimo remédio para o fígado.

 

 Foi então que deu com os olhos ali, bem pertinho de si, em alguém que, há tanto tempo, não via sequer à Estrada do Raio X. Assim que viu o seu garboso Hernando, a conversar alegremente com os músicos de um rancho de Selhariz, um tornado começou a se formar no coração da rapariga, para lhe varrer da mente tudo o mais em volta. Aquele amor interdito havia deixado raízes de profunda fixação, a que os ceifeiros da ordem social e familiar podiam fazer a poda, mas logo voltariam a brotar.

 

Por sua vez, ao avistar a menina, Camacho foi-se chegando com um ar bem casual e lhe falou à mansa, como quem está de repente a passar por ali – Olá, brasilita, como estás – ao que ela – Estou bem, graças ao bom Deus, e tu? – Não te fazia aqui, por estes sítios e romarias – Pois cá estou, vim com os meus – Ora, ora, como a menina se pôs! – e ela pensou, para si mesma – Ora, ora, e que diabo de bonito se pôs esse moçoilo!

 

Ficaram então a se fitar, olhos nos olhos, por um instante menos que breve e mais do que infinito. O bastante para que toda a energia da paixão, escondida em alguma célula secreta do corpo de Aurora (no coração, por certo, não à mente), brotasse de novo, ficasse a girar qual uma hélice de aeroplano e voltasse a se empinar, como a um papagaio de papel em céu especial. Um céu que se estava a criar logo acima dos enamorados, a se verem, de pronto, em um jardim de amores-perfeitos gigantes, multicores e incrivelmente perfumados, emoldurados por raios de sol e um arco-íris brilhante, com elfos e gnomos a cantarem e a transportá-los para outras fantásticas dimensões do universo. Tudo isso a celebrar com eles esse amor que se revelara como tal à primeira, segunda, enésima vista.

 

Por se acharem fora do campo de visão do Papá, ao outro lado da capela, com Reis e os mais a se concentrarem na música e nos pares de dançarinos, que volteavam com alegria no tablado, Hernando e Aurita conseguiram a súbita ventura de ficar juntos por uns bons e esquecidos momentos. O bastante para concertar um novo encontro. Ela percebeu então que, de um modo efetivo, definitivo, mas certamente aflitivo, estava perdidinha de todo por aquele guapo cigano.

 

Entrementes, Florinda começou a se queixar do sol e de estar um calor de matar, em plena primavera. Às meninas, aborrecia a poeira que se levantava do solo, com a correria dos miúdos. Ao Reis, incomodava o intermitente passa, passa, de romeiros, às levadas. No mais, o vinho, que rolava solto para as goelas dos festeiros, já estava a produzir seus efeitos em inconvenientes borrachos. Rusgas se iniciaram aqui e ali, embora logo acalmadas. Tais discussões surgiam da defesa de cada rancho pelos companheiros de sua aldeia, a se rivalizarem no dizer quem, qual e quanto dançava ou cantava melhor.

 

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Outro rancho na Festa de N. S. das Brotas. Chaves (PT). Foto de Raimundo Alberto (2010).

 

De repente uma pessegada, com pancadaria da grossa, começou bem pertinho de onde estavam Aurita e o Camacho. Os ecos chegaram até ao patriarca. Foi a gota d’água para que ele convocasse os seus a tornarem à Quinta.

 

Enquanto Afonso ia dizer às barrosãs, ora entregues a gostosos cavacos com uns violistas de Cela, que os Bernardes já estavam a partir, mas que elas podiam se tardar no Forte um pouco mais, desde que chegassem a pronto de servir a ceia, Aldenora foi a primeira a chamar a atenção para outra desgarrada – E a Aurita, Papá?

 

O pai procurou-a até onde a vista pudesse alcançá-la – Com mil diabos, onde será que essa menina se meteu? – mas logo avistaram a rapariga a correr, célere, para junto dos seus. Aurora parou diante do patriarca, fitou-o com os “meigos olhos de amansar tojos”, como diria Miguel Torga, e murmurou suavemente – Estava a colher fiolhos. Para o senhor, meu pai!

 

 

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Terça-feira, 19 de Dezembro de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. FESTA DAS BROTAS.

 

O Forte de São Neutel é uma construção quadrangular com quatro baluartes, rodeada por um largo fosso, construída no século XVII para defesa das fronteiras de Chaves. Foi palco de muitas lutas entre portugueses e espanhóis e, nos combates de 1912, entre republicanos flavienses e os monárquicos, advindos de Verín. Na parte interna e central da fortificação, dentro de um pequeno templo de 1661, anterior à criação do próprio forte, a imagem do santo titular, no altar-mor, divide as honras com Nossa Senhora das Brotas, reverenciada em uma pintura que foi disposta a uma parede lateral da capela.

 

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Forte de São Neutel. Chaves (PT). Foto de Raimundo Alberto (2010).

 

A festa em louvor da Santa, geralmente em abril, é uma das mais antigas devoções e um dos mais concorridos festejos populares de Chaves e de todo o Concelho. Assim como outras tradições remanescentes na região, essa seria, possivelmente, uma apropriação pela Igreja Católica de cultos pagãos realizados no local, desde tempos imemoriais, em honra de Ceres, a deusa da agricultura. Já era, portanto, celebrada aos tempos do Império Romano, muito antes do advento da nova religião, surgida na Palestina e, só muito tempo depois, graças a um ato de grande esperteza política do Imperador Constantino, por ele institucionalizada, quando, então, as tradições pagãs existentes em todos os rincões do Império romano foram suprimidas ou, a melhor dizer, adaptadas para os rituais cristãos.

 

As Cereálias, dentre as mais belas festas religiosas dos romanos, eram celebradas ao início da primavera, com jogos, festins e peregrinações, para o económico propósito de conseguir abundantes colheitas, principalmente as dos cereais, bem como agradecer a Ceres pela abençoada fertilidade do solo. Daí Brotas, de brotar, germinar.

 

Na festa de Nossa Senhora das Brotas, àquele mesmo ano de 1922, João Reis quis relembrar os seus tempos de adolescência quando, ao domingo e segunda-feira de Pascoela, ia com a família inteira participar da romaria e dos festejos de Nossa Senhora. Decidiu nesse ano, portanto, levar todo o seu clã ao Forte de São Neutel.

 

Nesse dia e lugar, Aurora viu brotar das cinzas a sua Fénix tão especial.

 

Desde o “Nicho dos Fortes” até ao Forte de São Neutel, a romaria deu-se pela manhã. O espaço ao ar livre, em volta da capela, dentro da fortaleza, em cujos subterrâneos funcionava, então, a cadeia local, achava-se franqueado ao público.

 

O contingente de romeiros era bem numeroso, formado pelos cidadãos da vila e os que, a pé ou em carroças, provinham de várias aldeias, algumas bem distantes. A maioria já trouxera suas provisões para a merenda, seus farnéis de pães, queijos, cabritos cozidos, leitões assados e outros repastos, além, é claro, das duas maiores celebridades gastronómicas de Trás-os-Montes, os saborosos presuntos de Chaves e o folar. Tudo isso regado a vinho, muito vinho e, para tal fartura, já lá estavam, a postos, junto às poucas árvores do entorno, os vendedores a tirar de suas pipas, em canecos de barro ou de metal, o néctar dos deuses. Outros vendiam sumos de frutas, castanhas cozidas e o mais.

 

Após a última prece em volta da capela, começou a diversão, com as cantorias e danças folclóricas da região trasmontana. Para assistir aos folguedos, Papá e seu clã, no qual Zefa e Maria se achavam incluídas, acomodaram-se entre os que tiveram a sorte de conseguir assento em uma das escadarias que circundam a capela, enquanto sobrava, à maior parte dos mais, sentar-se à relva ou ao chão batido. Eram magotes de amigos e parentes entre si, famílias inteiras, pessoas que há muito não se viam.

 

 

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Plateia da Festa de N. S. das Brotas. Capela no Forte de São Neutel. Foto de Raimundo Alberto (2010).

 

Florinda e os seus deliciavam-se com as apresentações de ranchos tradicionais da região. Sobre um rústico tablado, exibiam-se os integrantes de cada conjunto, proveniente das aldeias trasmontanas. Com suas roupas típicas de domingo, algumas bem coloridas e com muitas fitas e rendas nos vestidos, cantavam ou dançavam ao som de seus próprios músicos, com as respetivas gaitas, harmónios, guitarras e outros instrumentos musicais.

 

Os grupos só de cantorias eram, em geral, compostos apenas de alguns tocadores e cantantes. Os de dança, porém, às vezes bem numerosos, eram formados por várias pessoas da comunidade aldeã, de todas as idades, embora, na maior parte, jovens e crianças. Chegavam todos juntos e enfileirados ao tablado, tendo uma criança ou uma senhora, algumas vezes bem idosa, a portar o estandarte com as cores e o nome da aldeia. Os pares entregavam-se a diversos tipos de danças da região ou mais peculiares à sua freguesia – Cela, Sanjurge, Vilarelho da Raia…

 

Quando o rancho de Santo Estêvão, ao final de sua apresentação, convidou quem quisesse subir ao tablado, para dançaricar com os seus integrantes, Aldenora e Aurélia imploraram ao Papá que lh’as deixasse participar do folguedo com os belos rapazes, mas João Reis – De jeito nenhum! Não quero “trigo do meu forno na boca de cães”.

 

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Rancho na Festa de N. S. das Brotas. Chaves (PT). Foto do Autor (2010)

 

 

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Terça-feira, 12 de Dezembro de 2017

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  1. “LAUS AMORIS”.

 

Seguiram-se outros breves encontros, com os pombinhos a se aproveitarem das oportunidades da sorte, uma vez que, naquele tempo, os namoros só eram bem vistos quando encarados com uma seriedade pré-nupcial.

 

O moço das belas suíças estava sempre elegante, em seu fato de linho, a portar consigo um vistoso Swiss Tissot, preso a uma corrente de ouro, a qual se estendia de um dos bolsos do colete até à algibeira. À cabeça, tinha habitualmente um charmoso chapéu comprado ao Porto. Ele que, até então, tal como os demais rapazes da Vila, restringia sua religiosidade às missas dominicais e a ofícios em datas festivas, mostrava-se agora um fervoroso devoto, a marcar sua presença em novenas, rezas, ladainhas e que tais, em tudo, enfim, a que a sua amada estivesse presente.

 

Nonô, por sua vez, entregue a esses atos piedosos com real sinceridade e constância, entrara para a congregação das Filhas de Maria na Igreja Matriz, onde cantava ao coro. Acabou por ganhar aquilo que, após os números de mágica, vinha sendo negado à mana Aurita: a confiança de Papá. Vivia saindo de casa, agora, com uma frequência nunca antes permitida, aldemenos que fosse de casa para a igreja e da igreja para casa, e sempre junto de sua fiel escudeira Sancha Maria Pança de Tourém. Por ordens de Mamã, a criada acompanhava a beatífica menina às reuniões vespertinas na igreja, para esta se dedicar às orações e obras de caridade (agora, na caridosa companhia de um recém-beato). Graças a doces afagos verbais e à promessa de um manhuço de réis, Maria sempre deixava que a menina, à saída da igreja, demorasse um pouquinho mais para usufruir de alguns momentos de boa conversa com Sidónio.

 

Os namoradinhos passaram a trocar bilhetes, em que falavam do mais puro amor, como nestes versos que um dia o rapaz, em sua melhor caligrafia (a possível) e de acordo com a ortografia da época, dedicou à sua amada:

 

“A vida é cheia de trevas e de frio.

Só se bebe fel, só se pisam ´spinhos.

Cahem de cima os vendavaes a fio

 Estão cheios d’ abysmos os caminhos

E por todo esse mundo só achamos

Miseráveis e nus os pobrezinhos.

 

 

Por isso se na vida deparamos

Com um amor singello, casto e puro

Paremos, porque o céo já alcançámos.

O amor é o alto e inabalável muro

Contra o qual não prevalece o pecado,

Nem inveja ruim, nem jogo impuro.

 

Seja, por isso, o amor sempre louvado!”

 

Assinou apenas “António”. Tratava-se, todavia, do poema “Laus Amoris”, copiado a um jornal de Chaves e seu verdadeiro autor era um outro António, o Granjo. À altura da escrita desses versos, o poeta era, então, um jovem estudante flaviense em Coimbra, mas já prosseguia em sua obstinada atuação política a favor dos ideais republicanos.

 

A um dos raros bailes em que o Papá concedia que as filhas prestassem o brilho de seu comparecimento, os da Sociedade Recreativa Flaviense, Nonô estava a dançar com Sidónio, ao som da valsa de Armando de Pinho Dias “Os teus sorrisos”, quando o rapaz mirou-a bem nos olhos e disse – Amo-te. Quero que sejas minha companheira para todo o sempre, sob as bênçãos de Deus e dos homens – e Aldenora apertou a mão do rapaz que, a bailar consigo, já a mantinha entrelaçada à de sua jovem parceira – Também te amo, mas sabes que uma rapariga que tem família não é senhora de si. Hás de falar com o Papá – Falarei sim, com ele, com tua Mamã, com Chaves inteira, com Portugal inteiro. Ao mundo inteiro, enfim, gostava de dizer, em alto e bom som: amo-te! Amo-te! Amo-te!

 

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Terça-feira, 5 de Dezembro de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. PRETENSORA.

 

Aldenora valeu-se do pretexto de ir até ao irmão, a perguntar de que riam tanto e nem ao menos se deu conta de sua tamanha ousadia. Estava a sair do grupo de raparigas e a se fazer intrusa no restrito e tradicional espaço masculino. Tal ato, certamente, poderia causar maledicências às suas costas ou, até mesmo, redundar-lhe em um baixo conceito social. O estratagema deu certo, no entanto. Afonso apresentou a irmã a António Sidónio e os pombinhos logo se viram a sós. Após um pequeno iceberg de titânico silêncio, os barcos de cada um singraram as águas aquecidas pelo mútuo encanto e, de imediato, puseram-se os jovens a palestrar, com as bocas e as palavras soltas, a deixarem fluir o que, antes, a timidez dos olhos apenas esboçara.

 

Enquanto alguns miúdos, como inoportunas osgas ou lagartixas, passavam aos corre-corres por entre o jovem e a bela rapariga, antes que seus papás respetivos lhes aplicassem uns generosos cascudos para se aquietarem, Nonô punha-se a trocar com Sidónio algumas ideias de interesse mútuo. Os breves instantes (assim diria o rapaz a Afonso, mais tarde) foram suficientes para lhe revelar que a menina era dotada de um admirável lustre intelectual. Esse era um dote incomensurável, mais raro do que a simples beleza, pois, ao contrário desta, não era fácil encontrar amiúde, entre as arcas de enxoval das jovens flavienses, um mínimo de erudição.

 

Ao contrário de Aurora, com sua paixão e sensibilidade à flor da pele ou, conforme já mencionamos, a sentir pela cabeça e a pensar com o coração; diversa de Aurélia, que não queria crescer nunca, feito um Peter Pan de saias; e posto que Arminda ainda estivesse a se pôr, para que dela já se pudesse analisar o jeito de ser; Aldenora era de uma personalidade forte e determinada, especialmente nos modos de controlar suas ações e emoções e de conciliar pejos com desejos. Quando percebeu que já estava a conversar mais tempo do que devia com o jovem Sidónio, pediu licença e voltou ao sítio das meninas. Não tivesse o rapaz um mau juízo dela, menos ainda se ele a comparasse a essas estrangeiras do novo século, a que tanto o Papá costumava aludir, após a ceia.

 

Era sobre isso, a uma outra roda formada por respeitáveis cidadãos de Chaves, que João Reis estava a comentar, naquele exato momento, com base no que estivera a folhear em um jornal do Porto. Exaltava-se – O que estão a querer, por certo, essas raparigas libertinas a fumarem, beberem e de tudo falarem às escâncaras, como os homens? Alcançar que elas venham a ser iguais a nós, ou, o que seria uma tontice bem pior... superiores?! – ao que outro convidado concordava – Uma imoralidade!!! – e outro mais suspirava – É, desses modos e feitios, para onde vai este mundo?! – uma vez que se fazia questão, ora pois, de se preservarem na Vila as boas tradições e os bons costumes.

 

Eram, certamente, posições avessas aos ares de liberação desses anos 20, quando se iniciavam tantos avanços femininos que, por algumas mulheres carismáticas, em suas reflexões sobre a vida e o modus vivendis, seriam defendidos em várias partes da Terra. Com o seu livre pensar e agir liberto, algumas se tornariam famosas nessa década, como Dorothy Parker, Anaïs Nin, Zelda Fitzgerald, as brasileiras Pagu e Chiquinha Gonzaga, a mexicana Frida Kahlo e, entre as portuguesas, a alentejana Florbela Espanca. Decerto que, a seguirem os passos de tais pioneiras, tais ventos libertários estariam ainda muito longe de arejar por aquelas paragens trasmontanas.

 

Ao resto da noite, não deixaram Aldenora e Sidónio de se entrecruzarem as pupilas e, com elas, exibirem um brilho especial de encantamento. Recíproco, pois. Quando, à hora de se fazer um brinde ao aniversariante, os dois ficaram lado a lado, por alguns instantes, com suas mãos a se roçarem levemente, ele murmurou – A que missa vais, aos domingos? – Sem lhe ver a face, ela sussurrou – À do meio-dia, na Santa Maria Maior.

 

 

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Igreja de Santa Maria Maior. Postal público. Autor desconhecido.

 

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Terça-feira, 28 de Novembro de 2017

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

83.PRETENDIDO.

 

Eis que, então, a uma festa familiar, Nonô conheceu um dos melhores pretendentes ao altar em Chaves, o jovem António Sidónio Cordeiro Filho, rebento de uma das mais proeminentes famílias flavienses, pois seu pai, apesar de rústica postura e aparência de um pobre aldeão, era dono de uma instituição de ensino local. Era um atraente rapagão que, embora um pouco flácido, tinha um belo porte. Seu rosto era emoldurado por belas suíças, ornado por bem aparadas sobrancelhas, apurado com densos e bem cuidados bigodes e uma cativante mosca, abaixo dos lábios, queixo liso, sem pera.

 

Seu pai e dona Joaquina, sua mãe, eram compadres e amigos da tia Francisquinha que, nessa noite, abria os salões de sua casa à Rua da Pedisqueira, para festejar os 21 anos de seu filho morgado e, portanto, primo de Nonô. Tão logo a viu, o Cordeirinho retesou a sua flecha de lã, em seu arco de conquista, na direção da rapariga. Tão logo viu o rapaz, também o miocárdio de Aldenora acelerou-se com uma forte, aguda e repentina paixoneta.

 

Aurora, ao perceber os arroubos da irmã, sorriu – Ai-jesus, pobre Nonô! Estás a ser flechada pelo anjinho do Amor! – ao que esta contestou, indicando seu alvo com o olhar – Mas não está a parecer-te, também, que alguém mais já está envenenado pelo curare de Cupido?

 

Sidónio, a participar de um desses grupos só de homens que, até há algumas décadas, sempre ficavam à parte, em ocasiões festivas, também ficara, com indisfarçável frequência, a mover seus olhos pelas trilhas do enlevo até aos de Aldenora. A rapariga decidiu, então, aproveitar-se de algum instante oportuno para acercar-se dele. Tal hora chegou, por sorte, quando ela viu Afonso juntar-se ao grupo, atraído que este fora por alguns motejos que, na ocasião, os circunstantes trocavam entre si.

 

Falava-se, no momento, que a Câmara deveria proibir o tráfego das carroças que carregavam estrume pelas ruas da cidade. Eis que, na véspera, certo jovem flaviense, (na verdade, um dos circunstantes, indicado com explícita malícia pelos outros moços, por meio de olhares marotos e de viés) havia-se perfumado todo para ir à casa de sua noiva, com a qual já tinha alguma intimidade, ainda que, certamente, apenas verbal.

 

Ao chegar lá o moço, todo pimpão, a rapariga murmurou, de chofre – Que cheiro! – e ele – Gostas? – A noiva respondeu, cheirando-lhe o pescoço – Do cheiro de cima, sim, mas o de baixo... Por onde andaste? O que fizeste, para estar assim, desse jeito? – E, diante do olhar surpreso do rapaz – Porque estás, afinal, a feder tanto?! – o que deixara o dito cujo bastante constrangido, encarnado como um pimento, até compreender que ela – Mas o que deu em ti? Estou a me referir aos teus sapatos, ora pois! Não vês que hão de estar assim, tão borradinhos, sujinhos de bosta de vaca?!

 

Os circunstantes riram com bastante gosto, inclusive o protagonista, a tentar negar, de todo modo, que o facto ocorrera com ele próprio.

 

 

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Terça-feira, 21 de Novembro de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. PRETENSÃO.

 

Sobre os tratos e contratos entre homens e mulheres, era bem diverso o pensar de Aldenora. A terceira dos filhos de Flor e João Reis tinha cabelos castanhos, sedosos, coxas e pernas bem torneadas e seu rosto, tal como o de Aurora, também lembrava as melhores expressões pictóricas da Virgem. Era não só muito formosa, quanto a mais inteligente das irmãs. Em contraste, era possuidora de um temperamento difícil no trato com as criadas e com os mais, inclusive os próprios familiares. Suas rusgas só não eram mais frequentes com os outros, porque ela mesma procurava controlar-se, graças às boas maneiras que havia adquirido e à sólida educação que os pais lhe proveram.

 

Tais predicados, igualmente, Aurora e os irmãos também já o tinham, desde a infância. Uma postura de nobreza e refinamento que, no exagerado dito popular, costumava dizer-se – São coisas que vêm do berço – assim, as meninas de Reis eram dignas de elogios pelas matronas de fina classe, as que integravam a restrita sociedade local, ainda que os Bernardes pouco a frequentassem.

 

O caráter forte, por vezes autoritário de Nonô (sua alcunha de infância), contradizia, no entanto, com outro aspeto de sua personalidade. Era romântica. Talvez isso adviesse de ter lido muitos folhetins, publicados em magazines que a Mamã mandava buscar ao Porto, da mesma forma que as coleções de contos e novelas direcionadas a raparigas de boa família.

 

 Também contribuíam para tal romantismo as obras de alguns autores, portugueses ou não, mas de melhor qualidade literária. Eram livros retirados com ardileza da biblioteca de Papá e lidos às esconsas. Depois Nonô os repassava para Aurita, ensejando a que esta desfrutasse, igualmente, da boa leitura de excelentes textos que se fizeram proibir pelos curas e, consequentemente, pelos pais de família. Dessas obras proscritas, as que mais interessavam às raparigas eram as que falavam de amores complicados, como “Ana Karennina”, de Tolstoi ou a “Madame Bovary”, de Flaubert.

 

 

 

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Terça-feira, 14 de Novembro de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. O ÁLVARES.

 

Quando o Álvares foi, pela primeira vez, à Quinta Grão Pará, a menina Aurora escolheu o trajo mais feio que, dentre os seus, assim lhe parecia. Pediu a Zefa de Pitões que lhe (des)ornasse os cabelos com horrendos carrapitos e, a si mesma, maquilhou com tanta brancura, quase a gastar por inteiro o pó d’arroz “Rainha da Hungria”. Estava mesmo a se parecer com uma régia dama; não, porém, a nobre magiar da caixinha de talco, mas sim a falecida Inês de Castro, aquela que em morta foi Rainha.

 

Tais cuidados (ou descuidos) não fizeram com que o Álvares caísse em desistência. A beleza de Aurora era um luzir de pirilampos que, sempre, a escuros e obscuros momentos, haveria de brilhar. Entre goles de chá da Índia e as bolachas com o néctar secreto da Mamã, o viúvo de poses comportadas, mas com olhos lascivos, não tirava suas pupilas da menina pretendida. Naquele comenos, já a considerava sua, no papel e com água benta, destinada a cuidar de si e de seus haveres, inclusive os da carne, para o quê, nas melhor das intenções (das quais o Inferno está sempre cheio), Papá colaborava – Como sabes, Aurita, pois sobre isso já falamos, gostava que dissesses, ao senhor Álvares, se queres que ele assuma contigo os sagrados compromissos do matrimónio.

 

Por alguns segundos, Aurora fez suas meninas vestidas de azul olharem para baixo e fecharem as cortinas de suas janelas. Papá, Mamã e o pretendente puseram-se em penosa expetativa. Finalmente, as meninas desceram até aos lábios e os entreabriram como cortinas, levemente – O senhor Álvares é um homem muito bom, até me agradava sua afeição como marido. Mas espero que não me queira mal, nem ele tenha isso, assim, por uma... uma desagradável desfeita. Ainda não me quero casar – o que fez João Reis fechar a cara, a estremunhar seu visível aborrecimento. Florinda falou à filha, baixinho – Que estás a querer, minha miúda? – e, à moda brasileira – Ficares no caritó?

 

Após um embaraçoso silêncio, Álvares lhe veio em socorro – Ora deixe estar, a menina deve saber o que diz. Além do mais, hoje em dia, não é bom casar uma filha, se dela não forem suas vontades, não é mesmo? Isso era coisa d’antanho. – Pegou seu chapéu, o sobretudo e o guarda-chuva, agradeceu pelo chá, as bolachas e as broas, renovou o boa-tarde a todos e lá se foi, pela Estrada do Raio X, murcho como aquelas ginjas curtidas em aguardente, de uma famosa portinha ao Rossio, em Lisboa.

 

Alguns anos depois, casou-se com uma galega de boas banhas no corpo, boas carnes na cama e bons temperos na cozinha. Isso tudo o fez se esfalfar demais e se estofar nos excessos, tanto os amorosos quanto os culinários, o que, possivelmente, foi a causa de vir a falecer de apoplexia fulminante, tal-qualmente (assim comentava-se) ocorrera com o marido de Adelaide. A morte do Álvares, inclusive, foi em situação (e posição) inusitada, pois o médico, chamado às pressas, encontrou-o no leito conjugal em tal descompostura, que isso tornou-se motivo de comentários jocosos às rodas masculinas e, em alguns ambientes restritos, às femininas.

 

 

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Terça-feira, 7 de Novembro de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. CINEMATÓGRAPHO.

 

A Florinda, dentre os “films” que mais lhe encantaram, foram as cenas dramáticas de “O Contrabandista do Álcool” ou “Alma Mater”, as peripécias cómicas da “Noite de Núpcias de um médico” ou as “Aventuras do professor” e mais os flashes da vida real, como os animais no Jardim Zoológico. Já no início da sessão, um comboio, que parecia vir na direção dos espetadores, fizera a todos abismar. Alguns até recuaram de medo, sobretudo os miúdos, a causar frouxos de riso na plateia.

 

Como iria fazer, posteriormente, de acordo com o já narrado, em relação aos frequentadores habituais de teatro, João Reis, àquela altura, ficou a reclamar daquilo que, ao seu modo de ver, fazia necessária alguma repressão. Tratava-se de certa parcela do público, cujo comportamento deixava muito a desejar. Outro cronista já estivera mesmo a comentar, em um dos jornais flavienses: “Um forasteiro que vá ao Cinematógrapho, poderá julgar que está ao sertão d’ África e não numa terra civilizada. A troco dos poucos vinténs com que pagam os bilhetes, os espectadores julgam-se no direito de praticar toda espécie de desmandos, desde a piada grosseira e soez, até ao batuque dos pés, a revelar uma tendência asinina muito a lamentar. Se o piano deixa de soar, um segundo que seja, logo uma gritaria se levanta - ‘Sanfonia! Sanfonia!’- Cafreal de estupidez e ignorância! Se às vezes a fita escurece um pouco, porque na cena se apagou uma luz, ou porque um comboio vai passando n´um túnel, surgem logo os protestos – “Mais claro! Mais claro!” – incompreensão de verdadeiros selvagens. As mais pueris cenas de amor são sempre sublinhadas com dichotes de uma crueza que revolta. A Polícia e as autoridades estão lá, mas assistem impassíveis a esse espectáculo vergonhoso. Bastaria que dois ou três daqueles selvagens terminassem a noitada no metro quadrado da esquadra policial”.

 

A última sugestão estava bem ao gosto de Papá que, já nos alvores do século XX, fazia questão de lembrar também que, embora fosse considerado chique em sociedade o ato de fumar – Ora pois, pois, pelo bom Deus! Há que dizer aos parvos que não é elegante e, sem dúvida, muito desagradável fumar em sala fechada!

 

À saída, a mencionar a divisão dos filmes de acordo com os rolos guardados em latas apropriadas, um reclamo anunciava o programa da semana seguinte: “1º. “O vinho” (natural); 2º.“Astúcias de montanhês”; 3º, 4º. e 5º; “Vinganças da Bailadeira”; 6º; “Cruel dilema” (drama); e, 7º. “A máquina”, (cómica). Em breve novas e magníficas películas, ainda não vistas pela plateia de Chaves, inclusive a projecção de um film que é a maior sensação da actualidade”. (Tal filme era “ O Nascimento de uma Nação”, de D. W. Griffith).

 

Após a sessão do Cinematógrapho, foram todos saborear alguns gelados na Confeitaria Trajano, que ficava na Rua Direita, próximo ao Arrabalde. Eis então que lá na Trajano, sentados à mesa com os miúdos, Papá segurou as mãos da esposa entre as suas e disse – Ah, minha menina, minha linda Menina Flor! Sei que tens muitas saudades da tua terra, mas verás que tu e eu, cá na minha, ainda seremos muito felizes!

 

arrabalde.PNG

 Largo do Arrabalde. Chaves antiga(PT). Postal Foto Alves

 

 

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Terça-feira, 31 de Outubro de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. CASÓRIO.

 

Não foi lá muito fácil cair nas boas graças do velho Joaquim Lourenço. A questão maior é que, tão logo os coscuvilheiros da cidade não aguentaram mais os seus comichões linguais, foram logo dar ciência ao Lourenção de que o senhor Bernardes já semeara um fruto em terras brasileiras. A criança, que se chamava Zerlindo, fora gerada com uma mulata graciosa, moça prendada e instruída, filha de uma senhora que prestava serviços ao flaviense como arrumadeira. João não o quisera reconhecer de papel firmado, mas contribuía com algumas pecúnias para uma boa instrução e educação do petiz.

 

Aos olhos da inseparável bengala do aveirense, em plena concordância com seu dono, não agradava nem um pouco aquele namoro, que só poderia ir de mal a pior, por causa da vida pregressa do jovem comerciante de Chaves. Nas reflexões do futuro sogro, a vida de mocetão que o flaviense ainda levava também lhe parecia um tanto quanto desregrada, ainda que tudo aquilo não passasse de meras patuscadas entre os rapazes da época, com as chamadas mulheres da vida.

 

Foi preciso que João Reis lhe jurasse, com as mãos na bengala e diante da bela imitação da Santa Ceia de Da Vinci, em destaque na sala de jantar dos Morais Dias – Ao me casar com a menina Flor, deixarei de pronto qualquer atitude que me possa tornar ou parecer um libertino! – e foram também necessárias muitas idas e vindas do Eulálio, nas funções de casamenteiro, em visitas anunciadas com cerimónia à casa do Lourenção, até que este, afinal, mandasse abrir para os noivos as portas de madeira ricamente trabalhadas da Igreja de Santo Alexandre.

 

A um belo entardecer em Belém, com brisas que vinham da baía e ajoelhados diante de outra obra-prima, o altar-mor do referido templo, Florinda e João uniram para sempre suas mãos, seus corpos, suas almas.

 

Seus anseios.

 

  1. FEIRA DOS SANTOS.

 

Era em todo esse amor romântico de Flor e João Reis, que Aurora, agora, punha-se a pensar, enquanto o pai falava sobre o Álvares e a necessidade viril de este senhor ter uma companheira oficial, para lhe preencher as carências da viuvez. Reportando-se à migração do casal para Trás-os-Montes, ao tempo em que ela, Afonso e Aldenora ainda eram pirralhos, Aurita lembrou certas palavras que o Papá dissera a Mamã e esta sempre costumava contar às filhas. Foi certa vez quando, um pouco depois de chegarem a Chaves, Papá levou sua Flor com os outros brasileirinhos até à Feira dos Santos, junto ao Forte de São Neutel, onde iriam conhecer uma grande novidade: o Cinematógrapho.

 

Na Feira dos Santos, o carrossel de cavalinhos era a alegria dos miúdos, juntamente com os ursos, a mulher gorda com barba, os fantoches e outras diversões anunciadas pelos berrantes cornetins. Vendia-se de tudo nas barracas, onde muitos idílios começavam e eram os pontos de encontro dos namorados. Também o eram para os muitos transeuntes que, por ali, apenas vadiavam. Por entre cidadãos de Chaves e os que vinham das aldeias, desfilavam cegos, coxos, aleijados, chaguentos, a maior parte vinda de outros concelhos, todos em sua condição de inoportunos e importunos mendicantes. Nos sítios periféricos da feira, proliferavam, aos termos de um cronista da época, “as tendas de pano verde, batotas por toda parte, com as roletas pataqueiras de diferentes feitios a girar sem parança, todas mais ou menos ajustadas para a ladroagem dos jogos de azar”.

 

A maior atração da feira era o Cinematógrapho ao ar livre, em um vasto recinto do Grupo Desportivo Flaviense, convenientemente preparado para tal. Já em um jornal da própria Vila de Chaves, o anúncio da empresa dizia: “Hoje, às 20 horas, os mais interessantes e atraentes films. Aos intervalos de cada parte, irão apresentar-se o distinto concertista e de bandurra espanhola Señor Don Manuel Lopez e a troupe de Os Característicos, com a actriz Evangelina Correia e o actor Manuel Correia, em apreciáveis números de cançonetas, monólogos, cenas cómicas, pequenas comédias, operetas e trechos de revistas, do repertório dos dois artistas.”

 

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Terça-feira, 24 de Outubro de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. CORAÇÕES FISGADOS.

 

Foi a um mui respeitável e erudito ambiente familiar, um sarau no ricamente mobilado salão de um sobrado colonial, na Cidade Velha, pertencente a um fazendeiro alentejano da Ilha de Marajó, onde uma gorda matrona, a soi disante florentina, engrolava árias de Verdi; uma condessa cabocla declamava poemas de Castro Alves; e, com mais vigor ainda, um impetuoso bacharelando atropelava alguns versos de Baudelaire, em Francês, que João Reis tornou a ver aquela por quem, de amores, já morrera à primeira vista.

 

Teriam sido, talvez, aqueles belos olhos azuis que, conforme nos diz outra antiga canção, póstera àqueles tempos, se verdes, seriam cruéis como punhais e embora não fossem olhos castanhos, leais, nem tão negros de queixumes, eram dois pedacinhos do céu nos quais os dele, ao pousarem de repente, sentiam-se voar como andorinhas sobre um mar de ondas, azuladas por igual?

 

Agora, entre uma valsa e outra, João Reis, com bem mais trato no corpo e melhor aparência no trajar, elegante com o seu chapéu londrino, seu fato completo de linho “H J” e camisas bem engomadas, com botões de madrepérola aos punhos, também ele começou a matar de amor a sua donzela pretendida.

 

No primeiro cavaquear de ambos, a falaram sobre assuntos triviais, como o calor dos trópicos ou as famosas chuvas vespertinas de Belém, a lançarem bátegas ao solo, sempre à hora certa, o flaviense fisgou, enfim, o coração de Flor, aquela que seria sua companheira por todas as fortunas e infortúnios, em todos os anos do resto da existência.

 

Vice-versa.

 

Nessa noite, o pai de Florinda não levara a famosa bengala.

 

 

  1. NAMOROS DE ANTANHO.

 

Deram-se ao namoro típico daqueles tempos, não tão diverso do que seria, então, em sua Chaves natal. O máximo que um rapaz podia aproximar-se, de modo mais contíguo, ao corpo de sua virginal amada, era quando ambos ajoelhavam-se, lado a lado, nos devidos momentos da missa dominical, ou, em outubro, no Círio de Nazaré, ao se alinharem para acompanhar a procissão junto ao Carro dos Milagres ou à Barca dos Marujos.

 

Por essa altura, à noite, na praça do Arraial da Santa, iam assistir a comédias musicadas e burlescas no Theatro Chalet, sempre a lhes acompanhar alguém da confiança paterna para a eterna vigilância. Melhor ocasião, ainda, era quando podiam valsar nos bailes do Clube Atheneu, do Clube Universal ou do Sport Clube ou, mais especialmente, nos saraus dançantes que eram oferecidos pelos donos do Palacete Pinho a seletos convidados, no amplo salão desse prédio azulejado e bem português, ainda hoje existente à Cidade Velha.

 

Algumas vezes, aos sábados à tarde, havia a rara oportunidade de Reis sentar-se à mesma mesa que Flor, em companhia de Esther e de seu noivo Isaac, na terrasse à la Paris do Café da Paz, no salão da “Rotisserie Suíço” ou no Café Central. Nesses cafés, chiques e muito concorridos, croissants e chá inglês (da Índia) alternavam-se com casquinhas de caranguejo ou café com tapioca, bem ao gosto local, além de gelados, refresco de guaraná, sucos de frutas regionais para as meninas e uma boa cerveja paraense para os cavalheiros. O que mais se fazia, então, era comentar com os outros a vida de todos e falar de tudo sobre a vida dos outros. Especialmente no que se referisse ao grand monde local.

 

Às vezes, entre os namorados, a proximidade maior se dava em um passeio de barco a velejar pela baía de Guajará, aos domingos. Toda a família ia reunida, desde o patriarca Lourenção e sua inseparável bengala, até às inúmeras crias da casa e alguns escravos recém-libertos, que ainda habitavam a casa do aveirense. As vigilengas seguiam até às praias fluviais da Vila de Pinheiro (hoje, Icoaraci) ou, mais além, da Ilha do Mosqueiro. A fim de sair da embarcação e alcançar a terra firme, as saias compridas das mulheres erguiam-se alguns centímetros, para que se molhassem apenas os pés.

 

Esses pezinhos desnudos, ás vezes, esbarravam sem querer nos dos rapazes, ao pisarem com muita sensualidade a areia húmida. Tais relâmpagos de contacto epidérmico eram suficientes para fazer corar as donzelas e os homens culparem-se de maus pensamentos. Pior ainda, causavam um grande constrangimento a esses varões que as acompanhavam. Pelo tipo de ceroulas brancas de algodão, usadas na época, temiam os rapazes que se fizesse notar (muitas vezes de modo bem explícito, ainda que involuntariamente) o repentino e incontrolável aumento do que eles deviam guardar bem quieto na braguilha, e agora se transformava em uma inconveniente protuberância.

 

Ainda mais que tudo isso estava a se passar, como sempre, sob a vigilância discreta das mamãs, titias e vovós, cujos olhos policiais nunca os tiravam das meninas e, de soslaio, dos rapazes. Às raparigas competia, por seu turno, ficarem sempre à vista dessas guardiãs. Tais comportamentos, todavia, não eram estranhos aos portugueses. Na terrinha, era tudo similar.

 

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Terça-feira, 17 de Outubro de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. ALCOVITEIRO.

 

Uma tarde, perto da feira do Ver-o-Peso, João apeou do bonde e, ao se desviar dos burros, encontrou um parente distante, o primo Eulálio. A convite deste, foram até à beira do rio apreciar as vigilengas, que pareciam naufragar nas águas verde-musgo do rio Pará, na verdade um braço do Amazonas. As embarcações iam ou vinham, carregadas de balaios de cipó com frutas tropicais, as quais, como o estranho e arroxeado açaí, tinham nomes e sabores difíceis de explicar aos patrícios e forasteiros, tais como uxi, umari, pupunha, araçá...

 

Reis ouviu então do parente que, por mais idade, às vezes lhe dava conselhos de pai, a fatal pergunta – E então, Joãozinho, quando te vais decidir a casar? Por certo que ainda estás bem moço, mas não fica bem continuares assim, sempre às voltas com essas mulheres de certa rua da Campina ou dos becos que vão dar ao Largo das Mercês. Ô rapaz, cuida bem que, qualquer dia, ainda vais te ver com os cupins da tísica a te roer os pulmões! Ou bem pior: com a sífilis a transtornar a tua cabeça e... o resto, se me percebes.

 

Acontece que Bernardes, como trabalhasse demais durante a semana, suas noites de sextas e sábados eram consumidas em pândegas, na alegre companhia de outros rapazes da mesma idade, aos quais não faltavam o bom vinho e a cerveja fresca, de fabricação local. Tudo isso era compartilhado com as belas caboclas que faziam a vida fácil (pelo menos a deles, dos fregueses) em casas de porta e janela ou em sobrados decadentes, que ficavam nas ruas próximas ao cais ou às cercanias do comércio.

 

Era um homem discreto, de boa educação, mas pouco afeito aos modos elegantes da elite económica local, embora esta fosse, em sua maior parte, constituída pelos novos-ricos da borracha, a nata (ou malta) da qual ele fazia parte. Começava, porém, a se ressentir de uma vida social, onde pudesse conhecer as boas raparigas da terra. Decidiu então que já era tempo de frequentar os bailes da sociedade, os saraus familiares, assistir às revistas musicais como “O Seringueiro”, no Theatro Politeama e, de modo especial, às apresentações de óperas e operetas no palco do monumental Theatro da Paz.

 

Disso tudo, muito se encarregou Eulálio, com dedicado empenho. Pouco a pouco, introduziu o primo nas residências das melhores famílias da região, constituídas dos inevitáveis bacharéis, juízes, políticos, funcionários públicos e, especialmente, daqueles comerciantes que viviam à custa dos seringais, nas mais diversas formas.

 

Passou a ser recebido, também, por donos de terras do interior da província, que viviam em cidades nomeadas como as coirmãs lusitanas (Alenquer, Bragança, Breves, Chaves, Faro, Óbidos, Santarém, Viseu e mais que tais) e mantinham na capital suas mansões, a fim de nelas se instalarem, sempre que necessário. Nessas também refestelavam-se, no mor das vezes, os filhos varões a gozar a vida de estudantes no Colégio do Carmo, no Pré-Jurídico do Liceu ou na Faculdade de Direito ao Largo da Trindade, uma das primeiras criadas no país.

 

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Segunda-feira, 9 de Outubro de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. BELÉM DO PARÁ.

 

Muitas cidades brasileiras foram feitas à imagem e semelhança de Lisboa, do Porto e de outras urbes de Portugal. Uma das mais aportuguesadas era Belém do Pará, situada perto da foz do caudaloso rio Amazonas e porto de entrada para a região amazónica. As ruas da Cidade Velha, onde ficam as igrejas da Sé e de Santo Alexandre, o Forte do Castelo (edificado onde e quando, em 1616, a cidade foi fundada), o Arcebispado e o Convento do Carmo, a formar o complexo histórico Feliz Lusitânia (antigo epíteto da cidade), foram abertas há muito tempo antes que Dom Pedro, Primeiro no Brasil e Quarto em Portugal, tentasse conciliar suas traquinadas mulherengas, na Corte do Rio de Janeiro, com as graves decisões políticas do país.

 

A forte presença de imigrados, uns dos Açores e da Madeira, outros beirões e trasmontanos, fazia aumentar ainda mais a expressiva influência lusa nos modos de falar e nos hábitos do dia a dia. Influenciavam até mesmo na culinária, em que o caldo verde e o cozido com legumes conviviam com a paca ao tucupi (ou pato, depois, mas sempre nesse caldo amarelo, extraído da mandioca); a maniçoba (com carnes típicas de feijoada, antigamente, também, com produtos da caça local, mas cozinhadas em uma pasta feita de folhas de maniva, após estas serem cozidas durante cinco dia para perderem a venenosa e mortal toxicidade); o tacacá (tipo de sopa com a goma de tapioca, tucupi, camarão e jambu, uma espécie de agrião do Pará, que deixa nos lábios uma sensação deliciosa); o sumo bem denso e cremoso do açaí, com farinha de mandioca; e outras iguarias primitivas, da culinária indígena.

 

As casas antigas exibiam suas paredes revestidas com azulejos da antiga Mãe Colonial e, apesar de suas ruas estarem situadas em terrenos planos, os sobrados com janelões pareciam recordar, e muito, os sítios da Alfama ou da Ribeira. Podia-se mesmo dizer que as casas da outrora Santa Maria de Belém do Grão Pará, ainda que marcadas por algum exotismo local, eram com certeza, como nos diz uma antiga canção, uma casa portuguesa. Nas residências mais abastadas, certamente ficavam bem, além do São José de azulejo, da sardinha e do bacalhau (às vezes trocado pelo seu primo de água doce, o pirarucu), o pão e vinho sobre a mesa (embora este último também desse lugar, no mor das vezes, ao sumo de cupuaçu, bacuri, taperebá ou outras frutas regionais).

 

Nos prósperos tempos da extração e comércio da borracha na Amazónia, que em nada melhorou a vida dos seringueiros, mas fez enriquecer os donos de seringais, atravessadores, transportadores e comerciantes de Manaus e Belém, a capital do Pará era uma das mais importantes e mais populosas do país. Conta-se, mesmo, que os novos-ricos da terra mandavam lavar, em Paris ou Lisboa, os seus fatos de puro linho.

 

Àqueles fins do século XIX, graças à riqueza que o áureo ciclo da borracha viera trazer à região, eram os tempos de embelezamento e reformas urbanas em Belém. Erguiam-se belos palacetes, tais como o Pinho, o Bolonha e até vistosos palácios, como os que serviram por muitos anos para a sede do Governo da Província e a da Municipalidade. Construíam-se prédios de ferro em Art Nouveau, como os mercados de carne e de peixe, no sítio portuário do Ver-o-Peso. Com seges e vitórias ainda a passear pelas ruas, os coletivos puxados a cavalo logo passariam a dar lugar aos bondes, como passaram a ser chamados, no Brasil, os elétricos ingleses (trainways).

 

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Ancoradouro do Ver-o-Peso, Belém do Pará (BR). Postal público. Autor desconhecido.

 

Essas obras grandiosas eram comandadas pelo célebre Senador Antônio Lemos, tais como a abertura de largas avenidas e praças ajardinadas. Estas fariam Euclydes da Cunha, o escritor de “Os Sertões”, declarar em 1904: “(...) Nunca esquecerei a surpresa que me causou aquela cidade. Nunca São Paulo e o Rio terão as suas avenidas monumentais, largas de 40 metros e sombreadas de filas sucessivas de árvores enormes. Não se imagina no resto do Brasil o que é a cidade de Belém, com seus edifícios desmesurados, as suas praças incomparáveis e com a sua gente de hábitos europeus, cavalheira e generosa. Foi a maior surpresa de toda a viagem”. (Quanto aos hábitos europeus, leia-se: os de portugueses, franceses e, com menor influência, ingleses).

 

Somavam-se a isso as belas alamedas do Bosque Municipal, um enorme quadrado onde até hoje se concentra, com espécimes da flora e da fauna, uma síntese da floresta amazónica; e o Museu Paraense, recém-fundado no então bairro da Rocinha, onde pesquisadores de várias procedências dedicavam-se aos estudos da natureza e do homem na Amazónia, sob a direção do cientista suíço Augusto Emílio Goeldi.

 

No Theatro da Paz, cujo interior é similar, em luxo e arte decorativa, a muitos espaços cénicos da Europa, apresentavam-se companhias inteiras de ópera, francesas e italianas, que seguiam depois para o teatro de igual porte e beleza em Manaus, o outro grande centro comercial da borracha. Tais elencos vinham em paquetes ingleses e alemães a cruzar o Atlântico, em linha direta ao Norte do país, até ao movimentado porto de importações e exportações da Baía de Guajará, sem ao menos passarem pelos de Salvador ou Rio de Janeiro, a então Capital Federal.

 

 

  1. MENINA FLOR.

 

Foi antes de começar uma soirée no monumental teatro, inaugurado há alguns anos no Largo da Pólvora, que João Reis, recém-enriquecido com o comércio da Hevea Brasiliensis, ao dar um breve passar d’olhos pelo interior daquele verdadeiro templo cénico, avistou, no camarote onde se alojava a família de Jacob Benzecri, um dos mais respeitáveis capitalistas da província e com o qual João mantinha transações comerciais, uma linda e elegante rapariga.

 

A menina estava a conversar com a Estherzinha, outra bela jovem, filha de Jacob. Reis perguntou ao Raimundo Peixoto, o Dico, um amigo caboclo que ora o acompanhava, quem era aquela moça que tanto lhe chamara a atenção. Dico falou que seu nome era Florinda de Morais Dias, à qual muitos rapazes chamavam de Flor Linda e era filha de Joaquim Lourenço Dias, um compatriota de Reis, natural de Aveiro, de mãe alemã e pai português. Este era dono da Loja da Lua, armazém de tecidos à Rua XV de Novembro, mas…

 

– Mas, mas… mas o quê, ó raios, ora me diz de uma vez!

 

O amigo aconselhou – Pisa de mansinho no terreiro, que o galo velho alemão cisca bravo no quintal! É um cão de guarda com as filhas! A mãe delas já se foi na epidemia de varíola e o Lourenção tem que se fazer em dois. As filhas só vão às festas com o pai do lado. E tome a bengala! – Bengala?! Mas o que é que essa bengala tem a ver com as meninas? – Raimundo riu e continuou – É que o velho ameaça ou chega mesmo a dar umas bengaladas em qualquer rapaz que venha falar com as filhas… Quanto ao que mais importa, o Lourenção está muito bem de vida; e a educação primorosa que a pequena recebeu, também se deve aos bens deixados por sua mãe e por seu avô materno.

 

Ainda que, para João, essas questões patrimoniais não fossem, àquela altura, o mais importante, soube então que o avô da “Linda Flor” tinha sido proprietário de uma fazenda enorme, que ia desde os fundos da Basílica de Nazaré até à Estrada de São Jerônimo (uma enormidade de terras), mas os Estêvão de Morais quase ficaram sem nada, porque o único filho homem, tio dessa atraente donzela, deu cabo à metade da fortuna do pai, solapando-a com mulheres e jogos.

 

As perspetivas não eram muito animadoras, mas João Reis, embora não fosse dado aos jogos de azar nas casas da Rua da Trindade, onde a roleta corria solta, gostava de arriscar no carteado da vida. Quando olhou novamente para o alto, percebeu que fora visto por Jacob e o cumprimentou. Acenou também à Esther e à bela filha do bravo bicho brabo. A jovenzinha, após um breve aceno, olhou para ele e, pondo o leque de patchouli a lhe tapar a boca, cochichou algo com a amiga. Ambas riram, sem tirar os olhos do rapaz, o que o deixou constrangido.

 

Estava decerto curioso em saber do que andavam a falar e do que lhe havia de ruim, se os bigodes, as suíças, o nariz… Ou talvez algo bom, mas o Dico, ao seu lado, deixou-o ainda menos à vontade – É a tua aparência, João Reis, como te cuidas mal! – e a troçar – Acho que devias ler o “Compêndio de Civilidade” do bispo Dom Macedo Costa.

 

 

teatro da Paz.PNG

 

Theatro da Paz, Belém do Pará, 1878. Postal público antigo. Autor desconhecido.

 

 

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Terça-feira, 26 de Setembro de 2017

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. HOMEM DE BEM.

 

Há vários dias, Papá rondava os passos de Aurora, como a querer dizer alguma coisa. Uma noite, afinal, quando ela estava a sós com ele e Florinda, João Reis tomou fôlego e, após algumas baforadas de seu finito e já degustado havano, lançou à filha um olhar afetuoso – Bem sei, minha boa Au­rita, que não temos costumes iguais aos dos ciganos, mesmo desses aí em frente que, de tão portugueses já se fizeram, nem parecem mais ser dessa raça – e acentuou dessa raça. Mesmo sem distinguir a alusão sobre raça e não etnia, com o Reis a desconsiderar o que é uma nação cigana, Florinda lançou ao marido um olhar respeitoso, mas de insinuante reprovação pelo tom preconceituoso, que, a ela, nunca sabia bem.

 

Entrementes, a rapariga ficou a pensar – Pronto, cá está de novo o Papá, a me falar do Hernando! Mas o que será que o incomoda, dessa vez, se já nem sei mais daquele gajo, a andar por aí, de lés a lés, pelo mundo? Se eu mesma já cá o tenho, ao peito, como página virada de um velho álbum de recordações?! – e Reis prosseguiu – Espero que estejas a me compreender. Quero falar, na verdade, de uma prática de meu tempo, já pouco usada hoje em dia, mas que muitas famílias ainda gostam de concertar. Afinal, se sou teu pai, e se te eduquei o melhor possível, seria injusto se eu não pudesse, ao menos, aconselhar-te sobre um homem de bem para teu marido.

 

Aurora alcançou, afinal, aonde o pai queria chegar. Em­palideceu. Ainda que sempre a demonstrar uma notória bon­dade, ainda que a ira lhe houvesse, mesmo, como um feio pecado capital, um tantinho de ódio lhe acolheu o coração. Ainda mais quando veio a fatídica pergunta – Conheces o Álvares, aquele distinto senhor que é dono do armazém “O Tesouro Trasmontano”? – Papá tragou mais um pouco do havano e continuou – É um homem ainda em pleno vigor e de muitos bons costumes – ao que Mamã ajuntou – Sua mulher, pobrezinha, que Deus a tenha, já lá se foi para o Céu, nas garras do corvo da Pneumónica.

 

Calada estava, a rapariga e emudecida ficou, horrorizada com aquela ideia dos pais. O senhor Álvares era um homem bom, bem ajeitado e não de todo feio, apesar de gorducho e sem pescoço. Além do mais, tinha lá sua dinheirama nos cofres e nos bancos do Porto, mas... deveria estar mesmo a querer uma rapariga que lhe pusesse a mesa, lavasse as roupas íntimas, cuidasse de seus fatos e suspensórios… Não conseguia ela antever como, após as bênçãos de Deus, po­deria chegar ao sobrado da Rua do Sol, onde morava o pre­tendente e levar como dote um buquê de carinho e algumas migalhas de amor.

 

Não fora por amar e ser amado, conforme a própria Mamã contava, que João Reis se casara com a sua Menina Flor?

 

 

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