12 anos

Terça-feira, 21 de Março de 2017

Chaves D' Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. RETRATO.

 

Com admirável beleza, Aurita estava no esplendor de seus quinze anos, cada vez menos menina, u’a mulher a se pôr. Ao vê-la à janela da Quinta ou com os seus, a caminho da igreja, as pessoas exclamavam – Ai que belo rosto, o dessa rapariguinha! Há de ser assim, o da Senhora de Fátima!

 

Até um requisitado fotógrafo de Chaves atreveu-se a pedir a João Reis que lhe concedesse a honra de retratar a menina, vestida com o alvo manto de Nossa Senhora e tendo às mãos o Santo Rosário. Recebeu do patriarca um sonoro e perentório – NÃO!!!

 

A uma tarde qualquer, quando estava a se dirigir a um café no Largo das Freiras, Reis viu exposta, na montra de uma loja de artigos religiosos, à Rua Santo António, uma pintura a representar a Virgem e os três pastorinhos. A face da Santa, porém e os seus loiros cabelos, não lhe deixaram qualquer dúvida. Indignado e furioso, adentrou o estabelecimento, mas logo se arrefeceu ao ver que o dono era um velho amigo. Este contou ao brasileiro que, tal quadro, fizera-o seu filho mais jovem, a se valer apenas de sua pura e excelente memória visual. Em momento algum, porém, gostava ao pintor autodidata sequer pensar em ofender a honra da menina, os brios de João Reis Bernardes e a dignidade de uma tão conceituada família.

 

Reis propôs então a compra imediata de tal peça de arte. Muito constrangido, o comerciante explicou que o precioso quadro já não estava disponível. Outro freguês já o comprara, na véspera e por muito bom preço, deixando-lhe vultosa quantia à guisa de sinal e ficando de passar por lá, ao cabo da semana, para trazer o restante. – E cá me podes dizer, meu caro, quem é esse freguês? – Ora, pois, é aquele ciganinho, o filho mais novo do Camacho. – o que deixou o rosto do patriarca encarnado, purpúreo, arroxeado – Pois então, pra já é que me hás de vender essa pintura! Pago-te o dobro do preço! – Mas ó Reis, sabes tão bem quanto eu como são as regras do negócio, as leis do comércio. Não posso faltar com a palavra dada a um freguês. Ainda mais que...

 

De logo, porém, o Brasileiro o contradisse – Nem mais nem meio mais! Ora, pois, meu amigo, diz a ele que... pronto, aí está! Diz-lhe que ameacei de levar o teu filho à Justiça, por retratar uma menina sem a aprovação dos pais. Não, não precisas ficar assim! Não te vou fazer mal nenhum, muito menos ao teu menino. Basta dizer ao gajo que eu, João Reis Bernardes, foi quem t’obrigou a desfazer o trato com ele e pronto! Aos raios que o parta! Sabe-se lá pra quê esse patife quer ter em casa o rosto da minha filha?! – e mal ouviu os argumentos do colega de comércio – Mas ó Bernardes, tua menina tem mesmo a face da Santa. Isto cá é para se pôr a um oratório! – Que o seja! Mas não quero ver o retrato da minha filha por algures nem alhures, ora pois e pronto! Estamos conversados!

 

Assim, com a virginal face de Aurora a lhe servir de modelo, a imagem da Senhora de Fátima, devidamente benzida por um cura da Madalena, foi entronizada em um lugar de honra na sala de estar da Quinta Grão Pará.

 

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Terça-feira, 14 de Março de 2017

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. DEFESA DA FÉ.

 

Florinda a tudo escutou, com o sangue a lhe subir à fronte, em uma crescente indignação. Quando Aurita interpelou o primo, timidamente – Mas os pastorinhos viram Nosso Senhor no Calvário, viram Nossa Senhora das Dores, Nossa Senhora do Carmo e Nossa Senhora de...– o rapaz riu e exclamou – Pois me dizei, afinal: quantas mães tem o Filho de Deus? Pai, a gente pode ter vários, mas mãe, de facto, só nos há de ter uma, não achais todos vós?

 

Foi então que uma ardorosa defensora da Fé, a deixar assombrado o próprio marido, ergueu-se da cadeira e disse ao sobrinho, em tom normal, porém firme – Senhor Rodrigo, isso não são coisas que se digam na casa de pessoas que têm suas crenças e devoções! Aqueles devotos que lá estavam e que eram, de facto, gente de fé, por certo que seus olhos VIRAM tudo aquilo, porque tais coisas, rapaz, estão acima de nós, pobres seres humanos. Aquelas coisas, ainda que fossem só para aquela gente ver, eram milagres. Milagres da Virgem Santíssima!

 

A seguir, ameaçou-o – Se é para vires até cá com essas ideias de jerico e ficares a blasfemar e zombar de nossa religião, melhor será que penses bem antes de ultrapassar aquela porta! – chamou, até si, as meninas da casa – Aurita, Nonô, Lilinha, Mindinha, venham comigo! – recolheu-se com as filhas ao quarto do casal e todas ajoelharam-se diante do oratório, a rezar à Virgem de Fátima, em voz tão alta quanto pudessem ser ouvidas na sala de estar, pela reconversão do primo à fé católica e pelo perdão “aos pecados de todos nós.”

 

Discreta e educadamente, Rodrigo logo se dispôs à retirada de campo, antes que essa mini batalha doméstica viesse a crescer e se espalhar pelo mundo, como tantas guerras por Religião que se travaram ao longo da História. João Reis, todavia, apesar de devoto por tradição, instou ao sobrinho que ficasse e, com bastante e vivaz interesse, continuou a provocar as argumentações do jovem iconoclasta.

 

Como chegassem até ao quarto algumas risadas dos rapazes e até de João Reis (isto, por si só, um facto inusitado), já entretidos então com outros assuntos, mais amenos, Mamã e as quatro filhas puseram-se a cantar, em alto e bom som, de modo a que os da sala lhes percebessem a indignação, algumas preces musicadas em louvor à Santa Senhora, tais como essa que, até hoje, ainda é conhecida – “A treze de maio, na Cova da Iria / no céu aparece a Virgem Maria / Ave, Ave, Ave Maria...”

 

 

Alguns dias depois, sob o pretexto de devolver um livro à estante de João Reis, o primo Rodrigo tocou a sineta da entrada e pediu a Zefa que transmitisse à senhora sua tia e aos mais as suas maiores recomendações. Já se dispunha a partir, quando se viu chamado pela própria Florinda, como se, há tão pouco tempo, nada de inconveniente houvesse acontecido. – Ora me entres cá, Rodriguito, vem nos dar de novo o prazer de uma boa palestra! Só não me fales de certas coisas, bem sabes! – e, desse dia em diante, por muitos outros mais, entre broas, bolinhos e bolachas, lá estava o rapaz, de novo, a encantar a todos da casa, com os seus ditos espirituosos e as histórias engraçadas, embora algumas, por vezes, terrificantes.

 

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Terça-feira, 28 de Fevereiro de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. PRIMO RODRIGO.

 

Além de Adelaide, eram também muito apreciadas, por todos da casa, as visitas do primo Rodrigo, apesar de suas ideias próprias, seu modo diferente de ver a vida, o mundo e as relações sociais. O rapaz, de tez pálida e compleição franzina, com seus óculos de lentes redondas, cabelos um pouco alongados, barba meio rala, mas comprida, com mosca e pera à la Cavaignac, parecia um intelectual do século XIX, não fosse ele nada propenso ao “mal du siècle” dos românticos. Muito ao contrário, era um jovem sempre risonho, de boa parola, a irradiar para todos um quê e um quanto de grande simpatia.

 

Vivia com o pai viúvo a quem, com o seu trabalho em uma tipografia local, ajudava a criar os cinco irmãos menores. Para os Bernardes, seus notórios “defeitos” eram dois: a fama de papa-jantares, sempre a chegar, sem aviso prévio, à hora das refeições alheias, e suas ideias políticas e filosóficas, avaliadas por Reis e Florinda com todos os es e os ex: esquisitas, estrambóticas, esdrúxulas, extravagantes, excêntricas, extemporâneas.

 

Rodrigo dizia-se ateu. Vivia a ler artigos de pensadores como Karl Marx, Friedrich Engels, Rosa Luxemburgo e outros socialistas, ainda que, recentemente, andasse mais propenso a defender os princípios do Anarquismo. Ironizava bastante o texto das Sagradas Escrituras “comerás o pão com o suor do teu rosto”. Dizia que esta máxima a nem todos se aplicava, pois enquanto alguns muitos suavam no trabalho, para o lucro de alguns poucos, em troca de um mísero salário para suas necessidades e as de suas famílias, outros alguns poucos só estavam mesmo a transpirar em festas, banquetes e orgias. Uma transpiração prazerosa, é claro, mas somente possível graças à sofrida exsudação dos alguns muitos.

 

Gostava de desancar a Igreja e a Inquisição e de contar histórias de padres e freiras, com um palavreado cuidadoso, para não corromper os castos ouvidos dos circunstantes, sobretudo os de seus primos miúdos. O que se ouvia em suas narrativas, entretanto, às vezes era tão indecoroso que, perto delas, o crime do Padre Amaro parecia uma história da carochinha.

 

Flor e o marido estavam sempre a polemizar com o sobrinho. Tinham no entanto, para com o rapaz, aquele olhar benevolente de quem considera – Ora, pois, estamos a ver que isso são tolices de um jovem que lê demais, como se deu com o Senhor Dom Quixote – ou a tolerante compreensão

 

– É como papeira ou tosse de coqueluche: dá e passa. – De qualquer forma, esses modos de pensar do rapaz traziam a todos da Quinta um visível desconforto, quando não um forte constrangimento, toda vez que Rodrigo achasse por bem manifestá-los de modo bem radical.

 

Chegavam mesmo a causar desagradáveis incidentes, como a uma tarde de novembro de 1917 quando, conversa vai, conversa vem, o sobrinho reportou-se às notícias que eram a maior atração da época. Ao comentar as aparições em Fátima, Rodrigo logo se pôs a dizer que não entendia patavina, de como essa gentinha toda acreditava naquele disparate, se estava bem claro e notório que todas aquelas visões não ultrapassavam os parcos conhecimentos e vivências daqueles pobres pastorinhos analfabetos, naquele sítio pequeno e afastado do mundo, a aldeia em que viviam.

 

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Terça-feira, 21 de Fevereiro de 2017

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. GRANDE MILAGRE.

 

Era um dia chuvoso e nublado, quando ocorreu, então, conforme a narração de alguns espetadores, o milagre prometido: “O Sol apareceu por entre as nuvens, como um grande disco prateado de brilhante fulgor e logo começou a girar, de modo rápido e vertiginoso. Parou por algum tempo e recomeçou a girar velozmente sobre si mesmo, como se fosse uma imensa bola incandescente, de bordos avermelhados, a espalhar pelo céu chamas de fogo em um inacreditável redemoinho, refletindo-se a luz dessas chamas nas árvores, nos objetos e nas faces de todos os que assistiam. Nesse fenómeno, que durou cerca de 10 minutos, o Sol girou loucamente e a multidão de fiéis, apavorada, pedia aos Céus o perdão e a misericórdia pelos seus pecados”.

 

Segundo a notícia que se espalhou por toda parte, o evento teria sido visto, com grande espanto, por toda a multidão presente ao local.

 

 

Aos primeiros rumores provindos de Fátima, a Igreja Católica, do ponto de vista institucional (bispos, cardeais e o Papa) comportou-se com muita cautela a analisar os factos, tal como sempre ocorre quando se noticiam essas histórias de aparições e milagres, pelo mundo afora. Antes de se divulgarem pelos jornais, entretanto, as novas já corriam de aldeia em aldeia, com a devoção a se espalhar entre os párocos e os fiéis, até chegar aos mais longínquos rincões de Portugal. Por aqui, por ali, por acolá, alguns aldeães já começavam a mencionar as curas de pequenos males, graças às orações e súplicas à Senhora de Fátima. Em brevíssimo tempo, a novidade viria a se propagar em todo o mundo católico, até mesmo nos países onde predominavam outras religiões.

 

Ao ver, portanto, a nova devoção cair no gosto popular, a Igreja passou a assimilar tal prática e a incentivar os cultos, do modo que fosse mais favorável à manutenção da fé católica, apostólica, romana. Em 1931, o Episcopado Português faria a solene consagração do país a Nossa Senhora do Rosário de Fátima.

 

Como tantos outros carolas flavienses, tão logo se confirmaram as notícias dessa aparição, os Bernardes se reuniram em torno de seu patriarca e se dirigiram à Igreja Matriz, para dedilhar os rosários e unirem suas vozes ao coro das beatas – Creio em Deus Pai... Ave-maria, cheia de graça!... Pai-nosso que estais no Céu... Salve-rainha, Mãe de Misericórdia... –  e se uniram também aos mais da parentela, em um consensual revezamento de anfitriões, para rezarem juntos o rosário da Virgem.

 

A imaginação dos campesinos portugueses, então quase todos analfabetos, misturada à dos párocos das aldeias em seus púlpitos dominicais, fez crescer por toda parte o volume de orações e penitências, ante o temor de um Apocalipse próximo a chegar. De menos a mais e de pouco a muito, já isso bastara para deixar, aflitas e apavoradas, as mulheres da Quinta Grão Pará.

 

No entremeio, ao que mais Aurita pensava, o tempo todo, era no Inferno. Punha-se a recordar aquele retábulo aterrador de sua infância, exposto à sacristia na Igreja da Misericórdia, diante do qual fora torturada, junto com os irmãos, por um cura de olhos terríveis e mãos ameaçadoras. Essa purgação infernal, aliás, era um pretexto a mais para que Aldenora se aproveitasse dos ditos para os aludidos a Hernando. Aprazia-lhe descrever à pobre Aurora como o pecaminoso rapaz estaria entre os primeiros a arder no fogo de Satanás. Por motivos que, a si própria, dizia serem apenas piedosos, Aurita corria a rezar pela alma do cigano.

 

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Terça-feira, 14 de Fevereiro de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. SENHORA DA IRIA.

 

As primeiras notícias da aparição da Virgem, aos 13 de maio do ano de 1917, na aldeia de Fátima, freguesia de Aljustrel, Concelho de Ourém, pelos pastorinhos Lúcia (10 anos) e seus primos Francisco (9) e Jacinta (7), foram trazidas aos Bernardes, de pronto e bem frescas, pela sempre linguareira Zefa de Pitões. Soube-se então que os miúdos, quando apascentavam um pequeno rebanho no lugar chamado Cova da Iria, detiveram-se para rezar o rosário e disseram ter visto, sobre uma pequena azinheira, “uma senhora mais brilhante que o Sol, com uma voz dulcíssima, aparentando não mais do que uns 18 anos de idade”.

 

Seu vestido, conforme consta de um folheto da época, publicado pelo Visconde de Montelo, “ (...) era de uma alvura puríssima de neve, assim como o manto orlado de ouro que lhe cobria a cabeça e a maior parte do corpo. O rosto (...) apresentava-se sereno e grave, como que toldado de uma leve sombra de tristeza. Das mãos, juntas à altura do peito, pendia-lhe, rematado por uma cruz de ouro, um lindo rosário, cujas contas brancas de arminho pareciam pérolas. De todo o seu vulto, circundado de um esplendor mais brilhante que o sol, irradiavam feixes de luz, especialmente do rosto, de uma formosura impossível de descrever, incomparavelmente superior a qualquer beleza humana”.

 

Com a Lúcia, assim dialogara a bela senhora – “Não tenhais medo. Não vos faço mal.” – “De onde é Vossemecê?” – “Sou do Céu” – e, a uma indagação sobre pessoas recém-falecidas – “A Maria das Neves já está no Céu e a Amélia estará no Purgatório até ao fim do mundo” – após o que disse aos pastorinhos que deveriam aprender a ler e, sempre aos dias 13 de cada um dos próximos cinco meses, retornar àquele mesmo local. Ali ela estaria a lhes falar, de novo, sobre muitos e importantes factos do mundo.

 

Como em todas as suas aparições posteriores, a Santa exortou os pastorinhos a “rezar sempre o terço, todos os dias, pelas almas dos pecadores, a paz no mundo e o fim da guerra”. Enfatizou a punição ou reparação dos pecadores, diante das “dores profundas que estes causavam a Ela e a Seu Filho, com suas ofensas, blasfémias e pecados”. A seguir, comunicou-lhes um segredo que não deveriam contar a ninguém. Seria o primeiro dos três famosos segredos, somente revelados, em três etapas, após 1941 (ou, para os céticos, apenas desmitificados, pelo menos no que tangia aos seus alardes apocalípticos e à exagerada importância).

 

No dia 13 de julho de 1917, a Senhora teria mostrado a Lúcia, sua única interlocutora, uma visão horrível do Inferno, “para onde vão as almas dos pobres pecadores”. De Sagres a Melgaço, multidões de devotos correram às igrejas para rezar, impregnados pelo intenso pavor do fogo infernal. Ante uma pergunta de Lúcia – “Que é que Vossemecê quer que se faça com o dinheiro que o povo deixa na Cova da Iria?” – a Virgem teria respondido – “Façam dois andores. Um, leva-o tu com a Jacinta e mais duas meninas, vestidas de branco; o outro, que o leve, Francisco com mais três

meninos. O dinheiro dos andores é para a festa de Nossa Senhora do Rosário; e o que sobrar é para a ajuda de uma capela, que vós m’a heis de mandar erguer.” A seguir, elevara-se aos céus e desaparecera.

 

Na manhã de 13 de agosto desse ano, soube-se que os miúdos foram sequestrados pelo administrador do Concelho de Ourém, o qual supunha que os segredos de Nossa Senhora se referiam a um acontecimento político que acabaria com a República, recém-instalada em Portugal. Como os pastorinhos nada revelassem, mesmo aprisionados e vítimas de uma forte pressão por parte do administrador, acabaram devolvidos às suas famílias. A aparição, nesse dia, teria sido em um sítio diverso do habitual.

 

Ao mês seguinte, setembro, com mais de 15 mil pessoas no local, a Virgem Maria mandara que continuassem a rezar o terço e prometera, para sua última aparição, em outubro, um milagre que faria “todos acreditarem no que os miúdos lhes estavam a contar”. Quanto aos sacrifícios que os três pastorinhos passaram a fazer, Ela teria dito – “Deus está contente, mas não quer que durmais com a corda” (um grosso cordão de penitência, cheio de nós incómodos e que as crianças usavam cingido aos rins). “Trazei-a só durante o dia.”

 

A 13 de outubro desse mesmo ano de 1917, a multidão que, em sua maior parte, acorrera já na véspera à Cova da Iria, perfazia umas 50 a 70 mil pessoas, quase todas a rezarem com seus terços de devoção, seus nonos de fé e os seus inteiros de ingénua credulidade. Consta que então, mais uma vez, a Virgem apareceu em sua áurea de luz e pediu que fizessem ali “uma capela em minha honra”. Disse que era “a Senhora do Rosário” e que “não ofendessem mais a Deus Nosso Senhor, que por certo já anda muito ofendido com os pecados da humanidade”.

 

Contaram os miúdos que “ela abriu suas mãos de alabastro e fez com que estas se refletissem no Sol, ao que após elevou-se e desapareceu no firmamento”. Em seguida, os pastorinhos teriam visto, ao lado do Sol e de Nossa Senhora, o Menino Jesus com São José que “traçavam, com as mãos, gestos em forma de cruz, a modo de estarem assim a abençoar o mundo”. Lúcia vira depois Nosso Senhor a caminho do Calvário, “também a estender gestos de bênçãos ao mundo”. A mais daí, aparecera Nossa Senhora das Dores. Por fim, uma terceira visão: Nossa Senhora do Carmo, com o Menino Jesus ao colo.

 

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Terça-feira, 7 de Fevereiro de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. DAMA DA CAROCHINHA.

 

Mamã afeiçoara-se a Adelaide, desde a primeira vez em que se conheceram. Às vezes ousava dizer ao marido sobre tão improvável amiga – Pois a mim, agrada-me a sinceridade dela e a sua... a sua… (a palavra não lhe vinha: espontaneidade). Nem todos conseguem, como ela, tapar a boca ao mundo. Pelo menos quando as línguas ferinas estão diante de si. – Adelaide, no entanto, era portadora de uma fina educação, que recebera em um colégio de freiras de Coimbra. Desses tempos e desse claustro, quando estava a sós com Florinda, narrava cada história escabrosa que fazia Flor suplicar – Para, Dedé, para! Isso cá já me é demais! – e no entanto, quando necessário, a viúva sabia portar-se com muita dignidade e compostura. Sabia exprimir-se em mais de três idiomas e era portadora de certa erudição, adquirida em muitas leituras, ou em viagens aos grandes centros culturais da Europa de então. Tudo isso a tornava uma exceção entre as senhoras flavienses. As da chamada elite esquivavam-se de convidá-la para suas receções formais, porém vinham sempre lhe bater à porta, a fim de pedir óbolos destinados aos bazares beneficentes, ou que ela própria coordenasse a arrecadação dessas rendas e, até mesmo, animasse o giro das tômbolas, para o sorteio das prendas.

 

Livremente católica, como ela própria se dizia, a alegre viúva conjugava suas ideias com as do senhor Allan Kardec e muito lhe apetecia falar de reencarnação. Dizia que, em outra vida, tinha sido uma cigana espanhola de vida libertina, “Cármen, la Habanera”, assassinada por um jovem soldado enciumado que, no entanto, dizia amá-la demais. Aliás, quando começava a falar sobre os ciganos, havia que dar um jeito de fazê-la parar, antes que se estendesse pela tarde afora. Aurora, porém, ficava embevecida, atenta aos mínimos detalhes narrados pela excêntrica senhora, especialmente quando esta discorresse sobre os vastos conhecimentos que realmente detinha acerca dos hábitos e tradições gitanas.

 

Algumas vezes, porém, os cavaqueios tornavam-se chocantes para as meninas, se estas se achassem presentes à sala de visitas. Era quando a açoriana discorria sobre as coisas do mundo, expressão que ela própria utilizava para falar de certos comportamentos que elas, as mulheres da Quinta, nunca poderiam supor que existissem, como algumas histórias entre rapazes ou entre moças, em Paris e Berlim. Adelaide, porém, sabia como não se deixar exceder, sobretudo quanto a frases e contos chulos ou explícitos e, quando pressentia estar quase a ultrapassar as marcas, cessava o dito e olhava para Mamã – Mas ó Flor, de que é mesmo que estávamos a falar? – e passava à digressão de amenidades.

 

Apesar de tais incidentes, o que mais agradava a Flor era que as meninas também pudessem compartilhar de alguns momentos alegres e divertidos com essa mulher, de grande espírito, inteligência e senso de humor. A João Reis, porém, não gostava a presença da açoriana em sua casa. Era a velha falta de tolerância para com os outros, sobretudo os diferentes de nós ou de nossa tribo. Chegou a dar ordens expressas para que nenhuma de suas filhas entrasse na sala, quando aquela senhora lá estivesse. Apesar de toda a consideração de Mamã ao patriarca, até mesmo certo temor pela sua conhecida severidade, graças à qual ele se fazia respeitar, essas ordens, todavia, jamais foram cumpridas.

 

Ainda que, ao se recolherem aos quartos, as raparigas rissem muito, a caçoar de alguns caracteres da visitante, todas elas queriam muito bem a Dedé e se alegravam bastante, quando viam (ou melhor, ouviam) a Carochinha chegar aos portões da Quinta. À caçulinha, porém, como Arminda era tratada, aos modos do Brasil, não agradavam as excentricidades no vestuário da parenta. Desde miúda, apreciava os elegantes vestidos que eram mostrados nas revistas de moda de Paris e que o Papá fazia chegar de Lisboa, para sua Menina Flor. Mamã então, após escolher os modelos preferidos para si e as filhas, mandava cosê-los pelas melhores costureiras de Chaves. Quanto ao vestuário mais simples, a própria Mamã o confecionava em sua máquina Singer, o precioso mimo que, em substituição à velha Pfaff, o marido lhe presenteara no último Dia de Reis.

 

 

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Terça-feira, 31 de Janeiro de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. FRADE MAROTO.

 

Logo no pequeno vestíbulo de entrada da residência de Adelaide, entre dois cachepôs de prata com plantas ornamentais, a ladear um cabideiro de metal e mármore, onde as visitas depositavam os chapéus-de-chuva nos dias de aguaceiro, morava um sorridente frade de apenas meio metro de altura. Com acentuada tonsura e poucos cabelos em volta da cabeça, sua batina fora confecionada com um pano rústico, bem franciscano. Tinha um olhar maroto, mas trazia sempre as mãos juntas, em prece. Algumas beatas que por ali passavam, por miopia ou catarata, pensavam que fosse um santo e se benziam. Outras até oravam contritas, em silêncio.

 

Quando via tais devoções, Adelaide escondia o riso a quantas pudesse. Recusava, porém, com veemência, a oferta de qualquer uma dessas piedosas senhoras que, ao ver a batina tão rota e puída do santo, viesse lhe oferecer um novo hábito – Tirar a roupa do frade… Tinha lá sua graça! Ai que se me revira a vista de tanto rir! – dizia a Luís Miguel.

 

Só eles dois e mais alguns sabiam, realmente, que esses frades de madeira ou cerâmica, obras de artesãos vendidas em várias aldeias de Portugal e de dimensões variadas, conforme o gosto do freguês, escondem algo por baixo da batina que faria chocar as beatas, míopes ou não: uma inconveniente terceira perna, a descer até aos joelhos do castíssimo santo.

 

Mais ainda haveriam de se arrepiar as devotas, com sua moral abalada e a se tornarem confusas e confundidas se, a um simples dispositivo, vissem o fradinho erguer para o alto, de entre as fendas sem botões da batina, a parte disforme do sagrado tripé.

 

 

  1. ATRIZ DRAMÁTICA.

 

Era sempre muito requisitada como atriz, especialmente nos papéis cómicos, para as peças que os amadores locais encenavam no Cineteatro Flávia. Nestas, muitas vezes e sempre, ela tanto fazia rir a plateia, como enlouquecia o apontador das falas. Daí resultar que, toda vez que pedia e até mesmo suplicava para interpretar cenas dramáticas, os companheiros de Teatro entreolhavam-se e diziam a si mesmos – Não!!! – porque, invariavelmente, Adelaide também fazia rir o público nos momentos de maior dramaticidade.

 

Em uma das apresentações de “As desgraças de uma condessa”, ao contorcer-se no palco entre esgares de dor e os estertores da morte, ficou bastante indignada. Da plateia aos camarotes, alguns estúpidos e mal educados espetadores (na verdade, a maioria) e alguns dos atores em cena (quase todos) que, segundo ela, eram todos uns tontos, contorciam-se a rir, não se sabe (não o sabia ela) a que propósito!

 

Certa vez, Adelaide convidou João Reis e Flor a irem vê-la atuar no Cineteatro Flávia. Reis agradeceu, mas disse que não gostava de ir ao teatro, mormente porque, como bem lhe informavam os jornais, o público habitual chegava a abusos e desmandos que irritavam qualquer pessoa séria e bem-educada. Ocorria na Vila uma exata reprodução do que dizia Almeida Garrett, em “Frei Luís de Sousa”: “Representavam tudo no velho theatro e quem mais representava, às vezes, era a platéia. Graçolas para os actores, respostas dos visados, um à-vontade inexcedível!... Nos camarotes, as damas constrangiam-se para não rirem e os pais de família, empavezados, achavam de mau espírito os sarcasmos plebeus dos graciosos. Interagiam com a cena.”

 

Adelaide lhe fez ver que, agora, com os praças da Guarda Republicana a atuarem no teatro de Chaves (na plateia, por certo, não no palco), já se estava a notar uma acentuada melhora no comportamento do público. Tentou convencê-lo disso, em vão. Reis se disse informado de ainda haver alguns gaiatos a fazerem de tudo para chamar atenção e, nesse intento, porem-se a dizer inconveniências e praticar grosserias, antes, durante e após as cenas. Acrescentou que, conforme também já estivera a ler nos jornais, realmente péssimo era certo hábito, então vigente – Ora, pois, mas não estais a ver que os donos levam seus cães ao teatro, com essa cainçada toda a deitar pulgas na plateia e nos camarotes?! Acontece que os cães são muito críticos e exigentes e não gostam da música nem do teatro que se está a fazer por cá. Ofendidos em sua erudição canina, latem durante as apresentações.

 

Embora proferido com seriedade por Papá, esse chiste não deixou de fazer rir a Florinda e Adelaide. O brasileiro viu-se envolvido, então, ainda que involuntariamente, em um raro momento de agradável descontração familiar.

 

 

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Terça-feira, 24 de Janeiro de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. ADELAIDE.

 

Das visitas que Florinda mais apreciava e das mais divertidas, também, ainda que ao dono da casa fossem as de menor agrado, por certo que estavam as de Tia Adelaide. Era uma açoriana bonitona, cheia de carnes e algumas gordurinhas bem distribuídas, mas sem excesso, a beirar os cinquenta. Viera ter um dia a Chaves com o marido flaviense, aparentado de Reis, do qual enviuvara (devido a alguns excessos conjugais, assim dizia-se, à boca pequena, por cá, por lá e acolá).

 

Estava a conviver agora sob o mesmo teto com Luís Miguel, um musculoso rapagão de quase dois metros de altura, mas de pouca idade e que a todos dizia ser um dileto afilhado. Ao que ela acrescentava, à sua amiga Flor – Não bem assim, como os miúdos que se levam à pia batismal, porém… outros batismos, percebes? – e sorria de modo malicioso, pelo que muitos andavam a comentar que, além de cocheiro, o jovem Miguelão lhe servia em tudo o mais que fosse necessário. Um verdadeiro pau para toda colher (com trocadilho, se quiserem).

 

Era ele, portanto, que a conduzia na Carochinha. Esta era uma pequena caleche com assentos e espaldares acolchoados, coberta por um toldo bordeado por franjas e borlas, conversível, podendo pois abrir ou fechar nos dias de sol. As laterais eram cor de barro escuro, com florezinhas brancas, similares aos utensílios de cozinha da cerâmica de Alcobaça. O visual dessa caleche, apesar de alguns na vila considerarem bastante original, fazia troçar a maioria dos passantes e alguns até se perguntavam, a mangar em voz alta – Mas ora, ô pá, a quem se vai cozinhar lá dentro? – e outros mais queriam saber, em tons de caçoada, onde se estava a levar o show de fantochadas que a Carochinha parecia anunciar, como se fora uma carroça de circo ambulante, ainda mais pelas borlas e guizos ruidosos, no veículo e nos cavalos.

 

O exotismo, espalhafato e excentricidade não se restringiam à caleche. Toda ela, Dedé era uma grande atração, mormente nas maneiras de ser e de vestir, com trajos vistosos e coloridos, a usar capachinhos louros, castanhos ou pretos, de acordo com o trajo da ocasião. Isso tudo a uma altura em que as pessoas da região, mais ainda as mulheres e, sobretudo, as viúvas (Menos eu! – dizia a rir) vestiam roupas escuras, pesadas, funerais. De negro bem fechado, trajavam-se até as enviuvadas de homens vivos, os que iam para Além-mar e nunca mais davam notícia. As donzelas também se vestiam com poucos tons coloridos, sendo de uso geral o preto e branco, no máximo um cinza, um azul ou um verde, da mais escura tonalidade.

 

Dedé, como os íntimos a chamavam, ria-se por tudo e por nada, com o seu gargalhar escarolado. Nunca teve filhos. Era uma das poucas tristezas suas, o que às vezes tentava superar com o bom humor caraterístico – Como sabem, sou maninha. Igual a certas vacas – e soltava um riso debochado.

 

Morava à Rua do Bispo Idácio, uma via bastante antiga, onde algumas construções originais datam do século XVII e várias residências foram assentadas sobre a antiga muralha medieval. Habitava um prédio de dois andares, em cujos fundos havia uma escada que descia até a Rua Santo António. Era por tal acesso que, logo depois que enviuvara, um ou outro moço estava a subir às ocultas, para (assim dizia a viúva), não mais do que apenas jogar cartas com a anfitriã. Tais jogos, na verdade, poderiam se estender pela noite afora, sem vencedor nem vencido, mas com ambos os parceiros extenuados, após tanto embaralharem as cartas...

 

Sobre tais rapazes, dizia Adelaide, à meia voz – De facto, jogam-se as cartas lá em casa. Antes ou depois dos outros jogos... os de dama e valete, percebes? – e soltava mais uma de suas escandalosas risadas, seguidas de outras confidências – Agora, por esses degraus, só me sobe o Miguelão. Após, é claro, guardar-me a Carochinha na parte de baixo – ao que Mamã sorria constrangida, a oscilar entre a excitação dessas cavaqueiras indiscretas e o pudor de sua condição de esposa e mãe recatada.

 

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Terça-feira, 17 de Janeiro de 2017

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

 

  1. DIVERSÕES FORÂNEAS.

 

Apesar de Afonso ter um pouco mais de liberdade, não era de seu feitio ausentar-se muito de casa. Tinha apenas alguns amigos fiéis, aos quais lhe aprazia levar à Quinta – A rir das adivinhas da tua irmã – como diziam a sorrir. Estavam sempre a estudar, em equipa, as sebentas do Liceu, ou a assistir filmes novos no Cinematógrapho, ou, ainda, a ouvir os concertos da Banda de Infantaria 19, no Jardim Público.

 

Essa Banda costumava se apresentar no coreto do Jardim todos os domingos, a partir das 19 horas e sempre com um repertório diferente, que ensaiava durante toda a semana. O público gostava muito de suas execuções musicais, nas quais ofereciam peças como “Un jour de fête”, “Ouverture”, de Scweinsberg; “Un ballo in maschera”, de Verdi; “La Divina Comedia – Il Inferno”, de S.Fiorenzo; “Las Bribonas”, zarzuela de R. Callega; “Danse des Bachantes”, de Gounod; “Peer Gynt – Suite 1”, de Grieg; e mais algumas marchas e valsas. Falava-se tão bem da maestria desse conjunto, que a Banda dos Bombeiros Voluntários de Chaves, igualmente boa, jamais conseguia superá-la.

 

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Como já entrevimos, Florinda também saía pouco de casa e isso apenas eventualmente, em caso de obrigações sociais ou motivos de extrema necessidade. Uma dessas raras ocasiões era a de entregar seus dentes aos cuidados do doutor António Júlio Gomes, um dos poucos dentistas da vila e que costumava anunciar no jornal suas hábeis “extracções dentárias sem dor, obturações a cimento, ouro e platina, dentes e dentaduras artificiais com ou sem placa de ouro ou volcanite”.

 

Uma vez ou outra por mês, Mamã ia a um chá de senhoras ou a jantares de mera cortesia, à casa de pessoas de interesse comercial para o marido, como também, certamente, a visitas de retribuição aos parentes e amigos que tivessem ido à Quinta.

 

Apetecia-lhe mais essa última parte dos compromissos sociais. Em seu lar doce lar, esmerava-se na arte de bem servir e de bem receber. Apesar de não ser nativa da região, integrava o espírito de hospitalidade da qual nos fala o poeta Alexandre de Matos: “As terras de Trás-los-Montes / Inda que a vida vá torta / Todos encontram poisada! / Passante que bate à porta / E brade rijo: – ó da casa! – / Ouve de dentro: – lá vai… / Sente gente pôr-se a pé / Saltar do catre num ai / Ir acender a candeia / Ao fogo vivo da brasa / Alçar a barra da tranca / Abrir a porta com fé / E convidar, em voz cheia / Estremunhada, mas franca: / Faz favor… entre quem é…”

 

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Terça-feira, 10 de Janeiro de 2017

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. DIVERSÕES DOMÉSTICAS.

 

Depois da ceia, Arminda e Aurélia entretinham-se com os brinquedos, na infância prolongada daqueles tempos, após cumprirem os deveres letivos para o dia seguinte, enquanto, em companhia de Mamã, as irmãs mais velhas bordavam, liam ou conversavam um pouco na sala de estar. Logo após o chá das nove, recolhiam-se todos aos quartos.

 

Sob os sete cadeados patriarcais, assim seguia a vida para as quatro meninas da Quinta Grão Pará. Acerca disso, o próprio Papá dizia – Filhas mulheres, há que se velar como filhotes ao ninho – e todos compreendiam que, se duas pupilas estavam a se mover no rosto dele como rastreadores luminosos, havia outras, múltiplas, invisíveis, a se entronizarem em cada uma das meninas e a acompanhá-las por toda parte.

 

Esses focos de vigília estendiam-se até mesmo aos meninos Afonso e Alfredo, ainda que lhes fosse dada uma relativa liberdade, porque, como dizia João Reis – Os filhos homens sabem o que devem cuidar, não precisam guardar o que trazem entre as pernas, apenas ter siso e juízo, para que suas preciosas chaves sejam usadas de bom jeito e não façam mal à fechadura de ninguém.

 

Gostava às meninas que Afonso trouxesse os amigos putos a casa, pois eram ocasiões em que, entre merendas, jogos de salão e os olhares vigilantes de Mamã e dos próprios manos, podiam se dar a digressões adequadas entre rapazolas e mocinhas de boa família. O que mais agradava a todos eram as adivinhações que Aurita aprendera com as criadas, muitas vezes bem picantes, embora a menina continuasse a demonstrar certa ingenuidade (de facto, a malícia nunca lhe houvera de ser uma caraterística na vida).

 

Dentre as várias adivinhas, em geral inocentes, ou seja, apropriadas ao ambiente familiar, Aurora propunha também algumas que faziam corar os jovens, além de deixar os irmãos menores sem ver o boi. Os miúdos, no entanto, embora não pudessem alcançar os duplos sentidos e, portanto, ficassem sem saber nem metade da jocosa missa, riam por afinidade. A Nonô, tampouco ela risse por dentro, tais adivinhações causavam pudicos embaraços. Ao Afonso e demais rapazes, produziam risos meio gaguejantes, que alguns tentavam esconder com as mãos à boca ou à cara total. Eram do tipo – “Qual é a coisa, qual é ela, que roça na minha perna, quando sobe ou quando desce e, quanto mais no meu pelo roça, mais pra cima ela me cresce?” – ou então – “Tenho um brinco, c’o brinco, brinco, já do brinco me aborrece, quanto mais c’o brinco, brinco, mais o meu brinco me cresce”.

 

Sobrevinha então um silêncio constrangedor, até que ela dissesse – mas é meia, ora pois, meia comprida de mulher! – e todos se aliviassem, a uma risada geral. Aldenora, porém, logo estaria a correr até Mamã, que de nada se apercebera em seus afazeres domésticos e se punha a aborrecê-la com suas quezílias junto à irmã. A rapariga estava sempre ansiosa por relatar à Mamã as indecências que a mana tinha aprendido com as criadas no borralho.

 

Depois que os colegas saíam, Afonso vinha muito sério até à irmã, a fim de repreendê-la. Apesar de sua condição de filho homem, naqueles tempos de plena supremacia masculina, talvez porque um ano mais novo do que a irmã, o rapazola não conseguia ter com Aurita a mesma autoridade do pai. Dizia apenas – Peço-te, minha irmã, não faças mais isso! Nunca mais estejas a dizer tais adivinhas, que eu não sei quem t’as ensinou e tu, ao que parece, nem alcanças de facto o que aprendeste!

 

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Terça-feira, 3 de Janeiro de 2017

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. ROTINA DO CLÃ.

 

 Após um dia de trabalho no armazém da Rua Santo António e algumas esticadas eventuais para fiscalizar as outras lojas, Reis subia ao landó, ouvia em resposta o boa-noite quase incompreensível do cocheiro e, mal se refestelava no acolchoado assento do carro, já estava a pensar e até sentir o cheiro do bom jantar que – Ai, Menina Flor, como este caldo verde soube-me bem, ora pois, cozinhas como os deuses! – o que logo a Mamã contestava, embora envaidecida – Ai Jesus, meu maridinho, não fales assim, pois que só há um Deus e ele não vive às panelas!

 

Papá sorria, algo que não lhe era usual. Talvez fosse um desses que riem para dentro, um riso tão contido como ele próprio – Ah, minha menina, tu me fazes rir! Cuida que não estou a chamar Deus de paneleiro. Mas ai, que digo eu?! Queria dizer... de cozinheiro! Não, não, perdoai-me, ó bom Deus, são apenas modos de falar, mas é que estes ovos com favas e ervilhas, como eles me sabem bem! Nem nas melhores casas de repasto em Lisboa!

 

A seguir, deixava-se ir à salinha particular e se punha a saborear um cafezinho bem quente, fumar seu havano, bebericar o Porto em sua privativa taça de cristal da Boémia e passar uma vista d’olhos pelas secções dos jornais de Chaves, de Lisboa e do Porto. Estes últimos eram trazidos, diariamente, nos antigos comboios a vapor que contornavam as serras, até alcançarem Vidago. Daí, pela camioneta em que viajavam também os passageiros, os periódicos chegavam, enfim, a Chaves. Na vila, as notícias impressas eram lidas, então, com sabor de pão dormido.

 

Florinda era, sem dúvida, uma cozinheira às mancheias, embora apenas orientasse as criadas e raramente pusesse mãos às panelas. Seria uma espécie de chef de cuisine, ao seu tempo. Após o jantar, cuidava que a mesa de refeições fosse logo arrumada, que se pusesse de novo sobre ela a belíssima toalha da Madeira e, sobre esta, flores ainda viçosas no jarro de vidro de Murano. Somente depois ia sentar-se a uma cadeira de balanço, na sala de estar, conjugada à de refeições, para ler os jornais do Concelho.

 

O que mais lhe apetecia era ler “O Flaviense”, (autointitulado “semanário independente republicano”). Em suas poucas páginas, entremeavam-se editoriais políticos e artigos de crítica social com os reclamos e as notas sobre a elite de Chaves. Veiculavam-se, também, algumas notícias sobre eventos culturais ou meramente recreativos, a cujos tais o senhor seu marido jamais pensava em levar a esposa, nem as rapariguinhas suas filhas, todas ávidas de uma boa distração.

 

Ocasionalmente, à Florinda atraíam algumas curiosidades como a lista de operações cirúrgicas do Dr. Henrique Botelho. Estes procedimentos eram “sempre feitos com anestesia clorofórmica”, das quais se publicavam os motivos e os nomes completos dos pacientes (exceto no caso de moléstias de caráter mais íntimo, quando se davam só as iniciais): “Margarida de Jesus, 20 anos, de Vila Pouca de Aguiar, tiroidectomia, por motivo de antigo e volumoso bócio, sendo que a doente estava com um estado de decadência orgânica tão pronunciado, que já se lhe dava aspecto senil, mas voltou a ficar louçã, com o viço próprio de sua idade; Cristóvão Pereira, 18 anos, de São Cristóvão da Sabrosa, trepanação craniana; A.A.C.V., 48 anos, de Vila Real, hemorroidas internas e externas; A.M.R.S., também de Vila Real, 47 anos, fístula ano-retal extra-esfincteriana antiga; José A. Rodrigues, 31 anos, de Vilela, Provesende, laparotomia supra umbilical mediano, seguida de otomentoplexia, por motivo de cirrose alcoólica atrófica do fígado; Pedro de Barros, 23 anos…”

 

Assim prosseguiam, aos números seguintes do jornal, outras listas de pessoas recentemente operadas pelas mãos do ilustre cirurgião.

 

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Terça-feira, 13 de Dezembro de 2016

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. VIGÍLIA DA PAZ.

 

Inicialmente, o forte sentimento religioso e de respeito ao Clero, sob o qual fora criado e educado, levara João Reis a tender à Monarquia. Via muitos aspetos novos e essenciais nos propósitos republicanos, mas temia que se repetisse em sua pátria o que constatara no Brasil, há alguns anos, antes de tornar a atravessar o Atlântico. Considerava que a República brasileira, proclamada em 1889, assemelhava-se a um golpe das elites militares, cada vez mais dissociadas das camadas do povo que as apoiara. Decidiu, portanto, definir-se pela neutralidade. Em digressões com os amigos e parentes, quando aqueles de opiniões contrárias quase chegavam aos embates físicos ou verbais entre si, calado estava, calado ficava, calado se afastava. Algum tempo depois, porém, mesmo com sua vida reservada (e preservada), João Reis acabou por aderir de vez aos ideais republicanos.

 

Com a batalha prevista entre os republicanos de Chaves e os monárquicos de Verín, Papá mandara fechar as casas comerciais e se recolhera à quinta. Deu expressas ordens a que trancassem fortemente as portas e portões, não acendessem as luzes e ninguém chegasse às janelas. Armado de uma velha pistola e em companhia de Manuel de Fiães, o cocheiro, que portava uma caçadeira bem simples, dessas de abater perdizes, postou-se junto às janelas que davam à rua, em constante atenção às entradas da quinta e a qualquer movimento lá fora.

 

Manuel era um rapagão entroncado e sempre emudecido, que cuidava da horta, do pomar, da cavalariça e do que mais se fizesse mister na Quinta Grão Pará. Um tipo bem másculo e até bonito, mas bastante maltratado pela infância pobre e pelos muitos suores que, desde miúdo, já lhe salpicava no rosto o intenso labor. Por considerar que, na Quinta, estava em melhores dias do que antes, era de uma fidelidade absoluta a João Reis, que ele julgava ser um justo e generoso patrão.

 

Florinda, as criadas e os filhos estavam concentrados no quarto do casal e rezavam o terço, diante do oratório de jacarandá. Os miúdos choramingavam assustados, por não entenderem nada de guerras, muito menos de uma querela como essa e ficaram muito felizes quando, à madrugada, o quase total silêncio fez todos se recolherem ao leito, exceto as duas heroicas sentinelas em vigília.

 

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Terça-feira, 6 de Dezembro de 2016

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. GUERRAS DA REPÚBLICA.

 

Grandes contendas políticas marcaram os primeiros anos de Bernardes, ao retornar à sua Chaves natal. Eram lutas locais entre aqueles que tentavam manter a permanência das instituições republicanas em Portugal e os que defendiam o restauro da Coroa portuguesa, inclusive com as conhecidas “incursões monárquicas”. Os realistas viam na queda da monarquia as garras de maçónicos e carbonários, inimigos do Trono e da Religião e os relacionavam ao assassinato de Dom Carlos e de seu filho mais velho, o príncipe herdeiro Dom Luís Filipe, no Terreiro do Paço de Lisboa, em 1908, bem como à revolta que provocou a deposição de Dom Manuel II e a consequente criação da República, aos 5 de outubro de 1910.

 

Após uma fracassada incursão a Bragança, em 1911, em julho do ano seguinte os conspiradores monarquistas se aquartelaram na vila galega de Verín, perto da fronteira com a Galiza, à espera do momento propício de descerem a Trás-os-Montes e, a partir dessa retomada, tentarem reimplantar a Coroa em Portugal. Após entrarem por Sendim e por Vila Verde da Raia, realizaram sua intentona, afinal, a partir de Sanjurge, em direção a um lugar de nome Telhado, onde o Primeiro-cabo Exposto avistou as tropas e correu a avisar os republicanos de Chaves.

 

No dia 8 de julho de 1912, ao Forte de São Neutel, na vila e aos arredores, houve duros combates entre as forças realistas de Paiva Couceiro e as do governo republicano local, chefiadas pelos tenentes-coronéis Ribeiro de Carvalho e Custódio de Oliveira, com o apoio de devotados civis.

 

Além deste e do Cabo Exposto, muitos cidadãos flavienses apoiaram e participaram ativamente dessa luta. Foram saudados, posteriormente, como “Os Heróis de Chaves”. Um deles, como registava um jornal contemporâneo, foi “Justina Maria da Silva, chamada de Maria do Rasgão ou Maria dos Rapazes, de certa rua de mau nome e maus costumes, que foi depois condecorada por sua ativa ajuda aos combatentes republicanos”. Outro participante ativo a favor da República foi o jovem Dr. António Granjo, organizador das milícias civis e que viria a tornar-se, alguns anos depois, primeiro-ministro da República em Portugal.

 

Os republicanos de Aquae Flaviae saíram-se vitoriosos, afinal, contra essa desastrada intentona monárquica. Foram, porém, duros combates, como nos reporta a carta de um flaviense, ipsis litteris:

 

“Chaves, 8 de julho de 1912.

 

António,

 

Os conspiradores entraram hontem, dando-se um pequeno combate em Villa-Verde, via Santa Marta, ficando ferido, mas sem gravidade um capitão do estado-maior Mário Magalhães. Hoje houve grande combate entre Chaves e Forte de São Neutel.

 

As 9 horas correu noticia de que os conspiradores estavam perto de Chaves. Efectivamente era verdade. Em face disto prepararam todas as forças que puderam (que era apenas cento e tantos soldados, porque o grosso das forças tinham partido para Montalegre) e foram ao encontro deles. A esta pequena força juntaram-se alguns policias, guardas fiscais, cavallaria e paisanos. A artilharia e metralhadoras também tinham partido para Montalegre. Pouco depois das nove horas começou o fogo, que durou até às 2 horas da tarde, hora a que chegou a artilharia de Montalegre. Por parte dos conspiradores fizeram muitos tiros de peça sobre a villa, que eu vi cahir algumas por cima da minha casa. Tres tiros de peça bateram na casa de José Mesquita, cortando-lhe completamente 2 tranqueiras das janelas, 2 tiros de peça atravessaram o edifício do liceu de lado a lado. E vários outros tiros que danificaram bastante alguns prédios.

 

Os conspiradores chegaram ao pé do cemitério. Por ultimo retiraram, deixando vários mortos e feridos, uma peça e munições. Das forças republicanas apenas morreram um cabo, filho do coronel Sousa Dias e um soldado, e ficaram feridos o capitão Tito Barreiros, o tenente Macedo, o filho do general Carvalhal e um alferes de cavalaria, este gravemente. Nesta hora consta que os conspiradores já vão para Villela Seca, batendo em retirada.

 

Teu mano muito amigo

 

Abílio

 

PS. No hospital militar já estão uns sete conspiradores mortos. No hospital civil estão 2 conspiradores gravemente feridos sendo um filho do visconde da Ponte da Barca e o outro Firmino Cunha do Porto. Nós bem, assim como toda a nossa família. Hoje passámos um dia com muito receio, mas agora já estamos tranquilos.

 

Já cá estão muitas forças.

 

 Teu

 

Abílio”

 

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Terça-feira, 29 de Novembro de 2016

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. VEIGA.

 

Na época dos Bernardes, a vida em Chaves era muito influenciada pelas condições ambientais, a localização entre montanhas íngremes, frias, escabrosas, ainda que envolvidas por uma vegetação verdejante, mas castigada pela neve, com o seu manto branco de “noiva transmontana”. Conforme nos diz António Lourenço Fontes, em sua “Etnografia Transmontana”, não era como hoje, “uma terra por onde transitam viajantes destinados ou de passagem, mas sim um final de linha onde se vivia isolado, sem influências externas que fossem contrárias aos modos daquela gente viver, após séculos a sós, esquecida do mundo”.

 

Os sítios da veiga, à margem esquerda do Tâmega e à direita da Madalena, um pouco depois do Jardim Público e do ribeiro do Caneiro, ainda que muito perto do entorno histórico e comercial da vila, eram então muito desertos, rurais, com apenas algumas casas e quintas esparsas nos caminhos que iam dar logo ali, na Galiza. Os moradores em geral viviam entregues à horticultura, às atividades pecuárias ou ao específico comércio de aluguel e venda de equinos.

 

1600-5445

 

Até alguns anos antes das primeiras décadas do século XX, viviam os flavienses sem luz, sem estradas, sem telefone, além de um índice bem acentuado de analfabetismo entre as camadas mais pobres, as quais constituíam, ao cabo das contas, a maior parte da população. Dormia-se bem cedo, pois o frio ali era mais intenso que alhures, ainda mais pelos ventos que, às vezes, pareciam não se entender quanto ao rumo e, assim, provinham de toda parte. O silêncio era quebrado apenas por eventuais latidos de cães vadios, o trotar de cavalos ao longe, ou, ainda, pelos incómodos ruídos da pequena fauna local, com os seus raros insetos noctívagos.

 

Ainda conforme Fontes, os habitantes da região viviam “amorrinhados pelos longos dias invernais”, chuvosos ou enevoados. Tal modus vivendis levava muitos nativos a “um temperamento amolecido, indeciso, propenso à melancolia, à reação lenta, à reserva natural de um caráter introvertido e desconfiado, tendendo à concentração no interior de si mesmo, no seu lar, na sua aldeia, no seu país”.

 

Todas essas influências devem ter sido absorvidas por João Reis Bernardes, a se refletirem no estilo de vida que impunha a si mesmo e aos seus.

 

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Terça-feira, 22 de Novembro de 2016

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. RECONQUISTA.

 

Os mouros foram expulsos de Chaves no século XII, durante os anos da Reconquista, por um grupo de combatentes, menos interessados na fé cristã do que nas pilhagens aos bens dos derrotados, comandados pelos irmãos Garcia Lopes. Segundo uma polémica histórica, esses manos teriam expulsado, não exatamente os mouros, mas outros povos invasores, quiçá os Leoneses, mas o facto é que, fosse aos de Leão ou aos mouros, os valentes lusitanos reconquistaram para Portugal, sem qualquer auxílio régio, essa parte norte do território ibérico. Conta-se que, sob o arco da igreja Matriz, há uma lápide tumular, com inscrições que glorificam e perpetuam a memória desses aventureiros:

 

“Os dous irmãos com as quinas

Sem rei tomaram a Chaves

Donde em campo de ouro finas

Lhes foi dado por suas signas

Em seu escudo cinco chaves.”

 

 (Não consta porém, como denunciado no livro “A Igreja de Santa Maria Maior de Chaves”, de Francisco Gonçalves Carneiro, a comprovação histórica e material desse epitáfio).

 

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Posteriormente, Dom Dinis, de alcunha “o Lavrador”, construiu um castelo (hoje inexistente) e levantou nova estrutura de muralhas. Desses paredões, alguns ainda remanescem em grande parte da cidade, principalmente em torno da Torre de Menagem.

 

Chaves foi destruída e reconstruída várias vezes, ao longo dos tempos. Sobraram poucos vestígios da povoação original, até que, sobre o que restara de suas muralhas, fez-se a reconstrução de outra vila, na segunda metade do século XIV, após a retomada da região pelo Mestre de Avis, no cerco do qual nos fala Fernão Lopes, em sua “Crónica de El Rei D. João”, capítulo 69: “(…) Ainda em local da antiga Vila de Santo Estêvão (…) acampou o Mestre de Avis com as suas aguerridas hostes, em dezembro de 1385, em cuja região se detiveram bastantes dias (e ali mesmo comemoraram a ceia do Natal), em aprestos bélicos para a ingente e temerosa investida da formidável cidadela de Chaves, que tomara voz por Castela”.

 

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