12 anos

Terça-feira, 25 de Abril de 2017

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. GRANDE GUERRA.

 

O mundo todo acompanhava, estarrecido, a guerra que as elites carniceiras da Europa fizeram eclodir, dos anos 14 a 18 do século XX, em talhos onde se expunham cadáveres esquartejados e os soldados, nas trincheiras, grande parte dos quais advindos como voluntários, viam-se diante de ini­migos que, em igual condição à deles, também estavam à mercê da chuva, do frio, dos lamaçais e, com mais cons­tância, dos piolhos, ratos e carraças. Acabavam quase todos vitimados pelas balas ou gases venenosos, por enfermidades como o tifo e a febre quintã ou, pior ainda, pelas septicemias oriundas de ferimentos mal cuidados, ante a falta de cer­tos procedimentos sanitários e de medicamentos ainda não existentes, como antibióticos, vacinas e outros mais.

 

O maior legado que os marechais dessa guerra deixaram à Europa, após ficarem brincando, insanos e entediados, com os jogos de matar soldadinhos, não de chumbo, mas de carne e osso, foi mergulhar o continente em uma trípli­ce aliança, a dos três efes: fome, fraqueza, falência. A indi­gência aumentara, na maior parte dos países, com a falta de recursos médicos e de géneros alimentícios que pudessem servir de trincheiras ou fortalezas inacessíveis a outros em­bates, bem diversos e mais genocidas e que, tal como aquela guerra, seriam travados contra as forças de Tânatos, o deus da Morte.

 

Nessa batalha, que logo estaria a se anunciar, por toda parte, como guerra não declarada, até mesmo os arquidu­ques Ferdinandos d’Áustria-Hungria estariam à mercê de serem abatidos, não por estudantes bósnios de nome Gavrilo Princip, mas por batalhões de germes mortíferos, criados pela Natureza, nos seus imprevisíveis desígnios de ora mãe, ora madrasta.

 

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Terça-feira, 18 de Abril de 2017

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. DESENCANTOS.

 

Novas esperanças teve Aurora de rever seu Hernando, ao dia seguinte, quando prosseguiram as homenagens aos heróis da resistência republicana de 1912.

 

Como um raro milagre, Papá consentiu dessa vez que, sob a proteção de tia Margarida, os filhos e as criadas fos­sem ao quartel da Infantaria, que ora se franqueava ao públi­co. Assistiam-se por lá aos exercícios e jogos militares, cuja programação constava de “ginástica sueca, assalto a sabre, luta greco-romana, assalto de baioneta, corridas de obstá­culos e de resistência, saltos à vara e altura, esgrima, saltos a cavalo e concurso hípico” e tinha, como contendedores entre si, os recrutas da Cavalaria 6. Como era de hábito, du­rante a execução dos exercícios, tocava a Banda da Infanta­ria 19. A todos, o que mais deslumbrou foi o desfile dos dois regimentos militares, a entoarem, de modo forte e viril, a marcha “Legenda Dourada”, hino da guarnição de Chaves.

 

A um dado momento, Aldenora inquiriu a irmã – O que tanto os teus olhinhos procuram assim, tão ansiosos, se é que m’o podes contar? – Aurora não respondeu e a outra continuou, ferina, mordaz – Se é um certo mau elemento que vive perto de nós, cá por Chaves, ele acaba de passar por ali com uma rapariga, a lhe encher os ouvidos de risos e perdigotos. E me parece que, de tudo isso, dava-se ela por muito apreciar a corte do finório, pois parecia uma rosa a se entregar ao chupa-flor!

 

Logo a tristeza chegou de tal sorte ao coração de Aurora, que, à noite desse mesmo dia, apesar de mais um dos raros consentimentos de Reis a que as filhas saíssem de casa, não quis acompanhar tia Margarida ao Teatro Flaviense. Nesse teatro, uma comissão de senhoras, na patriótica incumbên­cia de angariar fundos para a Liga de Instrução e Benefi­cência, destinados à assistência das famílias dos soldados mobilizados para a Grande Guerra, ia realizar “um brilhante espectáculo dramático”, com peças que, conforme dizia “O Flaviense”, eram da melhor qualidade.

 

De acordo com o jornal, tudo estava preparado “de molde a poder esperar-se uma noite de encanto, festa verdadeira­mente feminina, com todas as graças e delicadezas que só a mulher sabe dar às obras em que a sua alma vibra superior­mente. São todas elas feitas de mimo e brandura, tecidas n’um enlevo de finura e subtileza. Depois, sendo interpre­tadas por senhoras de reputada inteligência e ilustração e por cavalheiros que muito têm brilhado no palco flaviense, essas obras, de um grande valor literário, hão de ter a so­mar, à graça própria, a segura interpretação que lhes vai ser dada.

 

À manhã do outro dia, a se valer de seu precoce desen­volvimento intelectual, admirável para uma menina de ape­nas 14 anos, Aldenora fez uma verdadeira reportagem do evento, a fim de, mais ainda, espicaçar a irmã – Ai, Aurita, nem calculas o que perdeste, sua parva! Os camarotes es­tavam ocupados pela melhor sociedade de Chaves. Todo o teatro mostrava, ai Jesus, um lindíssimo aspeto! Precisavas ouvir a sinfonia da orquestra, quando começou o espetácu­lo! E quando subiu o pano?! Nem parecia mais o palco velho, feio. Nem aquele! Estava uma riqueza de luxo, de requinte, de beleza! Os atores da comédia “Os Quatro Cantinhos” tra­balharam tão bem, com tanta naturalidade!

 

Prosseguiu, empolgada – Depois o senhor Adriano Coim­bra recitou um poema tão sentido, em que parecia colocar, em cada palavra, as vibrações de sua alma. Gostei muito, também, da comédia “A Missão da Mulher”, uma profun­da lição de moral, que se passa com uma família durante essa terrível guerra que está, por aí, a fazer morrer os nossos pobres rapazes e – concluiu – no final, representaram uma peça de Júlio Dantas, “Rosas de todo o ano”. Que primorosa, minha irmã! Como disse a tia Margarida, foi uma noite de puro e total enlevo.

 

Adveio, então, a fraternal fisgada – Ora, pois, mas que patetice a minha! Não é que já estava a me esquecer de con­tar?! O filho mais novo dessa família que mora aí em fren­te… ele também estava lá, com uma dessas raparigas que andam por aí, assim... como dizer? Tão desgarradas, que até parecem não ter pai nem mãe. Quer dizer, até me faz crer que aquela mulher seja mesmo uma dessas, mas é deveras rica, porque estava muito bem vestida e cheia de joias, da cabeça aos pés.

 

Por fim, a última alfinetada – Aliás, ela é muito mais bo­nita do que muitas rapariguinhas por aí, que ainda não sa­bem nem se arranjar bem diante do espelho. Sabes tu que há rapazes que só gostam de mulheres como ela, mais livres, mais velhas, mais experientes? Esses aí, certamente, jamais vão se interessar por uma menina honrada e de boa família, mesmo que sejam certas tontinhas por aí...

 

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Terça-feira, 11 de Abril de 2017

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. LUZIA CARRAPATO.

 

Após o fim do concerto da Banda de Infantaria 19, com uma apoteose ovacionada pelo público, estava a menina Aurora a deixar o Jardim com a família, quando viu, pela segunda vez, a velha demente, que fora recém-apupada pelo magote de putos. Desgrenhada, suja, continuava perdida em seus solilóquios e a gritar sem parança. Era, de hábito, inofensiva. Enfurecia-se bastante, porém, quando a malta vinha molestá-la, provocando-a com palavras e gestos indecentes. A pobre mulher retribuía, então, com gestos e palavras ainda mais agressivos.

 

Como Aurita viesse mais atrás dos Bernardes, ao lado de tia Margarida, esta contou-lhe a história da louca senhora.

 

 

Luzia Carrapato, outrora de Avelar e Guimarães, tradicional família minhota, apaixonou-se perdidamente por um judeu polaco, paixão logo correspondida. O pai da moça, de arraigada fé cristã, negou aos jovens qualquer possibilidade de um enlace matrimonial. Transportou-a para uma quinta longínqua de sua propriedade, onde a rapariga ficou reclusa.

 

O jovem semita foi-lhe ao encontro e com ela fugiu para Viana do Castelo, de onde seguiriam até à Galiza e, depois, para a Polónia. O senhor Matias de Avelar e Guimarães, todavia, contratou os serviços de um bandoleiro, para seguir no encalço dos amantes, matar o rapaz e trazer a fugitiva de volta à casa paterna.

 

A menina Luzia estava grávida. Ao lhe nascer o filho, o avô minhoto pagou a um nómada cigano uma tarefa imediata: desaparecer com a criança pelo mundo afora e nunca mais passar por aquelas bandas do Minho. Deu-lhe ainda um manhuço de réis a mais, para atender ao sustento do petiz. Esse era um costume bem antigo, desde a Idade Média, sobretudo entre os nobres e abastados.

 

Afirma-se que provém, dessa forma de alienação de crianças bastardas, uma parte do ancestral preconceito contra os ciganos. Alimentou-se, por toda parte, a lenda de que estes roubavam miúdos, cujos pais nunca mais os tornariam a ver. A propagação dessa lenda foi aumentando, cada vez mais, mormente quando se viam nos acampamentos gitanos, sem que lhes soubessem a procedência, crianças de olhos azuis e de tez bem mais clara do que a pele dos demais integrantes do clã.

 

O que resultou dessas bárbaras ações do pai de Luzia é que a menina enlouqueceu. Em seu desvario, saiu pelo mundo afora a falar de sua dorida história, enquanto ninava panos enrolados como se fosse o filho perdido, para o qual ficava a cantarolar sem harmonia nem pausa. Uma algaravia a que ninguém alcançava compreender.

 

 

Essa história deixou a menina Aurora tão impressionada que, nessa noite, perdeu o sono até ao alvorecer. Sentia a modos que o estômago se lhe revirava e dava um nó. Não parava de pensar nos padecimentos da pobre mulher, a sofrer unicamente pelo facto de se entregar aos ditames do amor, até suas últimas consequências. Quando, enfim, conseguiu dormir, viu-se a correr suja e com as melenas desgrenhadas pelas ruas de Chaves, com um bebé de verdade nos braços. Era perseguida por pessoas muito más, que acabavam por encurralar a si e à criança, em um beco escuro e sem saída, onde, ao fundo, havia um homem encapuzado, sinistro e aterrador. Ao se revelar sua face, com olhos encarnados e riso sardónico, ele não era o Papá, mas parecia o Papá, tinha a cara de Papá... e isso fez, de tal sonho, um pesadelo ainda maior.

 

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Terça-feira, 4 de Abril de 2017

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

 

  1. SONHO DE VERÃO.

 

Eis então que Aurora, à altura em que se ouvia tocar o passo dobrado “Querido Portugal”, com um arranjo da Banda e, como sempre, de excelente harmonia, olhou casualmente para um grupo de rapazes que riam de algo, de alguém ou de alguns e percebeu, dentre eles, o jovem morador da casa em frente à sua, na Estrada do Raio X. Sentiu-se mergulhar em agitados pesadelos como se, naquela noite de sonhos de verão, algum Puck brincalhão do senhor Shakespeare, foragido de Stratford-on-Avon, no tempo e no espaço, viesse exortá-la para o Amor.

 

Como que a um sexto sentido, Hernando lhe devolveu o olhar. Trazia aos lábios um sorriso zombeteiro, com uma aura de luz em volta de si, que parecia fazê-lo se elevar aos céus, o que muito perturbou a sensitiva pastorinha de Chaves, que não conseguia desviar os olhos de tão bela quão profana aparição. De repente, porém, a entrecortar esse cruzamento de olhares, passou a correr entre eles uma pequena malta de putos esfarrapados, em feroz perseguição a uma pobre velha, senhora de manifesta perturbação mental. Enquanto alguns senhores repreendiam os rapazolas, alguns outros atiçavam os trocistas a continuarem com esses gestos de tamanha impiedade.

 

Ao cessar a balbúrdia, logo todos se dispersaram, com a mesma rapidez da curiosidade saciada. A malta, porém, afastara do campo de visão de Aurora o jovem Hernando e seus camaradinhas. No lugar onde há pouco estiveram, não havia mais nenhum belo rapaz de lenço ao pescoço, olhos de lince e riso debochado.

 

Entrementes, João Reis falava aos seus, em tom baixo, mas indignado, que o único problema daquele Jardim era a falta de policiamento. Nos dias em que as bandas tocavam, o jardim era livre para todos. Não se podia, portanto, conforme explicava o Papá, impedir a entrada de qualquer zé-dos-anzóis que, por uma condição social menos favorecida, estivesse com um fato surrado, sem gravata e tamancos nos pés. Com isso, no entanto, permitia-se também a entrada de mendigos, com o seu esmoler importuno; bêbados, a liberarem gestos obscenos e palavras de baixo calão; maltas de miúdos a correrem por aquele passeio público, andrajosos e quase nus, como se acabassem de sair das páginas de uma obra de Charles Dickens.

 

Para um quadro completo de Pieter Bruegel, havia também os doidos. Chaves, como qualquer outra vila ou cidade, também tinha os seus próprios loucos, a perambularem maltrapilhos pelas ruas: a Don´Ana, o Bisca Velha, o Furriel, a Rosa Tirana, o João da Manta, o Mata-a-velha (esse, além de louco e mendigo, era ladrão)... A garotada miúda e alguns rapazotes os perseguiam e arreliavam, sem que a Polícia nada fizesse para impedir. Sobre o facto ocorrido naquela noite de julho, alguém escreveria uma nota no próximo número do jornal “O Flaviense”: “Essa prática selvagem, inconveniente e desumana de irritar os coitados, transforma em furiosos e tresloucados a esses doidos que, não fora a falta de respeito do rapazio, não passariam de pobres malucos inofensivos”.

 

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Terça-feira, 28 de Março de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. MOSCAS E MOSQUITOS.

 

Apesar de morar tão próximo de Hernando, Aurora passou muito tempo sem vê-lo. Como acontece quando se espanta uma incómoda mosca, mas o inseto persiste em voejar em torno do incomodado, assim estava a menina a tentar nunca mais pensar nele. Esse mosquito maroto, no entanto e por diversas vezes, vinha que lhe vinha pousar à lembrança ou, até mesmo, materializar-se em carne, osso e sedução. Tal ocorreu a um entardecer, em que ela estava a passear com os familiares, por entre as alamedas do Jardim Público.

 

 Era véspera do feriado em que se iam comemorar cinco anos da vitória dos republicanos, contra a incursão monárquica em Chaves. O florido parque, construído entre as margens do Tâmega e a Avenida Dom João I, na Madalena, relativamente próximo à Quinta Grão Pará, ainda hoje é um belo e bucólico recanto. Naquele tempo, aos fins de semana, Reis tinha o costume de levar a família a passear, para usufruir, nos dias soalheiros, do excelente passeio pela fresca das brisas que as árvores proporcionavam.

 

Nessa noite de 7 de Julho de 1917, o Jardim Público apresentava-se ornamentado com uma profusa iluminação elétrica, para fazer jus a um festival de grandes atrações: concerto de canto coral com alunos da Liga Flaviense; queimação de vistosos fogos-de-artifício, pelos mais hábeis pirotécnicos da localidade; um grupo de “gentis damas da sociedade de Chaves” a vender sortes, no recinto de um bazar organizado às proximidades do coreto e cujas rendas, incluindo o aluguel de cadeiras, seriam revertidas em favor da subscrição nacional pelas vítimas da guerra e suas famílias órfãs. Haveria também a distribuição do bodo (roupas e alimentos) aos pobres.

 

 

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Jardim Público de Chaves. Coreto. (PT). Foto de Raimundo Alberto (2010).

 

Máxime seria o Hino Nacional cantado pelos praças da Cavalaria 6 e da Infantaria 19, juntamente com a admirável Banda dessa Infantaria, a qual, como já o fazia habitualmente, iria tocar lindas peças musicais: “O Barbeiro de Sevilha”, Ouverture, de Rossini; “Madame Butterfly”, de Puccini; “Segredo do Rajá”, de P. Ribeiro; “Regresso a Chaves”, de O. Douvens; “Tanauser”, opereta, seleção, de Wagner; “Cantares da Aldeia”, de B. da Costa e outros melódicos manjares, dentre os quais algumas mazurcas e zarzuelas.

 

Comentava-se elogiosamente que, com a nova iluminação do Jardim, os integrantes da Banda podiam agora ler melhor as partituras, sem a deficiente luz elétrica anterior, pois, às vezes, aquela chegava a interferir no desempenho das mãos ou da boca dos músicos. Até então, muitas vezes, tornava-se bem difícil aos olhos destes conseguir, com exatidão, descobrir o que se estava a enxergar nos pentagramas. Já não bastassem os pequenos insetos, que teimavam em pousar sobre as partituras e se confundirem com as notas da composição! Disso tudo, resultavam desafinações eventuais, nada agradáveis e eufónicas aos ouvidos do público, menos ainda aos componentes da Banda. Para os músicos, realmente, isso era constrangedor.

 

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Terça-feira, 21 de Março de 2017

Chaves D' Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. RETRATO.

 

Com admirável beleza, Aurita estava no esplendor de seus quinze anos, cada vez menos menina, u’a mulher a se pôr. Ao vê-la à janela da Quinta ou com os seus, a caminho da igreja, as pessoas exclamavam – Ai que belo rosto, o dessa rapariguinha! Há de ser assim, o da Senhora de Fátima!

 

Até um requisitado fotógrafo de Chaves atreveu-se a pedir a João Reis que lhe concedesse a honra de retratar a menina, vestida com o alvo manto de Nossa Senhora e tendo às mãos o Santo Rosário. Recebeu do patriarca um sonoro e perentório – NÃO!!!

 

A uma tarde qualquer, quando estava a se dirigir a um café no Largo das Freiras, Reis viu exposta, na montra de uma loja de artigos religiosos, à Rua Santo António, uma pintura a representar a Virgem e os três pastorinhos. A face da Santa, porém e os seus loiros cabelos, não lhe deixaram qualquer dúvida. Indignado e furioso, adentrou o estabelecimento, mas logo se arrefeceu ao ver que o dono era um velho amigo. Este contou ao brasileiro que, tal quadro, fizera-o seu filho mais jovem, a se valer apenas de sua pura e excelente memória visual. Em momento algum, porém, gostava ao pintor autodidata sequer pensar em ofender a honra da menina, os brios de João Reis Bernardes e a dignidade de uma tão conceituada família.

 

Reis propôs então a compra imediata de tal peça de arte. Muito constrangido, o comerciante explicou que o precioso quadro já não estava disponível. Outro freguês já o comprara, na véspera e por muito bom preço, deixando-lhe vultosa quantia à guisa de sinal e ficando de passar por lá, ao cabo da semana, para trazer o restante. – E cá me podes dizer, meu caro, quem é esse freguês? – Ora, pois, é aquele ciganinho, o filho mais novo do Camacho. – o que deixou o rosto do patriarca encarnado, purpúreo, arroxeado – Pois então, pra já é que me hás de vender essa pintura! Pago-te o dobro do preço! – Mas ó Reis, sabes tão bem quanto eu como são as regras do negócio, as leis do comércio. Não posso faltar com a palavra dada a um freguês. Ainda mais que...

 

De logo, porém, o Brasileiro o contradisse – Nem mais nem meio mais! Ora, pois, meu amigo, diz a ele que... pronto, aí está! Diz-lhe que ameacei de levar o teu filho à Justiça, por retratar uma menina sem a aprovação dos pais. Não, não precisas ficar assim! Não te vou fazer mal nenhum, muito menos ao teu menino. Basta dizer ao gajo que eu, João Reis Bernardes, foi quem t’obrigou a desfazer o trato com ele e pronto! Aos raios que o parta! Sabe-se lá pra quê esse patife quer ter em casa o rosto da minha filha?! – e mal ouviu os argumentos do colega de comércio – Mas ó Bernardes, tua menina tem mesmo a face da Santa. Isto cá é para se pôr a um oratório! – Que o seja! Mas não quero ver o retrato da minha filha por algures nem alhures, ora pois e pronto! Estamos conversados!

 

Assim, com a virginal face de Aurora a lhe servir de modelo, a imagem da Senhora de Fátima, devidamente benzida por um cura da Madalena, foi entronizada em um lugar de honra na sala de estar da Quinta Grão Pará.

 

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Terça-feira, 14 de Março de 2017

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. DEFESA DA FÉ.

 

Florinda a tudo escutou, com o sangue a lhe subir à fronte, em uma crescente indignação. Quando Aurita interpelou o primo, timidamente – Mas os pastorinhos viram Nosso Senhor no Calvário, viram Nossa Senhora das Dores, Nossa Senhora do Carmo e Nossa Senhora de...– o rapaz riu e exclamou – Pois me dizei, afinal: quantas mães tem o Filho de Deus? Pai, a gente pode ter vários, mas mãe, de facto, só nos há de ter uma, não achais todos vós?

 

Foi então que uma ardorosa defensora da Fé, a deixar assombrado o próprio marido, ergueu-se da cadeira e disse ao sobrinho, em tom normal, porém firme – Senhor Rodrigo, isso não são coisas que se digam na casa de pessoas que têm suas crenças e devoções! Aqueles devotos que lá estavam e que eram, de facto, gente de fé, por certo que seus olhos VIRAM tudo aquilo, porque tais coisas, rapaz, estão acima de nós, pobres seres humanos. Aquelas coisas, ainda que fossem só para aquela gente ver, eram milagres. Milagres da Virgem Santíssima!

 

A seguir, ameaçou-o – Se é para vires até cá com essas ideias de jerico e ficares a blasfemar e zombar de nossa religião, melhor será que penses bem antes de ultrapassar aquela porta! – chamou, até si, as meninas da casa – Aurita, Nonô, Lilinha, Mindinha, venham comigo! – recolheu-se com as filhas ao quarto do casal e todas ajoelharam-se diante do oratório, a rezar à Virgem de Fátima, em voz tão alta quanto pudessem ser ouvidas na sala de estar, pela reconversão do primo à fé católica e pelo perdão “aos pecados de todos nós.”

 

Discreta e educadamente, Rodrigo logo se dispôs à retirada de campo, antes que essa mini batalha doméstica viesse a crescer e se espalhar pelo mundo, como tantas guerras por Religião que se travaram ao longo da História. João Reis, todavia, apesar de devoto por tradição, instou ao sobrinho que ficasse e, com bastante e vivaz interesse, continuou a provocar as argumentações do jovem iconoclasta.

 

Como chegassem até ao quarto algumas risadas dos rapazes e até de João Reis (isto, por si só, um facto inusitado), já entretidos então com outros assuntos, mais amenos, Mamã e as quatro filhas puseram-se a cantar, em alto e bom som, de modo a que os da sala lhes percebessem a indignação, algumas preces musicadas em louvor à Santa Senhora, tais como essa que, até hoje, ainda é conhecida – “A treze de maio, na Cova da Iria / no céu aparece a Virgem Maria / Ave, Ave, Ave Maria...”

 

 

Alguns dias depois, sob o pretexto de devolver um livro à estante de João Reis, o primo Rodrigo tocou a sineta da entrada e pediu a Zefa que transmitisse à senhora sua tia e aos mais as suas maiores recomendações. Já se dispunha a partir, quando se viu chamado pela própria Florinda, como se, há tão pouco tempo, nada de inconveniente houvesse acontecido. – Ora me entres cá, Rodriguito, vem nos dar de novo o prazer de uma boa palestra! Só não me fales de certas coisas, bem sabes! – e, desse dia em diante, por muitos outros mais, entre broas, bolinhos e bolachas, lá estava o rapaz, de novo, a encantar a todos da casa, com os seus ditos espirituosos e as histórias engraçadas, embora algumas, por vezes, terrificantes.

 

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Terça-feira, 28 de Fevereiro de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. PRIMO RODRIGO.

 

Além de Adelaide, eram também muito apreciadas, por todos da casa, as visitas do primo Rodrigo, apesar de suas ideias próprias, seu modo diferente de ver a vida, o mundo e as relações sociais. O rapaz, de tez pálida e compleição franzina, com seus óculos de lentes redondas, cabelos um pouco alongados, barba meio rala, mas comprida, com mosca e pera à la Cavaignac, parecia um intelectual do século XIX, não fosse ele nada propenso ao “mal du siècle” dos românticos. Muito ao contrário, era um jovem sempre risonho, de boa parola, a irradiar para todos um quê e um quanto de grande simpatia.

 

Vivia com o pai viúvo a quem, com o seu trabalho em uma tipografia local, ajudava a criar os cinco irmãos menores. Para os Bernardes, seus notórios “defeitos” eram dois: a fama de papa-jantares, sempre a chegar, sem aviso prévio, à hora das refeições alheias, e suas ideias políticas e filosóficas, avaliadas por Reis e Florinda com todos os es e os ex: esquisitas, estrambóticas, esdrúxulas, extravagantes, excêntricas, extemporâneas.

 

Rodrigo dizia-se ateu. Vivia a ler artigos de pensadores como Karl Marx, Friedrich Engels, Rosa Luxemburgo e outros socialistas, ainda que, recentemente, andasse mais propenso a defender os princípios do Anarquismo. Ironizava bastante o texto das Sagradas Escrituras “comerás o pão com o suor do teu rosto”. Dizia que esta máxima a nem todos se aplicava, pois enquanto alguns muitos suavam no trabalho, para o lucro de alguns poucos, em troca de um mísero salário para suas necessidades e as de suas famílias, outros alguns poucos só estavam mesmo a transpirar em festas, banquetes e orgias. Uma transpiração prazerosa, é claro, mas somente possível graças à sofrida exsudação dos alguns muitos.

 

Gostava de desancar a Igreja e a Inquisição e de contar histórias de padres e freiras, com um palavreado cuidadoso, para não corromper os castos ouvidos dos circunstantes, sobretudo os de seus primos miúdos. O que se ouvia em suas narrativas, entretanto, às vezes era tão indecoroso que, perto delas, o crime do Padre Amaro parecia uma história da carochinha.

 

Flor e o marido estavam sempre a polemizar com o sobrinho. Tinham no entanto, para com o rapaz, aquele olhar benevolente de quem considera – Ora, pois, estamos a ver que isso são tolices de um jovem que lê demais, como se deu com o Senhor Dom Quixote – ou a tolerante compreensão

 

– É como papeira ou tosse de coqueluche: dá e passa. – De qualquer forma, esses modos de pensar do rapaz traziam a todos da Quinta um visível desconforto, quando não um forte constrangimento, toda vez que Rodrigo achasse por bem manifestá-los de modo bem radical.

 

Chegavam mesmo a causar desagradáveis incidentes, como a uma tarde de novembro de 1917 quando, conversa vai, conversa vem, o sobrinho reportou-se às notícias que eram a maior atração da época. Ao comentar as aparições em Fátima, Rodrigo logo se pôs a dizer que não entendia patavina, de como essa gentinha toda acreditava naquele disparate, se estava bem claro e notório que todas aquelas visões não ultrapassavam os parcos conhecimentos e vivências daqueles pobres pastorinhos analfabetos, naquele sítio pequeno e afastado do mundo, a aldeia em que viviam.

 

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Terça-feira, 21 de Fevereiro de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. GRANDE MILAGRE.

 

Era um dia chuvoso e nublado, quando ocorreu, então, conforme a narração de alguns espetadores, o milagre prometido: “O Sol apareceu por entre as nuvens, como um grande disco prateado de brilhante fulgor e logo começou a girar, de modo rápido e vertiginoso. Parou por algum tempo e recomeçou a girar velozmente sobre si mesmo, como se fosse uma imensa bola incandescente, de bordos avermelhados, a espalhar pelo céu chamas de fogo em um inacreditável redemoinho, refletindo-se a luz dessas chamas nas árvores, nos objetos e nas faces de todos os que assistiam. Nesse fenómeno, que durou cerca de 10 minutos, o Sol girou loucamente e a multidão de fiéis, apavorada, pedia aos Céus o perdão e a misericórdia pelos seus pecados”.

 

Segundo a notícia que se espalhou por toda parte, o evento teria sido visto, com grande espanto, por toda a multidão presente ao local.

 

 

Aos primeiros rumores provindos de Fátima, a Igreja Católica, do ponto de vista institucional (bispos, cardeais e o Papa) comportou-se com muita cautela a analisar os factos, tal como sempre ocorre quando se noticiam essas histórias de aparições e milagres, pelo mundo afora. Antes de se divulgarem pelos jornais, entretanto, as novas já corriam de aldeia em aldeia, com a devoção a se espalhar entre os párocos e os fiéis, até chegar aos mais longínquos rincões de Portugal. Por aqui, por ali, por acolá, alguns aldeães já começavam a mencionar as curas de pequenos males, graças às orações e súplicas à Senhora de Fátima. Em brevíssimo tempo, a novidade viria a se propagar em todo o mundo católico, até mesmo nos países onde predominavam outras religiões.

 

Ao ver, portanto, a nova devoção cair no gosto popular, a Igreja passou a assimilar tal prática e a incentivar os cultos, do modo que fosse mais favorável à manutenção da fé católica, apostólica, romana. Em 1931, o Episcopado Português faria a solene consagração do país a Nossa Senhora do Rosário de Fátima.

 

Como tantos outros carolas flavienses, tão logo se confirmaram as notícias dessa aparição, os Bernardes se reuniram em torno de seu patriarca e se dirigiram à Igreja Matriz, para dedilhar os rosários e unirem suas vozes ao coro das beatas – Creio em Deus Pai... Ave-maria, cheia de graça!... Pai-nosso que estais no Céu... Salve-rainha, Mãe de Misericórdia... –  e se uniram também aos mais da parentela, em um consensual revezamento de anfitriões, para rezarem juntos o rosário da Virgem.

 

A imaginação dos campesinos portugueses, então quase todos analfabetos, misturada à dos párocos das aldeias em seus púlpitos dominicais, fez crescer por toda parte o volume de orações e penitências, ante o temor de um Apocalipse próximo a chegar. De menos a mais e de pouco a muito, já isso bastara para deixar, aflitas e apavoradas, as mulheres da Quinta Grão Pará.

 

No entremeio, ao que mais Aurita pensava, o tempo todo, era no Inferno. Punha-se a recordar aquele retábulo aterrador de sua infância, exposto à sacristia na Igreja da Misericórdia, diante do qual fora torturada, junto com os irmãos, por um cura de olhos terríveis e mãos ameaçadoras. Essa purgação infernal, aliás, era um pretexto a mais para que Aldenora se aproveitasse dos ditos para os aludidos a Hernando. Aprazia-lhe descrever à pobre Aurora como o pecaminoso rapaz estaria entre os primeiros a arder no fogo de Satanás. Por motivos que, a si própria, dizia serem apenas piedosos, Aurita corria a rezar pela alma do cigano.

 

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Terça-feira, 14 de Fevereiro de 2017

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. SENHORA DA IRIA.

 

As primeiras notícias da aparição da Virgem, aos 13 de maio do ano de 1917, na aldeia de Fátima, freguesia de Aljustrel, Concelho de Ourém, pelos pastorinhos Lúcia (10 anos) e seus primos Francisco (9) e Jacinta (7), foram trazidas aos Bernardes, de pronto e bem frescas, pela sempre linguareira Zefa de Pitões. Soube-se então que os miúdos, quando apascentavam um pequeno rebanho no lugar chamado Cova da Iria, detiveram-se para rezar o rosário e disseram ter visto, sobre uma pequena azinheira, “uma senhora mais brilhante que o Sol, com uma voz dulcíssima, aparentando não mais do que uns 18 anos de idade”.

 

Seu vestido, conforme consta de um folheto da época, publicado pelo Visconde de Montelo, “ (...) era de uma alvura puríssima de neve, assim como o manto orlado de ouro que lhe cobria a cabeça e a maior parte do corpo. O rosto (...) apresentava-se sereno e grave, como que toldado de uma leve sombra de tristeza. Das mãos, juntas à altura do peito, pendia-lhe, rematado por uma cruz de ouro, um lindo rosário, cujas contas brancas de arminho pareciam pérolas. De todo o seu vulto, circundado de um esplendor mais brilhante que o sol, irradiavam feixes de luz, especialmente do rosto, de uma formosura impossível de descrever, incomparavelmente superior a qualquer beleza humana”.

 

Com a Lúcia, assim dialogara a bela senhora – “Não tenhais medo. Não vos faço mal.” – “De onde é Vossemecê?” – “Sou do Céu” – e, a uma indagação sobre pessoas recém-falecidas – “A Maria das Neves já está no Céu e a Amélia estará no Purgatório até ao fim do mundo” – após o que disse aos pastorinhos que deveriam aprender a ler e, sempre aos dias 13 de cada um dos próximos cinco meses, retornar àquele mesmo local. Ali ela estaria a lhes falar, de novo, sobre muitos e importantes factos do mundo.

 

Como em todas as suas aparições posteriores, a Santa exortou os pastorinhos a “rezar sempre o terço, todos os dias, pelas almas dos pecadores, a paz no mundo e o fim da guerra”. Enfatizou a punição ou reparação dos pecadores, diante das “dores profundas que estes causavam a Ela e a Seu Filho, com suas ofensas, blasfémias e pecados”. A seguir, comunicou-lhes um segredo que não deveriam contar a ninguém. Seria o primeiro dos três famosos segredos, somente revelados, em três etapas, após 1941 (ou, para os céticos, apenas desmitificados, pelo menos no que tangia aos seus alardes apocalípticos e à exagerada importância).

 

No dia 13 de julho de 1917, a Senhora teria mostrado a Lúcia, sua única interlocutora, uma visão horrível do Inferno, “para onde vão as almas dos pobres pecadores”. De Sagres a Melgaço, multidões de devotos correram às igrejas para rezar, impregnados pelo intenso pavor do fogo infernal. Ante uma pergunta de Lúcia – “Que é que Vossemecê quer que se faça com o dinheiro que o povo deixa na Cova da Iria?” – a Virgem teria respondido – “Façam dois andores. Um, leva-o tu com a Jacinta e mais duas meninas, vestidas de branco; o outro, que o leve, Francisco com mais três

meninos. O dinheiro dos andores é para a festa de Nossa Senhora do Rosário; e o que sobrar é para a ajuda de uma capela, que vós m’a heis de mandar erguer.” A seguir, elevara-se aos céus e desaparecera.

 

Na manhã de 13 de agosto desse ano, soube-se que os miúdos foram sequestrados pelo administrador do Concelho de Ourém, o qual supunha que os segredos de Nossa Senhora se referiam a um acontecimento político que acabaria com a República, recém-instalada em Portugal. Como os pastorinhos nada revelassem, mesmo aprisionados e vítimas de uma forte pressão por parte do administrador, acabaram devolvidos às suas famílias. A aparição, nesse dia, teria sido em um sítio diverso do habitual.

 

Ao mês seguinte, setembro, com mais de 15 mil pessoas no local, a Virgem Maria mandara que continuassem a rezar o terço e prometera, para sua última aparição, em outubro, um milagre que faria “todos acreditarem no que os miúdos lhes estavam a contar”. Quanto aos sacrifícios que os três pastorinhos passaram a fazer, Ela teria dito – “Deus está contente, mas não quer que durmais com a corda” (um grosso cordão de penitência, cheio de nós incómodos e que as crianças usavam cingido aos rins). “Trazei-a só durante o dia.”

 

A 13 de outubro desse mesmo ano de 1917, a multidão que, em sua maior parte, acorrera já na véspera à Cova da Iria, perfazia umas 50 a 70 mil pessoas, quase todas a rezarem com seus terços de devoção, seus nonos de fé e os seus inteiros de ingénua credulidade. Consta que então, mais uma vez, a Virgem apareceu em sua áurea de luz e pediu que fizessem ali “uma capela em minha honra”. Disse que era “a Senhora do Rosário” e que “não ofendessem mais a Deus Nosso Senhor, que por certo já anda muito ofendido com os pecados da humanidade”.

 

Contaram os miúdos que “ela abriu suas mãos de alabastro e fez com que estas se refletissem no Sol, ao que após elevou-se e desapareceu no firmamento”. Em seguida, os pastorinhos teriam visto, ao lado do Sol e de Nossa Senhora, o Menino Jesus com São José que “traçavam, com as mãos, gestos em forma de cruz, a modo de estarem assim a abençoar o mundo”. Lúcia vira depois Nosso Senhor a caminho do Calvário, “também a estender gestos de bênçãos ao mundo”. A mais daí, aparecera Nossa Senhora das Dores. Por fim, uma terceira visão: Nossa Senhora do Carmo, com o Menino Jesus ao colo.

 

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Terça-feira, 7 de Fevereiro de 2017

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. DAMA DA CAROCHINHA.

 

Mamã afeiçoara-se a Adelaide, desde a primeira vez em que se conheceram. Às vezes ousava dizer ao marido sobre tão improvável amiga – Pois a mim, agrada-me a sinceridade dela e a sua... a sua… (a palavra não lhe vinha: espontaneidade). Nem todos conseguem, como ela, tapar a boca ao mundo. Pelo menos quando as línguas ferinas estão diante de si. – Adelaide, no entanto, era portadora de uma fina educação, que recebera em um colégio de freiras de Coimbra. Desses tempos e desse claustro, quando estava a sós com Florinda, narrava cada história escabrosa que fazia Flor suplicar – Para, Dedé, para! Isso cá já me é demais! – e no entanto, quando necessário, a viúva sabia portar-se com muita dignidade e compostura. Sabia exprimir-se em mais de três idiomas e era portadora de certa erudição, adquirida em muitas leituras, ou em viagens aos grandes centros culturais da Europa de então. Tudo isso a tornava uma exceção entre as senhoras flavienses. As da chamada elite esquivavam-se de convidá-la para suas receções formais, porém vinham sempre lhe bater à porta, a fim de pedir óbolos destinados aos bazares beneficentes, ou que ela própria coordenasse a arrecadação dessas rendas e, até mesmo, animasse o giro das tômbolas, para o sorteio das prendas.

 

Livremente católica, como ela própria se dizia, a alegre viúva conjugava suas ideias com as do senhor Allan Kardec e muito lhe apetecia falar de reencarnação. Dizia que, em outra vida, tinha sido uma cigana espanhola de vida libertina, “Cármen, la Habanera”, assassinada por um jovem soldado enciumado que, no entanto, dizia amá-la demais. Aliás, quando começava a falar sobre os ciganos, havia que dar um jeito de fazê-la parar, antes que se estendesse pela tarde afora. Aurora, porém, ficava embevecida, atenta aos mínimos detalhes narrados pela excêntrica senhora, especialmente quando esta discorresse sobre os vastos conhecimentos que realmente detinha acerca dos hábitos e tradições gitanas.

 

Algumas vezes, porém, os cavaqueios tornavam-se chocantes para as meninas, se estas se achassem presentes à sala de visitas. Era quando a açoriana discorria sobre as coisas do mundo, expressão que ela própria utilizava para falar de certos comportamentos que elas, as mulheres da Quinta, nunca poderiam supor que existissem, como algumas histórias entre rapazes ou entre moças, em Paris e Berlim. Adelaide, porém, sabia como não se deixar exceder, sobretudo quanto a frases e contos chulos ou explícitos e, quando pressentia estar quase a ultrapassar as marcas, cessava o dito e olhava para Mamã – Mas ó Flor, de que é mesmo que estávamos a falar? – e passava à digressão de amenidades.

 

Apesar de tais incidentes, o que mais agradava a Flor era que as meninas também pudessem compartilhar de alguns momentos alegres e divertidos com essa mulher, de grande espírito, inteligência e senso de humor. A João Reis, porém, não gostava a presença da açoriana em sua casa. Era a velha falta de tolerância para com os outros, sobretudo os diferentes de nós ou de nossa tribo. Chegou a dar ordens expressas para que nenhuma de suas filhas entrasse na sala, quando aquela senhora lá estivesse. Apesar de toda a consideração de Mamã ao patriarca, até mesmo certo temor pela sua conhecida severidade, graças à qual ele se fazia respeitar, essas ordens, todavia, jamais foram cumpridas.

 

Ainda que, ao se recolherem aos quartos, as raparigas rissem muito, a caçoar de alguns caracteres da visitante, todas elas queriam muito bem a Dedé e se alegravam bastante, quando viam (ou melhor, ouviam) a Carochinha chegar aos portões da Quinta. À caçulinha, porém, como Arminda era tratada, aos modos do Brasil, não agradavam as excentricidades no vestuário da parenta. Desde miúda, apreciava os elegantes vestidos que eram mostrados nas revistas de moda de Paris e que o Papá fazia chegar de Lisboa, para sua Menina Flor. Mamã então, após escolher os modelos preferidos para si e as filhas, mandava cosê-los pelas melhores costureiras de Chaves. Quanto ao vestuário mais simples, a própria Mamã o confecionava em sua máquina Singer, o precioso mimo que, em substituição à velha Pfaff, o marido lhe presenteara no último Dia de Reis.

 

 

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Terça-feira, 31 de Janeiro de 2017

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. FRADE MAROTO.

 

Logo no pequeno vestíbulo de entrada da residência de Adelaide, entre dois cachepôs de prata com plantas ornamentais, a ladear um cabideiro de metal e mármore, onde as visitas depositavam os chapéus-de-chuva nos dias de aguaceiro, morava um sorridente frade de apenas meio metro de altura. Com acentuada tonsura e poucos cabelos em volta da cabeça, sua batina fora confecionada com um pano rústico, bem franciscano. Tinha um olhar maroto, mas trazia sempre as mãos juntas, em prece. Algumas beatas que por ali passavam, por miopia ou catarata, pensavam que fosse um santo e se benziam. Outras até oravam contritas, em silêncio.

 

Quando via tais devoções, Adelaide escondia o riso a quantas pudesse. Recusava, porém, com veemência, a oferta de qualquer uma dessas piedosas senhoras que, ao ver a batina tão rota e puída do santo, viesse lhe oferecer um novo hábito – Tirar a roupa do frade… Tinha lá sua graça! Ai que se me revira a vista de tanto rir! – dizia a Luís Miguel.

 

Só eles dois e mais alguns sabiam, realmente, que esses frades de madeira ou cerâmica, obras de artesãos vendidas em várias aldeias de Portugal e de dimensões variadas, conforme o gosto do freguês, escondem algo por baixo da batina que faria chocar as beatas, míopes ou não: uma inconveniente terceira perna, a descer até aos joelhos do castíssimo santo.

 

Mais ainda haveriam de se arrepiar as devotas, com sua moral abalada e a se tornarem confusas e confundidas se, a um simples dispositivo, vissem o fradinho erguer para o alto, de entre as fendas sem botões da batina, a parte disforme do sagrado tripé.

 

 

  1. ATRIZ DRAMÁTICA.

 

Era sempre muito requisitada como atriz, especialmente nos papéis cómicos, para as peças que os amadores locais encenavam no Cineteatro Flávia. Nestas, muitas vezes e sempre, ela tanto fazia rir a plateia, como enlouquecia o apontador das falas. Daí resultar que, toda vez que pedia e até mesmo suplicava para interpretar cenas dramáticas, os companheiros de Teatro entreolhavam-se e diziam a si mesmos – Não!!! – porque, invariavelmente, Adelaide também fazia rir o público nos momentos de maior dramaticidade.

 

Em uma das apresentações de “As desgraças de uma condessa”, ao contorcer-se no palco entre esgares de dor e os estertores da morte, ficou bastante indignada. Da plateia aos camarotes, alguns estúpidos e mal educados espetadores (na verdade, a maioria) e alguns dos atores em cena (quase todos) que, segundo ela, eram todos uns tontos, contorciam-se a rir, não se sabe (não o sabia ela) a que propósito!

 

Certa vez, Adelaide convidou João Reis e Flor a irem vê-la atuar no Cineteatro Flávia. Reis agradeceu, mas disse que não gostava de ir ao teatro, mormente porque, como bem lhe informavam os jornais, o público habitual chegava a abusos e desmandos que irritavam qualquer pessoa séria e bem-educada. Ocorria na Vila uma exata reprodução do que dizia Almeida Garrett, em “Frei Luís de Sousa”: “Representavam tudo no velho theatro e quem mais representava, às vezes, era a platéia. Graçolas para os actores, respostas dos visados, um à-vontade inexcedível!... Nos camarotes, as damas constrangiam-se para não rirem e os pais de família, empavezados, achavam de mau espírito os sarcasmos plebeus dos graciosos. Interagiam com a cena.”

 

Adelaide lhe fez ver que, agora, com os praças da Guarda Republicana a atuarem no teatro de Chaves (na plateia, por certo, não no palco), já se estava a notar uma acentuada melhora no comportamento do público. Tentou convencê-lo disso, em vão. Reis se disse informado de ainda haver alguns gaiatos a fazerem de tudo para chamar atenção e, nesse intento, porem-se a dizer inconveniências e praticar grosserias, antes, durante e após as cenas. Acrescentou que, conforme também já estivera a ler nos jornais, realmente péssimo era certo hábito, então vigente – Ora, pois, mas não estais a ver que os donos levam seus cães ao teatro, com essa cainçada toda a deitar pulgas na plateia e nos camarotes?! Acontece que os cães são muito críticos e exigentes e não gostam da música nem do teatro que se está a fazer por cá. Ofendidos em sua erudição canina, latem durante as apresentações.

 

Embora proferido com seriedade por Papá, esse chiste não deixou de fazer rir a Florinda e Adelaide. O brasileiro viu-se envolvido, então, ainda que involuntariamente, em um raro momento de agradável descontração familiar.

 

 

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Terça-feira, 24 de Janeiro de 2017

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. ADELAIDE.

 

Das visitas que Florinda mais apreciava e das mais divertidas, também, ainda que ao dono da casa fossem as de menor agrado, por certo que estavam as de Tia Adelaide. Era uma açoriana bonitona, cheia de carnes e algumas gordurinhas bem distribuídas, mas sem excesso, a beirar os cinquenta. Viera ter um dia a Chaves com o marido flaviense, aparentado de Reis, do qual enviuvara (devido a alguns excessos conjugais, assim dizia-se, à boca pequena, por cá, por lá e acolá).

 

Estava a conviver agora sob o mesmo teto com Luís Miguel, um musculoso rapagão de quase dois metros de altura, mas de pouca idade e que a todos dizia ser um dileto afilhado. Ao que ela acrescentava, à sua amiga Flor – Não bem assim, como os miúdos que se levam à pia batismal, porém… outros batismos, percebes? – e sorria de modo malicioso, pelo que muitos andavam a comentar que, além de cocheiro, o jovem Miguelão lhe servia em tudo o mais que fosse necessário. Um verdadeiro pau para toda colher (com trocadilho, se quiserem).

 

Era ele, portanto, que a conduzia na Carochinha. Esta era uma pequena caleche com assentos e espaldares acolchoados, coberta por um toldo bordeado por franjas e borlas, conversível, podendo pois abrir ou fechar nos dias de sol. As laterais eram cor de barro escuro, com florezinhas brancas, similares aos utensílios de cozinha da cerâmica de Alcobaça. O visual dessa caleche, apesar de alguns na vila considerarem bastante original, fazia troçar a maioria dos passantes e alguns até se perguntavam, a mangar em voz alta – Mas ora, ô pá, a quem se vai cozinhar lá dentro? – e outros mais queriam saber, em tons de caçoada, onde se estava a levar o show de fantochadas que a Carochinha parecia anunciar, como se fora uma carroça de circo ambulante, ainda mais pelas borlas e guizos ruidosos, no veículo e nos cavalos.

 

O exotismo, espalhafato e excentricidade não se restringiam à caleche. Toda ela, Dedé era uma grande atração, mormente nas maneiras de ser e de vestir, com trajos vistosos e coloridos, a usar capachinhos louros, castanhos ou pretos, de acordo com o trajo da ocasião. Isso tudo a uma altura em que as pessoas da região, mais ainda as mulheres e, sobretudo, as viúvas (Menos eu! – dizia a rir) vestiam roupas escuras, pesadas, funerais. De negro bem fechado, trajavam-se até as enviuvadas de homens vivos, os que iam para Além-mar e nunca mais davam notícia. As donzelas também se vestiam com poucos tons coloridos, sendo de uso geral o preto e branco, no máximo um cinza, um azul ou um verde, da mais escura tonalidade.

 

Dedé, como os íntimos a chamavam, ria-se por tudo e por nada, com o seu gargalhar escarolado. Nunca teve filhos. Era uma das poucas tristezas suas, o que às vezes tentava superar com o bom humor caraterístico – Como sabem, sou maninha. Igual a certas vacas – e soltava um riso debochado.

 

Morava à Rua do Bispo Idácio, uma via bastante antiga, onde algumas construções originais datam do século XVII e várias residências foram assentadas sobre a antiga muralha medieval. Habitava um prédio de dois andares, em cujos fundos havia uma escada que descia até a Rua Santo António. Era por tal acesso que, logo depois que enviuvara, um ou outro moço estava a subir às ocultas, para (assim dizia a viúva), não mais do que apenas jogar cartas com a anfitriã. Tais jogos, na verdade, poderiam se estender pela noite afora, sem vencedor nem vencido, mas com ambos os parceiros extenuados, após tanto embaralharem as cartas...

 

Sobre tais rapazes, dizia Adelaide, à meia voz – De facto, jogam-se as cartas lá em casa. Antes ou depois dos outros jogos... os de dama e valete, percebes? – e soltava mais uma de suas escandalosas risadas, seguidas de outras confidências – Agora, por esses degraus, só me sobe o Miguelão. Após, é claro, guardar-me a Carochinha na parte de baixo – ao que Mamã sorria constrangida, a oscilar entre a excitação dessas cavaqueiras indiscretas e o pudor de sua condição de esposa e mãe recatada.

 

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Terça-feira, 17 de Janeiro de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. DIVERSÕES FORÂNEAS.

 

Apesar de Afonso ter um pouco mais de liberdade, não era de seu feitio ausentar-se muito de casa. Tinha apenas alguns amigos fiéis, aos quais lhe aprazia levar à Quinta – A rir das adivinhas da tua irmã – como diziam a sorrir. Estavam sempre a estudar, em equipa, as sebentas do Liceu, ou a assistir filmes novos no Cinematógrapho, ou, ainda, a ouvir os concertos da Banda de Infantaria 19, no Jardim Público.

 

Essa Banda costumava se apresentar no coreto do Jardim todos os domingos, a partir das 19 horas e sempre com um repertório diferente, que ensaiava durante toda a semana. O público gostava muito de suas execuções musicais, nas quais ofereciam peças como “Un jour de fête”, “Ouverture”, de Scweinsberg; “Un ballo in maschera”, de Verdi; “La Divina Comedia – Il Inferno”, de S.Fiorenzo; “Las Bribonas”, zarzuela de R. Callega; “Danse des Bachantes”, de Gounod; “Peer Gynt – Suite 1”, de Grieg; e mais algumas marchas e valsas. Falava-se tão bem da maestria desse conjunto, que a Banda dos Bombeiros Voluntários de Chaves, igualmente boa, jamais conseguia superá-la.

 

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Como já entrevimos, Florinda também saía pouco de casa e isso apenas eventualmente, em caso de obrigações sociais ou motivos de extrema necessidade. Uma dessas raras ocasiões era a de entregar seus dentes aos cuidados do doutor António Júlio Gomes, um dos poucos dentistas da vila e que costumava anunciar no jornal suas hábeis “extracções dentárias sem dor, obturações a cimento, ouro e platina, dentes e dentaduras artificiais com ou sem placa de ouro ou volcanite”.

 

Uma vez ou outra por mês, Mamã ia a um chá de senhoras ou a jantares de mera cortesia, à casa de pessoas de interesse comercial para o marido, como também, certamente, a visitas de retribuição aos parentes e amigos que tivessem ido à Quinta.

 

Apetecia-lhe mais essa última parte dos compromissos sociais. Em seu lar doce lar, esmerava-se na arte de bem servir e de bem receber. Apesar de não ser nativa da região, integrava o espírito de hospitalidade da qual nos fala o poeta Alexandre de Matos: “As terras de Trás-los-Montes / Inda que a vida vá torta / Todos encontram poisada! / Passante que bate à porta / E brade rijo: – ó da casa! – / Ouve de dentro: – lá vai… / Sente gente pôr-se a pé / Saltar do catre num ai / Ir acender a candeia / Ao fogo vivo da brasa / Alçar a barra da tranca / Abrir a porta com fé / E convidar, em voz cheia / Estremunhada, mas franca: / Faz favor… entre quem é…”

 

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Terça-feira, 10 de Janeiro de 2017

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. DIVERSÕES DOMÉSTICAS.

 

Depois da ceia, Arminda e Aurélia entretinham-se com os brinquedos, na infância prolongada daqueles tempos, após cumprirem os deveres letivos para o dia seguinte, enquanto, em companhia de Mamã, as irmãs mais velhas bordavam, liam ou conversavam um pouco na sala de estar. Logo após o chá das nove, recolhiam-se todos aos quartos.

 

Sob os sete cadeados patriarcais, assim seguia a vida para as quatro meninas da Quinta Grão Pará. Acerca disso, o próprio Papá dizia – Filhas mulheres, há que se velar como filhotes ao ninho – e todos compreendiam que, se duas pupilas estavam a se mover no rosto dele como rastreadores luminosos, havia outras, múltiplas, invisíveis, a se entronizarem em cada uma das meninas e a acompanhá-las por toda parte.

 

Esses focos de vigília estendiam-se até mesmo aos meninos Afonso e Alfredo, ainda que lhes fosse dada uma relativa liberdade, porque, como dizia João Reis – Os filhos homens sabem o que devem cuidar, não precisam guardar o que trazem entre as pernas, apenas ter siso e juízo, para que suas preciosas chaves sejam usadas de bom jeito e não façam mal à fechadura de ninguém.

 

Gostava às meninas que Afonso trouxesse os amigos putos a casa, pois eram ocasiões em que, entre merendas, jogos de salão e os olhares vigilantes de Mamã e dos próprios manos, podiam se dar a digressões adequadas entre rapazolas e mocinhas de boa família. O que mais agradava a todos eram as adivinhações que Aurita aprendera com as criadas, muitas vezes bem picantes, embora a menina continuasse a demonstrar certa ingenuidade (de facto, a malícia nunca lhe houvera de ser uma caraterística na vida).

 

Dentre as várias adivinhas, em geral inocentes, ou seja, apropriadas ao ambiente familiar, Aurora propunha também algumas que faziam corar os jovens, além de deixar os irmãos menores sem ver o boi. Os miúdos, no entanto, embora não pudessem alcançar os duplos sentidos e, portanto, ficassem sem saber nem metade da jocosa missa, riam por afinidade. A Nonô, tampouco ela risse por dentro, tais adivinhações causavam pudicos embaraços. Ao Afonso e demais rapazes, produziam risos meio gaguejantes, que alguns tentavam esconder com as mãos à boca ou à cara total. Eram do tipo – “Qual é a coisa, qual é ela, que roça na minha perna, quando sobe ou quando desce e, quanto mais no meu pelo roça, mais pra cima ela me cresce?” – ou então – “Tenho um brinco, c’o brinco, brinco, já do brinco me aborrece, quanto mais c’o brinco, brinco, mais o meu brinco me cresce”.

 

Sobrevinha então um silêncio constrangedor, até que ela dissesse – mas é meia, ora pois, meia comprida de mulher! – e todos se aliviassem, a uma risada geral. Aldenora, porém, logo estaria a correr até Mamã, que de nada se apercebera em seus afazeres domésticos e se punha a aborrecê-la com suas quezílias junto à irmã. A rapariga estava sempre ansiosa por relatar à Mamã as indecências que a mana tinha aprendido com as criadas no borralho.

 

Depois que os colegas saíam, Afonso vinha muito sério até à irmã, a fim de repreendê-la. Apesar de sua condição de filho homem, naqueles tempos de plena supremacia masculina, talvez porque um ano mais novo do que a irmã, o rapazola não conseguia ter com Aurita a mesma autoridade do pai. Dizia apenas – Peço-te, minha irmã, não faças mais isso! Nunca mais estejas a dizer tais adivinhas, que eu não sei quem t’as ensinou e tu, ao que parece, nem alcanças de facto o que aprendeste!

 

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