Terça-feira, 25 de Julho de 2017

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. PRIMAVERA.

 

A florida estação veio com bons auspícios, pois a Pneumónica já lá se fora por aí, quiçá para o mundo do Não Mais. Adiava-se, assim, para o incerto porvir de cada sobrevivente, a chegada da indesejável visitante.

 

Em Chaves, na cauda do rasto dessa virulenta devastação, sem poupar ricos ou pobres, miúdos ou anciães, pairava, por toda parte, a saudade das pobres criaturas que agora estavam a dormir no Campo Santo. Foi, portanto, uma vila sem ânimo e sem vida, aquela que os Bernardes reencontraram, ao voltar para a quinta do Raio X. Os rapazes retomaram suas idas ao Liceu e as meninas voltaram a ter suas aulas de piano e outras instruções.

 

Ainda que parecessem lágrimas de jacaré, como dizia Mamã, piedosas e muitas foram as secreções lacrimais que as raparigas derramaram pela pobre Mademoiselle Margot des Saints. A lecionista de Etiqueta não pudera brandir sua palmatória no ar e espantar a “maladie”, nem tampouco gritar, com sua voz de gralha, um enérgico “laissez-moi, Maudite, parce que c´est très inélégant partir avec toi!” As meninas também renegaram, com veemência, o disse-me-disse de algumas pessoas, segundo as quais, após Mademoiselle ser enterrada, descobriu-se que a veneranda professora (em verdade, em verdade vos digo: muita gente alegou não ser isso, de modo algum, um mero dichote de humor negro) nascera em uma aldeia perto de Nazaré e recebera ao batismo um nome bem lusitano: Margarida dos Santos.

 

A instruir como devem se comportar as raparigas em sociedade, mas sem a tirania das mãos à palmatória, lá estava agora o Monsieur Pierrot Béjart (um sueco de origem francesa, que Afonso e os colegas, a essa altura, ficavam a se perguntar se ele não seria também algum Pedrinho de Beja, do Alentejo). Seus modos refinados demais, delicados demais, amaneirados demais durante as instruções, faziam troçar os rapazes e gracejar as criadas. Até a boa Mamã escondia, com discrição, um riso de rajada entre as varetas do seu leque de Sevilha. Fora das aulas, porém, ele mantinha uma postura bem mais próxima daquilo que as pessoas convencionam ser masculina.

 

Mais insólito ainda foi quando ele apresentou aos Bernardes sua Ingrid, a estranha e corpulenta esposa nórdica, mãe de seus três filhos, cuja postura forte e firme demais e uma voz bem mais grossa que as de muitos cavalheiros de Chaves, causavam sempre certa estranheza, mas a ninguém e por nada alcançava, senão comentar (com respingos de xenofobia e preconceito) – Esses escandinavos... Tem que ser! – e alguns apenas ficavam a sugerir que, naquele estranho par de Adão e Eva, parecia haver alguma costela, serpente ou maçã trocada pelo Criador, a um momento em que Ele estivesse entediado, distraído ou com uma simples vontade de brincar com os efeitos da Criação.

 

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Terça-feira, 18 de Julho de 2017

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. SOBREVIVENTES.

 

João Reis nunca mais aludira ao nome do gajo da casa em frente à Grão Pará. Segregada de tudo, Aurora passava dias e noites em profunda ansiedade. Algumas vezes, por vias indiretas, tentava extrair de sua boa mãe alguma notícia de Hernando que ela, Florinda, por acaso tivesse vindo a receber, antes da forçada reclusão familiar.

 

Só mesmo lá pelos idos de fevereiro, por meio da Zefa que, apesar dos interditos do patrão, passara a ficar de namoricos com Barnabé, o tal moço das cercanias e o qual, sem temeridade, estava sempre a ir e vir de Chaves, a apaixonada Aurita veio a saber, afinal, que Hernando já estava fora de perigo. Não haveria de ser desta volta que o ciganito iria conhecer Santa Sara no Céu. Se é que ao rapaz, por tantos que lhe fossem os pecados, não estaria São Pedro a lhe fechar as portas celestiais. De tão finório, era capaz de fazer o santo porteiro cair em seus ludíbrios e se deixar encantar com os truques e mágicas desse anjinho cigano.

 

Aurita não escondia sua felicidade. Chegou até a brincar com os miúdos por aí, feito uma doidinha, após dedicar-se aos arranjos do jardim, onde ela própria não esquecia os cuidados especiais com os amores-perfeitos da serra.

 

Cor-de-rosa.

 

Tal mudança de humor não escapou à Mamã. Esta, porém, limitou-se a suspirar, balançar a cabeça e a se consumir em preces, diante do oratório de jacarandá, que ela sempre trazia consigo lá do Raio X, nas idas e vindas à serra – Ai minha Nossa Senhora dos Remédios de Lamego! Ai minha Nossa Senhora do Monte Serreado! Ai minha Virgem de Fátima! Dai juízo à minha boa Aurora, que essa menina está sempre a pensar com o coração e a sentir com os miolos! Mas estás a ver, minha Virgem Santíssima, vós que sois mulher e podeis me compreender, isso são coisas de miúda que mal começou a trocar os panos de... vós sabeis, os... os paninhos de mulher. Dai-lhe um bom destino, eu vos peço! Ave Maria, cheia de Graça...

 

 

  1. NOTÍCIAS DE CHAVES.

 

Aos meados de março, junto com os mantimentos que Barnabé, o galã coxo e dentuço de Zefa, estava agora a trazer para a quinta em seus balaios, chegaram também várias notícias. Uma delas, meio estropiada pela incompreensão do próprio repórter, era sobre a tal República de Chaves, que ninguém conseguiu entender muito bem. (Durante mais uma e, desta vez, última tentativa de reimplantar a Monarquia em Portugal, nesse recente fevereiro de 1919, ainda em plena vigência da Pneumónica, Chaves conseguiu resistir novamente por alguns dias, como república independente, isolada do resto do País).

 

Malvadas e mal vindas, outras novas do mensageiro chegaram nefastas, qual machado a ferir o cérebro e a magoar, como dizia Mamã, o coração pensante e a mente sensitiva da menina Aurora. Pelo que diziam alguns boateiros, o cigano já quase não se via à Estrada do Raio X. Andava agora a Valpaços, barregão com uma mulherzinha de lá, viuvinha de defunto ainda morno, mas que pertencia à mesma gente dele, embora arrenegada por seu clã. Esse repúdio se devia à vida escandalosa que a dita cuja levava e a tornava mal falada nas tavernas trasmontanas, de cá e de acolá. Conhecera Hernando na Santa Casa de Misericórdia, quando ambos ainda estavam a lutar contra a Gripe. Ao ficarem sãos, ainda que só pele e ossos, mas sedentos de carne, juntaram seus esqueletos e se foram para a outra vila, pertinho de Chaves.

 

Talvez esses doidejos de rapaz liberto e libertino não fossem durar muito tempo. Talvez ele logo tornasse à casa paterna. Aurita, porém, já o via a se rodear de miúdos e a tocar com a sua barregã, para todo o sempre, a vida mansa em Valpaços. Antes, ela chorava pela possível morte do cigano. Agora, ao cantinho dos olhos da brasilita, mal apareciam alguns pingos d’água e uns grãozinhos de sal.

 

Correu até ao álbum que Mamã lhe dera no dia de seus quinze anos, um caderno cuja capa era de couro branco, com vinhetas douradas, escrito “Recordações” e fechado com uma diminuta chave, que Aurora trazia em um cordão, ao pescoço. Após folhear e reler o que escrevera nas páginas cor de rosa, algumas manchadas pelas gotículas que lhe caíram dos olhos em outras quaresmas ou natais, molhou a pena de metal no tinteiro e rabiscou apenas uma palavra: fim.

 

Tudo acabava então como o “the end” dos filmes que, algumas vezes, ela vira ao Cinematógrapho de Chaves, quando Papá, em rara disposição de espírito, resolvia levar toda a família. Decidiu, portanto, que nunca mais cederia os cómodos de sua mente para servirem de albergue ao senhor Hernando, com sua bagagem de mágicas, ilusionismos, pasos dobles e a pretensa promessa de um sonho de amor, agora desfeito.

 

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Terça-feira, 11 de Julho de 2017

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. BOLO-REI.

 

A fatal novidade foi bola de canhão sobre a fortaleza dos Bernardes. Nessa noite, quando foram comer o tradicional bolo-rei com a fava oculta, em que o parente que comer a fatia premiada fica obrigado a oferecer o bolo do próximo ano, coube a Florinda ser sorteada para “pagar as favas”. Começou a chorar, todavia – Que tens, Menina Flor? – Oh, Mamã, porque estás a chorar? – mas ela nada respondeu. Chorava com medo de, no próximo ano, já não estar mais viva para cuidar dos filhos e do marido. Ou, pior ainda, apenas ela sobreviver e estar a cuidar, sozinha, das campas de todos eles.

 

João Reis concertou com Manuel que este voltasse para Chaves, a cavalo e por lá ficasse, junto à esposa e aos filhos. Um moço corajoso da aldeia, que o Reis considerava menos um audaz e mais um temerário, já se oferecera a conduzir o landó com o Papá e a família, de volta à vila, quando se fizesse necessário.

 

Trancaram-se todos na quinta, inclusive Bobadela, a mulher e os miúdos. Valiam-se das limonadas de Florinda, ou dos três cálices de Porto que o patriarca distribuía, diariamente, até mesmo à Mindinha e aos miúdos de Crispina, pois diziam e, a alguns, até gostava comprovar, ser tal vinho uma panaceia para todas as imunidades. No mais, as pre e providências do Papá garantiriam, por um bom tempo, os complementos necessários à autossubsistência da quinta e, quando alguém batia ao portão – Ó de casa, pelo amor de Deus – respondia-se – O que quereis, faz favor? – mas atendiam ao suplicante a certa distância, deixando no jardim o que lhes fora pedido.

 

Felizmente, os ares perfumados daquela aldeia não agradaram ao grego barqueiro do Hades e, em Sant’Aninha de Monforte, apenas alguns aldeães adoeceram e uns dois ou três mais é que tiveram de enfrentar Cérbero, o cão que guarda o mitológico Inferno.

 

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Terça-feira, 4 de Julho de 2017

Chaves D' Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. FESTA DOS MOÇOS.

 

A “Festa dos Moços” é uma tradição folclórica de Sant’Aninha de Monforte e de outras aldeias da região. Trata-se, possivelmente, de uma herança de ritos ancestrais que tiveram suas origens nos rituais pagãos de inverno, quando os romanos ou, talvez, outros povos d’antanho, celebravam um novo ciclo da produção agrícola. Em consonância com isso, a Festa significava também um rito de passagem dos moços para a idade adulta.

 

Durante dois dias, os jovens solteiros se tornam os senhores da vida na aldeia. A festa começa ainda bem cedo, com o gaiteiro e sua gaita-de-foles a acordar os aldeães. Surgem

 

então os “caretos”, criaturas estranhas, de trajos bizarros, a exibirem caras diabólicas e a fazerem barulho com chocalhos, pendentes de fitas coloridas. Dançam, pulam, rodopiam

 

e fazem grande algazarra. Quase tudo lhes é permitido e, sem poderem ser identificados, por causa das máscaras, cometem de tudo o que lhes der na veneta. Invadem as casas sem qualquer cerimónia e se põem a roubar vinhos, pães, chouriços, morcelas, presuntos e o que mais encontrarem de aproveitável para o seu festejo juvenil.

 

Foi a uma dessas intrusões domésticas, que alguns moços festeiros viram-se diante do tal acontecimento, trágico e inesperado.

 

 

  1. MOÇOS E FACTOS.

 

Há algum tempo que toda a gente se perguntava – Mas ó pá, em que chão há de ser que a Rosa Manteigueira e o filho dela andam a gastar os tamancos? Ai, que ninguém mais os viu arrastar os seus socos por aí, nem se despedir de ninguém. Será que ela foi ao Brasil, para se encontrar com o marido, que nunca mais deu as novas por cá e, se calhar, o maroto já deve estar às voltas, por lá, com outro cobertor quentinho ao pé da orelha?

 

A velha Rosa morava em um fim de rua, já ao termo da aldeia, no extremo oposto ao da quinta de João Reis. Era mais uma dessas viúvas de marido vivo, como se dizia em Monforte. O filho era um moço mirrado, de ar doentio, mas que sempre estava a ir e vir de Chaves, a vender as manteigas e queijos que a mãe fazia.

 

Sempre na radiante alegria que lhes é própria, os moços da Festa resolveram invadir a casa da manteigueira, com o propósito de verem se esta, ao se ausentar com o filho, sabe-se lá para onde, não teria deixado alguns queijos, vinhos e conservas. Ao entrarem, todavia, depararam-se com um quadro de peste medieval. Um rapaz que, à primeira vista, os festeiros pensaram tratar-se de um africano, por enegrecido que lhe fora o rosto, jazia morto ao lado do catre de Rosa. A esta, igualmente, os deuses não favoreceram melhores condições.

 

A fatídica Pneumónica chegara, enfim, a Sant’Aninha de Monforte. Desnorteados pelo pavor, os jovens puseram-se, de imediato, a fazer uma outra festa, a do Fogo. Reduziram a cinzas tudo o que, lá, cheirava a morte.

 

Naquele janeiro de 1919, a Festa dos Moços envelheceu ali mesmo.

 

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Terça-feira, 27 de Junho de 2017

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. RAMOS.

 

Nessa noite, não foram logo dormir. Bobadela, o caseiro, havia sugerido que todos fossem assistir a um auto que se levava ao Largo da Igreja, antiga tradição nos festejos de Natal, em algumas aldeias de Monforte – “Os Ramos”.

 

Todos acharam muito interessante a encenação desse auto, um costume passado de geração a geração, ainda que os Bernardes ficassem pouco tempo a presenciá-lo. É que os espetadores assistiam a tudo em pé e João Reis logo percebeu que aquele teatro de Natal ia durar por toda a madrugada.

 

A encenação desses Autos abrangia toda a vida de Cristo, como foi muito bem descrita por Heitor Moraes da Silva, em “Autos do Natal em casas de Monforte”. Como João Reis supunha, começava depois da Missa do Galo e durava a madrugada inteira. Aos aldeães, em todos os dezembros, gostava muito assistirem, com devoção, a mais uma repre-sentação dos Ramos, como se as máximas e conselhos do texto fossem a palavra de Deus. Alguns até já sabiam de cor várias passagens.

 

A apresentação dos Ramos compunha-se, não só de um, mas de 17 pequenos autos, com cerca de 100 personagens ao todo e um natural revezamento de atores. Estes, malgrado o seu total amadorismo, desempenhavam seus papéis com muita seriedade e fé religiosa. Suas vestes eram feitas por eles mesmos ou alugadas na cidade e os aldeães começavam os preparativos vários meses antes. Após o duro trabalho na eira e no lar, dedicavam suas noites de outono a copiar os diversos papéis, escrevendo, com sua pouca formação escolar, ao modo como se falava na aldeia. Os que não sabiam ler (e eram quase todos) aprendiam de ouvido, pela repetição dos letrados. Os ensaios limitavam-se a cada um dizer sua parte decorada, ajudado pelo “apontador”. O resto era o que viesse de inspiração à hora, de acordo com o maior ou menor desembaraço de cada um.

 

O primeiro auto era o “Auto da Criação”, em que o Anjo assim dizia, em determinado momento – “A Santíssima Trindade / ave eterna incriada / determinou fazer tudo/ e tudo fazer do nada.” – E sobre o fruto proibido: “Porque se nela tocardes / pra vós será coisa dura / Adão irá desterrado / E Eva pra sepultura”. Mais adiante, Adão falava para Eva – “Olha-me para estas barbas / que mas deu a Providência / elas por si só requerem / respeito e obediência”. (…) “Depois de seres mulher / ninguém o pode duvidar / que com tuas astúcias / a qualquera podes enganar.” Expulsos do Paraíso, os dois se queixavam da aspereza da terra – “Pois ainda trabalhando-a / fica ela de tal casta / cria ervas como mãe / e silvas como madrasta”.

 

Seguia-se o “O sacrifício de Abel e Caim”, em que este último, desesperado, já em seus momentos de agonia, ouve o Demónio antecipar o que é o Inferno que o espera – “(…) É uma casa / de portas encantadas / para entrar estão abertas / e pra sair estão fechadas. / Reparai bem, pecador / isto é bem mais do que assim / se quereis salvar-vos / não vos finteis em mim.”

 

No terceiro, o “Auto dos Desposórios de Nossa Senhora”, Maria diz ao Anjo – “Se é vontade do Altíssimo / o que voz me mandais / estou pronta a obedecer / ao que me detremenaes.”

 

No “Auto da Anunciação”, percebe-se um latim estropiado ao longo dos anos: “Ave-maria / graça plena / Domenestéco / benedita tu és / entre mulierevos”...

 

No “Auto da Visitação”, José e Maria procuram um abrigo e todos lhe negam – “Marchai-vos braigeiros / não estou para treta / se quereis pousada / ide à estalaige da preta.” E a preta despacha-os, sem papas na língua – ”Se vosa trazer dinheiro / mim dar a vosa o que comer / que mim não ter nada pra dar / ser tudo para vender.” Lá pelas tantas, um pastor oferece vinho a uma camponesa – “Queres uma pinga de vinho / que levo nesta cabaça?” – e ela – “Ora o vinho é coisa santa / hei-de meter muita graça” – ao que, o pastor – “Toma lá, mas tem cuidado / que senão não atinais / que os homens embebedam-se / e as mulheres inda mais”.

 

Nessa mesma noite, havia também o “Auto das Charoleiras”, em que as donzelas entram no palco portando charolas, espécie de andor com imagens religiosas e as “Pastoradas”, que era a parte cómica. Em outros tempos, quando os autos de Ramos eram apresentados dentro da igreja, as Pastoradas representavam a ”parte de fora”, evidentemente profana. Um dos quadros mais divertidos era o dos pastores galegos, a falar e a cantar em sua língua. Toda a comicidade das Pastoradas, porém, apesar de alguns ditos picantes de ingénua malícia, obedecia a uma linha equilibrada de recato primitivo e comedimento aldeão.

 

À altura da passagem do ano, com a Festa dos Moços, os Bernardes viram-se diante de um facto inesperado, que iria perturbar, por algum tempo, a vida do clã e de toda a aldeia.

 

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Terça-feira, 20 de Junho de 2017

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. NATAL EM MONFORTE.

 

Nevava lá fora, em Sant’Aninha de Monforte. Para quem olhasse do alto da torre da igreja, as pessoas a caminho da Missa do Galo, entre as quais, todas as do clã dos Bernardes, pareciam manchas negras a se moverem sobre a neve. Chegara o dia em que se comemora o aniversário mais festejado, na maior parte do mundo: o nascimento do Menino Deus. Papá dissera que lá em baixo, em Chaves, seria esse um dos mais tristes dezembros, pois até o Pai Natal estava com medo de descer pela chaminé e se deparar com a Pneumónica. Alguns riram e Papá ralhou, dizendo que não tivera a menor intenção de fazer graça, ainda mais a se valer, como remoque, dos tão dolorosos factos que estavam a vivenciar.

 

Já que o grande presépio franciscano da família havia ficado na quinta do Raio X, Florinda e as filhas improvisaram, ao pé do pinheirinho, um arranjo de figuras meio toscas, de papier-maché, uma arte feita com cola e jornais molhados, que Mamã aprendera com as freiras do Colégio Santo António, em Belém do Pará. No conjunto de tão singela arquitetura, compensava-se a falta do original com o lago representado por um caco de espelho entre pedrinhas, o poço de madeirinhas feito por Afonso, com um dedal a servir de balde, e o jardim com musgos verdes e flores de papel encarnado. Nos pequenos caminhos, feitos de serragem tingida com água e papel acastanhado, punham-se alguns pequenos biscuits que, desbeiçados, ou com algumas partes a reajustar, haviam sido encontrados por cá e acolá, nos quinteiros de Sant’Aninha e arredores.

 

À ceia da consoada, Papá e Mamã ergueram-se, junto com os mais, inclusive os caseiros, os filhos destes e as criadas (sentados também à mesa, como era costume, em tais ocasiões) e se uniram em oração por todos os que ali se achavam. Rezaram também por sua Aurélia, pelos demais parentes e amigos que estavam enfermos em Chaves (com certo alguém incluído, de modo silente, nas preces de Aurora) e pelos que, como a querida tia Hortênsia, não foram nem de leve atingidos pelos dardos da cruel Pneumónica (e suplicavam que, por certo, jamais viessem a sê-lo). Amém! Por fim, todos pediram misericórdia e descanso eterno aos mortos. Concluiu Florinda, em voz alta – E Deus nos livre das más horas e do mau tempo!

 

Solene, o patriarca partiu o pão com as mãos e deu uma generosa côdea a cada um dos comensais que, entre goles de jeropiga (ou leve sangria, para os não adultos), entremeavam as migalhas às iscas de bacalhau e aos ovos com vagens de ervilhas. Depois, foi a vez do mesmo bacalhau vir à mesa assado na brasa, com montanhas de batatas, repolhos, grelos, couves-galegas, muito azeite e o que de mais e melhor houvesse na dispensa. A seguir, vieram as sobremesas. Arroz doce, sonhos, aletria, filhoses de abóbora e fatias paridas. Ainda iriam todos, mais tarde, atirar-se às avelãs, nozes e amêndoas, bem como às castanhas e pinhões. Os dois últimos eram acondicionados em assadores que pendiam das cremalheiras, a se abrasarem ao lume vivo, onde ardiam toros de carvalho.

 

Ao final da consoada, era a hora de pedir as bênçãos, como rezava a tradição. Aurita, como fosse a mais velha, chegou até ao pai e falou, com uma solenidade que não era comum nos outros dias – Deite-me sua bênção, meu pai! – Deus te abençoe, minha filha! – e, para a boa Florinda – Deite-me sua bênção, minha mãe! – Deus te abençoe, filha querida! – seguindo-se um por um dos filhos, a fazer o mesmo, em ordem decrescente de idade, até à mais nova, a pequena Arminda.

 

Antes de deixarem a mesa, fizeram-se de novo as orações, dando graças a Deus por mais esse Natal.

 

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Terça-feira, 13 de Junho de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. ARMISTÍCIO.

 

Ao frio novembro de 1918, uma nova alegria veio a todos aquecer. Embora com alguns dias de atraso, chegou a Sant’Aninha de Monforte uma auspiciosa notícia: a Guerra acabou! Os alemães reconheceram-se derrotados e assinaram o armistício no dia 11 daquele mês, pondo termo, assim, à chamada Grande Guerra.

 

Alfredo, que andava lá pela pracinha, correu a dar a notíciaaos seus. Logo Aldenora, estripando alguns xailes, improvisou fitas verdes e encarnadas. Foram todos ao centro da aldeia, com as cores da bandeira pátria, a gritarem vivas e loas ao querido Portugal. Todos os aldeães estavam a correr alegremente ao Largo da Igreja, a levar farnéis de pães, queijos e vinho, muito vinho. Acendiam-se fogueiras para assar castanhas. O rancho de danças e cantorias da aldeia já estava a se formar, com suas roupas típicas de domingo e os músicos a preparar suas gaitas, harmónios, guitarras e violas braguesas, para a gentinha dançar.

 

Festejava-se o fim da grande asneira político-económica das grandes potências da época, na qual, só na Batalha de La Lys, em abril desse mesmo ano, foi-se quase a metade dos cerca de 9.000 soldados portugueses que, em África e na França, perderam suas vidas, nas mais indignas condições. A própria Sant’Aninha enviara à morte, na África, dois de seus mais robustos rapazes.

 

A verdade da História é que vários países e milhares de vidas se envolveram, durante quatro anos, em uma lastimável carnificina, sem justificativa alguma que a validasse, realmente. Seus mais dolorosos registos eram as cartas em que os soldados contavam, aos seus entes queridos, os horrores e a tortura mental que era viver ou morrer em uma trincheira. Mais morrer do que viver, a julgar pelas estatísticas dos milhares de civis e militares que perderam a vida em vão, por uma guerra vã, como em tantas outras contendas vãs e inúteis que soem ser, afinal, todas as guerras.

 

Em suma: tudo vão.

 

A Alemanha, diante da Tríplice Entente, rendera-se afinal à França, à Inglaterra e aos Estados Unidos (a Rússia, após a Revolução Bolchevique de 1917, já havia saído de cena do trágico teatro bélico) e também, certamente, a outros aliados de menor participação, mas de grande mérito e valor. Antes do conflito, Portugal já estivera a lutar contra os alemães, em uma guerra não declarada, na defesa de suas colónias. Acabara por aderir, formalmente, a essa luta. O povo português sentia-se, agora, também um vencedor.

 

Enfim, terminara. Era tempo de festejar a paz e glorificar, tanto os valorosos mortos, quanto os heroicos sobreviventes. De ambos os tipos de bravos, havia soldados de Chaves e de várias aldeias trasmontanas, a serem glorificados no panteão dos heróis. Não fossem por seus dois eméritos rapazes, as agruras bélicas nunca teriam chegado inteiramente a Sant’Aninha de Monforte, uma aldeia esquecida por trás dos montes, mas todos agora celebravam o fim daquela insensata peleja mundial que, ingenuamente, declarava-se “uma guerra para acabar com todas as guerras”.

 

Não apenas falhou em ser a última de todas, como veio a se tornar o tubo de ensaio para outra, mais global e tão ou mais terrível e genocida, a segunda grande guerra do século XX. Esta seria fruto dos delírios de um anticristo, de estranhos bigodinhos à la Charlot (Charles Chaplin, até então, era a mais proeminente estrela de cinema, em Hollywood). Essa besta-fera germânica já estava a entronizar, na derrotada e combalida Alemanha pós “Grande Guerra”, suas garras de Leviatã. Com o seu famoso livro “Mein Kampf” (1924) e o carisma de excelente orador, iria influenciar e obter o apoio crescente da maioria de cidadãos da Alemanha, cegos, surdos e emudecidos pelo fascismo, putrefaciente mancha moral e desumana, que começava a se estender sobre uma considerável fração do mapa da Europa.

 

Seu fanatismo exacerbado iria aprofundar as bases da ideologia Nazi. Eivada de intolerância e fobias, como a eugenia, o racismo, a supremacia ariana e o antissemitismo, culminaria com a perseguição e condução em massa a campos de concentração, onde iriam consumar-se a tortura e morte de cerca de onze milhões de pessoas, no chamado Holocausto, dentre judeus (as vítimas mais numerosas), ciganos, comunistas, Testemunhas de Jeová, homossexuais e deficientes físicos e mentais. Além desses massacres, iriam fazer-se experiências científicas dolorosas e fatais com seres vivos, que tinham prisioneiros como cobaias humanas.

 

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Terça-feira, 6 de Junho de 2017

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. PROMANAS & PRASNICOS.

 

A promana é um banquete onde se providenciam flores, frutas e a iguaria preferida do morto cigano. Dispõe-se à mesa um lugar com o prato, copo, talheres, comida e bebida para o falecido e tudo isso que lhe foi reservado permanece, evidentemente, intocado. Acende-se uma vela diante do retrato do ente querido e, ao lado deste, deixa-se uma garrafa de vinho fechada. O mais do ágape é servido a todos os circunstantes. Finda a cerimónia, toda essa parte dedicada ao morto é jogada fora.

 

Papá prosseguiu – Pois é, ela vem a ser mãe do gajo... aquele tipo... tu bem sabes a quem estou a me referir. Ele também já foi contaminado pela maldita… – palavra que fez Aurora tremer, da cabeça aos pés – É, dizem que o rapazito anda muito mal, lá na Santa Casa de Misericórdia, pois a maldita que lhe levou a avó também o soube pegar de jeito. É um moço forte, mas já está quase a deitar fora os pulmões. Sabe-se lá se escapa. A pobre mãe se desespera… A essa altura, deve estar a fazer aquela tal de prasnico, para o filho não morrer.

 

Consiste a prasnico em oferendas ao santo de cada dia do calendário votivo. Lamentava-se Mariazita, certamente, de ficarem esses ritos incompletos, pois deveriam ser parte de um ritual coletivo, mas que, durante a Pneumónica, tornava-se impossível de realizar. Consolava-se a rezar, em seu milenar idioma – Dat amarô cai san andô tchêri. Súnto si tirô anáv. Av aménde ando tirô rhaio. Ai te avêl pô tirô katê pe luma sar ando tchêri … (Pai-nosso que estais no Céu…) ou – Suntô Mariônê, pérdô san andô svêtô ô Del tu sai. Uusí san angla sá e juvliá uusôi ô fruktô kai arakádilas tutar Jesus. Suntô Marionê Del leski dei… (Ave-maria, cheia de Graça, o Senhor é convosco…).

 

Aurita não pôde sufocar o gemido inoportuno que lhe escapou da garganta. – Quem está lá? – perguntou o pai, encaminhando-se até à porta que dava para os dormitórios. Passou ao corredor e abriu um por um dos quartos. Estavam todos a dormir. Ou quase. Aurora, que dividia com as irmãs um cómodo único, fingiu estar nos braços de Morfeu. Em verdade, em verdade vos digo, ela estava mesmo era a morder os lençóis entre os dentes, para não ressoar pelas calmarias da aldeia o seu angustiado pranto. Abraçava o travesseiro, a pensar dolorosamente em seu amado que, na cidade, estava a lutar contra os germes mortais. Pensava, também, muito dorida, no sofrimento daquela pobre mãe cigana.

 

A rapariga não pudera mais escutar a conversa dos pais e, por isso, deixou de saber o quanto eles ainda se preocupavam com ela – Pobre filha, já estive até a lhe dar alguns conselhos. Zefa me disse que ela nunca mais veio a ter nem um segundinho de cavaqueira com aquele rapaz, mas... ai, meu rico, sabes que um coração de mãe não se engana, acho que ela ainda está a pensar no cigano, todos os dias, todas as noites.

 

João Reis ponderou – Se apenas esse mero ato de pensar não privá-la da saúde do corpo e da mente... Mas eu temo é por qualquer outro mal que isso lhe possa causar. O ratinho que está de facto a me roer a cachola é que Aurita... ora, pois, tu bem sabes, Menina Flor, como são as raparigas de hoje em dia. – Como então que não estou cá a saber, meu marido?! Ora pois que elas vivem com o bestunto na lua! – e o patriarca – Daí que estou a achar, e bem achado, que a nossa menina ainda está de coração voltado para os truques de mágica do Camachito. Tens que ser doravante, para com a nossa filha, igual como os crocodilos d’ África: um olho a fingir que dorme e o outro a vigiar em volta. Porque estás a suspirar? – É que sempre me lembro da minha mãe, que já lá se foi: “filhos criados, trabalhos dobrados”. – Mas nossa Aurita ainda não se pôs de todo, ainda está a se criar... – Ora, pois, meu rico maridinho, por isso mesmo. Ainda vamos ter muito trabalho com a nossa menina!

 

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O Homem Sem Memória em livro

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No dia 19 de agosto de 2010, quando as “Crónicas Segundárias” do Luís de Boticas se despediam deste blog, anunciava a entrada de uma nova crónica de autoria de João Madureira, intitulada «O Homem Sem Memória». Dizia então eu na altura: “(…) crónica que acontecerá aqui todos os inícios das quintas-feiras (…) que em jeito de folhetim, caminhará (pela certa) para mais um romance deste autor.” E assim foi, religiosamente até inícios de 2014, todas as quintas-feiras o “Homem Sem Memória”, não se esquecia, e cá estava ele com mais um capítulo do, agora, livro que no passado domingo foi lançado em Montalegre na Feira do Livro a decorrer naquela vila,  e que dia 16 deste mês, será lançado aqui em Chaves, na Biblioteca Municipal.

 

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 João Madureira com Luis Martìnez-Risco da Fundación Vicente Risco e a Vereadora da Cultura da Câmara Municipal de Montalegre

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Lançamento do livro que se iniciou em Montalegre, e muito bem, pois também é em Montalegre que o “Homem Sem Memória” começa a contar as suas memórias e estórias de criança com muitos adultos à mistura,  vividas nessa vila, ainda antes de passar para a cidade e concelho de Chaves, de se tornar homem, de atravessar uma revolução e muita coisa se passar na República Democrática do Norte, muito antes de acabar os seus dias na República Popular do Sul.

 

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Mas tudo isto é ficção ou talvez não, tal como dizia António Aleixo “P`ra a mentira ser segura/e atingir profundidade,/tem de trazer à mistura/ qualquer coisa de verdade.” Ou como se diz na contracapa do livro “É, sem sombra de dúvida, um espaço de ficção onde cada leitor vai por certo encontrar um ou outro momento que por si poderia ter sido vivido”. Pela minha parte, confesso, que revivi muitos desses momentos como se fossem meus e outros, revivi-os porque fui testemunha deles, ou de outros bem parecidos, que muito bem poderiam ser os mesmos. Foi isto, continuo em maré de confissão, que desde início me ligou ao “Homem Sem Memória” e que criava em mim a ansiedade da espera pelo próximo capítulo, que então no blog só acontecia na semana seguinte. É sem qualquer dúvida um livro que fala de nós e que vão gostar de ler ou reler, pensando naqueles que acompanharam as publicações do “Homem sem memoria” blog.

 

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Em imagens ficam alguns momentos do lançamento de “O Homem Sem Memória” em Montalegre, e não esqueça que no próximo dia 16 deste mês de junho, o livro será apresentado na Biblioteca Municipal de Chaves.

 

 

 

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Terça-feira, 30 de Maio de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. XAILE SUDÁRIO.

 

O que mais preocupava Florinda era ter o seu rico maridinho, a cada quinzena, de descer a Chaves por uns dois ou três dias, uma vez que o patriarca não podia abandonar os seus compromissos financeiros e comerciais ao deus-dará. Afligia-se, a Mamã – Que não m’o leves para sempre, meu Deus! – e só acalmava-se, de facto, quando o senhor João Reis retornava, no velho landó da família. Além dos géneros alimentícios e das coisas e loisas que Florinda e as crianças haviam por bem encomendar e as quais, com a pandemia, tornavam-se cada vez mais difíceis de serem encontradas, Papá trazia sempre as mais quentes notícias de Chaves e do resto do mundo.

 

Foi a um desses retornos de João Reis, que todos se comoveram com as tristes novas sobre a tia Henriqueta e mais algumas pessoas conhecidas, a exemplo de dois irmãos de Rodrigo, sobre os quais a nefasta Pneumónica estendera o seu negro xaile à guisa de sudário. Outro coberto por esse xaile foi Luís Miguel, o belo afilhado de Adelaide, que os poucos a terem visto a açoriana enterrar o rapaz, tinham que conter risinhos internos e nervosos, pois, mesmo com a sinceridade da sua imensa dor, a Dama da Carochinha parecia estar a representar um drama no Teatro Flaviense.

 

Algum tempo depois, a própria viúva contou a Florinda que, já a caminho da aldeia para onde seguiam, Miguel começou a passar mal e ela, mesmo sem nenhuma experiência de conduzir a charrete, teve que trocar de lugar com o moço e tocar os animais na descida para Chaves, uma vez que ninguém, por dinheiro que fosse, queria levá-los de volta à Vila apeçonhada. No dia seguinte, quando já avistavam de novo a Torre de Menagem, o belo rapaz morria-lhe nos braços.

 

Logo João Reis bendizia os vivos – Ainda bem que, por vontade de Deus, a doença não chegou até ao couro de nosso Manuelito, nem ao de nenhum dos seus, não é, ó pá? – e o cocheiro apenas ria, mostrando os dentes estragados – Quanto à nossa Lilinha, esta parece mesmo que se há de salvar, aos cuidados de Deus e da Comadre Hortênsia – pois facto era que, para alegria de todos, Aurélia já estava fora de perigo. Não mais iria entregar- se às cutiladas da Ceifeira, a Indesejada, malquista por todos os que vivem ou sobrevivem, mesmo os enfermos de corpo ou de alma. Sempre muito louçã e imune à peste, também não haveria de ser desta vez que a tia Hortênsia iria deixar, para cultivo dos outros mortais, o seu cantinho de chão dos penitentes.

 

Eram ótimas notícias, mas Aurita queria saber mais, se havia algo a dizer sobre certo alguém, o que a deixava ansiosa e recolhida em si mesma. Mais tarde, quando todos pareciam se deixar ninar pelos sons de silêncio da noite serrana, Aurora escutou Papá dizer à Mamã que, em sã consciência cristã, lamentava-se de uma infeliz omissão – Ora pois, Menina Flor, estás a ver que... ora pois, sei que isso até nem seria recomendável fazer, a esta altura, mas muito me condói não ter podido ir ao enterro da mãe de dona Mariazita Camacho, a senhora cigana que mora em frente. Ainda estou a ouvir a pobre senhora gritar – Ai que se me morre, também, o Hernandito! Já cá me dói, com essa peste maldita, não se poder cantar os taliertôs para invocar os ancestrais! E ai que me dói, mais ainda, não ter feito a promana para a mamacita!

 

 

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Terça-feira, 23 de Maio de 2017

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. DIAS DE PAZ.

 

Apesar de tudo, foram dias felizes para todos, sem uns e outros ao menos se queixarem do tempo, ora fresco, ora mais frio do que se havia de gostar, nem dos ventos que pareciam cortar a face. Os miúdos aproveitavam as poucas horas em que o benfazejo Sol vinha dizer bons-dias e se espalhavam pelos quatro cantos da quinta. Por ali, por acolá, encantavam-se com as árvores, os galhos baixos em que se deixavam ficar, as hortaliças cobertas com toldos negros por causa do frio, os leitõezinhos em seu curral, as vaquinhas leiteiras e seus novilhos no estábulo, os cavalos de carroça a comerem suas rações de feno, todo um universo em sua mais plena quietude.

 

Nesses poucos e preciosos momentos ensolarados, punham-se a brincar, com os filhos do caseiro, o Jogo das Escondidelas. Para sortear quem deveria procurar os demais, valiam-se de versinhos, a um modo ritmado e monossilábico, tocando uma sílaba ao peito de cada um dos brincantes, até finalizar no que seria, então, o escolhido – “Sete e sete são catorze / com mais sete, vinte e um / tenho sete namorados / mas não caso com nenhum!” – e estes – “Menino Jesus / passou por aqui / escolheu-te / a ti! “– ou ainda – “Mariazinha / fez xixi na panelinha / foi dizer à sua vizinha / que era caldo de galinha!” – e outros – “Pim, pom, pum, / cada bala mata um, / dá de comer á galinha / e ao peru / Quem te salva és tu. “ – mais, ainda – “Fui à caixa das bolachas / comi uma, comi duas, / comi muitas, até dez / olha o burro que tu és. “ – ou estes, mais – “O José foi à horta / encontrou uma cabra morta / O José pôs o pé / A cabrinha fez mé, mé.”

 

O que a todos mais atraía, ao termo sul do quinteiro, era um pequeno canastro de uma pedra só, a moldar uma casita com telhado, que mais parecia a escultura de um templo de dois andares, portas e janelas, mas cujas dimensões não iam muito além de um metro e meio. As extremidades da cumeeira eram encimadas por uma cruz e um relógio de sol. Comuns em toda a região, canastros monolíticos como esse vinham de muitos séculos que já lá se foram e era considerado um verdadeiro milagre ainda estarem assim, tão escapadiços das erosões do Tempo.

 

Aurora e Afonso espantavam o tédio a cuidar de uma estufa na qual, outrora, Mamã estivera a tratar de orquídeas que trouxera da Amazónia e, agora, servia para proteger as flores e hortaliças, para as quais fosse hostil o duro inverno. Aldenora havia trazido livros às mancheias, de sorte que, muitas vezes, a viajar pelos países do sonho e da ficção, só voltava para o mundo real à hora das necessidades básicas de todo ser vivente, como o sono, as refeições e os cuidados da higiene.

 

À tardinha, as meninas se pegavam a bordar e tricotar, ao lado de Florinda e a cavaquear sobre os sítios e gentes que lá ficaram, entre a veiga e o Brunheiro. Após a ceia, aquecidos ao pé da lareira, ficavam todos a ouvir as histórias e lendas da região, sobre mouras encantadas, homens que se transformam em lobos, bruxas que voam e outras narrativas fantásticas, contadas por Zefa de Pitões ou Crispina Bobadela, a mulher do caseiro.

 

Ainda estava bem longe a primavera.

 

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Terça-feira, 16 de Maio de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. SANT’ANINHA DE MONFORTE.

 

Chovia bastante, quando chegaram a Sant’Aninha de Monforte. Com suas ruas estreitas e íngremes, as casas de pedra com varandas de madeiras coloridas, todas as vias conduziam ao Largo da Igreja, ponto de convergência de todos os aldeães, ao centro do qual havia um templo muito simples e antigo, feito de grandes blocos de granito calcário. Nessa pracinha, situava-se também um pequeno mercado, misto de talho e venda de queijos & enchidos, além de uma tendinha para os mantimentos em geral.

 

Por trás da igreja, aglomeravam-se fregueses a uma ta­verna, oculta à visão dos forasteiros, mas sob os olhos se­micerrados e cúmplices do senhor Cura. Ora, pois, que este atacava os ébrios aldeães no sermão, mas ia com frequência a essa tasca, acompanhado da mãe de seus cinco “afilha­dos”, ante os olhos, também semicerrados e cúmplices, dos fiéis borrachos que, certamente, jamais iriam dar queixa ao Bispo. Menos ainda ao Papa. Sem batina, disfarçado, com um chapéu braguês a lhe cair sobre a testa e a se fingir de surdo e mudo, sua “comadre” servia-lhe de intérprete – Que queres, meu bom senhor? Ai, jesus, o pobre mudinho está a dizer que quer uma bagaceira das boas e uns nacos de pre­sunto – e lá comparecia o aldeão “incógnito” ao balcão do taverneiro, ávido de molhar a garganta com uma aguardente das boas.

 

Acomodados na quinta, logo Zefa, ao feitio dos lares da região, que, habitualmente, assim o faziam para que o Dianho não passasse pelas portas e gritasse, visando algum morador, ainda viçoso ou moribundo – Ó de casa, junta as pernas e os socos, que eu vim te buscar – pintou todas as janelas de cruzes encarnadas e “sinos-saimão” pretos. Sua esperança era de que, ao seu modo e jeito, conseguisse en­ganar os diabinhos da Gripe. Escorava-se na fé de que todo cristão, com o Signo de Salomão em volta, jamais correria perigo. Enquanto isso, os mais com seus rosários de credos, ave-marias, padres-nossos e salve-rainhas, rezavam ao bom Deus e à Virgem Santíssima para que a terrível dama, alcu­nhada de Espanhola, com seus funestos leques, olés e sala­maleques, não lhes levasse a Lilinha para bater matracas, ao invés de castanholas. Rogavam também que, por aquelas serras e cercanias, se por acaso a maldita viesse cortar ca­minho pela aldeia, não lhe agradasse o cheiro das rosas e bogaris dos jardins e andasse para longe de Sant’Aninha, sem lhes bater à porta.

 

Essa outra quinta dos Bernardes, aonde eles iam algu­mas vezes para aproveitar o ameno verão da serra, ficava um pouco antes do casario da aldeia. Era quase toda de pedra, muito rústica, poucos cómodos, mas sua fachada frontal, com balcões de madeira cheios de desenhos geometrica­mente esculpidos, até que havia de ter lá os seus encantos. Também era mui encantador o jardim, sempre bem cuidado e onde, a essa altura, só floriam amores-perfeitos, como nos canteiros da Grão Pará. Na estação primaveril, todavia, era um ror de cravos, rosas e quantas flores mais se pusessem a abrir. Aos fundos, estendia-se um quinteiro com alguns bovinos, caprinos e ovinos, além das aves e cães domésticos. Lá estavam também a indispensável horta e, ainda mais atraente de se ver, o pomar com as pereiras, macieiras, cerejeiras, figueiras e o que mais houvesse de frutíferas árvores.

 

As condições de conforto, porém, não eram as mesmas do Raio X. Não havia luz elétrica na aldeia e a iluminação noturna provinha dos lampiões de zinco e dos candeeiros a petróleo. Embora aquecido pelo braseiro, o interior era muito frio, mesmo na primavera. A latrina era um bloco monolítico, onde se fizera um buraco, a dar direto para a fossa. As abluções eram feitas em bacias de louça, dispostas em artefactos de ferro, com um cabide ao lado para pendurar as toalhas e, em baixo, um cântaro, de material esmaltado, o mesmo de que eram feitos os recipientes usados para os asseios gerais e a higiene íntima. A água para tais necessidades era aquecida ao lume do fogão ou da lareira. Para os banhos completos, poucas vezes tomados nas estações frias, ou seja, na maior parte do ano, Papá mandara fazer uma tubulação especial, que levava para o chuveiro a água proveniente de uma espécie de reservatório de pedra, junto ao braseiro, o que deixava o líquido devidamente amornado.

 

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Terça-feira, 9 de Maio de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. GRIPE PORTUGUESA.

 

Em Portugal, também verificou-se uma taxa elevadís­sima de mortalidade, com duas ondas epidémicas, sendo a mais letal entre os meses de agosto de 1918 e fevereiro de 1919. Atingia, sobretudo, as pessoas entre os 20 e os 40 anos, tendo causado cerca de 120.000 mortos no território continental. Sem saberem ao certo que medidas terapêuticas tomar, para evitar o contágio ou curar os doentes, os médi­cos aconselhavam apenas que se evitassem aglomerações. O pior é que o terrível mal fazia também adoecer (e falecer), por todo o território português, numerosos esculápios e pro­fissionais de enfermagem.

 

Em quase toda a região de Trás-os-Montes, as milícias do germe causaram muitas mortes. As vilas e aldeias da re­gião, mesmo isoladas, não podiam evitar que transitassem por elas os vetores humanos vindos da Espanha e de outras regiões da Europa. Uma Vila de Chaves diferente, portanto, era a que tentava, agora, sobreviver. Estima-se que a vila tenha sido vitimada em cerca de 40% da população.

 

Aos primeiros rumores da influenza global, alguns abas­tados como João Reis providenciaram todos os mantimen­tos necessários, para que se refugiassem por um bom tempo com suas famílias em aldeias serranas, plenos da esperança de que, nessa forma de quarentena, o mal por ali não os al­cançasse. A maldita, no entanto, em sua lotaria, já escolhera a menina Aurélia, deixando a todos na mais profunda cons­ternação. Logo tiveram que a isolar, mas felizmente foram acudidos pela bondosa comadre Hortênsia, que já levara por esses tempos ao Campo Santo o marido e uma das filhas. Porque olhasse “mais ao Céu do que a este chão de penitên­cia”, como aquela boa senhora se referia a “este mundo vão”, não tinha medo algum de cair nas garras da funesta dama da Grande Foice.

 

João Reis, confiante de que a boa comadre cuidaria bem da Lilinha, certificou-se de que todos os outros da casa estivessem perfeitamente sãos e pediu a Manuel de Fiães que preparasse bem os cavalos e o velho landó. De pronto já estava a levar Florinda e os outros filhos até à quinta de Sant’Aninha de Monforte, na Serra de Maios. No caminho, cruzaram com Adelaide, que também se evadia da vila, jun­to com o seu belo e fiel “afilhado”. Naqueles dias, porém, nem mesmo o gajo mais estúpido se punha a rir, à passagem da Carochinha. Até o mais simples sorriso de escárnio ou de alegria se ausentara dos lábios flavienses.

 

Ao subir à serra, Florinda esteve, em boa parte do trajeto, a pedir aos filhos que tapassem os olhos. Em vão. Ninguém conseguia deixar de os dirigir, horrorizados, para os tantos mortos que eram levados em rústicos caixões, os miúdos em caixotes, todos de confeção ordinária, ou até mesmo em simples macas improvisadas, feitas com lençóis e cobertores remendados. Os mesmos panos em que os moribundos ha­viam acabado de se entregar ao sono derradeiro.

 

 

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Terça-feira, 2 de Maio de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. GRIPE ESPANHOLA.

 

Milhões de europeus e, logo então, povos do mundo in­teiro, falidos, esfomeados, enfraquecidos, sem carvão ou eletricidade para aquecer os cómodos das habitações, torna­ram-se cobaias para a grande experiência dos deuses, eter­namente insatisfeitos com a Humanidade que os criou.

 

Depois da guerra e da fome, mais um cavaleiro do Ómega se pôs a cavalgar, do Báltico ao Mediterrâneo, a espalhar uma peste que chamavam erroneamente de “espanhola”, mas era mais apropriado nomear de Pneumónica. O germe terrível, de grande poder patogénico, como um general de grandes táticas e espertíssimas estratégias, multiplicou-se pelos infelizes hospedeiros e disseminou sua influenza por todo o continente, como lavas de um vulcão a cuspir febre, tosse e catarro. A se aproveitar dos fracassos e impotências de grande parte da comunidade europeia, recém-saída do sanguinolento fratricídio, pôs-se a acabar o serviço que as contendas bélicas começaram e entregou à Grande Ceifeira mais alguns milhões de vidas. Sedenta de cadáveres, não se contentou em gerar uma simples onda epidémica. O mal acabou por se espraiar, como a mais destrutiva pandemia da História, pelos mares – já agora bastante navegados – da América, África, Ásia e Oceânia.

 

Não se conhece, com exatidão, a origem dessa pande­mia (1918-1919). Na verdade, os primeiros casos notificados ocorreram em abril de 1918, entre as tropas francesas, britâ­nicas e americanas estacionadas em portos de embarque da França. Em maio chegou à Espanha. Foi designada de “gripe espanhola”, porque as primeiras notícias mundiais, sobre os acometidos por esse tipo de peste, vieram do país ibérico, o qual não participara da Guerra, mas estava a contabili­zar um número alarmante de civis que adoeciam e morriam com os sintomas da Pneumónica.

 

As dores de cabeça, a febre e a falta de ar eram muito gra­ves e, em poucos dias, o doente morria incapaz de respirar, com os pulmões cheios de líquido, como assim descreveu um médico norte-americano: A doença começa como o tipo comum de gripe, mas os doentes desenvolvem rapidamente o tipo mais viscoso de pneumonia jamais visto. Duas horas após darem entrada no hospital, têm manchas castanho­-avermelhadas nas maçãs do rosto e, algumas horas mais tarde, pode-se perceber a cianose a se estender por toda a face, a partir das orelhas, até que se torna difícil distinguir o homem negro do branco. A morte chega em poucas horas e acontece simplesmente como uma falta de ar, até que mor­rem sufocados. (…) Ver esses pobres diabos sendo abatidos como moscas, deixa qualquer um exasperado”.

 

Causada por uma virulência incomum e frequentemente mortal de uma estirpe do vírus Influenza A, subtipo H1N1, tornou enfermos cerca de um bilhão de pessoas, metade da população do mundo na época. Cerca de vinte a quarenta milhões não resistiram, tornando-se uma das mais impres­sionantes estatísticas de óbito da História. Tão somente na Índia, em apenas alguns meses, ao último trimestre do ano de 1918, foram mais de doze milhões de mortes.

 

Tinha-se medo de sair às ruas. Estabelecimentos como bancos, casas comerciais, repartições públicas, teatros, ba­res, cinematógrafos e tantos outros fechavam as portas, por falta de clientes e de funcionários. As pessoas do povo fica­vam a recomendar pitadas de tabaco e queima de alfazema ou incenso, para evitar a contaminação e desinfetar o ar. Até o sal de quinino, remédio usado no tratamento da maleita, passou a ter uso generalizado, mesmo sem qualquer com­provação científica de sua eficácia contra o vírus letal.

 

Nenhuma das calamidades recentes chegara aos pés da moléstia reinante e, quanto mais avançava a pandemia, insta­lava-se um pânico geral, pois, como disse à época, no Brasil, o historiador Pedro Nava: “Aterrava a velocidade do contá­gio e o número de pessoas que estavam sendo acometidas”. (...) “O terrível não era o número de casualidades, mas não haver quem fabricasse caixões, quem os levasse ao cemité­rio, quem abrisse covas e enterrasse os mortos. O espantoso já não era a quantidade de doentes, mas o facto de estarem quase todos doentes, a impossibilidade de ajudar, tratar, transportar comida, vender gêneros, aviar receitas, exer­cer, em suma, os misteres indispensáveis à vida coletiva”.

 

As pessoas imunes eram vistas como se fossem um mi­lagre divino. Ao mesmo tempo, a todos os dominados pela fé inabalável na Virgem Maria (e que eram, então, a maio­ria em Portugal), mas desprovidos de certos conhecimentos científicos, já existentes àquela altura, parecia que vinham a se cumprir as profecias de Fátima e, portanto, já estar a chegar o Apocalipse...

 

 

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Terça-feira, 25 de Abril de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. GRANDE GUERRA.

 

O mundo todo acompanhava, estarrecido, a guerra que as elites carniceiras da Europa fizeram eclodir, dos anos 14 a 18 do século XX, em talhos onde se expunham cadáveres esquartejados e os soldados, nas trincheiras, grande parte dos quais advindos como voluntários, viam-se diante de ini­migos que, em igual condição à deles, também estavam à mercê da chuva, do frio, dos lamaçais e, com mais cons­tância, dos piolhos, ratos e carraças. Acabavam quase todos vitimados pelas balas ou gases venenosos, por enfermidades como o tifo e a febre quintã ou, pior ainda, pelas septicemias oriundas de ferimentos mal cuidados, ante a falta de cer­tos procedimentos sanitários e de medicamentos ainda não existentes, como antibióticos, vacinas e outros mais.

 

O maior legado que os marechais dessa guerra deixaram à Europa, após ficarem brincando, insanos e entediados, com os jogos de matar soldadinhos, não de chumbo, mas de carne e osso, foi mergulhar o continente em uma trípli­ce aliança, a dos três efes: fome, fraqueza, falência. A indi­gência aumentara, na maior parte dos países, com a falta de recursos médicos e de géneros alimentícios que pudessem servir de trincheiras ou fortalezas inacessíveis a outros em­bates, bem diversos e mais genocidas e que, tal como aquela guerra, seriam travados contra as forças de Tânatos, o deus da Morte.

 

Nessa batalha, que logo estaria a se anunciar, por toda parte, como guerra não declarada, até mesmo os arquidu­ques Ferdinandos d’Áustria-Hungria estariam à mercê de serem abatidos, não por estudantes bósnios de nome Gavrilo Princip, mas por batalhões de germes mortíferos, criados pela Natureza, nos seus imprevisíveis desígnios de ora mãe, ora madrasta.

 

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