Uma Pessoa Simples
Quando ela mais precisou, ele não estava. Bateu a todas as portas, nenhuma se abriu. Correu todas as ruas, não encontrou a sua. Não viu ninguém. Quando ela não precisava, estava só.
O tempo passou, e nada pode ficar no mesmo sítio, tudo é movimento, avanço, inquietação, evolução. Ela fez uns ajustes, acondicionou-se e adaptou-se.
E depois… sempre que ela mais precisava, ele nunca estava. Já ela, tinha mais tendência para ouvir do que exprimir. Analisava todos os problemas, reflectia sobre a solução de todos os dilemas. A “fórmula mágica” era sempre a mesma: ajustar-se, acondicionar-se e adaptar-se.
Ela pensava sempre no colectivo, no “todos por um”, e no “um por todos”. Os outros não reagiam. Cada um que fosse dono do seu próprio destino, e assumisse as consequências de cada escolha, decisão ou atitude que tomasse. Ponto. Não eram os tempos modernos. Desde o início dos tempos que assim era: o Homem, sem qualquer predestinação ou desígnio divino, lutando contra o seu próprio meio para sobreviver. Mas ela, se pudesse escolher, não teria vivido na Pré-História. Teria vivido na Polis grega, onde tudo era exposto, debatido e sabiamente aplicado a todos.
Fotografia de Sandra Pereira
Ela precisava. Ele não estava. Ela batia a todas as portas, nenhuma se abria. Ao avistá-la ao longe, todos desapareciam. E a ela, só lhe restava ajustar-se, acondicionar-se e adaptar-se. No final, era feliz, pois de tanto procurar o carpe diem, acabava por encontrá-lo… até surgirem novas ansiedades.
Aí, também queria exprimir. Com mais braços, dobra-se melhor o cabo das tormentas. Todos diziam que a compreendiam, que a apoiavam, que estavam aqui para o que ela precisasse. Mas ninguém estendia a mão. Não eram os tempos modernos. Desde o início dos tempos que assim era: o Homem só.
Primeiro ressentia-se. Depois digeria – perdoava - ouvia de novo. Analisava todos os problemas, reflectia sobre a solução de todos os dilemas. Era uma pessoa simples.
O tempo continuava a passar, e nada pode ficar no mesmo sítio, tudo é movimento, avanço, inquietação, evolução. Ela fazia ajustes, acondicionava-se e adaptava-se. Até surgirem novas tormentas…
Não são os tempos modernos. Desde o início dos tempos que assim é. A realidade de hoje é sempre o resumo dos males de um século. Ela é apenas uma pessoa simples.
Sandra Pereira
Contratempo
Contra o tempo… "Aconteceu enquanto dizíamos que isso não iria acontecer mais. Que estávamos seguros. E então aconteceu".
Foi mais um contratempo. Ninguém cai num buraco, porque às vezes é preciso andar meio perdido para chegar a um sítio realmente diferente. Mas tu não queres pensar nisso...
Contra o tempo… "Trabalhe duro no emprego de hoje ou trabalhe duro para encontrar um emprego amanhã".
Foi outro contratempo. É a crise do cromossoma Y, ou é a crise do cromossoma X. Certo é que todos precisamos de amigos quando nos espera um espancamento. Mas tu não queres pensar nisso…
Contra o tempo… “Os cientistas anunciam ter descoberto uma forma de ler os sonhos das pessoas ao utilizar aparelhos de ressonância magnética para abrir a porta a alguns segredos da mente inconsciente”.
Xangai, 2008 - Fotografia de Sandra Pereira
Foi de novo um contratempo. Entusiasmo demasiado fácil. Entrar em efervescência. Não olhar além das imagens, para os cheiros, as cores, para as traduções, para os significados, as emoções. Não visualizar o que não é visível. Mas tudo tem solução, tu não queres pensar nisso…
Contra o tempo… um indivíduo só. Porque há sempre um lugar vedado a terceiros. Tu seguias a corrente do receio, do acanho, da cobardia, do seguro, do conhecido. Tu não querias pensar nisso. Tudo tem solução, mas não há ponta de irracional em ti.
Foi apenas um contratempo. Hoje viajas. Foges para bem longe de tudo o que já viveste. Não visualizas o que não é visível, mas queres cheirar, queres ver, queres sentir. Com o estômago e o pensamento a darem voltas e mais voltas… quase até ao vómito. Queres significados. Foste atingido por um relâmpago súbito de (ir)reflexão, e o choque foi tão forte que andaste meio perdido. Temeste muito, tremeste mesmo por ti próprio, não visualizaste o que não era visível, mas viajas… até aterrar de vez. Aos poucos, mudas de aspecto, tornas-te sol ou nuvem. Tudo tem solução.
Contra o tempo…
Sandra Pereira
Estas aldeias raianas só são para velhos
Que contam as rugas das gentes que ainda habitam o nosso mundo rural? O que sentem quando vêem os filhos partir para regressar “de longe a longe”? Como lutam contra o isolamento e resistem à solidão? Respondemos ao apelo de um projecto de Animação Sociocultural do pólo de Chaves da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) – desenvolvido em parceria com a Associação de Fotografia e Gravura Lumbudus – e subimos pelas artérias da freguesia mais distante da “civilização” flaviense, São Vicente da Raia, até chegar ao coração de xisto das suas aldeias, abandonadas na serra raiana.
Por Sandra Pereira
“Funerais a partir de 379,12 euros na Funerária São Pedro”. “Edital para a eleição da Assembleia Municipal de Chaves no dia 5 de Junho 2011”. “Participe nos Censos 2011”. O tempo terá parado em Aveleda? Depois de um arrepio na espinha, não se sabe bem se da chuva miudinha, se do receio, apetece gritar alto se está aí alguém, não sentíssemos o cheiro a sardinha assada vindo de mais adiante, do grelhador de Emídio.
É de Paradela de Monforte, mas casou em Aveleda, uma das quatro aldeias da maior e mais distante freguesia de Chaves, São Vicente da Raia. Aconchegada num pequeno vale a 500 metros de altitude e rodeada dos montes que unem Portugal à Galiza, é aqui que Emídio Teixeira, 56 anos, vive desde que nasceu a filha Marlene, há 29 anos. Esteve emigrado em Espanha, em França e na Suíça, mas andava ilegal e nem sempre arranjava trabalho. Gosta da aldeia? “Que remédio! A gente tem aqui as coisas, há que aguentar!”, ri-se. Claro que sofre com a solidão. “Aqui, não há um café, é uma tristeza… Há domingos em que só se vê uma pessoa a passar na rua. Nos outros dias ando entretido!”.
Ainda mergulhada no “antigamente”, Aveleda tem 17 habitantes, mas além de Emídio, a assar sardinhas no largo principal da aldeia, Marlene, a espreitar timidamente à janela de casa, e um simpático casal de idosos, a aparecer na rua para receber as “visitas”, não se verá nem mais um sinal de vida na aldeia mais pequena da freguesia de S. Vicente, mas também uma das mais pitorescas, pelas casas feitas em xisto, já que não se forma uma rocha de granito nesta zona, como acontece no resto do concelho flaviense. Marlene é o único rosto sem rugas em Aveleda. Com o 8º ano, ainda tentou emigrar para Espanha, onde está o irmão, mas logo regressou e vai ajudando na lavoura. “Lá também não há trabalho!”, resigna-se o pai, sempre de sorriso nos lábios.
“Foi tudo embora! O que estavam aqui a fazer?”, mete-se a idosa que desceu ao largo, Luísa Neves, 72 anos, que tem cinco irmãos “espalhados pelo mundo fora” e apenas uma irmã e a filha, de 52 anos, na aldeia. “Daqui a 10 anos, não haverá ninguém. Eu aqui nasci e aqui quero morrer!”. O marido, o tio Mário, a fazer 80 anos, ri-se e diz com orgulho que ainda caça. A vez em que tentou emigrar para França “a salto”, ainda com as fronteiras fechadas, foi preso e forçado a regressar. Desde então, “com pão e vinho”, lá foram “andando o caminho”. Mais velho do que ele na aldeia, só Narciso, com 84 anos.
Hoje, com “luz, telefone e boas estradas”, a dona Luísa está bem. “Só nos falta uma camioneta para ir a Chaves. Há dias, o meu marido teve que me levar numa burra até S. Vicente para apanhar a camioneta das 7h. Temos de sair daqui às 5h30 porque não temos carro! Olhe que ainda é um sacrifício…”, conta. O que vale, muitas vezes, é a “boleia” até ao hospital dos emigrantes que regressam quando surge um problema de saúde grave.
Também faltam crianças. Aqui não há nenhuma. A escola primária de Aveleda foi a última a encerrar na freguesia, em 2002, por falta de alunos. Mas nem todos os esquecem. Todas as semanas, o Padre Delmino Fontoura celebra missa em cada aldeia de S. Vicente. Em Aveleda, só para dois ou três fiéis.
- “Tio Mário, gosta de morar na aldeia?”
- “Que remédio tenho!”
SEGIREI. Submersa em chuva miúda… amorosa… desértica. É aqui o último ponto de chegada para quem segue a estrada sinuosa em direcção à fronteira. Nas montanhas, avistam-se casas isoladas até se dar com um “desfile” de vivendas de emigrantes que competem em exuberância e tamanho da piscina. É o “bairro de cima” de Segirei. Descendo a encosta, pouco soalheira para outrora facilitar o contrabando que ali alimentou muitas famílias em tempos de fome, chegamos ao “bairro de baixo”, o dos retornados, das casas modestas, algumas com resquícios de xisto. Tanto o bairro “rico” como o “pobre” estão praticamente desabitados… até aos dois meses de Verão, em que regressam os emigrantes, aguardados com ansiedade e muita saudade.
Ao ouvir vozes desconhecidas, aparece à espreita um rosto enrugado à janela. É o de Sílvia Caridade Pires, 87 anos. Lá sai da porta, de sorriso envergonhado, mesmo sem ter culpa da “invasão” forasteira. Como quase toda a gente, emigrou. Viveu 13 anos em Bilbau, cidade basca onde muitos da aldeia estiveram e ainda permanecem. Um dia, “o meu marido ficou sem trabalho, quis vir…Eu antes queria lá estar porque as filhas estão lá …”, lamenta. Mas se viessem, “a vida seria ruim porque aqui a gente é pobre…”.
Outra “Pires” aparece na rua, Leonilde, já que aqui é tudo família. Nunca saiu da aldeia. “Nunca tive curiosidade porque nunca tive dinheiro! Para onde é que havia de ir?”, ri-se a mulher de 58 anos, que teve 13 irmãos, mas apenas dois filhos, que trabalham perto, mas do outro lado da raia, em Vilardevós, o que justifica a ligeira pronúncia espanhola. “O meu dia-a-dia é andar com as crias, trabalhar no campo e fazer a comida em casa”, conta a esposa do “gaiteiro” de Segirei, que vai animando a casa do vizinho, a rua, o café, onde calha. Os “vitelinhos” que vendem na aldeia rendem 500 euros por ano e vão chegando para comprar a mercearia dos vendedores ambulantes.
“Aqui há muito pouquinha gente”. Dizem os Censos que são à volta de 30 residentes. Para onde foram as pessoas? “Algumas faleceram, outras emigraram”. E os jovens? “Na agricultura metade não sabe trabalhar e outros têm que emigrar porque aqui, coitadinhos, não têm trabalho”. Crianças? “Não há nenhuma”. A pessoa mais nova tem 35 anos. “Acho que isto vai acabar…”, arrisca Leonilde.
Antigamente? Havia quem levasse “umas batatinhas, umas cebolinhas, por aí acima [até Soutochao, concelho galego de Vilardevós] … Às vezes, por uma dúzia de ovos, os guardas até lhos tiravam na fronteira” para acabar num “arranjinho” conveniente para ambas as partes, recorda Leonilde. “O meu pai e os meus irmãos eram contrabandistas!”, lembra também a dona Sílvia. Era daqui que saía o presunto que enchia a mesa dos espanhóis. Com a adesão à CEE, o contrabando terminou, mas a emigração continuou… livremente.
Tal como o cheiro agradável que escapa da porta aberta de uma casa na travessa principal da aldeia e chega até ao estômago. À volta dos tachos, Ivone Nascimento, 69 anos, memora 14 anos da sua vida em França. Emigrou aos 30 anos para “poder comprar casa”, ainda se passava “a salto de coelho” na fronteira. Regressou com o objectivo cumprido. Agora é, finalmente, livre. Da fome, das patroas, da vida escrava, das “porradas”.
Em Segirei, conversa-se muito entre vizinhas. “Falamos que amanhã tenho que ir para ali, tu já almoçaste, eu ainda não, os teus filhos estão bem, os meus também”. De Inverno, anoitece cedo e as tabernas fecharam há anos. “Estou com o meu marido, e começo a pensar ‘valha-me Deus, hoje estamos os dois, amanhã está só um…”. Mais novos do que eles a habitar na aldeia, só três casais. “Depois aqui não fica ninguém. Que vêm cá fazer? Mete-me pena. A gente trabalhou tanto para ter o que tem…”
“O que não se juntou até agora, hoje já não se junta!”, acrescenta o marido de Ivone, o “Tio Alcides”, 74 anos. Na aldeia já não se vendem as batatas. “Se o quilo vale 20 cêntimos, só o pagam a cinco! Os adubos caros, o gasóleo caro, para que é que a gente anda a trabalhar? Para o Governo?”.
Em Segirei, que tem por topónimo um apelido de família espanhola, ainda mora um antigo embaixador de Espanha no Brasil, que deu emprego a muita gente nas vinhas, de reconhecida qualidade. Além dos emigrantes e visitantes que desfrutam da cascata, rios e praias fluviais no Verão, a aldeia também é percorrida por peregrinos espanhóis que se aventuram pela "Via de La Plata" até Santiago de Compostela ou experimentam a “Rota do Contrabando”.
- “Tio Alcides, gosta da sua aldeia?”
- “Sou obrigado!”
ORJAIS. Finalmente surge aqui a revolta. “O meu nome é Manuel Fernandes e pode-me mandar para a prisão por aquilo que digo!”. Numa encosta longe da estrada principal e da vista, a aldeia de xisto esconde uma beleza singular e até vestígios de ocupação judaica. Toda a gente diz que “isto está mal”, que o Governo devia ajudar as aldeias em vez de “mandar os jovens emigrar”, mas sem convicção, pois hoje já ninguém acredita em nada. Manuel enerva-se e grita contra os políticos do pós 25 de Abril que “não souberam dirigir o dinheiro que havia” e deixaram que a sua linda aldeia chegasse ao ponto a que chegou, que até para ver futebol tem de ir a S. Vicente porque não se lembraram de lá fazer chegar a TDT. “Ninguém olha para o pobre! Gostava que me deixassem ir à televisão a Lisboa!”.
Manuel ainda se lembra de haver 12 rebanhos de ovelhas e 40 cabeças de bovino em Orjais. Hoje só um rebanho e nenhum gado. Habitam aqui cerca de 50 pessoas, uma única criança de 7 anos, e só duas casas é que não têm reformados. “Há mais pessoas no cemitério do que a viver cá!”.
“Ninguém passa por Orjais”, confirma Nestor Santos, 45 anos. “É bonita como quem diz!”, desabafa, para não dizer que é pobre… e triste. É dos poucos que regressou à aldeia para não deixar a mãe sozinha, que entretanto faleceu. Já pensou voltar a abandonar a terra, mas “agora é que não há muitas oportunidades para sair…”.
Antigamente, “havia agricultores na freguesia que colhiam 30 mil quilos de batatas e vendiam-nos!”, recorda Antenor dos Anjos, presidente da junta de S. Vicente da Raia há 24 anos. Ainda acredita que a solução para inverter os números da emigração é voltar a cultivar os terrenos com os devidos apoios, apostando nas cooperativas agrícolas e no turismo rural. Contudo, admite que “um presidente de junta pouco pode sem a ajuda da Câmara”, que também “pouco pode para as aldeias sem a ajuda do Governo”.
S. VICENTE DA RAIA. É o ponto de todos os encontros, já que, além de ter mais habitantes (cerca de 100), é a única aldeia da freguesia onde há cafés. Hoje o “Outeiro” serve mais copos de vinho do que o costume, pois os idosos aguardam a chegada da contabilista para ajudar a preencher a declaração de IRS, que este ano tem de ser entregue por todos os que recebam uma pensão acima dos 293 euros.
Há dois anos, Agostinho Fontoura, um filho da terra, decidiu regressar do Porto, com a esposa Catarina Santos, para montar uma cozinha regional. Trabalhavam num hipermercado da Maia, onde se conheceram, e quiseram livrar-se de horários, serem “independentes”. Lá a vida “estava a ser muito saturante, muito stress, muita correria…”, desabafa Catarina, 36 anos, natural de São João da Pesqueira. Nunca viveu numa aldeia, mas a adaptação não está a custar. “Gosto das pessoas, do ambiente, é tudo muito bom! Vive-se com uma paz interior muito maior”.
Como não dá para viver do fumeiro, o casal gere o “Outeiro” com os pais de Agostinho. Este ano, criaram 10 porcos que venderam na aldeia, nas feiras e a emigrantes, mas “sem apoios” e muita burocracia, mesmo com produtos de sabor incomparável, não é fácil manter um negócio no mundo rural, onde os telemóveis nem sequer apanham rede.
Um buzinão interrompe as conversas no café. “É o padeiro!”, grita logo Maria, a filha de 3 anos, uma das três crianças da aldeia. Todos os dias, vai de táxi para o jardim-de-infância de Argemil, na freguesia vizinha de Travancas, que para o ano também vai encerrar. Conta os amiguinhos novos pelos dedos de uma mão. “O Martim, a Beatriz, o David, e eu!”. Aqui ninguém tem tempo para se aborrecer, garante a avó Arminda. “Os animais não têm fins-de-semana!”.
À espera da contabilista, está Agostinho da Costa, 76 anos. “Noutros tempos, à noite, havia muita malta nova a cantar pelas ruas. Era o nosso cinema! Não havia outro!”, recorda. À mesma mesa, Carlos Noval, 78 anos, assiste à conversa com ironia. “Estou sozinho, trazem-me a comida de um lar. Pior não podia estar!”. Só mesmo nos tempos da fome, em que o contrabando “não dava muito”. “Andávamos aí como os burros, carregados para cima e para baixo, para ganhar 25 escudos”, confirma Salvador Fernandes, 77 anos, de Orjais. Mas havia mais educação e honestidade. “Hoje anda tudo de carro, acenam só com a mão e assim se perdem os amigos…”.
No povo, todos agradecem o zelo do presidente da junta. Antenor dos Anjos já tentou negociar um autocarro com a Auto Viação do Tâmega para ligar as aldeias da freguesia a S. Vicente, mas a empresa não está interessada em prejuízo. Antenor sabe que a transferência de muitos serviços de saúde de Chaves para Vila Real agravou problemas. “Para ir a uma consulta, as pessoas perdem um dia e gastam o dinheiro que não têm…”. A maior parte das reformas não ultrapassa 300 euros, muitos não têm viatura própria e dependem do autocarro diário de S. Vicente para Chaves.
Mudaram os tempos, mudaram as necessidades. Onde antes era a escola, em breve será o lar de idosos. Este ano, Antenor esteve nos Estados Unidos para angariar 100 mil euros junto da comunidade emigrante para continuar a obra, iniciada em 2010 com 75 mil euros da Câmara de Chaves, mas que parou por falta de dinheiro. Quando abrir, o lar, com um custo estimado em meio milhão de euros, só poderá acolher 12 idosos, muitos ficarão na lista de espera.
Apesar das paisagens deslumbrantes integradas no Parque Natural de Montesinhos, os Censos de 2011 contaram apenas 228 habitantes na freguesia de S. Vicente da Raia. Em 1960, eram 990. Pelo meio, os guardas-fiscais partiram, o contrabando acabou, a emigração continuou. Já não nascem crianças, os mais velhos vão falecendo... Não regressa ninguém. Encolhem-se os ombros. Sabe-se que nas cidades “também está tudo muito complicado” e que há crise, mas... Toda a gente vê, toda a gente sente, toda a gente teme, mas… é ter fé e deixar tudo em reticências…
Texto de Sandra Pereira – Fotografias de Fernando Ribeiro
Nota: O presente post foi publicado em simultâneo no semanário "Voz de Chaves" e nos blogues dos Associados Lumbudus aderentes ao "Repórter por Um Dia"
A Lotaria
… E hoje, de quem será a vez?
“Ele tinha a paixão de defender, era um dos melhores a defender os outros”, não se cansava de repetir o sócio. E era. Quando estava na fila, não seguia por rodeios, não lia nas entrelinhas, não baixava o tom. Não autocensurava as acções, e saía-lhe sempre a estrelinha da força. Tornou-se um excêntrico, e a estrela tornou-se decadente. “É triste que alguém tão talentoso como ele não tenha conseguido encontrar os recursos para se defender a si próprio de si próprio…”
Hoje não há censura nem tabu. Foi a vez dele. E hoje, de quem será a vez?
“Ele fazia sempre a sua própria lei, gravitava sempre à volta da própria norma”, não se cansava de repetir a mãe. E era. Nunca chegava a estar na fila, estava sempre no último sítio onde imaginavam que ele estivesse, num paraíso ou numa selva, mas sempre num lugar surreal. Não autocensurava as vontades, e saía-lhe sempre a estrelinha do inesperado. Tornou-se um excêntrico, e a estrela tornou-se decadente. “Se segue a regra, não se auto-satisfaz. E como nunca se auto-satisfaz, segue a sua trajectória, completamente imprevisível, indiferente a tudo, não a todos, mas sem nunca poder ser apanhado por ninguém…”
Hoje não há censura nem tabu. Foi a vez dele. E hoje, de quem será a vez?
"Ele vivia numa época diferente da nossa, num mundo à parte. Era bom homem, mas pobre, coitado, e estava quase sempre só…”, não se cansava de repetir a vizinha. E era. Também não se metia na fila, mas nunca saía do lado dela, não fosse perder alguma sorte ou uma explosão de alegria humana. Não autocensurava o coração, e saía-lhe sempre a estrelinha da compaixão. Tornou-se um excêntrico, e a estrela tornou-se decadente. “É triste que o nosso tempo tenha ficado órfão deste tipo de personagens, com novas formas de compreender a vida…”
Fotografia de Sandra Pereira
Hoje não há censura nem tabu. Foi a vez dele. E hoje, de quem será a vez?
“Ele acreditava que a censura não tinha acabado, que a censura económica era pior do que a de lápis azul. Era um inconformado”, não se cansava de repetir o neto. E era. Insistia em estar sempre na fila, e não entendia porque o queriam pôr de parte, quando só ele sabia como fazê-la andar para a frente. Não, não tinha passado a vez dele. Não, não se tratavam de detalhes burocráticos. Não autocensurava a perseverança, e saía-lhe sempre a estrelinha da “missão cumprida”. Tornou-se um excêntrico, e a estrela tornou-se decadente. “É injusto que, depois de tantas horas de espera, no final não lhe aceitem a senha, coitado…”
Hoje não há censura nem tabu. Foi a vez dele. E hoje, de quem será a vez?
“Ele acredita que hoje só há felizes contemplados, mas esquece-se que é preciso escolher duas estrelinhas para acertar uma vez em 116 531 800 de sortes”, não se cansava de repetir a avó. E é. Hoje não há censura nem tabu. Hoje há só mundos de parte.
Hoje ele vive num mundo onde ninguém faz fila, onde todos gravitam à volta do nada, à procura da estrelinha da excentricidade. Não há autocensura face à imensidão e variedade do tudo que existe, e todos falam por citações, fingindo nem dar por isso. Todos podem ser obscenos, descarados, imorais, indecentes, desavergonhados, e sai sempre a estrelinha do egoísmo. “Tornaram-se todos excêntricos, ele também coitado, e a estrela tornou-se decadente…”
E hoje, de quem será a vez? ...
Sandra Pereira
Intermitências da Loucura
De onde me conheces? Já vi a tua cara, onde a vi? Sorris-me, enquanto caminhas a meu lado. Eu sei que já te vi. Volto a olhar para ti. Adoro pôr a minha mente a viajar no tempo. E quando as faces do teu rosto mudam de cor por acontecimentos minúsculos ou ofensas desmerecidas.
Para que queres tu tentar salvar uma tábua do porão se é todo o navio que se afunda? Eu também já tinha pensado nisso, eu também já dei o primeiro passo para dignificar um naufrágio. Pensei à velocidade dos segundos. 1’ 2’ 3’ Eu vou por aí. 4’ 5’ 6’ Não vou por lado nenhum… 7’ 8’ 9’ Afinal vou por ali!
Porque viras a cara quando me vês colocar o mundo todo num molde em forma de coração? Sei bem o que julgas. Desde criança que vês o frasco de doce que soube a rosa, a violeta, a caramelo, e adoçou sangue e alma, a esvaziar, sem nunca mais voltares a encontrar quem o produziu. Deambulas por pensamentos amargos, “ninguém é obrigado a ser feliz”, não queres saber dos meus delírios, “ninguém é obrigado a amar incondicionalmente”. Condenas-me sem dó nem piedade, sem sentenciar que também tu continuas à procura da loja onde se compra o molde.
Porque que caminhas a passos largos, por que gritas com tanta convicção? Voltas a olhar para mim. Já te conheço, de certeza. O teu olhar já antecipa a tragédia que aí vem. Mas tu segues. Ninguém te fará cair, é certo, mas vais magoar-te. Tem cuidado. Já que vais, não vaciles, nem recues à mínima dor. O navio não vai parar de afundar e tu tomarás sempre a decisão errada para te arrependeres.
Tomar a decisão errada e arrepender-se… tomar a decisão errada e arrepender-se… Também eu penso sempre que irei acertar da próxima. Que a vida é só por si uma lição, como diz o povo... Não te rias. Para dominar uma arte é preciso repetir o mesmo movimento do espírito vezes infinitas. Não desesperes. Temos sempre a vida toda pela frente, até acertarmos na morte.
Foto de Sandra Pereira
Já olhaste para o teu lado? Também vi. Muitos rostos. Todos caminham para o fundo. Não tenhas pena deles. Também eles precisam de caminhar e magoar-se. Também eles precisam de olhar para ti e sentir a tua dor.
Ainda tens voz? Eu já estou cansado. Não queres parar um pouco, só para ver se além vendem o molde em forma de coração? Recusas-te a acreditar em mim. O teu olhar de desdém denuncia a minha loucura. Concordo contigo. Já faz várias horas que caminhas a meu lado, como se não houvesse outro remédio que fizesse efeito.
Eu sei que já te vi. No fundo sabes que somos todos loucos, ou não teríamos nós embarcado todos num navio prestes a ir ao fundo. São cada vez mais os que partem nos botes salva-vidas com rostos de felicidade fingida. Deixá-los ir! Que se lixem todos! Mais vale acreditares em mim.
Voltas a olhar-me de esguelha. O que esperavas que eu fizesse por ti? Não te chega eu caminhar a teu lado? Que mais querias? Bem sei que tens todo o direito de saber onde estarás, com quem estarás e o que o farás amanhã. Juro que pensei nisso, dei passos para tentar dignificar este naufrágio. Pensei à velocidade dos segundos. 1’ 2’ 3’ Eu vou por aí. 4’ 5’ 6’ Afinal vou por ali! 7’ 8’ 9’ Mas que raio de caminho é este afinal?
Não, não me olhes com olhar de desespero. Não vou chorar. Nem de remorso, nem de culpa, nem de tristeza e muito menos de mágoa. Quero que te lixes! Continua a caminhar! Afinal conheces-me ou não?
Não acreditas em mim, porque eu não tenho noção da realidade, dizes tu. Eu sei que no fundo pensas que vou enganar-te como os outros, servir-me da tua ingenuidade, abusar da tua generosidade, violar a tua simplicidade. Tens razão. Mais vale não acreditares em mim, mesmo que saibas que também eu já caminhei a passos largos e gritei com a mesma convicção que a tua, um bocado mais recuado, mas nessa mesma linha de tempo, que para mim já findou. Mudei de linha. Tens razão, nem eu nem a vida temos lição a dar-te. Continua a caminhar. Eu e a minha loucura, afastamo-nos de ti.
Não te vais lembrar mais de mim, e muito menos voltar a sorrir-me antes do naufrágio que não conseguirás impedir. Não importa. Estou certo que tu também sempre me conheceste.
Sandra Pereira
O Extraordinário
Notícia de última hora: “…Após a explosão, ouviu-se como pedras a cair do céu, ou tiros. A terra tremeu (…) No momento em que o céu se abriu, um vento quente, como saído da boca de um canhão, soprou na aldeia…”. Este é o testemunho de uma das 1200 pessoas que ficaram feridas depois de um meteoro de 10 a 40 toneladas se ter desintegrado na atmosfera, despejando meteoritos na região dos Urais, na Rússia”.
Aconteceu alguma coisa num lugar. Sorte ou azar de quem lá estava. Sabiam eles que cada coisa está ligada a um lugar? Estariam lá se o soubessem? A maioria lamenta, diz que aconteceu alguma coisa extraordinária, mas não encaixou num lugar. É essa a preocupação que se transforma em culpa, depois em mágoa, e finalmente em desgosto.
Notícia de última hora : “É para muita gente uma visão de pesadelo a imagem captada por um jovem, que fotografou milhares de aranhas em levitação no ar em Santo Antonio da Platina, no sul do Brasil. Na verdade, estas espécies que costumam caçar insectos em grupo estavam suspensas em teias que armaram entre postes eléctricos e árvores no meio da rua”.
Aconteceu alguma coisa num lugar. Só isso basta para ser extraordinário. E se existem tantas coisas em tantos lugares, onde deve ser procurada a ligação entre ambos? Na busca da correspondência mais matematicamente harmoniosa, ou cientificamente milagrosa, a maioria desiste facilmente e insiste apenas na mesma coisa, ou no mesmo lugar. E depois lamenta, diz que aconteceu alguma coisa extraordinária, mas não encaixou num lugar. Ou diz que não aconteceu nada, mas que está no lugar certo, à espera do extraordinário. É essa a preocupação que se transforma em culpa, depois em mágoa, e finalmente em desgosto.
Notícia de última hora: “Vítima de uma patologia rara que danificou o centro de detecção do perigo no seu cérebro, uma mulher de 46 anos que nunca sentiu medo está a fascinar uma equipa de neurocientistas, que tenta o tudo por tudo para a assustar. Após várias tentativas, conseguiram finalmente fazê-la entrar em pânico ao administrar-lhe, através de uma máscara, um gaz com 35% de dióxido de carbono, uma taxa 900 vezes superior à da atmosfera. O acto de tentar retirar a máscara foi um instinto de sobrevivência que ela nunca tivera, nem mesmo quando foi ameaçada de morte com uma faca no pescoço”.
Aconteceu alguma coisa num lugar. Pode até nem ser nada de relevante. Se for extraordinário, é fácil identificar: ou fascina, ou assusta. Dois extremos, duas opções, aproximem-se ou afastem-se do perigo. Pior é ficar paralisado e deixar-se sufocar por essa coisa, por esse lugar. É essa a preocupação que se transforma em culpa, depois em mágoa, e finalmente em desgosto.
Notícia de última hora: “Bento XVI renuncia continuar a ser Papa e vai optar por uma vida de isolamento do mundo. Antes dele, quase 600 anos antes, só um Papa tinha renunciado ao poder e à autoridade máxima perante milhões de fiéis. O porta-voz do Vaticano não soube explicar ao certo como as pessoas devem passar a chamar o papa aposentado e também não sabe ainda como será a sua nova vestimenta: branca, usada por papas, vermelha, por cardeais, ou simplesmente preta, usada por padres”.
Aconteceu alguma coisa num lugar. O extraordinário é muitas vezes confundido com loucura. A maioria pensa que sim, que a paz só pode ser loucura. A maioria lamenta, diz que aconteceu alguma coisa, realmente extraordinária, mas não encaixou num lugar decente. No fundo, todos sabem, o extraordinário acaba sempre em dois extremos, a ilusão ou a cobardia. Falsamente inocente, a maioria diz que ainda acredita, que haverá um lugar onde, misteriosamente interligados, acontecerá uma coisa extraordinária, ambos em perfeita sintonia com o que se espera deste mundo. É indiferente que esse lugar seja vasto ou longínquo, próximo ou permanente. O problema é sempre o mesmo: nós, a maioria.
Sandra Pereira
Os Burocratas
“Tem que pagar!”. Não adianta qualquer explicação. “Tem que pagar!”
O seu caso não merecia qualquer atenção especial. [Inédito], [Excepcional], [Extraordinário], [Atípico], [Irregular], [Singular], [Particular], [Peculiar] não eram palavras que pudessem ser carimbadas na primeira página do dossier, nem aplicar-se ao seu caso. Ou a qualquer caso.
Simplesmente não existia um caso especial. Não era justo, não tinha culpa e, se o seu caso era diferente dos outros, não podia ser tratado de forma igual. Já alguma vez tinha aparecido um caso destes? Não há lembrança, mas de qualquer modo só há dois carimbos: Aprovado ou Reprovado.
“Tem que pagar!”. Não adiantava qualquer explicação. “Tem que pagar!”. No fim das contas, pediu o livro de reclamações. E reclamou: “O ser humano sempre soube tirar partido das situações mais melindrosas…Façam novos carimbos ou desapareçam!”.
“Tem que reagir!”. Não adianta qualquer explicação. “Tem que reagir!”
Como saber se a situação merece uma atenção especial? Se é [Inédita] ou apenas [Atípica], se é [Excepcional] ou somente [Singular] … O certo é que é inesperada, uma situação diferente, e o seu ser não tem qualquer reacção programada.
À primeira vista, parece especial, mas poderá deixar de sê-lo. Também poderá tornar-se especial, mas também pode nem sequer chegar a sê-lo. Tudo depende dele.
“Tem que reagir!”. Não adiantava qualquer explicação. “Tem que reagir!”. No fim das contas, pensou que pouco importava a sua atitude, pois haverá sempre uma consequência, seja ela qual for. Cada caso é ou deixa de ser um caso especial. E reclamou: “O ser humano sempre soube tirar partido das situações mais delicadas… Reage ou desaparece!”
Fotografia de Sandra Pereira - "Bolsa de Hong Kong, 2008"
“Tem que ser!”. Não adianta qualquer explicação. “Tem que ser!”
O seu paladar não merecia qualquer atenção especial. Pedia sempre a carne sem molho picante, mas o “pedido especial” aparecia sempre com outro molho, agridoce ou (pior) biológico. Chateava-se. Já tinha dito que não queria nada, que preferia tudo ao natural. Bem sabia que fazia parte do menu, mas não tinha culpa se o seu gosto era diferente do dos outros e não pudesse ser tratado de forma igual. Reclamava. Não era justo. Logo era acusado de falta de tacto.
Gostava do que era genuíno, mas toda a gente parecia entender que a vida sem molhos não era vida. Tudo tinha que ser colorido, sempre saboroso, tudo tinha que ter máscara, disfarce, beleza, sorriso, ser divertido.
“Tem que ser!”. Não adiantava qualquer explicação. “Tem que ser!”. Não precisava de picante nem de agridoce no prato, já o tinha dito da outra vez. Também não precisava que o iludissem com “pratos personalizados”, só porque tinha mais um ingrediente, diferente, mas com o molho e toda a produção convencional, bem longe do natural, afinal o seu único pedido. No fim das contas, deixou de resistir, já que “tem que ser”, mas leu de novo a reclamação. “O ser humano sempre soube tirar partido das situações mais sensíveis… Adapta-se ou desaparece!”
“O balcão de atendimento encontra-se encerrado. Não aceitámos reclamações”.
O seu caso não merecia qualquer atenção especial. Já o sabia, mas teve uma reacção [Espontânea], [Louca], [Irremediável], [Suicida]. Antes disso, pensou numa alternativa a este formato, em que cada caso especial fosse entendido e atendido. Desrespeitou os formulários, os avisos, desobedeceu aos números, às taxas, trocou os horários, as receitas, recusou a [Abertura Fácil], o [Tudo em Um], o [Leve 3, pague 2]. À falta de carimbos, não faltavam etiquetas.
Tentou que nada fosse pago antes de se fazerem as verdadeiras contas e tudo fosse feito antes da regra, da lógica e da razão. Não, não queria picante nem agridoce no prato, já o tinha dito da outra vez. Não, nunca ninguém tratara do seu caso. No fim das contas, teve a reacção [Espontânea], [Louca], [Irremediável], [Suicida]. Antes disso, deixou uma derradeira reclamação no balcão de atendimento: “carimbem os burocratas ou desapareçam!”
Sandra Pereira
A palavra certa
Palavra certa só há uma. Ela acredita. Uma só palavra pode mudar todo o sentido das coisas.
Em cada momento, só existe uma palavra certa. Toda a sua vida tem sido procurá-la, dar um passo em frente para ver o seu efeito, dar outro atrás para substitui-la. No fundo, exprimir nada mais que a mais pura das verdades.
Ela procura, experimenta, quer muito exprimir a palavra certa para ser o mais justa possível com o que é, mas nunca lhe sai a palavra certa para o momento. Às vezes, sai uma encapotada. A palavra subentendida que, no fundo, quer ser entendida, a palavra de duplo sentido que, no fundo, só tem um sentido. Ela bem sabe, essa é cobarde, é uma semiverdade apenas alcançada pelos mais atentos e ousados, mas mesmo que não seja a palavra certa, pelo menos só chega a quem interessa.
Ela emociona-se com as palavras certas que lê nos livros, com as palavras certas que ouve nos filmes, com as palavras certas que sonha. Daria tudo para sentir o mesmo. Seriam as pessoas e as suas vidas mais interessantes se fossem perfeitas?
Ela muda de lugar. Em nenhum momento acha a palavra certa. Ela muda de pessoas. E no momento em que mais se aproxima, menos acha a palavra certa.
Rende-se. Como toda a gente, ela não emociona ninguém com palavras. Como toda a gente, ela vive através da palavra que ilude, que é a certa para o momento, mas não a verdadeira.
Olhar certeiro só há um. Ele acredita. Um só olhar pode mudar todo o sentido das coisas.
Em cada momento, só existe um olhar certo. Basta substituir “palavra certa” por “olhar certeiro” para, no fundo, exprimir nada mais que a mais pura das verdades.
Fotografia de Sandra Pereira
Ele procura, experimenta, quer muito lançar o olhar certeiro para ser o mais justo possível com o que é, mas nunca lhe sai o olhar certeiro para o momento. Também ele vive com o olhar que ilude, mas não se rende. A vida é só isso mesmo: tentar, errar e voltar a tentar. Seriam as pessoas e as suas vidas mais interessantes se acertassem sempre?
Um dia, ele achou que, quase sem dar por isso, acabara de lançar um olhar certeiro. Não se entusiasmou, já não era a primeira vez. Ela desviou o olhar.
Ele aproximou-se. A uma certa distância…Ouviu a boca dela murmurar uma palavra, mas continuava a desviar o olhar.
Ele aproximou-se mais. Ela barrou-lhe o caminho com o olhar. Ele deu um passo atrás, pronto para substituir o olhar certeiro. Ela disse: “Fica”.
Fora o olhar certeiro para o momento. Fora a palavra certa para o momento.
Ele tentou lançar mais olhares certeiros. Ela tentou exprimir mais palavras certas. Para cada momento. Para todos os momentos.
Cedo compreenderam que afinal não houvera olhar certeiro, nem palavra certa. De novo, tudo não passara de um momento que ilude. Seriam as pessoas e as suas vidas mais interessantes se fossem sempre verdade?
Sandra Pereira
Exaustão
Na vida só duas coisas lhe metem realmente medo. Entrar num círculo que sempre gire ou numa recta que nunca acabe. Até hoje não teve de enfrentar nada parecido, mas não anda em carrosséis (ou grita de angústia), nem conduz em túneis (ou grita de angústia). Sabe que dar parte de fraco não ajuda a sobreviver, mas vacila. Até à exaustão.
Agora. Adia. Aqui. Adia. Amanhã? Adia. Até à exaustão.
Nunca quis usar vermelho. Essa cor quente, ofensiva, que atrai olhar, preconceito e julgamento. Um dia, a máquina de lavar roupa fartou-se do cinza, do neutro, do sorriso acanhado, do olhar cauteloso, tingiu maliciosamente o seu dia e coloriu o seu ser e estar. O vermelho provara ter iniciativa própria. Sabe que ter um problema de atitude (não de aptitude) não ajuda a sobreviver, mas hesita. Até à exaustão.
Quer. Adia. Não quer. Adia. De certeza? Adia. Até à exaustão.
Às vezes, sonha com o carrossel. Gira, porque não quer magoar o outro, mas nunca pára, porque não se quer magoar a si próprio. Também já sonhou com o túnel. Segue em direcção à luz, porque tenta corresponder às expectativas de quem aguarda no final, mas nunca chega, porque quem aguarda, entre a escuridão, nunca vê quem espera. Sabe que, faça o que fizer, será sempre totalmente imperfeito, e prefere apenas deixar o carrossel girar, apenas deixar o túnel continuar. Até à exaustão.
Ir. Adia. Ficar. Adia. Já? Adia. Até à exaustão.
Foto de Sandra Pereira - Dalian, norte da China, Setembro 2008
Só não começou a usar vermelho porque tinge demasiado a realidade, e isso desilude, envergonha, chega mesmo a entristecer até às lágrimas. Mas muitas vezes pensa até onde chegará essa cor que sempre se impõe, ferindo o olhar e o preconceito, em qualquer lugar, às vezes totalmente despropositada (e porque não?), abalando o curso das coisas. Sabe que tem um irremediável problema de atitude, mais difícil de resolver do que a aptitude, mas apenas censura. Até à exaustão.
Construir. Adia. Demolir. Adia. Espera só mais um pouco? Adia. Até à exaustão.
Já viu muitos parar um carrossel. Já viu muitos chegar ao fim de um túnel. Não se recorda de conseguir tal proeza, mas uma vez um carrossel começou a girar infernalmente enquanto andava nele. Foi aí que gritou de angústia pela primeira vez. Não sabia quem ou que força universal o forçava a girar, mas não o tentou parar porque poderia não conseguir ou arrepender-se das consequências. O carrossel continuou a girar infernalmente e alguém teria de pôr fim a este círculo. Enquanto gritava de angústia, pensou no que aconteceria se ninguém o parasse. E o carrossel continuou a girar, a girar, até que a força universal que o forçava a girar o decidisse parar, ou deixar continuar a girar, girar. Até à exaustão.
Na vida só duas coisas lhe metem realmente medo. Primeiro, não se aventura em carrosséis (mas vive num planeta que gira). Segundo, não se deixa desafiar por túneis (mas segue em direcção a um universo infinito). Vacila, hesita, censura. Sabe que, faça o que fizer, sobrevive sempre até à morte, mas face a carrosséis que sempre giram e túneis que nunca acabam, apenas grita de angústia. Até à exaustão.
Sandra Pereira
Eu vi este Povo a Lutar
O que ficou na última fotografia de 2011?
Acreditava-mos nós que bastava acordar dos “palavreados, receios e tempos velozes que entopem e acomodam a mente”. Que “lá fora”, havia “ideias, movimento, voluntários, reaccionários, solidários”. Em 2012, eles acordaram e saíram à rua. Os desempregados, os frustrados, os deprimidos, os inconformados, os idealistas. Metade deles acordou e gritou aos “gatunos” de sonhos e vidas para descerem à rua. A outra metade também acordou, mas calou-se para não perder o pouco que tem num país que já nem “tanga” tem.
Acreditava-mos nós que, regressados “os tempos de demagogias perigosas e de vendedores de ilusões”, haveria quem se unisse em torno de um bom senso colectivo “para recusar discursos paternalistas, moralismos hipócritas, sentidos patrióticos ridículos e nacionalismos baratos.” Em 2012, além da “tanga”, caiu a vergonha num país infantil. Quando as “crianças” se portam mal e insistem em comer bife todos os dias em vez da sopa, tiram-se apoios e aumentam-se impostos. Depois, mandam-se para a cama e contam-se-lhes as mesmas histórias de encantar (só muda o tom de voz) antes de adormecer. E mesmo quando as “crianças” até têm certa razão, quem manda são os pais e estes nunca são castigados. Impotentes face ao autoritarismo paterno, as “crianças” portuguesas nem tentam fazer “birra” ou bater o pé, simplesmente fogem de casa para outro lar que os queira tratar com carinho.
O que ficará na última fotografia de 2012?
Cuidado. Para 2013, em vez da bem-intencionada lista de “boas resoluções”, recomenda-se um bom manual de sobrevivência para tempos hostis. Três conselhos.
Primeiro: Não entrar em pânico. O mundo não vai acabar. O fim do mundo é todos os dias, num ser amado ou num ecrã perto de si. Se não for mesmo o seu. O futuro não está escrito em lado nenhum, porque o ser humano nunca teve capacidade de o prever.
Segundo: Não se deixar enganar. A gente está hoje seriamente ameaçada pela poluição mental. Num mundo global, padronizado e cada vez mais informado com a internet, é difícil ter uma percepção acertada da realidade. O instinto volta a ser decisivo. Na política, nos julgamentos, como em tudo o resto, há que ter cuidado com as (l)imitações.
Fotografia de Sandra Pereira
Terceiro: Ajudar e deixar-se ajudar. Dar tudo e não esperar nada na volta. Aceitar tudo e agradecer na volta. Mas de coração. Lembrar-se sempre que ninguém é bom demais, nem mau demais.
Na última fotografia de 2012, já não cabem “meninos”. As “histórias” já não adormecem tão bem as “crianças” como antigamente. Hoje são muitas as que sofrem de insónias ou acordam a meio da noite atormentadas pelo pesadelo do dia-a-dia. Todas sabem que é preciso partir. Para o desemprego, para o isolamento, para a deportação, para a exportação, para a solidariedade, para a luta. Rumo a 2013, o ano das partidas.
As “crianças” cresceram, mas continuam a seguir as indicações e – até os “Passos” – dos pais. As suas mãos já não sangram tanto como antigamente e as tempestades financeiras aterrorizam-nas mais que as agrícolas, mas ainda não se habituaram à secura e brevidade com que tudo é dito e feito nos tempos que correm. É verdade que hoje a fé não chega e só a esperança vai segurando as gentes. É verdade que hoje tudo é dito e feito com método, técnica, regra e esquadro, mas cada acto humano é sempre uma mistura de ciência e arte. É usar as duas sempre combinadas e resolver o que houver para resolver.
Cuidado com a última fotografia de 2012.
Há que escolher bem o ângulo. O de respeitar a direcção de cada um ou o de forçar outra direcção que conduza a algo melhor. Isto sim é arte.
Há que regular bem a luminosidade. Clarear indiferenças ou sombrear hipocrisias. Isto sim é ciência.
Há sobretudo que abrir a focagem e deixar-se “capturar”. Muitas vezes, precisamos de algo transcendental, inexplicável, além de toda e qualquer razão.
Na última fotografia de 2012, fica mais um desabafo antes de partir. Deixe-se o 25 de Abril onde ele está, sempre esteve e deve continuar a estar. Agradeço com admiração toda a intervenção que ele produziu, mas não é por saudosismo que a lembro, mas pela mensagem que transmite, como se fosse o ADN de um povo. Se o mundo já viu tantas vezes o povo a lutar, e se até em Portugal José Mário Branco já viu este povo a lutar, é porque ele luta mesmo!
Na última fotografia de 2012, o melhor do mundo são as crianças.
Sandra Pereira
Um parágrafo
“O desafio é simples. Todos os dias da semana, escreva um parágrafo. Escreva o que lhe apetecer. Sem medo! Prometo que não o vou julgar.”
Segunda-feira. É incrível, é mesmo extraordinário, o poder ofensivo dos meios de comunicação social para perturbar o quotidiano das pessoas.
Hoje, enquanto bebo um café, um ecrã – esse omnipresente, qual Deus – atira-me uma notícia sobre a inauguração de um laboratório na Faculdade de Desporto da Universidade do Porto onde se poderá estudar qualquer movimento do corpo. O café continuaria a saber bem não fosse… uma declaração do pró-reitor: “Sem a multiplicidade de abordagens, ficaríamos reféns do unificador”. Feito. Fico com cara de fotocópia o resto do dia e, pior do que isso, com a certeza de que é maquinal.
Terça-feira. É incrível, é mesmo extraordinário, o poder estudado da literatura para perturbar o quotidiano das pessoas.
Hoje, enquanto fumo o último cigarro antes de largar a escravidão laboral, o meu olhar choca com o muro de um edifício em frente. O cigarro continuaria a saber bem não fosse… a frase lá escrita. “O verdadeiro sentido das coisas é não terem sentido nenhum”. Feito. Lá vai esta “fotocópia” a esvoaçar pelos ares até cair ao chão e ninguém reparar nela para a apanhar. E depois, não resisto a googlar a maldita frase, precisamente para lhe descobrir o sentido. Feito. O português Saramago ou como se constrói a liberdade de um descrente. O escritor José Saramago ou como se apanha a felicidade fingida de um cobarde: o Homem.
Quarta-feira. É incrível, é mesmo extraordinário, o poder reconfortante da religião para perturbar o quotidiano das pessoas.
Hoje, enquanto lanço um suspiro a olhar para o céu sem saber porquê, juro a pés juntos que não acredito no destino, mas não consigo deixar de culpar a sorte no que faz e acontece aos homens. Azares da vida.
Quinta-feira. É incrível, é mesmo extraordinário, o poder infligido da política para perturbar o quotidiano das pessoas.
Enquanto tento, em vão, a experiência de evitar um ecrã – esse omnipresente, qual Deus – no trabalho, na rua, em casa, no restaurante, na associação de futebol, acabo, mais uma vez e sempre, a render-me cordialmente, de olhar e pensamento interessado. Feito. Fico com gesto de marioneta o resto do dia e, pior do que isso, com a certeza de que é maquinal.
Sexta-feira. Nós, Deus, Pátria… Falta a família. É incrível, é mesmo extraordinário, esse poder absorvente.
Sempre que penso neles começo a suar. Mesmo a temperaturas negativas. Hoje, testei-me. Pus a minha mão em água gelada até conseguir aguentar. No início custou, mas quando comecei a pensar neles, esqueci-me da minha mão. Doía-me mais a alma que o gelo, mas senti-me bem em, por instantes, voltar a ter a companhia dos que um dia me deram sentido.
Sábado. Ser perfeitamente capaz e falhar. Saber tudo de cor e errar. Querer muito e não agir. Em momentos decisivos. Únicos. Quem passa ao lado do desafio, volta ao “unificador”. O seu caminho nunca será aquele, será outro. Talvez menos completo, talvez com mais sentido. Desconhecer e pensar: o fracasso pode levar à loucura.
Domingo. Odeio-o. A sua única missão é dizer aos outros como se devem comportar. Falar alivia, mas não me resolve. Escrever alivia, mas não me resolve. Apresenta as mesmas “abordagens” para os mesmos problemas e assim constrói um “unificador de sentidos” adaptado a todos. Pois então faça o que deve ser feito. Dê-me uma potente droga antidepressiva e finja que estou no bom caminho. Caso o meu julgamento esteja errado, reprograme o meu cérebro ou mude-me de planeta.
“Está de parabéns porque cumpriu a tarefa que lhe mandei. Como lhe disse, não o vou julgar, mas… não pode preocupar-se tanto com o que lhe acontece todos os dias. Não leve a vida tão a sério, deixe-se andar, tem que ser não é? Vou-lhe dar uns antidepressivos e vai ver que, ao abrandar o ritmo, começa a ver as coisas de outro modo…”
Sandra Pereira
Memória de peixe-elefante
Não consegue fixar nomes, não recorda rostos, não decora números, não se lembra dos detalhes de acontecimentos marcantes, nem de gestos importantes que deviam ser feitos. Tem memória de curto prazo, diriam os cientistas. É como os peixes, vive e esquece.
Admira quem consegue fixar tudo: nomes difíceis de pronunciar, datas históricas, capitais de países ignorados no mundo e números, muitos números, sejam centavos ou biliões. Quem nunca esquece uma vivência passada e recorda a cor do vestido usado pela prima afastada, a conversa de circunstância, o bolo de limão comido durante a tarde e os acontecimentos que abalavam o mundo naquele preciso momento. Tem memória de longo prazo, diriam os cientistas. Uma memória de elefante que dá para realizar um filme, escrever um livro ou ser alguém (para um ou muitos) na vida.
Há quem ache que mais vale memória de elefante que de peixe. Ela só sabe que vive de intermitências, sem confirmar o que aconteceu ao certo e se aconteceu mesmo. Não consegue refazer por si o caminho por onde já passou muitas vezes acompanhada. Não tem sentido de orientação, diriam os cientistas. É como os peixes, vive e perde-se.
Mas antes não fixar nomes do que trocá-los. Assim sempre mantém acesa a esperança no outro de que, um dia, ele será importante para ela. Há quem julgue a sua memória de peixe como um triste alheamento da vida. Pobre dela. Também não se lembra de abraçar quem ama. Nem de falar do que sente. Todos sabem. Toda a gente sabe que vai morrer. Não é emotiva, diriam os cientistas. É como as aves, vive e parte. (O ninho fica).
Não consegue ter memória de elefante. Muita gente, advogando tê-la, inventa factos que nunca aconteceram, palavras que nunca foram ditas, emoções que nunca foram sentidas para tornar uma recordação mais apetecível aos olhos dos outros. Muita gente, tendo realmente memória de elefante, vive amargurada em recordar como era bonito o vestido usado pela prima afastada, como era empolgante a conversa de circunstância sobre o sol bonito que brilhava lá fora, como era saborosa a fatia do bolo de limão caseiro comido nessa tarde, como foi transformador e único aquele dia de 25 de Abril de 1974, pois sabe que esse momento nunca mais voltará. E que nada disto o futuro conseguirá alguma vez igualar. Se tudo só se vive uma vez, apenas uma única vez, então o passado não serve para nada. Ela prefere ser como os peixes, viver e esquecer.
Admira os que vivem com memória de elefante. Fixar detalhes que desordenam os “memória de peixe”, repor a verdade em frente às tais recordações fabuladas, muitas vezes difamadoras e cruéis, que saem da boca de outros, revolucionar e transformar a visão dos que não têm memória. Se tudo só se vive uma vez, apenas uma única vez, então o passado serve para deixar a porta aberta aos que vêm atrás, ao possível, à esperança. Ela bem podia ser como os elefantes, viver e lutar.
Hoje não fixa absolutamente nada. Nem peixe, nem elefante. Não se lembra de quem foi. Se a sua vida foi feliz, preenchida, útil, ou antes aborrecida e polvilhada de sofrimentos variados. Não se lembra das vezes em que foi capaz, em que venceu, em que sentiu orgulho, em que sorriu e disse “valeu a pena”. Não se recorda do que a fez sangrar para avisar outros “desprevenidos”. Não se lembra sequer de quem amou. De quem a sossegou nos momentos de tormenta. De quem lhe deu força para continuar a caminhar. Hoje esbofeteia os que a acompanharam a vida toda com os detalhes íntimos, sórdidos e “socialmente incorrectos” da sua vida. Hoje ignora o que, no passado, diria sem hesitar ser a sua razão de existir. Hoje coze as batatas e chama um rosto, outrora familiar, para almoçar às nove da manhã. Hoje senta-se num banco de jardim e não sabe de onde veio nem para onde vai. É como os homens, vive e morre.
Sandra Pereira
A faca que cortava água
Através de um corte preciso, era capaz de dividir uma gota de água em duas partes iguais, sem qualquer mistura de substâncias ou que cada parte se dissolvesse em várias outras gotículas. Ao princípio, pensou que era uma habilidade sua que até à data desconhecia. Mais uma faceta de si próprio.
Mais tarde, chegou à conclusão. Tudo é divisível neste mundo. E com essa faca, sem qualquer dom especial, separava e afastava duas partes da mesma substância. Ao princípio, pensou que dividia, judicialmente, de um lado o bom, do outro o mau. Assim era o mundo.
Mais tarde, chegou à conclusão. Quanto mais olhava para as gotas, mais lhe pareciam iguais. Contudo, uma movia-se ligeiramente mais do que a outra, ameaçando dissolver-se em várias outras gotículas e criar semelhantes que iriam semear agitação e mais divisões naquela parte do mundo. A outra ficava quieta, serena e brilhante, obediente. Essa era a gota “boa”, pensou.
Tinha que afastá-las mais. A gota “má” não podia contaminar a “boa”, que continuava, naturalmente, bela e brilhante. A “boa” tinha que permanecer na sua parte do mundo e afastar as más influências, que podiam revelar-se destrutivas. Mais tarde, chegou à conclusão. Tudo tem um sentido neste mundo. Embora tivessem nascido da mesma fonte, por alguma razão não reagiam do mesmo modo ao seu corte preciso, que as dividira, judicialmente, em duas partes iguais.
Mais tarde, chegou a nova conclusão. E se não tivessem mostrado todas as facetas de si próprias? E se ele, ao separá-las, não lhes tivesse dado tempo suficiente ou oportunidade de mostrar a sua verdadeira essência? Desfez-se da faca que cortava água e ambas voltaram a jorrar da mesma fonte.
Rápido chegou o desconsolo quando percebeu que deixara de conseguir distingui-las na fonte comum que dissolve individualismos e oculta detalhes. Como iria saber se as gotas de água que queria consumir todos os dias de consciência tranquila eram totalmente “boas” ou continham substâncias “más”? Voltou a procurar a faca que cortava água.
Estava de novo perante uma gota de água dividida em duas partes iguais, sem qualquer mistura de substâncias ou dissolvida em várias outras gotículas. E de novo uma movia-se mais do que outra, ameaçando dissolver-se em várias outras gotículas e criar semelhantes que iriam semear tormenta e desassossego, enquanto outra ficava quieta, serena e brilhante, obediente.
Fotografia de Sandra Pereira
Ao princípio, deu-lhes liberdade e tempo para se expandirem e mostrar o que estavam predestinadas a fazer na natureza. Afinal podia tratar-se apenas de uma questão de (bio)diversidade e cada uma ser “boa” à sua maneira. Contudo, as suspeitas confirmavam-se: a ameaça de criação de gotículas tornava-se cada vez mais iminente na “má”. Já a “boa”, estava cada vez mais brilhante e vistosa. Quanto a ele, precisava de uma prova definitiva, científica e irrefutável. E se dividisse cada uma em mais duas partes?
A faca voltou a cortar água e, desta vez, estavam à sua frente quatro gotas. A ameaça do “batalhão” de agitadas e conflituosas gotículas mudou de “mundo”. A “boa” tinha uma gémea “má” e a “má” tornara-se menos temível com uma gota naturalmente bela e brilhante a seu lado. Estavam agora em pé de igualdade.
Ao princípio, pensou que se tratava de um defeito da faca que cortava água. Tudo é divisível neste mundo, recordou. E ao lado bom, correspondia certamente o mau, como o preto e o branco, a noite e o dia, o inverno e o verão, o céu e o inferno, o amor e o ódio. Assim era o mundo. Mas cada parte não devia estar sempre do mesmo lado? Para desfazer dúvidas, a faca voltou a cortar água.
De novo, as gotas “boas” e “más” inverteram os papéis. A primeira gota “boa” tinha agora à sua volta mais gotículas “más” que a primeira gota “má”, agora praticamente inofensiva com tantas gotículas brilhantes em seu redor. O dilema piorara. Nem tudo o que parece é, pensou. Também assim é o mundo.
Mais tarde, chegou à conclusão. Ao ser dividida, a gota deixa de ser o que era. Embora idêntica à “gota gémea”, é outra substância. Só que a “gémea”, ao perder dimensão, perde, naturalmente, brilho, já é não tão bela e vistosa. O mesmo pensa a “gémea” da outra. Com o mesmo olhar crítico, desiludido. E reprovador. A “gémea” é a “má” que perdeu brilho e força num mundo em estado bruto, ameaçando mesmo, de vez em quando, desintegrar-se e lançar várias gotículas “más” para, com o intuito de sobreviver, poluir a sua própria natureza. Mas a conclusão é só uma: se ambas brotaram da mesma fonte, porque haviam de ser diferentes?
Sandra Pereira
Quanto ao resto
É hoje… Suspira. Mergulha. Gosta tanto das pessoas que não é capaz de amar verdadeiramente nenhuma.
Ninguém é matéria única e qualquer ser que o serene, basta para preencher a sua vida. Saltita de palavra em história. De sorriso em riso. De melancolia em drama. Ajuda a atenuar o tédio. Às pessoas, dá-lhes sempre a liberdade de partir ou ficar. Não exige exclusividade, nem amor para sempre, nem mesmo – e isso sim é verdadeiramente incrível – fidelidade. Tal como os infindáveis recantos do planeta, ou as ilimitadas estrelas do universo, são incontáveis as pessoas a conhecer e, dentro de cada uma, tantas facetas e dons ocultos que nem a imortalidade chegaria para alcançar – e sobretudo entender – todas elas… Assim, viaja todos os dias emocionalmente, por diferentes estados de alma, e familiariza-se com tudo o que o rodeia. No final, nada permanece. Quanto a ele, perde credibilidade, mas ganha afectos. Quanto ao resto, preenche a vida com pessoas, mas nenhuma faz verdadeiramente parte dela.
É hoje... Suspira. Mergulha. É um inconstante, um eterno insatisfeito, um irresponsável, e muitos outros sinónimos que rotulem a “mania da mudança”.
A toda a hora muda. De planos, de emprego, de casa, de móveis, de telemóvel, de namorada, de amigos, de lugares do costume, de decisões firmes e irreversíveis, de (f)utilidades. Compromete-se e não cumpre, já ninguém toma como certas as suas palavras e gestos, mas tem sempre uma (des)ventura para contar e alegrar rotinas aborrecidas. No final, entra na vida de alguém e deixa marcas. Quanto a ele, perde credibilidade, mas ganha afectos. Quanto ao resto, por mais que mude de lugares, de pessoas, de relações, volta sempre ao sítio medonho de que onde nunca saiu: ele próprio.
É hoje... Suspira. Mergulha. Falta-lhe visão de futuro.
Não prevê, não estuda, não planifica. Vai andando e apanha o que lhe aparece pelo caminho. Uns acusam-lhe a visão estreita: não progride, não incomoda, logo não interessa. Outros apontam-lhe a visão larga: não procura o que nunca irá achar, não perde nem ganha, logo não ameaça. De uns, leva indiferença. De outros, leva ruindade. No final, anda distraído da crueldade do mundo e só vive o que lhe apetece. Quanto a ele, perde credibilidade, mas ganha afectos. Quanto ao resto, às vezes acorda a meio da noite sem motivo, remove-se de angústia, e volta a adormecer.
Fotografia de Sandra Pereira
É hoje... Suspira. Mergulha. É ingénuo.
Caiu ingenuamente. Vergonhosamente. Ainda hoje, mal aceita que aconteceu mesmo, que acredita que somos semelhantes, que acredita no que ninguém acredita. Jurou nunca mais, que iria controlar-se, que já bastava viver com a culpa. Um ano depois, voltou a acontecer. Quase exactamente o mesmo. Quase ingenuamente. Vergonhosamente. Descontroladamente. Como se a memória funcionasse como um farol intermitente. Não é capaz de perceber quando basta a tempo de evacuar antes da catástrofe, mas todos o procuram porque é porto seguro e, em último caso, afundará na vez deles. No final, entrega tudo ao que acredita e confia que no fim de cada naufrágio restará sempre compaixão. Quanto a ele, perde credibilidade, mas ganha afectos. Quanto ao resto, repete maquinalmente gestos que o magoam profundamente, como se não soubesse como tudo vai acabar.
É hoje... Suspira. Mergulha. Incomoda-lhe que a liberdade incomode.
Procurou-a na família, nas crianças, na sociedade, na religião, na política, nos dicionários, em si próprio. Uma palavra ouvida, pronunciada e apregoada diariamente, mas – hoje tem a certeza – não passa de um mito. O homem não nasce livre, não vive livre e não morre livre. E se alguém teima em acreditar na liberdade e exibi-la, logo percebe que incomoda. Incomoda os que o adoram (e querem dominá-lo). Incomoda os que o detestam (e querem travá-lo). Incomoda ele próprio quando está só (e quer adorar um mundo). Incomoda ele próprio quando está acompanhado (e quer repudiar um mundo). Desiste dela. Quanto a ele, ganha credibilidade, mas perde afectos. Quanto ao resto, a vida não dá tréguas e não gosta de ser contrariada.
Sandra Pereira
Aconteceu na mesma cidade
Aconteceu na mesma cidade. Cruzaram-se, olharam-se, porque não encontrarem-se? Falta o pretexto, haverá mais ocasiões. Ainda na mesma cidade, voltam a cruzar-se, olham-se, desta vez sorriem, porque não falarem? Ainda é cedo para iniciativas desajeitadas, haveria mal-entendidos, haverá mais ocasiões. Sempre na mesma cidade, sonham-se, mas não se procuram, não voltam a cruzar-se, o tempo voa. Um dia, como outro qualquer, o acaso volta a juntar os olhares, estranham-se, o tempo e o espaço apagaram o brilho dos olhos. Não haverá mais ocasiões.
Aconteceu na mesma cidade. Cruzaram-se, olharam-se, porque não encontrarem-se? Falam durante horas. Completam os pensamentos um do outro. Riem dos mesmos absurdos. Coincidem na visão das coisas. A ocasião passa, não voltam a cruzar-se, o tempo voa. Não haverá mais ocasiões.
Aconteceu na mesma cidade. Cruzaram-se, olharam-se, porque não encontrarem-se? O mais desesperado regressa ao mesmo lugar, dia após dia, à procura da ocasião. Já sobrevivera tantos anos a existir submisso ao destino (pena essa verdade só bater na cara em idade avançada), por isso, mesmo sem final feliz, nada poderia ser mais triste do que a história actual. Enquanto o tempo voa, procura o outro, não seria por falta de ocasião. Quando finalmente se encontram, não diz o que deve, não faz o que precisa, não dá a entender o que tem para entregar, não dispara o olhar com convicção. A culpa é da falta de ocasião que há na própria ocasião. Não haverá mais ocasiões.
Aconteceu na mesma cidade. Cruzaram-se, olharam-se, porque não encontrarem-se? Falam durante horas. Completam os pensamentos um do outro. Riem dos mesmos absurdos. Coincidem na visão das coisas. Voltam a procurar-se, fazendo coincidir horas, lugares, pessoas (e até objectos intencionalmente esquecidos). Quando finalmente cruzam lábios e mãos, falta presença. Um tem a vida a apontar-lhe outro destino, acontecimento natural no homem que insiste – em vão – em negar o sangue nómada que lhe corre nas veias. O outro tem uma escolha a fazer. É esta a ocasião, estranham-se, o tempo e o espaço apagaram a esperança nos corações. Não haverá mais ocasiões.
Fotografia de Sandra Pereira
Aconteceu na mesma cidade. Cruzaram-se, olharam-se, porque não encontrarem-se? Voltam a trocar olhares, partilham sorrisos, finalmente desvendam como cada um ocupa os dias como um grande mistério só nesse instante revelado. Dizem o que devem, fazem o que é preciso, dão a entender o que têm a entregar, disparam o olhar com convicção. Nessa ocasião, está tudo disposto a mudar de universo. Aparência montada, falta desmontar a conveniência – a que “fica bem”, como a que “fica mal”. A ocasião passa, o tempo voa. A ocasião volta, o tempo voa. E pelo meio, nem perdidos, nem achados. Decididamente, nesta cidade, só as malas se atrevem a viajar. Não haverá mais ocasiões.
Aconteceu na mesma cidade. Cruzaram-se, olharam-se, porque não encontrarem-se? Se voltam a cruzar-se ou não, o tempo o dirá. Se falam durante horas ou não, o acaso o ditará. Tanto pode ser essa pessoa, como a que está ao lado. Não tem que se preocupar com ocasiões. A própria vida encarrega-se disso. Enquanto o tempo voa, a ocasião traz e leva pessoas pelo caminho. E, sempre que dá em si, está só. Não haverá mais ocasiões.
Aconteceu na mesma cidade. Cruzaram-se, olharam-se, porque não encontrarem-se? A ocasião dá-lhe para reagir como nos momentos repentinos, inexplicáveis, irracionais, quase demoníacos, em que cria algo, em que sai tudo: versos, canções, filosofias, traços, sentimentos, ou gritos. Como nesses momentos, leva o entusiasmo até ao êxtase, até chegar a um fim. Aproveita a ocasião, mas – mais uma vez – não a acha. Esta não era para ele. De novo a desilusão. Não haverá mais ocasiões.
Tudo acontece na mesma cidade enquanto o tempo voa. Sempre na mesma cidade, a ocasião vem e não volta, a autocensura (tal como as pessoas) chega e parte com o sabor amargo das ocasiões perdidas. Ainda na mesma cidade, tudo corre descontrolado, desregulado, desconsolado. Haverá mais ocasiões.
Sandra Pereira


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