Como o tempo não tem andado de feição para grandes reportagens nas nossas aldeias, vamo-nos valendo do nosso arquivo para trazer aqui imagens do nosso mundo rural e, felizmente que há aldeias como a de Soutelinho da Raia onde há sempre uma imagem para trazer aqui e, é com gosto que o faço, pois Soutelinho é uma das poucas aldeias que ainda mantém a sua virgindade de aldeia tradicional transmontana, onde se tem reconstruído com gosto e onde felizmente há poucos atentados à sua dignidade. Claro que também sofre do envelhecimento e de despovoamento, aqui não é exceção, mas, embora com muito casario abandonado e em mau estado, é preferível vê-lo assim, pois sempre há a esperança de que melhores dias virão para uma boa recuperação, do que vê-lo transformado numa modernice pirosa que em nada dignificam as nossas aldeias. Claro que as modernices também devem ter lugar nas aldeias, mas em lugar próprio, fora do seu núcleo.
Soutelinho da Raia
Como sabem aos sábados e domingos este blog vai até às aldeias do nosso concelho de Chaves. Já por aqui passaram todas e a grande maioria já passou por aqui mais que uma vez, além das freguesias que também, cada uma delas, teve aqui o seu post. Mas desde o início deste blog que me apeteceu ir um bocadinho mais além das nossas aldeias, pelo menos até às aldeias vizinhas daquelas que estão no limite do nosso concelho e com as quais, pela vizinhança entre elas, sempre houve relacionamentos e trocas comerciais e laborais, de amizades e amores, embora às vezes, nalguns casos, o contrário também seja verdadeiro, principalmente em tempos não muito distantes onde as rivalidades também faziam parte do quotidiano de aldeias vizinhas.
Videferre
Penso que por esse nosso Portugal fora se vai repetindo um pouco aquilo que se passa por cá, mas nós, além da vizinhança dos concelhos de Valpaços, Vila Pouca de Aguiar, Boticas e Montalegre temos ainda os concelhos galegos da raia como vizinhos e com esses, embora também tivesse havido sempre relacionamentos entre as aldeias vizinhas de ambos os lados da fronteira, nem sempre foram facilitados como entre aldeias portuguesas ou como hoje em dia. Muitas das vezes, ou quase sempre, só na clandestinidade é que esses relacionamentos eram possíveis, principalmente no tempo em que de ambos os lados da fronteira a democracia ainda era uma miragem, mas também por essa razão esses relacionamentos se tornavam mais interessantes e intensos e não havia um Salazar ou um Franco que travassem amizades, amores, mas sobretudo o contrabando entre as aldeias de ambos os lados da raia.
Soutelinho da Raia
Estou em crer que todas as aldeias da raia têm saudades desses tempos. Tempos difíceis, é certo, mas com aldeias cheias de vida, com muita gente e sobretudo com um modo de vida que ia fazendo a sustentabilidade desse povo que vivia em cima da raia. O contrabando, direta ou indiretamente era esse garante, não só através dos profissionais que de ambos os lados (contrabandistas/guarda-fiscal) faziam dele a sua vida, mas de todos que à retaguarda usufruíam dele, pois contrabandistas e guardas-fiscais davam filhos paras as escolas, povoavam as aldeias, dinamizavam o comércio local e as trocas comerciais e, nos tempos livres, dedicavam-se à agricultura e outras profissões. Com a abertura das fronteiras mas sobretudo com a entrada na Comunidade Europeia de Espanha e Portugal, as aldeias da raia ficaram pasmadas a ver partir os seus e, registe-se, que só da parte dos guardas-fiscais e respetivas famílias, foram às largas dezenas em cada aldeia com posto da GF que fizeram as trouxas e abalaram para as cidades.
Bousés
Faltava assim a este blog andar pela raia, de ambos os lados da fronteira, pois todas as aldeias portuguesas da raia do nosso concelho, tem a sua correspondente do outro lado da raia na Galiza. Vamos começar em Soutelinho da Raia que do outro lado tem as aldeias galegas de Videferre, Espiño e Bousés, para quando pudermos terminarmos em Segirei que do outro lado tem Tomonte e Soutochão. Ao todo são cerca de 50 aldeias repartidas por ambos os lados da raia que irão passar por aqui. Não prometo que seja de seguida, pois falta-me ainda fazer a recolha fotográfica de algumas aldeias galegas, mas irão passando por aqui conforme for tendo disponível material fotográfico e outros dados da raia.
Para já fica Soutelinho da Raia, Videferre e Bousés, esta última vista desde o S.Caetano. Falta Espinõ da parte galega, mas também passará por aqui numa próxima oportunidade e com mais dados que vou querer acrescentar a estes post’s de “Aldeias da Raia”, pois o de hoje ainda não vale a sério, é só o anúncio de crónicas que terão de ser feitas com peso e medida e que terão ainda muito trabalho para realizar.
Para não cumprir promessas ou faltar à palavra, infelizmente, já temos os políticos. Aqui no blog cumpre-se aquilo que se promete e, nem que seja apenas com meia dúzia de imagens e outras tantas palavras, honramos a palavra dada. Assim, vamos até ao passeios de BTT que ocorreu hoje em Soutelinho da Raia.
Tal como previa, alegrou e coloriu as ruas de Soutelinho mas também as montanhas e aldeias mais próximas, sempre num tom salutar de camaradagem onde não faltou a presença feminina.
Subidas e descidas por caminhos de montanhas feitos com tanta alegria e camaradagem, que até a mim me apeteceu montar numa bicicleta e ir por essas montanhas fora… fica para a próxima, quem sabe… mas o facilitismo posto nas palavras, não traduz propriamente o esforço que foi posto no pedalar.
Mas claro, havia os reforços para repor energias, hidratar um pouco e até posar para a fotografia. Afinal era dum passeio que se tratava, mas descanso, pouco, pois os 25 ou 45 quilómetros (conforme as preferências) eram para cumprir.
E lá partiam outra vez individualmente, aos pares ou em grupos, alguns vestindo curiosos fatos e outros até com “radares” no capacete para não se perderem, mas mesmo assim…
E por fim o merecido repasto, com felicidade dupla, pois a barriguinha já pedia qualquer coisa e as pernas algum descanso e depois, claro – “Eu faço desporto, sou feliz!!!” - e verdade se diga, gente triste, não vi por lá.
Hoje vamos até Soutelinho da Raia, pois mais uma vez vai abrir os “ferrolhos” das portas da aldeia para ser colorida com os rapazes das bicicletas a pedalar planalto barrosão. É o 2º Passeio BTT de Soutelinho da Raia.
Então já sabe, se estiver cá pela terrinha e nesta manhã de Domingo não tiver nada para fazer, em vez de estar para aí sentado em frente do computador a fazer horas para o almoço, desligue-o e vá apanhar ar puro, lá em cima na croa das nossas serras, com o Larouco de fundo e a rapaziada a pedalar e aproveite para fazer uma visita detalhada a Soutelinho, que também não é de perder.
Eu vou lá. Claro que as minhas pernas, desabituadas que estão do pedal, já se ficam a rir quando veem uma bicicleta, portanto não vou para pedalar, mas para andar e fazer uns cliques, estamos sempre prontos. Assim é natural , se o tempo mo permitir, que hoje venha aqui mais uma vez com Soutelinho da Raia a ser pedalada pela rapaziada do BTT, esses grande “malucos” que tantas vezes encontro por esses caminhos das montanhas do nosso concelho.
Se ontem fomos em imagem até uma aldeia que para além do seu post poucas mais vezes tinha passado por aqui, hoje vamos até uma aldeia que já é repetente muitas vezes nesta blog e continuará a ser porque motivos de interesse não lhe faltam, começando pela sua condição dupla de ser uma aldeia da raia com a Galiza e com o concelho de Montalegre, pela sua condição de aldeia do concelho de Chaves mas ser também barrosã, pelas vistas que lança para o Deus Larouco, pela neve que cai lá todos os anos e pela sua história, principalmente a que está ligada ao contrabando e as aldeias promiscuas que em tempos tiveram dupla nacionalidade.
Falo-vos de Soutelinho da Raia e hoje lembrei-me dela por uma razão muito especial, pois também fica no caminho que nos leva a Montalegre e hoje como queria dar um pulinho a Montalegre pela tal razão especial, tinha de passar por Soutelinho. Claro que apenas em imagem e ainda por cima de arquivo, pois na realidade, bem gostaria de dar um pulinho ao Barroso, mas não me foi possível. Fica para outro dia.
E de Soutelinho da Raia hoje fico apenas com três pormenores, dois do casario tradicional que por lá abunda e outra de um pormenor de uma varanda com cravos brancos a cair sobre quem passa. Poderia aqui trazer-vos uma rua inteira que os motivos de interesse repetem-se pois felizmente Soutelinho Da Raia tem mantido a sua integridade no conjunto, com algumas recuperações feitas com bom gosto e a manter os materiais tradicionais e originais onde as novas construções foram nascendo no lugar que deveriam nascer, na periferia da antiga aldeia, junto à estrada. É também por esta razão que volto sempre com agrado a esta aldeia.
Pois a minha ida a Montalegre hoje prende-se com uma pequena homenagem que quero fazer a uma aniversariante que hoje faz os seus 87 anos e que é precisamente natural da Portela em Montalegre. Embora residente em Chaves desde que eu existo, Montalegre é a sua terrinha. São as origens que me chamam pois também é graças a esta aniversariante que este blog existe. Claro que a imagem tinha de ser do castelo de Montalegre, pois mesmo apenas com a sua silhueta, é imagem de marca.
Até amanhã!
“A VIDEIRA e o CASTANHEIRO de SOUTELINHO”
Era uma vez um peregrino de saudades, que aproveitou um dia longo de Verão para rumar a uma Normandia de fronteira.
Madrugou.
E logo foi o primeiro - primeirinho a pôr o pé no campo de concentração , “livre – e - democrático”, de romeiros, lá no Largo do Anjo.
Não sabemos se do Gabriel, Miguel ou Rafael! Mas isso é lá com o “nazireu de empreitada” e presidente municipal.
Os «Caminhos de Santiago” foram substituídos pelas «Rotas do Contrabando”, e estas pelas alcatroadas estradinholas municipais.
A pé já quase ninguém anda - a não ser ao cair da noite, nas «caminhadas da moda» contra o “clesterol” e a favor da «perdida de peso” - não que a gordura é para manter!
Assim, num machimbombo velho e cansado, retornado das picadas do CONGO, onde transportava Pigmeus, lá foram os ferv(o)erosos caminheiros, mais parecidos com um “ pelotão de Caçadores 10” ou mesmo até com uma Brigada de Assalto dos “Dragões de Chaves”, pois iam equipados com disparadores automáticos a lembrar bazucas ou morteiros de 60mm.
Apesar de especializado em morteiros pesados de 160 mm, o Romeiro de Alcácer levava apenas uma fisga de meio furco.
Chegados ao S. CAETANO, este, em vez de abençoar os peregrinos com água benta …ou uma(s) pinga(s), da(s) boa(s), lá planalto do COUTO, asperge-os com uma cacimbada!
Por isso uma célebre “Corneta de S. Caetano”, com história contada no Blogue “Valdanta”, soou constipado-desafinada ao “Merino” que mandou o “Neto da Tia São” para o Garcia!
À procura do sol de «inferno», rumou-se até ao «Meco» 198 – noves fora nada - lá no cimo do Poβo de SOUTELINHO DA RAIA, onde todos fizeram as vezes de «gajeiro de nau Catrineta»… e donde só alguns desceram para “proβar” o «gajeiro “ que empurrou umas rodelas de linguiça e de salpicão numa secreta adega com (antigamente) porta de entrada de … Guardas-Fiscais, do lado de cá, e de «Carabineros», do lado de lá.
Conduzido à Fonte medieval, em recuperação, nasceu-nos a esperança de encontrar por entre os montículos de terra e cascalho alguma flauta doce, que a distracção dos arqueólogos tivesse consentido esquecida.
Não a encontrámos.
Mas um sopro de vento, leve, levezinho, fez-nos voltar o olhar lá para o fundo de uma cortinha que começava logo ali, naquele muro de pedra onde terminava a rua.
Atraído pela arte e deslumbrado com a Natureza.
Perante nós, um frondoso castanheiro. Imponente. Com uma folhagem de um verde pujante. E tingido por madeixas amarelo - prateadas da sua flor.
Ao nosso lado, uma Videirinha elegante, viçosa, estendeu uma gavinha insinuante e fluorescente, e guardou para a posteridade o último testemunho de um jardim natural, outrora passeado por druidas, em cânticos de louvor a Druantia, a Arduinna e a Ailinn.
O sol abriu.
E uma onda de luminosa alegria transportou os peregrinos até ao cimo de CASTELÕES, lá, à SENHORA do ENGARANHO.
Romeiro de Alcácer
Antes de terminar o dia, há que cumprir o contrato de trazer aqui aos Domingos uma aldeia, ou um motivo rural. Hoje trago a arte dos cúmeos e do rematar dos telhados, arte popular para nós que, talvez para os entendidos, seja naif. Seja como for é arte pura e simples – Um cavaleiro sem cabeça que monta um cavalo arraçado de girafa, é obra. Esta, obra de arte, acontece num telhado de Soutelinho da Raia.
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Já sabem que por aqui aos fins-de-semana há aldeias do concelho de Chaves e neste, claro, tinha de ser uma aldeia com neve.
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Hoje toca a sorte a Soutelinho da Raia, a nossa aldeia barrosã, que é brindada (ou não) sempre com as primeiras neves do ano. Pois aquilo que para nós (cá em baixo no vale) a neve nas serras é uma delícia para o olhar, para os residentes das serras e montanhas, neve, significa frio, muito mais frio, o ficar retido em casa e, às vezes, sem poderem sair da própria aldeia.
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Pois sempre que há neve, se houver estrada aberta, Soutelinho é ponto de visita obrigatório. No entanto, nesta semana a oferta até era grande, pois quase todas as aldeias de montanha mais elevada tinham neve, ou melhor, têm neve, mas como não podemos ir a todas ao mesmo tempo, hoje calhou um cheirinho a Barroso.
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Mas amanhã é outro dia e com a temperatura que já se faz sentir lá fora e que entrou nos negativos mal escureceu, amanhã pela certa que a neve vai continuar a fazer parte das vistas nas montanhas e, quem sabe, se houver estrada para caminhar, amanhã não teremos por aqui a neve do planalto do Brunheiro ou da Serra da Padrela.
Até amanhã.
Cada vez há menos e, estes, não aderiram ao fenómeno do despovoamento do nosso mundo rural, pois não partiram para parte alguma, antes, foram-se extinguindo com a partida dos donos e por não fazerem parte dos planos dos novos mundos, também eles, vão sendo resistentes e também guerrilheiros nos seus pequenos territórios que também são as aldeias (as suas) que o destino lhes ditou para viverem. Animais de trabalho, de estimação de companhia de sobrevivência.
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Quem conhece o mundo rural, sabe que os animais fazem quase parte da família e, embora não comunguem da mesa e do berço desta, têm também direito ao seu espaço, à sua mesa e à sua cama e, tal como à família, é-lhes dado amor, amizade, carinho e até um nome e respeito, mas também se lhes exige fidelidade, a colaboração no trabalho, as suas responsabilidades do dia-a-dia e também a contribuição para o orçamento familiar.
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Com a devida diferença de amores, amam-se como a um filho, aprecia-se-lhes a força, o carácter ou a esperteza, mas também a amizade, a companhia e sobretudo a fidelidade.
Quase nada conversadores, são no entanto bons ouvintes. Ouvem sonhos e lamentos, segredos, devaneios e certezas, quase sem pestanejar, ouvem, e ouvem, vão ouvindo sempre, parecem indiferentes, mas ouvem e, desde sempre, é-lhes apreciada a confidencialidade. Nunca nenhum traiu o seu dono e amigo com ditos e não ditos ou o contar de um segredo…também por isso se lhes aprecia a amizade e companhia.
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São como da família e não admira que os resistentes os queiram com orgulho e encaixilhados ao seu lado no retrato… mas é preciso subir ao nível dos valores do mundo rural para se entender tudo isto…
Ficam três imagens do nosso mundo rural flaviense, pedidas e consentidas que farão o orgulho da resistência por um dia terem aparecido na INTERNET, mesmo sem saberem e perceberem muito bem o quê isso é…

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Já sei que nem todas as aldeias passaram por aqui enquanto outras, já são repetentes várias vezes, por uma ou outra razão, pois há sempre uma para estarmos de regresso.
Soutelinho da Raia é uma dessas aldeias aqui repetente e não existem laços de qualquer espécie que me liguem particularmente a esta aldeia, embora, confesso, que é sempre com agrado que vou até lá e aqui, já há muitas razões que fazem o meu agrado.
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Agrada-me a sua história de aldeia da raia, agrada-me a sua arquitectura e a beleza do seu casario antigo, agradam-me os seus ares barrosões de terra fria, agrada-me a proximidade do Deus Larouco, agrada-me ir lá sentir as primeiras neves e agrada-me mostrá-la aos amigos fotógrafos porque sei que lá, há sempre boas fotografias à espera de um clique.
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Mas a razão de hoje irmos novamente até Soutelinho da Raia é outra, também agradável, pois (embora tardiamente) descobri que Soutelinho da Raia também tem um blog, feito por autor da terra, Carlos Laje. É mais uma aldeia do nosso concelho na Net. Um blog que já existe desde 2007 e que se nota ser feito com amor à terra, mas também um bocadinho preguiçoso, pois menos de 2 posts por mês (em média) é muito pouco para uma aldeia que merece muito mais.
Fica então o link para o bolg Soutelinho da Raia que está neste endereço:
http://soutelinho.blogspot.com/
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E foi mais uma passagem por Soutelinho da Raia e uma passagem por mais uma das nossas aldeias, que, pode ser que abra o apetite a que outras aldeias se juntem aquelas que já estão representadas na INTERNET. Basta um bocadinho de vontade e qualquer um poderá ser um file representante da sua aldeia.
E porque hoje é Sábado, vamos mais uma vez até ao mundo rural de Chaves e as suas varandas, bem mais abundantes nas aldeias do que na cidade, pois a varanda era um elemento importante das casas e com muitas mais funções do que a simples passagem gradual do interior das casas para a rua ou exterior.
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Casa com varanda, em Loivos
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De facto tem além dessa função de passagem entre ambientes, outras funções. Servia, por exemplo, de recolha e local de sequeiro de alguns produtos agrícolas, principalmente o milho e o feijão, mas também de recolha, guarda e secagem das capas de chuva, sócos ou do guarda-chuva, embora este, até fosse ou seja pouco usado no mundo rural, pois ocupa as mas que são tão preciosas para o trabalho ou para transporte de outros utensílios em que o guarda-chuva era um luxo que só incomodava.
Era também à varanda, que o milho depois de seco, no vagar do anoitecer se ia desgranando (popularmente também se dizia “degranhar” ou “desgranhar”).
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Mas de todas as funções atribuídas às varandas, havia as mais nobres em que ela funcionava como mais um compartimento da casa, uma sala de visitas ou de receber e estar no exterior, principalmente nas noites acaloradas de verão, onde, apenas em família, ou com a companhia dos compadres, amigos ou vizinhos, se ia fazendo serão enquanto o interior da casa ia “arrefecendo” um pouco para uma merecida noite de sono. Noites memoráveis em que se falava de tudo, da vida da casa, da vida dos outros, contavam-se estórias, davam-se conselhos, reprovavam-se ou elogiavam-se atitudes, mas tudo num tom sereno, quase num murmúrio de palavras que a própria varanda abafava e pouco deixava desviar para além do silêncio, quando este, não era total. Um silêncio total que apenas o era em palavras nos corpos serenos e quase inertes, como se anestesiados, pelo cantar das cigarras e dos grilos quando o calor apertava ou, em silêncio de encanto, quando os rouxinóis impunham as suas melodias e se desafiavam na distância da noite, ainda frescas de primavera.
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Tenho no meu imaginário de criança muitas destas noites de varanda, com sons mágicos que para sempre ficaram registados na memória dos silêncios e músicas da noite, com muitos rouxinóis que felizmente ainda hoje os oiço, mas também e sobretudo, com a música das flautas que fluíam de bem longe e me diziam ser dos pastores… pura magia que só acontecia no recolher de uma varanda…
(…)
E por que não galgar sobre os telhados,
os telhados vermelhos
das casas baixas com varandas verdes
e nas varandas verdes, sardinheiras?
Ai se fosse o da história que voava
com asas grandes, grandes, flutuantes,
e poisava onde bem lhe apetecia,
e espreitava pelos vidros das janelas
das casas baixas com varandas verdes!
Ai que bom seria!
Espreitar não, que é feio,
mas ir até ao longe e tocar nele,
e nele ver os seus olhos repetidos,
grandes e húmidos, vorazes e inocentes.
Como seria bom!
Descaem-se-me as pálpebras e, com isso,
(tão simples isso)
não há olhos, nem rio, nem varandas, nem nada.
In “Poema da Memória” de António Gedeão
As varandas, algumas, ainda existem e resistem, hoje tristes e abandonadas.
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Pois é sempre com agrado que vamos até mais uma das nossas aldeias, mas o agrado é acrescido quando a aldeia mantém ainda a sua integridade , a sua condição e a sua beleza nas gentes, nos usos, na sua arquitectura do casario tradicional. Se a aldeia tem história e estórias para contar, então ainda com mais agradado a visitamos, mas também pela sua condição de aldeia da raia, a sua herança de aldeia promíscua e dos seus filhos ilustres .
Muitos ingredientes para tratar num prato só e num breve espaço de um blog, assim, hoje vamos até um dos seus filhos ilustres e algumas imagens, que, também com agrado, sempre trago aqui.
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Então hoje vamos falar de um filho de Soutelinho da Raia que nesta aldeia nasceu no ano da graça de 1933 para vir a correr o mundo levando consigo a língua portuguesa e o seu ensino e que também é com as letras e palavras da nossa língua que faz obra com, e, a respeito das letras e palavras dos homens das palavras, dos poetas, dos escritores e da literatura portuguesa. Hoje vamos falar, um pouco, do filho de Soutelinho da Raia que dá pela graça de António Cirurgião que pelo seu trajecto e obra publicada, além de um ilustre flaviense de Soutelinho da Raia, é um ilustre português que dedicou a sua vida à língua portuguesa aquém e além mar.
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António A. Cirurgião, nasceu em Soutelinho da Raia em 1933, foi para os Estados Unidos, como estudante de Direito, em 1962. Tendo optado pelas Letras, fez o M.A. em Francês, em Assumption College, Massachusetts, e o Ph.D. em Espanhol e Português, na Universidade de Wisconsin, sob a orientação de Lloyd Kasten e Jorge de Sena.
Depois de ter ensinado Espanhol, Francês e Latim em Kansas State University e na Universidade de Nevada, foi contratado em 1969 pela Universidade de Connecticut, em Storrs, e aí ensinou Espanhol e Português. Recebeu o contrato vitalício em 1973, e foi promovido a professor catedrático em 1980. Em 1983 e 1987, ensinou na Universidade da California, em Santa Barbara, na qualidade de Professor Visitante. Jubilou-se em Julho de 1999.
Em 1981 foi agraciado pelo Presidente da República Portuguesa com o grau de Comendador da Ordem do Infante D. Henrique.
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Além de colaboração dispersa por dicionários e enciclopédias e por revistas portuguesas e estrangeiras, publicou e editou várias obras sobre literatura portuguesa.
Como autor publicou: Fernão Alvares do Oriente: O Homem e a Obra, Paris, 1976; O "olhar esfíngico" da Mensagem de Fernando Pessoa, Lisboa, 1990; A Sextina em Portugal nos Séculos XVI e XVII, Lisboa, 1992; Novas leituras de clássicos portugueses, Lisboa, 1997; Leituras alegóricas de Camões, Lisboa, 1999; De Eça a Jorge de Sena, Lisboa, 2009.
Como editor publicou: O Cancioneiro de D. Cecília de Portugal, 1972. Fernão Álvares do Oriente, Lusitânia Transformada, 1985. Duarte Dias, Várias Obras em Língua Portuguesa e Castelhana, 1991. Manuel Quintano de Vasconcelos. A paciência constante - discursos poéticos em estilo pastoril, 1994. João Nunes Freire, Os Campos Elísios, 1996.
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Sobre a sua última obra publicada, «De Eça a Jorge de Sena», dedicada aos seus netos Calvin Alexander Cirurgião e Camille Janine Cirrurgião, fica o que consta na sobrecapa do livro:
“Datando o primeiro de 1969 e o último de 1992, os nove trabalhos contidos nesta miscelânea versam sobre obras de sete escritores portugueses: três do século XIX – Eça de Queirós, Tomás Ribeiro e Guilherme de Azevedo – e quatro do século XX – Bernardo Santareno, José Cardoso Pires, Miguel Torga e Jorge de Sena. Tirante Guilherme de Azevedo e Jorge de Sena, que são contemplados com dois estudos cada um, os autores são objecto de um estudo, recaindo sobre uma obra individual, com excepção da Alma Nova de Guilherme de Azevedo. Quanto ao género literário sobre que tratam os trabalhos, contam-se o romance para Eça de Queirós, José Cardoso Pires e Jorge de Sena, a poesia para Tomás Ribeiro, Guilherme de Azevedo, Miguel Torga e Jorge de Sena, e o teatro para Bernardo Santareno.
Embora de nível literário muito diferente, é nossa convicção de que todos os escritores incluídos na miscelânia têm mérito suficiente para que deles se ocupem os que escolheram por profissão o ensino e a promoção da língua portuguesa e das literaturas lusófonas além-fronteiras, em minúsculas ilhas de língua portuguesa e de cultura lusíada, perdidas no meio da vastidão de imensos mares de outras línguas e de outras culturas, um pouco à maneira daqueles nautas da Eneida de Virgílio: “rari nantes in gurgite vasto”.
São as memórias dos sítios e lugares que nos fazem regressar…
Aveleda
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O verde, o aconchego,
a luz, um mar paralisado
de montanhas revoltadas, o quase
silêncio,
a distância, o horizonte, o infinito
quebrado pelo mais além…
é lá que se volta sempre quando se quer respirar a pureza do olh(ar)…
Póvoa de Agrações

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Regressamos às profundezas
das montanhas,
lá bem no alto. Tamanha contradição
feita das contradições dos dias. A pacatez
aparente é sempre assolada, quebrada, cortada
pela invisibilidade do ar que se vê escuro
e frio,
leve e
carrascão,
iluminado
e quente ou
pesado de suão…
é lá que se volta sempre quando se quer colher a força resistente dos que resistem…
Soutelinho da Raia

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E a um passo de distância,
está toda a distância do mundo.
Deitada nas faldas
de um Deus,
atinge a altura da pureza vestida
do mais fino branco vertido
no plano de um pano que
por ser das faldas,
não atinge o gume
do cume
e por isso se vale,
do lume
que aquece e
alumia
por lá no alto,
não ser do vale…
é lá que se volta sempre quando se quer sentir as alturas e o rigor dos deuses…

Se não fosse pelo raio da lata da modernidade, esta foto poderia ter 100 anos.
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Por não ter FAX, estar desempregado e já russo pela idade, vai aguardando à porta da escola, à espera de novas oportunidades...
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Almorfe, com o devido elogio ao fio azul.
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Localização:
A 18 km da cidade de Chaves, na extremidade Nordeste e limite do concelho e não só, pois também é terra de raia, onde Portugal termina para começar a Galiza. Grande parte da freguesia desenvolve-se já em pleno planalto barrosão que se estende ao longo da fronteira com a Galiza até à Serra do Larouco.
Confrontações:
Confronta com as freguesias de Ervededo e Calvão do concelho de Chaves e como freguesia limite do concelho, confronta ainda com o concelho de Montalegre e com a Galiza, da vizinha Espanha.
Coordenadas: (Escola Primária)
41º 37’ 27.32”N
7º 30’ 38.80”W
Altitude:
Variável – entre os 750 e os 850 m
Orago da freguesia:
Stº António
Área:
5,97 km2.
Acessos (a partir de Chaves):
– Estrada Municipal 507.
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Aldeias da freguesia:
- Soutelinho da Raia (única aldeia da freguesia).
População Residente:
Em 1900 – 483 hab.
Em 1920 – 478 hab.
Em 1940 – 535 hab.
Em 1950 – 559 hab.
Em 1960 – 493 hab.
Em 1981 – 342 hab.
Em 2001 – 192 hab.
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Principal actividade:
- A agricultura.
Particularidades e Pontos de Interesse:
Historicamente falando sobre o povoamento desta aldeia, teríamos que recuar possivelmente até ao tempo dos povoados fortificados castrejos, pelo menos assim o defendem alguns historiadores que ligam este povoado a um sítio da aldeia designado por “Muro”. Também há referencias ao romanos e a uma possível via romana secundária, havendo mesmo alguns autores que dizem existirem ainda nas imediações o que serão possíveis restos de calçada. Diz-se também que por aqui passaria um dos caminhos de Santiago e actualmente é pela aldeia também que passa a principal ligação (em termos de utilização) entre a cidade de Chaves e a Vila de Montalegre.
Da história também já faz parte o tempo em que Soutelinho da Raia foi uma aldeia promíscua, ou seja, uma aldeia que era dividida pela linha da raia, pertencendo metade a Espanha e outra metade a Portugal e que assim foi até ao tratado de Lisboa de rectificação de fronteiras (de 1864) em que Soutelinho da Raia passa exclusivamente para Portugal em troca das aldeias do Couto Misto que passam integralmente para Espanha (mais sobre este assunto consultar o blog Cambedo Maquis ou o post deste blog de 14.Dez.2007 - http://chaves.blogs.sapo.pt/231841.html). Ainda hoje Vilarelho da Raia vive um pouco dessa promiscuidade dos Séculos passados, pois se repararem na fotografia aérea que se apresenta neste post, existem terrenos e até construções que são atravessados pela linha de fronteira (a amarelo na imagem), que pela sua condição já se adivinha que foi também terra de contrabandistas e Guardas-Fiscais enquanto existiu a fronteira entre Portugal e Espanha. Muitas estórias pela certa haverá para contar de ambas as partes.
Ainda na história desta aldeia, consta o acampamento das tropas monárquicas de Paiva Couceiro, em 1912, do qual sairia a segunda tentativa de restaurar a Monarquia do Norte.
Terra de frio também, onde as primeiras neves marcam sempre presença.
Sem dúvida alguma que é uma das freguesias à qual recomendo uma visita com passagem e paragem obrigatória no S.Caetano.
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Linck para os posts neste blog dedicados à aldeia e freguesia:


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