Domingo, 3 de Abril de 2016

O Barroso aqui tão perto... Stº André

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Como devem compreender nem eu, nem o blog, somos uma enciclopédia que sabe tudo.  Em geral o que sabemos é um pouco daquilo que já vivemos, daquilo que estudámos, daquilo que pesquisamos, mas sobretudo, daquilo que in loco sentimos e registamos quando conversamos com os nativos e observamos os locais e aldeias que aqui trazemos.

 

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Estive em Stº André pela primeira vez deveria ter um os meus 15 ou 16 anos. Pouco ou nada recordo de então a não ser o saber que lá estive, o que é natural, pois além de já ter passado um tempito desde essa altura, os meus interesses de então estavam bem longe da sua antropologia, arquiteturas, usos, costumes e saberes dos povos e locais.

 

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Pois então vamos àquilo que observámos in loco. No último fim-de-semana este blog retratou Solveira. Acontece que para o registo fotográfico visitámos Solveira e Stº André no mesmo dia, ou seja na passada sexta-feira santa. Depois de Solveira que fica junto à estrada principal que liga Montalegre a Chaves esperávamos ver ainda muita gente agarrada a essa ligação principal, mas não, Solveira está altamente despovoada. Seguimos depois para Santo André, mais encostada ao Larouco e à Galiza, desviada da tal ligação principal de Montalegre a Chaves, e daí, depois de Solveira, partirmos para Stº André um pouco à espera de uma aldeia praticamente abandonada, mas não, ainda sem sair do carro, começámos a verificar que a aldeia tinha gente nas ruas, animais e cafés, e estes últimos não existem sem clientes.

 

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E de facto assim é, Stº André ainda vai mantendo vida na aldeia, inclusive até putos a jogar à bola na rua, vizinhos  a conversar, também na rua, mesmo com tempo (meteorológico) pouco convidativo para tal, e clientes nos cafés. E se ficássemos por aqui já não era mau, comparando com aquilo que conhecemos da maioria das nossas aldeias, mas Stº André tem muito mais. Primeiro a hospitalidade da receção, primeiro com a curiosidade natural de saber quem éramos e ao que íamos e depois a abertura e disponibilidade de que é hospitaleiro para nos dar a conhecer a aldeia, os seus lugares, usos e costumes.

 

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Tivemos a sorte de ir no momento certo para apreciar um tradição que já pensávamos em desuso. A tradição das vezeiras. E o que são as vezeiras? -  pois é muito simples, é uma tradição comunitária em que consiste num habitante da aldeia levar para o pastoreio todo o gado da aldeia, isto na quota parte que lhe compete, ou seja, em Stº André cada habitante, por cada seis cabeças de gado que possua, terá de dar um dia de pastoreio, ou seja, se tiver dezoito cabeças de gado terá de dar três dias de pastoreio. A vezeira, neste caso de Stº André, é para o gado caprino e ovino, cabras e ovelhas à mistura, no entanto também existe para o gado bovino que também, penso que ainda existirá no Barroso. Pelo menos recordo de assistir há uns bons anos atrás à chegada da vezeira de bovinos em Tourem.

 

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E se da primeira vez assisti, então com espanto, à chegada de uma vezeira, com pequenos grupos de gado a tomar, cada um, o seu caminho e parar à entrada das respetivas cortes, sem ninguém por perto para os encaminhar ou fazer parar no seu destino, desta vez, assisti, agora com curiosidade e admito que ainda algum espanto ao mesmo acontecimento, mas desta vez com a curiosidade aguçada quis saber um pouco de como tal acontecia. Para isso, estava em Stº André o Sr. Manuel, ali mesmo no largo principal da aldeia onde os animais da vezeira se começam a dividir para tomar o seu destino, para nos mostrar a sua corte e contar um pouco da tradição e seu funcionamento. Pois há alguns pequenos truques para que tal aconteça. Primeiro os cães que também à espera se encarregam de ensinar o caminho ao gado mais esquecido, depois o hábito de todos os dias acontecer a mesma coisa e de à sua espera estar qualquer coisa para comer, mas também as crias das cabras que aguardam na corte e orientam o espírito maternal do regresso das cabras mães. Mas é tudo uma questão de as orientar nos primeiros dias, pois a partir de aí cada animal reconhece a sua casa.

 

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Quanto ao resto do que é comunitário, há ainda a existência das fontes e tanques, com água  bem cristalina e transparente, fresquinha e saborosa (mesmo que digam que a água não tem sabor) e à fartura, com nascente pela certa no Larouco, pois Stº André é uma das aldeias que já se encontra em plenas faldas do Larouco. Há ainda o forno do povo que tal como o de Solveira é mais para turista ver e fotografar. Hoje em dia, além dos fornos caseiros, é mais fácil e até mais económico comprar o pão do que cozê-lo. E claro, começamos a ter saudades do bom pãozinho de centeio caseiro, mas atenção, ainda há muita gente a fazer fornadas em suas casas, eu, estava por aqui a referir-me ao forno do povo.

 

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E se até aqui foram as minha impressões pessoais a falar e aquilo que constatei e aprendei em Stº André, a partir daqui vamos àquilo que é oficial sobre a aldeia, e como tal fomos espreitar aquilo que dizem os sítio oficiais de Montalegre na internet, no caso em:  

 http://www.ecomuseu.org/index/pt-pt/visite/freguesias/santo-andre

Então reza assim:

“Santo André, como Solveira, foram desmembradas da sub-zona denominada Vilar de Perdizes a que pertenciam. Ao conseguirem as suas autonomias escolheram os patronos que já antes admiravam e invocavam. Até há poucos anos ainda se identificavam deste modo: Vilar de Perdizes (Santo André) e Vilar de Perdizes (São Miguel).”

 

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E continua:

“É terra bastante fértil, com alguma fruta. 
Julgamos que vamos dar notícia importante à gente de Santo André. Com efeito o Rei D. José manda passar certidão, à petição por escrito, que fora feita em 9/11/1733, de brasão de armas de nobreza a “Mateus Francisco Padrão, cavaleiro professo da Ordem de Cristo, capitão de granadeiros no 1º batalhão do Regimento de Guarnição da Praça de Elvas onde é morador, dizendo nela que ele suplicante é filho legítimo de António Francisco e de sua mulher Jerónima da Encarnação. Neto pela parte paterna de Afonso Francisco de Sirgo natural da honra e julgado de Santo André, freguesia de S. Miguel o Anjo do lugar de Perdizes, e de sua mulher Inês Padroa, filha de Diogo Padrão naturais da mesma honra. E pela materna que é neto de Alexandre Gonçalves e de sua mulher primeira Maria Vaz, naturais da honra de Gralhas onde ele foi vereador e juiz ordinário, tudo na comarca de Chaves e ele suplicante natural desta cidade de Lisboa.”

 

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E segue:

“Os quais ditos seus pais, avós e mais antepassados que foram todos muito nobres e por tais conhecidos e respeitados… sem que algum deles houvesse labéu de judeu ou mouro, nem outro sangue infecto que pudesse pôr nódoa na sua fidalguia, nem havia fama ou rumor em contrário…” A sentença de justificações foi proferida a 9/6/1756. E a decisão: ”… busquei os livros dos registos das armas da nobreza e fidalguia deste reino que em meu poder então e nelas achei os que pertencem à nobre e antiga linhagem de padrão na forma que lhas dou iluminadas com as mesmas figuras, cores e metais nesta carta segundo as regras do nobre oficio da armaria.”


 

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“A saber: “Um escudo com as Armas dos Padrões que sai em campo azul um Padrão ou coluna de prata levantada sobre um monte de sua cor e sobre a coluna um escudo do mesmo metal carregado de uma Cruz da Ordem de Cristo entre duas estrelas de ouro. Elmo de prata aberto guarnecido de ouro. Paquife dos metais e cores das Armas e por diferença uma brica de prata com uma faixa vermelha… Lisboa aos nove dias do mês de Maio do ano do N. S. J. Cristo de 1760.”
Os vários entendidos na heráldica asseveram que “esta família tem as mesmas armas que os Cãos pelo que se presume que descendem de Diogo Cão a quem elas foram dadas.”
O próprio Braancamp Freire afirma: “As armas do apelido Cão”!”

 

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Quanto à população (Censos de 2011) é de 212 habitantes presentes. O Orago é Stº André, neste caso a coincidir com o topónimo.

 

Ainda na mencionada página oficial da internet apontam como pontos turísticos, o forno do povo, o cruzeiro, a capela e a Cidade de Grou. Pois penso que ficaram algumas coisas de fora, como a uma pequena capela particular com um enquadramento muito singular pois penso que a capela a que se refere a página oficial seja a Igreja que existe ao fundo do povo, os tanques e fontanários, principalmente pela sua grandeza o tanque junto ao cruzeiro, todo o casario tradicional e a estrutura como as ruas e largos se desenvolvem, mas também e sobretudo o próprio povo de Stº André (pessoas) e a vezeira, esta sim,  digna de se apontar para turista ver.

 

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Mas também as estórias que o povo conta são património turístico da aldeia, sobretudo para quem gosta, como nós gostamos, de conversar com as pessoas mais idosas das nossas aldeia, tal como foi o caso de uma conversa que lá tivemos com uma habitante, que no meio de tanta conversa cometi a imperdoável falha de lhe perguntarmos pela sua graça[i].

 

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Pois a senhora contava-nos como bons tempos os tempos em que faziam carvão no Larouco para ir vender à cidade de Chaves, junto à ponte do Ribelas, no Tabolado. Viagem com burro carregado de carvão que demorava seis horas pra ir a Chaves e outras tantas para regressar. Parecem estórias antigas mas não o são assim tanto, pois ainda nos sessenta do século passado, aos quais eu assisti como puto, ainda me lembro destes trabalhos, não só do carvão, mas também dos burros carregado de carqueja também vindo do Barroso ou da roupa lavada vinda de S.Lourenço ou o leite de Outeiro Seco, estas duas últimas aldeias do concelho de Chaves.

 

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Mas de entre os pontos turísticos de interesse atrás apontados há um que nos aguçou a curiosidade, trata-se da Cidade de Grou. Pois fomos à procura da tal Cidade de Grou e encontramos um artigo de um velho amigo nosso, perito em coisas da História, principalmente nas que dizem respeito aos povos da raia entre Portugal e Espanha, que passo a citar:

“Fronteiras: Santo André (c. de Montalegre) / A Xironda

“Depois de algum tempo afastado do blogue por motivos de saúde e, porquê não, pelo cansaço, vamos hoje retomar o nosso périplo pela Raia, desta vez, entre a aldeia de Santo André, no concelho de Montalegre, e A Xironda, no concelho galego de Cualedro. A fronteira está situada numa estrada local que liga as duas localidades, no fundo de um pequeno vale ao sopé da Serra do Larouco.

 

A região pertence a uma zona de transição entre o Barroso e a região do Alto Tâmega. Sendo o concelho de Montalegre muito extenso, Santo André faz parte junto com Vilar de Perdizes e outras poucas freguesias, daquela parte do município que pertence à bacia do Tâmega através dos seus afluentes. É por isso que estamos numa região de planalto que desce em suave declive para o vale do Tâmega. Se a aldeia de Santo André está situada entre os 820 e os 850 m. de altitude, já a aldeia da Xironda está situada entre os 750 e os 760 m. Entre ambas as duas, situa-se um pequeno relevo que ultrapassa os 790 m. do lado da Galiza para logo descer suavemente até ao limite fronteiriço, num pequeno vale situado entre os 730 e os 740 m. por onde discorre a Ribeira do Inferno, e onde encontramos extensos milheirais entre outras terras de lavoura e pequenas explorações avícolas e pecuárias. Após uma mudança de piso para uma estrada mais estreita já em terras portuguesas, uma pequena subida, mais íngreme do que a anterior, leva-nos ao planalto onde está situada a aldeia de Santo André, interessante do ponto de vista etnográfico.

 

No meio, um desvio por caminho de terra batida, indica a existência da vila romana de Grou. Infelizmente, não existe qualquer indicador da tal vila já após termos apanhado tal estradinha e ficamos, mesmo ao pé da Serra do Larouco, com a sensação de estarmos em terra de ninguém, porque sabemos que a fronteira está mesmo aí, desconhecendo se a ultrapassámos ou não. Mais um caso de sinalética que devia ser melhorada porque de nada vale pôr-nos o mel nos lábios de uma alegada vila romana e depois não encontrar outra coisa do que estradas esburacadas não asfaltadas pouco aptas para ligeiros e nada que indique a presença, mesmo que mínima, de restos arqueológicos da época romana.

 

De resto, a fronteira não oferece nada de interessante, a não ser o facto de estarmos perante uma bela paisagem e mais uma via de ligação entre Santo André e Vilar de Perdizes, esta vez, por terras galegas. Se pretendermos brincar com o jogo do gato e do rato com as fronteiras, este é o lugar ideal para ir mudando continuamente de país, pois teremos estradas locais daí até Vilarinho da Raia, já à beira do Tâmega.”

In http://historiasdaraia.blogspot.pt/2012/05/fronteiras-santo-andre-c-de-montalegre.html

 De Luís Seixas.

 

1600-sto andre (286)

 

Quanto à cidade de Grou, antiga Vila Romana, ao que apuramos noutros locais, apenas existem vestígios, que embora tenham o seu interesse histórico e arqueológico, geralmente são de pouco interesse para turista ver. Mas no caso não sabemos porque nunca lá fomos. Sabemos que a sua localização fica algures entre Stº André e Gralhas. Pode ser que quando formos por Gralhas se faça mais luz sobre o assunto. Por hoje ficamos por aqui com uma pequena mostra sobre Stº André. Mas como sempre uma coisa é aquilo que aqui deixamos e outra é a realidade, esta sempre bem mais interessante, pois aqui no blog não cabe tudo.

 

 

[i] “Qual a sua graça?” é uma expressão que se usa por cá para saber qual é o nome da pessoa. Não confundir com graça de engraçado.

 

 

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 23:49
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