Quarta-feira, 8 de Junho de 2016

14 – Era uma vez um comboio

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“O Nosso Comboio”

 

Tudo é negro. Os edifícios têm veias escuras que lhe escorrem pelos alçados, as crianças têm rostos enegrecidos. Tudo é negro do fumo das fábricas, do ferro utilizado na cidade, da angústia iminente que a sufoca. O ar é tão denso que mal se respira, a poluição e desgraça entra-nos pelos pulmões como uma película viscosa que asfixia. Os sons da cidade misturam-se numa cacofonia irritante que eu já não consigo reconhecer. Mas no fundo, lá bem ao fundo eu ouço. Ouço um som que reconheço. Não me traz boas memórias mas, no meio da perdição, traz-me uma lembrança. Ouço os sons estridentes, metálicos, quase sofríveis. O fumo sai negro, tenebroso, expelido de forma violenta. À medida que me aproximo vejo a velha estação ferroviária, em ferro retorcido, onde o comboio engole impiedosamente aqueles que partem.

 

Algumas crianças riem, excitadas, ansiando pela viagem. Os adultos, esses, choram em silêncio pelos que ficam e pelo que deixam. Fazem-se promessas, que sabem que ninguém vai cumprir, dão-se beijos e abraçados, tentam-se aquecer corações já há muito gelados, destinados a estilhaçar.

 

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O comboio apita, estala e geme quase obscenamente no meio de tanta dor. Os revisores correm e gritam ordem, quase tão automaticamente quanto a velha máquina metálica ruge, desejosa de partir. De olhos vidrados, num rosto apagado pela angústia, já não se permitem ver o que se passa em redor, sentir o sofrimento dos passageiros. Tudo o que veem, tudo o que ouvem, perde-se nesse vazio sentimental que todos aprendemos a ter. E é assim que continuam, dia após dia, a encaminhar os passageiros para o comboio, como se de um carrasco se tratasse. Apáticos, tristes, miseráveis como todos nós.

 

Por fim, a maquineta maquiavélica já engoliu todos os seus passageiros. Contrastando com o metal enegrecido, veem-se bracinhos alvos de crianças a acenar, rostos lívidos de quem parte e já não volta. Rostos de revolta, de sofrimento, de uma saudade ainda precoce.

 

O comboio arranca, sacudindo as suas almas fervorosamente. A paisagem desvanece-se rapidamente pela janela, sem termos tempo de a absorver nos sentidos, para que, um dia mais tarde se nos for permitido, a possa recordar. Lembro-me de ter aberto uma janela e timidamente esticar-me para sentir o cheiro dos campos, o cheiro da chuva na terra acabada de plantar, o cheiro da minha cidade.

 

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Depois fiquei, junto a tantos outros, cabisbaixo a matutar, enquanto os soluços do comboio embalava o meu próprio choro e me roubava à minha vida.

 

 

PS: O texto pretende transmitir o ponto de vista de pessoas que tiveram de partir para outras cidades e outros países de comboio. Refere-se, sobretudo, às fugas consequentes da Segunda Guerra Mundial, altura em que o medo e a opressão sugavam a felicidade das pessoas. Esta visão, pesada e triste acerca de um comboio, pretende transmitir o lado negativo de uma invenção que trouxe muitas mais-valias. No entanto, como há sempre o reverso da medalha, há que evidenciar também as coisas más para que nunca nos esqueçamos que nem tudo é perfeito.

 

Numa visão claramente exagerada, pode-se também ilustrar um problema actual e cada vez mais comum – a emigração. Retrata aqueles que trabalharam para construir uma vida, num país que amam, junto aqueles que amam e têm de abandonar tudo porque já nada é certo.

Nordeste.AL.

 

 

In “Memórias de uma Linha – Linha do Corgo – Chaves”, Agosto de 2014

Edição Lumbudus – Associação de Fotografia e Gravura

 

Fotografias – Propriedade e direitos de autor de Humberto Ferreira (http://outeiroseco-aqi.blogs.sapo.pt)

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Sexta-feira, 20 de Maio de 2016

12 - Era uma vez um comboio

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Comboio

 

Primeiro, o sonho, a ousadia, a vontade de unir terras e aproximar pessoas

- “Faça-se!”

E fez-se!

Pás, picaretas, força de braços a rasgarem novos caminhos

Pontes, túneis, carris, estações e apeadeiros

Finalmente, a máquina, carruagens e vagões…

Milhares de viagens, milhares de sonhos

Histórias, peripécias, amores e desamores

Partidas e chegadas

Gente subindo, gente descendo…

Outro mundo para lá dos horizontes da terra de sempre…

A todos serviu, cruzando vales, rios e serpenteando montanhas

A todos encantou…

- “Feche-se!”

E fechou-se!

 

                                                                                               Luís dos Anjos

 

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CP0041 – Locomotiva: CP E202, Data: Não datado, Local: Chaves, Portugal, Slide 35 mm

 

 

In “Memórias de uma Linha – Linha do Corgo – Chaves”, Agosto de 2014

Edição Lumbudus – Associação de Fotografia e Gravura

 

Fotografias – Propriedade e direitos de autor de Humberto Ferreira (http://outeiroseco-aqi.blogs.sapo.pt)

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Sexta-feira, 29 de Abril de 2016

10 - Chaves, era uma vez um comboio

800-texas

 

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Poema de José Carlos Barros

in O Uso dos Venenos,

edições Língua Morta,

Lisboa, Agosto de 2014

 

NO TEMPO DOS POEMAS

 

Deixávamos as moedas no carril e ficávamos à espera a

olhar com o fascínio de quem é surpreendido num fim de

tarde pela presença de naves alienígenas num espaço de

silêncio e rarefacção a ver as rodas metálicas do comboio a

espalmá-las até ficarem assim nas mãos em concha de um

de nós como se tivéssemos recolhido enfim a prova irrefu-

tável dos milagres. Foi/

há tantos anos/

a senhora da bandeirinha vermelha perguntava se nunca

tínhamos visto um comboio/

lembro-me era no tempo dos poemas/

um verso podia ser também a moeda espalmada nos carris

da estação do caminho de ferro de Vidago/

tudo se misturava na mesma nuvem volátil de irrealidade

e sobressalto.

 

 José Carlos Barros

 

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In “Memórias de uma Linha – Linha do Corgo – Chaves”, Agosto de 2014

Edição Lumbudus – Associação de Fotografia e Gravura

 

Fotografias – Propriedade e direitos de autor de Humberto Ferreira (http://outeiroseco-aqi.blogs.sapo.pt)

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Terça-feira, 29 de Março de 2016

8 - Chaves, era uma vez um comboio…

800-texas

 

Texas  o comboio   kimvoio

 

Vi-o a primeira vez  ainda na penumbra dos amanheceres,  a passar no fundo do estradão, a minha mãe de futuro em riste, levava a Zé por volta das sete e tal da manhã  à estação das Pedras, para ir para o colégio de Vila Pouca estudar, grande feito à época, bem  admirado bem invejado  o andar, andar a estudar e andar de comboio.

 

Lembro-me da ternura da Sra. Albertina  que morava no figueiredo e dizia que a mãezinha, a d. Aninhas tinha ido buscar a Zeizinha ó Kimvoio… E era assim… Como se o comboio,  além das pernas rodas nos carris, tivesse também braços e desse às mães vindos de um abraço ou colo qualquer,  os filhos sempre em segurança, num devagar se vai ao longe…

 

Sempre me fascinaram as rodas nos carris, num movimento para mim espiral que quase me fazia trocar os olhos por conseguirem  ir todas ao mesmo tempo, a meu ver eram elas  a voz e o instrumento  da orquestra que geravam o som tac a tac a tac o tal pouca terra pouca terra pouca  terra, gerando nas carruagens um movimento de samba folclórico ou de risadinhas constantes por cócegas.

 

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 CP0029 – Locomotiva: Não identificada, Data: 1977, Local: Vidago, Portugal, Slide 35 mm

 

Depois das rodas, a máquina, ora altiva cheia de soberba por ir à frente e puxar as carruagens como quem traz de arrasto os filhos distraídos, ora histérica em guinchos ensurdecedores  a exigir atenção de algum incauto que saia desgarrado  e ocupe a sua linha. Fumadora compulsiva, na altura, creio, mata ratos ou definitivos,  carvão direto aos pulmões   deixando no percurso lufadas de fumo, ambulantes nuvenzinhas de sonho esvaído num implacável céu.

 

À conta da sua falta de pontualidade a Nélia a Kika e o Nelo ainda levaram uma boa reprimenda, a Nélia umas boas chineladas no rabo, por assustarem as pessoas nas madrugadas dentro de um lençol com uma pilha, além de colocarem cartazes escritos das caixas de papelão, nas portas das pessoas fazendo jus às suas alcunhas.

 

Ouvia falar dele com frequência sazonal aquando de passeios de grupos , algumas criticas à sua lassidão.

 

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 CP0005  – Locomotiva: CP E209, Data: Não datado, Local: Régua, Portugal, Slide 35 mm

 

Um dia aí para uns  35 anos , vim da régua  com ele, trouxe-me direitinha com calma que mais valia chegar tarde neste mundo, que mais cedo ao outro, cheguei  a casa meio fusca com algumas faúlhas que se escaparam para nos enfarruscarem à socapa, sabendo que só dávamos conta quando chegássemos a casa, pois não dispúnhamos de espelhinho ali à mão.O balanço foi positivo, gostei, mas naquele tempo eu não sabia ainda o seu valor acrescentado , eu só tinha pressa, ele não estava ara aí virado para as pressas.

 

Lembro-me sempre com um arrepio na espinha de um senhor desesperado que decidiu atirar-se à linha quando ele passou, além das sistemáticas ameaças de senhoras que no auge da deceção pensavam alto em matar-se com a ajuda dele do kimvoio , do texas.

 

Às vezes era o bode expiatório para justificar a presença de indigentes na cidade , dado ser  em Chaves o fim da linha, os viajantes peregrinos tinham de sair e ficar à espera ,surgindo por uns tempos como estranhos na cidade.

 

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 CP0037  – Locomotiva: CP E209, Data: 1973, Local: Não identificado, Portugal, Slide 35 mm

 

O Mestre Nadir a propósito do meu apelido Seixas contou-me que no seu tempo de estudante  de faculdade quando regressava do Porto, o revisor de nome Seixas mandava sair as pessoas nas subidas do comboio texas e pedia ajuda aos homens para empurrar, entrando  todos os passageiros novamente nas descidas. Foi sempre algo incompreendido, talvez por  deixar tempo aos passageiros para irem às frutas e  às vinhas do caminho  buscar uvas para comer, enquanto brincavam às corridinhas  com o texas que se deixava facilmente apanhar, ainda foi protagonista de excursões a Vidago levando miúdos e graúdos a ver a paisagem  numa alegria intemporal…

 

Depois com o tempo envelheceu, reformou-se e jaz nas memórias, além da carruagem atrás da antiga Estação e da máquina recuperada por algum saudosista perto da linha de Curalha.

 

E a nós deixou-nos  o  memorando  de o lembrar aos nossos filhos e netos se os tivermos…

 

Isabel  Seixas

 

In “Memórias de uma Linha – Linha do Corgo – Chaves”, Agosto de 2014

Edição Lumbudus – Associação de Fotografia e Gravura

 

Fotografias – Propriedade e direitos de autor de Humberto Ferreira (http://outeiroseco-aqi.blogs.sapo.pt)

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Terça-feira, 23 de Fevereiro de 2016

5 - Chaves, era uma vez um comboio…

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Memórias

 

Em boa verdade, apenas no início da década de oitenta, altura em que completei dezoito anos e fui continuar os meus estudos para Coimbra é que, conscientemente, me apercebi da existência de comboios regionais, rápidos, foguete, intercidades, de linha férrea larga, etc., tendo então inferido que o comboio liderado pela sua máquina a vapor, e que servia a minha cidade natal, era uma autêntica relíquia.

 

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 CP0185 – Locomotiva: CP E207, Data: 1973, Local: Pedras Salgadas, Portugal, Slide 35 mm

 

1 - A primeira, e única vez, em que tive o privilégio de nele viajar, e da qual me lembro perfeitamente, tinha apenas cinco anos. Foi um dos dias da minha existência em que mais madruguei. Embora não possa precisar a hora exata, estimo-a entre as 4 e as 5 horas da madrugada.

 

Acompanhando a minha mãe, com o entusiasmo e excitação de menino pequeno que ia fazer uma longa viagem, para conhecer novas terras e novas gentes, apanhei o comboio na belíssima estação de caminhos-de-ferro de Chaves, ainda noite cerrada, rumo a Coimbra e à sua universidade, onde iria assistir à cerimónia (vulgo, rasganço) da formatura do meu pai na faculdade de direito.

 

Daquela viagem, desde Chaves até Peso da Régua (primeiro local de transbordo do comboio, sendo o segundo no Porto), recordo o cheiro a carvão, o apito estridente e o fumo lançado pela locomotiva, bem como o característico barulho que fazia de cada vez que, em qualquer estação ou apeadeiro, parava e arrancava, nalguns troços a velocidade muito lenta, e a beleza das paisagens que ia vislumbrando à medida que o dia clareava.

 

Da Régua em diante, lembro-me apenas que os comboios melhoravam gradualmente em rapidez e conforto, mas já não havia apito, cheiro a carvão, fumo, nem os lamentos de pouca-terra... pouca-terra...

 

Face à “idade dos porquês” que atravessava, comecei a disparar perguntas, tendo-me a minha mãe explicado que o comboio que partia de Chaves funcionava a carvão e a automotora que saía da Régua, e o comboio do Porto, funcionavam a eletricidade. Questão após questão, e respetivas respostas, com uma certeza fiquei: o comboio de Chaves era diferente dos outros.

 

Apreendi mais tarde, quando cheguei à idade de ver filmes de índios e cowboys no cineteatro, que o nosso comboio, por muitos apelidado de Texas, era um verdadeiro cavalo-de-ferro.

 

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 CP0032 – Locomotiva: CP E202, Data: Não datado, Local: Não identificado, Portugal, Slide 35 mm

 

2 - No ano de 1984, convidei dois condiscípulos, um natural de Coimbra e outro de Paços de Ferreira, para virem passar comigo uns dias de verão a Chaves, cidade que não conheciam. Optaram pelo comboio, meio de transporte que usavam habitualmente para se deslocarem, sem nunca suspeitarem que da Régua até Chaves iriam circular num com máquina a vapor.

 

Quando os fui esperar ao apeadeiro da Fonte Nova, perto da casa onde na altura habitava, apesar de cobertos de gotículas de suor vinham a rir-se a bandeiras despregadas. Contaram-me que tinham, inocentemente, perguntado ao revisor onde ficava o bar do comboio, e que este, julgando que estavam a mangar com ele, lhes terá respondido em tom azedo: “Bar? Deem-se por felizes se o comboio não empanar até Chaves, que ontem estivemos parados duas horas na linha devido a uma avaria”.

 

Confessaram-me que apreciaram a beleza da paisagem, que se sentiram noutro mundo ao viajarem naquele comboio e que não estavam arrependidos da opção que tomaram mas, dado o desconforto e morosidade da viagem, o regresso iria ser feito de autocarro.

 

Ainda hoje, quando esporadicamente nos encontramos, aqueles amigos relembram com saudade a viagem no comboio até Chaves que, com toda a certeza, não deixarão de contar aos seus netos.

 

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 CP0071 – Locomotiva: CP E211, Data: Não datado, Local: Não identificado, Portugal, Slide 35 mm

 

3 - Mas a lembrança que imediatamente me assalta quando se fala na extinta linha e comboio a vapor que serviram Chaves até 1990, que julgo ser a primeira recordação da qual tenho ainda uma ténue memória, e que pelo significado que tem para mim guardei deliberadamente para o fim, reporta-se ao momento em que, perto dos meus três anos de idade, conheci o meu pai.

 

Por imposição do regime fascista do Estado Novo, quase logo de seguida ao meu nascimento nesta cidade de Chaves, o meu pai, após ter aqui concluído o cumprimento do serviço militar, foi chamado, e obrigado, a partir para Moçambique, dizia-se que para defender as nossas colónias no ultramar.

 

Assim fui crescendo, aprendendo a caminhar e a falar, com a noção de que o meu pai estaria lá para um lugar chamado “tropa”.

 

Próximo dos meus três anos, recebi a notícia, dada pela minha mãe e pelos meus avós maternos, com quem vivia, que o meu pai ia, finalmente, chegar da tropa.

 

Chegou. Fomos todos esperá-lo às Pedras Salgadas.

 

Foi a primeira vez que vi o meu pai.

 

E o comboio.

 

Durante os vários anos da minha meninice, vá lá saber-se porquê, repetia a cada passo: “A tropa é má... o comboio é bom”.

Francisco Preto

 

 

In “Memórias de uma Linha – Linha do Corgo – Chaves”, Agosto de 2014

Edição Lumbudus – Associação de Fotografia e Gravura

 

Fotografias – Propriedade e direitos de autor de Humberto Ferreira (http:outeiroseco-aqi.blogs.sapo.pt)

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Terça-feira, 12 de Janeiro de 2016

2 - Chaves, era uma vez um comboio…

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Depois da apresentação desta crónica na semana passada, é tempo de passarmos aos textos que constam no livro “Memórias de uma Linha – Linha do Corgo – Chaves”, publicado em Agosto de 2014 pela Lumbudus, Associação de Fotografia e Gravura, bem como as fotografias que o ilustram. Hoje fica a introdução ao livro que, em resumo, conta um pouco da história dos caminhos de ferro em Portugal e em particular da Linha do Corgo, que iniciava na Régua e terminava em Chaves.

 

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CHAVES

 

Cedo divulgado como meio de transporte de pessoas e bens o caminho de ferro surgiu em Portugal na segunda metade do século XIX pela necessidade de construção de vias de comunicação, tal como já vinha sucedendo em diversos países europeus.

 

Em 1844 surge a Companhia das Obras Públicas cujo principal objectivo era dotar o país de meios de comunicação capazes de ligar Portugal à Europa. O caminho de ferro foi o meio que obteve maior consenso por parte da sociedade política, económica e intelectual portuguesa.

 

É, em 1851 com Fontes Pereira de Melo, que se encontram reunidas as condições para o início deste modo de transporte em Portugal, cuja inauguração decorreu em 28 de Outubro de 1856, entre Lisboa e o Carregado, na distância de 36 km.

 

Em 1877, com a construção da Ponte Maria Pia pela Casa Eifell, o Porto e Lisboa ficaram ligados por comboio.

 

A rede ferroviária a norte do rio Douro, construída pelo Estado – Direcções do Minho e do Douro – iniciou-se em 1875, com a abertura das Linhas do Minho e do Douro.

 

A Linha do Corgo como complementar da Linha do Douro foi construída em via métrica. Em 1907, o comboio chega a Pedras Salgadas, em 1910 a Vidago e finalmente a Chaves, em Agosto de 1921.

 

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 CP0002 – Locomotiva: CP E205, Data:1972, Local: Chaves, Portugal, Slide 35mm

 

Recentemente, o Município de Chaves recuperou e valorizou o antigo espaço ferroviário local, transformando o antigo edifício da estação em espaço sócio-cultural e o cais de mercadorias em galeria de exposições.

 

O museu aqui integrado ocupa uma antiga cocheira de carruagens.

 

A estação de dois pisos, edifício emblemático da arquitectura ferroviária, é decorada com azulejos de motivos florais que contornam a base do edifício e enquadram a fachada da estação.

 

O visitante inicia o seu percurso no espaço exterior, tomando contacto com os componentes de via estreita e material circulante para mercadorias, dois vagões de bordas baixas.

 

No interior o visitante encontra material a vapor que circulou na linha do Corgo.

 

A locomotiva de via estreita E 161 construída em 1905 pela Henschel & Sohn que inaugurou o primeiro troço da Linha do Corgo entre Régua e Vila Real em Abril de 1906.

 

A Locomotiva E41 foi construída em 1904 por Hohenzollern que foi utilizada nos trabalhos de construção da Linha do Corgo. Podemos ver os vários componentes da locomotiva, bem como os instrumentos de lubrificação.

 

A Locomotiva E203 foi construída pela Henshel & Sohn, em 1911 adquirida pelos Caminhos de Ferro do Estado (Minho e Douro), e da qual podemos observar alguns pormenores.

 

Em 1927 a CP procede ao arrendamento das Linhas dos caminhos de Ferro do Estado - Minho e Douro e Sul e Sueste e subaluga a Linha do Corgo à Companhia Nacional dos Caminhos de Ferro.

 

Em 1947, num processo de gestão unificada do caminho de ferro nacional, todas as linhas passaram para a CP, com a excepção da Linha de Cascais, que continua alugada à Sociedade Estoril.

 

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CP0001 – Locomotiva: CP E205, Data:1972, Local: Não identificado, Portugal, Slide 35mm

 

Exemplo das múltiplas funcionalidades e contributos do caminho de ferro na vida das populações e do país, a Ambulância Postal, conhecida como comboio correio de 1954. Destinava-se ao transporte do correio. Durante a viagem os funcionários, que pertenciam aos CTT, procediam à separação do correio por localidades, funcionando este comboio como uma verdadeira estação de correios.

 

Intrínseca à circulação ferroviária, a inspecção da via é retratada no quadriciclo a motor fabricado na Alemanha no início da década de 30, utilizado pelo Inspector de Via.

 

Utensílios oficinais como uma bigorna, macaco fazem parte da colecção do museu e induzem no visitante o ambiente oficinal.

 

O chefe da estação e os utensílios a ele relacionados estão patentes na recriação de um gabinete.

 

A segurança, indissociável do modo de transporte ferroviário, é representada pela sinalização.

 

Armando Ginestal Machado, ferroviário que estará para sempre associado à museologia ferroviária, contribui para a preservação e valorização do património ferroviário nacional.

 

Por força da directiva comunitária 440/91, a infra-estrutura ferroviária e a exploração do transporte por caminho de ferro, passam a ter gestões separadas, invertendo-se o sentido da Lei 2005 - lei da Coordenação de Transportes de 1945.

 

Em 1997 a infra-estrutura passou a ser gerida pela REFER, e a exploração foi confiada à CP. Ao mesmo tempo, autonomizam-se várias actividades e surgem as Unidades de negócio.

 

É a abertura de um novo ciclo no caminho de ferro, numa época de globalização, que exige novas formas de gestão, de parcerias e de cultura, em que o passado é uma referência histórica e um cumular de experiências dignificado pela museologia.

 

No Museu, nós damos-lhe tempo… Um tempo histórico – referência cultural e afectiva do transporte do futuro que honra e preserva um passado que nos conduziu até hoje!

 

Texto cedido por Ana Sousa – Comboios de Portugal, E.P.E.

 

In “Memórias de uma Linha – Linha do Corgo – Chaves”, Agosto de 2014

Edição Lumbudus – Associação de Fotografia e Gravura

 

Fotografias – Propriedade e direitos de autor de Humberto Ferreira ( http:outeiroseco-aqi.blogs.sapo.pt )

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Quinta-feira, 7 de Janeiro de 2016

1 - Chaves, era uma vez um comboio…

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1 - Chaves, era uma vez um comboio…

 

No sangue dos flavienses, para além do rio Tâmega, há outros rios que contribuem para a sua fluidez. Um que corre feito com um tantinho de nevoeiro e outro tanto de água das caldas, outro com um cheirinho do Brunheiro e os aromas de um pastel de Chaves, entre outros ingredientes q.b. para temperar o sangue deste vale. A contrariá-lo só mesmo os maus ventos, e não são aqueles que costumam andar na boca do povo: - “de Espanha, nem bons ventos, nem bons casamentos”. Esses são castelhanos. Os nossos, quando muito seriam galegos, que sim, fazem um frio de rachar quando à galega lhe dá para parir, os mesmos que ajudam a fazer a cura dos nossos presuntos e fumeiro, pelo que até devemos ficar agradecidos por esse frio de rachar, que, se chegassem até Lisboa, a capital entrada logo em estado de emergência de alerta VERMELHO, mas que nós suportamos por estarmos habituados. Não, nenhum desses ventos nos incomodam a têmpera, os únicos que incomodam são os que sopram de Sul, dos fecha a roda de Vila Real, tanto, que até o nosso Tâmega quando chega a Vidago começa a desviar-se para o Minho, só para não ter de passar por lá.

 

1-chaves - 1921.jpgChegada a Chaves do primeiro comboio – 28 de agosto de 1921

 

Mas o que é que todo este palavreado tem a ver com o comboio? – Calma que já lá vamos. Regressemos de novo aos fecha a roda. Quis o destino que quando fui mobilizado para o serviço militar obrigatório o meu destino fosse Vila Real. Como se não bastasse ser obrigado a ir à tropa, ter de interromper os estudos e abandonar a minha cidade, das largas dezenas de destinos possíveis, tinha de me calhar logo Vila Real. Azar o meu, mas por pouco tempo, pois havia um destino mal amado, onde só iam parar os castigados, contestatários e afins que por sinal aceitava voluntários – os Açores. A decisão não foi difícil de tomar, pois entre ter de ficar em Vila Real a 60 km de casa e a de ter de ir para o meio do Atlântico a 2000 km de casa, optei pelo mar, e lá fui eu de voluntário para Angra do Heroísmo, na Ilha Terceira.

 

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Bom, direis vós outra vez, e o que é que isto tem a ver com o comboio? – Pois, além de ter ido de comboio de Vila Real até Lisboa para apanhar o avião para a Ilha Terceira, nada ou quase nada, porque os Açores nem sequer têm comboio e é aí que eu queria chegar. Então é assim: Um certo dia uma camarada meu de tropa, natural a ilha de S.Miguel foi mandado para o continente para tirar um curso qualquer, que não recordo, e que até nem tem importância para a história. Curso esse que era ministrado em Coimbra. Da Ilha Terceira a Lisboa a viagem de avião C-130 Hercules não era novidade nenhuma para quem entre ilhas estava habituado a viajar de avião, a novidade só chegou quando o meu camarada de tropa teve de apanhar o comboio de Lisboa para Coimbra e vice-versa, no regresso. Tanta foi a novidade que quando ele, no bar da tropa, se punha a falar do comboio do continente, havia logo uma roda de camaradas de tropa para ou ouvir falar dos encantos do comboio. – “Aquilo tem bar, corredores, casas de banho e vai a uma velocidade que se olharmos para fora até perdemos o tino e vemos tudo a andar…”. Para rematar, quando eu estava por perto, ainda acrescentava: - “ e eu, quando vou para a minha terra, costumo ir na varanda do comboio”. Embora fosse verdade, penso que nunca me levaram a sério. Ora finalmente chegamos ao comboio e ao que falta no primeiro parágrafo deste texto, é que para além do rio Tâmega, do nevoeiro, dos pasteis, do presunto e das águas das caldas, também o comboio fazia parte do nosso ser flaviense e, embora texas, sentíamos orgulho por termos comboio e fazermos parte da rede ferroviária nacional. Mas de pouco nos valeu, pois o comboio foi o primeiro roubo que Lisboa (Cavaco Silva) nos fez, e a linha do Corgo, em vez de ser modernizada como se pedia,  foi das primeiras a fechar para dar lugar ao negócio das autoestradas e outros negócios dos amigos dos transportes.

 

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Hoje do comboio para além das saudades e das recordações, resta-nos um museu e a antiga Estação convertida em edifício municipal. Um museu que, pelo significado que o comboio teve para Chaves, merecia mais dignidade, mas, fiquemos agradecidos só por existir.

 

 

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Chaves, oficinas, 1972

 

Com isto inicio aqui uma nova crónica no blog Chaves, que não irá ter dia marcado, antes, irá colmatar a ausência de uma ou outra crónica que não chegou até nós no dia marcado. Também não sei quanto tempo durará, mas pelo menos ficam garantidas 14 crónicas, tantas quantos os textos que constam do livro “Memórias de uma Linha – Linha do Corgo – Chaves”, publicado pela Lumbudus – Associação de Fotografia e Gravura em agosto de 2014, com fotografias cedidas por Humberto Ferreira, que detém os direitos de autor sobre as mesmas.

 

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O comboio a passar junto ao antiga matadouro, com Chaves ao fundo

 

Pois então, quando menos esperarem, cá estarei de novo com mais comboio, o nosso velho e saudoso texas, e pela certa que iremos além daquilo que está publicado em livro.

 

 

 

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Sexta-feira, 8 de Maio de 2015

Chaves, duas imagens com regresso ao passado

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De vez em quando gosto de recordar as coisas do passado, não só porque me levam até aos bons tempos dos sonhos ou da juventude mas também porque me ajudam a compreender este triste fado de orgulhosamente ser português.

1600-4189

 

 

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Terça-feira, 26 de Agosto de 2014

O Velho Texas está de regresso

O post de hoje fica para mais logo. Para já fica um convite para os amantes dos comboios, sobretudo do nosso comboio da linha do Corgo que desde 28 de agosto de 1921 a 1 de janeiro de 1990 percorria várias vezes ao dia o percurso entre a Régua e Chaves, e vice-versa.

 

É, a LUMBUDUS, Associação de Fotografia e Gravura aí está com mais uma exposição de fotografias, esta com várias composições do comboio que ao longo de 68 anos percorreu a Linha do Corgo. 50 fotografias mas também o lançamento de um livro com fotografias e textos de vários autores contando as suas memórias sobre o comboio. Mas não se fica por aí, pois também será lançada uma coleção de 12 postais e um crachá comemorativo, tudo a lançar no dia do aniversário da chegada do comboio pela primeira vez a Chaves.

 

A inauguração da exposição fotográfica “ Memórias de uma Linha – Linha do Corgo”, acontecerá na próxima quinta-feira, dia 28 de agosto, às 18 horas, na Sala Multiusos do Centro Cultural de Chaves, altura em que serão também lançados o livro, os postais e o crachá atrás mencionados.

 

A exposição só possível graças ao espólio de um Associado Lumbudus e é apoiada pelo Turismo de Portugal, pela Câmara Municipal de Chaves e pela Associação Chaves Viva.

 

 

Mas não é tudo, pois esta exposição estará em duas frentes, a segunda a acontecer também na próxima quinta-feira, no Restaurante – Pizzeria TESTAROSSA, na Rua do Sol, 51 em Chaves, com inauguração prevista para as 19H30, com uma mostra fotográfica, onde estarão também disponíveis alguns livros, postais e crachás.

 

Se gosta de comboios e tem saudades do nosso antigo texas não perca esta exposição, mas também o livro com muitas memórias contadas na primeira pessoa, uma interessante coleção de postais e o crachá comemorativo.

 

A LUMBUDUS conta com todos!

 

 

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Sábado, 14 de Abril de 2012

Curalha - Chaves - Portugal

 

Sempre que posso dou um pulinho ao nosso mundo rural à caça de fotografias. Quando o tempo não é muito, tenho que me ficar pelas terras mais próximas de Chaves e que convidem sempre a uma fotografia.

 

 

O nosso Rio Tâmega, embora não com tanta saúde como desejaríamos, vai convidando sempre para umas imagens, mas se lhes juntarmos as quedas de água e os moinhos, então aí o convite terá que ser obrigatoriamente aceite, mas não só, pois também os pormenores da envolvência convidam sempre a um clique.

 

 

Claro que se falamos em Rio Tâmega e moinhos temos que obrigatoriamente ir para a Curalha, uma freguesia que está na lista negra das freguesias a abater com a reforma administrativa anunciada. Há dias, o PJ, dizia-me que tinha uma promessa de que Curalha estaria fora da lista, mas como a promessa era de político e eles (políticos) fazem questão de não as cumprir com toda a lata e desvergonha, mais vale que os de Curalha não baixem os braços na sua luta de manutenção de Freguesia.

 

 

Mas isto até são contas de outro rosário, porque hoje o que quero mesmo é deixar-vos as imagens e que sabe se não abrem o apetite a uma visita, daquilo que se vê da estrada mas que quase nunca se para se descer até ao rio para deleitação dos pormenores. Acreditem que por muito breve que seja a visita, vale a pena, claro, isto contando que é amante das coisas bonitas que a natureza oferece e a sua urbanidade lho permite. Mesmo se não permitir, contrarie-a e vá por aí.

 

 

Em Curalha temos ainda o extra de  um autêntico museu do nosso velho e saudoso “texas” que embora seja propriedade privada, porque felizmente ainda há gente que gosta e se preocupa com as nossas memórias e património, preservando-as e cuidando-as, podem ser vistas da estrada ou do caminho de acesso a um dos moinhos sem ter que invadir propriedade privada. É um regalo para o olhar e para a saudade, pena que não saia da estação a todo o vapor, porque, como já aqui foi contado, quem o poderia permitir não o quis e todos lamentamos, mas, infelizmente enfim, já lhe conhecemos a raça rafeira, e tal como diria o outro, sem ofensa para os cães.

 

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Terça-feira, 6 de Julho de 2010

Pedra de Toque - A Praia dos Flavienses - Por António Roque

 

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"A Praia dos Flavienses"

 


O despertador tocava forte, ainda o dia estava longe de clarear.

 

E acordava toda a gente da casa, que excitada pela viagem não conseguira a profundidade do sono.

 

Os mais velhos eram os primeiros a largar a cama e numa de bondade, enquanto ultimavam as malas e as merendas, permitiam mais uns minutinhos de preguiça à miudagem.

 

Depois vinha o alvoroço, a azáfama na casa, o comer ou não comer qualquer coisa, importante para evitar o enjoo, a correria escadas a baixo em direcção à rua, rumo à estação, não fosse o comboio partir ...

 

Os grandes malotes de porão, cheiinhos de lençóis, cobertores (na Póvoa à noite refresca...), pratos, tachos e panelas, seguiam antes para despacho na carroça da velha Pássara.

 

Em grupo, quais peregrinos, atravessávamos a cidade, que quási findava no Monumento, onde nascia o cheiro do comboio que na estação fumegava.

 

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Mas nas narinas levávamos também o sabor da maresia que ficara do ano anterior, o gosto do picadeiro que iríamos percorrer na neblina do Passeio Alegre, o som da ronca do Cego do Maio olhando as ondas e a espuma deste país de marinheiros.

 

A viagem longa era uma vertigem festiva com o comboio acordando com o seu apitar estridente, gentes, animais, vales e montes por onde, lindo serpenteava.

 

A carruagem era um deslumbrante miradouro em movimento, onde cantávamos, riamos e atacávamos a fome nos suculentos farnéis.

 

Na Régua acontecia o primeiro e inevitável transbordo.

 

O comboio era outro, as pessoas eram outras e diferentes, a viagem decorria mais célere.

 

Já passava da uma da tarde - a partida de Chaves tinha acontecido ás seis da manhã - quando, após o túnel que infundia temor e respeito aos mais novos, vislumbrávamos a monumental Estação de São Bento, na cidade grande, onde depois do chiar dos freios e do último solavanco, o comboio definitivamente parava.

 

Mas a odisseia ainda não terminara.

 

Era preciso atravessar a baixa portuense até à Trindade, o que devido à bagagem (toda a espécie de sacos e saquinhos), só em táxis se podia concretizar.

 

Chegávamos então ao último troço da aventura.

 

A Póvoa estava perto.

 

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Mais uma hora de comboio desta vez mais rápido e nossos olhos pousavam no mar infindo e azul.

 

A tarde já ia a meio, quando a senhora da casa alugada nos recebia.

 

Nas arrumações necessárias, estorvávamos mais do que ajudávamos.

 

Em pulgas, corríamos ao mar para molhar os pés em água fria e salgada, trepar e correr nas areias brancas.

 

As ruas da Póvoa esperavam-nos e nós procurávamos caras conhecidas, os cartazes dos filmes que o Póvoa Cine e o Garrett exibiam e sobretudo os olhos da jovem que no último Agosto se grudaram à nossa memória afectiva.

 

A mãe, a avó, as tias e a criada (o pai e o avô só chegariam no fim de semana), nesse dia não tinham tempo para fazer a janta.

 

Comia-se o muito que sobrara da farta merenda acrescida com a panocha adquirida em Valongo, regada pela água fresquinha da bilha comprada na Régua.

 

O sono chegava cedo, embalado pelo cheiro do mar e pelo cansaço da euforia da viagem.

 

No dia seguinte, começavam as férias inesquecíveis na Póvoa do Mar, a Póvoa do Varzim, a Praia dos Flavienses.

 

 

 

António Roque

 

 

 

 

 

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Domingo, 9 de Maio de 2010

Em memória do velho texas e da linha do Corgo em Chaves - Portugal

 

 

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A saudade e a memória andam quase sempre de braço dado, pois assim seja. Hoje é por aí que vou: Saudade e Memória de um comboio que carinhosamente lhe chamávamos Texas.


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Quase desde bebé  e até que o velho Texas (já a diesel) deixou de existir retenho na memória largas dezenas, talvez centenas, de viagens que fiz por essa linha do corgo fora. Partidas desde Chaves até Parada do Corgo (terra do meu pai) e vice versam, eram frequentes, várias vezes por ano. Até à Régua (e vice-versa), entre algumas, retenho a grande viagem que fiz pela segunda vez com 7 anos de idade. Até Vila Real, algumas viagens semanais durante o tempo de tropa. Tantas, que o Texas quase fazia parte da minha vida das pequenas viagens deste Trás-os-Montes.


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Conhecia de cor as passagens de nível sem guarda, com guarda, as travessias das estradas, onde metia água, onde descansava, onde metia e deixava gente… eu sei lá!


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Foi durante poucos anos, já na sua morte anunciada, o meu despertar ou embalar do sono nas partidas das 5H30 (são da manhã as horas).

 

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Alegrias e desgraças (também as houve) o Texas fazia parte da vida flaviense. Era o nosso Texas, final de linha, que trazia até nós gentes de fora, gentes de cá, militares, mercadorias e até malucos que diziam embarcarem no Porto tipo encomenda para desaguavam em Chaves.


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Pouca-terra-pouca-terra, truz-truz seguido de apitos estridentes a fazer-se anunciar enquanto semeava faúlhas de fogo e fumo espesso por todo o lado, faziam do Texas as delícias de turistas e não só, de um acompanhar a paisagem à varanda e, descidas e subidas em todas as estações… Saudades e memórias de todo um Texas que durante anos a fio fez o transporte, delícias e ligação até (o então) nosso Portugal.


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Ficou velho, velhote, ultrapassado, nem o diesel foi a sua salvação e à boa moda que hoje ainda se pratica, em vez de se modernizar e adaptar aos novos tempos, ditou-se a sua morte e aos poucos,  o encerramento da linha do Corgo. O seu carrasco tem nome e hoje até é Presidente da República que dá pelo nome de Aníbal Cavaco Silva, mas não é o único, pois também o poder local por essa linha do Corgo acima (ou abaixo) não mexeu uma palha para manter e fazer força para modernizar a linha e o comboio, aliado a outros lobbies (que os houve pela certa) dos transportes e transportadores por estrada. Com uma decisão de Lisboa, ainda por cima de Economista que até ensinava na universidades, acabou-se com aquele que está provado ser o melhor meio de transporte de pessoas e mercadorias. Começou aí o desprezo pelo interior  norte transmontano que se viria a repetir noutras linhas com o fecho sucessivo de vários troços até à morte final e noutros encerramentos vitais para o viver democraticamente em igualdade.


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Hoje fala-se em TGV e, por muita crise que haja não se prescinde dele. Ilusões e a mania de parecer-mos e queremos ser grandes, mesmo que esteja provado que é para dar prejuízo e contribuir para a nossa desgraça, mas insiste-se no TGV, talvez para levar a Inês de Medeiros até Paris e outros políticos que tais pagos por todos nós, enquanto que o interior norte, desgraçado, já sem pérolas e anéis nos dedos, cada vez mais é saqueado nos recursos que temos (vêm aí as barragens para sugar e matar o Tâmega) enquanto esquecidos e desprezados em termos de saúde, ensino, cultura,  agricultura e sobretudo, futuro, mesmo que,  aqueles que nos deveriam defender em Lisboa, como a Srª Deputada flaviense (!?) e o Pavão de Castelões,  digam que tudo vai bem no reino da Tamagânia…. com a qual fazem inchar o seu ego e vão vivendo com os dividendos e mordomias do poder à custa dos papalvos da paróquia…


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Pois hoje proponho-vos uma viagem não possível e sem qualquer partida ou regresso pela linha do Corgo acima/abaixo, ou o que resta dela, onde a custo ainda se consegue adivinhar ou rebuscar na memória que por aqui existiu um comboio, onde, com excepção para a estação de Curalha (Tâmega) que graças a um particular amante do Comboio preserva a sua memória, o comboio parece nunca ter existido e o que resta da sua memória está tristemente abandonado à espera que as intempéries acabem de vez com a memória do comboio no concelho de Chaves, nem para a preservação das antigas estações e apeadeiros há ou é demonstrado qualquer interesse. Dizem querer fazer da velha linha uma ciclovia como se a brincar com bicicletas de meia dúzia de adeptos se fizesse a memória de um comboio, quando, ainda é possível, senão termos de volta o comboio (bem  é possível, assim haja interesse e inteligência de Lisboa) pelo menos termos uma linha turística com o velho Texas a carvão de regresso, para fazer a delícia de muita gente. Imaginação e inteligência, pouca que seja, precisa-se!


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Loivos, Oura, Salus, Vidago, Campilho,  Vilarinho das Paranheiras, Vilela do Tâmega (em Moure), Curalha (Tâmega), Fonte Nova e Chaves, um troço de linha que tanto custou a fazer (em tempo e dinheiro) para o Sr. Aníbal numa decisão leviana com desprezo pelas gentes do interior,  tomada comodamente em 1989 desde S.Bento, no palácio do poder em Lisboa dizer: Feche-se!

Nunca esqueço quem nos faz bem, mas também não esqueço que nos faz mal. Mas a seguir a ele (Anibal) outros lhe seguiriam os passos, o último, chama-se Sócrates, para dar mais que razão à bocarra de “Portugal é Lisboa e o resto é paisagem”, principalmente Trás-os-Montes…


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Pois hoje em imagens, fica o que resta da nossa antiga linha do Corgo, os seus apeadeiros e estações (quase todos a caminho da ruína, nem a dignidade e memória do seu passado persiste), e à excepção da estação de Loivos, pois não sei nem nunca soube como lá chegar sem ser por comboio, uma estação, diga-se a verdade (pois tudo leva a crer tal) que foi construída graças a uma boa cunha, pois durante todo o meu tempo de utente da linha (praí 19 anos), o comboio fazia sempre a cerimónia de lá parar, mas nunca vi um único passageiro subir ou descer naquela paragem e, sempre mostrou o seu aspecto de abandono sem alma viva no edifício da estação. Coisas de cunhas, que os políticos tão bem conhecem para os da sua cor e que não são de hoje, pois sempre existiram, mas antes, estava instituída pelo alinhados ao regime, eram (digamos) legais, e hoje, embora oficialmente não exista e se repudie, quem não  tiver cartão do partido e não abanar a bandeirinha (seja qual for a cor), está tramado, é mais um a fazer número de percentagem no desemprego e do desespero.


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Fiquem então com aquilo que resta da memória de um comboio que existiu na linha do Corgo e que tinha fim de linha em Chaves, na estação, onde hoje se faz cultura com rapazes da Venda Nova e concertinas. Não sei porquê, mas preferia o meu velho Texas à cultura que lá se pratica…


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Para terminar. Sei que existe um Museu (armazém) do comboio, é certo, mas para uma cidade que gasta tanto com a imagem, festimagens e outros devaneios, um museu digno do comboio precisa-se, pois a grande maioria dos flavienses (já nem falo dos turistas) nem sequer sabem que existe um armazém do comboio.


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É tudo por hoje, aproveito esta última imagem para enviar uma carta a quem queira entender ou saiba ler aquilo que por aqui se escreve  com votos que passem bem o que resta deste fim-de-semana, pois amanhã  há mais!


 

Nota: Hoje não tenho (tive) pachorra para aplicar a cena do novo acordo ortográfico, continuo à moda antiga que também é actual.

 

 

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Quarta-feira, 6 de Janeiro de 2010

Até a feijoada falta num livro que não fala de nós

Hoje o post é composto de duas partes, uma primeira em que se fala das coisas boas da Europa, mas não falam de nós e a segunda em que falam de nós, mas em jeito de requien.

 

Primeira Parte, onde não falam de nós

 

Há quase um ano, via email, chegava à minha caixa de correio um pedido de utilização de uma das minhas fotos para publicação no “Atlas of European and Nom-European PDO, PGI, TSG Agri-Food Products”. Era uma foto compostinha de coisas boas, das nossas, com molhos de linguiças, alheiras e salpicões, dependuradas ainda num lareiro. Como era de comida e coisas boas que se tratava, aproveitei e mandei mais meia-dúzia de fotografias, com os nossos pasteis, o nosso presunto, folar, batatas, legumes, etc.  O Mauro Rosati/Qualivita (Autor e Associação), agradeceram o envio e prometeram-me que quando a publicação estivesse pronta, me enviariam um exemplar.

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Cumpriram e o exemplar do atlas cá chegou há uns dias atrás. 3,8 quilos de papel, 1190 páginas cheias de coisas boas de toda a Europa e não só. Claro que meti logo mãos à obra e toca à procura das nossas coisas boas, coisa que até nem foi complicada, pois o atlas está muito bem estruturado, separado por países e com indicações nos respectivos mapas das várias localidades que deram produtos para este atlas e em cada país as respectivas secções divididas pela tipologia dos produtos. Só a Portugal, são destinadas 128 páginas deste Atlas onde desfilam os mais variados produtos desde o Algarve a Trás-os-Montes. Mas a mim, o que interessava, eram mesmo os de Chaves…

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Foto de arquivo

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Comecei a procura por presuntos e eles começaram a aparecer: Presunto de Barrancos, Presunto de Barroso, P. de Campo Maior e Elvas, P. de Santana da Serra, P. de Vinhais, P. do Alentejo… deveria haver por ali algum engano, pois o de Chaves não aparecia. Voltei-me para os salpicões e da região apenas os de Barroso e Vinhais é que apareciam. Alheiras, só as de Barroso e Vinhais. Chouriças e chouriços, idem, só do Barroso e Vinhais…. Estranho, de fumeiro, nada de Chaves. Passei às carnes frescas e lá começa o desfile: Carne Barrosã, Carne de Bísaro, cordeiro de barroso, cabrito de barroso… de Chaves, zerinhos. Passei à fruta, vegetais e cereais onde só a “batata de Trás-os-Montes, castanha da Terra Fria e da Padrela, fazem a sua aparição – aqui, vá lá, da Padrela ainda nos toca um pouquinho e nós somos transmontanos, mas nada especificamente de Chaves. Passei a secção dos queijos e nada que nos interesse, talvez no mel: Mel da Terra Quente, Mel do Parque de Montesinho e Mel do Barroso – Por Chaves também não há mel. Passei à secção do azeite, azeitonas, bolos, doçarias, compotas e pasteis – por aqui, exceptuando o azeite de Trás-os-Montes, não há mais nada para a região. A seguir, no atlas,  vinha a Grécia, onde duvido que por lá haja produtos de Chaves.

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Foto de Arquivo

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Concluindo, dei comigo baralhado, confundido. Senti-me aldrabão e aldrabado. Senti-me humilhado e ofendido e se não fossem os produtos do Barroso e de Vinhais, durante uns tempos, nem dizia a ninguém que era transmontano e muito menos que por cá também temos dessas coisas todas, (das quais até vos deixo algumas imagens de arquivo que ainda há pouco trouxe por aqui como as coisas boas que a terra dá…) envergonhado mas orgulhoso, aldrabaria mais uma vez e diria antes, que aqui, estamos acima disso tudo e só consumimos enlatados do “lidele” e do “Lerque-lerque”, batata só da França, coisas modernas e só de exportação, que de coisas parolas já estamos fartos. Afinal somos duma eurocidade… havíeis  de ver que invejosos ficavam os nossos vizinhos que constam no Atlas das coisas boas!

 

Mas não fiquei conformado, afinal os rapazes do “Qualivita” até me pediram umas fotos das nossas coisas…teria que haver engano.

 

De novo peguei no altlas, agora com olhos de esmiuçar e à frente de cada um dos produtos, começo a ver as inicias de (PDO, PGI e TSG). Que raio seria isto!?

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Foto de Arquivo

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Como a internet tem tudo, numa pesquisa rápida lá foram aparecendo estas iniciais e os seus significados, que traduzidos para português de Portugal (por este andar, qualquer dia também desaparece das listas das línguas) teremos PDO = DOP; PGI=IGP e TSG=ETG e que são iniciais de:

 

PDO/DOP – Denominação de Origem Protegida

PGI/IGP – Indicação Geográfica Protegida

TSG/ETG – Especialidade Tradicional Garantida

 

Conclusão das conclusões. Chaves não fez o trabalhinho de casa na certificação dos seus produtos e como tal, para a Europa das regras, é como se eles não existissem e pelo andar da carruagem, qualquer dia,  nem sequer poderão ser comercializados ou produzidos. Sem carimbo, não há nada para ninguém, e depois sim, lá teremos que ir para os enlatados do Lerque, ou fazer excursões às terras barrosãs de Boticas e Montalegre para podermos comer qualquer coisinha de jeito e, para lhes fazer inveja, atirávamos-lhes então com a cena de sermos da Eurocidade Chaves-Verin, que de nós, ninguém se fica a rir!

 

Para terminar, quem quiser ver o tal Altlas da QUALIGEO - “Atlas of European and Nom-European PDO, PGI, TSG Agri-Food Products”, poderá seguir este link, onde está disponível formato PDF: http://www.qualivita.it/site/_page/Qualigeo_Atlas.pdf

 

Intervalo

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Foto de arquivo


Segunda Parte – Onde falam de nós

E já que falei atrás de carruagens, eurocidade e Verin, vamos até mais um bocadinho ao lado, até Orense, onde a Associación Cultural Foula acaba de publicar o 17º Boletim de Divulgación da Cultura Ferroviaria en Galicia – Cadernos de Istoria e Arqueoloxia Ferroviaria, com o título de capa “Linha do Corgo – Mirando a Galícía”.

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Também esta associação em tempos nos pediu (ao Blog Chaves Antiga) se podiam utilizar algumas fotos publicadas no blog, mais precisamente aquelas onde aparecia o nosso velho Texas. Claro que sim, dissemos-lhes, nem o poderíamos negar, pois além do blog estar constantemente a saque, não poderíamos negar fotos do nosso saudoso Texas para tão nobre causa, como o é esta publicação onde conta toda a história do velho Texas até à sua morte, bem como o aparecimento das “Xepas” e também a sua morte. As “xepas” tal como é explicado no boletim, foram as últimas automotoras a diesel que vieram substituir o velho Texas a carvão e adoptou este nome ou alcunha inspirada na telenovela brasileira “ Dona Xepa”.

 

Esta publicação é um interessantíssimo documento sobre toda a história da linha do Corgo, da linha estreita, boas fotografias e muito bem documentada onde não falta o velho projecto de ligação da linha a Verin, Xinzo de Limia, Allariz, Xunqueira de Ambia e Ourense, mas também alguns lamentos, onde não falta o lamento de João Morais, natural de Curalha e actual proprietário da velha estação do Tâmega, em Curalha “ un apasionado de este ferrocarril que ha intentado en numerosas ocasiones reabrir el tramo entre Vila Real y Chaves con fines turísticos, incluso haciéndose él cargo de los costes” – Já conhecíamos este velho sonho de João Morais como também conhecemos as portas que sempre lhe foram trancadas para a realização desse sonho, que afinal até é um sonho que muitos flavienses partilham, eu incluído.

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Foto incluida no Boletim nº 17 dos Cadernos de Istoria e Arqueologia Ferroviária

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Tal como consta na contra-capa desta publicação “ O TEXAS – Um Comboio de Legenda – Pela Reabertura da linha Vila Real – Chaves”. Eu também estou com os Carrilheiros de Foula nesta luta e agora que Chaves-Verin até é uma Eurocidade, porque não prolongar o trajecto até Verin e fazer-se assim um troço do velho projecto que ligava Portugal à Galiza.

 

Curiosa também é a pedrada no charco que estes nossos amigos galegos dos Carrilheiros de Foula e em particular os autores deste documento: Paco Boluda e Manuel Hernándes dão na história da Linha do Corgo que, simultaneamente, também é uma chapada na apatia flaviense. De todos os flavienses, incluindo os nossos políticos do poder e oposição, os nossos historiadores e o povo em geral, pois aquando do fecho da linha não houve uma única voz de protesto contra o seu encerramento, não houve qualquer projecto ou intenção sustentada de a manter ou futuramente reabrir com fins turísticos, não zelaram pela preservação de todo o património então existente e que foi tristemente saqueado, não fizeram a sua história e, nem sequer um museu digno temos do comboio em Chaves. Aliás do velho Texas, quase já nem há memória em Chaves e se resta, é apenas nos profissionais da saudade (também me incluo nesta classe).

 

Pois é, se no caso das chouriças e salpicões ficamos tristes por não constarmos no altas das coisas boas da Europa, neste caso do Texas, também deveremos ficar tristes, por terem de ser os nossos amigos Galegos a fazer a nossa história e as nossas reivindicações e, vamo-nos contentando por o nome de Chaves ainda aparecer nalguns mapas nacionais, que com aquilo que nos roubam associado ao marasmo flaviense, qualquer dia nem um ponto aparece lá aparece.

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Quanto aos Carrileiros de Foula, fica aqui um link para a o seu sítio na NET em www.carrileiros.com  o seu contacto: carrilleiros@hotmail.com ou o link directo para o boletim nº17 – Linhas do Corgo, Mirando a Galícia, onde está vertido todo o texto/documento dessa edição: http://www.carrileiros.com/Ferroviaria17.htm

 

Sem qualquer dúvida, um documento histórico que temos de agradecer a estes amigos dos comboios, que por sinal não são caso único e até têm muitos adeptos a nível internacional, principalmente quando se trata de comboios como o velho Texas.

 

Sonhar é sempre possível tal como ainda é possível ver o velho Texas a circular e, mesmo sem acreditar, acredito ainda que um dia será possível…

 

Fica também a promessa, se os autores deste documento sobre o Texas mo permitirem, trazer aqui toda a sua história.

 

Até amanhã

 

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 03:18
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Terça-feira, 6 de Janeiro de 2009

O Velho "texas" visto por Ajhammu0

 

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Há dias lia no Boletim Municipal que todos os anos, milhares de visitantes passam pelos vários espaços museológicos da cidade e que em 2007, por exemplo, tinham passado pelo Museu de Arqueologia, Arte Sacra e Militar, mais de 40 mil visitantes. Não duvido dos números quanto ao Museu Militar e ao de Arqueologia, porque sou testemunha que muita gente os visita, já duvido quanto ao Museu de Arte Sacra, pois das várias vezes que lá fui, nunca encontrei ninguém a visitá-lo e, diga-se que também não perdem grande coisa, por tão pobre que se apresenta.

 

Continuava o mesmo boletim, aliás até era título, que o Museu Ferroviário superava as expectativas no número de visitas e que durante o ano recebeu perto de 2.000 visitas. Este sim, é um museu que vale a pena visitar e apenas recebeu esse número de visitas porque não está tão divulgado assim e, poderia receber muitas mais, milhares, talvez até atingir ou ultrapassar o número de visitas ao Castelo se, calro,  o Museu Ferroviário fosse um museu vivo, com a locomotiva a circular e a composição de carruagens cheia de turistas, pelo menos entre as nossas duas estâncias termais de Chaves e Vidago. É um sonho meu desde sempre,  termos por cá o Texas a circular na antiga via estreita, mesmo que a auto-estrada em Vilarinho das Paranheiras já tenha feito os seus estragos, mas mesmo assim ainda é possível.

 

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Para iniciar esse museu vivo, a Câmara Municipal, suponho que em sintonia com a CP, poderia pelo menos ter uma composição completa do velho Texas, à vista de todos em espaço aberto. Digo composição completa, com uma locomotiva e pelo menos uma carruagem de 2ª classe, uma de 1ª classe e vagão de mercadorias descoberto e outro coberto, tal como circulou durante várias dezenas de anos na Linha do Corgo. Poderia muito bem ter sido integrado no espaço do Centro Cultural, como aliás ainda esteve previsto num dos estudos e não me venham com a treta de que é impossível ou complicado fazer um comboio completo e ao ar livre, pois um particular, a expensas próprias,  está a fazê-lo na antiga Estação de Curalha. Claro que por lá, para além do dinheiro,  há também muito amor investido no comboio e na estação que recuperou e preservou, preservando também assim a memória de passado. Amor que é coisa que por cá falta a muitos.  São apenas desabafos, mas realidades também, de um sonho que não é só meu, pois penso que a grande maioria dos flavienses tem saudades do comboio.

 

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Lamentámos, e eu sou um deles, que Lisboa nos tem para aqui esquecidos com as suas políticas centralistas ou pior que isso, convida-nos a ir para o litoral e grandes centros. Lamentamos sim senhor, mas também ninguém se queixa e vamos vivendo conformados com as perdas, e recordem, que começaram precisamente com o a perda do comboio. Excepção para a luta da população pela manutenção das urgências no hospital, mas, pelo que consta no seu próprio seio, hospital em Chaves tem os dias contados, e até talvez seja melhor assim, pelo menos perdemos a ilusão de ter um Hospital que só faz de conta que o é. Mas há que ter esperança, pois ao que consta por aí no diz-que-diz, vai ser um flaviense (ou já o é) a ocupar a chefia da região norte da saúde. Pode ser que com ele tenhamos de regresso um Hospital a sério, mas o mais certo, é que diga “ámen!” às políticas de Lisboa e venha a ser um flaviense o seu carrasco. De e em políticos, tem que se esperar de tudo, principalmente o mal para as populações do interior.

 

Mas voltemos de novo ao comboio e aos olhares de hoje que mais uma vez os descobri no Flickr. São de autoria de Ajhammu0, é este o seu nick e fora isso, apenas sei que é um inglês de Lancaster e que passou por Chaves em finais de Setembro do ano passado, e que de cá, apenas tem na sua galeria fotos a antiga estação e as “máquinas” do museu ferroviário. Curiosa é a o título/legenda que deixa na foto da estação: “ Chaves, Portugal. The  Train Station but the trains no longer run, “a conspiracy” the táxi driver told us.”.

 

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Não sei se é o caso do nosso convidado de hoje, mas há a nível mundial um turismo de qualidade que percorre milhares de quilómetros e continentes à procura de passeios nos velhos comboios com locomotiva a vapor. Aliás, ainda deve estar presente na memória de muitos utilizadores do nosso antigo Texas a carvão, os turistas que entravam na Régua, todos pipis, vestidinhos de cor clara e só saiam em Chaves, todos farruscos, porque entretanto pelo caminho tomavam a máquina de assalto. Farruscos, mas felizes. Esta felicidade ainda podia durar por aqui.

 

Entretanto vamo-nos contentando com o museu ferroviário, mas insisto em que poderíamos ter por cá um museu vivo e linha entre Chaves e Vidago ou pelo menos, um comboio completo e ao ar livre, e quem sabe se até poderiam por a máquina a funcionar, pelo menos para fumegar e apitar pi-pi!. Gente interessada não falta e, estou em crer, que até na CP poderá haver interessados em que tal aconteça, cabecinhas por lá não faltam, mas claro, terão de ser pensadoras!

 

Quanto ao nosso convidado de hoje, o Ajhammu0, deixo como de costume linck para a sua galeria do flickr, que andou por Portugal, e ao que se julga pelas fotografias, bem mais interessado em fazer turismo pelo nosso interior do que pelo litoral ou grandes centros (excepção para o Porto cidade), só em Lisboa é que não entendem isso.

 

Galeria de fotos de Ajhammu0 aqui: http://www.flickr.com/photos/thecolchesterkid/

 

 

Até amanhã!

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publicado por fernando ribeiro às 03:11
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