A neve não é de hoje, mas até podia ser pois a lareira está acesa e lá fora o frio diz-nos que por ai à volta, nas serras mais altas, há neve de certeza, embora maio já caminhe para junho. Mas a razão desta primeira foto é para trazer aqui umas palavras de Torga, que pela certa foram inspiradas ou mesmo escritas na proximidade desta imagem.
Mairos, Chaves, 1 de Setembro de 1989
Quanto mais chegado a Espanha, mais eu gosto de Portugal. Nestas terras raianas a pátria sente-se nos pés. Quando ela acaba, o piso é outro.
Miguel Torga, in Diário XV
Palavras de Torga que irão passar por aqui muitas vezes. Lá para o próximo mês este blog fara uma pequena remodelação. Entrarão novos autores, imagens de outros fotógrafos e Miguel Torga terá aqui um espaço semanal. Já que a cidade não presta a devida homenagem àquele que sem qualquer dúvida é o maior poeta de Portugal, este blog irá trazê-lo aqui todas as semanas com aquilo que ele dizia de nós e, podem crer que não há ninguém que melhor nos conheça ou conheça Portugal como ele conheceu.
Mas Torga e alterações ao blog só para junho e já quando ele caminhar para julho, entretanto vamos mantendo o blog como até aqui, mas pode ficar desde já prometido que o mundo rural flaviense continuará a ter aqui lugar aos fins-de-semana.
Entretanto hoje vamos mais uma vez até Mairos e com alguns dos seus motivos de interesse, como o interessantíssimo peto que penso nunca aqui ter trazido. Mas nunca é tarde e se não fosse hoje seria para uma próxima vez.
Ficam também mais palavras de Torga. Palavras que ao serem lidas se transformam em imagens que tive a sorte de ver e de viver, por isso também mais sentidas “que nem podem imaginar nem a fundura, nem a santidade”, mas sobretudo palavras que são documentos:
Mairos, Chaves, 4 de Setembro de 1990
Despeço-me supersticiosamente da paz do planalto em restolho. O sol morre nos confins dos horizontes, as charruas dormitam, cansadas, à beira dos caminhos, manadas de vacas arrastam placidamente o amojo a caminho da ordenha, e o meu silêncio apreensivo como que cumplicia os companheiros numa comunhão cósmica de que não podem imaginar nem a fundura, nem a santidade.
Miguel Torga, In Diário XVI
Miguel Torga, in Diário XVI
O vendedor da banha da cobra
Juventino de sua graça, levava uma vida flauteada!
De borgeço nada tinha, pelo contrário! Era senhor de uma lábia descomunal. Engrampava o mais pintado!
Cirandava de feira em feira, por esse país afora no seu Citröen Big Fifteen, impingindo a banha da cobra. À quarta não perdia a de Chaves!
Bem parecido, o Juventino possuía um invejável porte atlético. Trajava quase sempre de negro. Casaco lustrado, camisa de colareta, colarinho postiço engomado, calça de risca ao fundo e polaina branca. Calçava bota fina e na cabeça um chapéu de feltro às três pancadas, comprado no mestre Alves da rua Direita.
Lesto no gesto e franco na rima, era dotado de um olhar fuzilante, quase mítico, que inebriava qualquer mortal que se dispusesse a fitá-lo. Cultivava um bigode à Salvador Dali e uma barbicha rala, que lhe emprestavam o ar misterioso que convinha ao ofício.
Pernoitava onde calhasse e ninguém sabia de onde vinha ou onde pendurava o pote! Conhecia Seca e Meca, onde comer à tripa forra, onde a pita punha fora, onde se encontravam as fêveras mais tenras e de melhor tempero e as melhores arganas do bacalhau da Noruega. Enfim, conhecia os mais recônditos lugares que lhe faziam a vida bela!
Contudo, a cidade das águas de Flávio era a sua verdadeira paixão.
Na princesa do Tâmega aparcava o Big Fifteen onde o povo se juntasse. Escancarava a mala de cartão sobre o tejadilho do carro. Emplouricava-se numa banca de três pés e dava início à sua saga. Assim rezava:
− Ó meu pobo, chigou o Juventino, trago aqui romédio, p’rá menina e p’ró menino!
Chegaide-vos ó p’ráqui e topai cura p’ró mal, tanto faz seja de gente, como de qualquer animal!
Reco, reca, cabra ou burra, cabalo baquinha ou touro, cristão de Nosso Senhor ou mesmo até se for mouro!
Tenho dentro desta mala, feito do unto da cobra, um romédio milagroso, que bos cura até a sogra!
E se não acreditaides, povo da minha afeição, chegaide-bos p’rá minha beira, que bos dou a explicação!
P’rás impiges, p’ró mau olhado, ou para um pé todo cagado! P’rás doenças do miolo, ou mesmo p’rá ranheira, esta pomada marela cura até a caganeira!
P’ró saramplo e p’rás bexigas, mesmo até p’rá escarlatina, a desta lata bormelha, é p’rás regras da menina!
Tem a espinhela caída e não sabe o que fazer? Pegue lá, lebe lá esta, que melhor não pode haber!
Comeu, ficou enfartado, é achacado à lombriga, tome então esta latinha, para esfregar a barriga!
Doem-l’as cruzes, o peito, tem pisaduras, berrugas, lebe esta pomadinha, que lhe ebita as sanguessugas!
Tem tremuras e arrepios, peida que nem um boubelo, esfrague então a suas nalgas com este frasco marelo!
Torcicolos, urticária, febre dos fenos, malária, dor de corno ou artrose, saro até a esquelerose!
E mesmo até que à distância, os seus olhos beijam mal, esfrague a menina do olho com o unto deste animal!
Tem insónias, dói-lhe a brilha, caga fininho albezes, tome este romédio santo, que lhe engrossará as fezes!
Tem dor de dentes, ou nerbos, sonha e não queria sonhar, masture este pó com áuga e beba antes de deitar!
Sofre de entorses, terçolhos, nascem-lhe crabos na mão, o romédio é milagreiro, p’ra calquer aflição!
Tome lá pau-de-cabinda, desta caixa cor da prata, masture num copo de tinto, e furará uma lata!
Mija às pinguinhas, nos socos, tem convulsões ao dormir, esfrague no peito a pomada e escusa de se afligir!
A sua filha emprenhou… ó que sorte do catancho, esfrague-lha a bouba com esta, terá logo um desmancho!
Os romédios milagreiros que estou aqui a bender, não custam quinze nem binte, olhe nem dez, benha ber!
Lebe dois, pague só um, estou aqui é p’rá desgraça, e quem quiser levar cinco, ofereço dois e de graça!
Pegue lá meu caro amigo, e outro p’rá’quele senhor, binde pobo, binde todos, pois sois bós o meu pinhor!
E por aí fora!..
A verdade é que vendia quanto levava e quanto mais tivesse!..
O sucesso era tanto e as reclamações tão poucas, que um dia, nos Santos, em plena feira do gado, fez o negócio da sua vida. Assim se conta:
A feira do gado nos Santos, como todos devereis saber, tinha lugar no terreiro do Tabolado e fazia-se a 31 do mês de outubro de cada ano. Portanto, todo o agricultor ou negociante que aportasse à cidade das bandas da margem esquerda do Tâmega, nomeadamente das aldeias do Brunheiro, tinha, inevitavelmente, de atravessar o Tâmega pela ponte de Trajano. Muitos, indo manso o rio, venciam-no pelas poldras que sempre ficava mais perto. Mas só gente, pois os animais não se atreviam a tal façanha. Fora isso, eram largas as centenas que atravessavam a ponte romana todos os santos dias para se fazerem à baixa da cidade.
Certa ocasião, pese embora o Juventino não ser dado a grandes literaturas, pegou, por mero acaso, num velho alfarrábio de história que topou no quarto de numa pensão rasca em Braga. No cartapácio leu que na ápoca medieval, quem quisesse atravessar o Cávado pela velhinha ponte de Prado, ainda que fosse peregrino dos Caminhos de Santiago, teria que pagar uma certa quantia de portagem.
Esta ficou-lhe na ideia!
Assim, numa bela manhã de um 31 de outubro, na dita feira do gado, montou o estaminé ali pela foz do Ribelas, junto a um dos poços das águas cálidas, como habitualmente. Puxou da sua lábia de artista e ainda a manhã não tinha acabado e já o produto estava esgotado. Era a maré propícia ao negócio que há muito sonhava, mas que nunca tinha tido ocasião de realizar. O dia era azado, uma vez que os feirantes tinham os bolsos bem forrados de notas de cem mil réis.
À sua volta, ainda se encontravam alguns matarruanos negociantes, escravos genuínos do vil metal. Verdadeiros mãos-de-vaca, estavam a pedi-las!
Entre o escasso povo, encontrava-se o Terebentino de S. Cibrão, conhecido pela nomeada de caga notas. Homem feito de grossa casca, cismava-se o melhor negociante do Planalto. Gabava-se mesmo de nunca ter sido enganado por ninguém. E cheirando-lhe ao pilim estava lá, qual abutre à roda da carniça.
O Juventino tirou-lhe as medidas e, adivinhando-lhe o bolso untado, lançou a isca:
− Binde cá amigos meus, bou-bos agora oferecer, um negócio sem igual, não debeis de o perder!
Não é casa nem é bouça, o que bos quero bender, é simplesmente um negócio que vos fará enriquecer!
Bós bem me conheceis, não estou aqui p’ra inganar, ficará home rico, quem isto quiser comprar!
Quem bier da Madalena, terá que atravessar o rio, de berão fá-lo a báu, de inberno não que está frio!
E se cada um que quiser, a ponte atravessar, tiber à sua antrada uma maquia a pagar?
O dono que for da ponte, home rico há de ficar, e verá a sua conta, dia a dia a aumentar!
E nem que seja um vintém que tenha de se pagar, em apenas cinco anos, é dinheiro até fartar!
Tráz-bos atão o Juventino, um negócio do catano, pois olhai bou-bos bender aquela ponte de Trajano!
Custa apenas trinta notas, e é só p’ra quem quiser, se não fico eu com ela, e é p’ró que der e vier!
Para atiçar o negócio, um seu compincha, de vaquinha, apressou-se a mandar:
− Dou-le vinte e cinco notas pela ponte de Trajano!
− Não bendo amigo meu, tem de dar trinta notinhas, isto aqui não são esmolas, que bocê dá às alminhas!
− Trinta notas não le dou, quer binte e sete por ela?
− Amigo, eu não la bendo, por esse preço é não, quem dá binte sete dá trinta, é negócio de ocasião!
O lapardana do caga notas, já tinha feito as necessárias contas de cabeça! O negócio parecia-lhe imperdível. Estava ceguinho como um pincho com o grilo na pescoceira!
− Olha ser dono da ponte de Trajano e poder cobrar por quem a usasse… Fosca-se, é um negócio da China, e nunca tinha pensado nisto. – cogitava Terebentino.
− Vinte e oito dou-los ou! − Mandou sem hesitar!
O da vaquinha atacou com vinte e nove.
O caga notas fechou com as trinta notas do combinado.
Que viesse pelos papéis na próxima feira, que estaria tudo conforme!
Assim foi, passou-lhe as trinta notas de cem mil réis para a mão.
Permita-se um breve parêntesis: uma junta de bois galegos, taludos, custavam, à época, menos de uma nota de cem!
O Juventino, com o pilim no bornal, arrumou a trouxa e pôs-se a milhas.
O Terebentino foi festejar com os amigos para o bar Aviz.
Os descendentes do mão-de-vaca ainda hoje sonham em cobrar uma portagem a quem passe pela “sua” ponte de Trajano.
Sim, porque o caga notas, logo que deu pelo logro, correu, até ao fim dos seus anos, todas as feiras do país à procura do salafrário. Nunca do Juventino avezou a mais precária informação!
Finou-se com o desgosto!
Bem feito, digo eu, pois só um lapouço é que cria poder comprar a milenar menina dos olhos da augusta Aquae Flaviae!
E o leitor pensará:
− Bem mou finto!
E eu, que escrevinhei esta estória, respeito!
Olhai que sempre há cada borgeço neste mundo!
Chaminé e clarabóia na Rua Dr. Júlio Martins
Casario da Praça do Município
Rua Dr.Júlio Martins com novo visual
1º de Maio, Dia do Trabalhador em Chaves, em Portugal e em todo o mundo democrático, pelo menos, mas como Chaves não é muito dada a manifestações, aproveita-se o feriado para desfrutar como cada um lhe da na gana.
Cá eu, por obrigações familiares aproveitei uma ida à cidade e andei a calcorrear os caminho do “Lombudo” devidamente equipado. Faltou o cão, faltam os militares atrás das “sopeiras”, faltam os barcos no Tâmega e muita coisa que repousa nas memórias do passado. Hoje é mais espanhóis e um ou outro turista nacional a percorrer as ruas da cidade. Poderíamos ter mais turistas se as políticas atuais não fossem de pobreza (em todo o seu sentido), e também a cidade poderia apostar mais nestes dias, mas enfim, a pobreza (também de ideias) é generalizada e os residentes do largo dos pasmados lá se vão entretendo a ver magotes de espanhóis a passar. Recordações de Chaves levam-nas em imagem. Eventos, festas, feiras e feirinhas, só as de sucesso e depois para que oferecer Chaves aos que nos visitam… os nossos sonhos vão muito mais além, só nos falta mesmo é encontrar o sonho certo.
Seja como for, fica um registo fresquinho de Chaves com uma imagem do Arrabalde e de um magote de espanhóis há coisa de uma hora atrás. Mais fresquinha que esta é quase impossível.
Um bom resto de 1º de Maio que amanhã é dia de trabalho para quem tem a felicidade de ainda ter trabalho.
As imagens são de Bustelo mas a notícia fresquinha é a do Desportivo de Chaves regressar à II Liga Portuguesa de Futebol ao vencer hoje o 2º classificado, o Ribeirão, por 1-0. Está de parabéns o nosso Desportivo de Chaves.
E agora as imagens, sem grandes comentários para além da informação de serem imagens de Bustelo. Quanto a história de cada uma, pois pela certa que todas as imagens têm uma história para contar, fica ao vosso critério, ao critério da vossa imaginação, das vossas recordações ou até saudades, não o sei, ficam com toda a liberdade do mundo para verem nelas o que cada um quiser.
E mais nada por hoje. Amanhã estaremos de regresso à cidade que se tem mostrado iluminada de sol, mas com um frio de rachar.
Como o tempo não tem andado de feição para grandes reportagens nas nossas aldeias, vamo-nos valendo do nosso arquivo para trazer aqui imagens do nosso mundo rural e, felizmente que há aldeias como a de Soutelinho da Raia onde há sempre uma imagem para trazer aqui e, é com gosto que o faço, pois Soutelinho é uma das poucas aldeias que ainda mantém a sua virgindade de aldeia tradicional transmontana, onde se tem reconstruído com gosto e onde felizmente há poucos atentados à sua dignidade. Claro que também sofre do envelhecimento e de despovoamento, aqui não é exceção, mas, embora com muito casario abandonado e em mau estado, é preferível vê-lo assim, pois sempre há a esperança de que melhores dias virão para uma boa recuperação, do que vê-lo transformado numa modernice pirosa que em nada dignificam as nossas aldeias. Claro que as modernices também devem ter lugar nas aldeias, mas em lugar próprio, fora do seu núcleo.
Já lá vão 8 anos que iniciei este blog e, embora ande a percorrer este concelho de Chaves há mais de 20 anos, sinto que há aldeias que ainda não foram aqui tratadas com a dignidade que merecem, não por falta de vontade minha, mas talvez por falta de oportunidades de acontecer o momento certo, talvez falta de inspiração, eu sei lá, por razões que a própria razão às vezes desconhece.
Sinto assim que tenho de me aventurar a mais uma expedição a todas as aldeias, aliás já venho sentido essa aventura há uns tempos atrás, mas acontece que o tempo dos relógios não tem estado de feição para a minha disponibilidade, e assim, vou adiando essas visitas e trazendo aqui imagens de arquivo. Para a atualidade das imagens que vos vou trazendo aqui, resta-me a infeliz consolação de que as aldeias nos últimos anos (e aponte-se para os dois dígitos) pararam no tempo, e tudo vai estando igual ao que era.
Mas sei que há recantos que me escaparam em todas as visitas anteriores às nossas aldeias, mesmo porque o nosso olhar também se vai educando e aperfeiçoando havendo ainda a acrescentar que também a nossa sensibilidade para com as pessoas e os resistentes das nossas aldeias se tornou mais atento e, sobretudo, mais solidário.
Para hoje ficam algumas imagens de arquivo de Matosinhos. Esta é uma das aldeias que merece uma visita mais atenta, que fica prometida.
A um passo de Chaves, o casco antigo da Abobeleira vai resistindo como pode à entrada da modernidade.
Com a crise que atravessamos era um bom momento para analisar também as más políticas que nos conduziram até ela. Poderão dizer que a crise não é só nossa, pois não, mas as más políticas de muitos anos agudizaram-na. Eu, por cá, costumo dizer que tudo começou com o comboio(s), quando em vez de se modernizar a nossa rede ferroviária se optou por construir a torto e direito IP’s e autoestradas, em detrimento dos comboios e da sua modernização. Os grandes interesses, sempre os grandes interesses dos poucos que os podem ter, interesses do b€tão como se apenas no betão estivesse o desenvolvimento de um país. Grandes interesses de alguns que pobres e remediados têm de pagar.
Fico-me por aqui em lamentos para ouvidos moucos e, apenas o fiz, porque duas das imagens de hoje têm diretamente a ver com esse comboio que nos roubaram, um dos primeiros roubos que ao longo dos anos se viriam a repetir…
Ficam memórias desse comboio mas também imagens daquele que ao longo de alguns quilómetros o acompanhava no seu trajeto e se deixava atravessar precisamente em Curalha. Claro que é do Rio Tâmega que vos falo.


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