Domingo, 22 de Janeiro de 2017

O Barroso aqui tão perto - Festas do S.Sebastião

1600-dornelas-17 (325)

o b tao perto

Como já vem sendo habitual nos últimos anos, o 20 de janeiro é dedicado às festas do S.Sebastião no Barroso, daí hoje incluirmos esta reportagem na habitual rubrica dos domingos de “O Barroso aqui tão perto…”, que até aqui tem sido dedicado ao Barroso do Concelho de Montalegre , mas hoje, excecionalmente, vamos até ao Barroso de Boticas com os festejos do S.Sebastião, antecipando um pouco a nossa entrada nas aldeias de Boticas. Assim, hoje, apresentamos também aquele que irá ser o cabeçalho de “O Barroso aqui tão perto…” com uma imagem do concelho de Boticas,  para a abordagem que futuramente faremos a todas as suas aldeias.

 

1600-dornelas-17 (51)

 

Então hoje vamos até aos festejos do S.Sebastião da Vila Grande da freguesia de Dornelas e o S.Sebastião das Alturas do Barroso, mas também com uma abordagem à aldeia da Gestosa e Vilarinho Seco, como também um pouco da história do S.Sebastião (Santo) e da mesinha do S.Sebastião (lenda), por partes.

 

1600-dornelas-17 (66)

 

1 - S. SEBASTIÃO

São Sebastião nasceu em Narvonne, França, no final do século III, e desde muito cedo  que os seus pais se mudaram para Milão, onde ele cresceu e foi educado. Seguindo o exemplo materno, desde criança São Sebastião sempre se mostrou forte e piedoso na fé.

Atingindo a idade adulta, alistou-se como militar, nas legiões do Imperador Diocleciano, que até então ignorava o facto de Sebastião ser um cristão de coração.

A figura imponente, a prudência e a bravura do jovem militar, tanto agradaram ao Imperador, que este o nomeou comandante de sua guarda pessoal.

Nessa destacada posição, Sebastião tornou-se  no grande benfeitor dos cristãos encarcerados em Roma naquele tempo.

Visitava com frequência as pobres vítimas do ódio pagão, e, com palavras de dádiva, consolava e animava os candidatos ao martírio aqui na terra, que receberiam a coroa de glória no céu.

Enquanto o imperador empreendia a expulsão de todos os cristãos do seu exército, Sebastião foi denunciado por um soldado.

Diocleciano sentiu-se traído, e ficou perplexo ao ouvir do próprio Sebastião que era cristão. Tentou, em vão, fazer com que ele renunciasse ao cristianismo, mas Sebastião com firmeza  defendeu-se, apresentando os motivos que o animava a seguir a fé cristã, e a socorrer os aflitos e perseguidos.

O Imperador, enraivecido ante os sólidos argumentos daquele cristão autêntico e decidido, deu ordem aos seus soldados para que o matassem a flechadas.

Tal ordem foi imediatamente cumprida: num descampado, os soldados despiram-no,  amarraram-no  a um tronco de árvore e atiraram contra ele uma chuva de flechas. Depois  abandonaram-no para que sangrasse até a morte.

À noite, Irene, mulher do mártir Castulo, foi com algumas amigas ao lugar da execução, para tirar o corpo de Sebastião e dar-lhe sepultura. Com assombro, comprovaram que o mesmo ainda estava vivo. Desamarraram-no, e Irene escondeu-o na sua casa, cuidando das suas feridas.

Passado um tempo, já restabelecido, São Sebastião quis continuar o seu processo de evangelização e, em vez de se esconder, com valentia apresentou-se de novo ao imperador, censurando-o pelas injustiças cometidas contra os cristãos, acusados de inimigos do Estado.

Diocleciano ignorou os pedidos de Sebastião para que deixasse de perseguir os cristãos, e ordenou que fosse espancado até a morte, com pauladas e golpes de bolas de chumbo. E, para impedir que o corpo fosse venerado pelos cristãos, jogaram-no no esgoto público de Roma.

Uma piedosa mulher, Santa Luciana, sepultou-o nas catacumbas. Assim aconteceu no ano de 287. Mais tarde, no ano de 680, as suas relíquias foram solenemente transportados para uma basílica construída pelo Imperador Constantino, onde se encontram até hoje.

Naquela ocasião, uma terrível peste assolava Roma, vitimando muitas pessoas.

Entretanto, tal epidemia simplesmente desapareceu a partir do momento da transladação dos restos mortais desse mártir, que passou a ser venerado como o padroeiro contra a peste, fome e guerra.

As cidades de Milão, em 1575 e Lisboa, em 1599, acometidas por pestes epidêmicas, viram-se livres desses males, após atos públicos suplicando a intercessão deste grande santo.

 

1600-dornelas-17 (70)

 

2 - A LENDA DA MESINHA DE S.SEBASTIÃO

 

Reza a lenda,  que há muitos, muitos anos, houve nesta região um ano de muita fome e peste, que também atingiu os habitantes do “COUTO”.

Foram tantos os mortos, que os mais crentes apelaram a S. Sebastião para que os protegesse de tal flagelo:

“Se a doença se afastasse, se os doentes melhorassem e os animais escapassem, prometiam realizar anualmente, a 20 de Janeiro, uma festa onde não faltasse carne e pão para quantos a ela comparecessem.”

 

Como o Santo não faltou, cumpriu-se o prometido e assim se fez ao longo dos tempos, mas, com o passar dos anos, o povo foi ficando esquecido, desleixado e possivelmente mal agradecido. Um ano, não se sabe por que motivo, a festa não se realizou. O povo ficou assim, sem a proteção do santo, advogado da fome, da peste e da guerra registando-se graves problemas nesta localidade.

Conta ainda a lenda, que em 1809 (ano em que Napoleão, imperador de França, mandou invadir pela segunda vez Portugal) as tropas entraram por Chaves, a caminho do Porto, passando pelas terras do “Couto”. A má fama dos invasores já tinha chegado às nossas gentes, que atemorizadas pela eminente invasão e suas consequências (pilhagens, mortes, violações, etc.) saíram às ruas com a imagem de S. Sebastião e acolhendo-se à sua proteção, renovaram a promessa: «… Se os invasores não entrarem no Couto faremos todos os anos, dia 20 de Janeiro, uma festa em tua honra, onde não faltará comida a toda a gente que a ela vier…»

Diz a lenda que caiu tal nevão à volta do Couto, que obrigou os invasores a desviarem-se do seu caminho deixando em paz estas “gentes”.

 

1600-dornelas-17 (103)

 

3 - Mesinha de S.Sebastião na Vila Grande

 

As fotos que têm ficado até aqui são da mesinha de S.Sebastião da Vila Grande, da freguesia de Dronelas. A introdução com a história do Santo e da Lenda apenas se deve a que muitos populares, incluindo da Vila Grande, associam o início destes festejos às segundas invasões francesas. Ora na deslocação deste ano um natural da aldeia puxava o assunto à baila, onde afirmava que teve acesso a documentos em que provavam que os festejos da Vila Grande já se realizavam muito antes das Invasões Francesas. Dada a história do santo, a sua data de nascimento e ao ser venerado como padroeiro contra a peste, a fome e a guerra, entre outros, é natural que os festejos já venham de há longa data, como também é natural que lhe dessem mais significado e importância a partir das segundas invasões francesas.

 

1600-dornelas-17 (111)

 

Quanto à mesinha de S.Sebastião da Vila Grande já nos anos anteriores deixei por aqui o seu funcionamento, mas eu volto a repetir num breve apontamento.

 

Ao longo da rua principal da aldeia é colocada uma mesa com mais de 500 metros de comprimento, que é coberta com uma toalha de linho onde são colocados um pão, uma caçarola de arroz e um naco de carne de porco, distanciados de aproximadamente um metro. Antes da distribuição há uma missa, depois a bênção do pão e só depois começa a distribuição da comida, antecedida pelo pedido de “esmola” ou ajuda para as despesas (cada um dá o que quer) e o beijar do S.Sebastião.

 

1600-dornelas-17 (360)

 

No entanto o preparar da festa pelas gentes da aldeia começa muito antes. O Pão começa a ser cozido no forno com 4 dias de antecedência, cozendo ininterruptamente durante esses 4 dias fornadas de 35 a 40 pães de cada vez até atingirem os 1200 pães necessários para a festa, dos quais 400 pães são para colocar na mesinha de S.Sebastião e os restantes para vender aos visitantes, pão esse que é composto por uma mistura de milho, centeio e trigo. . Quanto ao arroz, 110 Kg,  e à carne, mais de 400 postas,  são cozinhados durante toda a noite para começarem a ser distribuídos a partir do meio-dia. A cozedura do pão é feito por turnos de 7 a 8 pessoas durante os 4 dias.

 

1600-dornelas-17 (247)

 

Claro que na noite que antecede a mesinha de S.Sebastião,  grande parte da população da Vila Grande envolve-se com os trabalhos da festa para logo de madrugada começar a receber os primeiros peregrinos.

 

1600-dornelas-17 (370)

 

Peregrinos que vêm de todo o lado, principalmente do Norte de Portugal, com maior participação da gente do Barroso e do Minho, individualmente, em grupos de amigos ou mesmo em excursões que aos poucos vão enchendo toda a rua ao longo da Mesinha de S.Sebastião, ao longo da qual vão reservando lugar e petiscando nas merendas que vão trazendo.

 

1600-dornelas-17 (144)

 

Também o pessoal da imprensa nacional e estrangeira (jornais e televisões) não são alheios à festa, mas também um elevado número de fotógrafos amadores individuais ou de associações, como é o caso do nosso grupo de Associados Lumbudus que marcámos sempre presença ou elementos da Associação Portografia do Porto, este ano com pelo menos 5 associados.

 

1600-dornelas-17 (182)

 

Quanto aos preparativos da festa, tal como dissemos, começa pelo menos com 4 dias de antecedência com o cozer do pão. Quanto à Mesinha do S.Sebastião, comido o pão, o arroz e as postas de carne, o pessoal destroça e quase como num milagre, desaparece num instante, tanto que por volta das 2 da tarde a mesa está completamente vazia, mas claro que há uma razão para tal, é que o S.Sebastião não se comemora só na Vila Grande, pois na aldeia vizinha das Alturas do Barroso também há festa e em Salto, um pouco mais à frente, idem aspas. Mas estas com características diferentes.  Claro que nós também não somos exceção e acabada a festa na Vila Grande também rumámos  os nossos destinos até as alturas do Barroso, mas por etapas.

 

 

4 – Gestosa

 

A caminho das Alturas do Barroso passa-se ao lado da Gestosa. Todos os anos parámos lá num alto onde a aldeia se vê juntinha ao lado de um verdejante vale. Todos os anos ficamos com o apetite de a visitar, mas este ano não resistimos e fizemos o desvio para uma visita breve mas também para ir adiantando trabalho de levantamento fotográfico da aldeia como memória futura para um devido post dedicado à aldeia.

 

1600-gestosa (62)

 

Para já fica a informação de que gostámos daquilo que vimos, pois se lá de cima é interessante, o seu interesse aumenta quando lhe entramos na intimidade, mas descrições ficam para o tal post futuro. Mas gostámos tanto que lhe dedicamos a nossa imagem de arte digital

 

1600-gestosa-art (12)

 

5 - Vilarinho Seco

 

Vilarinho Seco é de paragem obrigatória para repor forças, nem que seja só com um café que é sempre bem acompanhado, quer pelos amigos do costume quer pelos improvisados concertos de cantares acompanhados pelas concertinas dos vários grupos minhotos que invadem estas festas.

 

1600-vil-seco-17 (21)

 

Mas claro que não resistimos a tomar mais umas fotos daquelas que é uma das aldeias mais interessantes de todo o Barroso, também para memória futura de um post que surgirá quando passarmos definitivamente para o Barroso do Concelho de Boticas. Mas desta vez, além das imagens registámos também em vídeo a improvisada atuação de um duo que tanto quanto entendi era a primeira vez que tocavam juntos.

 

 

Claro que a paragem por Vilarinho Seco é sempre breve pois o destino é mesmo Alturas do Barroso par terminar o dia, que ainda só vai a meio.

 

 

6 – Alturas do Barroso

 

Aqui os festejos em honra do S.Sebastião são outros. Em conversa com uma natural das alturas, perguntava-me de qual das festas gostava mais, se a da Vila Grande ou das Alturas. A resposta foi a politicamente correta – Gosto das duas. Mas além de politicamente correta também foi sincera, pois ambas as festas são interessantes, apenas são diferentes, mas há sempre coisas que gostámos mais numa festa do que na outra, mas já lá vamos.

 

1600-alturas-17 (16)

 

Desde criança que oiço falar das Alturas do Barroso e dos Cornos do Barroso, curiosamente só há anos soube que a aldeia das Alturas está juntinha aos Cornos do Barroso e daí, suponho, a proveniência do topónimo, pois de facto, a aldeia implantada a quase 1200 metros de altitude é a mais alta que se localiza na Serra do Barroso.

 

1600-alturas-17 (6)

 

 

Mas como se não bastasse ouvir falar da aldeia desde miúdo, quando comecei a ler a obra de Miguel Torga tropeço com dois momentos registados por torga nessa aldeia, o primeiro data de 1956 que passo a transcrever:

 

Alturas do Barroso, 27 de Junho de 1956

 

Entro nestas aldeias sagradas a tremer de vergonha. Não por mim, que venho cheio de boas intenções, mas por uma civilização de má-fé que nem ao menos lhe dá a simples proteção de as respeitar.

 

Miguel Torga in “Diário XI”

 

1600-alturas-17 (51)

 

 

O segundo momento de Torga, mais recente, data de 1991:

 

Alturas do Barroso, 1 de Setembro de 1991

 

Incansavelmente atento às lições do povo, venho, sempre que posso, a este tecto do mundo português, admirar no adro da Igreja, calcetado de lousas tumulares, o harmonioso convívio da vida com a morte. Os cemitérios actuais são armazéns de cadáveres desterrados da nossa familiaridade, lacrimosamente repetidos do seio do clã mal arrefecem, cada dia menos necessários, no progressivo esquecimento, à salutar percepção do que significam na dobadoira do tempo. Ora, aqui, cada paroquiano pisa, pelo menos dominicalmente, a sepultura dos ancestrais, e se liga a eles, quase organicamente. Vive, numa palavra, referenciado. Sabe que tem presente porque houve passado, e que, mais cedo ou mais tarde, enterrado ali também, será para os descendentes consciência e justificação do futuro.

 

Miguel Torga, in Diário XVI

 

1600-alturas-17 (24)

 

E faço minhas as palavras de Torga, principalmente estas: - “Entro nestas aldeias sagradas a tremer de vergonha”, sim, é verdade e tal como Torga – “Não por mim, que venho cheio de boas intenções,” mas por medo a que as pessoas pensem que as minha intenções não são boas, mas ainda   – “Incansavelmente atento às lições do povo, venho, sempre que posso” o que também é verdade, pelo menos desde que descobri esta aldeia, é sempre com gosto que regresso a ela, nem que seja e só por altura do S.Sebastião, mas passo por lá mais vezes.

 

1600-alturas-17 (101)

 

Pois além da curiosidade que tinha desde miúdo, Torga aguçou-me o interesse em conhecer também esta aldeia e também como ele apreciei a aldeia, o seu povo, o casario e a festa do S.Sebastião.

 

1600-alturas-17 (162)

 

Pois quanto à festa só lhe conheço o lado profano, aquele do comer e beber, pois nunca tive a honra de assistir à parte religiosa, que suponho que obrigatoriamente existira.  Tudo porque os da Vila Grande, como já atrás referi, só têm festa da parte da manhã e assim vamos deixando as Alturas para a parte da tarde, mas fica a promessa que numa das próximas vezes invertemos a ordem.

 

1600-alturas-17 (183)

 

Pois quanto à parte que assistimos, é em quase tudo diferente da festa da Vila Grande. Começando que a das Alturas é feita debaixo de teto e a ementa é servida em prato. Uma feijoada da boa, um copo de vinho e um pão. Segundo consta, pois nunca estivemos até ao fecho, a festa prolonga-se pela noite adentro, enquanto houver peregrinos com vontade de comer.

 

1600-alturas-17 (168)

 

Mas claro que a parte do comer é só um breve momento, pois a festa esta lá dentro mas também à porta ou nas ruas da aldeia. Os improvisados concertos de cantares ao som da concertina são uma constante onde menos se espera ou melhor, em todos os lugares.

 

1600-alturas-17 (148)

 

Uma visita, passeio, pelas ruas da aldeia também é obrigatório e se houver um pouco de conversa com as suas gentes, tanto melhor, e desta vez até fomos felizes nesta parte, pois além de fotos consentidas ainda tivemos direito a uma demonstração de como se lança o peão e uma história das antigas, também com direito a imagens, mas também estas ficam para um post futuro dedicado à aldeia, com o S.Sebastião de parte, embora a referência seja obrigatória.

 

1600-alturas-17 (194)

 

E quase a terminar há que referir a simpatia das pessoas das Alturas, não só as que estão envolvidas no trabalho de dar de comer e beber a tanta gente mas também da aldeia em geral.

 

1600-alturas-17 (102)

 

E não só, pois a aldeia também surpreende pela gente jovem, coisa que já vai sendo raro nas aldeias barrosãs e em geral do interior transmontano. Pelo menos do dia de S.Sebastião assim é.

 

1600-alturas-17 (217)

 

E por fim, ficam as fotos prometidas e consentidas, ah! e já ia esquecendo, este ano o S.Sebastião aconteceu em plena vaga de frio polar, talvez por isso não havia neve como em alguns dos anos anteriores e o sol apareceu com a sua alegria do costume…

 

E quanto às festas do S.Sebastião, até pró ano!

 

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 23:54
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito
|  O que é?
Terça-feira, 22 de Janeiro de 2013

Semana do S.Sebastião da Vila Grande - Couto de Dornelas - 2

Tal como prometido vamos até à festa comunitária do S.Sebastião na Vila Grande, Couto de Dornelas, concelho de Boticas, precisamente com um fotógrafo filho da terra e que há mais de 30 anos faz registos desta festa. Fotógrafo Lunbudus, que assina alguns blogues, entre os quais:


http://dponteira.blogs.sapo.pt/

 

e é fotógrafo assíduo do:


http://www.reflexosonline.com/reflexos.php?gp_utilizador=1687

 

onde há anos vai publicando as sua arte fotográfica.

 

Ficam então alguns dos olhares de Dinis Ponteira sobre a última edição do S.Sebastião.






´
publicado por Fer.Ribeiro às 23:00
link do post | comentar | favorito
|  O que é?
Sábado, 21 de Janeiro de 2012

O São Sebastião na Vila Grande e Alturas do Barroso

A mesa à espera que os visitantes cheguem

 

Tal como prometi, este blog vai começar a andar por aí a olhar também as festas, tradições, saberes e pontos de interesse da região do Alto Tâmega e Barroso.

No ano passado fomos à tradicional festa de São Sebastião ou “Mesinha de São Sebastião” na freguesia de Couto de Dornelas. Já lhe conhecíamos a fama de festa comunitária há muitos anos, mas uma coisa é aquilo que nos contam e outra é estar na festa e ver com os próprios olhos. Vi e gostei tanto que fiz promessa de ir lá sempre que puder.


Durante dias cozeu-se o pão que irá ser servido à mesa


As imagens de hoje vão tentar mostrar um pouco da tradição. As palavras também vão tentar ajudar a compreender esta festa, a tradição e a lenda.

Comecemos pela lenda:


A Lenda
 
REZA A LENDA, ... que há muitos, muitos anos...

Houve nesta região um ano de muita fome e peste, que também atingiu os habitantes do “COUTO”.


É destes potes que sai o arroz e a carne de porco para todos os visitantes


Foram tantos os mortos, que os mais crentes apelaram a S. Sebastião para que os protegesse de tal flagelo:
“Se a doença se afastasse, se os doentes melhorassem e os animais escapassem, prometiam realizar anualmente, a 20 de Janeiro, uma festa onde não faltasse carne e pão para quantos a ela comparecessem.”

Como o Santo não faltou, cumpriu-se o prometido e assim se fez ao longo dos tempos...


Antes de comer há que agradecer ao santo


...Mas, com o passar dos anos, o povo foi ficando esquecido, desleixado e possivelmente mal agradecido. Um ano, não se sabe por que motivo, a festa não se realizou. O povo ficou assim, sem a protecção do santo, advogado da fome, da peste e da guerra registando-se graves problemas nesta localidade...


O peditório não faz a festa, mas ajuda


...Conta ainda a lenda, que em 1809 (ano em que Napoleão, imperador de França, mandou invadir pela segunda vez Portugal) as tropas entraram por Chaves, a caminho do Porto, passando pelas terras do “Couto”. A má fama dos invasores já tinha chegado às nossas gentes, que atemorizadas pela eminente invasão e suas consequências (pilhagens, mortes, violações, etc.) saíram às ruas com a imagem de S. Sebastião e acolhendo-se à sua protecção, renovaram a promessa:


O Sol tem ajudado à festa, mas é traiçoeiro


«… Se os invasores não entrarem no Couto faremos todos os anos, dia 20 de Janeiro, uma festa em tua honra, onde não faltará comida a toda a gente que a ela vier…»

Diz a lenda que caiu tal nevão à volta do Couto, que obrigou os invasores a desviarem-se do seu caminho deixando em paz estas “gentes”.

Lenda ou não, a verdade é que se tem mantido a tradição e todos os anos, dia 20 de Janeiro, os habitantes do COUTO de DORNELAS renovam a promessa cada vez mais convictos do amparo do Mártir São Sebastião.


A festa faz-se ao longo de toda a rua


Pois não sei se é por São Sebastião estar grato por manterem-lhe a gratidão que o dia de ontem, tal como o do ano passado, lá pelo Barroso mais alto o dia parecia de verão.

Mas passemos à descrição da festa.


A toalha de linho cobre toda a mesa


Durante uns dias coze-se o pão milho e armazena-se numa sala para que no dia da festa não falte pão para todos os visitantes. São umas centenas de pães. Na madrugada do dia 20 acende-se a fogueira, poem-se os potes ao lume (23 conto-os na foto) e coze-se a carne de porco e mais tarde o arroz que depois de prontos e devidamente benzidos serão servidos à ora do almoço a todos os visitantes. Para tal é disposta uma mesa ao longo da rua principal da aldeia – a Vila Grande.


Há que aproveite para vender os produtos da terra e quem compra, agradece


Saliente-se que esta festa é festa da freguesia de Couto de Dornelas do concelho de Boticas,  à qual pertencem, além da Vila Grande, as aldeias de Gestosa, Vila Pequena, Espertina, Antigo, Lousas e Casal.


Mas íamos na mesa ao longo da rua principal da aldeia, que atinge um comprimento de cerca de 400m onde é colocado, de vara em vara (é esta a medida), um pão milho, uma caçarola com arroz e um pedaço de carne de porco. O resto fica por conta dos visitantes, ou sejam os talheres e as bebidas.


O vai e vem de tabuleiros de arroz e gigas de pão


A montagem e o serviço desta mesa não é tão simples assim como atrás é descrito, pois durante a noite são montadas as pranchas de madeira ao longo da rua e, se pela manhã, de manhãzinha, as ruas e as mesas se encontram despovoadas de gente, por volta das 8 da manhã começam a compor-se com os visitantes vindos da freguesia mas também um pouco de todo o lado, com muita gente do Minho, da região do grande Porto, de Chaves também há fiéis seguidores, entre outros locais que não pude apurar. Apurei os companheiros do lado aos quais agradeço, pois desprevenido fui só armado com câmara fotográfica e eles dispensaram-me os talheres, um prato e o vinho. A festa é comunitária e como tal ninguém sai de lá sem comer e beber. Obrigado companheiros de Stº Tirso que também têm promessa de vir a esta festa todos os anos.


Os companheiros de Santo Tirso fizeram promessa de vir todos os anos


Voltemos à mesa. Coladas as pranchas, chegado o pessoal, começam a marcar lugar ao longo da mesa e se de manhazinha a rua e a mesa estão despovoadas, ao meio dia estão repletas de  gente, mas há sempre lugar para mais um.


Uma vara de medida


Benzida a comida, começa-se a servir, mas antes há que por a toalha de linho que irá cobrir todos os 400 metros de mesa que é seguido do beijar do São Sebastião, o peditório para o santo, um pão, uma caçarola de arroz, um pedaço de carne, mais uma vara de medida (que tem cerca de 1,20m) e mais um pão, uma caçarola de arroz e um pedaço de carne e assim sucessivamente até se chegar ao fim da mesa. O abastecimento é feito com corridas sucessivas de vai e vem à “cozinha” com grandes tabuleiros de arroz, uma caçarola enorme de cobre cheia de carne e gigas de pão. Em menos de uma hora todos os visitantes são servidos e, segundo as minhas contas, estimo que sejam cerca de 15.000 os que comunga desta refeição. Basta olhar para o preencher das ruas, saber o comprimento da mesa e fazer as contas.


 

400 metros de mesa para 15 mil pessoas


Claro que festa é festa e quem vem de excursão à festa, e são muitos, faz-se acompanhar de outras iguarias e manjares para acrescentar à mesa, mas não só, pois não faltam as concertinas, danças e cantares que se vão servindo também ao longo da rua, com os grupos que vêm de fora e começam logo a atuar à saída dos autocarros.


Excursões da gente do minho alegram a festa


Quanto à iguaria, há que prová-la para se poder deliciar. Garanto-vos que é coisa boa, com sabor à tradição da carne curada e fumada, com um arroz que é único acompanhado de pão milho caseiro…que mais dizer!? Talvez que falta o copito de vinho, mas esse aparece sempre.


Lumbudos barrosões em ação


Claro que há quem vá lá não só pelas iguarias e pela festa mas também para o registo da tradição. As televisões e a imprensa escrita costumam marcar presença, mas as câmaras fotográficas e de filmar também se vão repetindo nas mãos dos visitantes mas também as de outros fotógrafos, que embora amadores, vão fazendo da fotografia uma arte de mostrar e registar, como as de alguns Lumbudus da Associação de fotografia com sede em Chaves ou da Associação de Fotografia do Porto – Portografia, e alguns autores de blogs que se iam acotovelando amistosamente com um “desculpa” constante para não perder nenhuma cena e registo.


 

Em alturas do Barroso ninguém sai sem comer


Sai-se sempre de lá com espirito de festa cumprida e com vontade de voltar para o próximo ano, mas a festa não acaba ali na Vila Grande, pois esta tradição comunitária do São Sebastião não é exclusiva da Vila Grande da freguesia de Couto de Dornelas. Uns quilómetros mais à frente ou ao lado, conforme se aborde, há outra festa comunitária de São Sebastião, esta na aldeia de Alturas do Barroso, que, feita em moldes diferentes e sem o aparato da mesa ao longo da rua, não deixa que nenhum visitante saia de lá sem comer um prato de feijoada, um pão e um copo de vinho. Dizem que só fecham a cozinha quando já não houver mais nenhum visitante sem comer e assim, a “mesa”, prolonga-se por toda a tarde e entra pela noite dentro.


Em Alturas do Barroso um prato de feijoada, um pão e um copo de vinho é a dose


Bem, se a iguaria da Vila Grande era um petisco apreciado por todos, a pratada das Alturas de Barroso conforta qualquer estomago e, não pensem que é uma feijoada onde os feijões são reis e senhores, nada disso, vêm com todos os pertences e não são de plástico como os dos restaurantes da cidade, pois por lá têm os sabores do Barroso. Claro que embora tivesse sido a primeira vez que fui ao São Sebastião de Alturas do Barroso também fiz promessa de voltar lá sempre que puder.

 

 

O São Sebastião dá as boas vindas à entrada - Alturas do Barroso

 

A juntar a isto tudo há o apreciar único da paisagem e temas barrosões e a visita a algumas aldeias e locais que não se podem perder, como Vilarinho Seco, os Cornos do Barroso e um passeio de regresso ao longo da Barragem dos Pisões e das suas povoações, já por terras de Montalegre.


Fica-se sempre à espera que o 20 de Janeiro surja de novo no calendário. São aquelas datas fixas que a juntar às Sextas-Feiras 13 de Montalegre devem constar obrigatoriamente na nossa agenda.   


´
publicado por Fer.Ribeiro às 22:36
link do post | comentar | favorito
|  O que é?

.Fotos Fer.Ribeiro - Flickr

frproart's most interesting photos on Flickriver

.meu mail: blogchavesolhares@gmail.com

.Dezembro 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9


17
18
19
20
21
22
23

24
25
26
27
28
29
30

31


.pesquisar

 
ouvir-radioClique no rádio para sintonizar

 

 

El Tiempo en Chaves

.Facebook

Fernando Ribeiro

Cria o teu cartão de visita Instagram

.subscrever feeds

.favorito

. Solar da família Montalvã...

.posts recentes

. O Barroso aqui tão perto ...

. Semana do S.Sebastião da ...

. O São Sebastião na Vila G...

blogs SAPO

.Blog Chaves no Facebook

.Veja aqui o:

capa-livro-p-blog blog-logo

.Olhares de sempre

.links

.tags

. todas as tags

.arquivos

. Dezembro 2017

. Novembro 2017

. Outubro 2017

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

. Novembro 2005

. Outubro 2005

. Setembro 2005

. Agosto 2005

. Julho 2005

Add to Technorati Favorites