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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

14
Abr21

A GRANDE AVENTURA

(SCENAS DA GUERRA)

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António Granjo

A GRANDE AVENTURA

(SCENAS DA GUERRA)

 

9

 

Nota: A GRANDE AVENTURA - (SCENAS DA GUERRA) é um pequeno livro que resultou da participação do ilustre flaviense António Granjo na I Guerra Mundial de 1914-1918, que deixamos aqui em episódios, escritos no português da altura, incluindo erros e gralhas tipográficas.

 

 

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Nas linhas de apoio

 

Dormi hoje o melhor sôno da minha vida, nesta pequena cidade do norte da França, onde estou descansando da primeira semana de trincheira e de combate. Doze horas dormidas, sem um movimento, sem um sonho, embalado pelo troar do canhão, numa cama onde já dormiram alemães, sob um tecto esburacado pelas granadas, e onde chegava dum quintal um perfume forte de flôr de sabugueiro, constituem positivamente qualquer coisa de inédito e maravilhoso para quem passou seis dias dormindo alguns minutos, nos curtos intervalos do bombardeamento, entre dois montões de sacos de terra, a 50 metros do inimigo.

 

Não direi que valha a pena passar todas as provações apenas para gosar essas doze horas encantadoras, mas esse sono profundo, em que o corpo repousa absolutamente imóvel, como uma estatua jacente, é um dos maiores prémios concedidos aos que se batem nesta terrível guerra de esgotamento.

 

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Alguns nunca mais conseguem dormir esse sôno bendito, em que as forças se refazem e todo o organismo reganha a elasticidade e a força indispensáveis para nova prova. Alguns nunca mais teem outro sôno que não seja o horrível e continuo pezadelo da noite iluminada pelos veryleits, cortada pelos assobios das balas, abalada pelo estrondo formidável dos obuzes, das granadas explosivas e incendiárias, dos morteiros ligeiros, médios e pezados, das granadas de espingarda, dos gritos dos feridos,— da noite tragica em que o ar e a terra se revolvem e se combatem, e em que os homens, perdida a figura humana pela aposição das mascaras, são criaturas irreconhecíveis, produtos macabros de uma imaginação proteica, habitantes de um mundo plutonico, errando entre nuvens de gazes asfixiantes, numa fornalha de fogo, de ferro e de sangue. Alguns só num manicomio encontram algum socego. São os supremos desgraçados. Esses nem ao menos teem à beira dum caminho uma sepultura talhada por mãos piedosas, com uma cruz relembrando a acção em que morreram e algumas flores sêcas metidas nuns cacos de granada ou nuns frascos de conserva.

 

No meu primeiro dia de trincheira, o oficial que me acompanhava mostrou-me um pobre soldado que se agachava a cada passo atraz dos abrigos, fazendo gestos descoordenados e acompanhado por outro soldado que carinhosamente o ia amparando. Era um ribatejano, alto, desempenado, com as maçãs do rosto salientes e as pernas musculosas. Se lhe puzessem uma carapuça na cabeça, ficaria uma linda figura de campino.

 

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Aproximámo-nos dêle. Perguntámos-lhe como tinha sido aquilo. O pobre soldado estendeu os olhos vagamente para a primeira linha, desenhou com o braço comprido uma curva, agachou-se, juntou as mãos e alargou-as para significar o rebentamento do morteiro e continuou o caminho, arrastado pelo camarada. Foi o primeiro caso de loucura produzido pelos morteiros no exercito português, mas os casos são frequentíssimos nos outros exércitos.

 

De forma que ter a felicidade de possuir um sistema nervoso que resista sem abalo a tão tremenda prova, e que permita o goso celestial de um sono de doze horas seguidas — é, verdadeiramente, ser uma criatura privilegiada. Agradeço aos deuses esse sono como um dos maiores bens que me tem sido dado disfrutar na terra.

 

A noite de Santo Antonio deu-me a certeza de que se pode contar com o nosso soldado. Os portuguezes marcarão o seu logar.

 

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Pode desde já afirmar-se que o nosso soldado realisa prodígios. Possuindo qualidades de adaptação quase inverosimiveis, vai-se habituando aos métodos e aos processos da guerra de trincheira com uma facilidade admirável. Violentando os seus naturais impulsos de ofensiva, vai-se coadunando com a vida de toupeira e de sapo que a trincheira impõe; e dominando o natural receio diante do perigo desconhecido, resiste com uma paciência perfeitamente inglesa ao bombardeamento, a pé firme, entre abrigos e trincheiras já desmanteladas, sob a mais abundante chuva de metralha que a mente humana pode conceber.

 

Alguns inglezes chamam aos soldados portugueses—os Antonios. Ou seja porque essa palavra é mais fácil de pronunciar pelos nossos aliados, ou sejam porque estes saibam ser esse nome muito comum em Portugal, certo é que, a cada passo, se ouve um soldado inglês dizer para um português: «Come on, Antonio!». Pois tudo quanto se diga dos nossos Antonios é pouco.

 

Estou convencido que eles farão grandes coisas. Os erros acumular-se-ão porventura de cima, mas os de baixo salvarão tudo.  A honra nacional está nas mãos calosas e duras dessa gente miúda, e a Nação pôde estar certa de que será erguida bem alto a bandeira das quinas.

 

A morte deles resgatará muitos erros; e a sua heroicidade será porventura o sóco sangrento em que se apoie a nossa futura catedral.

 

E' o nosso sonho destas horas de repouso — a Patria, erguida tão alto, que Deus não precise de descer á terra para lhe tocar com os seus sagrados dedos.

 

 

Continua na próxima quarta-feira…

 

 

14
Abr21

Crónicas de assim dizer

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As palavras e os silêncios

 

 

Os silêncios são pensados, ninguém emudece sem razão. E o que não dizem é gigante, não tem fim, enquanto que as palavras, quando ditas, têm um fim, mesmo nas suas inúmeras interpretações.

 

Os silêncios são, quase sempre, cobardes. Também há palavras assim, mas nelas isso transparece, raramente há equívocos, se estivermos atentos. Já dos silêncios não tiramos nada, por mais que nos concentremos neles. É das ausências que sentimos falta, não do que está a mais. Ao excesso transformamo-lo, se formos hábeis, até no seu contrário, se o pretendermos! Aos silêncios prolongamo-los até se tornarem insuportáveis! No limite, desistimos deles.

 

Nos silêncios não há discussão de ideias, sempre saudável, mesmo quando dela não chegamos a qualquer conclusão. Dos silêncios, as conclusões que tiramos pecam sempre pela dúvida que lhe é ou está intrínseca. Terá sido isso ou por isso? Não sabemos! Ninguém nos explica porque se cala ou emudece! Vem-nos a inquietação. Começamos com as adivinhas. Quanto mais questionamos, mais nos afastamos da verdade. Nunca a havemos de saber a respeito de quem cala e, se insistirmos, mais revelamos da nossa. Ficamos frágeis, vulneráveis, susceptíveis. Nenhuma destas palavras é sinónimo, só parecem!

 

E partimos, sem resposta, com um sentimento de que alguém foi injusto! Então o que é que custava? Nada, não custava nada se fôssemos nós a estar daquele lado. Mesmo que nos custasse, despenderíamos toda a energia que fosse necessária só para não corrermos o risco de ser cruéis! Mas quem é que se importa com isto?! As pessoas querem é ficar sossegadinhas, no seu canto, e que ninguém as chateie ou se meta com elas. Chamam a isto: “Paz”!

 

“Mais perguntas?” Arriscam, para nos fazer notar que já fizemos de mais! Mas o que nos fazem notar é que não sabem responder a nenhuma delas. Ao princípio não percebemos isto. Porque não há nada a que não saibamos responder, porque não sabendo, sabemos dizê-lo! Nem toda a gente sabe fazer isto. As pessoas entendem, ou assumem, que dizer: “Não sei”, é uma fraqueza e a mim sempre me pareceu o contrário. Que é preciso ser muito forte para dizer tranquilamente: Não sei, e até gosto disso. Vejo logo ali uma oportunidade de aprender qualquer coisa, vejo sabedoria onde muitos vêem ignorância. A verdadeira ignorância é não querer saber! Não conseguimos aprender nada quando estamos convencidos que já sabemos! Ignorância é isto!

 

E o silêncio disfarça tudo. Serve de escudo, serve de máscara! Nem nos atacam nem nos revelamos. Mas estes utensílios só são úteis quando há uma ameaça, um inimigo… são raras essas vezes! Fora disso, o comportamento é desajustado, o de um autêntico palhaço! Só no circo é que a coisa tem graça! Acabámos por chegar lá! As pessoas acham-se engraçadas! Mas fora do circo, isso não faz sentido e acaba por ser ridículo! E não dão conta, porque a vida dos outros é o circo delas! Pagámos bilhete? É aqui que damos conta de que lá não estamos a fazer nada: para além de não acharmos graça ao número, não vamos servir de animais domesticados tendo nascido selvagens! Percebemos que aquilo é tudo a fingir. Drogam os animais, tiram deles o partido que podem e no fim, se se tiverem portado bem, compensam-nos com um bocado de carne, crua, que nojo! Se se tiverem portado mal, o que acontece a todos nós em determinados momentos, ainda se atrevem: “Não, hoje não mereces!”, quando pedimos oxigénio para respirar e era só um empréstimo!

 

E a injustiça está em que, feitas bem as contas, quem as paga é quem fala e não quem cala!

 

É aqui que as palavras fazem silêncio! Sem plural.

 

Cristina Pizarro

 

13
Abr21

Chaves de Ontem - Chaves de Hoje

Postais antigos

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Neste Chaves de ontem, Chaves de hoje, vamos mais uma vez até ao nosso rio Tâmega, em dois momentos, quando o nosso rio era navegável de barca, as famosas barcas que faziam a travessia entre o S. Roque e as hortas da canelha das Longras e um outro momento, quando de verão, o rio se transformava num imenso areal com “parque infantil”.

 

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Quanto ao momento do imenso areal do rio, com as crianças a brincar bem lá no meio, é anterior a 1910 (as coroas ainda estão em cima dos padrões da ponte. Quanto ao momento das barcas, poderia ter sido registado até (pelo menos) os anos 70 do século passado, pois nessa altura fui testemunha de muitas travessias de barca, no entanto a imagem é bem mais antiga, pois dá ainda para ver que que entre o casario de ambos as margens do rio havia apenas rio, portanto ainda antes das obras que estreito o leito do rio por baixo da ponte romana, mas para sermos mais precisos, a imagem é anterior a 1929, pois segundo o que consta na descrição de em ambos os postais, Chaves ainda era vila.

 

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O momento que fica em imagem da barca é o mesmo momento que curiosamente foi aproveitado para ser incluído em duas edições diferentes de postais.

 

 

 

12
Abr21

Quem conta um ponto...

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535 - Pérolas e Diamantes: Os nossos grandes traços civilizacionais

 

 

O pai de Charles Darwin bem o avisou de que havia de ser uma desgraça para si e para a sua família.

 

Ele, pelo sim pelo não, nos finais de 1831 foi-se embora. Apenas regressou a Londres passados  cinco anos, pelo meio entreteve-se a navegar pelo Sul da América, pelas ilhas Galápagos e por outras paragens. Trouxe consigo três tartarugas gigantes. Uma delas morreu apenas em 2007, num jardim zoológico da Austrália.

 

Dizem que voltou mudado. O pai disse-lhe que o seu crânio tinha agora outra forma.

 

Começou então a fazer perguntas a si próprio. Para lhes responder, escreveu um livro explosivo sobre a origem das espécies e a evolução da vida no mundo.

 

Darwin revelou que, afinal, Deus não tinha criado o mundo numa semana, nem nos tinha moldado à sua imagem e semelhança.

 

Ora, tal notícia, apesar de verdadeira, não foi bem recebida. Quem é que ele se julgava para corrigir a Bíblia?

 

O bispo de Oxford, armado em engraçado, questionava os leitores de Darwin se descendiam do macaco por parte da avó ou do avô.

 

Darwin revelou-nos que somos primos do macaco, não dos querubins, que os nossos antepassados vieram da selva africana e que nenhuma cegonha nos trouxera de Paris.

 

A verdade é que os seres humanos têm uma costela de Deus e outra do Diabo. Somos exterminadores, caçadores, criadores de bombas, capazes de vender ou alugar os nossos semelhantes, envenenar o ar, a terra e as águas, de matar por prazer, de torturar, de violar... e também de rir, de sonhar, de criar beleza, palavras e música. E de ter memória.

 

Na partilha de África, o rei Leopoldo da Bélgica recebeu o Congo como propriedade privada. Através do massacre de elefantes, este rei dos francos transformou a sua colónia na mais pródiga fonte de marfim. Aproveitando a sua tarefa civilizadora, mandou também chicotear e mutilar negros que trabalhavam como escravos para fornecerem a borracha barata e em abundância para as rodas dos automóveis que começavam a cruzar as estradas da velha Europa.

 

Os nossos grandes traços civilizacionais já vêm de longe. E foram até longe.

 

Em 1990, ano da independência da Namíbia, a principal avenida da capital, chamada Goring, continuou a manter o seu nome. Mas não foi, como podemos ser levados a pensar, em honra de Hermann, o célebre nazi, mas em homenagem ao seu pai, Heinrich Goring, um dos autores do primeiro genocídio do século XX.

 

O velho Goring era representante do império alemão nesse país africano. Foi ele quem teve a bondade de confirmar a ordem de execução determinada pelo general Lothar von Trotta, em 1904.

 

Os pastores negros, conhecidos como os hereros, revoltaram-se. As autoridades coloniais, postas perante a desobediência, resolveram expulsá-los a todos, avisando-os que matariam qualquer herero que encontrassem na Namíbia: crianças, mulheres ou homens armados ou desarmados.

 

Na contenda morreram três em cada quatro hereros. Ou abatidos pelos canhões ou pelo sol do deserto, para onde foram desterrados.

 

Os que sobreviveram à carnificina, acabaram nos campos de concentração que Goring organizou. Foi nessa altura pronunciada pela primeira vez a palavra Konzentrationslager.

 

Esses campos, inspirados nos antecedentes britânicos na África do Sul, eram multiusos, combinando a prisão, o trabalho forçado e as experiências científicas. Os prisioneiros, extenuados pelo trabalho nas minas de ouro e de diamantes, eram também cobaias humanas na investigação das raças inferiores. Nesses laboratórios trabalhavam Theodor Mollison e Eugen Fischer, mestres de Joseph Mengele.

 

Mengele, a partir de 1933, pôde desenvolver o que aprendera com eles. Foi nesse ano que Goring fundou os primeiros campos de concentração na Alemanha, seguindo o modelo que o seu querido e estimado pai tinha testado em África.

 

Razão tinha o jovem Winston Churchill quando, depois de as tropas britânicas bombardearem a cidade de Omdurman, escreveu que esse foi “o triunfo mais eloquente jamais alcançado pelas armas da ciência contra as armas da barbárie”, contra o “exército selvagem mais poderoso e mais bem armado alguma vez amotinado contra um moderno poder europeu”.

 

Os dados oficiais registaram cerca de dois por cento de baixas nas tropas civilizadas e cerca de noventa e oito por cento nas tropas dos negros selvagens.

 

João Madureira

11
Abr21

O Barroso aqui tão perto - Fiães do Tâmega

Aldeias do Barroso - Concelho de Boticas

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Fiães do Tâmega - Boticas

 

Continuamos na união de freguesias de Codeçoso, Curros e Fiães do Tâmega, precisamente nesta última aldeia, Fiães do Tâmega  que, como se poderá deduzir pelo seu topónimo, é uma aldeia das proximidades do Rio Tâmega e daí, no limite do concelho de Boticas.

 

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Vamos então até Fiães do Tâmega, como sempre a partida da cidade de Chaves e quase pelo caminho do costume, à exceção da Carreira da Lebre, que desta vez não temos necessidade de passar por lá, pois a partir de Boticas temos uma estrada municipal que nos leva até Fiães se necessidade de utilizar a R311.

 

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Estrada municipal que deveremos apanhar na segunda rotunda da vila de Boticas, na mesma rotunda que recebe a R311 vinda de Vidago, ou seja, apena atravessamos aR314 para apanhar a municipal que serve também as aldeias de Mosteirão e Veral, depois com saída para a R312 que liga a Ribeira de Pena.

 

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Mais uma aldeia que nos surpreendeu pela positiva, com muita vida nas ruas e a paisagem um pouco diferente daquilo que é habitual no Barroso, e assim tem de ser, pois Fiães não só está no limite do concelho mas também no limite do Barroso, sendo o Rio Tâmega o limite natural das terras barrosãs.

 

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E como no caderno da “Preservação dos Hábitos Comunitários nas Aldeias do Concelho de Boticas” está quase tudo que queríamos dizer sobre Fiães, passemos já à transcrição de algumas partes desse caderno. Desde já se avisa que a realidade atual pode não coincidir com aquela que é descrita no caderno, pois o mesmo foi publicado em maio de 2006, e desde aí, algumas coisas se alteraram.

 

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Vamos então ao que consta no caderno da  “Preservação dos Hábitos Comunitários nas Aldeias do Concelho de Boticas”

 

A freguesia de Fiães do Tâmega situa-se na extremidade mais a sul do concelho de Boticas, zona mais quente com temperaturas amenas, mais parecidas com as de Ribeira de Pena do que com as de Barroso. Confronta a Norte com a freguesia de Curros, a Este com Bragado, do concelho de Vila Pouca de Aguiar, a Sul com Parada de Monteiros, do concelho de Vila Pouca de Aguiar, e a Oeste com Canedo, do concelho de Ribeira de Pena.

 

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Distando da sede do concelho aproximadamente 13 km, o acesso viário faz-se seguindo pelo CM 1050 ate Fiães do Tâmega, ou, em alternativa, segue­ se pela ER 311, apanha-se a EM 312, vira-se na indicação Veral e segue-se pelo CM 1050.

 

Esta freguesia e constituída par duas aldeias: Fiães do Tâmega, sede de freguesia, e Veral, localizadas na encosta da Serra de Santa Comba. Ocupa, em termos territoriais, 14,5 km2.

O desenvolvimento da população desta freguesia de Fiães do Tâmega acompanha o movimento demográfico que caracteriza toda a região de montanha no Norte de Portugal, tipificada por uma diminuição progressiva da população, com uma pirâmide etária invertida, onde os grupos etários mais baixos são diminutos e a população envelhecida aumenta.

 

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E, desde sempre, uma das menos povoadas freguesias do concelho, sendo que actualmente tem aproximadamente 167 residentes. Se até aos anos 70 a sua população registou um pequeno crescimento, a partir dessa década a tendência passou a ser inversa e a semelhança do que se verifica na generalidade das freguesias do concelho, perdeu muita da sua população residente nos ultimas 30 anos, mais de 47%. Este fenómeno e em parte explicado pela intensificação dos fluxos migratórios que se registaram a partir da década de 70, nomeadamente para Franca e Estados Unidos da América.

 

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A este fenómeno alia-se o gradual envelhecimento da  população, apresentando uma grande tendência para o envelhecimento, sendo que 67% dos 167 residentes têm idade superior a 25 anos. Os níveis de alfabetização desta população residente são baixos, acompanhando o seu nível de envelhecimento, destacando-se o numero elevado de pessoas sem nenhuma qualificação académica. Esta situação excepcional e suportada pelo elevado numero de idosos, alguns deles regressados da emigração em situação de aposentados.

 

Relativamente à àrea de actividade económica, a maior parte da população dedica-se à agricultura e à pecuária, seguindo as caminhos ancestrais da freguesia, visando apenas a subsistência.

 

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Assim, algumas famílias continuam a actividade tradicional de criação de gado e produção de batata e milho. São os produtos que melhor se desenvolvem e produzem nesta região de Barroso, com elevados níveis de qualidade e sabor. Por se encontrar numa zona localizada a médias altitudes, mais quente e com menores amplitudes térmicas do que as que se registram nas zonas mais altas do concelho, nas aldeias desta freguesia também se colhe vinho. Também a produção artesanal de mel esta hoje em vias de desenvolvimento, funcionando como complementaridade no rendimento das famílias. Parte da população trabalha na construção civil e na área da industria e em empresas do concelho (Aguas de Carvalhelhos, Euronete, etc).

 

No que se refere a sociedade esta comunidade caracteriza-se pela existência de famílias de lavradores e pequenos proprietários de terras onde se desenvolve a actividade agrícola e pecuária. É uma sociedade homogénea com alguns quadros médios que se dedicam a actividade comercial e desenvolvem actividade no ensino e na vida administrativa nas terras vizinhas designadamente na sede do concelho.

 

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Em Fiães do Tâmega existe um café, com mercearia, e em Veral uma taberna, também com uma pequena mercearia. Nas horas de ócio e sempre que o tempo o permite, as pessoas ainda têm a hábito de se reunirem a conversar nas principais ruas das aldeias ou sentadas nas escadarias das casas dos vizinhos.

 

MARCAS DO SEU PASSADO

Embora o desejo de todos os habitantes de uma terra seja saber como e quando ela nasceu, a resposta não é fácil de esclarecer. Excluindo uma ou outra que vem identificada nos documentos antigos, a maioria das aldeias têm origem desconhecida no tempo e por razões variadas. Umas com história mais antiga, outras de origem mais re­cente, sabe-se que a maioria destas aldeias foram formadas a partir do agrupamento de famílias unidas par laços de parentesco ou afinidades económicas e profissionais que se organizaram em comunidade.

 

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Os inúmeros vestígios histórico-arqueológicos informam-nos da passagem e até actividade e fixação de povos antigos designadamente os povos árabes, visigodos, suévicos e romanos.

 

Muitas das aldeias de Barroso têm a sua origem histórica no movimento de reconquista e povoamento do território iniciado com a formação do Reino de Portugal, em 1143, e posterior fixarão de uma ou mais famílias de povoadores Teve particular desenvolvimento a partir dos finais do seculo XIII. Estes povoadores eram atraídos por contratos de aforamento cujos termos eram favoráveis a sua fixação, traduzidos em pagamentos de foros de valor acessível. Estes contratos são conhecidos como o processo de enfiteuse ou aforamento e eram promovidos indistintamente pela Coroa e/ou pelas Casas Nobres e Senhorios Eclesiásticos.

 

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São conhecidos alguns contratos de aforamento para as terras de Barroso, o que nos permite pensar que a grande maioria das suas aldeias e povoados tiveram origem neste modo de povoamento.

 

Os casais eram bens aforados, com maior au menor dimensão, a uma ou várias famílias dando lugar a formação de aldeias. Os foreiros tinham como obrigação trabalhar a terra e pô-la a produzir, ficando senhores dela e pagando um foro que estava consignado no contrato, mui­ tas vezes traduzido em bens de consumo produzidos no próprio casal, como centeio e/ou partes de criação.

 

Fiães do Tâmega e certamente uma das aldeias que se integra neste movimento povoador.

Desde sempre fez parte do território da paróquia de Curros. Em 1527, no Numeramento de D. João III, aparece identificada e povoada já com 11 moradores e Veral apenas com seis. Por morador entende-se fogo, correspondendo assim a uma população calculada de 70 a 80 in­ divíduos.

 

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Em 1758 vem referida num documento produzido pelo pároco da paróquia de Curros como sendo uma aldeia dessa freguesia juntamente, com Curros, Antigo e Mosteirão.

 

Em 1834 foi autonomizada juntamente com Veral, formando uma paróquia sobre si e uma freguesia, vindo a fazer parte desde 1836 do território do concelho de Boticas, entretanto criado. Em 1895, consequência de um nova desenho administrativo, Fiães do Tâmega passou para o concelho de Ribeira de Pena onde se manteve apenas ate Janeiro de 1898. A partir dessa data passou definitivamente para o concelho de Boticas até aos dias de hoje.”

 

Só um aparte para esclarecer que, tal como se disse no início desta transcrição, este documento é de maio de 2006, entretanto também a freguesia de Fiães do Tâmega deixou de existir, pois com a reorganização administrativa do território das freguesias (Lei n.11-Al2013) passou a fazer parte da união de freguesias de Codeçoso, Curros e Fiães do Tâmega.

 

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Para finalizar a transcrição da “Preservação dos Hábitos Comunitários nas Aldeias do Concelho de Boticas” que consta no caderno da antiga freguesia de Fiães do Tâmega.

 

TRADIÇÕES E FESTIVIDADES

Ao longo dos tempos algumas das festividades que outrora animavam estas comunidades foram-se perdendo. Todavia, durante o ano outras ainda se realizam, embora não com o fulgor dos velhos tempos.

 

Ainda cantam os Reis e o que recolhem reverte para a igreja. As pessoas costumam dar dinheiro e outras coisas, como fumeiro, que depois são colocadas a leilão à saída da missa, revertendo o dinheiro para a igreja. Costumam cantar:

 

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I

Abram-me lá essas portas

Que ainda não estão bem abertas

Aí vem as do presépio

P'ra lhe dar as Boas Festas.

 

II

Boas Festas, Boas Festas

Trazemos nós p'ra lhe dar

Que nasceu o Deus Menino

Numa noite de Natal.

 

III

Numa noite de Natal

Noite de tanta alegria

Que nasceu o Deus Menino

Filho da Virgem Maria.

 

IV

Vamos todos, vamos todos

Bamos todos a Belém

Visitar o Deus Menino

Que Nossa Senhora tem.

 

V

Aqui vimos, aqui vimos

Aqui vimos bem sabeis

Vimos dar as Boas Festas

E também cantar as Reis.

 

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Em Veral acendem o canhoto que vem do Natal e Ano Novo ate ao dia 6, a que nesta altura chamam de Canhoto do Entrudo.

 

O Entrudo trazia muita alegria e folia. Hoje ainda se mascaram, especialmente as crianças, andam pelas casas da aldeia e atiram farinha uns aos outros.

 

Na Páscoa faz-se a visita pascal.

 

São Bernardino, 20 de Maio, padroeiro de Fiães do Tâmega e da freguesia. Celebram este dia com missa, sermão e uma procissão com a imagem do Santo a volta da igreja.

 

No S. João (24 de Junho) e no S. Pedro (29 de Junho) outrora faziam as tranquilhas das ruas com carros de bois e paus. Todavia, esta tradição quase caiu em desuso.

 

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Santa Susana, 11 de Agosto, em Fiães do Tâmega. Neste dia fazem uma festa com missa e procissão com andores, acompanhada com uma banda musical, pelas principais ruas da al­ deia.  A noite realiza-se um  animado arraial popular com um conjunto musical e um espectáculo de fogo de artífico.

 

  1. Martinho, 11 de Novembro, padroeiro de Veral. Fazem uma festa com missa e procissão com andores pelas principais ruas da aldeia. A noite a festa prossegue com um animado arraial popular.

 

Em cada uma das  aldeias  por  ocasião do Natal e Ano Novo fazem aquilo a que chamam o "Canhoto de Natal" e "Canhoto de Ano Novo", ou seja, uma grande fogueira com cepos e trances de arvores. Em Fiães, no largo da igreja, e em Veral, num largo a que chamam Portela da Fecha. As pessoas têm por hábito juntarem-se  a volta destas fogueiras  e num espirito de partilha e comunidade despedem-se do ano que termina, enquanto celebram e dão as boas vindas ao novo ano que começa.

 

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E agora sim, o vídeo com todas as imagens da aldeia de FIÃES DO TÂMEGA que foram publicadas neste post. Espero que gostem.

 

Aqui fica:

 

Agora também pode ver este e outros vídeos no MEO KANAL Nº 895 607

 

E quanto a aldeias de Boticas, despedimo-nos até ao próximo domingo em que teremos aqui a aldeia de Mosteirão.

 

 

09
Abr21

O Barroso aqui tão perto - Póvoa

Aldeias do Barroso - Concelho de Montalegre

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PÓVOA

Salto - Montalegre

 

Continuando a cumprir a nossa falta para com as aldeias que, aquando dos seus posts neste blog, não tiveram o resumo fotográfico em vídeo, trazemos hoje esse resumo para a aldeia de PÓVOA, freguesia de Salto, concelho de Montalegre.

 

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Vamos mais uma vez até o Barroso verde já com um cheirinho ao Alto Minho, até à freguesia de Salto e a sua Póvoa.

 

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Terras verdes também onde D. Nuno Alvarez Pereira cavalgou e diz-se que treinou as suas tropas e onde casou numa aldeia próxima (Reboreda)  com a barrosã Leonor de Alvim,

 

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Mas hoje estamos aqui pela Póvoa e pelo seu vídeo que não teve aquando do seu post (link no final), aproveitando a ocasião para deixar mais algumas imagens que escaparam à anterior seleção.

 

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Vamos então ao vídeo com todas as imagens da aldeia de PÓVOA que foram publicadas até hoje neste blog. Vídeo que poderão ver aqui no blog, mas também no You Tube e MeoKanal. Espero que gostem.

 

Aqui fica:

 

 

E também  MEO KANAL  Nº 895 607

 

Post do blog Chaves dedicados à aldeia de PÓVOA:

 

https://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-povoa-1680003

 

 

E quanto a aldeias de Montalegre, despedimo-nos até à próxima sexta-feira em que teremos aqui a aldeia de Rebordelo.

 

 

09
Abr21

Vivências

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Fevereiro de 2020 (antes do Covid-19…)

 

Fevereiro de 2020. Fim de semana no Porto, conjugando motivos profissionais com um passeio em família. Após o almoço no Edifício Transparente, junto ao Castelo do Queijo, a tarde de sábado leva-nos à Fundação de Serralves para conhecermos a sua nova atração: o "Treetop Walk”. Compramos os bilhetes, seguimos a sinalética e entramos no passadiço em madeira de forma perfeitamente horizontal, aproveitado um desnível natural no relevo do parque. Caminhamos, então, alguns metros e quando olhamos para baixo surpreendemo-nos com a vista e a altura a que estamos, bem junto à copa das árvores, numa experiência diferente e impactante que se prolonga por cerca de 250 metros, contornando delicadamente as árvores, sem nunca interferir com elas. A meio do percurso, um pequeno anfiteatro permite-nos desfrutar ainda melhor desta visão verdadeiramente ímpar do parque.

 

A manhã de domingo é preenchida com uma visita ao “World of Discoveries”, na zona da Alfândega do Porto, um espaço temático que recria a odisseia dos Descobrimentos Portugueses. Em 2014, visitamo-lo com a nossa filha mais velha, agora repetimos a visita com as duas, e ambas ficam encantadas.

 

A tarde de domingo reservamo-la para um reencontro com uma amiga de longa data. É sempre bom rever os amigos do Norte. Há calor humano, braços que se abrem e conversas que continuam… A ideia era tomar um café. Acabamos por ser desafiados para ir petiscar qualquer coisa ao Mercado do Bom Sucesso, na zona da Boavista. Palavra puxa palavra, nem damos pelo tempo a passar e o regresso a casa acaba por se fazer já bem mais tarde do que pensávamos, mas daí não vem mal ao mundo… A viagem até Leiria decorre normalmente e todos estamos satisfeitos pelos bons momentos que passamos.

 

O que ainda não sabíamos em fevereiro de 2020 é que esta seria a nossa última saída e o nosso último convívio com amigos durante vários meses (até hoje, e até vermos…). Uma semana depois, o Covid-19 chegava a Portugal e três semanas depois entrávamos no primeiro confinamento…

 

 
Luís Filipe M. Anjos
 
Março de 2021

 

 

 

07
Abr21

A GRANDE AVENTURA

(SCENAS DE GUERRA)

1024-antonio granjo

 

 

António Granjo

A GRANDE AVENTURA

(SCENAS DA GUERRA)

8

Nota: A GRANDE AVENTURA - (SCENAS DA GUERRA) é um pequeno livro que resultou da participação do ilustre flaviense António Granjo na I Guerra Mundial de 1914-1918, que deixamos aqui em episódios, escritos no português da altura, incluindo erros e gralhas tipográficas.

 

 

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Tenente Grilo - In Ilustração Portuguesa 593 de 2/7/1917

 

O tenente Grilo

 

Tinha-me apresentado no comando do batalhão de infantaria 22, no dia 11, quasi á noite. Ao outro dia, de manhãsinha, o segundo comandante, capitão Godinho, fazia a sua visita ás linhas. Pedi-lhe para me deixar ir com ele.

 

Comandava a companhia da esquerda o tenente Grilo. Estou ainda a vêl-o. A sua cabeleira fulva ardia sob a negrura viscosa da abobada de ferro. A sua face branca, a que as sardas não tinham conseguido tirar uma grande expressão de beleza varonil, trazia á idéa o perfil dum archanjo.

 

— O dr. Granjo...

 

— Conheço-o de nome, e gosto de o vêr por cá...

 

A voz sahia-lhe dos lábios com um timbre quasi infantil. Mas dava desde logo a impressão de estarmos em frente de um homem.

 

O olhar de noviço da guerra prendia-se-me ás coisas mais insignificantes, lnspecionei o abrigo. Cigarros, papelada, cartas de trincheira, mantas, respiradores, capuzes, granadas de mão, uma meza, um banco — o mobiliário da primeira linha. Como um luxo raro, qualquer coisa de refinadamente asiático, sobre a leito de arame estendia-se um magnifico couvre-pied. Devagar, como quem conta uma historia, o tenente Grilo ia fazendo o relatório dos acontecimentos da vespera. Os alemães tinham assaltado o posto de granadeiros que defendia a trincheira de comunicação, a Hun-Street, depois de terem com um bombardeamento prévio de morteiros desmantelado a linha. Haviam conseguido levar prisioneiro um soldado quasi moribundo

 

As palavras cahiam-lhe dos lábios como leves pancadas metálicas. As mãos, duma delicadeza feminina, acompanhavam as palavras com gestos curtos e tímidos; de vez em quando as suas pupilas ganhavam um brilho fosforescente.

 

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O pintor português da Grande Guerra - Sousa Lopes

 

Saimos, eu e o segundo comandante, demos volta á primeira linha e voltámos pelo abrigo do tenente Grilo, que escrevia o relatório, a lapis, tranquilamente.

 

— V. quer alguma coisa? —perguntou lhe o capitão Godinho.

 

— Não, comandante.

 

E ergueu a cabeça. Uma mécha de cabelos mais ruivos, que lhe tombava sobre a nuca, assumiu á luz crepuscular do abrigo uns tons acobreados. Cá fora as ordenanças conversavam.

 

Voltámos para a séde do batalhão. Uma camouflage escondia o caminho das vistas do inimigo. Atravez da malha fina da camouflage, onde se tinham fixado folhas de arvores para melhor enganar os observadores inimigos, via-se o bosque de Biez, o legendário bosque misterioso, no qual, ao que se dizia, haviam desaparecido duas brigadas inteiras, uma de canadianos e outra de indios, sem que voltasse um só homem a dar conta do que se passara. As imaginações provavam-no de redutos, de corredores minados, de sistemas de alta tenção, de engenhos monstruosos inventados pelo génio guerreiro da Alemanha.

 

Uma maquina agrícola, torcida e enferrujada, jazia no meio dum campo. Um balão cativo, por traz do bosque, vigiava o horizonte, onde passavam esquadrões de nuvens cinzentas.

 

Depois, á tarde, eu fui apresentar-me na minha companhia e nunca mais vi o pobre rapaz. Foi já no dia 13 que soube da sua morte gloriosa na noite de Santo Antonio.

 

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O tenente Grilo sahiu do abrigo e veiu á barraca do telefone fazer a ligação. Tinha de atravessar a estrada de Lens, enfiada pelas metralhadoras e onde as granadas e os obuzes continuamente rebentavam, revolvendo a terra, como um tufão revolve um bocado esfarrapado de pano.

 

Cabeleira fulva ao vento, a face branca resplandecendo, ao clarão das explosões, dir-se-hia o proprio Archanjo da Victoria, que avançava sobre a trincheira e vinha estender protetoramente sobre a nossa frente a sua espada flamejante. Algumas palavras trocadas á pressa, einquanto o telegrafista martelava uma comunicação, e o tenente Grilo voltou para o seu abrigo, a descoberto.

 

O alferes Pereira, que comandava a companhia, ainda o avisou: — O' Grilo, tenha cautela!...

 

O tenente Grilo desapareceu sob a onda de metralha. Quem o viu disse-me que, nesse momento, lhe trouxe á imaginação um desses guerreiros lendários que nas batalhas medievaes apareciam no mais apertado do combate, dicidindo da vitoria com o prestigio deslumbrador do penacho do seu elmo.

 

Passaram alguns segundos, viram-se dois soldados correr, ouviu-se um rápido vozear, e deante da barraca do telefone, conduzido por duas ordenanças, seguia o tenente Grilo moribundo, com o sangue a sair-lhe aos borbotões da cabeça fulva. A mécha de cabelos mais ruivos pendia-lhe da nuca e dessa mécha escorriam grossas pingas rubras.

 

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Sousa Lopes - Portugal na Grande Guerra, uma encruzilhada perigosa, c. 1918, água forte, 212 x 298 mm

 

Um estilhaço de granada tinha-lhe perfurado o craneo e duas balas de metralhadora tinham-lhe varado o peito. Levara as mãos á cabeça, andara mais dois passos e cahira de borco, no meio da estrada, desamparadamente.

 

Pobre Archanjo da Vitoria! Uns segundos bastaram para fazer dessa linda figura, digna de imortalizar um grande pintor, um pobre trapo humano, que ia enfileirar-se entre os outros trapos humanos no pequeno largo saibroso, em frente do posto de socorros do batalhão, destinado á macabra formatura dos cadáveres.

 

Como se celebrou o funeral do tenente Grilo? Onde está enterrado o seu cadaver? Não sei ao certo. E' provável que ninguém saiba.

 

Ouvi dizer que tinha sido sepultado num cemitério inglez, na estrada conhecida pelo nome de Rue de Bois. Ao menos, a bandeira nacional teria coberto a maca rodada em que foram transportados os seus restos mortaes.

 

Nem discursos, nem flores, nem lagrimas. Nem um cântico religioso, nem uma palavra de despedida. Mãos indiferentes abriram o coval e, emquanto o canhão continuamente troava, os braços de alguns soldados deixaram cahir o cadaver embrulhado numa tira de lona, cobrindo-o depois daquela terra barrenta e pegajosa, apressadamente, atarefadamente, como quem se quer desembaraçar de um serviço incomodo. Na cabeceira do coval porão os inglezes uma cruz, com o nome, o posto, o numero do batalhão e a menção honorifica: Killed in action.

 

Esta miserável e pequenina grande guerra tirou toda a grandeza épica ás lutas humanas.

 

Até que, finda a guerra, aqueles que tombaram no campo de batalha possam ser trasladados para a Patria, nem as honras oficiais poderão ser-lhes prestadas. As descargas da ordenança revelariam ao inimigo a presença de tropas, e o boche não deixaria também de prestar as suas honras, desencadeando sobre o local uma tempestade de metralha.

 

Esta miserável e pequienina grande guerra!

 

Este episodio foi publicado no Diário de Noticias de 30 de janeiro de 1918. No mesmo jornal, em 12 de fevereiro do mesmo ano, veiu publicada uma carta anónima, que dá alguns informes sobre o bombardeamento da noite de Santo Antonio e diz a forma por que se fez o enterro do tenente Grilo. Publicamol-a a seguir porque dá alguns detalhes para a historia da campanha da Flandres. Diz a Carta:

 

«Ecoam ainda nos meus ouvidos os sons dos rebentamentos das granadas de todos os calibres, com que os alemães brindaram durante toda a noite de Santo Antonio de 1917 as posições de artilharia 2 e as trincheiras ocupadas por infantaria 22 e 7. No local onde me encontrava durante o bombardeamento, passaram-se horas aflitivas e as mais angustiosas da minha vida.

 

A oficialidade passeia nervosa na casa onde tomava a refeição, que ficou em meio; o telefone a cada instante transmitia-nos o que se passava na frente: «Os alemães atacam violentamente a 1.ª linha! Pedimos auxilio á artilharia! Alguns soldados que conseguiram salvar-se da 1.ª linha estão na 2.ª! Acudam-nos! Os alemães estão a atacar a nossa 2.ª linha! Pedimos auxilio á artilharia!»

 

A artilharia portuguesa estava calada! Nem um tiro! Os bravos soldados de artilharia 2, que horas antes tinham resistido ao violento bombardeamento, estavam de braços cruzados! Os valentes soldados de artilharia 7 estavam encostados ás peças sem que das mesmas saissem as granadas que iriam animar e defender a infantaria, que nas trincheiras sofria o embate inimigo! Felizmente para esses soldados, aos seus ouvidos não chegavam os gritos que eu sentia! Não sabiam o que se passava lá no fundo das trincheiras, onde soldados portuguezes pediam auxilio aos camara[1]das. Os oficiais estão como petrificados! Vêem morrer portugueses e não lhes podem valer. O meu major chora como uma criança; desgrenhado atravessa a passos largos a sala; parece-me que vai cair. Só lhe oiço estas exclamações: «E não lhes podemos valer!» Vejo-o aproximar-se do telefone e dizer: «Dêem-me a minha demissão! Não posso ver morrer camaradas e soldados portuguezes sem lhes poder acudir!»

 

A resposta!... A resposta não a direi agora. Deixemos terminara guerra. Não se fala, não se troca uma palavra. São duas da manhã e nas trincheiras apenas se ouve de tempos a tempos o rebentar de algum morteiro.

 

São três horas. Pelas estradas ha um movimento enorme de camions, automóveis, carros de munições, tudo quanto sirva para transportar metralha. Avisinha-se a alvorada e eu corro para o commando do 22. Chego antes do nascer do sol, quando começavam a chegar os mortos e os feridos. A nossa artilharia rompera o fogo já eu seguia o meu destino. Tenho ouvido falar no belo horrível e eu creio que presenceei esse belo horrível. O silvo de milhares de granadas, cruzando-se com o troar do canhão, obrigava-me a curvar a cabeça, num movimento de defeza, pois me parecia que as mesmas cortavam o espaço a um ou dois metros do solo, que tremia obrigando-me a vacilar. Os alemães raro respondiam a esse tempo. Deviam estar a descançar.

 

sousa lopes -.JPG

 

Portugal na Grande Guerra, uma sepultura portuguesa na terra de ninguém, c. 1918, água forte, 210 x 292 mm

 

Chegam agora os mortos que são colocados numa pequena trincheira de comunicação entre dois abrigos de oficiais. Vou contemplá-los. Lá encontro um cabo cujo cadaver enregelado tinha a posição em que o surpreendeu a morte. Na tarde anterior esse cabo praticara um acto heroico. Uma patrulha alemã, chegando ás nossas linhas, roubara-lhe o chapéu de ferro, o cinturão e o cantil. Exasperado, esse cabo jurou vingar-se. Mesmo de dia salta o parapeito das trincheiras e rastejando atinge as linhas alemãs. Penetra nas mesmas e encontrados objectos que lhe tinham roubado! Encontra mais um cinturão alemão e umas granadas de mão e, radiante, alcança novamente as nossas linhas. E' recebido com abraços, prometendo nunca mais largar o cinto, usando-o por cima do seu. Poucas horas o usou porque nessa noite, ao disparar a sua metralhadora, não querendo abandonar o posto que lhe estava confiado, uma bala inimiga, atingindo-o na testa, deu-lhe morte instantânea. Rigido, conservando a sua posição de atirador, foi encontrado nas trincheiras. Parecia vivo, tal era a sua posição. Olhos abertos, perna direita um pouco curvada, braços como se estivessem ainda com a metralhadora, assim o retiraram do local onde morreu, assim o conduziram para a séde do comando e assim foi sepultado. A rigidez do cadaver não deixou que os membros tomassem outra posição. Fui eu que lhe tirei o cinto que encontrei a um oficial e fui também eu que pedi a um soldado que lhe desabotoasse a farda e tirasse qualquer documento. Tinha uma linda recordação na carteira: era o retrato duma filhinha que ele na vespera cobrira de beijos antes de ir ás linhas alemãs. Era de Castelo de Vide este cabo, se não me engano.

 

Estão amontoados mais soldados mortos e entre eles vejo um oficial muito loiro, barbeado de fresco, com a cutis da cara tão branca, que se vêm as artérias esverdeadas. Está com a farda cheia de barro. Quem era? O tenente Grilo! Peço para lhe retirarem uma pequena aliança de oiro do dedo e um botão de camisa. Nada mais trazia comsigo. Estendo-lhe por cima um cobertor até que chegue a vez de ser conduzido A sepultura, distante uns dois quilómetros.

 

Veem chegando homens atacados de gazes e é necessário activar o movimento de saida dos feridos. Corro ao posto de socorros inglês onde... os nossos soldados aguardavam transporte para a ambulancia hoje n.º 3.

 

O que se passou neste posto não é para agora; deixemos terminar a guerra.

 

Eram duas da tarde quando mandei retirar de cima de dois cadáveres dos nossos soldados a bandeira inglesa que os cobria. Até esse dia os cadáveres dos soldados portugueses, foram cobertos com a bandeira da nossa aliada; depois dêsse dia os cadáveres dos soldados portugueses foram cobertos com a bandeira portuguesa, por pedido e para não dizer imposição dos poucos capelães portugueses. O tenente Grilo deve ter sido coberto com a bandeira da nossa aliada. O seu cadaver foi aspergido, bem como o coval onde repousa, por um padre português, que, tendo-se inutilizado no front, regressou a Portugal não lhe dando o Estado nem a residência, nem o registo paroquial de que se apossara quando êle partira como capelão e onde protestara contra o facto de os cadáveres dos soldados portugueses serem cobertos com uma bandeira estrangeira!

 

O cadaver do tenente Grilo está sepultado no cemitério inglês, e hoje português, da «Rue du Bois», uma das estradas mais lindas de França.

 

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Cemitério da «Rue du Bois»

 

Os encarregados do cemitério teem-lhe a sepultura plantada de miosótis e rosas, e varias vezes lá encontrei ramos de flores, ofertados pelas mãos piedosas dos que visitam as sepulturas dos camaradas. Eu também lá deixei em todos os cemitérios o incenso das minhas orações e o orvalho das minhas lágrimas de saudade pelos que lá ficaram sepultados.

 

Continua na próxima quarta-feira…

 

07
Abr21

Crónicas de assim dizer

cabecalho-assim-dizer

 

 

Uma espécie de borboleta

 

 

A borboleta esvoaçava em meu redor,

como se tivesse qualquer coisa para me dizer,

mas não tínhamos forma de comunicar:

eu de borboleta tinha nada

e ela de ser humano muito menos!

 

 

O seu corpo,

embora frágil,

era grande

e as asas pretas e castanhas

com pintas brancas,

penso eu,

porque ela não parava de bater as asas,

mesmo parada batia as asas

a uma velocidade que me era impossível,

por esse facto,

ter a verdadeira noção das cores!

 

 

Eu não percebia,

porque não tinha coração de borboleta,

porque é que ela batia as asas

com aquela insistência

mesmo quando estava parada!

 

 

Pensava,

eu,

“as asas são para voar”,

diziam os manuais de biologia

e a borboleta,

mesmo parada,

batia as asas

e não voava!

 

 

Aquilo fazia-me confusão

e quanto mais intrigada eu estava

mais atenção lhe prestava.

 

 

Quis apanhá-la,

não para lhe perguntar porque batia as asas,

mas para ver a sua verdadeira cor,

como se isso importasse para alguma coisa,

curiosidade de criança!

 

 

Qual o quê,

à terceira tentativa

percebi logo que a missão era impossível!

 

 

Pensei então enganá-la,

armada em esperta,

pode-se dizer.

 

 

Pensei que se eu me imobilizasse

talvez ela deixasse de me ver

ou,

pelo menos,

de notar a minha presença

e que,

finalmente,

parasse com aquele aflitivo movimento

que me cansava,

pelos vistos,

mais a mim do que a ela!

 

 

Nada,

ela continuava com a mesma impaciência,

que,

se calhar,

não era impaciência nenhuma,

mas era assim que eu a via.

 

 

Comecei então

a fixar-me num ponto da asa,

porque desistir não é o meu forte,

para ver a cor que persistia,

consciente de que podia ser um engano,

porque a mistura das cores

faz outras diferentes.

 

 

Ela não parava um segundo,

eu começava a ficar irritada!

 

 

Parecia-me que sim,

que preto ela tinha,

castanho também

e as pintas,

de que cor podiam ser

a não ser branca?

 

 

Se eu lhe notava pintas

era porque a cor,

fosse qual fosse

eu não sabia,

mas contrastava com a cor do resto da asa!

 

 

Poderia não ser branca?

 

 

Ela aproximou-se então de mim,

pousou-me na mão

e eu sorri!

 

 

Como são as coisas!

 

 

Àquela pequena distância

a cor da borboleta

não tinha importância nenhuma!

 

 

Agora que eu podia distinguir perfeitamente

as cores e os desenhos

que elas faziam nas asas,

não me interessava já para nada!

 

 

Pousou na minha mão,

sem medo,

sem vergonha,

sem ressentimento,

como se me conhecesse bem

e gostasse de mim!

 

 

E foi bom,

fez-me sentir parte da Natureza!

 

 

Àquela distância,

assim tão perto de mim,

eu já não me questionava

sobre o bater incessante das asas,

nem achei que por isso

ela estava nervosa,

ou impaciente,

ou era tola

por bater as asas

quando estava parada!

 

 

Percebi,

com uma clareza difícil de explicar,

que aquilo era uma característica sua,

como nós temos tantas,

sem nos questionarmos sobre elas:

o pestanejar incessante dos olhos

é uma coisa parecida!

 

 

E não servem os olhos para ver?

 

 

Então porque os fechamos

e abrimos,

ininterruptamente,

tal e qual a borboleta bate as asas?

 

 

Deve ser bom ser borboleta

e conseguir transmitir

verdades e sentimentos

que muitos seres humanos não são capazes,

pura e simplesmente

não conseguem!

 

 

Sim,

talvez não queiram,

é uma forma subtil

de dizer a mesma coisa!

 

 

No dia seguinte

acordei cheia de saudades dela:

porque é que as borboletas

são como a felicidade,

só duram um dia?!

 

 

Cristina Pizarro

 

06
Abr21

Chaves de Ontem - Chaves de Hoje

Chaves - A nova Praça do Caminho de Ferro

1024-carol- (440).jpg

ontem-hoje

 

Um curioso postal de um projeto para a nova praça do caminho de ferro, que pela autoria é anterior a 1942, eu estive mesmo tentado a dizer que seria anterior ao projeto da estação da CP, da era da Ditadura Nacional (1926 a 1933), mas pelo que se pode ver no verso do postal, penso que já é do tempo do Estado Novo de Salazar, isto por causa de ser um postal cuja edição é da Sociedade de Defeza e Propaganda de Chaves, à boa maneira do SPN (Secretariado da Propaganda Nacional) de Salazar, talvez da mesma época em que zelosos flavienses lhe deram o título de “Cidadão Flaviense” [i] 

 

1024-carol (442).jpg

 

Mas uma coisa é certa, temos pena que tal edifício se tivesse ficado apenas pela propaganda e não sido construído, pois seria mais um digno edifício em Chaves de alguém com nome na arquitetura nacional, pois o Arquiteto, ou Mestre José Luiz Monteiro (1848-1942) é autor de alguns dos mais emblemáticos projetos de arquitetura portugueses, tal como a Estação do Rossio ou o Parque Eduardo VII, entre muitos outros.

 

 

[i] Só para que conste, Salazar continua a ser cidadão de Chaves, pois tal decisão nunca foi revogada.

 

 

 

 

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