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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

07
Mai21

O Barroso aqui tão perto - Sabuzedo

Aldeias do Barroso - Concelho de Montalegre

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Sabuzedo - Montalegre

 

Continuando a cumprir a nossa falta para com as aldeias que, aquando dos seus posts neste blog, não tiveram o resumo fotográfico em vídeo, trazemos hoje esse resumo para a aldeia de SABUZEDO, concelho de Montalegre.

 

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Sabuzedo é uma das aldeias mais próximas de Montalegre (a cerca de 5Km), e aparentemente, parece ficar em direção a Poente, mas é pura ilusão, pois fica mais a Norte. Se medirmos num mapa, em linha reta, está a apenas 2,5km da fronteira com a Galiza e a cerca de 8Km das antigas aldeias do Couto Misto, quase à mesma distância (8Km) de Tourém e Pitões das Júnias, mas na realidade, entre Sabuzedo e todas estas aldeias, existe uma barreira chamada montanhas, que é preciso contornar com estradas para se chegar até elas, e aí, os 8Km passam a 30Km ou mais. Ou seja, os seus vizinhos mais próximos, acabam por ser relativamente distantes, exceção para aqueles que estão para cá das montanhas, na mesma condição geográfica, como Montalegre, Donões e Mourilhe. Fica apenas esta coisa curiosa de proximidades distantes, pois o resto, sobre a aldeia, já o fomos dizendo no post que em tempo lhe dedicámos, com link no final deste post.

 

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Hoje estamos pelo vídeo que não teve no seu post completo, com todas as imagens desse post e mais algumas que agora aqui deixamos, imagens que escaparam à anterior seleção. Vamos então ao vídeo, que espero que gostem.

 

Aqui fica:

 

 

Agora também pode ver este e outros vídeos no MEO KANAL Nº 895 607

 

Post do blog Chaves dedicados à aldeia de SABUZEDO:

 

https://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-sabuzedo-1652236

 

E quanto a aldeias de Montalegre, despedimo-nos até à próxima sexta-feira em que teremos aqui a aldeia de Sacoselo.

 

 

06
Mai21

Reino Maravilhoso - O Rexo (Allariz)

Douro e Entre os Montes

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O Rexo – Allariz

 

O nosso destino de hoje neste Reino Maravilhoso é entre os montes galegos, próximos de Allariz,  a caminho de Orense.  Allariz que é também um destino bem conhecido por muitos flavienses, mas que passam ao lado, ou desconhecem o Centro de Educação Ambiental – O Rexo, onde se promovem várias atividades em pleno ambiente rural na companhia de um autêntico museu de arte contemporânea ao ar livre.

 

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Para que não haja dúvidas onde fica o nosso destino, fica o mapa com o itinerário, mas podemos adiantar que O Rexo, fica a pouco mais de 3Km de Allariz, junto à povoação de Requeixo de Valverde, a 78 km de Chaves, e quase todos podem ser feitos em autoestrada e autovia grátis.

 

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Sobre o que lá existe, fica o que se diz na página oficial do Rexo, com link no final.

 

O texto está em galego, mas compreende-se bem, é assim como se fosse em português, mas com alguns erros pelo meio.

 

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O Centro de Educación Ambiental O Rexo está situado na Reserva da Biosfera Área de Allariz xestionada pola Fundación Ramón González Ferreiro.

 

Este espazo preséntase como un recurso, medio de apoio e complemento aos programas escolares, asociacións e familias. Conta cunhas instalacións (aula, granxa e queixería) acomodadas para desenvolver un proxecto educativo, que ten como fin e obxectivo xeral pór en coñecemento e valorización, iniciativas de desenvolvemento rural que axuden a preservar o medio natural.

 

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A través de xogos, dinámicas grupais, cancións e sobre todo da participación dos visitantes, os monitores achegan ós visitantes á flora e a fauna da Reserva da Biosfera, as tarefas e coidados na granxa, sensibilización ambiental, o traballo nunha queixería…

 

A edificación do centro levouse a cabo seguindo criterios bioclimáticos e coa instalación de enerxías renovables para un mellor aproveitamento dos recursos naturais na busca da coherencia co proxecto educativo. Así mesmo o edificio é unha ferramenta educativa máis a través das que traballamos a eficiencia enerxética, bioconstrucción, enerxías alternativas…

 

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INSTALACIÓNS

  • Aula, con capacidade para 50 persoas aproximadamente
  • Granxa de ovellas
  • Queixería
  • Casa de Palla
  • Charca con vida

 

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CONTIDOS

Desenvolvemento rural; Construcción sostible; Enerxía e cambio climático; Coñecemento do medio; Arte na natureza; Sensibilización e conservación ambiental…

 

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GRUPO DE VOLUNTARIADO

Dende o 2012 creamos o noso grupo de voluntariado a través do cal tentamos axudar a mellorar o noso entorno natural con saídas de limpeza e charlas divulgativas.

 

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ACTIVIDADES

As propostas do Centro de Educación Ambiental do Rexo personalízanse pensando nas características concretas dos participantes, idades, procedencia, nº de participantes… e sempre estamos abertos a suxerencias e aportacións.

 

Para os que dispoñen de pouco tempo está a Visita Básica, para aqueles que queiran gozar máis con nós están os obradoiros, xogos, roteiros e demáis visitas que vos darán a oportunidade de pasar no Rexo unha xornada enteira ou varias.

 

Fica o link para saber mais sobre O Rexo: https://fundacionrgf.org/cea-orexo/

 

 

 

 

05
Mai21

A GRANDE AVENTURA

Scenas de Guerra

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António Granjo

A GRANDE AVENTURA

(SCENAS DA GUERRA)

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Nota: A GRANDE AVENTURA - (SCENAS DA GUERRA) é um pequeno livro que resultou da participação do ilustre flaviense António Granjo na I Guerra Mundial de 1914-1918, que deixamos aqui em episódios, escritos no português da altura, incluindo erros e gralhas tipográficas.

 

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Carta a uma mãe

 

Os comandantes dos pelotões são quem censura as cartas dos seus soldados. E' uma tarefa aborrecida e ingrata, cumprida por desfastio nos intervalos dos bombardeamentos, entre o almoço e a ronda, á luz duvidosa do abrigo.

 

Em regra, são cartas pequenas, noticiando o estado de saúde, mandando recados aos visinhos, lembrando festas de familia ou pedindo novas das moças da terra. Mas, ás vezes, a nostalgia aperta mais os ingénuos corações dos magalas, os olhos cerram-se-lhes, e as suas almas simples, como grandes borboletas de asas impalpáveis, deixam-se ir, para além dos horizontes, até qualquer cantinho risonho e florido das nossas províncias, onde porventura, àquela mesma hora, numa correspondência misteriosa de afectos, numa telepatia obscura de sentimentos, vozes aflitas rezam por eles, mãos trementes se cruzam sobre os peitos confrangidos e olhos turvos de lagrimas se erguem para alguma Nossa Senhora, com o filho morto nos braços, entre as flores de papel do velho oratorio. O magala chama então o cabo ou o camarada mais letrado, e vai espremendo o coração sobre o bocado de papel.

 

Algumas dessas cartas, feitas nos momentos de maior emoção, são squemas admiráveis da sentimentalidade nacional. Verdadeiramente, constituem o nosso «folk-lore» da guerra. As imagens cáem dos bicos da pena com a mesma simplicidade luminosa com que o dia cai sobre os campos e com a mesma brandura e graça com que a nascente corre da serra. O coração salta para a palma da mão, as lagrimas saltam para os cantos dos olhos e as palavras escorrem dos lábios, doces como fios de melaço, acalentadoras como o lume da lareira, tranquilas como um seio de irmã.

 

As cartas passam do comando da companhia para o comando de batalhão, daqui para a brigada, daqui para a estação postal, e daqui para a terra longínqua, como asas de andorinhas que buscam um beiral amigo, onde, emfim, possam soltar os seus gorgeios.

 

A carta que vai a seguir é talvez uma dessas. Apenas lhe puz algumas virgulas, emendei alguns erros de ortografia e introduzi um ou outro período para lhe dar tal ou qual feição literária. Ela aí vai, como uma andorinha, em procura dos regaços carinhosos das mães dos soldados portugueses:

 

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«Minha santa mãe:

 

«Estimo que ao receber desta esteja de perfeita saúde. Eu continuo bom, graças a Deus.

 

Escrevo-lhe numa hora de grande saudade. Tenho-me lembrado todo o dia das nossas coisas — da nossa horta, do nosso eirado, da nossa casinha. Véem-me á memoria, sem querer, os tempos da infancia, e parece-me que chego a sentir as caricias da sua mão adoçarem a febre que me queima esta pobre cabeça, sobre a qual, a cada hora, como pios lugubres de corujas, passam os grasnidos das granadas.

 

Ha bocadinho deixei-me adormecer. A gente não deve abandonar-se ao cançasso, nem pôde entregar-se ao sono. O descuido de um minuto, o desfalecimento de um instante pagam-se com a vida. E' preciso olhar para todos os lados, quase adevinhar as intenções das balas, ter todos os sentidos bem espertos, para a gente se poder defender da  morte. Mas o corpo é fraco, e muitas vezes deixamo-nos cair numa especie de amolecimento da carne, de quebrantamento do sangue, que nos faz bem. Que se lhe ha de fazer? O que tem de ser tem muita força.

 

Como lhe ía dizendo, ha bocadinho deixeime adormecer. E entre a roseta vermelha que o sol fazia dançar deante dos meus tristes olhos fechados, o seu rosto apareceu-me como que vindo do céu, com o mesmo sorriso que tinha no dia em que eu levei para casa o primeiro dinheiro que ganhei. As saudades matam-nos, minha mãe.

 

Num outro dia, numa tarde de chuva, estava eu dentro do abrigo comendo o rancho, e descançando um pouco, porque todo o dia tinha andando a compor uma trincheira arrombada pelos morteiros do inimigo, e ouvi distintamente, junto de mim, a sua voz. Já o rancho me não prestou e para ali fiquei, agachado, vendo pela boca do abrigo cair a chuva na passadeira, tomado de uma melancolia que me fazia arrefecer as veias. Resistiremos facilmente ao inimigo, mas não sei se resistiremos a isto.

 

Temos o coração maior que os outros. E' talvez a nossa desgraça.

 

Os franceses teem na frente da batalha todos os seus homens validos. Passa-se pelas  vilas e pelas aldeias e não se encontram senão mulheres e crianças cobertas de luto. Mas as crianças riem e brincam como se nada fosse, e as mulheres divertem-se com ingleses e portugueses.

 

Não entendo esta gente. Não, não é lá por falarmos linguas diferentes. Quase todos falamos já um pouco de francês e não nos é dificil compreendermos os proprios ingleses. Não é por isso. Os corações é que não se entendem.

 

O beijo é para as nossas mulheres um pecado. Pois aqui é um cumprimento. Uma mulher casada que aí fosse vista a beijar um homem que não fosse o seu marido ou o seu irmão, estava perdida. A mim, ainda ha dias uma mulher casada me beijou na presença do marido, que sorria com indiferença. E preparava-se para se me sentar nos joelhos, se eu não tivesse mais vergonha do que ela e não tivesse fugido, com as mãos apertadas na cabeça.

 

As raparigas d'ai teem medo de que nos deixemos ficar por cá, enamorados das «demoiselles». Que não tenham receio!

 

As longas horas de namoro, ao luar duma desfolhada, sob as ramos duma arvore, juntodo peitoril duma janela, tocando-se, não as faces, mas as almas, beijando-se, não as bocas, mas os olhos, e isto por muitos anos, até que se assente o dia das bodas e se vá pedir a Deus que abençoe aquele longo e manso amor, emquanto os sinos repicam alegres, e as raparigas esperam cá fóra, no adro, com os açafates cheios de flores, a saida dos noivos, — toda essa graça, toda essa luz, toda essa pureza da nossa terra são coisas inteiramente desconhecidas desta gente.

 

Ail minha Mãe! se me vejo em Portugal, bebendo a nossa agua fresca, comendo o nosso pão amargo, dormindo nas nossas duas tabuas, e se tiver a felicidade de, á volta, encontrar uma mulher saudavel e bonita que me queira e que me dê tantos filhos quantos forem os anos que vivamos, como eu serei feliz!

 

Mas quando será isso? Quando acabará esta maldita guerra? Quando é que os homens deixarão de se matar como bestas féras e por cima destas trincheiras as mãos se estenderão aos inimigos no gesto irresistível de irmãos que se reconhecem e que se perguntam a si mesmos porque ha tanto tempo se estão matando?

 

Eu sei lá, minha santa Mãe! se as suas orações, e as de tantas mães que ha pelo mundo e teem aqui os seus filhos, não fizerem nada, estou a ver que os dias e os anos se passarão sem que se veja o fim.

 

Como quer que seja, minha Mãe, o seu filho ha de saber cumprir o seu dever de português. Já fui louvado duas vezes, e os meus superiores falam de mim aos camaradas como um exemplo a seguir. Considero, no entanto, que pouco fiz. Uma vez, no aceso do combate, sozinho, porque os meus camaradas tinham sido feridos, salvei o meu morteiro, levando-o ás costas, sob o desabar da metralha, para uma nova posição. Outra vez, tendo um obuz rebentado no meio da posição e tendo fugido os meus camaradas, eu não me deixei tomar do medo e despejei sobre o inimigo todas as munições. No fim de contas, como vê, pouco fiz. Outros teem feito mais, e ou porque foram vitimas da propria heroicidade e cá ficaram estrumando esta terra estranha, ou porque as suas façanhas não foram do conhecimento dos seus superiores, ficaram no mais ingrato esquecimento.

 

E não sou só eu. Todos são portugueses. Todos sentem que é com o seu sacrifício que a Patria, a nossa outra e grande Mãe, conta para se salvar e engrandecer. Se era necessário para cá vir, não temos remedio senão olhar para a frente. Os olhos devem abrir-se bem para o largo, a alma deve desagarrar-se das raizes da vida até tocar o céu, e os braços, visto que sômos poucos, devem  animar-se de dobrada força e triplicada vontade.

 

Quando o Pae morreu, da doença que contraiu na Africa numa expedição, havia nos seus olhos uma luz interior que parecia iluminar tudo. Eu era ainda pequeno, mas essa luz arde dentro de mim, como se fosse a minha propria vida.

 

Entendo que a vida só é boa quando dela possa resultar uma lição, e Deus me livre de ter o coração tão pequenino que não me encha bem o peito, e não bata tão forte que todos lhe sintam as pulsações.

 

Eu sei, minha boa Mãe, que ao lêr esta carta hade chorar muito. Hade chorar de tristeza, por ter o seu filho tão longe, exposto aos maiores perigos, passando os mais árduos trabalhos, refugiado numa toca como um lobo, com os pés sempre agarrados á lama e a mão procurando sempre a espingarda. Mas sei que também hade chorar d'alegria por vêr que o leite que eu bebi dos seus seios bemditos não se corrompeu dentro das minhas veias e que as lições de honra que eu hauri da boca moribunda de meu Pae, indicando-me o sentido da vida e o caminho da gloria, se insuflaram dentro da minha carne como células vivas que fazem parte do meu ser.

 

Peço-lhe que, se tem de chorar, o faça emquanto eu estou ausente. Porque, quando eu fôr—e hei-de ir, que tenho fé na minha estrela e sinto que Deus me tem sob a sua guarda —quero vêr-lhe os olhos bem enxutos, brilhando de toda a sua luz e penetrando-me de toda a sua doçura e de todo o seu calôr.

 

Vou terminar. Com esta longa carta, soceguei um pouco a alma e a saudade é menos viva. E' quasi a hora do álerta, em que todos temos de ir para o nosso posto.

Deite-me a sua benção e até um dia. — Antonio».

 

 

 

Esta carta, publicada no Diário de Noticias, mereceu a uma senhora franceza, M.me Blanche Froment, que imaginou ser nossa intenção visar depreciativamente as suas compatriotas, uma outra carta, que veio também publicada no Diário de Noticias, e em que justamente se exalta o papel da mulher franceza durante a guerra.

 

Essa carta vae a seguir publicada, bem como a resposta. Quando respondemos a M.me Blanche Froment sinceramente julgámos que se tratava dum pseudónimo. Viemos depois a saber que não, e antes se tratava de uma senhora distintíssima, que casou com um ilustre artista portuguez, e que da nossa terra fez a sua segunda e egualmente querida Patria.

 

Entendemos que não é fora de proposito dar aqui á estampa essas cartas, taes quaes foram publicadas.

 

Eis a carta de M.rae Blanche Froment:

 

 

«Lisbonne, le 27 fevrier 1918.

Monsiur le Directeur.

 

Je vous serais três reconnaissaute si vous vouliez insèrer ces quelquer lignes dans votre journal si impartial et estimable.

 

Vous avez publié hier un article sous forme de lettre « Carta a uma mãe» qui blesse mes justes susceptibilités de femme française, et je viens protester hautement contre la littérature pretentieuse de Monsiur Antonio Granjo. Afin de faire ressortir les beautés de l'âme feminine portugaise, à laquelle je rends hommage de tout coeur, il ne craint pas de fouler sous le talon de sa botte le caractère et la dignité des femmes de mon pays. II écrit que ces femmes en deuil s'amusent et rient avec les soldats portugais et anglais et que celles qui sont marieés n'hesitent pas fi embrasser aussi les soldats et a s'asseoir sur leurs genoux même em présence de leur mari!-…

 

D'un fait auquel il a « peut être» présidé, il fait une géneralité, mais ce qu'il démontre surtout, c'est qu'il est totalement dépourvu de 1'usage et du savoir-vivre écessaires a lui faire discerner la différence existante entre la « femme à soldat», dont le type es connu ici comme lá-bas, et la femme française, quelle que soit sa position sociale; et ce n'est vraiment pas en ce moment oê elle donne et continue à donner 1'exemple des vertus familiales, du dévouement et du courage, qu'il convient de venir la dénigrer sous pretexte de littérature.

 

J'ajoute que la « Carta a uma mãe» n'est même pas un article patriotique et qu'il est loin d'apporter na coeur des pauvres rnères portugaises le courage, la résignation et l'espérance qui leur seraient si necessaires! Cette lettre ne peut servir qu'á les faire souffrir davantage (si cela est possible) et personne ne devrait chercher à ébranler leur foi dans l'avenir et leur espoir d'un jour prochain oú elles pourront serrer sur leur coeur ceux qui lá-bas vivent du même rêve.

 

Personne plus que moi ne partage les angoisses de ces meres douloureuses, et —j'ai de la peine à retenir des larmes de pitié quand je vois partir ces beaux jeunes hommes empcrtant dans leurs bagages les « saudades » de tous et les miennes aussi.

 

Nons savons tous que la vie est dure pour eux làbas... La guerre veut cela, et les pauvres mères tremblent des dangers qu'elles entrevoient pour leurs enfants; mais alors? Est-il necessaire de leur noircir encore la tableau?

 

Veuillez croire, Monsieur le Directeur, à mes sentiments de haute consideration.

Blanche Froment.»

 

E eis a resposta:

 

Snr. Director.

Agradeço a v. as palavras benévolas que encabeçam a carta, assinada Blanche Froment, que vem publicada no Diário de Noticias, de 28 de fevereiro, e que só hoje, 2 de março, ás 23 horas, pude ler. Tenho a minha vida, que me obriga a estar fora de casa alguns dias, e eis aqui está porque só hoje posso responder á dita carta. Aproveito a ocasião, já agora, para me desculpar perante v. e os leitores do seu jornal, da fórma irregular por que vou redigindo e mandando as minhas impressões de «turiste» das trincheiras.

 

Creio, sr. diretor, que o nome que subscreve a carta é um pseudónimo.

 

Uma senhora, mesmo francesa, dirigir-se-ia a um cavalheiro, quem quer que fosse, de um modo bem diferente. E quando faço esta restrição — mesmo francesa— não quero de maneira alguma discutir, ao menos por agora, a mulher francesa.

 

Atribuo ás praticas malthusiasnas e ás velas de Erbon, e similares, em grande parte, a situação em que se debate a França, mas esse tema servir-me-á porventura para um artigo que escreverei quando tiver vagar e oportunidade, e não está nas minhas intenções antecipar o estudo dessa materia.

 

A mulher francesa tem, sem duvida, uma moralidade e uma sentimentalidade diversas da mulher portuguesa, e, sem averiguar por ora de que lado está a inferioridade, não me parece que a qualquer senhora francesa seja legitimo julgar-se ofendida, ou sentir-se susceptibilizada, por eu fazer uma tal afirmação.

 

Os costumes portugueses não permitem que uma mulher beije outro homem que não seja o seu marido ou um seu proximo parente. E' a verdade. Os costumes franceses fizeram do beijo um cumprimento. E' também a verdade. Não ha ninguém que conheça Portugal e que conheça a França e que não saiba isto. Não é a «femme à soldat» quem usa o beijo como um cumprimento — essa criatura usa o beijo como um triste modo de vida.

 

E' esse costume francês de uma moralidade superior ou inferior ao costume português? Eu não discuti esse ponto, que aliás é perfeitamente digno de discussão, sem que a dignidade da mulher francesa possa sequer ao de leve ser atingida ou molestada.

 

Assim, uma senhora francesa jámais se podia sentir ofendida com essas minhas palavras. Desde que o beijo é um cumprimento, não ha na troca desse beijo a porção de impureza que nós, os portuguezes, lhe poderíamos atribuir. Isso será até a manifestação, por uma fórma bem gentil, duma civilização refinada e superior, que nós ainda não alcançámos, e eu desejaria que jámais alcançássemos. Por isso eu creio que se trata de um pseudónimo.

 

A carta insurge-se contra o eu dizer que as mulheres francesas, embora tenham os seus maridos e irmãos na frente, se divertem com os ingleses e os portugueses. Não quiz fazer apenas pretensiosismo literário -registei um facto. Muitas mulheres francesas chorarão, no silencio recolhido do seu lar enlutado a morte dos seus seres queridos, sem que se lembrem, de certo, de vir á imprensa fazer alarde da sua dór. Efectivamente, a dór tem os seus direitos em toda a parte; e não é porque os costumes são mais livres que as lagrimas sentidas de uma mãe, de uma esposa ou de uma irmã são menos a expressão de uma alma aflita. Mas essas pobres almas mal podem com a sua cruz, e a essas me não poderia referir eu.

 

Não precisam, essas mulheres heróicas, que em Portugal, ou noutras quaisquer paragens, venha quem quer que seja em sua defesa. Essas, conheço-as eu bem. Vi-as, nas humildes «fermes» onde acantonei, rezando e chorando, como as mulheres portuguesas. Mas a par dessas, e sem ser preciso recorrer ás lobas dos acampamentos, quantas mulheres fizeram desta hora de combate a hora alegre e despreocupada duma vida de criaturas fáceis, mais perniciosas á França do que a metralha inimiga?

 

Quanto a ver-se uma mulher casada sentar-se nos joelhos d'um soldado, na presença do marido, será, e creio bem que é, facto singular —mas vi coisas piores em França. Vi, com infinita repugnância, em quase todas as cidades da rectaguarda, mulheres venderem, na presença dos maridos, aos soldados, colecções de postais obscenos. E essas scenas despertavam em todas as almas bem formadas, e que, como eu, amavam e amam a França, a tentação de correr tudo isso a chicote, porque a França não é, e jámais será, um balcão de imundicies. Ha, porventura, alguma senhora francesa que não sinta a necessidade de purificar a França de todo esse vil comercio?

 

E' «isso» a França?  E' «isso» a mulher francesa? Quem é que o disse aqui? Eu, ao menos, não.

 

De resto, dizer que os corações portugueses não sentem como os corações francezes; que nós, os portugueses, encontramos mais poesia, mais graça e mais pureza nos costumes do nosso povo do que em qualquer outro, incluindo o francês; que as moças de Portugal escusam de recear pelos seus namorados, porque os encantos das «demoiselles» não serão bastantes para os desviar do bom caminho do lar natal — dizer isto será porventura um crime? Pôr algumas palavras, simples e honestas, angidas de amor pátrio, na bôca dum soldado português, será defeso, a nós os portugueses ?

 

Não creio, repito, que a carta em questão fosse escrita por uma senhora francesa. Mas se o foi, essa senhora deve compreender que deveres de cortezia me impedem de ir mais além. Faço justiça ás suas intenções, mas onde não houve proposito algum, nem palavra alguma que denegrisse a verdadeira mulher, francesa ou portuguesa, eu não merecia as suas recriminações. E se ha injustiça que nos fira, a nós, os  homens, é justamente a que nos vem duma mão donde supomos que só pode cair... um ramo de flôres ou um livro de orações.

 

Essa senhora não me compreendeu, como talvez me não compreenda ainda. Eu quiz, com a minha carta, espertar o patriotismo das mães portuguesas, e procurei fazê-lo duma forma que tocasse os corações. Algumas senhoras portuguesas teem-me falado da carta com as lagrimas nos olhos—lagrimas quase de agradecimento, porque as minhas palavras foram de algum modo consoladores. Mas essa senhora não compreendeu. A razão está em que nós, os portugueses, sentimos e compreendemos de maneira diferente. E' a confirmação de tudo quanto tenho dito.

 

Espero não me enganar, dizendo que se trata de um nome suposto. Se, na verdade, contra o que é de esperar, se trata de uma senhora, reconheço que é a mim que me compete pedir desculpa, e como procuro sempre cumprir o meu dever, para ressalvar essa hipótese absurda, aqui apresento, por fim, as minhas homenagens á mulher francesa, e em especial á senhora que me deu pretexto para lhas apresentar.

 

Chaves, 2—3—18.

Antonio Granjo.

 

(Continua na próxima quarta-feira.)

 

05
Mai21

Crónicas de assim dizer

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Meu caro senhor

 

É com um misto de prazer e dor que lhe escrevo hoje esta carta, ao fim de tanto tempo sem falarmos. E a dúvida começa exactamente aqui, sabe como eu sou nestas coisas, era falar, aquilo que fazíamos nos nossos encontros?! Como chamaria eu, se tivesse que contar a alguém, descanse que não tenho, àquilo que nos aconteceu?

 

As semi-palavras, as semi-frases, os semi-parágrafos!

 

Que espécie de diálogos ou monólogos, eram aqueles em que eu falava e o senhor concluía ou então os outros em que eu não falava e o senhor me lia simplesmente a alma?

 

Era conversa, a série de perguntas sem intervalo que eu lhe fazia e a que o senhor respondia, numa sucessão de gargalhadas que me contagiavam e em que acabávamos os dois a rir?

 

Era um diálogo sem palavras, quando os olhos brilhavam e os lábios se entreabriam sem que qualquer som audível se pronunciasse?

 

Relembro hoje, meu caro senhor, o dia em que teve a ideia brilhante de me convidar para conversar consigo. Escolheu talvez o único tema sobre o qual eu nunca, e em circunstância alguma, me poderia escusar a falar. O senhor sabia-o, sem que fosse necessário alguém dizer-lho. Era óbvio em demasia.

 

Eu aceitei, alegando que não tinha nada para fazer, quando na realidade tinha tudo, ou quase tudo, por fazer.

 

Fui e nunca mais voltei.

 

Ainda hoje, tanto tempo depois, e enquanto lhe escrevo esta carta, sinto a necessidade desse regresso.

 

Para onde me levou? Onde é que me deixou? Como foi que me distraiu tanto no percurso que agora não encontro o caminho de volta?

 

Não, nem pense nisso, longe de mim atribuir-lhe qualquer culpa ou responsabilidade, voltaria a perder-me da mesma forma, com a mesma intensidade e desta vez talvez fechasse completamente os olhos desde o início. Nestas coisas, às vezes, quanto menos consciência tivermos, melhor é o resultado.

 

Queria dizer-lhe ainda, ou também, que sinto deveras a sua falta, não como alguém alheio a mim, uma entidade externa ou algo assim, mas como parte integrante do meu ser, como se me tivessem amputado um membro, braço ou perna, braço e perna.

 

Claro que nos adaptamos, conseguimos fazer exactamente as mesmas coisas, fazemo-las é de outra forma, a outro ritmo e talvez com outro resultado. Nem melhor nem pior: diferente.

 

Este processo de adaptação, como muito bem sabe, demora algum tempo. Não fomos preparados para ele. Quando Deus nos criou, à sua imagem e semelhança, deu-nos tudo e nós, enquanto tivemos, não pusemos a hipótese de viver sem parte.

 

Depois da perda, o nosso interesse modifica-se. Começamos a interessar-nos por coisas em que nunca tínhamos pensado: cadeiras de rodas, canadianas, carros adaptados ao nosso grau de deficiência ou incapacidade…

 

Um mundo de coisas abre-se à nossa frente. Coisas em que nunca tínhamos pensado e que provavelmente morreríamos sem saber.

 

Uma chuva de coisas nunca vistas e sentidas começa então a acontecer. Vêm estímulos de todos os lados, sentimos que de repente acordámos para um mundo novo e diferente, um mundo que já existia e que nós não víamos, um mundo que já existia mesmo antes do nós existir.

 

Queria agradecer-lhe também por isso, o ter-me proporcionado esta visão das coisas e do mundo que me rodeia, tão tangível e que eu julgava tão distante, a ponto de o desconhecer e de o achar inexistente.

 

Queria sobretudo agradecer-lhe a dor que me causou, a enorme desilusão de todas as coisas que julgava umas quando foram outras, as coisas em que acreditei cegamente e não passaram de uma ilusão, uma brincadeira, um sonho de criança.

 

Não há nada mais desajustado ou inadequado do que trocar as etapas cruciais da nossa vida. Aprendi isso consigo. Não podemos, sob pretexto algum, ainda que inteligente, viver na idade madura -aquilo a que talvez Jean-Paul Sartre chamaria a Idade da razão- a adolescência que não tivemos. As fases do desenvolvimento do ser humano são graduais e sucessivas, não gozam da propriedade comutativa da adição.

 

O senhor ensinou-me isso, entre tantas outras coisas.

 

Não posso deixar de lhe estar infinitamente grata pelas palavras que nunca me disse, mesmo naquelas situações, ou circunstâncias, mais espectáveis, em que o comum dos mortais não resistiria a pronunciá-las.

 

O seu elevado grau de seriedade e inteligência está muito acima disso e o seu equilíbrio e bem-estar interior nunca lhe permitiriam um tal abandono do racional ao emotivo. Caso o tivesse feito, eu teria agora que debater-me entre o esquecimento dessas palavras ou o imprimi-las na memória. Um esforço e uma perda de tempo a que me poupou.

 

Quero deixar também aqui expressa a minha enorme e sincera gratidão pelo tempo que não me disponibilizou. Pude dessa forma aproveitá-lo para fazer outras coisas, também importantes, para as quais de outra forma não teria tido tempo.

 

Acima de tudo queria dizer-lhe o quanto o estimo e admiro pela forma silenciosa como o senhor terminou os nossos afáveis encontros, sem qualquer palavra mais ou menos própria ou sem qualquer tom de voz mais ou menos agradável.

 

Não há como o silêncio para nos deixar escolher entre uma coisa e outra, entre o tudo e o nada, entre uma coisa e o seu contrário.

 

É sempre agradável esta sensação de liberdade, ficarmos tempos intermináveis sem perceber o que aconteceu, o que se passou, sem saber o que esperar do dia de amanhã ou que importância teve o de ontem. É muito pior e completamente escusado, saber que uma coisa boa acaba definitivamente e sofrer de uma vez, quando se pode perfeitamente sofrer aos poucos e de forma prolongada no tempo, de modo a parecer uma eternidade, até se diluir completamente e deixar de doer. As pessoas que acham isto uma tortura ou um massacre, não sabem o que dizem.

 

Agradeço ainda, como não, os fins de tarde em que eu ouvia o som dos violinos através do brilho dos seus olhos e juraria a pés juntos, meu Deus como parecia real, ter uma orquestra atrás de si, enquanto o senhor fixava as horas no relógio para confirmar se ainda lá estavam, com um fugaz e ténue receio de chegar atrasado a coisas que para mim não tinham importância nenhuma, num egoísmo não partilhado.

 

E indignava-me, veja bem como são as coisas, a sua troca de conceitos que seguia a ordem estabelecida, mas que a mim me parecia seguir o impensável e livre arbítrio. Ali, àquela hora, como lhe era possível?!

 

E foi exactamente por isso, ou também por isso, que mais tarde percebi que as coisas se podem fazer uma de cada vez e não todas ao mesmo tempo, que o mesmo tempo que faz tudo querermos, também espera por nós.

 

Não tive, nesse tempo, oportunidade de lho dizer, e por isso escrevo hoje esta carta já com tudo mais arrumado e ordenado, contrapondo com o estado caótico em que às vezes me encontrava.

 

Talvez seja esta a altura própria de lhe manifestar o meu profundo pesar pela falta de visão, estratégia se preferir, em todo o meu comportamento tido, que partia da grande premissa errada de que o instante seguinte não é de todo uma certeza e pode não acontecer.

 

Errada, como não, o senhor mesmo mo disse tantas vezes! As mesmas vezes em que eu o desacreditei, porque era mais fácil para mim pensar que era o resto do planeta a estar errado, do que eu a enganar-me, num convencimento inqualificável.

 

Como, pois, terminaria isto, sem ser por sua única e não expressa vontade!

 

Sempre houve coerência no seu discurso, ponderação, razoabilidade, lógica e assertividade. As dúvidas eram todas minhas e os erros, todos da minha autoria. Tudo que era desajustado era a minha assinatura que tinha, nunca a sua!

 

Agradeço ainda o ter-me recusado educadamente todos os convites despropositados, admito que em parte algo atrevidos, que lhe enderecei. Fez-me sentir diferente de todas as mulheres a quem isso nunca aconteceu, numa vulgaridade camuflada de paixão e outras palavras vazias de sentido, intenção ou conteúdo.

 

Foi preciso tê-lo conhecido para perceber a diferença entre coisas tão obviamente opostas.

 

Termino esta carta agradecendo, por fim, nunca enfim, o ter escolhido, sem eu lho ter pedido, o que era melhor para mim.

 

Bem-haja!

 

Da sua, para todo o sempre, querida

 

Cristina Pizarro

 

 

 

04
Mai21

Chaves de Ontem - Chaves de Hoje

Postais Antigos

1024-12-ca (1765) postais.jpg

ontem-hoje

 

Na semana passada deixámos aqui o postal nº14 de uma edição de postais antigos, edição da “Sociedade de Defeza e propaganda de Chaves”, impressa por Lévy et Neurdein Réunis, 44, Rue Letellier, Paris.  Hoje deixamos aqui os postais nº12 e 13, com clichés da Fotografia Alves, respetivamente com uma vista da fachada principal da igreja da Madalena, não a totalidade da fachada, mas grande parte, e não é de estranhar, pois uma imagem frontal da mesma, é quase ou mesmo impossível de obter, a não ser com alguns truques e montagens, tudo porque dada a altura da igreja e os prédios do outro lado da rua,  impedem uma vista limpa sobre a fachada, no entanto, existe pelo menos uma imagem, também em postal, onde a fachada se vê na totalidade, tendo o fotógrafo (que desconheço) aproveitado o feliz momento em que o prédio em frente da igreja foi demolido para reconstrução. Um destes dias deixaremos aqui essa imagem.

 

1024-13-ca (1776) postais.jpg

 

A segunda imagem, postal nº13, é do jardim público, que foi construído no início do século passado. Aparentemente pelo porte do arvoredo que se vê na foto, que foi plantado com a construção do jardim, as árvores já têm uma certa idade, mas não mais que vinte e poucos anos, e digo isto porque nesta série de postais, num deles, ainda aparece em legenda “Vila de Chaves”, ou seja, como Chaves só passou a cidade em 1929, e na falta de documentação em que possa dizer qual a data de edição desta coleção, das duas, uma, ou estas vistas são anteriores a essa data, ou então são uma edição posterior com imagens antigas.

 

 

 

03
Mai21

Quem conta um ponto...

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538 - Pérolas e Diamantes: Entre o Bem e o Mal

 

 

O burguês pensa que a vida é feita de tédio e de chantilly. Já o operário supõe que ela se baseia em esforço e frango de churrasco.

 

Nós estamos sempre entre o bem e o mal. Poucos são os que estão para além desta dicotomia.

 

Todas as abominações praticadas no século XX foram perpetradas em nome das boas causas: a universalidade da classe operária; a pureza da raça ou, mesmo, ao serviço de um bom Deus.

 

Soljenitsin teve razão quando disse que as boas causas funcionam como multiplicadores do crime. A verdade é que as religiões e as ideologias cegam como uma venda fatal.

 

Pascal já nos tinha avisado que costumamos correr despreocupados para o precipício, depois de lhe termos colocado qualquer coisa na frente, para não o vermos.

 

E não vale a pena anunciar o fim das ideologias. Por cada uma que se perde, descobrem-se dez. Se a noção de classe já não entusiasma, o fantasma da etnia está na moda e a comunidade dos fiéis não deixa de crescer e ter sucesso.

 

A política atual é vítima ou de maus conselheiros ou de confidentes intrusivos. A sua linguagem baseia-se no elogio. O heroísmo do sacrifício foi substituído pelo heroísmo do elogio. O cheiro a sangue foi substituído pelo aroma do incenso adulador.

 

Como diz André Glucksmann: “O bajulador bajulado cresce à custa daquilo que bajula.”

 

O mal só consegue prosperar quando é ignorado.

 

Os fanáticos mudam de dogmas e de bandeiras, consoante os tempos e os locais, mas quase nunca de maneiras.

 

No que toca a sistemas, é avisado reservarmo-nos sempre o direito de rirmos no dia seguinte das ideias da véspera.

 

Entre 1940 e 1945, a história bateu todos os recordes no que diz respeito a massacres. O maniqueísmo ideológico fez com que para uns Estaline explicasse Hitler e para outros que Hitler explicasse Estaline. A direita decretou que a ditadura concentracionária era filha da esquerda e a esquerda empenhou-se precisamente em demonstrar o contrário. Auschwitz e o Gulag foram a cara e a coroa de uma mesma moeda totalitária. Sermão de esquerda, sermão de direita. E no fim sempre o catecismo. Até porque, no término da contenda, todos lavaram as mãos como Pilatos. A verdade não é, nem nunca foi, uma mensagem divina.

 

O poeta Paul Celan disse para quem o quis ouvir: “Aquele que caminha de cabeça para baixo, meus senhores e minhas senhoras, aquele que caminha de cabeça para baixo, vê o céu como um abismo por baixo de si.”

 

É muito provável que muitas das nossas virtudes não passem de vícios disfarçados. Quem faz o anjo também produz a besta. Ou dito de outro modo, quem criou o bem também criou o mal. 

 

A verdade é que andamos a serrar as árvores à sombra das quais nos abrigamos.

 

Nesta nossa época, os homens já não se guiam pela autoridade ou pela confiança, apenas seguem o seu raciocínio pessoal, as suas convicções e as suas opiniões que julgam ser independentes.

 

Os nossos contemporâneos são os heróis da especulação: fazem para não fazerem e veem para não ver. E não conseguem estar um momento calados. Mas estar de boca aberta não significa necessariamente que dela saia alguma coisa.

 

Estou em crer que se perdeu a verdadeira noção de idealismo. Nietzsche definiu-o de forma exemplar, pela voz de um avô, provavelmente inventado: Idealismo é vislumbrar o nascer do sol sempre que se acende uma vela.

 

O irresponsável, mesmo não querendo, também trabalha contra si mesmo. 

 

Bem entendida, a mensagem d’ A Menina do Capuchinho Vermelho é, na sua versão convertida, uma mensagem subversiva. Depois de castigada por não ter seguido os sábios conselhos de prudência viu-se transformada numa heroína sem medo nem culpa, que, depois de engolida pelo lobo mau, abre caminho utilizando uma faca para sair do ventre do animal.

 

Pretender construir um mundo em que os humilhados e ofendidos se emancipam por si próprios é a pior das ilusões.

 

Os novos arautos da velha religião tentaram substituir os falsos deuses  pelos verdadeiros, sabendo sempre que os verdadeiros eram tão falsos como os falsos. Todos os deuses o são. Todos, sem exceção.

 

Toda a língua é dúplice, pois dilui o significante no seu significado.

 

Nunca foi provado que a verdade prevaleça sobre a mentira, em matéria de linguagem.

 

João Madureira

30
Abr21

O Barroso aqui tão perto - Reigoso C/Vídeo

Aldeias do Barroso - Concelho de Montalegre

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Reigoso - Montalegre

 

Continuando a cumprir a nossa falta para com as aldeias que, aquando dos seus posts neste blog, não tiveram o resumo fotográfico em vídeo, trazemos hoje esse resumo para a aldeia de REIGOSO, concelho de Montalegre.

 

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Como o que tínhamos a dizer sobre a aldeia já o dissemos em tempo no post que lhe dedicámos (com link no final), hoje apenas deixamos mais algumas imagens que escaparam à anterior seleção, e igualmente dignas de ficarem aqui

 

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Vamos então ao vídeo, com as imagens de hoje e do post completo que lhe dedicámos. Relembramos que também pode ver este e outros vídeos de aldeias do Barroso no nosso canal do YouTube   no  MEO KANAL Nº 895 607. Espero que gostem do vídeo.

Aqui fica:

 

 

 

Post do blog Chaves dedicados à aldeia de REIGOSO:

 

https://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-reigoso-1633272

 

E quanto a aldeias de Montalegre, despedimo-nos até à próxima sexta-feira em que teremos aqui a aldeia de Sabuzedo.

 

 

29
Abr21

Reino Maravilhoso - Alto Douro

Douro e entre os montes

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1600-reino maravilhoso

 

Neste “Douro e entre os montes” de hoje, mais que uma excursão é quase uma ”incursão”, só que por terras amigas de além Douro e até além Côa, pois vamos até terras do distrito da Guarda, na margem esquerda do rio Côa, até à Quinta de Ervamoira. Pode parecer que saímos fora do âmbito desta rubrica, mas não, como nossa defesa podemos dizer que continuamos em terras onde se produz bom vinho (vinho) e vinho do porto e que estamos ainda na bacia hidrográfica do rio Douro, e embora possa parecer estranho, ainda estamos entre os montes de Trás-os-Montes, pois para quem não sabe, Trás-os-Montes prolonga-se para além do rio Douro.

 

 

 

 

28
Abr21

A GRANDE AVENTURA

SCENAS DA GUERRA

1024-antonio granjo

 

António Granjo

A GRANDE AVENTURA

(SCENAS DA GUERRA)

11

 

Nota: A GRANDE AVENTURA - (SCENAS DA GUERRA) é um pequeno livro que resultou da participação do ilustre flaviense António Granjo na I Guerra Mundial de 1914-1918, que deixamos aqui em episódios, escritos no português da altura, incluindo erros e gralhas tipográficas.

 

 

 

O metralhador

 

 

Ao «a postos» da manhã recomendei novamente que a limpeza das duas metralhadoras se não fizesse à mesma hora. O inimigo podia surpreender-nos quando ambas as metralhadoras do pelotão estivessem desarmadas e não poderíamos oferecer a resistência indispensável para na segunda linha se tomarem as posições de combate e para terem tempo de acudir as forças de apoio. Levantado o «a postos», fui verificar se a ordem

tinha sido cumprida.

 

Uma das guarnições ficara efectivamente em alerta. Ao periscópio, uma sentinela vigiava a campanha. A metralhadora, com um tambor carregado, estava encostada a um ângulo do parapeito. O cano, bojudo e negro, destacava-se dos sacos de terra, como uma enorme lesma. Disse ao cabo que a dissimulasse e fui ver a outra guarnição.

 

Sôbre uma manta, junto do abrigo, os soldados tinham estendido as peças da metralhadora desarmada. Ao sol daquela manhã de princípios de agosto, os aços reverberavam. Sentado sobre um lençol impermeável, um soldado ia carregando os tambores que se haviam esvasiado nas ultimas horas da noite. O cabo escolhia os cartuchos de dentro dum cunhete e ia-os entregando ao carregador. O tic-tac dos cartuchos, entrando nos cavados, e adaptando-se entre as cavilhas, fazia cabecear de sono um outro soldado que limpava o cano.

 

As metralhadoras não fazem em regra fogo dos postos de combate. Ha posições à direita e à esquerda, donde, de vez em quando, para manter espertas as sentinelas, conservar os homens confiados e perturbar alguma patrulha inimiga que ronde a Terra de Ninguém, se fazem rajadas.

 

Chamei o cabo e fui ver essas posições. Por virtude da disposição da trincheira, os dois postos das metralhadoras eram muito próximos. Havia um ponto na linha inimiga onde, nos dias anteriores, se tinha notado algum barulho nos arames, supondo-se que os alemães andassem reparando ou reforçando as suas defesas acessórias. Esse ponto ficava um pouco afastado das posições de combate das metralhadoras. Dei ordem para se fazerem naquela noite, duma posição fonteira, algumas rajadas baixas.

 

Reparei que o cabo se mostrou um pouco enleado e se lhe crisparam levemente os músculos da face.

 

—Que é?

—0' meu alferes, esta posição é batida toda a noite por morteiros ligeiros...

—Homem, se vamos a pensar nisso...

 

Eu fui para o outro lado da linha e o cabo fez a continência e foi ganhar a sua guarnição.

 

O dia decorreu no socego já habitual. Raras, as granadas, passavam altas, para a rectaguarda; e apenas ao meio dia um combate sem resultado de dois aeroplanos, que se metralhavam a 200 ou 300 metros de altura, quebrou a tranquilidade do sector.

 

A' noite, entrei de ronda às 22 horas. A lua estava no quarto minguante. Uma claridade mortuária, com uns laivos azulados que erravam sobre os arvoredos, amortalhava a terra. O céu parecia mais profundo e as estrelas pareciam chegar-se, tiritantes, umas às outras. A estrada de Santiago estendia de lez a lez o seu imenso rasto fosforescente. Estrelas cadentes precipitavam-se de quando em quando no vácuo. Um «very-light» subiu rapidamente no ar untuoso, descreveu a sua curva luminosa, e foi cair, ainda aceso, dentro da trincheira inimiga. No céu, emquanto o foguete ardeu, projectou-se um fugaz clarão vermelho. Para a rectaguarda, o reverbero das fabricas de canhões e munições de Yzeberg fazia sonhar num incêndio enorme que devorasse uma cidade longínqua.

 

Lembrei-me de ir ao posto da metralhadora verificar se a minha ordem tinha sido cumprida. O cabo informou-me, numa voz grave, que, justamente, iam fazer naquele momento uma rajada da posição indicada. Um soldado pôs a metralhadora ao ombro e outro, com um balde de tambores, seguiu-o sem dizer palavra.

 

Acompanhei-os. Emquanto assentavam a metralhadora, debrucei-me no parapeito e inspeccionei a Terra de Ninguém. Uma vala, paralela ao parapeito, corria em baixo, antes da nossa rede de arame, como um fôsso estreito, no fundo do qual a água dormia. Adiante, a nossa rêde de arame emaranhava-se meia escondida entre as hastes tenras das gramíneas bravas e das flôres silvestres. Viam-se as cabeças dos «long-pickets», como grandes olhos de insectos pousados. Na frente, por sobre a planície sem fim, rolava o mistério. Dentro do bosque misterioso sentia-se o rodar surdo das vagonetas. Em duas crateras produzidas por morteiros pesados, e que alargavam para o luar os lábios irregulares e sujos, agitavam-se as sombras. Daquela facha de terra de alguns metros de largura, e que os maiores exércitos que ainda se tinham reunido sobre a terra disputavam ha três anos, ascendia uma fermentação de coisas pútridas que turbava a alma.

 

O metralhador premiu o gatilho e o som da rajada prolongou-se na noite calma como o rebentamento duma vaga na praia deserta.

 

— Está bem, rapazes. Daqui a uma hora outra rajada...

 

E um com a metralhadora, outro com balde, os dois soldados voltaram para a posição de combate.

 

Junto dum abrigo próximo, tinham colocado um bocado de passadeira sobre dois cunhetes vasios. Sentei-me. Procurei matar o tempo. O tempo é o grande inimigo. O segredo desta guerra está em fazer à roda do espírito uma atmosfera em que não haja cor, nem som, nem movimento e em que se vejam correr as horas como os ramos pendentes das margens vêem correr as águas do rio. O essencial é ganhar a soma de inconsciência necessária à vida animal em que se transformou a existência de toda esta gente que se mata e que range os dentes.

 

Sôbre Bethune as grauadas anti-aereas fosforejam como grandes pirilampos. Os jactos luminosos dos projectores cruzam-se. Alguns morteiros pesados caem no sector à esquerda. A passadeira toma uma trepidação violenta como se a terra fosse sacudida por uma convulsão.

 

O tempo vai-se passando. Um maqueiro dormita com os braços apoiados num través e com a cabeça encostada às mãos cruzadas. A boca fica-lhe livre, respirando brandamente o ar fresco. Disse às ordenanças que fossem a meio da trincheira morta lançar um «verylight» e fiquei contemplando, sósinho, a noite sereníssima.

 

O luar adelgaçára-se, tornára-se mais transparente, mais diafauo, como um imenso véu de tule coando a luz dos astros. Os lábios grossos do maqueiro, sôbre os quais o luar caía em cheio, mechiam-se, parecendo alongarem-se para sorverem alguma coisa distante. Talvez o pobre rapaz sonhasse com a boca da namorada...

 

Ouviu-se uma descarga de morteiros ligeiros. Uma ordenança voltou.

 

— Meu alferes, está um homem morto na trincheira...

 

Acordei o maqueiro e passámos sob os estilhaços. Atravessado de lado a lado, dobrado  sobre si mesmo, estava um soldado de borco 110 chão. 0 maqueiro foi buscar a maca. Uma das ordenanças voltou o cadáver e compôs-lhe piedosamente as mãos sobre o peito. A cabeça descaiu-lhe sobre a valeta e os olhos do morto pregaram-se nos meus. Era o metralhador, que tinha vindo à trincheira morta fazer outra rajada, em obediência às minhas ordens, e que tinha sido varado alguns passos antes da posição.

 

 

(Continua na próxima quarta-feira.)

 

 

 

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