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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

17
Jun19

De regresso à cidade...

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Cá estamos de novo de regresso à cidade, hoje com uma passagem pelo Forte de São Francisco. Desta vez fazemos o regresso ainda de noite… e podia continuar com esta escrita páginas e páginas,  seguidas,  a mentir-vos com verdades. É assim um pouco parecido com o que se faz na política, na história e até na poesia e literatura em geral. Para ser sincero, estou irritado. Esta imagem que vos deixo irritou-me, aliás a irritação já aconteceu  no momento em que a tomei, tudo porque não era este o seu melhor enquadramento, mas fui obrigado a desviar um bocadinho a objetiva para não apanhar um coisa que não queria apanhar…vai daí,  no momento de escrever estas linhas, pus-me a meditar sobre coisas que me irritam, o porquê de esta imagem me irritar se até gosto dela? ou, por exemplo o Camões, ou melhor, o Camões em nada me irrita, embora não seja um autor que eu leve de férias para ler ou que aprecie a sua obra, contudo há até alguns momentos dos quais gosto. O que me irrita em Camões não é o Camões, mas o culto que se faz à sua volta. Tal como acontece, por exemplo,  com o 10 de Junho,  Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. O que faz o Camões no meio de Portugal e das Comunidades Portuguesas!? Porquê raio temos de estar sempre a evocar e a regressar a época dos descobrimentos!? Porquê raio se está sempre a falar de “Os Lusíadas”  e ninguém refere e poucos são os que conhecem a “Peregrinação” e Fernão Mendes Pinto!?. É, desde que descobri que a primeira História que aprendi estava manipulada e que havia outra História para além dela, nunca mais fui o mesmo e de vez em quando, quando penso nisso, irrito-me, tal como me irrita esta adoração de mitos e as mentiras da nossa história feitas apenas com as verdades que convêm, deixando de fora as verdades que a questionam ou desacreditam.

 

O que vale é que embora estas coisas me irritem, em nada perturbam o meu sono! Cada um acredita naquilo que quer!

 

 

 

16
Jun19

Sobrado - Chaves - Portugal

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Há uns bons anos que é hábito neste blog, os sábados serem reservados para as nossas aldeias do concelho de Chaves. Nesta nova ronda decidimos fazê-lo por ordem alfabética com fotografias que escaparam à seleção dos anteriores post’s. Assim, hoje toca a vez à aldeia do Sobrado.

 

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Sobrado que se localiza no planalto da Serra do Brunheiro, pertence à freguesia de Nogueira da Montanha, a pouco mais de 1 Km do limite do Concelho de Chaves/Valpaços, tendo como aldeias mais próximas a sede de freguesia (Nogueira da Montanha) e Gondar a Nascente, Alanhosa a Norte, Capeludos e Sandomil a Poente e Amoinha Velha a Sul. A aldeias mais próximas estão entre os 400 e os 600 metros de distância (Nogueira e Gondar) e as restantes a cerca de 1Km. A título de curiosidade, Sobrado fica num cruzamento de estradas mais ou menos orientadas conforme os pontos cardeais que ligam às aldeias atrás mencionadas.

 

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É uma das nossas aldeias de montanha e também das mais altas do concelho (como quase toda a freguesia), localizada a uma altitude de 825m, onde é bem real aquele dito que se aplica por cá, o dos 9 meses de inverno e 3 de inferno, mas por lá, o inverno é mesmo rigoroso, mas se tem este dói, também alguma coisa se aproveita deste rigor, principalmente do frio, bom para curar as carnes de porco e, também, conjuntamente com a terra, um clima ideal para nele se produzir batata de qualidade, mas não só.

 

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Olhem só para estas cebolas, até parecem de oiro, e são-no, principalmente nas mãos de uma boa cozinheira ou bom cozinheiro. Aliás no Sobrado calhou numa visita feita a pedido a um dos seus habitantes, ter encontrado e fotografado os ingredientes necessários para um manjar dos deuses, e se não é de todos os deuses, é pelo menos dos deuses transmontanos e de todos os transmontanos fiéis.

 

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Só não fotografei o azeite e o vinho, mas esses já todos sabemos que são condimentos ou companhia obrigatória na nossa cozinha e de uma boa mesa, aliás se todos os cozinheiros forem como eu, sem azeite, cebola e alho, não faço nada.

 

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Então já temos as cebolas, o feijão seco, umas carnes na salgadeira e a seguir vai ficar a imagem de uma cabeça de porco com todos os seus pertences e uns pezinhos. Ora que é que isto sugere!? – Uma palhada à transmontana, claro!

 

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Invejosos por não terem desta coisas!? não há problema, por cá, pelo menos os que acreditam, enxotam a inveja, os maus olhados, as bruxas, espíritos e outros males com uma   Ruta graveolens à porta ou no jardim. Esta da Ruta graveolens foi só para o armanço, o nome científico, pois por cá o que põem mesmo à porta é uma planta de arruda (que é a mesma coisa), e também denominada como arruda-fedida, arruda-doméstica, arruda-dos-jardins, ruta-de-cheiro-forte. A arruda é uma planta da família das Rutáceas. E podem crer que o cheiro da arruda é mesmo fedido (podem trocar o “e” por um “o”, porque o é mesmo.

 

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Embora a arruda também seja por alguns considerada uma erva medicinal, não é das ervas mais recomendadas, pois é muito forte e tóxica em todas as suas formas, e pode matar. Se a vir, deixe-a em paz com a sua função de enxotar invejas, maus olhados e outros, pois a medicina, mesmo a das ervas, é só para quem sabe, especialistas, pois se não for na dose certa, pode ir mesmo desta para melhor, passar férias para a terra, mas definitivas, por baixo dela! A mim basta-me o cheiro fedido para não me aproximar dela.

 

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Quanto à aldeia de Sobrado e ao seu topónimo, pode ter origem muito antiga dos tempos da Gallaécia, e afirmo isto porque ainda hoje na Galiza este topónimo é muito comum e tendo em conta a sua origem, encaixa perfeitamente na nossa aldeia, pois em português comum, sobrado é um pavimento de madeira, e não me parece ter aí a sua origem. Os nossos irmãos galegos explicam assim os seus “Sobrados”:

 

O topónimo Sobrado, para o que cómpre reconstruir un antigo superatu ou superato, “altura”, “que está sobre ou enriba”

 

Penso que não será necessária a tradução, pois o galego e o português, são quase a mesma coisa.

 

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Quanto a este nosso Sobrado, tem o seu núcleo antigo bem identificado, com um aglomerado de construções antigas, maioritariamente construídas em granito de pedra solta. Trata-se de um pequeno núcleo com cerca de 10 casas. A restante aldeia é de construções novas, dispersas, que foram construídas ao longo das estradas que ligam às aldeias vizinhas.

 

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Quanto ao seu povoamento atual, sendo uma aldeia de montanha, tem todas as condições para ser uma aldeia despovoada e com população envelhecida. Já assim o era em 2006 quanto tomei a maioria das fotografias que hoje vos deixo e como a tendência do despovoamento se tem mantido e nada, nem ninguém a contraria, hoje deve estar bem pior.

 

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Mas esteja com estiver nada nos impede de a deixar aqui, nem que seja e só para memória futura, mas sabemos que ainda há pessoas com fortes ligações a esta aldeia, e daí estar aqui com todo o direito e também ter direito àquele que começa a ser o nosso habitual vídeo de encerramento, como de costume, com todas as fotografias (ou quase todas, pois confesso que perdemos algumas) que foram postadas neste blog. Fica também o link para o caso de quererem aceder ao vídeo diretamente a partir do youtube:

 

https://youtu.be/8jm7-twOeBY

 

 

 

 

14
Jun19

É tão bom...

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Hoje fazemos uma passagem pelo Bar da Associação, um cantinho de lazer para quem trabalha no duro, de sol a sol quando o há e se não houver, o trabalho não para. Gente que não tem vidas fáceis, mas também não são de complicar muito a vida, são mais de vidas simples mas com muitas experiência e experiências, tantas, que se fosse escritor, em cada vida, de cada um, arranjava argumentos para um ror de romances, sem ficção, só com o meu amigo Bino, que também está na foto, arranjava três ou quatro argumentos, mas com ele, decidia-me pelo cinema, para filmes daqueles que implicam com as pessoas. De vez em quando vou por lá, claro que momentos destes só em domingos e feriados, vou e fico por lá, apenas.

 

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Nestes momentos não conto as horas, nem sequer as levo comigo para não cair na tentação de as ter presentes, fica-se enquanto se ficar e mais nada, quando muito, faz-se um pequeno desvio até à beira rio, com a melodia de fundo sempre presente, mesmo sem concertinas, pois há sempre o bater de umas cartas na mesa ou as malhas a bater nas beiças do sapo onde especialistas na matéria fazem o entretém do seu público fiel, entretanto, eu, à beira rio, entro numa maré de contemplação onde mesmo sem palavras, a poesia acontece. É tão bom amanhã ser sábado!

 

 

 

14
Jun19

Vivências

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Conseguiríamos hoje?

 

 

Estamos a 1000 metros de altitude, algures entre as serras da Arada e de São Macário, no limite dos distritos de Aveiro e Viseu. Nos últimos quilómetros da nossa viagem percorremos a A25, a EN 16, a EN 227, a R326 e agora o CM1123, uma estrada que já não é nem nacional nem regional… Deixamos para trás o país das autoestradas, percorrido a grande velocidade, como quem tem sempre pressa em chegar a algum lado, e estamos agora em pleno país rural, onde a estrada, estreita, sinuosa e com mau piso, nos obriga a ir devagar e a apreciar a paisagem. E a paisagem, aqui no topo destas serras, é deslumbrante!

 

A estrada segue em direção ao Santuário de São Macário, e por aqui também se pode chegar até aos Passadiços do Paiva - certamente um dos caminhos mais improváveis para lá chegar… Entretanto, deixamos a estrada num corte à esquerda e o alcatrão termina logo ali para dar lugar a um estradão de terra e pedras. Seguimos mais alguns metros de carro e depois estacionamos e continuamos a pé por uma descida acentuada que se estende por quase três quilómetros.

 

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Fotografia de Luís dos Anjos

Chegamos, então, a Gourim, uma aldeia abandonada, perdida no fundo dum vale, mas que em tempos teve vida, graças à agricultura, à pastorícia e, sobretudo, à exploração de volfrâmio. Hoje, a única atividade que por aqui existe é a de um pequeno espaço de turismo rural que promove diversas atividades na área do desenvolvimento pessoal, tais como yoga ou meditação, para quem procura, por umas horas ou uns dias, fugir à azáfama da cidade…

 

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Fotografia de Luís dos Anjos

O silêncio e a beleza da paisagem imperam para onde quer que olhemos e inspiram-nos. Estamos longe de tudo e de todos e sentimos que aqui teríamos tempo para tudo: passear, ler um livro, escrever, meditar, ouvir música... Mas, se tivesse mesmo de ser… Se tivéssemos mesmo de viver hoje aqui, como viveram as sucessivas gerações desta aldeia, sem água canalizada, eletricidade, transportes, televisão ou Internet, apenas com a natureza e a nossa vontade… Conseguiríamos?

 

Luís Filipe M. Anjos

Setembro de 2017

 

 

13
Jun19

Uma rua, um rio e uma flor selvagem

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É sempre o mesmo, chegado a esta hora nunca sei para onde hei de ir. Lembrei-me de interromper e entrar um pouco nas leituras. Ultimamente tenho andado cismado com o O’Neill, Alexandre, claro, mas hoje não me convenceu. Na procura encontrei um livro do nosso António Granjo, “A Grande Aventura”, fui lendo salteado como quem diz saltitando de entre páginas, entre tiros, mortos, granadas e trincheiras ia acontecendo poesia, andorinhas a passar, melodias, ia pintando telas em prosa poética. Granjo era poeta, republicano, jornalista, doutor das leis… infelizmente não o deixaram crescer. Seria leviandade minha, assim à primeira, trazer aqui fosse o que fosse de António Granjo, ainda estou na fase da sua descoberta.

 

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Infelizmente os afazeres, deveres, não nos deixam desfrutar da cidade tanto quanto queríamos, mesmo estando cá a habitá-la todos os dias, ou pensamos que a habitamos, mas apenas passamos por ela, vamos e regressamos sempre pelos mesmos caminhos, cruzamo-nos com os mesmos rostos, sempre os mesmos bons-dias, boas-tardes e rotinas, sem tempo para descobertas e sentir o seu pulsar.

 

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Mas arranja-se sempre qualquer coisinha, o que é preciso é vontade e alguma disciplina, para além de procurar o porquê do momento congelado, que às vezes não é assim tão fácil de detetar. Já está uma da Rua Direita, recordo-a bem, senti o momento. O Tabolado, o Jardim Público, a Madalena, o Arrabalde são sempre uma nascente que não deixa de brotar. Ah, lembrei-me que enquanto esperava pelo acelerar dos carros do rali, me entretive por lá com umas florzinhas selvagens e de ter reparado numa em especial, tão frágil, tão fina, tão-tão, bastaria um pequeno toque e quebrava-se… mas qual quê, qual carapuça, tão leve, que uma pequena brisa que seja a faz desviar-se de todos os perigos. Às vezes vale a pena reparar na fragilidade dos momentos para vermos a força que têm. E prontos, já está. Assunto resolvido e com esta me vou!

 

Até amanhã!

 

12
Jun19

Cidade de Chaves - Um novo hotel

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Dei uma vista de olhos nos meus documentos à procura de alguma informação histórica sobre o ex-velho/antigo hotel, agora novo hotel da rede IBIS, mas pouca coisa encontrei. Tudo indica ser mais que centenário, pelo menos a julgar por uma deliberação da Câmara Municipal,  26 de novembro de 1924, então denominado Hotel Baptista, propriedade de Bernardo da Costa Teixeira Pinto, cuja deliberação dizia que o proprietário “não fez as reparações ou modificações indispensáveis  naquele velho edifício, como lhe havia sido pedido. Por esse facto, a Câmara deliberou, por unanimidade, expropria-lo em próxima reunião”. Ora foi o único documento que, hoje na feitura deste post encontrei, mas tudo me leva a crer que o tal edifício, expropriado ou não, foi demolido e deu origem ao atual, mesmo por que cartas existentes mais antigas mostram um edifício com implantação diferente da atual. Quanto a fotografias antigas, já do segundo quartel do século XX, mostram o atual edifício,  mas ainda com a denominação de  Grande Hotel e só posteriormente começa a ser denominado Hotel de Chaves. Seja como for, a ocupação daquele espaço como Hotel já é de longa data, e depois destas últimas dezenas de anos fechado, foi agora reconstruído, só mantendo as paredes exteriores originais, e continua a ser hotel, agora com a marca IBIS, o que, pelos que conheço quer em Portugal, quer em França, são hotéis de qualidade e acessíveis, sem dúvida, uma mais valia para a cidade de Chaves e esta, mesmo no coração da cidade.  Ainda não abriu, mas penso que está previsto abrir no próximo mês de agosto.

 

 

11
Jun19

De regresso à cidade...

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Esta semana fazemos o regresso à cidade um dia mais tarde, tudo porque ontem foi dia de Portugal, mas por cá. foi também o dia da Senhora da Saúde em São Pedro de Agostém, que,  no meio de tanta oferta que este fim-de-semana teve, passou despercebido, pelo menos àqueles que não lhe são tão fiéis. Festa que aliás começou domingo, no dia das sete festas como alguém me disse em Agostém, onde também foi festa.

 

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Por mim, aproveitei o Domingo e subi lá cima à croa da Serra do Brunheiro, ao seu ponto mais alto, pela primeira vez. Já tinha andado por perto, mas desta vez cismei que era mesmo lá que ia, e fui. Claro que aproveitei para fazer umas imagens, entre as quais estas que vos deixo, dão para ver como Chaves estava a meio da tarde de Domingo.

 

Resto de uma boa semana!

 

 

 

11
Jun19

Chaves D´Aurora

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  1. CILÍCIO E SAMBENITO.

 

 

Bem mais do que a Cerimónia do Chá, que Alfredo celebrara com a sua gueixa brasileira, atrás do biombo japonês, sua progressiva consciência era a de que a obediência filial veio conduzi-lo a uma outra cerimónia, aquela que, por definitiva e já sacramentada, parecia-lhe merecer, agora, uma única sensação: arrependimento. Tal compreensão dos factos conseguira fazer o rapazola mergulhar no banzo de uma perda irreparável. Não tanto a perda anatómica da esposa, mas a dele, o desperdício de sua juventude, esse lapso de vida que ele próprio, por impetuosidade hormonal, ajudara a interromper.

 

Abria-se lhe, ademais, uma outra perceção, mais recente, apesar de sua pouca idade e ele não ser dado a maiores voos filosóficos. Pelo facto de ser o único do clã que continuava a manter relações normais com todo mundo, Alfredo começava a considerar (ao seu modo mais simples de pensar, não o traduzido por este narrador) que, no mor das vezes, aquilo tudo que, agora, estava a fazer da Quinta Grão Pará um verdadeiro pórtico onde se lia – “Deixai toda esperança, vós que entrais!” – era bem mais, na verdade, um delírio dantesco de perseguições dentro da mente de seu pai e das irmãs, a entronizarem a culpa de algo pelo qual nenhum deles, nem mesmo Aurita, deveria ficar tanto tempo a se flagelar como estoicos penitentes.

 

 Para Alfredo, a partir de uma conversa com o primo Rodrigo, não era senão uma pequena parte da sociedade flaviense que se comprazia em entregar aos Bernardes o cilício ou o sambenito. Não seria melhor deixar esses poucos cães sarnentos a ladrar e a beber a baba de sua raiva, enquanto a caravana dos seus familiares continuasse a passar, altaneira, com um profundo desdém por essas matilhas de imbecis? Alfredinho, porém, não alcançava que, por menos numerosos que fossem esses convictos guardiões dos códigos da Moral pública e privada, promulgados e respeitados sob o poder da religião dominante, eram sempre os mais influentes.

 

Tudo isso, portanto, já estava a deixar profundas marcas de queimaduras do Santo Ofício, cicatrizes invisíveis, que desfiguravam as faces de cada um dos membros de seu clã, inclusive as dele próprio. De qualquer forma, o temor com que Reis a todos dominava, esse outro tipo de entronização das peias sociais na mente dos oprimidos, das quais os seres humanos não conseguem se libertar, fez com que Alfredo jamais pudesse externar a ninguém, exceto ao seu politizado primo, qualquer uma dessas considerações.

 

Por falta de maiores conhecimentos dos livros e da vida, não lhe alcançava a expressão contexto histórico, que pode abranger, ao mesmo tempo, cada subcontexto político, económico, social, bem como a vigência, em cada época ou região, ou até mesmo em um espaço global, de diferentes conceções, morais, religiosas e filosóficas, ainda que as éticas tendam a ser universais.

 

Tais normas podem até se traduzir, no presente, em leis e costumes rigorosos, cuja obediência é fanaticamente exigida e vigiada, mas, no futuro, essas imposições poderão vir a ser reformuladas ou desfeitas e até mesmo, no mor das vezes, consideradas ridículas ou absurdas pelas pósteras gerações.

 

Facto é que Alfredo, ainda que de modo intuitivo, começava a perceber que, muito além dos falhanços de Aurora, havia outros fatores intervenientes nesse cachão de lágrimas, que escorriam de brunheiros e barrosões sobre os Bernardes, fatores esses que ele não conseguia definir, mas que sabia estarem a contribuir para toda aquela hecatombe familiar.

 

 

  1. ANARQUISTA.

 

Rodrigo agora se entregara de vez às ideias do Anarquismo e estava de malas prontas para ... 

 

(continua na próxima terça-feira)

 

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10
Jun19

Quem conta um ponto...

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446 - Pérolas e Diamantes: Densas banalidades

 

 

O que mais me incomoda nos portugueses é a sua “tendência natural” para as meias tintas, para a conciliação ou mesmo para a subserviência.

 

Eu aprecio a insubmissão e todas aquelas pessoas que ostentam o orgulho de decidir. Viver apaticamente é frustrante. Aprecio quem vive de inquietação, abalado pela ironia e duvidando da inércia.

 

O problema nas nossas vidas costuma acontecer quando, como Macbeth, nos damos conta de que o bosque que pensávamos quieto se começa a mexer.

 

Bem sentidos, os espaços que nos são queridos podem ser, ao mesmo tempo, limitados e infinitos. Deles, podemos alcançar o mundo.

 

Não sei porquê, mas os membros das elites de agora possuem sorrisos indecisos, como se em vez de olharem para as pessoas se olhassem a um espelho permanentemente colocado à sua frente. Gostam muito de jogar, o que acaba por ser um derivativo para a agressividade dissimulada. Fingem recusar o luxo. Costumam utilizar um tom assumidamente entediante: o da hostilidade dos privilegiados para com os privilégios.

 

E lá se vai o mundo rural onde se costumavam viver as várias experiências de uma sabedoria diferente. Já poucos são os que sabem em que altura do ano canta o rouxinol ou chilreia a cotovia, como se faz o pão, como se secam os figos, como se cora o linho, como se ceifa o trigo ou o centeio, como se plantam e arrancam as batatas, como se munge uma vaca, como se alimenta um reco, como nascem os vitelos, como se junguem os bois ou se pisam as uvas no lagar.

 

Ao que dizem os livros dos deuses, foi sentado no seu trono no Olimpo que Zeus escolheu o deus do comércio. A escolha foi quase imediata, só podia ser Hermes. Ofereceu-lhe então um par de sandálias com pequenas asas de ouro e encarregou-o de promover o intercâmbio mercantil, a assinatura de contratos e, ainda, de salvaguardar a liberdade de comércio. Hermes foi escolhido por ser aquele que melhor mentia.

 

Ao que tudo indica, os políticos pós-modernos foram amaldiçoados pela Deusa Hera, mulher oficial de Zeus, que numa cena de ciúmes amaldiçoou a ninfa Eco, que tinha muita graça, pois as suas palavras pareciam nunca ter sido antes ditas por nenhuma boca. Eco sofreu o pior dos castigos, pois foi privada de voz própria. Desde essa altura é incapaz de dizer, apenas consegue repetir. Os tempos modernos transformaram essa maldição numa grande virtude.

 

Passei os meus anos de juventude empenhado na defesa da ideia de um mundo melhor. Depois reduzi-o à escala de uma região e de uma cidade. A seguir estreitou-se ainda mais. Agora esse ideal tem o tamanho de nada.

 

Para um jesuíta dizer meia mentira e já dizer meia verdade. Mas eu não vou por aí.

 

Agora penso como Aristófanes, um escritor conservador que defendia as tradições como se acreditasse nelas, que a única coisa sagrada é o direito ao riso.

 

Sinto-me a viver numa cidade onde nada acontece e por isso tudo é importante. Apesar disso, a sua beleza triste continua a seduzir-me.

 

Subo e desço as ruas velhas e já não vejo as crianças a brincar. Mas a velha melancolia ainda por lá anda. As ruas imobilizaram-se no tempo. E não foram só elas.

 

As pessoas parecem-me indiferentes e as árvores domesticadas.

 

Ao Tâmega sucedeu-lhe o mesmo que ao Douro, não encontrou cantores. Galarins desse género só os teve o Mondego e o Tejo. Como diria a Sibila: por aqui as epopeias foram raras e as musas mimosas, mas não ardentes. Em vez do tanger melodramático das guitarras, por cá apenas soaram o repique ou o dobrar dos sinos.

 

Ao que consta, Camilo Castelo Branco gostava de quem sabia chorar. E até se tornou um escritor especialista nesse tipo de romances. Eu não consigo apreciar os especialistas das lágrimas. Sempre desconfiei deles. Desses e dos que ostentam o riso fácil e chocalheiro. Desconfio que são vinho da mesma vasilha. É tudo pinga contrafeita.

 

Dizem por aí os apologistas do politicamente correto que vivemos num tempo de grandes verdades. A mentira já vem de longe e fez-me lembrar um desabafo da escritora Agustina Bessa-Luís: “Já disse numa dessas entrevista que as grandes verdades não me impressionam. Estamos a viver numa sociedade de verdades engarrafadas. Se as bebermos, não sei se não serão uma zurrapa.”

 

Para mim o cair da tarde em Chaves ainda continua a ser uma hora irreal. Mas as conversas não deixam de ser densas de banalidades.

 

Camilo costumava dizer que quem aniquila a velha nobreza é o ridículo da nova.

 

João Madureira

09
Jun19

Chaves - mercados, festas e corridas

 

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Ontem dizíamos por aqui que este fim de semana era rico em eventos a acontecer em Chaves e prometemos ir dar uma vista de olhos ao Mercado da Madalena, e cumprimos, fomos lá espreitar, mas também ainda passámos por mias dois eventos. Mas vamos por partes.

 

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MERCADO DA MADALENA

 

Confirma-se que o espaço é ótimo, agradável, convidativo, com a vantagem de ter estacionamentos para popós à escolha do freguês.

 

Pois do que vi gostei. Temia que sendo a Associação de Produtores Artesanais de Chaves uma das organizadoras deste evento a coisa se resumisse só a artesanato, mas não, felizmente é aberta aos produtos da terra e quando digo terra, são mesmo os produtos que a terra dá, e estavam lá alguns, os da época (cebola, couve, alface, cerejas). Aliás penso que nem poderia ser de outra maneira, isto tendo em conta que a Junta de Freguesia de Santa Maria Madalena também está associada ao evento e 99% do seu território está na veiga de Chaves, onde as hortas e produtos hortícolas abundam, daí seria um crime eles não estarem representados, mas estavam, pena serem tão poucos. E já agora, penso que será também do interesse de todos que as nossas freguesias rurais também façam parte da nossa feira. Aliás penso que já lá estavam algumas.

 

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Os insufláveis para os putos brincarem é uma boa ideia, a rulote bar também dá jeito e até podia ter esplanada, isso é que era. Claro que os pastéis de Chaves também lá podiam estar, e outras coisas boas que temos por cá, presunto por exemplo, vinhos, etc. Penso que esta feira tem pernas para andar e outros eventos se lhe podem associar e com o tempo, bem podia ser semanal e uma grande feira, a feira dos residentes e dos turistas, isto tendo em conta que a grande maioria dos flavienses residentes que trabalham não podem usufruir da  feira semanal das quartas-feiras.

 

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Também pode ser que esta feira sirva para que o espaço excelente que ocupa possa ser aberto ou dar ideias a outros eventos e que o Município de Chaves venha a ocupar ou reservar para equipamento municipal todos os terrenos livres de construções entre a capela e a ponte de São Roque, para um parque multiusos, por exemplo, isto tendo em conta que o de Santa Cruz virou a campos da bola e isto também,  antes que nasça lá mais um mamarracho qualquer ou mais uma grande superfície.

 

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FESTA DE VILAR DE NANTES – CORRIDA DE CARRINHOS DE ROLAMENTOS

Se não foi corrida de carrinhos de rolamentos, foi coisa parecida, pelo menos diversão foi, dos mais novos e mais velhos, e também não houve diferença de géneros na participação e até os animais participaram, senão como pilotos foi como penduras, não sei se foi para satisfazer o pessoal do PAN mas que vi lá um urso, lá isso vi. Está bem, eu sei que era um peluche, mas o que vale é a intenção!

 

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Por várias razões lamento não ter participado mais nesta festa, nem que fosse e só por ser a minha freguesia de residência, mas outros compromissos anteriormente assumidos levaram-me para outras paragens, mesmo assim tive tempo de fazer alguns registos e de reparar no profissionalismo posto na feitura dos carrinhos de rolamentos, no rigor do equipamento de alguns corredores e no staff de apoio à corrida.

 

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Mas para Vilar de Nantes, como está aqui à mão, outras oportunidades haverá, aliás em breve terá aqui no blog o seu post desta nova ronda pelas aldeias e aí prometo fazer um posta à altura da aldeia e freguesia.

 

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RALI ALTO TÂMEGA

Assisti à PE2 Chaves Sul, infelizmente não pudemos ver todas as máquinas e pilotos porque a prova foi interrompida devido a um acidente, mas deu para ver vinte e sete máquinas a acelerar em direção a ven-ven -Ventuzelos, desde o cruzamento de Agostém. Claro que uns aceleravam mais que outros, mas as máquinas também eram diferentes, desde o velhinho e clássico Ford Escort,  a deliciar-nos com as suas performances desde os anos setenta do século passado e a dizer que ainda está cá para as corridas aos Sr.s Porsches e outros que tais daqueles que não nos importávamos nada em tê-los a ocupar espaço nas nossas garagens.

 

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Embora não seja um seguidor assíduo deste desporto, gosto de ver estas máquinas a gemer e a dar o seu máximo nas mãos e perícia dos pilotos, digamos que sou um fã não assíduo, um fã do sempre que posso ou anda por perto, e claro, fã também de fazer um registos fotográficos, com todo o inconveniente de a fotografia congelar o movimento, mas também de o perpetuar um momento. Mesmo assim podemos fazer qualquer coisinha para lhe dar um movimento virtual, foi o que fizemos num pequeno vídeo que fica de seguida, com o qual aproveitamos para nos despedir com um até amanhã, que, por ser feriado não vamos fazer o nosso habitual regresso à cidade, mas se possível, trazer aqui mais uma aldeia do Barroso que deveria estar aqui hoje. Fica então o vídeo.

 

 

 

 

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