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756 - Pérolas e Diamantes: Dizem que...
Dizem que a história não se repete, mas eu desconfio. E também asseguram que nos ensina. Eu também duvido disso. Mas. O que sei é que a desigualdade provoca instabilidade. E que os demagogos tiram partido da liberdade de expressão para roubarem, ou se afirmarem como tiranos. Dependendo da conjuntura. Também sei que, através da democracia, alguns líderes e partidos alegam serem os representantes diretos da vontade do povo. Mas não é verdade. A democracia representativa é uma espécie de ficção teatral. Eles representam a peça que escreveram, nós pagamos o bilhete e, no fim, batemos palmas. Tudo isto entre os ciclos eleitorais.
Intervalo.
O povo português é triste e assustado. Mas continua a lutar contra a derrota e o fracasso. A verdade é que este país não interessa a ninguém. O mundo muda. Portugal não. É triste. Mas a verdade não nos serve para nada. Andam-nos sempre a limar as arestas, mas continuamos quadrados como sempre fomos. Andam-nos sempre a repetir que devemos nivelar a indignação. As guerras ganham-se ou perdem-se. Mas nós jogamos sempre para o empate. Somos sempre o carro vassoura da volta do desenvolvimento. Sempre desconsolados. Mas sempre atentos aos ciclistas das equipes líderes do tour, ou da vuelta.
De que cor são os políticos? Cor de burro quando foge. Rio-me. Quando nos rimos não estamos tão sozinhos. Nem tão certos de estarmos enganados.
O desnorteio do mundo é desconcertante. Redundante. E o O’Neill a dar-nos música. Abaixo a literatice dos literatos alimentados pela literatura pedante e rebuscada. E nós a labutarmos nas circunstâncias. Na preguiça de todos os dias. Quando as palavras saltam da folha é difícil de as apanhar. Passamos a vida a fazer fretes. E para quê, pergunto eu? E nós nem assim nem assado. Há que lutar na hora certa. Senão lá se vai a eficácia. Ser da sinistra e ateu continua a ser um dislate. Ou volta a sê-lo. O que é ainda mais preocupante. E o burro a tirar água da nora. Vamos lá então fazer mais um intervalo nesta arte menor de ser videirinho.
E eu a querer pensar numa visita à Capela Sistina para ver o seu teto pintado por Miguel Ângelo e toda aquela cristandade colossal enfiada nos cueirinhos censórios.
No princípio era o Verbo, escreveu São João, com fiel certeza, mas eu estou em crer que não. Será que o Verbo era o Big Bang?
A catequese já lá vai. Agora são os professores de Português que talham nas escolas “Os Maias” em capítulos, personagens, ações, regras gramaticais, regras estilísticas e mais não sei o quê. Dói-me o coração. Chega um homem a reformado para isto! Antes fosse para aquilo. Este país é como um sofá-cama. Não é bem um sofá. E também não é lá grande cama.
A matreirice é muito sedutora.
Mas o nosso destino é sempre o da subalternidade.
Os portugueses descobriram há muito tempo o elixir da felicidade. Quando vencidos, ao fim de uma semana já esqueceram tudo. Quando obtêm uma vitória, registam-na para a eternidade.
Vivam os galos de capoeira.
Portugal é bom a fazer serenatas aos mandões deste mundo. Escolhem-nos sempre para lugares de chefia onde não se decide nada. Nisso os portugueses são exímios, em armar-se até aos dentes de sorrisos. Vá lá, deixem soar as campainhas. É com elas que se chamam os criados.
Nós somos uma nação vírgula.
O orgulho pátrio sobreaqueceu tanto que acabou por esturricar. De um putativo império colonial passámos a uma irrelevância retangular. Nós somos as Berlengas da Europa. Os nossos raciocínios são feitos de dogmas, não de ideias. Estamos sempre habituados a tudo e prontos a nada. A nada e mais alguma coisa. Temos até orgulho na nossa irrelevância.
Os sons da nossa identidade são agora mais nervosos. E os nossos egrégios avós estão sentados na cadeira do crepúsculo. Já fomos uma nação ponto de interrogação. Agora, não sei se vos disse, somos uma nação vírgula. E nós na província a atravessar as giestas. E as causas dos outros como se fossem nossas. As mães na cozinha e os pais na taberna.
Tantos silêncios sobrepostos.
E os pobres remediados a fazerem dieta e a não conseguirem emagrecer. Os da província a pensarem em ir para a capital e os da capital a pensarem rumar caras à província.
A verdade é que a gente se arredonda. Que vergonha!
João Madureira