De regresso à cidade...
Madalena

De regresso à cidade com uma passagem pela Madalena.
Boa semana!
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De regresso à cidade com uma passagem pela Madalena.
Boa semana!

Curioso, os cemitérios são agora parecidos com espaços agradáveis, erva brilhante, tudo muito bem tratado entre as sepulturas. E até é frequente vermos flores frescas dispostas em jarros por cima das lajes de granito polido, rente à cruz. Muitas das visitas revelam o aspeto de alguém que está diante de uma sepultura num filme. O respeito é pose. E silêncio. É lindo acelerar pelo crepúsculo e depois passar pelo alto das colinas. Por vezes, alguém nos convida para irmos jantar a um restaurante de cozinha moderna, desses tipo estrela Michelin. E nós lá vamos, todos lampeiros, tentar entrar a pés juntos na modernidade. Mas, quando começamos a comer, apercebemo-nos que a denominada nova cozinha portuguesa não passa de má cozinha francesa. E até dá vontade de rir ver estes novos camponeses de reações lentas a comerem aquilo que não gostam com cara de quem está de dieta rigorosa. Fui com o pai à aldeia. A estrada pavimentada há apenas alguns meses já estava a esboroar-se. Saiu junto a uma vinha herdada dos seus pais e pôs-se a falar sozinho. Uma rajada de vento levou a sua voz para longe. E a sua voz começou a correr de modo imparável pelos caminhos antigos. Teve um ataque de despersonalização, um ataque de pânico motivado pelo facto de pensar que não tinha a mínima possibilidade de ser ajudado. Por vezes tem tonturas. O médico deu-lhe um tranquilizante e uma injeção intramuscular. O meu pai (adotivo) olha para mim e eu sei o que está a pensar. A vida é tédio e depois ainda mais tédio. “A província”, disse-me à bocado, “é governada por gente idiota, transformando bonitas regiões numa charada, num espetáculo de variedades, pejadas de nichos de Nossas Senhoras de Fátima, capelas, rotundas, piscinas desertas, praças graníticas cheias de repuxos de água, capelas, coretos e feiras de fumeiro e de outras idiossincrasias de origem duvidosa. Os antigos santuários dos Velhos Deuses foram profanados por gente sem préstimo, nem cultura. E chamam a isto modernidade e progresso.” Parou então de falar. E depois de algum silêncio disse ainda: “Cuidado com o que desejas.” Ele vive como um asceta. Muitas partes dos dias são como buracos negros. O pai diz que agora tudo lhe dói. A luz. O dia. A noite. O buraco fantasma do tempo a passar. Está sempre à espera. Sem estar à espera. Não sabe o que tem de esperar. Virou-se na direção do pelourinho e disse bem alto: “Os merdosos nunca mais são derrotados. Esse é o nosso mal. A nossa catástrofe.” Como o sol já vai baixo no horizonte, as sombras são mais compridas. O povoado brilha gentilmente com a luz do sol. Por vezes, a província não parece assim um sítio tão desesperadamente mau para viver. A charada parece autêntica. Paira no ar qualquer coisa de histérico. O pai tenta que vá para longe. Prevê-se chuva para amanhã. As perturbações por aqui também acontecem. Mas são pequenas. São como ligeiros sismos, apenas detetáveis com sismógrafos. O pai quis ir à missa. E aqui estamos num estado de espírito muito semelhante ao do tédio. A assembleia canta, não há coro porque o maestro está doente e uma das vozes principais está de férias, os homens cantam, as mulheres cantam, mas em vez de o fazerem em conjunto, parece que cantam ao desafio. O sacerdote enverga paramentos bordados num tecido branco que não parece algodão. No meio da cantilena, uma figura sobressai, à primeira vista pareceu-me um rapaz um pouco efeminado, pois também os há na província, mas, na verdade, era uma mulher, uma mulher jovem, com um aspeto nada mau, por sinal. A sensação de cansaço aumentou. O pai nem se levanta, nem se ajoelha, permanece sentado. No órgão, o substituto do maestro, toca acordes de Mendelssohn. Muitos dos fiéis declaram que se querem entregar nas mãos de Deus. Não sei é se o Criador lhas estenderá. Muitas pessoas esperam lá fora para cumprimentar o pai. Ele então vai até junto de um canteiro e arranca uma flor de um modo como se estivesse a pedir desculpa e depois coloca-a na lapela. O pai a filosofar: “Quão pequena é a parte que as pessoas têm na vida das outras. E quão pouco sabemos delas!” Ou seja, o pai estava comovido e impressionado, fazendo que todos sentissem que estava a encontrar-se com todos, ou com a maioria deles. Olho para o lado e reparo num pequeno retângulo de relva que ainda não aqueceu, perlada de orvalho, e na luz do Sol onde uma borboleta acastanhada, com um ar descabelado, se agarra à sebe e bate as asas já com pouca energia. Ao longe estão os bosques onde as manchas verdes se estendem a perder de vista.
João Madureira

Uma primeira lição de flexibilidade
A esta distância, já não consigo precisar o ano de escolaridade, mas sei que foi no “Ciclo”, a atual Escola E.B. 2,3 Nadir Afonso, em Chaves, e como naquela época a escola só tinha turmas de 5º e 6º ano, foi, portanto, num desses anos. E foi na disciplina de História, com um professor cujo nome já não me recordo, que recebi, sem o saber na altura, uma primeira lição de flexibilidade.
A situação ocorreu logo num dos primeiros momentos de avaliação, ainda no primeiro período. Depois de um teste dentro do estilo “normal” dos testes de avaliação de qualquer disciplina, fomos surpreendidos com um teste que tinha uma única pergunta… Questionado o professor, logo ali no momento em que recebemos o teste, fomos brindados com uma resposta que nos dizia que deveríamos estar preparados para qualquer tipo de teste… Não reclamamos, obviamente, mas ficamos talvez um pouco desconfortáveis com aquela forma diferente de avaliação. E ficamos, igualmente, despertos para o que se seguiria ao longo do ano…
E, assim, recordo que nas avaliações seguintes tivemos, entre outros, um teste de escolha múltipla e outro em que podíamos escolher as perguntas a responder de entre um conjunto de opções. E nós, putos com idades entre os 12 ou 13 anos, a nada disto estávamos habituados naquele início dos anos 80… Era, sem dúvida, uma postura disruptiva naquela época.
Passados mais de 40 anos, olhando para trás, para todo o meu percurso de vida pessoal, académica e profissional (e já nem sei sequer o que me levou a recordar este episódio), constato que este foi apenas um primeiro momento de muitos outros em que me apercebi da importância de estar preparado. Preparado para o mais expectável, mas sempre com espírito de flexibilidade e adaptabilidade para enfrentar as mais diversas situações que vão surgindo ao longo da vida.
Luís Filipe M. Anjos
Leiria, janeiro de 2026

Já em ano novo, mas ainda com uma imagem do ano velho, que já lá vai, fica então uma imagem do último dia do ano, ao fim da manhã, com a nossa névoa, o nosso rio e a nossa ponte romana com o casario da Madalena, que há muito é, ou são, imagens de marca da cidade de Chaves.

Todos os projetos ficam pendurados nas palavras com que foram construídos. E depois, os que fazem parte das forças vivas da cidade, aparecem nos eventos manhosos de sempre, nas galas beneficentes, todos com os habituais sorrisos forçados. Os pais a fazerem de filhos pródigos e os filhos a fazerem de pais empenhados. Tudo gente proficiente. Tudo histórias que não fazem sentido nenhum. Tudo contos e ditos circulares. Conversa de surdos. As histórias da província são monótonas e descomplicadas. Pequenas. Na província há sempre alguém a seguir-nos. E os provincianos a gastar os dias e a acender as lareiras. A observar as crianças nos parques. A mexer com pauzinhos nas estrelinhas da memória. Terraços. Telhados. E manhãs de névoa. Temperaturas a cair. O frio a invadir as ruas e as casas. E o Natal. Se há coisa provinciana, é o Natal. As decorações. A religião de boca em boca. As tradições seculares. Todos sentados em bancos, a abrir e a fechar os olhos. A rezar. A comungar. A comer. A beber. Uns a fazer planos para ir e não voltar. E outros a fazer planos para voltar e não ir. Por aqui nunca se sabe se é o bonecreiro que faz mexer o fantoche ou o fantoche que faz mexer o bonecreiro. O tom é sempre contemplativo. Todos têm um mentor. Até os mentores. A província é como um riacho cheio de banalidades e conversas de circunstância. A política é vendida pelos que estão no poder, e os seus irmãos siameses que estão na oposição, ora a retalho, ora por atacado. Eles tem o monopólio até das pequenas coisas. Tudo devidamente controlado, as empreitadas, os transportes, as infraestruturas, as licenças, as empresas ganhadoras de concursos e as suas concorrentes, os testas de ferro, os administradores e as famílias influentes. Até compram críticas jornalísticas para servirem de desculpa, ou de promoção. Feitas as contas, não interessa se é verdade ou não. O que importa é que as pessoas acreditem. Na província todos são derrotados. Mesmo os que triunfam. A província é a sombra da capital. E isso é sempre desagradável. E é ainda mais desagradável constatar que algumas sombras que aqui nasceram ficaram enormes e chegaram ao poder para servirem de sombras aos projetores de luz da capital. Esses cleptomaníacos que sorriem como as hienas com cio. Os mais avisados daqueles que regressam à província ficam satisfeitos ao conseguirem não pensar em nada. Por vezes entretêm-se a ver a dança das mariposas ou a caçar mosquitos com mata-insetos de plástico. Esses que regressam andam pelas suas casas atravancadas de móveis antiquados, tomam duches sob a luz branca que lhes entra pela janela da varanda, fumam, os que continuam a fumar, deitam-se de bruços na cama, andam descalços pelo chão das divisões, poupam a energia, resistem às novidades requentadas, procuram as ruas mal iluminadas onde se sente mais o silêncio e murmuram monólogos, muitas vezes inspirados no “Malhadinhas”. Esperam então que as manhãs cresçam no céu. E sorriem. A força e as suas fontes são ilusórias. Daqui vê-se tudo, até o vazio profundo e impenetrável do universo. A boa vida na província é uma fantasia. Provavelmente a província também é uma fantasia. Ai esta excitação da deslealdade! A província já ultrapassou o ponto mais alto da sua revolta, sem sair do lugar. Chega sempre o momento em que temos vontade de voltar para casa. Apesar de podermos estar a milhares de quilómetros de distância. A oportunidade, e o oportunismo, contrapõem-se às traições mais antigas. Ai esta excitação da traição! A apatia ataca a qualquer hora do dia. As coisas sem importância passam a ser bastante importantes, sem darmos conta. Alguns dos que dizem dedicar-se à escrita ainda costumam passar certos períodos de tempo num quase semi-isolamento, declarando que não são capazes de arranjar uma desculpa convincente para o evitar. Depois amenizam o sofrimento autoinfligido declarando que dessa forma conseguem abrandar o seu trabalho mais sério. Apesar de estarem reformados, afirmam que não conseguem fechar definitivamente a sua caixa criativa. Sentem ainda essa sua excitação obscura. Não conseguem controlar a sua irrupção ou inspiração literária. Continuam os lutadores de sempre, desafiando o tempo e o modo, no seu tom ameno. Voam a baixa altitude. Na província tem de ser assim. Nas aldeias, as estradas estão praticamente desertas, os habitantes parecem ter sido varridos por uma revolução fora de tempo ou mesmo por um acidente nuclear.
João Madureira

21º Aniversário do Blog Chaves
Domingo, 2 de janeiro de 2005, iniciávamos aqui no SAPO o nosso primeiro blog, já lá vão 21 anos que andamos por aqui, a deixar imagens deste reino maravilhoso de Trás-os-Montes, principalmente imagens da nossa cidade de Chaves, mas também um pouco do território, extra concelho de Chaves, que nos rodeia, até aqui com mais incidência no Barroso, aqui tão perto, mas de vez em quando a sair também para outras paragens.
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Um blog que tem sido feito também com a colaboração de vários autores flavienses, presentes com vida cá na terrinha, mas também com alguns ausentes a viver noutras paragens, que mantêm, sempre, a sua ligação a este berço flaviense. Ao todo, até hoje, já chegam às quatro dezenas de autores e amigos que têm ajudado a fazer esta viagem, alguns quase há tanto tempo como o tempo deste blog, e que até hoje têm mantido a sua colaboração regular, semanalmente, mensalmente ou ocasionalmente, e sem referir os seus nomes, pois já o tenho feito nos aniversários anteriores, penso que será de toda a justiça e com toda a nossa gratidão, deixar aqui pelo menos os três nomes que connosco fizeram viagem neste blog no ano de 2025, o João Madureira com a sua crónica semanal de “Quem conta um ponto…”, o Luís Filipe M. Anjos com a sua crónica mensal “Vivências” e o Luís Henrique Fernandes, da Granginha com as suas sempre oportunas crónicas “Ocasionais”. Um muito obrigado a todos.
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Sim, já se passaram 21 anos e gostaríamos de ter chegado e atingido esta estação com o espirito do dever cumprido, que embora sem qualquer obrigação ou contrato assinado, tínhamos autoproposto alguns objetivos a cumprir, mas não os conseguimos atingir… lamento que já deixávamos por aqui no 20º aniversário, com o haver de vida para além do blog que nos impede de ter a disponibilidade desejada, do irmos crescendo, como quem diz, envelhecendo, com o corpo também a exigir alguma atenção e descanso, sem contudo perdermos de vista ao objetivos a que nos propusemos, mas agora sem promessas e com os prazos a dilatarem-se na sua execução. E com já poderíamos ir andando a caminho de outro apeadeiro, mas ainda temos alguns números que queremos deixar, algumas anotações.

Uma das anotações que até são duas ou três, que para além dos factos ficam aqui como intenções e não como promessas, são a de cumprir, queremos com isto dizer, encerrar as publicações em falta do território do Barroso e iniciar as publicações do concelho de Vila Pouca de Aguiar, cujo levantamento do território, aldeias e freguesias temos praticamente concluído. Pois é, para deixarmos aqui imagens temos todo um trabalho de campo para realizar e para esse, são mesmo necessários muitos dias e muitos quilómetros a percorrer, um trabalho que se vai fazendo, descobrindo, sempre com gosto, é certo, mas que leva o seu tempo, e até, exige alguns sacrifícios e disponibilidade. Sem mais intenções e queixinhas, para não dizer desculpas, passamos aos números que por aqui trazemos sempre nestes aniversários.
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Então, e já em jeito de, quase, despedida, vamos diretos e sem rodeios, como se de um texto de telegrama se tratasse, aos números deste blog, desde a sua existência:
21 anos de existência;
4 167 659 visualizações
10 036 posts publicados
24 028 fotografias publicadas

Deixar também a nota e certeza de que este blog continuará a ser dedicado à cidade de Chaves e ao Reino Maravilhoso que nos rodeia, bem como continuará sempre aberto a quem nele queira colaborar.
Quanto às imagens de hoje, são repetentes, repescadas de alguns posts publicados ao longo do ano velho de 2025.
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E por hoje, em dia do nosso 21º aniversário, é tudo.
Resto de um bom dia, e um
bom ano de 2026

Em dias de inverno como os que estamos a atravessar, quando a névoa fria se abate sobre o vale de Chaves, nem a força do Sol a consegue vencer por completo, acabando por desistir e deixar que a névoa de novo comece a sua imersão por todo o vale.

De regresso à cidade com um anoitecer na Praça do Município.

Memórias do Big Bang (I)
Vim a Montalegre porque me disseram que o meu avô viveu aqui.
Uma coisa é inequívoca: a perda. Estamos sempre a perder. Todos deslizamos pela serra abaixo. A sabedoria reside na nossa capacidade para amortecer o movimento da queda. Para desacelerar o mundo. As localidades são textos. Textos que se repetem e que sobrevivem. Ou morrem. Sobre os túmulos dos mortos cresce a erva e a dor da sua ausência some-se com o tempo. As coisas que definem, fazem-nos brilhar.
Vencer o esquecimento é apenas privilégio de alguns. Os destinos enganam as almas. Temos de introduzir na arte os elementos da inquietação entusiástica. Temos de agradecer a quem nos ajudou no início da criação. A entrega é sempre necessária para se cumprir a arte. A arte, apesar de nascer com cada um, dá muito trabalho a desenvolver.
Dizem os físicos que, muito provavelmente, o nosso universo é constituído por mais de 100 mil milhões de galáxias, cada uma delas com 100 mil milhões de estrelas.
Uma coisa temos como certa: neste planeta medrou vida.
É da lei dos milagres que uma forma de vida como a nossa tenha desenvolvido a capacidade, e a audácia, de especular sobre a origem disto tudo. Arranjámos um modelo e uma explicação. Os humanos têm a necessidade de maravilhar o inexplicável.
O Big Bang é um desejo científico.
A ciência avançou quando os mais corajosos dos corajosos questionaram a sua própria mitologia. Isto, digo-vos eu, não é ficção científica de aldeia, tão ao gosto do meu pai.
Somos compostos por 61% de oxigénio, um gás inodoro. Mas não voamos por aí fora porque praticamente todo oxigénio está unido ao hidrogénio (10%), para formar a água. São precisos sete mil milhões de mil milhões de mil milhões de átomos para produzir uma pessoa. O ADN existe apenas com uma finalidade: criar mais ADN. O nosso ADN é simplesmente um manual de instruções para fazer uma pessoa específica. Todos os seres humanos partilham 99,9% do seu ADN. Mas não há dois seres humanos iguais. Somos o produto de três mil milhões de anos de ajustes evolucionários. Começámos a nossa viagem através da História como pontos unicelulares a flutuar em mares quentes e pouco profundos. Tudo, desde essa altura, mais não tem sido do que um interessante e longo acidente. Mas glorioso.
Vivo numa cidade grande que já me parece pequena, num apartamento de um velho edifício, rodeado de lojas de chineses, indianos e paquistaneses. Sou um físico atómico que faz investigação tão específica que, muitas vezes, me perco no meio dos quantas e do sentido da vida. Depois do doutoramento, sustento-me com uma bolsa de pós-doutoramento. Quando chegar o depois, logo se verá. Pertenço à geração dos mileuristas. Por causa da calvície, rapei o cabelo que me resta e deixei crescer a barba. Pareço um judeu. Um magro e alto judeu errante. Eu sou a minha própria diáspora. Parece que a Física é coisa de judeus. Ou, provavelmente, serei árabe. O meu coração é árabe. A mim tanto se me dá. Por causa do meu aspeto, estive retido num aeroporto dos EUA para averiguações. O 11 de Setembro definiu uma nova paranoia securitária. Confundirem um transmontano com um árabe não deixa de ter piada, até porque me assemelho de igual modo com um judeu sefardita. O humor, e o desamor, está espalhado pelo mundo como uma praga. Vivo em Lisboa. Mas já morei em Nova Iorque. Nasci em Névoa, mas sou cidadão do mundo. Diz o meu pai que em pequeno eu era um pouco ingénuo e mesmo frágil, mas, ao contrário do Papa Ratzinger, não foi por ler muito O Principezinho (L Princepico, em Mirandês). Também nunca fui menino do coro, ao contrário do meu pai. Mas foi toleima que rápido lhe passou. Cresceu muito e depressa. O seu acelerador de partículas foi o 25 de Abril.
Como diz a expressão latina: Sua cuique persona (a cada um a sua máscara). Não é bom aproximarmo-nos dos infelizes, especialmente se formos um deles.
O meu pai também aqui viveu. Diz que esta é a sua verdadeira terra, apesar de ter nascido em Névoa. Foi em Montalegre que se sentiu proprietário de um castelo. Lembra-se de trebelhar entre as torres com os automóveis de tração que ele próprio construía aproveitando os carrinhos de linhas da sua mãe. Com mais uma rodinha de sabão, um elástico e um palito de carvalho construía um carro que depois de lhe dar ao elástico se movia autonomamente.
O meu pai nasceu em 1958, no ano em que o grande poeta Mário Cesariny ai meu deus de Vasconcelos (um verdadeiro caso de prestidigitação genial), era já quarentão e, mesmo vigiado e perseguido pela polícia política, atirou o seu folheto às paredes como um grito de euforia.

A lealdade é sempre clientelar. O território social é um santuário. Cada um tem a sua própria vocação. Mas isso não faz a diferença. E as certezas apenas incomodam. A elegância sem esforço é uma coisa de sábios. A província, para os filhos libertados dela, é uma excitação. Eles sabem que quem não veste marca não tem estilo. As boas ideias podem ser tretas. E as tretas boas ideias. Depois o veneno, desde que bem doseado, pode fazer a sua parte. Cada um tem as suas batalhas. Adaptar-se ou morrer. Por isso é que a província está morta. É uma múmia ainda mais antiga do que as roubadas por franceses e ingleses no Antigo Egipto. O seu feitio é falso. Melhor seria aceitar o defeito. As intenções progressistas na província são manifestamente antiprogressistas. Os privilegiados são broncos, todos novos-ricos. O pragmatismo é tema de conversa. É corrupção. O turismo tudo justifica e tudo encobre. Olhem lá para ele, o progresso, tão bonitinho e a justificar as manobras das folhas de Excel. Não se aceitam pedidos, nem se devolvem as folhas. E lá estão as vernissages comemorativas. Os solícitos estudantes das escolas profissionais atrás das mesas de banquete e as mesas cobertas com toalhas brancas de linho, copos de vinho tinto e branco, sumos de laranja, cola, garrafas de vinho do Porto, uísque, gim, vodca, baldes de gelo, copos, salgados e insossos, miniaturas de pastéis e bolos, fatias de presunto, empadas fatiadas, jornalistas, chefes disto e daquilo, presidentes de tudo e mais alguma coisa, artistas daquilo e disto, todos mal vestidos e a cheirarem a água de colónia de linha branca. Computadores portáteis, projetores e ecrãs. E sorrisos. Os sorrisos mais parvos do mundo. E depois lá está sempre o presidente da Câmara, por vezes hirto, outras sorridente, de fato azul-escuro estruturado e gravata cinzenta, a fazer pandã com a personalidade, na sua expressão fixa, ou ligeiramente blasé, de solenidade pensativa. Alguém da oposição comenta o facto, entre sorrisinhos cínicos e alarves, não fosse ele vinho da mesma pipa, “a pensar morreu um burro”. E os assessores, parecendo mais presidentes que os próprios presidentes, estão sempre com um olho posto no iPhone e outro no seu chefe. A província, observada de longe, mostra sempre a sua melhor face. Também é linda de contemplar vista do ar ou em voo noturno. Ou em revistas publicitárias onde se identificam as suas riquezas ocultas, os seus dorsais pré-históricos e as suas brilhantes luzes do entardecer. Depois, lá pela meia-noite, a hora da Cinderela, ela, a província, começa a escorrer solidão. Uns romantizam a pobreza. Outros dão-lhe estatuto divino. A indiferença, muitas vezes, quer esconder a dor num sítio onde não é capaz. Na província, o aroma que mais se inala é o da neutralização e o do jasmim. Mas quando o nosso partido triunfa lá vamos nós tentar beber o champanhe mais a sua iridescência. O poder a borbulhar. E nós a beber o vinho, mais as suas bolinhas gaseificadas e depois a arrotar. Lá fora a cidade está a submergir, a desmoronar-se. E por aí andam uns e outros a verem os espaços destinados para isto e para aquilo. Os burguesitos provincianos continuam a decorar as salas de estar com cortinados estampados com flores, a arrumarem os pires e as chávenas e a substituírem os ossos de plástico de cor púrpura aos seus belíssimos cadelinhos que se deitam a dormir a sesta antes de irem passear, urinar e defecar, nos espaços verdes espalhados pela cidade florida. Eles, ou elas, ou ambos, beberricam o chá feito de saquetas com sabor a limão ou a outra coisa tipo flor de estufa. Fazem tudo com gentileza, humanos e animais. Provavelmente não se divertem muito. Alguns até fazem sorrir a sua tristeza, mas todos cumprem com o seu dever. Saem a horas certas de casa, passeiam a horas certas nos jardins. Antigamente iam aos bailes, com bandas, acompanhantes e tudo o mais. As raparigas iam aos pares à casa de banho e depois ficavam no meio de uma data de gente à espera que lhes pedissem para dançar. E esperavam que a tira do sutiã ainda estivesse atrás da tira do vestido. Preocupavam-se com coisas dessas. Bons tempos. Essas espantosas criaturas eram algo entre a Branca de Neve e um animal selvagem. Feras provincianas excitadas.
João Madureira
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