Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

06
Jun20

Escariz - Chaves - Portugal

Aldeias de Chaves

1600-escariz (121)-video

1600-escariz (109)-video

 

Continuando a cumprir a nossa falta para com as aldeias que, aquando dos seus posts neste blog, não tiveram o resumo fotográfico em vídeo, trazemos aqui hoje esse resumo para a aldeia das Escariz.

 

1600-escariz (92)-video

1600-escariz (71)-video

 

Quem no Peto de Lagarelhos sai da EM 314 e desce a encosta da serra pela EN311, em direção a Vidago, passadas umas 3 ou 4 centenas de metros começa a ter do lado esquerdo o vale da Ribeira de Oura, logo no seu início, do outro lado do vale, na encosta oposta, avista-se uma pequena aldeia, é a aldeia de Escariz. É uma preciosidade vista desde a encosta oposta da serra.

 

1600-escariz (69)-video

1600-escariz (63)-video

 

Depois de se avistar, na estrada, um pequeno sinal indica-nos o desvio para a aldeia. Durante anos fui-me deliciando com as vistas da aldeia sem nunca tomar o desvio para chegar a ela, mas um dia, já depois de ter este blog, calhou a vez de tomar o tal desvio, e lá fui eu, curva contracurva, sempre a descer até atingir o riacho e depois, curva contracurva, sempre a subir, até atingir a aldeia.

 

1600-escariz (35)-video

1600-escariz (32)-video

 

Chegado à aldeia, tal como se previa, é uma aldeia pequena, parecendo mais pequena lá que à distância, uma velha capela, uma capela nova, quase tantas casas antigas como mais recentes, com a diferença de as antigas, algumas estarem em ruínas, as novas, pareceu-me, a aguardar o mês de agosto para abrirem.

 

1600-escariz (27)-video

1600-escariz (21)-video

 

Mas o que tínhamos a dizer sobre a aldeia, já o fomos dizendo ao longo dos posts que lhe dedicámos, hoje estamos aqui mais por causa do vídeo resumo que ainda não teve, aproveitando a ocasião para deixar mais algumas imagens que tínhamos em arquivo, desde a única vez que fomos por lá, e já lá vão 12 anos (2008). Mas pelo que se avista da estrada, a aldeia, neste entretanto, não teve grandes alterações.

 

1600-escariz (17)-video

1600-escariz (10)-video

 

E agora sim, o vídeo com todas as imagens da aldeia das Eiras que foram publicadas até hoje neste blog. Espero que gostem e para rever aquilo que foi dito sobre as Eiras ao longo do tempo de existência deste blog, a seguir ao vídeo, ficam links para esses posts.

 

Aqui fica:

 

 

Post do blog Chaves dedicados à aldeia de Escariz:

 

https://chaves.blogs.sapo.pt/escariz-chaves-portugal-1606629

https://chaves.blogs.sapo.pt/escariz-chaves-portugal-1086882

https://chaves.blogs.sapo.pt/808023.html

https://chaves.blogs.sapo.pt/249170.html

https://chaves.blogs.sapo.pt/3478.html

 

 

E quanto a aldeias de Chaves, despedimo-nos até à próxima quarta-feira em que teremos aqui a aldeia de Faiões (entramos nos efes).

 

 

 

06
Jun20

Pedra de Toque

pedra de toque copy.jpg

 

PEDRA DE TOQUE

De António Roque

 

CARTA

 

Algures, 30/01/2020

 

                        Meu caro António:

 

                        Ao receberes esta, ficarás certamente surpreendido!...

                        Estamos tantas vezes junto, porque raio te deu para me escreveres!?...

                        Hoje é um dia especial, e eu senti necessidade de falar contigo.

                        Já passaram tantos anos meu amigo…

                        As marcas do tempo vão aparecendo inexoráveis por fora, mas sobretudo por dentro e não só no corpo…

                        A vida até ao presente vai suportando estoicamente as tempestades e fruindo gostosamente os períodos de bonança.

                        Só o trabalho dignifica, dizias-me tu sempre que me abatia face aos obstáculos que fui ultrapassando.

                        Agora sei que, mais sereno, te vais enamorando das palavras e das frases que com elas compões.

                        E deves continuar a fazê-lo inspirado na tua vida rica e cheia, moldada pelos sentimentos que estão colados à pele.

                       Continua a proporcionar-nos textos que, como diz a tua amiga Zezinha e a tua amiga Ana, vão tocando na sensibilidade de quem como tu, ama a linda cidade de Chaves, as suas gentes, as senhoras recatadas às janelas, os seus monumentos (um sortilégio… como muitas vezes a referes).

                        Ah, e não deixes de prezar os teus amigos de sempre. Sei que te dói o desaparecimento de alguns.

                        Normalmente os que nos deixam são os melhores. Quem comanda (se existe alguém que comanda!?...), erra por vezes em demasia.

                        Sei que como eu, és um homem empenhado politicamente.

                        E como magoa vermos ruir os castelos que erguemos na juventude e que por eles tanto demos corajosamente, generosamente.

                        Fico feliz porque sei que hoje e sempre, tu não prescindes dos valores que foram teus alicerces de vida.

                        Comigo sei-te disposto ainda a lutar (sempre de pé, como as árvores, até ao fim!) pela liberdade, pela justiça, pela fraternidade, pelo sonho de um mundo melhor que vai chegar numa manhã muito clara e limpa.

                        Deixo-te um abraço do Zé Firmino, da Mizé Guimarães, do João Vasco Reis Morais, do Rui Bessa, do Jorge Comboio, do João Artur e de todos os amigos do peito, que são muitos, mas cujos nomes não me ocorrem.

                        Goza o amor incondicional que tens pelos teus filhos, que sei correspondido, e também pelos teus jovens e queridos netos, troncos da mesma raíz, cuja foto transportas sempre.

                        Os teus irmãos e sobrinhos sei que os estimas e que te admiram.

                        Não percas a recordação dos que te antecederam e que deram um contributo inestimável para fazerem de ti, aquilo que és.

                        Sei que deles és devoto e que veneras, especialmente a tua mãe e a tua sábia avó, de cuja varanda vias o mundo…

                        Eu gostava de pôr mais emoção nesta carta, como tu fazes com os teus textos, mas não sou capaz, não tenho esse dom…

                        Termino para te pedir encarecidamente que nunca esqueças “que só a cultura salva” como tantas vezes te ouvi dizer.

                        Os poetas gostam de ser cantados na tua voz. Projeta os seus versos para bem longe por muitos e muitos anos.

                        Uma amiga comum entregou-me um ramo de jasmins para te oferecer.

                        Deixo-te aqui um abraço muito sincero.

 

Um amigo,

 

António Roque

 

05
Jun20

O Barroso aqui tão perto - Fírvidas

aldeias de Barroso - Montalegre - com vídeo

1600-firvidas (264)-vídeo

montalegre (549)

 

 

Continuando a cumprir a nossa falta para com as aldeias que, aquando dos seus posts neste blog, não tiveram o resumo fotográfico em vídeo, trazemos aqui hoje esse resumo para a aldeia das Fírvidas, Montalegre.

 

1600-firvidas (271)-video

 

 

Fírvidas que demoraram a descobrir mas que a partir da descoberta fazem parte de um ponto de passagem e paragem frequente. Passagem pela aldeia, paragem obrigatória nas suas cascatas, em tudo singelas, em tudo interessantes.  

 

1600-firvidas (287)-video

1600-firvidas (262)-video

 

Assim, Fírvidas deve ser entendida e visitada em dois andamentos. Primeiro, o da aldeia, o segundo é o das cascatas. Quanto ao tempo a demorar-se em cada, deverá ser o que cada um dos andamentos lhe sugerir, deixe-se ficar enquanto estiver bem, principalmente nas cascatas.

 

1600-firvidas (240)-video

 

O primeiro andamento - a aldeia

Na aldeia é obrigatório apreciar as alminhas e o tanque, ficam juntos e não sei qual deles o mais interessante, se as alminhas com as suas quatro faces, com imagens em todas elas, se a singularidade do tanque.

 

1600-firvidas (228)-video

 

Na aldeia, uma volta pelas suas ruas é obrigatório, depois é só apreciar o casario típico transmontano-barrosão e a capela e a paisagem envolvente.

 

Segundo andamento  - as cascatas

 

1600-firvidas (161)-video

1600-firvidas (157)-video

 

As cascatas, singelas em tudo, mas de uma beleza incomparável, parece surgirem do nada, quase só visíveis quando estamos em cima delas, mas depois de lá estarmos, apetece ficar por lá, mas a natureza envolvente também nos convida a ser explorada, a sua fauna e flora, principalmente na primavera/verão, têm motivos e variedades mais que suficientes para nos deleitarmos por lá o tempo que tiver de ser… uma manhã, uma tarde o dia inteiro.

 

1600-firvidas (212)-video

 

Mas uma coisa são imagens em fotografia e palavras, que até podem ser poemas,  e outra coisa é a realidade. Nem há como ir por lá para saber e sentir estas pérolas do Reino Maravilhoso, mas tal como dizia Torga, nunca me canso de o citar, não se esqueça que: “O que é preciso, para os ver, é que os olhos não percam a virgindade original diante da realidade e o coração…”

 

1600-firvidas (11)-video

 

E agora sim, o vídeo com todas as imagens da aldeia de Fírvidas,  que foram publicadas até hoje neste blog. Espero que gostem, e para rever aquilo que foi dito sobre as Fírvidas, aldeia e cascatas, a seguir ao vídeo fica o link para o post que dedicámos à aldeia.

 

Aqui fica o vídeo, espeo que gostem:

 

 

Post do blog Chaves dedicados à aldeia de Fírvidas:

 

https://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-firvidas-1240550

 

 

 

04
Jun20

Crónicas Estrambólicas

crónica de um primeiro-ministro sobre o barroso - 5

estrambolicas

 

Crónica de um Primeiro-Ministro sobre Barroso 5

 

Mais uma crónica do antigo Primeiro-Ministro António Granjo, um ilustre flaviense. Afinal, além das quatro últimas crónicas, o Fernando (o CEO do blogue) descobriu mais algumas, todas sobre Barroso, num total de 15. Esta descreve a viagem de Boticas às Alturas. Vê-se que o Granjo não conhecia a região e não planeou em detalhe a viagem, o que não tem nada de mal. Duas horas para fazer os 5 km de Boticas à Carreira da Lebre, a cavalo?! Atravessar o Beça num pontilhão? Enganou-se, a famosa ponte Pedrinha já lá estava (há quem diga que é romana ou medieval). É interessante a descrição de Carvalhelhos. Gosto do uso da palavra réco. Não imagino onde seriam as duas antigas estalagens de Almocreves, talvez ainda lá estejam a servir de habitação. A Empresa das águas já existia e até havia anúncios à água no jornal A Capital, no mesmo ano em que saíram as crónicas do Granjo, reparei nisso. É pena, hoje em dia, a via romana nas Alturas (uma das três que ligavam Chaves a Braga) não estar assinalada. Foi destruída? Não me admiraria.

Luís de Boticas

 

1600-c-out-lasanho (8)-granjo

 

SUBINDO À SERRA DAS ALTURAS

As aguas maravilhosas de carvalhelhos

A lenda das léguas que a velha mediu

 

 

De Boticas à serra de Barroso ou das Alturas é meio dia de jornada. As leguas, em Barroso, foram contadas por uma velha que ia andando e comendo dôces. É o que reza a lenda e é o que facilmente se constata mettendo-se a gente a caminho e internando-se, entre as serras interminaveis e os curtos plainos, até às maiores altitudes.

 

Quando monto o garrano, sobre cujo albardão irei, escarranchado e de pernas bambas, em busca do ignoto, pergunto à estalajadeira:

 

— Quantas horas levará a chegar às Alturas?

 

1600-lavradas (66)-granjo-5

Alminhas - Lavradas

 

— É já ali. Chegando às Quintas, vê-se logo Lavradas, e chegando à Cruz das Lavradas vê-se logo a serra.

 

O garrano, a cabeça baixa, as pernas escaneladas e curtas, trépa como um carneiro. O sol nasce. Uma ténue neblina encobre o fundo do valle. Uma briza um tanto áspera pica a epiderme e faz bamboar por cima das paredes os braços das vidreiras, aqui e ali amarelecidas do míldio.

 

Nas corgas prosperam a urze real e a torgueirinha, o sargaço, a esteva, a carqueja, a queiroga. A giesta vê-se raramente. Uma levada canta pala serra abaixo.

 

1600-olas (181)-granjo 5.jpg

 

O sol está já acima do horisonte. Toda a veiga reverbera. Nas perneiras e milho as gottas de orvalho fulgem como diamantes; na face adusta do granito os pedaços de mica rebrilham como flechas; babas d'oiro entrelaçam-se nas ramagens. À beira do caminho, os castanheiros deixam pender, n'um gesto familiar, os ramos verdenegros, d'entre os quaes os ouriços espreitam aggressivamente.

 

A vinha acaba. Nas Quintas, apenas, algumas latadas cobrindo as ruas com as suas sombras propicias, abrigadas da nortada pelas frontarias e protegidas as cepas das geadas por resguardos de cortiça.

 

Dobra-se o alto e na frente estende-se a ribeira do Beça. As restolhas, batidas do sol nascente, têem lampejos de prata. Dois rapazitos, guardando a vezeira do gado, fazem desenhos no caminho.

 

— É muito longe daqui às Lavradas? Um dos pequenos levanta os olhitos azues e aponta com o dedo o limite do horisonte.

 

— Por traz d'aquelle alto...

 

E os seus olhitos, duma transparencia de tarde d'outono, teem essa doçura das creanças que estão a atingir a nubilidade.

 

A caminhada leva já duas horas. Atravessa-se o Beça sobre um pontilhão inverosimil —duas ou três lages compridas em cima de meia dúzia de poldras. Acima, entre os castanheiros, esponta Carvalhelhos. O sol arranca dos colmos reflexos fulvos. As casas são térreas, de pedras justapostas, toscamente aparelhadas ou mesmo sem apparelho, tendo apenas uma porta e um cancello supplementar, destinado a impedir a sabida dos récos, dos pintos e da filharada, quando a porta tem de dar passagem ao fumo da lareira. Verdadeiras habitações primitivas, que, de longe, o sol arruivando os colmos, se diriam cobertos de pelles de animais selvagens.

 

É nésta aldeola perdida, sobrevivencia dos tempos protohistoricos, que brotam riquissimos mananciaes d’aguas silicatadas, para exploração e aproveitamento das quaes se constituiu. parece, uma empreza, mas que jazem ainda, jazem sempre, no mais lamentável e criminoso abandono. Todos os annos afluem a Carvalhelhos os doentes, assignalando-se curas maravilhosas nas condições menos favoráveis, ou, para exprimir toda a verdade, em condições muito proximas da immundicie. As aguas distam da povoação coisa de dois kilómetros. Dois cobertos de colmo protegem-nas das chuvas. Os banhos são aquecidos n'uma cozinha de campanha e ha para todos os doentes, às vezes mais de 50, tres tinas, por junto, de madeira ou folha. Os banhistas mais pobres acommodam-se aos montões nos palheiros. Apesar de tudo, a afluencia é cada vez maior, porque os testemunhos das curas são cada vez mais irrecusaveis.

 

1600-carvalhelhos (518)-granjo-5

Carvalhelhos

Carvalhelhos foi, nos dias gloriosos da estrada velha das Alturas, quando os almocreves, com as suas récuas de machos, eram os donos do transito entre Braga e Chaves, uma paragem forçada. Dois casarões, antigas estalagens, com enormes estrebarias, attestam, esse passado de grandeza e de prosperidade.

 

O sol vae alto. Uma voz possante, do cimo d'um penedo, dominando os cerros, chama à eira; e, já no limite das Lavradas, ouve-se o cantar dos malhos. Para Villarinho da Mó, vê-se a serra golpeada das pesquizas de volframio. Uma rapariga dos seus dezaseis annos, os seios pequenos como os fructos da novidade, furando a camisa de linho, os olhos pretos luzindo como lascas de volfrâmio, sentada no sóco da Cruz das Lavradas, vae fiando a maçaroca de lã e vigiando a cabrada que retouça no montado.

 

— Pastorinha, ainda é muito longe a serra das Alturas?

 

A pastorinha sorri. Sem dúvida, o seu sorriso sabe a medronho e a mel silvestre, e os seus dentes parecem pequenas lâminas de gelo que por milagre ficassem desde o inverno entre os seus labios frescos.

 

1600-r-311 (1)-granjo-5

 

— Ahi de riba já se vê a serra! O garrano baixa mais a cabeça reteza mais as pernas flexíveis e eis a serra, correndo de NO. SO. como uma gigantesca vaga azul, ameaçando subverter a immensa amplidão. Parece que a espuma verde da imponente vaga chega até baixo, à chã, onde uns magros batataes se agarram à terra safara. Parece que basta estender o braço para se lhe tocar.

 

A ascenção tem sido feita vagarosamente. O pobre barrozão que vem commigo abre já a bocca e respira com soffreguidão. Dentre os penedos veem lufadas quentes. O sol, segundo o adágio regional, começa cozendo a terra.

 

Caminhamos. Mais uma hora. Os penedos encostam-se uns aos outros, como animaes cançados. Deixa dc interessar a paisagem. Os olhos fecham-se. A redea solta-se das mãos. O garrano vae à vontade. De vez em quando pára, farejando uma poça de agua. A somnolencia esmaga as coisas.

 

1600-atilho (49)-granjo-5

Atilhó

Surgem árvores, vaccas, colmos.

 

— Ó homensinho ali é que são as Alturas?

 

O homensinho estende o mento encarquilhado para o sul.

 

— Oh! não senhora. Ali é Atilhó! Mas as Alturas será um quarto de légua...

 

Caminhamos, caminhamos. Uma aragem fresca desembocca d’uma portella. O sol a pino. O meu guia parece um rafeiro estafado, arrastando-se com a barriga, pelo chão. Galgam-se dois lanços da via romana. Enfim, a egreja caiada das Alturas surge anunciando a Terra de Promissão.

 

1600-alturas (21)-granjo-5

 

Mas a serra? A serra agacha-se, como uma fera a formar o salto.

 

Pergunto a uma velhota:

 

— D'aqui ao cimo da serra?

 

A velhota esfrega os olhos roídos da blefarite, ageita o avental de estopinha e responde sacudidamente, núma voz mascula:

 

— Uma légua das que a velha mediu...

 

Succumbo.

 

Antonio Granjo

 

 

 

03
Jun20

Crónicas de assim dizer

imagem-web.png

 

Crítica literária

 

 

Um dia disseram-me que não se podia começar frases por “e”, nem por “mas”, nem por “ou”! E que eu começava muitas assim! Mas por uma falta imperdoável de conhecimento da Língua Portuguesa, que constituía um erro grave! Ou seja, como aqui se vê, fazia o que não podia ser feito. Não percebi, mas achei curioso!

 

Sempre considerei que não dando erros ortográficos, a pontuação era, como dizer, um acréscimo para nos fazermos entender, passar a nossa mensagem, defender o nosso ponto de vista ou até um simples adereço, como que um enfeite. Pois se Saramago ganhou um Prémio Nobel da Literatura prescindindo muitas vezes dela! E, confesso-o aqui, só percebi isso depois de o ler, quando entendi perfeitamente diálogos inteiros sem dois pontos nem tracinhos e sem parágrafos. Perguntas sem pontos de interrogação, exclamações sem pontos de admiração! Muitas vezes os protagonistas alternavam na mesma linha e ele, percebi também só ao lê-lo, distinguia-os porque ao mudar de interlocutor começava por letra maiúscula sem ter feito ponto antes. Era um sinal de que a voz mudava. Mas a verdade é que me tenho fartado de conhecer gente que não gosta de Saramago, porque nunca o leu ou porque ele tinha umas ideias políticas diferentes das que eles têm, embora muitas vezes não se percebam bem quais são, porque mudam muito de acordo com as circunstâncias e as pessoas presentes. Isto para dizer que nunca me passou pela cabeça dizer, ou até pensar, que Saramago dava erros... O que eu sempre achei é que ele era um génio, pois prescindir de enfeites ou adereços e manter-se elegante, as mulheres sabem, nem sempre é fácil!

 

Mas um dia destes tive de repensar a ideia: aconteceu-me que fui assistir a uma tertúlia, assinale-se aqui que é uma coisa completamente diferente de clube de leitura e isto foi-me dito por uma das palestrantes porque ela, sim, tinha “um clube de leitura a sério e isto é apenas uma tertúlia", em que disseram, pessoas de ambos os sexos, para que não se pense que isto é um pensamento de género, que “certos escritores cometeram erros que não se podem ignorar e que têm de ser assinalados em encontros deste género”, porque se contradiziam no texto e citaram, quando eu pedi exemplos, Agustina Bessa Luís, Paul Auster e por aí fora. Eu primeiro fiquei caladinha, até chegar àquele ponto em que me começa a dar uma comichão e a cadeira a ficar desconfortável e decidi, depois de decorridos, talvez tenham sido, 5 minutos que me pareceram uma eternidade, afirmar que eu nunca chamaria a isso erros, que pensaria antes que o autor o fez com um propósito, o que seria interessante discutir era, na minha opinião, o propósito com que ele o fez, pois se o cavalo tinha começado castanho no início do livro e tinha acabado em branco, algum sentido a metáfora faria! "Metáfora?" aqui ponho mesmo aspas para se perceber que não fui eu que perguntei. Ou, acrescentei sem corrigir, que talvez fosse uma provocação do autor, pois se é de ficção que estamos a falar e não de romance histórico, e se foi o autor que inventou os dois cavalos! Ou eles achariam que o escritor pára a meio do livro e faz intervalos para lhes dar de comer? Então se não são a sério, é ou pode ser uma intenção do autor tê-los posto, em simultâneo, de duas cores!.... Haverá alguém que pense que um escritor publica um livro sem o ter lido as vezes suficientes para se cansar dele? É por isso que depois o põe na rua: dá-me espaço, vai mas é chatear outro! E é depois com o espaço que esse deixa que o autor escreve outro. Parece-me uma interpretação simples e óbvia!

 

Claro que acabei por me calar, afinal aquilo, para além de não ser um clube de leitura, era um clube de arrogantes e eu até me aguentava bem se, a dada altura, não me começassem a dar uns coices nos pés, concretamente por baixo dos pés, em sinal de reprovação ou até com a intenção de me calar. E atenção que eu só estou a falar nestes termos, porque estavam no âmbito do debate os cavalos! Aquele que era castanho no início e depois se transformou em branco!

 

Era nesta altura que eu devia ter pedido licença para sair, fingindo um telefonema urgente que resulta sempre bem: para além de nos perdoarem a saída imprevista, ainda ficam preocupados connosco. Enfim, aqueles que ficam. E foi com esse pensamento que eu me apercebi que um dos participantes já o tinha feito momentos antes, saído para atender o telefone, e eu não me lembro do que na altura se discutia, mas levantou-se e saiu sem sequer fingir atender o telefone, porque, sinceramente, há idades em que já se pode prescindir de tudo isto, porque um gajo se está perfeitamente nas tintas e vai-se embora sem dizer que se vai embora. Um dia também chego lá! Se alguém no grupo fizer depois um comentário menos abonatório, o que saiu ainda tem a elegância de dizer: “foi para não interromper o interessante debate de ideias”. Mas o gajo foi-se embora e não voltou! Eu isto ainda não sei fazer, mas com a idade e atendendo aos progressos que tenho feito, tenho francas hipóteses de chegar lá ainda nesta vida!

 

E foi neste dia que percebi que, na escrita, se pode fazer praticamente tudo e que talvez venha daí a sensação de liberdade que ela nos provoca. Uma liberdade responsável, porque a gente diz e desdiz, afirma e contraria, muda de opinião e agrada-se por mudar de opinião! E não entendo isto como falta de coerência nem como um erro, nem como um engano, nem como um esquecimento. É assim tão difícil perceber que quem faz desta brincadeira uma profissão ou desta profissão uma brincadeira, está completamente a leste de toda e qualquer crítica?!

Tentei dizer isto ou sugerir que podia existir esta possibilidade, mas... A idade não perdoa! Se por um lado ficamos mais conhecedores com a experiência de vida também ficamos menos flexíveis. Aqui não resultou nada bem.

 

Foi nesse momento que me lembrei de duas situações de um livro da Rosa Montero, que já não retenho o nome: uma delas era a repetição integral de uma página com 60 de intervalo da outra! Passou-me tudo pela cabeça, menos o facto de ela se ter esquecido que já a tinha escrito uma hora antes! A outra situação era a descrição do elevador de um arranha-céus em Madrid, que numa das referências era quase um comboio de alta velocidade e na outra o elevador do rés-do-chão só dava acesso até meio do prédio, tendo os moradores do 51º para cima, de mudar de elevador para entrar noutro que começava aí. Na altura aquilo não me fez muito sentido, mas havia um propósito nesta dupla descrição. Fiz a minha interpretação disso, consciente de que havia muitas outras, tantas quantas os leitores. Isto tudo para dizer que quando encontro este tipo de coisas nos livros acho imensa piada aos autores e penso: este gajo tem uma imaginação! Nunca, mas nunca assumiria isto como um erro, ou descuido, porque estou perfeitamente consciente que os autores podem até levar a vida a brincar, mas, no que toca à escrita, levam-na muito a sério! Eles nunca se enganam e nunca têm dúvidas! Como qualquer pessoa, quando o que faz, faz com gosto. Estou a falar de livros de ficção (eu sei que já o tinha dito! Não é erro, ok? Há um propósito nisto.)

 

E ao pensar neste exemplo, esclarecedor do meu raciocínio ou interpretação para o que ali se afirmava, e no insulto velado que faziam a escritores consagrados, sorri interiormente e fiquei calada. Soube-me tão bem perceber em que momento exacto devemos ficar calados, porque aquilo que possamos dizer não acrescenta nada quando as pessoas têm a mente enclausurada!

 

Cristina Pizarro

 

 

03
Jun20

Eiras - Chaves - Portugal

Aldeias de Chaves - Com Vídeo

1600-eiras (293)-video

 

Continuando a cumprir a nossa falta para com as aldeias que, aquando dos seus posts neste blog, não tiveram o resumo fotográfico em vídeo, trazemos aqui hoje esse resumo para a aldeia das Eiras.

 

1600-eiras (280)-video

 

Aldeia que por ser da periferia da cidade e a ela já unida fisicamente, na prática, é mais um dos bairros da periferia de Chaves.

 

1600-eiras (183)-video

 

Com veiga e com montanha, desde a qual se lançam olhares para a cidade de Chaves mas também para toda a restante veiga.

 

1600-eiras (172)-video

 

Mas hoje não estamos aqui para falarmos das Eiras, isso, já o fomos fazendo ao longos dos vários posts que lhe dedicamos (com link no final). Hoje é mesmo pelo vídeo, mas também, aproveitando esta ocasião, para deixarmos aqui mais algumas imagens que escaparam às anteriores seleções

 

1600-eiras (224)-video

 

Nem que sejam imagens tão simples, com tanto de simplicidade como de delicadeza e beleza, como o são as flores das couves, depois de terem passado por espigos e terem escapado à panela de um arroz de espigos e linguiça, ou as bolinhas vermelhas selvagens que faziam a delicia e a diferença nos presépios de antigamente.

 

1600-eiras (199)-video

1600-eiras (167)-video

 

Mas também imagens com história, da mais antiga, como a calçada romana, de uma das mais importantes vias romanas, a Via XVII entre BRACARA (Braga) e ASTURICA (Astorga) com passagem por AQUAE FLAVIAE (Chaves) e pela ponte (romana), que fazia parte dessa Via.

 

1600-eiras (40)-video

 

 E claro, sempre que vamos às Eiras temos que deitar um olhar ao seu curioso e lindíssimo cruzeiro, mesmo que seja à distância.

 

1600-eiras (44)-video

 

Mas também, porque não, imagens da natureza, nem que seja de um simples carvalho despido pelo inverno, ou então, coisas mais complexas, que os nosso antepassados deixaram gravados/esculpidos em pedra

 

1600-eiras (177)-video

1600-eiras (192)-video

 

E agora sim, o vídeo com todas as imagens da aldeia das Eiras que foram publicadas até hoje neste blog. Espero que gostem e para rever aquilo que foi dito sobre as Eiras ao longo do tempo de existência deste blog, a seguir ao vídeo, ficam links para esses posts.

 

Aqui fica:

 

 

 

Post do blog Chaves dedicados à aldeia de Eiras:

 

https://chaves.blogs.sapo.pt/eiras-chaves-portugal-1602117

https://chaves.blogs.sapo.pt/eiras-chaves-portugal-1105807

https://chaves.blogs.sapo.pt/543315.html

https://chaves.blogs.sapo.pt/488175.html

https://chaves.blogs.sapo.pt/206599.html

https://chaves.blogs.sapo.pt/alminhas-e-cruzeiros-1834420

 

E quanto a aldeias de Chaves, despedimo-nos até ao próximo sábado em que teremos aqui a aldeia de Escariz.

 

 

02
Jun20

Uma vista sobre as origens

Cidade de Chaves

1600-(45589)

 

Tinha umas palavras para acrescentar à imagem, como o gosto que tenho em dizer ou sentir que nasci ali no meio da veiga, mas agora, depois de tanto pasmar a olhar para ela, como quem diz, de tanto regressos a pensar naquilo que queria dizer, já não tenho certeza nenhuma, nem sequer a certeza de se nasci ali ou não. O facto é que nasci mesmo lá, e lá vivi a minha infância, mas hoje, ao passar por lá, as pessoas são outras, quando as vejo, nem sequer as conheço, as casas novas nasceram como cogumelos e as velhas casas da minha infância, ou já não existem ou estão velhas e abandonadas ou foram transformadas, o velho caminho de terra, onde esfolávamos os joelhos, jogávamos à bola, ou, no tempo do Livramento, jogávamos hóquei patins, com as bolas que roubávamos nos matraquilhos da taberna do Sr. Arlindo, um trocho de couve galega seco a fazer stique e quanto aos patins imaginários, mas eram como se rolassem por baixo dos nossos pés, com as raparigas lá nas brincadeiras delas, sem nos ligarem, entretinham-se a jogar aos elásticos e à macaca… hoje,  o velho caminho de terra virou a rua asfaltada, onde só passam carros…nem cães, nem gatos, nem crianças, raramente apanha-se uma ou outra pessoa a sair ou entrar em casa…definitivamente foi ali que nasci, mas já não tenho a certeza se foi lá… por isso, nada acrescento a esta imagem.  

 

 

 

02
Jun20

Chaves D´Aurora

romance

1600-chavesdaurora

 

 

  1. IRREVERÊNCIA, ADEUS!

 

O motorista atual de Dedé era um rapaz mais baixo, mais franzino e até alguns anos mais velho do que os valetes anteriores. Bicanço, bexigoso, era também aquilo que não se podia negar em dizer – um feio.

 

Florinda custou a perguntar, mas não resistiu – E o Manozé? – Anda a Lisboa, casadinho com uma pretinha da Guiné Bissau – Ele era bem mais simpático do que esse, agora, não é? – Ora, pois, era e é. – ao que, maliciosa – Também tinha muito mais jeito para os outros afazeres do que esse aí, percebes, mas... esse aí também tem seus predicados. – Mamã não conseguiu disfarçar a indiscrição – Esse rapaz, nas funções da casa… serve-te bem? – ao que Dedé, a entender o alcance da curiosidade da amiga – Para os precisos dele do dia a dia, sim e até para as minhas urgências, que agora são cada vez mais raras, porque a idade me chega e já não me atiro de caixão à cova, como antigamente. Sabes como é… agora estou igual a muitas esposas flavienses: é mais servir a ele do que ele a mim, percebes?

 

Tapou a boca de lado, com uma das mãos e baixou, o mais que pôde, o tom de voz – Esse aí, apesar dessa cara feia e da falta de jeito, é de uma fúria insaciável, abana e refresca os meus calores como se fosse um vendaval, um ciclone, um furacão – sussurrou – Pena que ainda não aprendeu a ser menos rapidinho e, portanto, só na terceira viagem é que eu deixo de ficar a ver navios em pleno Tâmega! Apressado come cru, percebes, mas se o rapaz se satisfaz, assim... – tornou-se séria, de repente – Esta vida é só dois dias. Bebe-se a água conforme o pote. – e logo voltou sua alegria – Ah, minha Flor, nem te conto: o Manozé vai ser pai! E já ficas sabendo o resto: vou ser madrinha do miúdo. Desta vez, no papel e na pia de verdade. Que o pequerrucho, até chegar a se pôr… já vou eu estar sentadinha e a fazer crochê, numa cadeira de vovó – então soltou uma risada escandaleira, como era de seu feitio.

 

Florinda sorriu, a experimentar um de seus raros momentos de descontração, embora a fingir que não percebia os olhares de reprovação que, a todo momento, lançava-lhe o marido. A certa altura, porém, levou aos olhos o lencinho de cambraia. – Essas pessoas queridas, cá na estação, e mais tu, Adelaide – Voltou-se para a cunhada, um pouco adiante – E tu também, Comadre Hortênsia! Ah, isso fala à gente! Obrigadinho, a todos vós! Ainda mais depois de… de tantas agruras que me souberam mal!

 

Adelaide ponderou então, comovida – Melhor, minha Flor, que o vento nos leve o chapéu, mas nos deixe a cabeça! Coisas de ontem, curam-se amanhã. Estejas bem, minha boa Flor! – e disse, então, as palavras que, em seguida, todos estavam igualmente a proferir e que mais pareciam as frases de um réquiem – Vão com Deus, meus entes tão queridos, para todo o sempre lembrados. Cá ficamos.

 

1600-ca (990).jpg

 

 

  1. TRÁS-OS-MONTES, ADEUS!

 

Após os últimos beijos e abraços, João Reis e os seus partiram rumo ao Porto. Assentada à cabine do comboio, Florinda...

 

(continua na próxima terça-feira)

 

 

 

fim-de-post

 

 

01
Jun20

Quem conta um ponto...

avatar-1ponto

 

 

493 - Pérolas e Diamantes: Naquele tempo

 

 

Somos daqueles que acreditamos que nem o primeiro sinal nem a segunda sinalização são bons presságios.

 

Continuo a acreditar que a Terra é redonda. E que existe uma diferença entre o vácuo e o vazio.

 

Antigamente havia muitos homens que se pareciam com cães. Agora há sobretudo cães que se parecem com homens. E com mulheres. E gatos. E até com canários. Ou cantadores de fado.

 

Antigamente açoitavam-se as pessoas com o propósito de mostrar serviço educativo e punir prevaricadores. Hoje, tal ato, apenas é permitido, e apreciado, em sessões de prazer e luxúria sexual. Até se escrevem livros a enaltecer tais despropósitos e se realizam filmes para colocar em imagens o que os livros descrevem.

 

As pessoas eram como cardos, andavam sempre a picar-se umas às outras. Atualmente, muitas ainda são assim. Outras são mais assado.

 

As pessoas costumam variar pouco, nas conversas e em tudo o resto. Antigamente eram os papagaios que diziam asneiras, mais conhecidas como palavrões. E ninguém levava a mal. Todos sorriam. Menos os papagaios. Apesar de tudo, era difícil denunciar um papagaio por injúrias.

 

Os homens de então dedicavam-se muito à columbofilia. E construíam lindos pombais onde instalavam os seus ilustres pombos-correios. As casas e os pombais dessa altura eram muito discretos. As pessoas gostavam de agradar e servir. Eram como pombos amestrados. As casas, apesar de humildes, ressumavam ternura. E humidade. E frio.

 

Os gaiatos, apesar de usarem calças com fundilhos e correrem descalços pelas ruas de terra batida, eram muito jubilosos e davam gritos sensíveis. Todos eles possuíam um anjo da guarda que os entretinha quando pensavam que tinham fome. Havia sempre a esperança de poderem comer no dia seguinte. Os jovens podiam namorar despreocupadamente porque havia muita decência. Os homens eram cavalheiros e as mulheres senhoras. Podiam até fazer as tais coisas que todos sabemos sem darem um pio. Assim dava gosto. Dizem que agora parecem autênticas sirenes do INEM. Eu nessa discussão não me meto porque já me vai faltando a audição.

 

E também se davam muitos clisteres. E punham-se flores de cretone em jarras de plástico cheias de serrim. A beleza podia ser zarolha, mas era verdadeira. Até se bordavam as almofadas e os lençóis. E existiam travesseiros. Que saudades eu tenho dos travesseiros.

 

O encanto por vezes era quieto e outras vezes bruto. Tal e qual como o amor paternal. O amor podia ser coxo, mas não deixava de andar de um lado para o outro. Dentro ou fora do lar. Uma das grandes declarações de amor dessas alturas era: “Gosto mais de ti do que de pão frito.”

 

As pessoas ficavam tristes, mas de uma forma impercetível. E as moscas davam voltas distraídas pela borda dos copos.

 

As pessoas caminhavam devagar, faziam que pensavam, contavam os passos para se entreter e diziam que não tinham medo quando se aproximavam das esquinas. E andavam de romaria em romaria em busca de quem dançasse.

 

Os homens faziam o que lhes mandavam sem mostrarem má cara e tudo lhes parecia bem. Até o mal. Desde que viesse por bem. Entendamo-nos.

 

Já os garotos preenchiam cadernetas com cromos dos jogadores de futebol para no fim ver se conseguiam ganhar uma bola de futebol de catechu que substituísse a de trapos.

 

E as casas eram tão frias que a maioria das pessoas passava o inverno na cozinha. E comiam chícharros fritos ao almoço e ao jantar. Quando os havia. E sardinhas. Por vezes, uma sardinha dava para três. E também se comia sopa. Muita sopa. E pão. E ia-se à taberna buscar meio litro de vinho.

 

As mulheres, nos retratos, sorriam mimosas. Cheias de felicidade e gratidão. Qualquer insignificância amorosa lhes punha os olhos rasos de lágrimas.

 

Os pobres eram honrados. E os homens bons pais de família, mesmo que fossem infelizes como cães.

 

Alguns rapazes, e umas quantas raparigas, iam estudar para o Liceu, mas poucos terminavam os seus cursos com sucesso.

 

Dizem que o vento se fartava de assobiar por entre as casas.

 

Alguns dos homens públicos contemplavam atónitos o desenrolar dos acontecimentos sem perceber bem o que se passava, apesar de ser tudo muito claro e evidente.

 

Havia raparigas tão pobres e infelizes que muitas desejavam ir para freiras. Outras escolhiam ir para a vida fácil. Tudo era melhor do que continuar nas suas enxovias.

 

As mulheres eram quase sempre uma espécie de sargentos sem divisas, prontas a mandar na rapaziada. E os homens eram calmos e meio bêbados. Ou melhor, ficavam calmos quando estavam meio bêbados. Sóbrios, variavam muito no seu comportamento.

 

Naqueles tempos não havia televisão. Mas muitas casas tinham um rádio onde se escutavam os discursos do chefe do governo, os relatos de futebol e de hóquei em patins e também as radionovelas, muito ao gosto popular.

 

Também se ouvia cantar o fado e falar da Nossa Senhora de Fátima, padroeira de Portugal, que não tinha descanso, tantos eram os pedidos de ajuda para milagres e conforto das almas.

 

João Madureira

Sobre mim

foto do autor

Pesquisar

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

 

 

15-anos

Links

As minhas páginas e blogs

  •  
  • FOTOGRAFIA

  •  
  • Flavienses Ilustres

  •  
  • Animação Sociocultural

  •  
  • Cidade de Chaves

  •  
  • De interesse

  •  
  • GALEGOS

  •  
  • Imprensa

  •  
  • Aldeias de Barroso

  •  
  • Páginas e Blogs

    A

    B

    C

    D

    E

    F

    G

    H

    I

    J

    L

    M

    N

    O

    P

    Q

    R

    S

    T

    U

    V

    X

    Z

    capa-livro-p-blog blog-logo

    Comentários recentes

    • Anónimo

      aldeia mais linda portugal

    • Anónimo

      Felizes são vocês , da minha sempre querida Chaves...

    • Fer.Ribeiro

      Obrigado pelo seu comentário, de facto o Barroso é...

    • Fer.Ribeiro

      A história da nossa cidade de Chaves é muito simpl...

    • Bete do Intercambiando

      Mil desculpas pelo erro. Depois que enviei a mensa...

    FB