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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

19
Set18

Crónicas de Assim Dizer

arrabalde-3

 

 

Pedro e o Lobo, um outro lado da história

 

 

Esta história tem passado de uma geração para outra, transportando uma moral com a qual até ontem eu concordei e que hoje me parece falsa!

 

Pedro era um jovem solitário que passava os dias a guardar o rebanho. Os seus dias eram todos iguais: de manhã ia para o monte com as ovelhas e à noite regressava. Era magro, mal nutrido, as suas refeições eram de pão e fatias de chouriço.

 

Não tinha com que se entreter. Naquela altura não havia portáteis, iphones, ipads, … nada! Mesmo que houvesse, Pedro nunca poderia tê-los. Livros, também não podia levar consigo para ler, porque o Pedro não tinha ido à escola. O pai, lavrador, precisava dele para guardar o rebanho durante o dia, enquanto trabalhava na agricultura para poder tirar alguma coisa da terra com que pudesse alimentar a família.

 

O Pedro já não suportava a rotina, a solidão, a vida vazia que tinha e um dia, para chamar a atenção sobre si, gritou, como se grita sempre, muito alto: “acudam, vem o lobo”, de forma a que na aldeia o pudessem ouvir e alguns deles viessem para lhe fazer companhia, para lhe quebrar a rotina, para que ele não se sentisse tão sozinho.

 

Na altura não havia psicólogos nem pedopsiquiatras e então chamaram-lhe “mentiroso”!

 

Ninguém percebeu o objectivo com que ele gritou com toda a força que podia:  “acudam, vem o lobo”, e o Pedro continuou a guardar o rebanho e repetia a façanha até que alguém percebesse a solidão em que se encontrava.

 

Foi a forma de pedir ajuda que encontrou. Ninguém percebeu. E, após várias vezes repetir a proeza, a sua pobre imaginação ou o desespero não lhe permitiam inventar outra forma, as pessoas deixaram de acreditar nele. Pura injustiça!

 

Um dia veio mesmo o lobo, coisa que o Pedro não previra, e quando gritou: ”acudam, vem o lobo”, ninguém o socorreu. As ovelhas foram comidas e a culpa que durante décadas lhe atribuíram não foi dele. Não foi dele porque nunca foi sua intenção enganar as pessoas; não foi do lobo porque era um animal irracional e faminto, que precisava de se alimentar para sobreviver; não foi das ovelhas que foram, neste processo, meras vítimas. A culpa foi da aldeia inteira que não veio socorrer o Pedro quando ele pediu ajuda!

 

Não podemos deixar de acreditar nas pessoas sem antes percebermos porque é que elas fazem o que fazem e dizem o que dizem.

 

Ninguém conseguiu entender o Pedro e julgaram-no injustamente. Ele, coitado, como podia defender-se perante tantas acusações?! Calou-se e, em silêncio, assumiu a culpa que não era dele.

 

Esta história tem sido sempre mal contada, porque a moral que ela encerra não é que “é feio mentir”; o que é feio é não ajudar os outros quando eles precisam de nós. Mas, e sobretudo isto, pode haver outra razão que motivou o Pedro neste comportamento e que eu nem sequer equaciono ou prevejo, porque simplesmente não estou na sua pele!

 

Cristina Pizarro

 

 

18
Set18

Chaves D´Aurora

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  1. O TEMPORA! O MORES!

 

Alguns dias depois, veio ao conhecimento de todos o que nenhum dos Bernardes jamais pudera imaginar. Foi certo dia em que Aurora, como estivesse indisposta, deixou-se ficar ao leito, por algum tempo mais. À hora do almoço, quando Papá chegou, ela foi acordada por um burburinho de vozes que vinham da sala de estar, nas quais sobressaía a de Reis – Mas como é que pôde acontecer isso em nossa casa?! Que sem-vergonhice lastimável! E o que podemos fazer agora, se a menina, quem sabe, já está a parir um filho dele? Essas rapariguinhas… francamente, elas não sabem se guardar! – e, a tentar resumir em bom Latim – O tempora! O mores!

 

Aurora foi até ao pequeno oratório de louça que havia em seu quarto, ajoelhou-se e pediu, a todos os santos, que lhe dessem coragem para enfrentar melhor os infortúnios. As irmãs entraram no recinto, a falarem nervosas entre si e a rapariga perguntou – O…o... o que está a se passar na sala? – ao que as manas se atropelaram mais ainda, todas a falar ao mesmo tempo – O quê, como?! Estás a dizer que não sabes?! – Que mal feito! Que desgraça! – Como é que uma rapariga se deixa levar assim?! – Então não sabes, também, que já pode estar a crescer um miudinho, nessa barriga pecadora?

 

A palavra “miudinho” levou a brasilita quase ao desmaio, enquanto as irmãs prosseguiam – E tu sabes quem contou tudo ao Papá? – a outra completou – A própria Alice, a afilhada do António Gomes, aquela que dormia na sala, no meio das japonesas... – A essa menção, Aurita ficou perplexa – A Alice?! Mas como é que essa menina... como é que ela ficou a saber que eu... que isso lá... – no que foi interrompida por Nonô – Ora, não te lembras que ela passou uns dias aqui em casa? – e a primogénita dos Bernardes já estava mesmo a cair ao chão, desfalecida, quando Lilinha exclamou – Como é que pôde o Alfredinho fazer isso?! – o que a deixou mais confusa – Quem? O Alfredinho? O meu próprio irmão? Não, ele não!!! Não, não!!! – e foram as irmãs que, dessa vez, também ficaram confusas – Mas como não? Se nós já sabemos que foi ele o autor. – Papá está furioso. Do que ele menos chamou nosso irmão foi de irresponsável... – E está só a esperar que o mano chegue do Liceu, para lhe dar uma sova – Mas o Papá já garantiu ao senhor António que o maninho, vai por que vai casar com a menina Alice!

 

Aurora respirou, enfim, aliviada. Consternou-se, porém – Mas o nosso Alfredinho?! Ele só tem dezassete anos! – Honras são honras, Aurita, há que se respeitar o bom nome das raparigas! – ao que, depois, disse-lhe Mamã – Os pais é que devem, ora, pois, sempre ensinar as meninas a guardar seus tesouros, com as chaves de muita virtude e prece. Não achas tu que sempre deva ser assim?

 

(continua)

 

fim-de-post

 

 

17
Set18

Quem conta um ponto...

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409 - Pérolas e Diamantes: É só inquietação, inquietação...

 

 

A propósito do seu álbum de “Inéditos 1967-1999”, editado recentemente, José Mário Branco confessou ao Jornal de Negócios que quando tinha quatro anos, foram dar com ele a chorar, agarrado ao rádio. Perguntaram-lhe: “O que é que tu tens, Zé Mário?” Estava a tocar um minueto do célebre violoncelista Boccherini. Respondeu: “Eu quero tocar ’ito.”

 

José Mário Branco é um dos grandes compositores musicais portugueses. Ou seja, pode não tocar Boccherini, mas chegou longe. Coisa de génios.

 

Também eu, quando tinha quatro anos, em frente ao rádio Siera lá de casa, situada na rua Presidente Arriaga, em Lisboa, me punha a dançar quando passavam as músicas da moda. Dizia a minha mãe que eu até bailava bem.

 

Em noites de jantarada, muitos dos convidados, seduzidos pelos balanços da criança, davam-lhe dinheiro para os brinquedos e para as guloseimas. Hoje nem sequer me atrevo a dar um pé de dança nas festas familiares. Coisas dos medíocres.

 

De facto, cada um é para o que nasce.

 

Fora as devidas distâncias, alguma coisa temos em comum. Também eu me convenci que tinha nascido numa geração com a noção de que podia mudar o mundo. Ou melhor, com a noção de que era necessário mudar o mundo.

 

Na minha juventude era normal saltar de projeto para projeto, de ideologia para ideologia,  de radicalidade para radicalidade.

 

Quando se deu em o 25 de Abril eu era católico praticante, mas, em poucos meses, saltei para PC, por ser o sítio onde se podiam fazer coisas com um mínimo de organização e consistência. Apesar da adesão intempestiva ao marxismo-leninismo, que é uma filosofia política muito aborrecida e cheia de contradições, a história de Jesus nunca me abandonou. Continuo a achar que existe uma contradição profunda entre a história de Cristo e a instituição Igreja. Concordo com José Mário Branco quando ele diz que a história desse homem é uma das mais belas histórias, senão a mais bela, que a humanidade inventou.

 

Esse homem calmo e pacífico enfrentou com o seu exemplo e a palavra os dois grandes poderes (o judaico e o romano)  na terra onde nasceu, cresceu e morreu com apenas 33 anos. Foi ele que disse uma das coisas mais subversivas de sempre: “Deus és tu”, como quem declara: “Essa gente que diz que é dona de Deus, e que vive e domina a sociedade à custa disso, não serve para nada, está a perverter.”

 

A sua temporalidade é admirável.

 

Se nos situarmos na época, e até podendo relativizar o ponto de vista histórico e místico, o que aquele homem fez pela dignidade do ser humano é de facto notável.

 

Alérgico a partidarite, José Mário Branco saiu do Bloco de Esquerda, partido que ajudou a fundar. Disse na sua intervenção uma coisa com a qual me identifico plenamente: “Eu nunca saí de partido nenhum, os partidos é que saíram de mim.”

 

Nos partidos não se está para procurar realizar os valores da justiça da liberdade, está-se lá para “outras jogadas”. Por isso não se revê em nenhum partido. Nem ele, nem eu.

 

Considera que o mundo está muito feio. Tal como ele, também eu cresci num sistema em que havia opressão física, em que se a pessoa não cumprisse as regras arriscava-se a castigos físicos, à pancada, à prisão e à tortura, coisa que ele experimentou.

 

Agora a música é outra. José Mário Branco considera que o desenvolvimento da sociedade e do sistema em que vivemos é tal que, globalmente falando, a ditadura foi transportada para dentro do cérebro das pessoas por processos de massificação e atomização. Cada ser humano está sozinho. Há um processo de desculturação. Quanto menos souberes, melhor, quanto mais tiveres uma mente padronizada e reduzida a um único modelo, melhor. Portanto, “há uma capacidade incrível de recuperação da contestação”.

 

José Mário Branco viveu o Maio de 68 em França. Estava lá imigrado.

 

Nessa data memorável, houve uma catarse libertária lindíssima, que foi logo boicotada pelo PCF a troco de um aumento de salários de 10% nos acordos com Pompidou. O movimento reivindicativo durou um mês, com 2 milhões de operários em greve, com ocupações. Mas rapidamente se esboroou. Passados poucos meses desse aumento salarial, o custo de vida já tinha aumentado 12%. O saldo foi, portanto, negativo.

 

Entendamo-nos, o Maio de 68 não foi projeto de coisa alguma. Resumiu-se a um espetáculo libertário, a um ato de vida. A um grito.

 

“Debaixo do asfalto cresce a erva”. Foi bom enquanto durou.

 

José Mário Branco conta um facto a que assistiu e que define na perfeição o Maio de 68.

 

Ia no seu Fiat 600, subindo Le Boulevard Saint- Michel, quando avistou um grupo de 30 a 40 pessoas, desde o estudante anarquista e cabeludo, até ao senhor de gravata, passando pelas donas de casa com os sacos das compras, ou, ainda, os operários de fato-macaco, padres, novos, velhos e gente de meia idade.  Resolveu parar e perguntou, como quem se alivia: “Há algum problema? Ao que alguém respondeu: “Não, não. Estamos a discutir o que é ser feliz.” Isto para ele, e também para mim, define o Maio de 68. As pessoas divertiam-se a discutir umas com as outras.

 

Isto da revolução é como o Mito de Sísifo. Quando se está a atingir o topo da montanha, o penedo cai e volta a rolar montanha abaixo.

 

É, também, o paradigma da Esquerda, das ideias da fraternidade, da igualdade e da liberdade. Quando se está a conseguir esse objetivo, lá cai o rebo ao chão e toca a rolar até ao sopé da montanha. E lá volta o coitado do Sísifo a pegar no penedo e a subir a encosta.

 

Claro que também há algo de novo e que bate muito forte: a tal desculturação. Hoje já não há referências, não há contacto com os livros, com os livros de História. Hoje tudo se resume aos jogos informáticos. Até o poder.

 

Propostas: Música: Com Todo El Mundo – Khruangbin; Leitura: Pedro Páramo – Juan Rulfo; Viagens: http://www.destinosvividos.com/visitar-peneda-geres-ermida/; Restaurante: Zé Bota – Porto.

 

João Madureira

 

16
Set18

Pergaminho dobrado em dois

pergaminho

 

 

Grande Festim.

 

Imagino sempre – mais quando estou de cuecas a escrever crónicas para mim e para o jornal –  da minha janela, Shakespeare a gritar, lá para as três da madrugada ajeitando de esguelha o seu colarinho felpudo tão másculo para que ninguém o reconheça e faça bullying:

 

- Puto, planta o teu jardim e decora a tua alma, ao invés de esperares que alguém te traga um raminho de flores, aquelas que até fazem chorar os paralelepípedos da calçada.

 

Isto acontece-me sempre quando reflito na azeda e rápida vida que temos e o quanto somos tão vulneráveis e impotentes perante ela, ou todas as vezes que recebo notícias que sobreaquecem o coração, algo do género: “Resultado: Colocado”. Então aí, nesses pequenos momentos, não precisamos de mais nada do que ler Shakespeare às escuras ou de celebrar que nem um asno, nunca, claro, descorando a sábia frase da minha avó, “vamos todos morrer, não te estejas para aí a gabar”. É verdade vó, é preciso ter cautela.

 

Isto tudo só para vos dizer – a berrar, mas se me virem na rua lembrem-se que foi baixinho – que entrei na Universidade – Teatro e Artes Performativas –, primeiro, porque se não for pela Arte ainda fico como toda a gente. Segundo, como sou jovem ainda tenho muita energia para me masturbar de criatividade. Terceiro, para que um dia possa fazer pouco dos meus colegas bem-sucedidos – engenheiros aeroespaciais, engenheiros físicos, dealers e bloggers de Instagram – enquanto exponho com toda a criatividade e dedicação, que aliás, note-se, emprego em tudo o que faço, a minha apetência em fazer de Rei Lear enquanto tiro uns finos na festa do Avante. Vida de artista, é o que é. Tenho é um pesar grotesco relativamente à nossa cultura que consegue ser mais pequena do que um tarolozinho oriental.

 

            Os meus pais ficaram muito contentes, viram no filho uma vontade exacerbada de nunca mais desejarem outro. “Este chega”, diziam eles e agora percebo o porquê. Há que ter orgulho naquilo que o filho poderia ter sido. Agora estão na fase de adaptação, parece que têm um chacal em casa a recitar teatros de Bretch. Tenho que entrar no drama e nos recitais agora que isto está a ficar sério. Estou tão feliz que parece que vou fazer de Alladin num musical da Broadway.

 

Nunca me imaginei numa Universidade, e agora dispo-me perante vós, leitores: se tudo corresse como planeado estava agora num cabaret a domar umas cinco fêmeas como se tivesse no circo du soleil do chavascal.

 

             A minha mulher ainda se encontra hirta e cheia de dúvidas. Muito tensa, até. A pensar que me podem chamar para fazer de Pipo num possível regresso dos Morangos. Já lhe chegou aos ouvidos também que – dizem – me meti nisto do teatro e assim porque era a via mais segura de conhecer mulheres – qualquer coisa, sou palhaço – e obviamente tranquilizei-a. Disse-lhe que o que mais ambiciono neste curso é fazer teatro de títeres ou escalar berbequins Dexter ou bordar torradeiras num cantinho da rua Augusta.

 

            Por fim, isto é tudo muito bonito, mas agora é um gajo aplicar-se e ser o Filipe La Féria da caloirada.

 

            Calma. Giro giro são as filas intermináveis para se fazer a matrícula. Mas há males que vêm por bem. Por exemplo: tempo para vos escrever, meu prestigiado público que me lê.

 

            Bem, meus caros leitores. Tenho a senha 56 e está no 53. Está quase. 54. 55. 56, finalmente!

 

Até daqui a quinze dias.

 

Herman JC

 

 

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