Discursos (emigrantes) Sobre a Cidade
Flores de Bach
O que o inquietaria mais? Estar encurralado no meio de uma multidão ou estar aprisionado no meio de um vazio de gente? De que situação fugiria em primeiro?
Certamente pensaria, em primeiro, na maldade das pessoas. Na gente que o empurra sem dó nem piedade nos transportes públicos, na gente que o olha com desdém, desconfiança ou inveja na rua, na gente que perde paciência e modos no trato humano em locais públicos. Na gente que lhe vira a cara e que o ignora, como se também fosse parte do mobiliário urbano fora de contexto a adornar as avenidas. Sim, certamente quereria fugir da inquietação da cidade.
Certamente pensaria, em segundo, na solidão das pessoas. Na gente que não tem que lhe aqueça um prato de sopa quando adoece no inverno, na gente que não tem quem lhe acuda na hora de levantar um trapo caído no chão quando envelhece. Na gente que não tem quem lhe estenda um lenço para lhe enxugar as lágrimas, e na gente que fala para os animais, para as paredes, para o céu ou para os seus próprios ouvidos. Sim, certamente quereria fugir da inquietação da aldeia.
Certamente pensaria, em terceiro, na loucura das pessoas. Na gente que inventa "modernas" terapias para: rir em conjunto; entrar em contacto físico com os outros sem "intenções"; amar o próximo sem egoísmo ou violência; não matar para alimentar-se; ouvir o silêncio; reservar o tempo para ouvir-se a si próprio; reservar o espaço para dançar e libertar a revolta com os movimentos do corpo para, por fim, "livrar-se do mal"...
... caso isso não bastasse ou não chegasse até si, ouviria ainda falar das "Flores de Bach", uma terapia floral cujas gotas tomadas cada manhã ao pequeno-almoço serviriam para gerir desequilíbrios emocionais tais como o medo, a impaciência, a angústia, a incerteza, a raiva, a confusão, a intolerância, a timidez... Exatamente a terapia que precisaria para suportar de forma rápida e eficaz a inquietação da cidade! Bendito seja o médico inglês Edward Bach que pensou na hipótese de as doenças serem consequência de "transtornos emocionais e mentais da personalidade derivados de um conflito alma-personalidade"! E tudo isto posto em frascos de plástico e vendido a preço de saldo!
Solidão, Barcelona, Maio 2013 - Foto de Sandra Pereira
Não. Definitivamente, não quereria nem sequer pensar na inquietação da grande cidade...
Certamente pensaria, em quarto, na tristeza das pessoas. Na gente da nossa terra flaviense, que à pergunta do costume "e então como corre a vida?", responde "a vida aqui em Portugal está de mal a pior. Ainda não arranjei trabalho... nem no McDonald’s, vê lá tu! Aqui continua tudo na mesma...
Tem ido muita gente para o estrangeiro e a cidade está mais parada do que nunca"...
... caso isso não bastasse ou não chegasse até si, ouviria ainda falar das "Flores do Jardim Público", uma terapia floral cujas gotas do "tempo que passa" acabaram com as verbenas, as cantigas à desgarrada, o gosto pelo "pé de dança" da juventude, os pedidos de namoro - tímidos e receosos - ao luar, a quietude de uma tarde de domingo saboreada lentamente na cidade de Chaves ou numa vila transmontana... Um tempo onde o aroma destas flores bastava para resolver o "conflito alma-personalidade". Um jardim ainda de todos, mas hoje já sem gente para cuidar das flores. Um jardim tristemente só, muitas vezes despedaçado pelo vandalismo ou pelo alcoolismo, que já nem o regresso dos emigrantes - cada vez mais espaçado - consegue reavivar.
Não. Definitivamente, nem quereria sequer pensar na inquietação das nossas aldeias...
Sandra Pereira




