Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Discursos sobre a cidade - Por Gil Santos

20.12.13 | Fer.Ribeiro

 

ORNITORRINCO

 

Corria o vigésimo sétimo dia de março de 1972, uma comum quarta-feira, dia de mercado municipal em Chaves. A manhã apresentava-se com cara de cão, quiçá para não contrariar o adágio: março marçagão, de manhã cara de cão, à tarde cara de rainha e à noite corta com uma foucinha!

 

Como de facto, não havia maneira de o carambelo ir pregar para outra freguesia. E pese embora já chilrearem as primeiras andorinhas nos fios da luz do velho convento das Freiras, bem se agradeciam ainda cachecóis, luvas e carapins de merino. Para quem os avezasse, bem entendido. As mãos ainda engaranhadas e as orelhas enfrieiradas pelo inverno pareciam bombos. As pencas teimavam em pingar aguadilha, por persistência das neblinas e dos barbeiros galegos.

 

Apesar disso, a campainha do Liceu continuava a tocar, inexoravelmente, para a primeira aula das oito e meia. E os excomungados radiadores de ferro do aquecimento do vetusto convento estavam gelados. Pudera, a caldeira estava sempre avariada!

 

Pelos portões entrava a ralé. Pelo da rua de Santo António os rapazes, como gado para o pasto; pelo da rampa das Freiras/Lapa, as raparigas. A porta principal estava reservada à nobre gente: professores, funcionários e outros cachapins. Não se toleravam misturas. E que o Redes as visse!.. Cada macaco em seu galho! Às meninas era reservada uma parte do Liceu, aos rapazes outra. Aos docentes e demais povo a escola toda! Nem sequer se admitiam entradas na sala de aula depois do professor ou após o segundo toque. Quem facilitasse mamava falta no livro de ponto e na cardeneta, como alguns diziam!

 

 

Nesse dia, na sala quatro, sita sob a biblioteca, se não me alvido, no meu terceiro ano de liceu, tinha a primeira aula do dia, Ciências Naturais, com o célebre Dr. Castro, o somítico. Os vinte e cinco alunos da turma B aglomeravam-se à roda da porta da sala em conversas de ocasião, esperando a chegada do mestre. Pouco depois da tolerância dos cinco minutos, com um andar gingão, fingindo mascar uma chiclete que não tinha, de pasta de couro cru na canhota e livro de ponto na destra, pelo claustro vinha o professor de Ciências. Trazia na expressão o mesmo gozo de sempre. Um verdadeiro pimpão!.. Para alguns um terror, diga-se!

 

— Bom dia, piquenos! Vamos ao castigo?

 

Começava mal, como quase sempre! De facto, chamar piquenos a rapazes já gargalhotes, sendo que alguns até já punham navalha na cara, era uma ofensa. Ademais, apelidar a sua aula de castigo era uma provocação, uma vez que se tratava, quase sempre, de um momento de grande divertimento, para alguns!.. Calámos a revolta e, com a habitual alegria fingida, respondemos:

 

— Bom dia setôr.

 

Entrámos como pitos atrás da galinha. Ordeira e silenciosamente dirigimo-nos aos lugares marcados.

O Dr. Castro venceu os dois degraus do estrado como o forcado o taipal da arena, triunfante! Alapou-se na secretária, num plano superior ao da matula reles das carteiras de tampo inclinado. Apesar da primavera marcelista, quando a superioridade do mestre não se ganhava pelo mérito, conseguia-se pelo nível em que ditava as suas leis e as do livro único.

 

 

Enquanto os alunos tiravam cadernos, livros e escrevedores das pastas, o mestre arrimou o compêndio de Zoologia de Augusto Soeiro, do 3º ano dos liceus, para cima da secretária. Fê-lo com ao mesmo espírito de quem atira um cibo de pão aos cães! Ao lado, cinicamente, acomodou a caderneta. Essa maldita caderneta cinzenta de capa de pano, sebenta, onde registava os mais ínfimos pormenores da vida académica, e não só, de cada um dos seus discípulos! Depois abriu o livro de ponto. Desta vez, no dia 27 de março. Vociferou:

 

— Vamos lá ver quem é o calina que vem ao quadro escrever o sumário. Ora, sete e sete são catorze, com mais sete vinte e um, tenho sete namorados e não gosto de nenhum!..

 

Ao acabar esta cantilena, o seu rosto iluminou-se com uma expressão quase enigmática! Que gozo lhe emprestavam estes bitaites! Continuou:

 

— Número vinte e um, venha ao quadro.

 

Calhou a sorte ao Russo, um rapazinho enfezado do Planalto, fino como azougue. Levantou-se um pouco a contragosto e, dirigindo-se à lousa, pegou no pau de giz na esquerda e no apagador na direita. Aguardou que o magíster ditasse:

 

— Lição número 64, dia 27 de março de 1972, sumário: Sabatina.

 

Quando a malta ouviu aquela malvada sentença, parecia que um bocado de céu velho lhes tinha caído na cabeça. A mim, pessoalmente, era como se me tivessem dado ordem de marcha para o front, nas trincheiras da Flandres!

 

— Meu Deus, e se me toca a vez?! – Pensava cada um com os seus botões!

 

 

 

 

 

A cortar prego, alguns não disfarçavam a cor da cera dos círios que ardiam no S. Caetano!

 

Piquenos, vou chamar seis, à sorte. É conforme der a minha querida caderneta. No final quem ficar em primeirinho terá bom grande, em sigundo bom piqueno, em terceiro suficiente, em quarto sofrível, em quinto medíocre e em sexto mau! Farei quinze perguntas.

 

A sabatina constava de uma chamada oral, porém de contornos muito especiais. No início, os alunos eram alinhados pelo seu número de ordem, do primeiro ao sexto lugar. Depois, era lançada uma pergunta para o primeiro. Se ele acertasse e dentro do tempo, mantinha a posição. Caso não respondesse, o fizesse erradamente ou fora de tempo, a pergunta passava ao segundo. Se este respondesse certo passava para primeiro lugar e era feita uma nova pergunta ao aluno que se seguia. É claro que quem soubesse ganhava o lugar e a nota a quem não soubesse responder. Isto era um martírio, porque para além de ter de se lidar com os conhecimentos, quase sempre marrados e de ínfimo pormenor, tinha de se vencer uma pressão enorme, mas, sobretudo, levar com o gozo do professor e a vergonha dos sortudos que derringavam polaina nos lugares. No final da sabatina, para além do registo da classificação na maldita caderneta, o Dr. Castro fazia questão de enviar um recado no caderno diário para que o encarregado de educação assinasse e que controlava, religiosamente, na aula seguinte.

 

O tempo que eu perdi a treinar a assinatura da minha santa mãe!

 

O professor pegou então na caderneta e abriu à sorte. Primeira vítima, o nº 4, Aldegundo Castiçais; segunda o nº 20, Mijardino Salgado; terceira, o nº 14, Chico Peixinho; quarta, o nº 16, Geirinhas Estarrinca; quinto, o nº 24, Necrotério Rola e, por fim, nº 6, Arnaldo Queijadas.

 

Calhou-me em sorte mostrar o que sabia. Ia-me mijando pelas pernas abaixo. E eu que não tinha estudado nada! Contudo, aguentei estoicamente, embora branco como a cal!

 

Fomos alinhados: 1º Aldegundo; 2º Arnaldo; 3º Chico; 4º Geirinhas; 5º Mijardino; 6º Necrotério. Se a sabatina acabasse como começara, a mim tocava-me um sofrível, o que não era mau de todo. Quem mo dera!

 

 

O Dr. Castro, com o seu ar de intelectual da Madalena, tomou o compêndio e sentou-se na carteira vazia do Mijardino. Antes de iniciar a sabatina, fez questão, como manda a sapatilha pedagógica, de puxar uma chalaça para levedar a massa!..

 

— Saibam os piquenos que um dia, há muitos, muitos anos, estava um aluno a fazer prova oral de Ciências, quando o professor que o interrogava, e que era zarolho, o informou que lhe ia fazer a última pergunta. Se acertasse, passava, se errasse, chumbava. Tratava-se de um aluno lapantim, mas com um sentido de humor muito apurado. O professor que tinha a mania que era tão engraçado como o vosso professor de Ciências, perguntou:

 

— Ora, então, diga-nos lá quais são as ordens da classe das aves que conhece.

 

O examinando, não contando com a pergunta e não sabendo que seriam as aves de rapina, os pássaros, as columbinas, as trepadoras, as galináceas, as pernaltas, as palmípedes e as corredoras, respondeu, de coração ao largo e para não ficar calado:

 

— Pois são os pássaros, os passarinhos e os passarucos, as aves de rapina e os cucos!

 

O docente, olhando-o contra o governo com o seu olho zarolho, respondeu:

 

— Olhe lá, e um chumbo para matar a passarada!?

 

O aluno, com toda a calma, respondeu:

 

— Oh, senhor professor, e um olho mirolho para falhar a pontaria!?

 

E o Dr. Castro ria-se a bandeiras despregadas, contrariando os seus alunos que apenas esboçavam um sorriso amarelo de simpatia forçada. Cagadinhos de medo!

 

Lançou, então, a primeira pergunta para o primeiro da ordem, o Aldegundo:

 

Piqueno, diga-me lá a que classe pertence o Chicucubanda.

 

— Boa te vai… — pensou Aldegundo.

 

Nunca em tal, alguma vez, tinha ouvisto falar!? Declarou d’amodinho não ser sabedor. Passou ao segundo, o Arnaldo, aluno muito marrão. Respondeu ao calhas que o bicharoco faria parte da classe dos batráquios. É claro que a procissão parou ali para descanso do andor!..

 

Batráquia era a sua tia Brízida que tinha o corpo malhado de marelo e passava os dias a coaxar nas poças da galinheira! Ora esta!

 

 

 

 

 

Passou ao terceiro, o Chico Peixinho. Não sabendo responder botou à sorte que seria à classe das rãzes. Gargalhada geral…

 

— Ora, sim, senhor, com esta agora é o peixinho nos coseu. À classe das rãzes, peixinho!? Não estudes, piqueno, e vais acaçá-las ali para a Ponte Nova para fazermos uma omuleta com as suas coxinhas!

 

Passou ao quarto, precisamente o narrador desta estória. Confesso que nunca me tivesse passado pelas vistinhas tal animal, pese embora eu gostar muito de folhear o compêndio para ver as figuras! Nada interessado em me expor, não me dei às consequências de uma resposta disparatada. Respondi com um silêncio comprometedor, para não ouvir o que não queria. Esgotado o tempo, a pergunta passou ao seguinte, o Mijardino. Para espanto de todos, respondeu que o Chicucubanda era uma espécie de largato e que pertencia à classe dos répteis. A resposta estava certa e deu-lhe direito ao primeiro lugar. Contudo, havia ainda muito caminho a percorrer. E, pela categoria da primeira questão, a festa prometia fogo-de-artifício e tudo. Nós seriamos os bombos!

 

As perguntas seguiram-se a bom ritmo e rara era a que não obrigasse à troca de posições e a verdadeiras atoardas de parte a parte. Despois de imenso sofrimento, chegou finalmente a derradeira. Eu ocupava a posição que dava direito a um medíocre. A manter-se, punha-me a fazer contas de cabeça. Ou pedia, com jeitinho, que a minha mãe o assinasse, contando, no mínimo, com uma desanda, ou, mais uma vez, corria o risco de ter de lhe remedar a assinatura, sujeitando-me ao perigo que representava o olho clínico do mestre Castro. O diacho do homem parecia que tinha pacto com o diabo!

 

                     

 

Foi lançada, então, a última pergunta ao primeiro da ordem, o Necrotério.

 

— Ora, então, o piqueno vai dizer-nos a que ordem pertence o Ornitorrinco!

 

Quando ouvi tal pergunta, fiquei radiante. Sabia a resposta! Porém, temia que algum dos quatro que estavam à minha frente a soubesse também.

 

O Necrotério calou-se como um rato!

 

O Aldegundo fingiu-se muito pensativo, mas nem fumo!

 

O Mijardino encolheu-se como o caracol encolhe os corninhos quando lhos tocam.

 

O Arnaldo, sabichão, respondeu:

 

— O Ornitorrinco, o Ornitorri… já sei, pertence à ordem dos Quirópteros.

 

— Ah, seu grande morcego-orelhudo, com que então temos aqui um Quiróptero. Eu, quando estiver com o seu paizinho, vou-lhe dizer para lhe arranjar um poleiro numa árvore para dormir de cabeça para baixo. Você não é um morcego, você é um asno!..

 

Era a minha vez. Eu nem pude esperar que acabasse a frase. Respondi logo:

 

— O Ornitorrinco pertence à ordem dos Monotrématos.

 

— Ora, cá temos um piqueno que sabe a resposta, parabéns! Passe para o primeiro lugar.

 

Não cabia em mim de contente. Sempre valeu a pena azucrinar a cabeça do meu primo Zé Borges, chamando-lhe Ornitorrinco a toda a hora!

 

O Dr. Castro mandou-nos sentar e que lhe levássemos os cadernos diários para passar a receita. Dessa vez, levei um Bom, acho que foi o único que enchavilhei no meu 3º ano. Com que alegria e vaidade eu exibi aquele Bom para que a minha mãe mo assinasse! É que não era um Bom qualquer, era um Bom sacado numa sabatina com o Dr. Castro!.. Acho que a partir dali ganhei um gosto pelas ciências naturais que jamais perdi. Mais tarde, virei-me para a geologia e aí fiz grandes descobertas. Só nunca consegui foi descobrir o segredo do Liceu!

 

Mesmo depois de 1974, em que as RGA´s e tudo o mais transformaram o Liceu numa babilónia, em que lhe fiquei a conhecer os mais recônditos e proibidos recantos, incluindo as águas furtadas que invadíamos para ir escutar os conselhos de turma ou entupir as fechaduras das portas de noite para não termos testes de dia, eu consegui dar-lhe com o segredo. Dizia-se que do castelo desembocava um túnel no antigo convento, para que as freirinhas pudessem recolher-se na torre de menagem em caso de perigo. A verdade é que nunca consegui dar-lhe com o sítio. Nem eu e acho que nem os mais pintados que do Liceu só não conheciam as salas de aula!

 

Abençoado professor Castro, professora Marília, professora Adília Verdelho, professora Isabel Viçoso, a melhor professora de Matemática que alguma vez eu conheci, professora de Físico-química, Maria José Grilo, que me chumbou no sexto ano com 3 valores. E tantos outros… Já agora, abençoado padre Ladislau que, quando lhe dava para puxar pelas aféreses, pelas síncopes e as apócopes, as próteses, as epênteses e as paragoges, começava a disparar cachaços na primeira carteira e só acabava na última, quando todos já tivessem o motor bem quente. E quando ele puxava por Luís de Camões, lembrando que era um poeta internacionalmente conhecido em Portugal… E aquele professor de História que dava pelo nome de Antero Lopes, antigo militar, que trazia para o Liceu as manias e as falas da tropa? E o Dr. Costa, de Desenho, que penteava o cabelo para tapar a careca! E o Sr. Capela, funcionário, que tantas vezes nos defendia o coiro das fúrias do seu colega Redes!

Ai, se as paredes do velho convento das Freiras fossem capazes de nos contar as estórias a que assistiram!..

 

Com esta vos deixo:

 

Corria o ano letivo de 1975/76. Numa noite, dois galferros entraram no estrebão do Liceu pela claraboia da folha de telhado que dava para o portão das raparigas. Levavam um rolo de cartolina com uns escritos e no bolso chicletes Gorila. Conhecedores das andanças, seguiram por entre as traves e os caibros e desceram pelo alçapão de uma casa de banho no primeiro andar. Dirigiram-se à entrada da sala dos professores e desenrolaram a cartolina. Procuraram um escadote na arrecadação e cada um mascou uma chiclete durante o tempo que demorou a entupir tantas fechaduras de sala de aula quantas pudesse, com pauzinhos de uma carteira de fósforos. Quando lhes pareceu, pregaram um bocado da goma mascada em cada um dos quatro cantos das costas da cartolina e pespegaram-na por cima da porta da sala dos professores. Continha os seguintes dezeres:

 

“ARMAZÉM FORNECEDOR DO HOSPITAL JÚLIO DE MATOS”

 

Que saudades do velho Liceu!

 

Hoje, já não temos Liceus nem tão pouco alunos e professores tão brilhantes! Na sua vez temos mega-agrupamentos, pasme-se!

 

E tudo o tempo levou…!

 

 

4 comentários

Comentar post