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Flagrante delírio
Do armário do quarto do fundo, escolhi o lenço da cor da terra e do Outono. E o Cristo, nas minhas costas, a olhar-me da cruz. Em cada divisão, um Cristo como garante de rigor e ordem, numa espécie de regime pidesco em que não acredito.
Pela janela via o fumo do fogo que aquecia mulheres, potes e caldeiros. Cada uma, seu lenço e eu seria uma delas. Discípula e aprendiz de uma ciência que não cheguei a compreender.
Na cozinha velha, que um dia foi casa, cheirava a lume, carne, pão, alho. E tripas. As que se encheram e as outras que vos servem, em tantos tempos, de coração.
Bacia, funil e tripa escolhidos pelo meu tamanho serviram de instrumento. Faltou-me pegar na linha. Nunca aprendi a atar.
Estrelo um ovo e grelho uma alheira da Luísa. Em cada cibo vos encontro. Ali, na cozinha velha, em frente do lume. Não me vedes. Estou no banco corrido enxergando-vos as costas. Ré, em flagrante delírio, condenada à memória.
Rita



