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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

O Chafariz da Ditadura Nacional

13.01.07 | Fer.Ribeiro

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Então cá estamos de novo de regresso às aldeias. Desta vez de volta a mais um pormenor de um chafariz, que também é bebedouro e lavadouro.

 

A vida tem episódios curiosos. Passei pela certa uma dezena de vezes por este chafariz e de tanto passar por ele nunca lhe liguei importância. Porém, da última vez que lá passei houve um “click” que me fez parar. Bendito “click”, só é pena que não aconteça mais vezes.

 

Então passemos a analisar o chafariz, que também é bebedouro e lavadouro.

 

Primeiramente e, para o caso de não ser perceptível na fotografia, passo a reproduzir o que nele foi gravado e forma de escrita:

 

CMC

1952

 

CONSTRUIDO

DURANTE

A DITADURA NACIONAL

 

BEBEDOURO                                      LAVADOURO

 

A análise:

 

1 – CMC: -  Câmara Municipal de Chaves

2 – 1952: - Ano em que foi construído, ou seja há precisamente 55 anos e no século passado.

3 – Um três em um mais um:

3.1 - Chafariz, pela certa com água pura, fresca e cristalina. Água que servia para beber “in loco” ou em casa, depois de carrada ao cântaro, que servia também para a sopa, cozer as batatas, lavar a cara e, às vezes, tomar banho. Água canalizada, era luxo de algumas cidades que a aldeia só muitos anos depois (de 1952) conheceu.

 

3.2 – Bebedouro – Claro que o bebedouro era destinado aos animais, burros, vacas e alguns cavalos, que depois da lide do campo, ali se regalavam durante uns segundos num merecido descanso e num saciar a sede. Tive oportunidade de ver algumas vezes esse “saceio” e podem crer que era um regalo para a vista.

 

3.3 – Lavadouro – Rápido de pequenas peças de roupa e mais de utensílios variados, também, lavadouro das mãos e de rostos transpirados.

3.3+1 – Estamos hoje na era da reciclagem. Várias vezes vem à conversa a reciclagem que nas aldeias, em tempo idos, se fazia de tudo. Contudo, lixo, era palavra que não existia ou uma palavra desconhecida nas aldeias, porque tudo era aproveitado ou reciclado, sem saberem que o faziam ou mesmo o que era reciclar. Com a água acontecia o mesmo. Afinal a água sempre foi um bem precioso. Pois também após servir no chafariz, no lavadouro ou no bebedouro, havia sempre um rego, rua abaixo, por onde a água era conduzida para a rega das hortas e dos campos.

 

4“CONSTRUIDO DURANTE A DITADURA NACIONAL  esta inscrição chama estranhamente à atenção e aqui peço a ajuda a alguém que desse lado me diga como é que raio esta inscrição foi possível? Como é que o ditador admitia ser ditador ou a ditadura ser ditadura!? Pois da minha parte, nessa altura, ainda me faltavam 8 anos para nascer, ou seja, só vivi 14 anos do antigo regime, esse mesmo da ditadura nacional, e houve coisas que me passaram ao lado ou nunca cheguei a compreender.

 

Se alguém puder ajudar, agradecia!

 

Só para esclarecer, essa do “CONSTRUIDO DURANTE A DITADURA NACIONAL”, não é um exclusivo deste chafariz, pois já vi esta inscrição em mais chafarizes, que tal como as escolas construídas durante a ditadura eram, mais ou menos, projecto tipo.

 

Mas há uma coisa que me satisfaz, é o saber que este chafariz, mesmo com esta inscrição, resistiu ao pós 25 de Abril e que hoje pode contribuir para fazer um bocadinho da história de Portugal e da ditadura, que quer queiramos ou não, faz parte do nosso passado e do património arquitectónico existente, para não falar da belíssima obra de arte de cantaria que o é.

 

Para terminar só falta mesmo localizar o chafariz, que se encontra em S.Pedro de Agostém numa rua, das principais da aldeia.

 

Penso ser o único exemplar no concelho com esta inscrição, embora hajam outras muito idênticas, sem inscrições, onde apenas é ostentado o símbolo utilizado pelo estado novo.

 

Até amanhã em mais uma aldeia e desculpem o post de hoje ser tão longo.

P.S. (em 14-1-07) - Onde se lê 1952 deve-se ler 1932. As minhas desculpas pelo lapso. Afinal são vinte anos que podem fazer alguma diferença, pouca, mas alguma.

 

 

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