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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Hospital de Chaves, era uma vez...

08.02.07 | Fer.Ribeiro

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Não é habitual servir-me deste blog para trazer aqui o que de mau ou mal vai acontecendo pela cidade. Também vou tentando manter-me afastado de políticas e politiquices e também disse a mim mesmo que revolta e revoltas, aqui nunca entrariam, mas há um tempo para tudo e há um tempo em que é preciso dizer – Basta, Basta Já.

 

Há uns tempos atrás, neste mesmo blog, eu referia-me aos zunzuns que andavam no ar a respeito do Hospital Distrital de Chaves. Hoje gostaria de vos dizer que os zunzuns não passaram disso, mas o pior confirmou-se ou está para acontecer.

 

Saiu a público nos últimos dias o Relatório Final da Proposta da Rede de Urgências, elaborada pela Comissão Técnica de Apoio ao Processo de Requalificação das Urgências. Para quem quiser ter acesso ao documento completo aqui fica o link

 

 http://www.portugal.gov.pt/NR/rdonlyres/1B0973A6-3734-4712-AA41-8AC09A640C3F/0/Relatorio_Final_Urgencias_Hospitalares.pdf

 

Ainda antes de entrar numa breve análise do relatório, e para ilustrar o post de hoje,  vejamos o que diz a nossa Lei fundamental, a Constituição da República Portuguesa, a fim de melhor compreender um pouco do que quero expor:

 

Artigo 9º

(Tarefas fundamentais do Estado)

São tarefas fundamentais do Estado:

(…)

d) – Promover o bem-estar e a qualidade de vida do povo e a igualdade real entre portugueses,…

 

Artigo 64.º

(Saúde)

  1. Todos têm direito à protecção da saúde e o dever de a defender e promover.
  2. O direito à protecção da saúde é realizado:

a)      – Através de um serviço nacional de saúde universal e geral e, tendo em conta as condições económicas e sociais dos cidadãos, tendencialmente gratuito;

(…)

  1. Para assegurar o direito à protecção da saúde, incumbe prioritariamente ao Estado:

(…)

B) – Garantir uma racional e eficiente cobertura de todo o país em recursos humanos e unidades de saúde;

 

Então vejamos agora, resumidamente, a algumas partes do Relatório.

 

O relatório apresenta três Níveis de Serviço de Urgência. SUP, SUMC e SUB.

 

Ao que a nós diz respeito (Hospital de Chaves) actualmente estamos no nível SUMC, ou seja Serviço de Urgência Médico Cirúrgico. Com a proposta do relatório o “Hospital” de Chaves passará para o nível SUB, que resumindo, é resumido à “consignação de dois médicos e dois enfermeiros”. Mas (!) como Chaves tem mais de 40.000 Habitantes teremos ainda direito a uma ambulância de emergência.

 

Não, não me enganei e até vou repetir e sublinhar a bold o que o relatório nos oferece em troca dos actuais Serviços de Urgência Médico Cirúrgicos que temos tido até aqui e que por todos é conhecido : 2 médicos, 2 enfermeiros e 1 ambulância, mas não é tudo. Em nota de rodapé da página 9 do mesmo relatório consta ainda para o nosso Hospital : “com apoio cirúrgico enquanto funcionar a maternidade e até à conclusão  das melhorias das acessibilidades rodoviárias e a facilidade de referenciação”  Ou seja, até à conclusão da ligação Chaves-Vila Real por  Auto-Estrada. 

 

(E batíamos nós palmas e aplaudíamos de pé o que a Auto-Estrada nos iria trazer. Aquilo que nós pensávamos que iria trazer, afinal é para levar.)

 

E o resto do Relatório é blá-blá, mas não deixa de ser curioso o que diz a pág.3 do Relatório, no segundo parágrafo da introdução e, que reza assim: “Os grandes objectivos desta tarefa são: a melhoria da qualidade da assistência urgente emergente, da acessibilidade a estes cuidados, da equidade no acesso e da promoção da racionalização de recursos”  Se a introdução do relatório prometia, o seu desenvolvimento vem demonstrar como estas palavras para nós (Chaves) são enganosas e mentirosas.

 

E o que diz o Ministro ao respeito?  Concorda, claro, mesmo admitindo que o novo sistema é mais caro e nos vais sair dos bolsos. Espreite aqui o que ele diz:

 

http://www.portugal.gov.pt/Portal/PT/Governos/Governos_Constitucionais/GC17/Ministerios/MS/Comunicacao/Notas_de_Imprensa/20070202_MS_Com_Rede_Urgencias.htm

 

Ainda antes de concluir, tenhamos em conta que os nossos actuas serviços de Urgência servem os concelhos de Chaves, Boticas, Montalegre e Valpaços, e que o número de habitantes residentes é perto de 100.000 pessoas acrescidas de uns milhares de pessoas que diariamente pernoitam nas nossas unidades hoteleiras, além de as ligações até Chaves serem feitas por caminhos e estradas secundárias, cheias de curvas, ratoeiras e muitas vezes sinuosas e ainda, que a aldeia do concelho de Chaves mais distante fica a 35 quilómetros o que, até nem é nada comparadas com as distâncias superiores a 100 quilómetros de aldeias do concelho de Montalegre que também são servidas pelo nosso Hospital. Ah! E ainda há a acrescentar que somos concelhos rurais e que muitos dos acidentes graves se dão em pela montanha com acesso difíceis até às vias de comunicação. Ou seja, é tudo a ajudar a uma realidade que desde o Terreiro do Paço teima em não ser vista ou a ser ignorada, afinal não passamos de provincianos “praqui” entalados no meio de montanhas.

 

Com políticas destas, os grandes centros e o litoral cada vez engordam mais e o nosso interior cada vez convida mais à partida e à desertificação, deve ser aqui que se aplica uma das tarefas fundamentais do Estado, essa do: “Promover o bem-estar e a qualidade de vida do povo e a igualdade real entre portugueses,…”

 

Claro que sim, já que estamos privados da cultura, da arte, do desporto, da música, das escolas superiores e de tantas coisas que só fazem mal à saúde,  para que queremos afinal um Hospital. Afinal por aqui “tá-se bem”! Vive-se e respira-se saúde.

 

Mas não é tudo e,  tal como diz a canção “este parte, aquele parte e todos, todos se vão”  também se foi o comboio, a alfandega,  a judiciária, o cine-teatro, o sonho do ensino superior e agora vão-se as urgências, o hospital e a Polícia de Segurança Pública já começa a fazer as malas, pois já está na bicha para ir a seguir. Depois lá chegará o tempo de ir o resto, como o Regimento de Infantaria. Já agora que levem também a Brigada de Trânsito, que assim já podemos fazer festas e emborracharmo-nos para esquecer ao nada a que vamos sendo reduzidos.

 

Como diz o outro – primeiro levam-nos os anéis, depois os dedos, logo a seguir os braços e por aí fora …

 

Mas nós, população em geral, políticos locais da oposição ou do poder, comerciantes e industriais, os “nossos!” deputados, forças vivas e actores da cidade e do concelho, somos também todos culpados e assistirmos impávidos e serenos ao levar de anéis e como sempre, vamos assobiando para o ar e cuspindo para o lado…

 

Não seria já tempo de todos unidos, principalmente os Partidos Políticos (todos) e poder local, aliados a toda a população vir para a rua a uma só voz fazer barulho e protestar!? Dizer - basta já!  Ou vamos continuar a ser acusados e ser conhecidos por só fazermos barulho e até arruaceiros que levantam paralelos e içam a bandeira espanhola pelo futebol. Olhai que a saúde é bem mais importante:

 

Pensem nisso!

 

Entretanto, para nem tudo serem lágrimas, terminemos com poesia e a alegria de um poema de um autor flaviense, que há cerca de 30 anos já escrevia assim:

 

PARA OS SENHORES DE LISBOA

 

Nascemos aqui

Onde o orvalho é só orvalho

Somos o resto que é paisagem

(…)

Quando com coisas assim nos põem à margem

Desculpem senhores

Mas um caralho daqueles que por cá se usam

Não ficaria mal    se com ele    levassem nas trombas

Os que de nós abusam

Tenho dito!

 

E eu também, mas antes, lembre-se disto: Daqui para o futuro, quando quiser ter um acidente, rachar uma cabeça, cortar um braço ou cair abaixo de uma obra, veja lá se o faz perto de Vila Real ou do Porto, porque aqui, pela certa, não irá haver que lhe valha.

 

Até amanhã, em Chaves, logo se verá como!

 

 

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