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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Chaves - Moreiras e Miguel Torga

24.03.07 | Fer.Ribeiro

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Quem tem acompanhado este blog sabe que o dedico à cidade, um pouco também às nossas aldeias e a todos os flavienses e amigos de Chaves, principalmente aos ausentes que são os que mais sentem o que é ser flaviense. Embora esta “responsabilidade” que eu próprio vesti, é também um blog pessoal onde às vezes me dou ao luxo de alguns devaneios, confidências e confissões pessoais.

 

Hoje confesso-me de novo por causa de um nome grande – Miguel Torga.

 

Confesso que embora amante de poesia nunca fui Torgómano que é como quem diz amante de Torga. Penso que comprei o primeiro livro seu aí pelos meus 16 ou 17 anos no mesmo dia em que sem saber me cruzei com ele na Rua de Stº António e alguém murmurou “ Olha o Miguel Torga!”.  Olhei para trás, para o homem,  com olhos de ver, que afinal poeta afamado não era todos os dias que se viam por Chaves, e tirei-lhe as “medidas”. Confesso que fiquei desiludido com a figura. Imaginava que um poeta tinha de usar óculos, vestir diferente e ter todos os ares de intelectualidade (mesmo sem saber o que isso fosse). Afinal era um homem simples, de aspecto rude e campesino, de vestimenta tão comum como a de qualquer normal transmontano e não usava óculos.

 

Mas se o homem tinha fama havia que comprar um livro dele. Confesso que a imagem que tenho do que li então,  caía perfeitamente na figura que tinha conhecido na rua. Uma poesia sem óculos, vestida de ruralidade e de ares intelectuais - nem vê-los. Tal como o homem, a sua escrita desiludiu-me.

 

Conheci mais tarde, um ou dois anos depois, um Torgómano à séria, o Fernão de Magalhães Gonçalves (prof. do Liceu, ainda eu aluno daquela casa), que lia e devorava Torga e até escrevia manifestos sobre o Poeta. Pela poesia viemo-nos a tornar amigos e não havia dia que passasse em que Torga não fosse (por ele) falado e admirado. Mesmo assim, eu continuava a não gostar da escrita de Torga. Infelizmente Fernão de Magalhães Gonçalves já há muito que nos abandonou, pois hoje iria gostar de ter com ele conversas sobre Torga.

 

Pois é, nunca ninguém diga que desta água não beberá.

 

Há coisa de 6 anos atrás, de tanto Torga se falar, resolvi comprar a sua obra completa e aos poucos comecei-o a ler,  decorridos que eram 20 anos sobre as primeiras leituras e 5 após a sua morte. De pé atrás quanto ao gosto, fui entrando nas suas palavras e, os dias iam-se sucedendo e ia lendo, não num acto contínuo, mas ia lendo,  e aos poucos comecei a dar-me conta que começava a ficar viciado na leitura das suas palavras, na simplicidade e grandeza das suas palavras, no requinte e afinadas que eram. Ainda hoje o vou lendo e relendo, sempre aos poucos e pela certa que o farei por toda a minha vida. Afinal Torga em palavras é um GD (GRANDE HOMEM) com maiúsculas claro.

 

Aprendi a lição de talvez não ter a idade certa quando o comecei a ler e de tão injusto que fui com ele e comigo próprio durante 20 anos.

 

Mas o GD não são só pelas palavras do Poeta Miguel Torga, pela certa que também o são pelo médico Adolfo Rocha (o seu verdadeiro nome) e pelo amor e fidelidade que tinha à cidade de Chaves, além da inspiração que por cá bebia. Basta conhecer um bocadinho da sua obra para saber como Chaves está reflectida ao longo da sua vida poética e pessoal, principalmente nos seus últimos diários, tanto assim que não me custa nada em afirmar que Torga era flaviense de alma e coração, mesmo que tivesse nascido em S. Martinho de Anta, lá para os lados de Vila Real.

 

Acho que a cidade de Chaves e as Termas de chaves lhe devem uma homenagem digna e justa e não falo em nomes de avenidas, ruas ou travessas, que essas já as tem, mas numa homenagem idêntica à homenagem que ele faz a Chaves, às suas aldeias e às suas gentes e que para sempre ficarão perpetuadas na sua obra.

 

Pela minha parte, a partir de hoje, de quando em vez, vou trazer por aqui um pouco de Torga e da escrita dedicada ou inspirada na nossa cidade e aldeias.

 

Hoje trago-vos mais uma vez Moreiras e um pouco da sua beleza, por uma chaminé e uma casa, beleza que Torga pela certa contemplou como qualquer estranho que chega àquela aldeia pela primeira vez e, se espanta com tanta beleza escondida na montanha e não só:

 

Moreiras, Chaves, 3 de Setembro de 1990

 

Uma ara pagã romana acolhida à preservadora protecção católica da desfigurada igreja matriz, que foi românica nos bons tempos, e um velho e decrépito casal de lavradores desdentados a secar previdentemente milho na varanda de um solar desmantelado, ainda ufano da monumental chaminé que o coroa a testemunhar a opulência da cozinha senhorial de outrora, deram-me o ensejo de recapitular a lição há muito decorada e às vezes lamentavelmente esquecida: que a perenidade da fé é indiferente à circunstância do sacrário, e o império da fome à natureza das bocas.

 

Miguel Torga, In Diário XVI, 1990.

 

E por hoje é tudo neste já longo post. Prometo ser mais breve nos próximos.

 

Até amanhã em mais uma aldeia.

 

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