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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Os resistentes da Rua do Poço

20.04.07 | Fer.Ribeiro

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Segunda-Feira passada, enquanto fazia horas à espera que a minha filha saísse da catequese, dei mais uma das minhas voltinhas pelo Centro Histórico de Chaves. Rua de Stª Maria, Rua Luís de Viacos, Rua do Correio Velho e uma espreitadela rápida às Escadinhas das Manas. Já que estava ali, fui dar uma vista de olhos à abandonada Ilha do Cavaleiro, cumprimentei a Manuela que lá do alto do seu palacete observava o intruso, deliciei-me ou pouco com a sinfonia da passarada do Quim e que povoam as paredes do Largo do Cavaleiro e, claro, já na Rua do Poço – dois dedos de conversa obrigatória com o próprio Quim, um desalojado da Muralha que só por sorte não lhe caiu em cima e que é também um dos últimos resistentes de Chaves na arte de tratar botas e sapatos, à mão, como deve ser. O tempo ia passando e estava na hora do regresso. Ao fundo da rua reconheço uma velha amiga da família, a D.Cármen do “Carunho” que antes de cumprimentar quis brindar com uma foto para recordar, mas a objectiva insistia em ficar pelo caminho, entretida com uma resistente da rua, sentada à porta na apanha do ar saudável do fim de tarde e entregue à leitura da sua própria sina. Repeti o click uma, duas, três…n vezes, enquanto a memória me ia recitando um poema de Alexandre O’Neill, uma velha mania minha de ir associando imagens a poemas e poesia.
 
Deixo-vos então com a imagem e com o poema já quase esquecido que a memória ressuscitou:
 
Velhos
 
Tem sempre um quadradinho de marmelada para o bisneto pequeno.
Tira-o não se sabe donde.
Guarda os baraços dos embrulhos,
desfaz-lhes os nós ("Os japoneses põem os meninos nas escolas a desfazer nós!")
e, baraço a baraço, fabrica um novelo multicor
que pode fornecer fio para atar um embrulho,
por exemplo, o da louça chinesa, que, peça, a peça,
vai pondo no prego.
Não se engana (e já trepou aos oitenta e muitos)
a declinar o rosa-rosae que aprendeu em coro quando pequena.
 
Gosta de cães, mas tem medo, desde que outro dia,
isto é, há vinte anos,
lhe morreu o Kiss atropelado,
das trelas sentimentais.
Numa gaveta defendida a naftalina,
dentro duma caixa de cânfora,
guarda palminhos de renda, uma gargantilha, véus, vidrilhos,
longos alfinetes ornamentais (aqueles de chapéu).
Arrasta consigo um passado a sépia de fotografias.
 
Diante de cada uma, recita parentescos, genealogias.
E a fechar o cortejo mostra sempre a do seu casamento.
Era formosa, cheiinha, um verdadeiro quanto-baste de mulher.
Enviuvou; sobreviveu a dois filhos; vive com uma amiga.
Às vezes está amuada, não sai do seu quarto e passa o dia inteiro a tisanas.
 
Quando visita o bisneto,
insiste em ensinar-lhe o rosa-rosae:
quer que ele seja um causídico.
Já não escolhe a comida; escolhe os dentes.
É um passarinho.
Mas nos seus olhos doces, azuis e moços,
uma gaiata traquina.
 
In “a saca de orelhas” de Alexandre O’Neill – 1979
 
 
E “prontos” já vai longa a conversa, só me resta despedir.
 
Até amanhã, em mais uma aldeia do concelho.

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