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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

06
Fev10

Castelões - Chaves - Portugal

 

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Na ronda pelas nossas aldeias, hoje vamos até Castelões, com o seu post alargado, pois em imagem já fez por aqui breves passagens.

 

Que dizer de Castelões!?

O problema não está bem no que dizer, mas antes em começar e dizer tudo sobre esta aldeia. Mas vamos tentar estar à altura da aldeia.

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Castelões é uma daquelas aldeias que eu costumo apelidar de aldeia barrosã, pois talvez pela proximidade e pelo clima ou antigo povoamento e seus construtores, segue, a par de Soutelinho da Raia e de Seara Velha, as características construtivas das aldeias do barroso. E que ninguém considere isto uma desconsideração de a afastar da “cidadania” de Chaves, antes pelo contrário, pois todas as aldeias barrosãs são interessantíssimas em termos de casario e usos e costumes comunitários, não se ficando Castelões atrás em nenhum desses aspetos, tal como as outras duas aldeias atrás mencionadas, só é pena que, tal como as outras duas, o PDM flaviense não a tivesse considerado como  “Aglomerado com núcleo tradicional”, pois a comparar com outras aldeias classificadas, esta, tem um núcleo interessantíssimo e tradicional. Mas enfim, os “iluminados” do costume é que têm as decisões nas mãos.

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Sem dúvida alguma que Castelões é uma das aldeias mais interessantes do nosso concelho. Aliás este trio de aldeias (Soutelinho, Seara Velha e Castelões) fazem parte das aldeias que costumo recomendar a amigos fotógrafos de fora para uma passeio fotográfico. Mas Castelões não é só interessante pela beleza do seu núcleo, pois há muitas mais coisas interessantes na aldeia. Começando pela própria comunidade e vida que a aldeia tem, embora envelhecida, é uma população que dá vida às ruas onde ainda se sente o verdadeiro espírito comunitário da aldeia transmontana.

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De facto, desde o primeiro dia (já há muito anos) que pisei o chão de Castelões, fui hospitaleiramente recebido. Hospitalidade e simpatia que se repetiu em todas as minhas visitas, onde não faltam interessantes conversas com a população, bem como as inevitáveis visitas às adegas, onde por sinal, há sempre bom vinho.

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Vinho que é sempre sagrado e bíblico, não sendo por mero acaso que faz parte do cerimonial e do ritual religioso da igreja católica. Mas em Castelões, deixando o bom vinho e o seu estágio nas adegas de parte, até é a água que faz milagres. Água e santidade à qual até Miguel Torga se rendeu e, convenhamos, que Miguel Torga não era só o poeta e escritor, pois com ele e fazendo parte dele, andava sempre o médico Adolfo Rocha.

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Claro que agora em palavras e imagens já estou no Santuário de Castelões, a uma escassa centena de metros da aldeia, na Senhora das Necessidades e do Engaranho, um pequeno mas belíssimo santuário, onde só a montanha se respira, as vistas se alargam e a água da rocha junto à pequena capela dizem ser santa e curandeira de engaranhos, desde que se siga um ritual sequencial que já à frente abordaremos. Antes, vamos para as palavras do poeta escritor Miguel Torga, precisamente a respeito desta Srª do Engaranho:

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Castelões, Chaves, 9 de Setembro de 1982

 

Visita à Senhora do Engaranho, pobremente recolhida numa ermidinha tosca da serra, com lindas vistas e muita solidão. É um consolo verificar como o nosso povo teve antes de arranjar em todas as horas advogados para todas as suas aflições. A Desgraça é que os arranjou sempre no céu.

 

Miguel Torga, in Diário XIV

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São palavras resultantes de uma visita que se iria repetir durante  nos anos seguintes nas suas habitua férias terapêuticas em busca das águas quentes e frias de Chaves.

 

Mas vamos ao tal ritual que se deve seguir, para obter cura do engaranho, neste Santuário da Senhora das Necessidades e Engaranho.

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Geralmente há sempre alguém de Castelões pelo Santuário que poderá explicar esse ritual, o mesmo que a população ou comissão do Santuário já fez publicar no verso de um postal com a imagem da Santa. No verso desse postal consta a sequência do cerimonial que é o seguinte:

 

Senhora das Necessidades e do Engaranho

 

Como proceder para obter a cura do engaranho.

 

1º - Lavar o doente com água existente na rocha

2º - Atirar com 8 conchas de água por cima da cabeça, e a nona atirar água e concha.

3º - Dirigir-se à capela e no altar dar-lhe 9 tombos

4º - Rezar uma novena de 9 Pai Nossos, Avé Marias e Santa Marias.

5º - Vestir o doente com outra roupa, porque a que traz deve ficar.

 

PS – Se possível regressar por itinerário diferente daquele que veio.

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Não sei se Miguel Torga assim procedeu ou não, quando em 1989 lá foi por sua intenção:

 

Castelões, Chaves, 29 de Agosto de 1989

Peregrinação contrita à Senhora do Engaranho, desta vez por minha intenção, na esperança de que ela seja também advogada dos enjeridos do espírito.

Miguel Torga, in Diário XV

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Deixando o Santuário, regressemos à aldeia e a um pouco da sua história.

Comecemos pelo seu topónimo Castelões que tal como indica, advém de castelo, designação que é dada à parte mais alta da aldeia. Refere a história que foi aldeia castreja, existindo perto da aldeia um lugar popularmente conhecido por “Outeiro dos Mouros” onde dizem existir ainda  as ruínas de dois panos de muralha. Diz a população e dizem os livros dos historiadores embora eu pessoalmente não conheça o local. Pois será proveniente desta sua história castreja, que Castelões adotou nome para a aldeia, aliás defendido por alguns historiadores  e mencionado nos escritos de Alexandre Herculano quando diz que os tenentes e governadores dos castros espalhados pelo nosso Portugal eram denominados de castelões ou castelãos.

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Também nas proximidades passava uma importante via romana, a mesma que é mencionada na história de Calvão, sede de freguesia e também da aldeia vizinha de Seara Velha.

 

Quanto à sua igreja barroca, num estado de conservação que se recomenda, esteve até há uns meses atrás escondida pelo casario e com um acesso pouco digno da sua beleza. Felizmente há pouco tempo com a demolição de uma construção abandonada a igreja já mostra o ar da sua graça a quem passa na rua principal  da aldeia. Sem dúvida que a aldeia e a Igreja só ficaram a ganhar com esta abertura e este acesso, dando além disso, um interessante motivo fotográfico que anteriormente era quase impossível de conseguir.

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São este tipo de obras e gosto que deve ser apoiado e aplaudido, sempre que seja bem feito, claro.

 

No centro da aldeia eleva-se um interessante cruzeiro, datado de 1879. Na cruz, esculpida nas duas faces, apresenta numa Cristo Crucificado e na outra a Senhora da Piedade. Curioso este cruzeiro com cruz de duas faces, não muito habitual em Portugal e muito menos no concelho, pois igual, só conheço o de Vilela Seca. Não será estranha a proximidade da raia com a Galiza, onde este tipo de cruzeiros é comum. Embora não tenha nenhuma documentação que o prove, o cruzeiro poderá ter mesmo origem na Galiza ou a igreja ter tido influência nesta aldeia. Aliás, influência ou presença galega/espanhola que se repete num dos pilares exteriores em pedra do forno comunitário onde está inscrito em relevo “Dios te ajude”.

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Forno comunitário que também é secular e que, embora tivesse perdido a sua utilidade comunitária, dizem ainda funcionar em altura de festas. Forno que dada as suas dimensões servia também de abrigo a mendigos e talvez a peregrinos a caminho de Santiago, pois também por aqui passaria um dos muitos caminhos de Santiago.

 

A testemunhar a vida da aldeia, existe um Centro Cultural e Desportivo de Castelões, fundado em 1982, mas para falar desta Associação e do muito mais há para dizer sobre Castelões, deixo-o para quem melhor sabe e o faz bem, em blog feito a duas mãos, uma, bem longe nos Estados Unidos, o José Gonçalves  e outro, o Afonso Cunha, que embora ausente da aldeia, está bem mais perto. Pois estes dois senhores mantém sempre atualizado um blog que já vai com mais de 60 000 visitas e por onde passam muitas fotografias e muita vida da aldeia e que serve sem qualquer dúvida, para fazer a história da aldeia mas também para a manter ligada a toda a sua comunidade emigrante e filhos ausentes da terra. Um blog amigo que vamos tendo o prazer de acompanhar desde 2007, altura em que foi criado. Fica aqui um abraço para os dois feitores e mais colaboradores do blog e pena, só temos mesmo da sua ausência nos nosso habituais encontros da blogosfera flaviense, mas sempre justificados.

 

Fica o link para um blog que devem visitar:  http://casteloes.blogs.sapo.pt/

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Ainda antes de terminar fica também a referência a mais uma aldeia que elogia o fio azul mas também uma aldeia onde ainda existe, no Largo do Cruzeiro, um estabelecimento à moda e com filosofia das antigas tabernas, onde ainda se pode “botar” um copo de bom tinto em cima de balcão de madeira.

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E hoje por Castelões é tudo. Pela certa que continuará a passar por aqui em breves momentos de imagens, pois há muito mais para mostrar e também, brevemente estará aqui outra vez incluída no habitual mosaico da freguesia. Até lá.

 

Também continuará a fazer parte das minhas preferências dos passeios fotográficos e das minha recomendações para fotografar aquilo que vamos tendo de melhor e mais interessante.

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