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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

12
Fev10

Discursos Sobre a Cidade - por José Carlos Barros

Uma fotografia antiga do Rio Tâmega

e do Bairro da Madalena

 

um poema de José Carlos Barros

 

http://casa-de-cacela.blogspot.com

 

.

 

.

 

 

i.

O barco está errado: o fotógrafo

(anónimo?) o terá pressentido no exacto momento

do disparo. A vela, esse belíssimo triângulo

isósceles, deveria inscrever-se no estrito

espaço escuro entre as duas casas

e separar-se dos elementos verticais do fundo

de que acaba por parecer

fazer parte: ligeiramente mais à direita.

E o seu reflexo na água, assim,

cortaria a mancha de sombra

como uma afectuosa cicatriz ténue.

 

ii.

Há um momento de angústia: esse em que o fotógrafo

acredita ter-se encontrado ele mesmo

com o momento único e irrepetível.

O autor deste retrato o pressentiu

por um instante: mas disparou tarde: quando

já o barco avançara. Bem certo é

que chegamos quase sempre tarde

às coisas perfeitas que nos esperam.

 

iii.

O jovem está errado: há uma identidade

que se perde, uma individualidade

que se esbate: a sombra vertical

de uma das árvores, reflectida no rio, não deveria

tocar a sua cabeça e misturar-se nela.

 

iv.

O barco e o observador são apenas um

e mesmo elemento da composição: o barco

não existe sem o jovem que o surpreende

num lento movimento à superfície

das águas; e o olhar do jovem não existe

sem a imagem de espelho devolvida

aos seus olhos pela vela muito branca, leve,

esguia, quase imaterial.

 

v.

O círculo e o quadrado de luz, à direita,

sob o último arco da ponte, estão

errados: rasuram o fulgor da estreita linha

iluminada do tronco da árvore em primeiro plano:

como se a não deixassem erguer-se inteira

para o céu do fim de tarde;

como se lhe impedissem a delimitação

da pressentida fronteira; como se o fogo irrompesse

por dentro da fotografia

onde mais não deveria existir

que um lume vagaroso.

 

vi.

Tudo o mais está certo: a ponte

que parece continuar para onde já não está

à força de aterros sucessivos

e alicerces; o volume dos edifícios num dinâmico

equilíbrio de vãos e coberturas, empenas

cegas, trapézios; e o rio,

claro, que vem de Espanha

e resiste aos erros de um retrato em que,

como quase sempre, não foi possível unir o tempo

e os fios todos

das múltiplas variáveis em jogo.

 

 

 

 

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