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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

24
Fev10

Hoje há feijoada ou peixeirada, já nem sei!

Hoje é quarta-feira e, em Chaves, é dia de feira e, dia de feira que se preze, tem feijoada, com todos os condimentos e para todos os gostos, pese embora, agora os tempos, até serem de peixeirada, não só pela quadra da Páscoa que nos leva para o jejum do peixe, mas a peixeira que está implantada neste Portugal de marinheiros. Deve ser influência do nosso território ter mais mar que terra.

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Fotomontagem de arquivo

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Aliás sempre foi a grandeza do mar que inspirou a grandeza de Portugal e sempre inspirou o poeta português. E falo do poeta, como representante de todos os poetas portugueses, o maior, o que canta a realidade de Portugal, que, para mim, há muito deixou de ser Camões.

 

DEUS QUER, o homem sonha, a obra nasce,

Deus quis que a terra fosse toda uma,

Que o mar unisse, já não separasse.

Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,

 

E a orla branca foi de ilha em continente,

Clareou, correndo, até ao fim do mundo,

E viu-se a terra inteira, de repente,

Surgir redonda do azul profundo.

 

Quem te sagrou, creou-te portuguez,

Do mar e nós em ti nos deu signal.

Cumpriu-se o Mar, e o império se desfez.

Senhor, falta cumprir-se Portugal.

 

Fernando Pessoa, “ O Infante” In o Mar Portuguez/Mensagem

 

Assim sendo, já nem sei se isto hoje é feijoada ou peixeirada, reforçada a dúvida pelas palavras do poeta:

 

“ O MAR SALGADO, quanto do teu sal

São lágrimas de Portugal”

 

E o Tâmega, leva algumas lágrimas de Chaves, que também ajudam a salgar o mar.

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De Chaves ou de outra terra qualquer, pois o sentimento e a realidade é comum e uma lágrima nossa, não é menos salgada que uma lágrima de outro qualquer sítio ou terra de Portugal, mas por aqui, é de Chaves que se fala. Pois vamos às lágrimas de Chaves que contribuem para as lágrimas de Portugal e para o sal do mar.

 

Por cá nunca fomos ricos, sempre fomos mais ou menos esquecidos e se não fosse por termos uma boa horta e Espanha estar aqui a dois passos, permitindo-nos assim ter sido militares e contrabandistas, se calha Chaves nem existia. Somos pobres, mas nunca fomos invejosos, aliás a inveja nem se conjuga muito bem na pobreza. Inveja é um luxo que só os ricos, os poderosos ou bem remediados conseguem conjugar. Na pobreza cultiva-se mais a revolta e depois, o que é que se poderá invejar na pobreza!? Mas os pobres existem, e por cá, infelizmente, temos a pobreza total, ou seja, o pobre que é pobre porque não tem dinheiro para mandar cantar um cego, mas também a pobreza de ideias e da ambição de fazer sair Chaves do marasmo, ele mesmo pobreza.

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Nunca a sabedoria popular de “ Em casa onde não há pão, toda a gente ralha e ninguém tem razão” se aplicou tão bem como nos nossos dias atuais, e, ainda vamos tendo umas côdeas por casa. Basta ler os jornais, ouvir as notícias e os nossos atores, sejam eles políticos, da banca e grandes empresas, da justiça, dos Mass Media (convém refrescar a memória e saber o que são os Mass Media: - são sistemas organizados de produção, difusão e receção de informação. Estes sistemas são geridos, por empresas especializadas na comunicação de massas e exploradas nos regimes concorrenciais, monopolísticas ou mistos. As empresas podem ser privadas, públicas ou estatais.).

 

Pois a pobreza e o povo, porque a pobreza convive bem com o povo, dos poucos direitos que tem é a revolta, mesmo que seja muda e se fique pelos intestinos, mas revolta-se e com todo o direito, principalmente quando por todo o país se ouve falar de crise, de não haver dinheiro, de estamos de tanga no fundo do poço ou do pântano, de não haver dinheiro para aumento de vencimentos, de cada vez haver mais desempregados e empresas a falir e à nossa volta continuar-se a mal gastar dinheiros públicos, em puros devaneios, luxos, ambições, teimosias, politiquices, etc.

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Ainda ontem enquanto ouvia a entrevista de José Sócrates na televisão, não deixava de o admirar na facilidade em que ele tem em dar volta aos conteúdos e como na astúcia das palavras dava a volta à verdade. Ouvi coisas incríveis que nos tocam bem de perto. Falou-se das barragens que são o futuro de Portugal (imagine-se) e pelo meio, Miguel Sousa Tavares trouxe à baila uma das plataforma logísticas que Sócrates lançou com tanta pompa e circunstância e que, as autarquias caíram de queixos na sua construção. Pois por cá, temos ambas, as barragens e uma plataforma logística. Uma barragem em projeto com a qual só ficamos a perder, destruindo-se um rio que embora com algumas maleitas ainda poderia ser saudável, mas destruindo também toda uma economia de subsistência, de gente pobre, que sem as suas terras férteis de cultivo, vão ficar sem nada, e tudo em nome de Portugal e das energias renováveis que vão ser exploradas pelos monopólios da eletrecidade e que todos vamos pagar, para continuar a dar, como até aqui, chorudos lucros às empresas exploradoras, ou seja, destroem um rio, empobrecem ainda mais a região e ainda vamos ter de pagar por isso e ficar contentes.

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Não deixo de dar razão a José Sócrates quando diz que o futuro da energia está nas energias renováveis. Quem é que não sabe isso, mas o futuro não está nas barragens, mas sim em casa de cada um de nós, com a produção da energia que necessitamos, cedendo a produção que resta à rede pública. Coisa simples. Bastava que o dinheiro que se gasta em petróleo para produzir eletrecidade, o que se gasta na construção e manutenção de barragens, nos negócios e gestores a elas associados, se transferisse para o equipamento doméstico que cada um de nós necessitaria para produzir eletrecidade. Mas claro que isso não interessa às grandes empresas que detêm o monopólio da eletrecidade, não interessa ao poder dependente, não interessa ao poder internacional do petróleo. Energia sustentável, de borla, não poluente e renovável, não interessa ao grande capital e como tal, não interessa ao poder. Construam-se barragens, empobreça-se uma região já pobre, ponha-se-lhe o rótulo de amiga do ambiente, mesmo que o ambiente seja o primeiro sacrificado e todos os papalvos dirão ámen!

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Pois vamos às plataformas logísticas. Para quem não sabe e pelos vistos há muita gente que não sabe, em Chaves há uma plataforma Logística porque era um dos pontos estratégicos a nível nacional para a implantação de uma das poucas que existem. Em Chaves existe uma e até foi inaugurada por José Sócrates. E agora perguntarão vocês, afinal o que é uma  plataforma logística e onde está a de Chaves!?... pois não sei,  mas garanto-vos que existir, existe, e já há alguns anos, onde até se gastaram uns largos milhões de euros na sua construção, mas apenas isso, pois nunca funcionou, está fechada e a degradar-se, tal como toda a área envolvente onde deveria funcionar uma Mercado Abastecedor, que também existe e não funciona, e um parque de atividades que não tem atividade.

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Custa ver um poder a exibir-se e exigir-nos sacrifícios, a aumentar-nos os impostos,  a retirar-nos direitos fundamentais, a roubar-nos a saúde, a formar jovens para o desemprego e que ao lado de nós esbanja dinheiros públicos (milhões dele) para equipamentos que não funcionam, para desfazer e refazer sem nada melhorar (EN 213), para fechar escolas e construir outras, para esvaziar hospitais existentes para construir outros novos, para construir barragens que destroem rios quando a eletrecidade existe de borla nos nossos telhados, para enfim, gozar connosco. Já nem quero falar de TGV’s, Aeroportos, pontes megalómanas, mundiais de futebol, etc. entre outras realidades e projetos que pululam por aí…

 

E já que comecei com o Poeta, vamos acabar com palavras suas:

 

SENHOR, a noite veio e a alma é vil.

Tanta foi a tormenta e a vontade!

Restam-nos hoje, o silêncio hostil,

O mar universal e a saudade.

 

Fernando Pessoa, “ Prece”  In Mensagem

 

 

 

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