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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

31
Mai10

Crónicas Segundárias

 

 

 

 

 

Ainda a Pintura


 

Na anterior segunda-feira, no meu primeiro post deste blogue, fiz críticas aos autarcas e jornais de Chaves pela falha completa que têm tido na divulgação de um grande pintor da região, o João Vieira. Mas imediatamente houve um comentador do post a informar que a próxima Bienal de Chaves vai ser dedicada ao João Vieira (que até aqui tinha sido ignorado por todos os autarcas que têm passado pelo poleiro, seja de um ou outro partido). Depois disso, na sexta-feira, confirmei a notícia sobre a Bienal ao ler o Semanário Transmontano.


Quem tiver lido o post anterior e soubesse que a Bienal vai ser uma homenagem ao Vieira, poderia ter ficado a pensar que eu também já sabia do acontecimento e estava apenas a armar-me em espertinho, em sonso. Mas não foi nada disso, o que se passou é que eu conheço a arte do João Vieira há bastantes anos, apeteceu-me divulga-la, e, como ando desligado do que vai acontecendo na cidade, também não sabia que a Bienal lhe vai ser dedicada, nem tão pouco sabia que iria haver Bienal! É que apesar do Vieira ser pouco divulgado em Chaves, ainda há pessoas que lhe conhecem a obra, especialmente as pessoas com um nível cultural ligeiramente diferente do dos nossos queridos autarcas.


No mesmo artigo do Semanário, lê-se que a câmara tem um projecto para a criação do Centro de Artes João Vieira, que vai ser feito em Anelhe, presumo. Parabéns, é uma boa iniciativa.


Vou fazer um aparte para uma crítica ao artigo do Semanário. Na frase "A exposição de João Vieira, pai do conhecido vocalista dos Ena Pá 2000, que, em 2005, se apresentou como candidato à Presidência da República, estará patente ao público até dia 4 de Julho.", há uma afirmação errada. O filho do João, o Manuel João Vieira, nunca foi candidato à presidência da república. O que fez foi uma brincadeira em que dizia que se iria canditatar, apresentou um programa cómico (fez o mesmo em 2001), mas nunca chegou a ser um candidato oficial porque as 7500 assinaturas necessárias não foram aceites por terem sido feitas pela mesma pessoa! É um erro pouco importante embora fosse conveniente apresentar factos correctos. Mas já que o artigo era sobre pintura, não percebo porque não se disse que o Manuel João Vieira é também um artista plástico com reputação, com variadíssimas exposições de pintura, ou que a sua arte é requisitada pela Vista Alegre, por exemplo. Parece-me que isto não é dito por ignorância do Semanário. Meus amigos, vocês publicam apenas quatro folhas (a que chamam jornal) uma vez por semana e por isso têm a semana inteirinha para fazer uma coisa decente, apliquem-se!

 

Por outro lado, também muitos não saberão que o João Vieira cantava e até gravou disco em Anelhe.

 

 

 

 

Por falar em Manuel João Vieira, costumo vê-lo em Chaves umas 2 ou 3 vezes por ano, o que parece revelar gosto pela região. Não se perdia nada em convida-lo para uma exposição ou para qualquer tipo de colaboração em actividades culturais, coisas que são escassas na nossa cidade.

Espero que a Bienal corra bem. Tem alguns dos nomes mais sonantes da pintura portuguesa e espanhola,artistas que vale mesmo a pena ver. Não me acredito que do Miró e do Picasso venham obras importantes, o mais provável é que sejam apresentados desenhos ou pinturas "rápidas", coisas que o Picasso fazia em 2 minutos e que se podem ver ocasionalmente em galerias de arte de Lisboa ou do Porto.

 

Convém não esquecer que há picassos e picassos. É que o Pablo ainda tem o nome no Guinness Book of World Records por ser o artista mais rápido do mundo: durante os 78 anos que durou a sua carreira, produziu cerca de 13.500 pinturas e desenhos, 100.000 gravuras, 34,000 ilustrações para livros, e 300 esculturas, perfazendo um total de 147.800 obras de arte.


Há uma história do Picasso relacionada com a sua rapidez em desenhar. Uma senhora pediu-lhe para ele lhe desenhar o seu retrato e o artista acabou-o num instante. A senhora disse-lhe obrigado e perguntou quanto lhe devia, ao que ele respondeu que eram 5000 dólares. Ela espantou-se e perguntou-lhe como é que podia pedir tanto dinheiro por um desenho que lhe demorou 1 segundo a fazer. Ao que o artista respondeu: Madame, levou-me a vida inteira.


Quem estiver interessado em ver a rapidez com que Picasso pintava pode ver algum dos vídeos que se encontram no youtube.


 

Até para a semana, não se esqueçam da Bienal!

 

 

 

 

 


 

 

 

30
Mai10

Guerrilheiros resistentes

As imagens de hoje bem poderiam ser uma descrição do Portugal actual: Enferrujado, roto, mal remendado e com  bicas e bebedouros secos… mas não, é uma pura coincidência…

 

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Ou talvez a coincidência não seja tão pura assim, pois se as imagens até podem transmitir um pouco de romantismo e o bucólico que as nossas aldeias têm, também transmitem dificuldades, vidas difíceis, a velhice e o abandono. Realidades bem reais de hoje mas também de sempre que convidaram (para ser brando) ou obrigou (para ser real) os seus filhos a abandonar a terra mãe.

 

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Resistem apenas os resistentes, autênticos guerrilheiros numa luta desigual contra tudo e contra todos, contra um poder distante que tanto os oprime como ignora, numa luta que sabem nunca vencer,  porque a única arma que têm, é o amor à terra pela qual irão morrer para nela serem sepultados.

 

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Pelos guerrilheiros resistentes, pelo carinho que lhes tenho, ficam três imagens em jeito de homenagem. Esqueço e nego-me a ver a ferrugem das placas, o reboco quebrado, as paredes descoradas e os seus remendos, as bicas e bebedouros secos. Em seu lugar, vejo as rugas de rostos envelhecidos que impõem o respeito da idade, os momentos de toda uma vida e olhos cansados que sem força para chorar, resistem, apenas… em suma, vejo a arte com que os guerrilheiros resistentes enganam e ultrapassam os dias.


 

As imagens de hoje são de S.Vicente da Raia, a descrição e texto, são de uma qualquer aldeia de montanha do nosso concelho de Chaves ou, se quisermos alargar o território, são do interior Norte e transmontano de um país que se chama Portugal Desigual.

 

 

 


29
Mai10

Mosaico da Freguesia de Soutelo


 

Como sempre aos fins-de-semana, vamos até ao nosso mundo rural, com mais um mosaico de uma freguesia, hoje com o mosaico de SOUTELO.

 

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Mosaico da Freguesia de Soutelo - Chaves

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Localização:


A Noroeste da cidade de Chaves da qual dista 7 km.

 

Confrontações:


Confronta com as freguesias de Seara Velha, Calvão, Sanjurge, Valdanta, Curalha e Redondelo, todas do concelho de Chaves.

 

Coordenadas: (Largo do Cruzeiro Coberto)


41º 45’ 30.37”N

7º 31’ 54.85”W


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Altitude:


Variável –  Entre os 450 e os 650m

 

Orago da freguesia:


Nossa Senhora da Conceição

 

Área:


8.99 km2

 

Acessos (a partir de Chaves):


– Estrada Municipal nº535, com passagem por Casas dos Montes e Valdanta.

 

 

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Aldeias da freguesia:


- Soutelo

- Novais

 

População Residente:


Em 1900 – 518 hab.

Em 1920 – 498 hab.

Em 1940 – 570 hab.

Em 1960 – 657 hab.

Em 1981 – 431 hab.

Em 2001 – 384 hab.

 

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Desde que existem dados da população (CENSOS) podemos verificar que a freguesia de Soutelo, entre os anos de 1864 e 1940 manteve a sua população residente sempre entre os 500 e 600 habitantes, nem sequer o abaixamento de população de 1920 sentido em todas as freguesias, por esta freguesia não foi significativo. De 1940 a 1960, a população subiu e desviou-se da linha de tendência que vinha a percorrer até aí, atingido o pico de população em 1960 com 657 habitantes. De 1960 a 1970 a freguesia em apenas 10 anos perde 30% da sua população, vindo esta perda a agravar-se se a compararmos com os últimos Censos de 2001 em que a percentagem de perda sobe para os 42% e que a manter-se a linha de tendência de perda de população, nos próximos Censos a percentagem ultrapassará os 50%. Números sérios demais que há muito mereciam um estudo aprofundado bem como medidas para os contrariar, mas enfim, são os números do despovoamento ao qual a actual crise também vai beber um pouco.

 

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São também números atípicos para uma freguesia de proximidade de Chaves, no seu perímetro urbano e que não tem a montanha como domínio. Se me apresentassem os números sem o rótulo da freguesia, não hesitaria em dizer que se tratava de uma das nossas freguesias mais distantes de montanha.

 

 

Principal actividade:


- Desde sempre foi a agricultura, com terrenos férteis para a batata, centeio, fruta e vinho. Em tempos (não muito distantes) existiu outra actividade importante na freguesia, sendo famosa pelo fabrico artesanal de cobertores e mantas de lã. Com o tempo foi-se perdendo esta produção artesanal chegando-se ao momento actual onde não me consta haver pela freguesia quem se dedique a esta actividade. Os tais sabores e saberes da terra já não são mais da terra…

 

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Particularidades e Pontos de Interesse:

 

Se por um lado (ou quase tudo) o despovoamento das nossas aldeias ´tem de ser olhado pela negativa, há no entanto alguns pontos positivos que se lhe podem associar. Com o abandono das populações também o casario vai sendo abandonado e se por um lado envelhece e se deteriora, por outro lado continua a existir e a dar algum significado ao velho núcleo habitacional das aldeias. Pois tal também acontece por esta freguesia, com Soutelo e Noval a manterem os seus antigos núcleos, embora envelhecidos. Felizmente as novas construções têm nascido maioritariamente fora do núcleo antigo destas duas aldeias, sendo ainda possível manter o seu interesse a nível do casario tradicional, assim haja vontade de o manter, mas também de o recuperar.

 

A proximidade de Chaves deveria ser um dos pontos de mais interesse desta freguesia nas suas duas vertentes, ou seja, do proveito que ambas poderiam tirar desta proximidade, para além do dormitório actual e agricultura de subsistência que por lá se pratica. Retomar a antiga tradição da produção artesanal dos cobertores e mantas de lã, adaptada aos novos tempos, seria ouro sobre azul…mas para tal acontecer e despertar antigos interesses tornando-os actuais e reais, alguém terá de fazer o trabalho de casa…mas anda praí muita gente distraída a olhar para os umbigos e a construir castelos na areia. Enquanto tal vai acontecendo, vão-se perdendo os verdadeiros sabores e saberes de toda uma cultura aldeã.

 

 

Historicamente falando e pelos importantes povoados antigos das imediações, pode-se acreditar que também esta freguesia tivesse conhecido povoamentos antigos desde a pré-história não ficando também alheia à romanização. Mais recente e ligada ainda à época medieval poder-se-á ligar a notável Casa do Paço, um edifício de notável e interessante arquitectura ostentando uma quase tão vetusta como tosca pedra de armas dos Cogomilhos onde se inscrevem as 5 chaves. Já em 1758. Nas «Memórias Paroquiais» a Casa do Paço recebe alguns comentários por parte do pároco redactor onde comentava “não haver tradição certa da sua origem”. Estudiosos da casa dizem que possivelmente deverá tratar-se de uma residência senhorial baixo-medieval não fortificada.

 

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De valor patrimonial da freguesia, além do conjunto do casario típico e tradicional que ainda existe e da referida Casa do Paço, poderei ainda salientar a Igreja Paroquial e a Capela do Espírito Santo. De cariz religioso também se assinala o Cruzeiro da Srª da Saúde, com cobertura assente em quatro colunelos. Aparentemente toda esta estrutura da cobertura parece merecer uma intervenção urgente, pelo menos a julgar pelo peso e desvio (abertura) a que os quatro colunelos estão sujeitos, mas outra gente mais entendida que eu e com responsabilidades, pela certa que passa por lá regularmente e já deve ter notado que aquela estrutura não estará nas melhores condições…mas nestas coisas já se sabe que os santos da casa não fazem milagres, mas nem há como ir deitando um ouvido ao que o povo vai dizendo, principalmente quando diz que mais vale prevenir do que remediar… e com esta já estou quase no ir!

 

Tempo ainda para referir a Quinta do Noval e a referência a um estudioso e ilustre flaviense, o Padre Adolfo Magalhães.

 

 

 

Link para os posts neste blog dedicados à  freguesia


Para mais pormenores e fotografias sobre esta freguesia, nem há como fazer uma passagem pelos posts que lhes foram dedicados neste blog, seguindo os links:

 

 

-  Soutelo

 

-  Noval

 

 

 

 

 


29
Mai10

Plágios ou Devaneios!?

Ao ver as duas fotos que agora vos deixo aqui, ocorreu-me logo à ideia:

 

PLÁGIO!


 

O termo já é antigo, vem do latim (plagium, -ii, roubo de escravos, plágio) diz o dicionário e tem como significado:

 

1. Acto ou efeito de plagiar.

 

2. Imitação ou cópia fraudulenta.

 

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Pois sempre ouvi dizer que copiar é feio, muito feio… mas se ainda por cima essa cópia é fraudulenta, então, além de feio, também é crime, suponho.

 

Rebuscando no meu baú de fotos, deparei-me com as duas que vos deixo para apreciação.

 

- Serão um plágio!?

 

- Será quê na toma da última foto plagiei um olhar que já tinha tido!?

 

- Será quê um dos inspirados autores do design plagiou o outro!?

 

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Pois não sei, mas também me ocorre a ideia de alguém que poderá andar por esse mundo fora a ver como as coisas se fazem e depois as tente reproduzir cá na terrinha, mas à nossa maneira e à nossa escala, e isso, claro, está longe de ser um plágio… mas penso que não, que não há plágio e tudo não passa de devaneios que me ocorrem,  e depois, também não acredito que alguém de NYC viesse cá copiar-nos ou que algum olheiro conseguisse atravessar o atlântico e chegar cá com a ideia ou plágio inteiro… desculpem lá o incómodo e façam de conta que este post não existe.

 

Já agora, a foto nacional é de Soutelo, freguesia que mais logo estará aqui com o seu mosaico. A outra foto, roubei-a ao Devaneios , e foi mesmo um devaneio que vai de mim até ao outro que as juntou aqui.

 

Até logo em Soutelo e Noval.

 

 

 

28
Mai10

Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos

 

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CASSAPOS


Manuel Fagundes Arrebita, era um preguiceiro. Nunca fez nada que jeito tivesse do que exigisse puxar pelo lombo bem entendido, porque no negócio era um portento. Nasceu na rua Verde, sabe Deus quando. Órfão temporão de pai, sua mãe consumiu-se ainda nova por mor de o criar desparasitado e bem nutrido. Finou-se pouco antes de o ver nas sortes, altura tida como a do verdadeiro desaninhar.


Até àquela altura polia esquinas, o mesmo é dizer não fazia a ponta de um corno. Parava pelos Quadradinhos, seu escritório, sempre atento às conversas dos engraxadores e aos negócios dos aldeãos que nos dias de feira faziam do Arrabalde o ponto de encontro. Mestre da manigância fazia da rua escola e mais tarde da tropa universidade.


Pelos dezanove anos assentou praça no Quartel de Infantaria Dezanove, onde refinou a arte de prestidigitador no contacto directo com a corja do ardil. A tropa manda desenrascar e ele rapidamente se desenrascou.


Quando um mancebo assentava praça, era-lhe distribuído, para além do fardamento, uma panóplia de outros artefactos que ficavam à sua responsabilidade por todo o tempo que se encontrasse a cumprir o serviço militar. Tinha de os apresentar no dia do espólio, isto é de passagem à disponibilidade ou à peluda como se dizia na gíria da caserna. Se esses equipamentos não fossem apresentados, havia que os pagar e a bom preço. Ora ninguém estava para aí virado, pois o dinheiro era ainda mais escasso do que é hoje. Por isso, sempre que alguma coisa desaparecia, era costume fazer-se uma de duas coisas: ou se mantinha o bico calado e na primeira oportunidade subtraía-se a outro, que provavelmente já a havia fanado a um outro e assim sucessivamente, ou então comprava-se no mercado negro, de preferência por uma bagatela.


O Arrebita não precisou de muito tempo para se enfarinhar no negócio. Prestes se transformou num autêntico padrinho napolitano. À sua conta tinha para mais de uma dezena de larápios, a quem comprava a mercadoria por tuta e meia e que depois metia no armazém-loja que tinha nos baixos de sua casa. Este estabelecimento só abria as portas a gente de confiança. Quem roubava sabia a quem vender e quem precisava a quem comprar. No seu supermercado havia de tudo: fardas completas de qualquer número, bonés e botas, sapatilhas, cintos e cartucheiras, balas granadas e cantis, baionetas, marmitas, garfos e colheres, havia inclusivamente peças avulsas de armas como culatras, canos e coronhas nomeadamente da conhecida Mauser Vergueiro. Não faltava nadinha. Se no momento não houvesse em stock, o cliente que ficasse descansado, dentro de um ou dois dias seria servido. O negócio era próspero enquanto andou na tropa. Quando passou à peluda enfraqueceu por ausência do cheiro da caserna. Mas ainda assim dava para viver e isso é que interessava.


Arrebita, era uma verdadeira toupeira do mercado subterrâneo, um dinossauro da compra e venda de material de guerra. Dizia-se que chegavam a vir do Porto à procura da sua mercadoria. Vivia bem o lapantim e sem fazer nada. Lábia não lhe faltava e se fosse preciso trabalhar noutro ramo, por exemplo armar estrangeirinhas para ludibriar bagalhuços aldeãos, não se ensaiava nada.


Por falar em conto do vigário lembrei-me agora de uma que lhes conto.

 

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Estando um dia no Arrabalde, Manuel ouviu dizer que o governo tinha contratado uma série de engenheiros para que fossem pelas aldeias do concelho actualizar as medições dos prédios rústicos para rectificação das matrizes prediais e respectiva actualização das contribuições, décimas, como à época se chamavam.


Viu a dele boa: iria ser engenheiro das medições!


Reuniu com o sócio Necrotério, antigo camarada de caserna, seu braço direito e juntos montaram a estrangeirinha:


Primeiro era preciso vestirem-se como verdadeiros engenheiros.


Depois afinar a linguagem técnica.


Por fim arrear as montadas e cavalgar por essas aldeias além.


Assim foi.


Foram ao Sarmento e botaram os metros de tecido necessários para dois fatos que o alfaiate Queirós haveria de fazer à medida. Camisa branca e gravata a dizer com a fazenda. Depois às Curadoras: botas cardadas e polainicos. No chapeleiro da rua Direita mercaram finos chapéus de felpo.


A seguir ensaiaram o paleio técnico, o que não foi nada difícil por serem especialista do endrominanço.


Por fim arreios a preceito para os cavalos, comprados nas lojas da especialidade à muralha do Baluarte do Cavaleiro.


Combinaram nomes falsos, engenheiro Teodoro para um e Torcato para outro.


No dia combinado abalaram serra arriba.


Iniciaram a saga pelo Barroso. Pedrário, primeira aldeia para experimentar. Correu de feição, continuaram, apurando cada vez mais o guisado.


E como faziam?


Chegavam ao lugar e procuravam o Regedor por mor de saber quem eram os grandes proprietários e ainda para dar peso institucional à coisa. Depois instalavam-se em casa de um dos mais ricos da aldeia. Armados de pasta, bloco de notas e teodolito, iam por essas courelas fora, acompanhados do proprietário e vai de fingir que mediam, que escrevinhavam e que tiravam os azimutes. Interim iam dialogando sobre a metragem e o imposto a que correspondia. Criavam assim o ambiente favorável para que os lavradores percebessem que pagariam grossa maquia de décima. Claro… a não ser que estivessem dispostos a compor a coisa com uns presuntos, uns salpicões e uma notitas de cem. A estratégia resultava, porque uma coisa era presentear uma única vez os engenheiros e outra a vida inteira o Estado!


O negócio corria de vento em popa. Os melros engordavam a olhos vistos e os proprietários contentinhos porque nalguns casos ainda iam pagar menos do que o que desembolsaram os seus avós.


Negócio perfeito.


Acabando numa aldeia partiam para outra levando o alforge repleto e a carteira anafada.


A coisa foi andando.


Quando viram que a teta barrosã tendia a secar e até mesmo para não dar muito nas vistas, viraram-se para o Planalto do Brunheiro.

 

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Claro está que naquela época as notícias corriam à velocidade do caracol. Contudo, mesmo assim, feira a feira não deixavam de se actualizar as novidades. Evidentemente que quem tinha sido favorecido pelas medições e eram quase todos os que tivessem por onde pagar, calavam-se como ratos. Porém, um ou outro lá se ia descaindo com os amigos e a notícia foi-se espalhando.


Ao Ti Moreiras do Carregal, pequeno proprietário, conhecedor de meio mundo, batido pelas balas do boche na guerra dos dezassete e curtido pela miséria dos campos de concentração alemães, chegou a notícia pela boca de um camarada barrosão que era um grande proprietário rural de Vilar de Perdizes e o acompanhou na Saga de Chaves a Copenhaga, nessa maldita Grande Guerra.


— Ó Moreiras, sabes que um destes dias, apareceram-me lá por Vilar dois engenheiros das medições! Olha que engrampei bem os filhos da curta! Mamaram-me umas chouricitas e uns presuntos, mas consegui que baixassem para metade as áreas das minhas poulas. Estou que vou pagar ainda menos de décima do que o que pagava inté aqui.


— Não me digas Aniceto! À minha terra ainda não chegaram. Conta-me lá os pormenores para eu fazer o mesmo.


Contou tudo timtim por timtim.

 

Passado uns tempos e umas feiras mais, já se comentava de que tinha havido tramóia com os engenheiros no Barroso. É que parece que apareceram por lá outros, se calha os verdadeiros e a coisa estava a desmascarar-se.


Entretanto, o Arrebita e o companheiro, continuavam na fresca ribeira a meter para o bucho e para o bornal, agora em terras do Planalto. Todavia, quando chegaram ao Carregal, terra do Ti Moreiras, ele já estava precavido e fez-se de mula!


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Recebeu o Regedor muito bem, aceitou que as companhias se instalassem lá em casa durante os dias que fossem precisos para o trabalho das medições.


O esquema era o mesmo de sempre.


O casal do Ti Moreiras ficou para último.


Daí a dois dias já estavam arrecadados na adega presuntos e cambalhotas de salpicões e linguiças, pagas de favores.


Estiveram por lá quase uma semana.


Os dias passavam-nos nas terras, os serões a ouvir as histórias de guerra que o anfitrião fazia questão de contar na primeiríssima pessoa.

Na última noite o Ti Moreiras e uns quantos do lugar, tinham uma surpresa reservada para os artistas.


Aquela noite estava fria como navalha de sincelo e negra como breu. Era Fevereiro, cerca do Entrudo e pelo Planalto soprava um vento galelo danado. Levava orelhas, barba e o mais que estivesse ao relento. Fosca-se!


Ora, depois de farta ceia de couve penca, feijão vermelho e pernil fumado, fizeram como nos outros dias, largo serão. Só que desta vez no lugar das histórias havia chincalhão[i] e cachaça para aquecer. Já tudo meio grogue, o Ti Moreiras sai-se com esta:

 

— Ó rapazes e se fossemos aos cassapos? Deve ser novidade aqui para os nossos amigos e a noite está mesmo à feição!


— Boa ideia — disseram os amigos.


Mesmo os falsos engenheiros ficaram entusiasmados. Só não sabiam o que eram cassapos.


— É surpresa, vocês vão ver. Haveremos de fazer uma tainada do catano amanhã!


— Assim seja — concordaram os engenheiros.


Foram então combinadas e distribuídas as tarefas. O Ti António Moreiras e os vizinhos, conhecedores do terreno e dos carreirões que os cassapos trilhavam para se alimentarem à noite, ficaram com a missão de os tocar até às embocaduras dos sacos, aí os engenheiros, em silêncio, colocar-se-iam cada um com seu saco de serapilheira bem aberto, para que os bichos acossados entrassem.

 

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— Não tem nada que saber, os senhores engenheiros vão ficar, um na Ladeira junto ao toco das raposas e outro nos Cáximos, junto à poça, de saco aberto no meio do carreirão, por onde eles hão-de passar. Como é de noite e eles vêem mal entrarão nos sacos. Têm é de ficar caladinhos para que não se assustem e tornem para trás. Nós vamos à volta e tocamo-los até aos senhores. Logo que entrem, fazem o favor de fechar bem o saco e aguardarem-nos para que lhe tiremos o pio.


— E os bichos mordem? — perguntaram em uníssono os engenheiros.


— Qual quê, são mansos como cordeiros, vão é ser mordidos por nós na janta de amanhã. Vamos?


Lá foram serra fora. Os aldeãos acautelados de samarra, boina galela e varapau para tocar os cassapos, os engenheiros, corpo bem-feito e saco de serapilheira às costas.


O senhor engenheiro Teodoro ficou no cimo do Belão, na Ladeira entregue a um carreirão onde corria um briol de tralhar a medula dos ossos, o Torcato ao lado da poça do Cáximos, já em carambelo pelo sereno da noite.


Puseram-nos em posição, aconselharam silêncio e foram tocar os cassapos, evidentemente para as mantas quentinhas e fofas de suas camas.


Os engenheiros estiveram à espera até de madrugada. Enregelados!


Os cassapos não apareceram.


Quando se deram pela tramóia, sebo nas canelas e a butes para Chaves!


Largaram montadas, salpicões, linguiças e presuntos.


Não deixaram o próprio canastro porque não foram audazes ao ponto de reclamar os pertences!..


Até hoje, nunca mais ninguém os viu pelo Planalto.



Benditos sejam os cassapos e mais quem nos inventou!





[i] Jogo de batota com cartas.

Gil Santos

 

 

 

 

27
Mai10

Colecionismo de Temática Flaviense - Medalhística

 

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Medalha em prata comemorativa dos 25 anos do Clube de Campismo e Caravanismo de Chaves.

 

Além de comemorar os 25 anos do clube, a medalha é atribuída anualmente a todos os membros que completem os 25 anos  de associado.

 

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Características:

 

Material: Prata

Dimensões: Diâmetro - 80mm;  espessura - 5mm

Não assinada

Ano: 1999

Medalha não numerada

Tiragem desconhecida

Cunhagem:  Gravarte - Lisboa

 

 

 


26
Mai10

Essa cidade chamada CHAVES

 

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Fernão de Magalhães, poeta,  depois de partir e conhecer novos portos dizia-me que retinha e conhecia os lugares e as cidades pelo cheiro. Também ouvi dizer ou li em qualquer sítio,  que os bons músicos, numa orquestra sinfónica, conseguem distinguir e separar o som de cada instrumento. Eu confesso que não tenho o dom de separar e distinguir esses pormenores. Gosto de muitas cidades, sítios e lugares por uma ou outra razão ou por todas juntas,mas também pelo cheiro, pelas luzes, pela cor, pela arquitectura, pela monumentalidade, pela modernidade ou antiguidade, pelas pessoas, pelos afectos ou pelos bons e maus momentos que se passa neles. Também da música, apenas retenho a melodia e os momentos em que a oiço.

 

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Há no entanto, sítios, lugares, cidades, cheiros, luzes, noites, gente, mulheres, medos, ternuras … um sem número de outras marcas que nos marcam e se registam na memória para todo o sempre como a marca desses lugares, cidades e sítios onde aconteceram.

 

O sítio onde nascemos, o lugar onde aprendemos a andar de bicicleta, a escola onde aprendemos as primeiras letras, os medos de infância, os lugares precisos onde aconteceram os primeiros beijos e namoros, as escola que realmente nos ensinou, a casa de uma grande paixão, a primeira vez que conduzimos, as vezes que fomos conduzidos, as nossas ruas e bares da noite, os lugares de banhos preferidos do rio, as ruas e copos das grandes comemorações, a igreja onde casamos, o hospital e corredor, o preciso lugar  onde vimos os nossos filhos pela primeira vez, os sítios por onde param os amigos, os lugares que evitamos, de onde se vêem os melhores por do sol, onde gostamos de amanhecer, a casa da sogra… enfim, um sem número de sítios, lugares, casas, cantos, ruas e ruelas por onde debitamos os nossos passos, pousamos e aconteceram os grandes momentos, alegrias e desilusões das nossas vidas e que, se tudo isso acontecer numa cidade, essa é a nossa cidade, a cidade que nos marca e que, com paixão amamos e às vezes dói ou até odiamos.

 

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Eu tenho essa cidade, ela é o centro do mundo, tem cheiros e melodias de orquestras, luzes e cores, auroras e entardeceres, noites memoráveis, gente, um rio, vale e montanhas e, muitos, mesmo muitos momentos  inesquecives registados na memória das ruas, das calçadas, das casas e dos rostos da gente. Eu tenho essa cidade, chama-se CHAVES.

Dela, deixo-vos hoje três imagens apenas, ao acaso, das centenas de imagens com marca e magia.

 

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25
Mai10

Pedra de Toque - O Mês das Marias, por António Roque

 

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O MÊS DAS MARIAS



Maria é nome de mãe.

Do ventre, onde ela gerou, brota a luz, a claridade do mundo.


E Maio é o mês das Marias.


Não só da Maria, dita Santíssima, que segundo as Escrituras, virgem concebeu sem mácula de pecado.


Mas de todas as Marias mulheres que sempre com o sol de Maio, germinam nos seios o alimento e as rosas com que criam e adoçam os seus filhos.


Maria é nome de amada.


Que desabrocha ao ritmo do calor e da luminosidade do tempo.


Os olhos despertam, a boca humedece e o corpo deseja no natural encontro, com os braços dele, no beco da cidade verde, no refúgio sombrio da árvore protectora.


Com bênção ou sem bênção, com papéis ou sem eles, eis que surge a queda nos contactos da pele, na invasão dos corpos que só finda na estrada distante das estrelas que o luar reflecte.

 

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Maria é nome de filha.


O sangue dos nossos espasmos, a suculenta amora dos nossos desvarios.


Filha que cresce sempre com a melodia que a nossa generosidade produz, com a cor das papoilas que os nossos sonhos desejam, azul e diáfana dos nossos mares de esperança.


Filha que, com o inevitável curso das estações, virará mulher e mãe neste círculo radioso da vida.

Maria é nome de mulher.


E Maio é o mês das Marias.


António Roque

 


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