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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

22
Mai10

Águas Frias - Chaves - Portugal

 

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Desde puto que o meu olhar se vai perdendo mais além, até onde o horizonte o permite. Gosto de, ao longe, sinalizar os locais para um dia ir até lá ver como é. Um desses locais sinalizados no horizonte (quando criança, então distante) foi aquele quadradinho que se elevava um pouco acima da silhueta das montanhas das terras de Monforte. Diziam-me ser o Castelo de Monforte.

 

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Por mais republicanos que sejamos, as histórias de reis e rainhas, príncipes e princesas, fazem sempre parte do imaginário de uma criança e claro que os castelos, estão directamente ligados às monarquias, às guerras, cavaleiros, heróis, príncipes e até aos encantos das princesas. Coisas que os filmes das televisões vão metendo nas cabecinhas das crianças, e eu, como todas, também tinha esperanças que por aquela fortaleza ainda existissem resquícios de alguma monarquia.

 

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O tempo foi-se passando, deixei de ser criança, passei a adolescente e só em adulto passei por perto do Castelo de Monforte, cá em baixo, entre Águas Frias e o Castelo, na estrada nacional, mas mesmo assim, demasiado longe para o sentir.

 

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Um dia aventurei-me e, aí fui eu por ali acima até dar de caras com o Castelo. Um misto de admiração, espanto e desilusão invadiam-me. Estava diante de um sonho até então só visto de longe. Admirava a imponência que os castelos sempre têm, mas estranhava a ausência de vida em seu redor e o abandono, como se aquilo estivesse em terras de ninguém.

 

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Ainda baralhado das ideias, subi até ao castelo e começou a fazer-se luz. Em cada olhar que ia lançando para um e outro lado, ia esquecendo as ausências e os abandonos do sítio. A paisagem era preciosa demais para ser perturbada por outros sentimentos. Compreendia então o porquê de o castelo estar ali, pois dali, quase se avistava Meca e Teca, mas sobretudo o grande vale de Chaves, o contorno das montanhas e aos pés do castelo, meia dúzia de pequenas aldeias e aglomerados perfeitamente desenhados, sobressaindo uma, que graças à proximidade, chamava a atenção do olhar – Águas Frias.

 

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Decorriam os anos oitenta e muitos quando assim conheci Águas Frias pela primeira vez, depois de muitas passagens na estrada sem nunca descer à aldeia, foi lá do alto, desde o castelo que a apreciei verdadeiramente pela vez primeira e, desde logo ficou a vontade de penetrar por ela adentro para a conhecer em pormenor. Tal não aconteceria nesse dia, mas veio, repetidamente a acontecer desde esse dia até hoje, onde muitas vezes faço as minhas passagens fugidias, por breves minutos que sejam.

 

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Pois é até Águas Frias que este blog hoje vai, aldeia e sede de freguesia que a seguir a ordem alfabética das freguesias e aldeias do concelho, deveria ter sido a primeira a passar por aqui, mas que outros critérios fizeram que só hoje esteja aqui, no seu post alargado.

 

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Águas Frias que já há muito conhecia sem conhecer, ou seja, não conhecia a aldeia mas conhecia as suas gentes, gente amiga, colegas de liceu de conhecimentos e amizades mais desenvolvidas e até um professor, também amigo e ao qual ainda hoje agradeço o meu gosto pelas geografias humanas e dos lugares. Gente que tem nome e que o quero deixar aqui escrito, um, por com ele ter percorrido este Portugal de lés a lés e ter vivido bons momentos de endiabrada mas saudável juventude – o Carlos Santos e outro, o meu prof. de Geografia do Liceu, desde então amigo e hoje também companheiro da blogosfera flaviense ao qual agradeço também, desde já, a companhia na última visita à aldeia para tomar algumas fotos que hoje constam aqui e que dá pelo nome de Celestino Chaves.

 

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Deixando para trás esta já longa introdução, vamos até Águas Frias, com uma explicação por só hoje o fazer. Pois embora a ordem alfabética ditasse que fosse a primeira, só hoje acontece aqui por algumas razões. A primeira porque Águas Frias está muito bem representada na Internet com três blogues e portanto não haveria assim tanta necessidade de a divulgar como as outras aldeias que pecam pela ausência de não estarem representadas nesta aldeia global da net e da blogosfera. A segunda razão foi pelo material fotográfico, pois como já disse, fiz muitas entradas em Águas Frias, mas todas elas fugidias e/ou por motivos profissionais, o que, não me permitiu muitas veleidades  fotográficas, mesmo a última  e derradeira para este post, na companhia do prof. Celestino, foi debaixo de chuva… mas era tempo de Águas Frias estar por aqui com o seu post alargado.

 

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Também, digamos, que não perdeu com a demora, pois ao longo da existência do blog vou acrescentando a quantidade de fotos por aldeia, com aquilo que mais gosto, mas mesmo assim, com a quantidade fica uma imagem mais precisa para aqueles que não conhecem, ficarem com uma ideia sobre a aldeia.

 

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Vamos então até Águas Frias.

 

Águas Frias é sede de freguesia, à qual pertencem as aldeias de Assureiras (de Baixo, do Meio e de Cima), Avelelas, Casas de Monforte e Sobreira. Fica a 12 quilómetros de Chaves, à beira da tal Estrada Nacional, que iniciando em Braga, termina em Bragança e passa o nosso concelho de lés a lés, a E.N.103.

 

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Entusiasmados ao longe com as vistas do Castelo de Monforte que vai deixando o restante da paisagem para segundo plano e seguindo a EN 103, Águas Frias quase se esconde dos olhares menos atentos e também não é pela passagem que se fica a conhecer a aldeia. Para a conhecer, é condição necessária descer até ela, atravessá-la, percorrer as suas ruas e virar no largo da igreja, que também é largo da escola. Mas mesmo assim, se a passagem for de carro, não se fica a conhecer Águas Frias e o seu melhor na totalidade. Nem há com parar o carrinho e percorrer a pé as ruas, ruela e becos onde o carro não vai. Não é por mero acaso, embora com muitos pecados, que a aldeia no PDM de Chaves tem um núcleo a preservar, pois de facto, o seu aglomerado tem características únicas e que fazem a diferença da maioria dos aglomerados rurais tradicionais. Pena que o casario mais típico e interessante da aldeia esteja abandonado e que nalgumas recuperações não tenha havido a sensibilidade de preservar o que de melhor a aldeia tinha e as novas intervenções se misturem um pouco com o característico do velho núcleo.

 

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Embora esta coisa da construção e intervenções construtivas nas aldeias até possam ser contas de outro rosário, a descaracterização das  nossas aldeias rurais são um facto que não se pode esconder, pois é evidente. Não quero com isto culpar os culpados que até não o são. Parece complicado de perceber mas não é, ou seja, não basta no PDM – Plano Director Municipal dizer que o núcleo de uma aldeia é para preservar, tal como acontece em Águas Frias, principalmente quando essa preservação tem o gosto ou o sabor de penalização, pois desde logo qualquer recuperação em núcleo a preservar é mais restritiva e mais onerosa sem que para isso haja incentivos (qualquer que seja) ou sensibilização. Ou seja, vieram uns senhores lá de baixo, deram uma volta pela aldeia e disseram: -  “esta aldeia é porreira, pá. Carimba-a aí com núcleo a preservar”. E, pronto, já está.

 

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Sem dúvida alguma que Águas Frias tem mais que motivos para ser uma aldeia interessante, mas não basta ser classificada. Haveria que fazer todo um trabalho de casa para que a população tomasse conhecimento do interesse que era preservar o núcleo histórico e do que poderia ganhar com isso. Haveria que haver incentivos em termos de licenciamento e de taxas. Haveria que haver incentivos, até, em termos monetários para a recuperação do casario, ou seja, não basta ditar as leis, é preciso também criar condições para que as mesmas sejam cumpridas e aí, criadas todas as condições de incentivo, penalizar também,  seriamente,  quem não as cumpra.

 

Medidas sérias e sustentadas dariam também ou contribuiriam para a vida e sobrevivência das aldeias, com o incentivo até, para o repovoamento das mesmas e para o despertar e valorização dos seus usos, costumes e tradições, principalmente nestas aldeias de proximidade da cidade, com bons acesso e com motivos mais que interessantes a seu lado, como o é o Castelo de Monforte e todas as aldeias desta freguesia.

 

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Custa dizer que não era preciso inventar nada para que estas nossas aldeias fossem motivo de interesse turístico e cultural de quem nos visita e simultaneamente motivo de orgulho e de modo de vida das suas populações, mas não, perdemos e esquecemos aquilo que de melhor temos, as nossas riquezas, e partimos para aventuras megalómanas de encher o olho que não nos levam a lado nenhum e só contribuem para a nossa desgraça. Estou a falar dos senhores de Lisboa e da cambada dos políticos em geral que desde que as suas mordomias e bem estar esteja garantido, até esquecem e ignoram a terra onde nasceram e depressa esquecem o engaço, o mesmo que calejou as mãos dos pais que pagaram os seus estudos.

 

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Finalmente a geração rasca chegou ao poder e os interesses que os dominam, dizem que eles devem continuar por lá, entretanto, perdem-se as aldeias, os costumes, tradições e valores que fazem a cultura de um povo, toda a riqueza de um povo do interior, principalmente a do Norte e da nossa região e regiões vizinhas. Quando os de Lisboa e os político despertarem para a realidade, temo que já seja tarde demais e quando muito, apenas poderão recriar, ou seja – aldrabar, a genuinidade de toda uma cultura que muito bem poderia e deveria conviver com a modernidade, ainda para mais com os novos meios de comunicação que temos ao dispor de todos.

 

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Já é hábito pedir por aqui desculpas às aldeias pelos meus devaneios sentidos, quando toca à sua vida em geral. Também hoje peço desculpas a Águas Frias por trazer aqui alguns desabafos que doem e no constatar do abandono de todo um interior em vez de se olhar pela sua valorização e por um modo de vida com qualidade a servir qualidade para todo um Portugal. É mais fácil aumentar impostos, culpar e castigar os funcionários públicos e indirectamente todos os que vivem à sua volta, lamentar crises alheias e nada fazer pelo que verdadeiramente deve ser feito, investindo no interior e nas suas gentes, na sua riqueza e valores, tal como na riqueza e valores do seus produtos, tradições, usos e costumes em vez das políticas dos subsídios que se distribuem nos corredores dos ministérios, organismos estatais, técnicos e por meia dúzia de chicos espertos sem verdadeiras políticas agrícolas, florestais, culturais, turísticas sustentadas e viradas para o interior.

 

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Enfim, vai-se investindo ou prevê-se investir em TGV´s, mais pontes sobre o Tejo, novos aeroportos, estádios, agora as barragens e um sem conta e número de devaneios a nível autárquico, como por cá, com parques empresariais, mercados abastecedores e plataformas logísticas que nunca funcionaram,  quando estamos de tanga, descalços enquanto se vai esquecendo as potencialidades de todo um interior, ele próprio esquecido e constantemente despido e roubado dos seus potenciais, valores e serviços. Finalmente Portugal começa a ser só Lisboa e o resto é paisagem ou uma futura coutada nacional, onde a custo, alguns resistentes serão confundidos com indígenas, mas que, para pagar os desastres da geração rasca que invadiu o poder, contamos e pagamos todos, mesmo nós os do interior, constantemente desprezados e roubados…e que ninguém meta política partidária neste meu desabafo, pois todos os partidos frequentaram a mesma escola….

 

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Vamos continuar com Águas Frias que é o que hoje interessa aqui.

 

Já falamos na sua forte ligação ao Castelo de Monforte e claro, ligação essa que também está ligada à historia da aldeia e das aldeias das terras de Monforte, mas que hoje apenas tem ligação à terra e à vida agrícola, com produção de centeio, castanha, batata, alguma fruta e vinho, além das costumeiras hortas de redondeza das habitações, onde há um pouco de tudo para o dia a dia.

 

Quanto ao Castelo de Monforte, um ex-líbris da região de Monforte e de todas as suas aldeias, depois de uma entusiasmante recuperação e tentativa de dar vida à sua envolvente, está de novo dotado ao abandono total. Os olhares (infelizmente) não estão para ali virados e temos pena.

 

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Águas Frias é uma povoação muito antiga e referenciada já em escritos antigos, como o das Inquisições de 1262. De grande importância no passado, precisamente por estar directamente ligada e nas proximidades do Castelo de Monforte de Rio Livre.

 

O Casario tradicional transmontano sobrepõe-se ao solarengo, no entanto há alguns exemplares mais nobres dignos de realce. De realçar é também a Igreja, um edifício com traços renascentistas, com uma bonita frontaria onde se destacam dois pináculos colocados simetricamente sobre a cornija da estrutura e a sua torre sineira com dois níveis de sinos, popularmente conhecida como torre dos condenados e que segundo se diz, adoptou este nome porque foi construída com dinheiros dos impostos e multas aos habitantes da aldeia. Localizada fora do núcleo da aldeia, ocupa um ligar vistoso, avistando ao longe. Tem como orago o S.Pedro, cujos festejos lhes dedicam anualmente tal como a Santa Bárbara, protectora (como todos sabemos) dos malefícios das trovoadas.  Fazem-lhe companhia um curioso conjunto escolar.

 

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Águas Frias e toda a freguesia  esteve sempre muito ligada ao Castelo de Monforte de Rio Livre que se situa na antiga Civitatella de Batocas. O castelo assenta, segundo os arqueólogos, sobre um castro romanizado. Sustenta esta afirmação o facto, entre outros, de terem sido encontradas, nesse local, duas aras, uma das quais dedicada ao deus Larouco. A construção do castelo é atribuída a D. Dinis e sobre ele verseja o povo, evocando a tradição:

 

Eu, Dinis
Sete castelos fiz
Mas o mais forte
É o de Monforte.

 

O julgado de Rio Livre foi fundado em 1267, teve forais dados por D. Afonso III, D. Afonso IV e D. Manuel I. O primeiro criou a célebre feira de Monforte, bem ao uso do tempo medievo, que durava dois dias. Há anos atrás tentou-se recriar numa festa de verão o ambiente de feira vividos há séculos atrás, mas foi sol de pouca dura, pois com a mudança das cores políticas da Câmara Municipal, lá foi a recriação e a evocação do passado para o galheiro, acompanhada pelo esquecimento continuado do próprio castelo. Mas nem todos o esquecem, pois eu sempre que posso dou lá um pulo e tenho gosto em levar gente comigo, principalmente fotógrafos onde fazem o gosto ao dedo para os melhores pores do sol que podemos encontrar na região. É também para lá que a blogosfera flaviense tem o seu próximo encontro marcado, a acontecer em Julho próximo.


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Dizia no início do post que uma das razões pelas quais ainda não ter ido até Águas Frias era pela sua boa representação na internet. De facto marca presença na NET com três blogs os quais vão mantendo actualizada a vida de Águas Frias nesta aldeia global e aos quais recomendo uma visita (por ordem alfabética) :

 

http://aguasfrias.blogs.sapo.pt/ de autoria de Mário Silva

http://aguasmonforte.blogs.sapo.pt/ de autoria de João Tanas Oliveira

http://riolivre.blogs.sapo.pt/ de autoria de Celestino Chaves

 

E por hoje é tudo, amanhã há mais.

 

 

 

 

 

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