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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

25
Jun10

Discursos Sobre a Cidade

Texto de Blog da Rua Nove

 

(XII)

 

Acordou com os lençóis enrugados, embrulhado sobre si mesmo, como se aqueles panos brancos fossem uma mortalha deixada ao abandono ou um mapa sem sentido. Aquela noite poderia ter durado várias noites. O dia anterior toda uma semana. Não sabia. Madrugada e manhã eram um enevoado indefinido.

 

Costumava recordar calendários e datas, raramente episódios literários ou livros, que quase nunca lia. Mas de repente lembrou-se da versão da Odisseia, de João de Barros, que lera muito depois da primária. E a imagem de Ulisses, amarrado ao mastro para resistir ao canto das sereias, deixou-o suspenso naquele momento.

 

Enrolado nos lençóis, sentia-se perplexo. Estaria assim a proteger-se de ansiedades ou sonhos que não recordava? Ou apenas a resguardar-se daquela luz que tudo inundava?

 

Entrando de lado, por entre os cortinados abertos, o sol, alto, parecia ter estado sempre ali. Sem lhe bater sobre o corpo, dava-lhe a sensação de o ter feito transpirar descontroladamente, destilando uma febre tropical. Cruzaram-lhe a memória imagens de Bafatá, dos Bijagós e do tempo que passara na Guiné. As febres haviam-lhe feito perder a noção do tempo e de si próprio. E agora regressava a si mesmo como se estivesse a recuperar de uma dessas febres. Um estranho em terra estranha e um estranho perante si próprio.

 

Soerguendo-se a custo, viu o quarto banhado numa luz quase insuportável. Perdida entre essa imensidão luminosa, estava a pasta. Um ponto escuro que contrastava com tudo o resto. Passou a mão pelas pálpebras, pressionando os olhos. Viu inúmeros pontos luminosos, amarelados e alaranjados, agitando-se e palpitando sob a luminosidade avermelhada das pálpebras. Depois, a escuridão. E a seguir o mapa sobre a secretária, ao lado da pasta.

 

Um mapa já desbotado, que um oficial do exército lhe oferecera anos antes. Um mapa da época em que a cidade ainda era vila. As pessoas que por ali teriam andado teriam sido outras, mas o traçado das ruas parecia ser o mesmo. De modo redundante, a vila velha também parecia ser quase a mesma.

 

Só ele não parecia ser o mesmo.

 

(continua)

25
Jun10

«Amarelo - sabão»

 

.

 

Há cinquenta anos.


A «Praça», principalmente às 4ªs fªs e aos sábados, era muito frequentada.


Estava localizada entre o Rua do Olival e a das Longras.


Daquela, desciam umas escadinhas e subiam outras ou umas escadinhas subiam e outras desciam.


No patamar, a  meio delas, lá estava um pobre, ou uma pobre, a pedir esmola; ou um mais pobre a vender uns pentes de cor amarelo-sabão.


No fundo da descida das escadas, ou princípio da subida das mesmas, tinha lugar marcado um contrabandista famoso, a vender uma dúzia de facas de vários tamanhos e para “todos os resultados”; a recomendar o tecido para umas calças no «M. dos fatos»; e a marcar data para a entrega das pedras de isqueiro.


O peixe, chegado de Espanha, naquela madrugada, transportado ao lombo de machos e mulas, era, nesse tempo, bem mais fresquinho do que o congelado que se encontra, hoje, em qualquer canto e esquina comerciais.


As “Regateiras” eram mesmo regateiras, pois sabiam, e tinham de, fazer frente ao regateio das donas de casa, preocupadas em poupar alguns tostões - (1 tostão«=»a 2mil avos de 1€).


Algumas destas até tinham de fazer o milagre de lhe sobrar para a compra de um maço de «Provisórios» ou «Três vintes», que iria posto logo no cimo da seira (O «génio» do seu «home» ficaria acalmado) onde seguia o almoço, mal o comboio apitasse em Santo Amaro ou na Fonte Nova.


Há cinquenta anos, a criação de capoeira era abundante.


E, faz anos, por esta altura, as ninhadas de frangos e coelhos estavam a começar a ficar no ponto de serem … vendidas na Praça, por bom preço.

 

Descidas as escadas, ao fundo, à direita, ficavam as peixeiras; ao fundo, à esquerda, as padeiras.  À saída para as Longras, de cada lado de um portão largo, posicionavam-se as Regateiras dos ovos, dos frangos e dos coelhos.


A Emigração para França estava na moda (pudera!).


E, há cinquenta anos, faz, este Verão, anos, os «Emigrantes» já chegavam em bonito número.


As donas de casa residentes, lá iam, como de costume, às compras ao “Mercado”. Mas, a partir de Junho e até princípios de Setembro, ficavam cheias de dores:


- Ó tia Quinhas, quanto custa este coelho?


-Qual? Este?


-Não! Aquele!


-Ah! Vinte mil réis!


- Credo, em cruz, Tia Quinhas !  Atão inda a semana passada lhe levei um por «sete e quinhentos » e, agora, quer Vinte escudos?!


- Olhe, menina, e é se o quiser levar já. Daqui a nada vêm os «EMIGRANTES» e nem refilam!


Tupamaro

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