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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

05
Jul10

Crónicas Segundárias - Presunto e Optimismo

 

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Presunto e Optimismo


 

(Esta crónica é para o Fernando Ribeiro, o dono do blogue, e também para o José Carlos Barros, poeta que contribui com posts em algumas Sextas. É para eles por serem das pessoas que se afligem seriamente com a desertificação e com outros problemas da nossa região.)

 

 

 

Na última crónica falei sobre o desaparecimento do presunto de Chaves, nesta queria falar sobre a importância em que ele reapareça.

 

A última crónica diz como é que o presunto de Chaves fez fama, embora ele nem sequer fosse feito exclusivamente no concelho de Chaves, também vinha do Barroso, de Valpaços, e de outras terras. É estranho que, agora, qualquer presunto feito no concelho de Chaves leve o nome de presunto do Barroso porque faz parte dessa área geográfica de produção. Como disse, acho isto um erro de marketing, do pior que vi na vida, porque é uma estupidez alterar o nome do presunto mais famoso de Portugal.

 

Vou ser optimista e dizer meia dúzia de coisas que vão parecer malucas e radicais para algumas pessoas. Mas acho que o que nos falta é fazer coisas radicais e não estar sempre a moer com a mesma mó, que cada vez está mais desgastada.

 

Acho que seria muito importante o presunto de Chaves voltar a ter o seu nome e ter também uma área geográfica de produção. É importante aproveitar a fama que ele já tem, especialmente porque Chaves é um bom nome e que tem outras coisas que fazem esse nome conhecido, como a final no Jamor, por exemplo! Além disso, o presunto de Barroso sempre se vendeu sobre o nome de Chaves e nunca houve problemas com isso. Deve acabar-se com a área geográfica de produção de presunto de Barroso e criar-se a de Chaves. Agora, vou dizer uma coisa mais radical e que vou explicar a seguir.

 

A futura área geográfica de produção do presunto de Chaves deve englobar as áreas onde se ia buscar o presunto, como Barroso, Valpaços, etc, e tentar estender-se essa área o mais possível, desde Bragança até Vila Real, e incluindo, mesmo, algumas partes do Minho e das Beiras. Isto porque em Trás-os-Montes o presunto é todo muito parecido, e também o é com o da Beira e de partes fronteiras do Minho, não haveria problemas nenhuns com diferenças na qualidade. O que imagino é que será muito difícil convencer as pessoas que isso tem lógica, especialmente se as pessoas são de Vinhais, por exemplo, que é uma terra onde se faz bom presunto e fumeiro. O orgulho e o bairrismo parolos podem ser um entrave.


E porque é que eu queria uma área tão grande a produzir presunto de Chaves? É muito simples, é uma coisa que só os parolos dos nossos governantes não vêem. Há várias razões para isso. Primeiro, o presunto de Chaves tem grande qualidade. Segundo, é muito barato, encontra-se à venda nas feiras de fumeiro de Montalegre por apenas 10 euros o quilo, por isso é um produto muito competitivo. Terceiro, o mercado nacional não está esgotado, como se vê pelo muito presunto espanhol (bem pior do que o de Chaves, e mais caro) que entra pela fronteira. Quarto, o mercado do presunto é um mercado mundial, ou quase mundial, e se se podia entrar em força no mercado nacional, no mundial ainda melhor estaríamos, já explico porquê.

 


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O que me irrita a mim nesta história do presunto é a ignorância. Tenho viajado por vários países da Europa e conheço o presunto que se encontra por aí fora. O que se encontra nos supermercados dos vários países europeus é presunto espanhol ou italiano, e um bocadinho de presunto Alemão, não muito mais, embora eu não seja um especialista em presunto europeu. O presunto é normalmente apresentado em caixas plásticas com 60 gramas (com umas 6 fatias muito finas) e que se vendem à volta dos 3 euros. É fácil fazer a conta e descobrir que por vezes pago o presunto a quase 40 euros o quilo! Mas é presunto que não vale nada, o único que sabe a presunto é o espanhol. O presunto italiano é muito famoso, especialmente o de Parma, mas eu nem gosto porque ser adocicado, não tem sal e nem sabe a presunto. O Alemão ainda é pior, não é fumado como o nosso, em que o afumar serve para secar o presunto, o alemão é exposto ao fumo, já fatiado, para ganhar o sabor do fumo, o que é detestável mas que é prática comum dos povos do nórdicos, gostam de afumar a comida desta maneira, incluindo o peixe. Por estas razões, se o nosso excelente presunto caseiro se vende a 10 euros, seria fácil competir com presunto que se vende a 30 e 40 euros o quilo, mesmo contando com o lucro dos supermercados e de despesas com transportes. Há outra razão forte que iria ajudar imenso a exportação: os emigrantes. É que nas principais cidades do mundo, como Paris, Londres, e Nova York, há muitos milhões de portugueses a viver e que têm que se contentar com o caro e fraco presunto espanhol. Se eles apanhassem lá o nosso presuntinho caseiro, nem que fosse a 30 euros o quilo, iriam comprá-lo, de certeza absoluta, e ajudariam a espalhar a fama e contribuir para a comercialização. Mas se nós nem nos fazemos ao mercado nacional... Parece-me que anda tudo a dormir.

 

Mas não é só no presunto que temos que apostar mais, é também nos fumeiros e tudo que esteja relacionado com a carne de porco. Nas feiras do fumeiro de Montalegre e Boticas os produtos esgotam. E eu acho que os preços são muito baixos. Mais uma vez, o mercado nacional não está esgotado, longe disso.

 

Falei com responsáveis sobre o fumeiro da região de Barroso e fiquei a saber que um porco dá de lucro cerca de 1300 euros, depois de descontados a comida, o abate, etc. Ou seja, quem se der ao trabalho de criar um porco e o for vender à feira a Montalegre faz em fumeiro, presunto, etc, 1300 euros limpos. Acho isto muito bom mas que pode, até, ser melhorado, porque os preços praticados são barateiros! Imaginem um casal que crie 12 porcos, fica com um ordenado limpo de 1300 euros por mês, e se quiser subsídio de férias e décimo terceiro basta criar mais 2. Como as pessoas sabem, até há uns anos as grandes casas de lavoura da região criavam uns 10 porcos facilmente e ainda tinham tempo para o resto da lavoura. Por isso, acredito que um casal possa criar sem grandes problemas uns 24 porcos (na zona de Montalegre já há várias casas que criam estas quantidades e até mais) e ter dois excelentes ordenados de 1300 euros por mês, limpinhos! Isto é um ordenado de doutor, especialmente na nossa região onde ainda há casas muito baratas e que mesmo com a criação dos 24 porcos ainda sobraria tempo para a horta e outras coisas, que também são lucro.

 

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Não percebo de que é que a nossa gente está à espera, é evidente que o que está a dar é criar porcos e fazer bom fumeiro. E não há que ter medo, já disse que o mercado nacional não está esgotado, longe disso, além de que há muito mercado para a exportação. E o lucro por porco pode ser aumentado bastante, basta reparar que nas grandes superfícies se vende fumeiro industrial espanhol a preços muito mais altos do que o do muito melhor fumeiro caseiro de Barroso.

Eu imagino o futuro da nossa região com a gente a voltar às aldeias para se dedicar ao fumeiro e encher os bolsos. Porque se alguém quiser trabalhar a sério e criar apenas porcos, pode criar uns 50 e ter um ordenado brutal de 5000 euros por mês! Não percebo porque é que as pessoas continuam a emigrar, há que criar porcos.

 

Também seria bom que houvesse vários criadores de porcos por aldeia, porque assim podem ajudar-se na matança e na feitura do fumeiro. Imaginem 6 casais numa aldeia a criarem cada um 24 porcos. De Novembro a Janeiro ajudar-se nas matanças e fumeiro, e mais tarde, quando é só deitar a comida aos porcos, podem ajudar-se na alimentação dos porcos de um casal que vá de férias. É que com ordenados de 2600 euros por mês, estes casais vão querer ir para as Caraíbas, por exemplo. Deixam os porcos com os amigos e vão curtir o mundo. Já estou a imaginar as nossas gentes estendidas numa praia das Caraíbas com um cocktail na mão e a ligar do telemóvel para o vizinho "Ó Zé, como é que vão o caralho dos recos? Tá tudo a rolar? Aqui é que se está bem, rapaz, já nem me lembram os recos nem o caralho, foda-se! Vamos mas é montar aqui umas cortes!".

 

É assim que eu imagino o futuro da região. Basta ser esperto e desenvolver este negócio. É por isso que eu acho que era bom criar uma região de produção grande, que é para ter quantidade para servir o mercado mundial e não andar a vender às pinguinhas e não ter mercadoria para servir os fornecedores regularmente. Também acredito que as pessoas que se podem fixar cá, com o negócio dos porcos, vão ter tempo para desenvolver outras actividades que são lucrativas, como as do mel, dos produtos biológicos (ainda não se faz nada disto, apesar de termos condições, e mais uma vez digo, por esses supermercados da Europa vêem-se muitos produtos desses e a preços bem altos, de certeza que há mercado para algumas coisas nossas), etc. Há que ter iniciativa e explorar os mercados, não podemos estar à espera que algum Dinamarquês passe por cá a perguntar "A como é que está o preço do presunto?". Nós é que temos que nos mexer e basta mexermo-nos um bocadinho, grande qualidade e bons preços já nós temos.

 

Até à próxima, mãos aos porcos!

 

 


05
Jul10

Nadir Afonso em Lisboa e Chaves

 

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"Nadir, Multiplicado"

 

Livraria Babel – Chiado

 

de 6 de Julho a 14 de Agosto

 

Rua da Misericórdia, 68 - Lisboa

 

 

Aberta de segunda a sábado das 10h às 20h

 

Curadoria de Miguel Matos

Com o apoio Manufactura de Tapeçarias de Portalegre

 

Inauguração dia 6 de Julho às 19h

 

Nadir, multiplicado


 

“Por princípio a obra de arte sempre foi reprodutível”, afirmava Walter Benjamin logo na primeira linha do seu texto A Obra de Arte na Era da sua Reprodutibilidade Técnica1. Nadir Afonso, ao longo da sua carreira como pintor, tem recorrido consistentemente às técnicas gráficas para aumentar o poder de exposição das suas obras. A serigrafia e a tapeçaria são práticas constantes, que utiliza recorrendo a técnicos seleccionados e acompanhando todo o processo.

 

Com estas técnicas, consegue uma “democratização” e difusão das imagens que cria, para além das transformações plásticas e de escala que cada uma delas implica.

 

Para Nadir Afonso, a forma, a geometria e a harmonia de composição são o centro fulcral da obra de arte. O suporte em que essas realidades plásticas nos aparecem à vista é considerado por si como um elemento secundário. Aliás, refira-se que quase todas as suas telas não são telas na sua origem. Tudo começa com um estudo feito a caneta num minúsculo rectângulo de papel, onde o essencial de uma obra sua se revela. Após isso, o artista desenvolve o esboço num segundo momento, normalmente utilizando o guache. Passando a fase do desenho a caneta, o guache é por si tão trabalhado que ganha estatuto de obra independente. Nadir pinta de novo a ideia inicial, mas em formato maior, amplia e desenvolvendo o primeiro desenho. Só depois disto parte para a terceira fase, em tela, aplicando a composição e as cores já pensadas e reflectidas nos dois primeiros momentos. A tela passa a ser uma reprodução ampliada do guache. Tendo em conta estas fases de reprodução/adição/ampliação, torna-se difícil determinar com clareza o que é afinal a obra primeira e única. A tela é apenas o passo final, a estabilização do processo.

 

“Na sua esquemática nudez, a pintura, como toda a obra de criação, obedece às leis da natureza universal pressentidas através duma percepção sensível”2 - com esta frase, Nadir Afonso abre uma janela para começarmos a entender a sua visão acerca da criação artística.

Uma obra sua é uma criação da intuição, manifestada visualmente. Neste contexto, “tal como o tema, a técnica que emprego numa obra é coisa secundária. As leis da matemática é que são essenciais e estão sempre lá”, diz com convicção. Cada obra tem a sua lei natural e esta aparece independentemente do seu suporte. As serigrafias e a tapeçaria apresentadas nesta exposição representam, de forma abstractizante, cidades. Mas para o artista, o tema é apenas pretexto para a composição das formas e linhas. A perfeição, a evocação e a originalidade revelam-se em elementos geométricos e são realçadas nas suas relações matemáticas.

 

Nadir Afonso não cria obras em específico para serigrafia ou tapeçaria. Todas elas são reproduções em diferente escala e técnica.

 

No entanto, na sua opinião, a reprodução em múltiplos não desvaloriza em nada a obra original e contém em si os elementos plásticos intactos, que permitem ao observador obter a experiência estética. A questão da divergência original/reprodução não lhe interessa, pois o âmago da criação situa-se na imagem e na matemática nela contida, elementos que transitam com a reprodução. Com a serigrafia e a tapeçaria, o objectivo de Nadir Afonso é divulgar a sua obra, fazê-la chegar a mais pessoas, torná-la cada vez mais universal, como o espírito que as habita. O artista conclui de forma esclarecedora:

 

“Tenho prazer em realizar uma obra, mas quando sinto que a obra se transmite, dá-me muito mais prazer. Se uma obra estiver fechada à comunicação é uma tristeza”.

 

Miguel Matos

 

1Benjamin, Walter. Sobre Arte, Técnica, Linguagem e Política, p.75.

Relógio d'Água, Lisboa, 1992.

 

2Afonso, Nadir. O Sentido da Arte, p.9. Livros Horizonte, Lisboa, 1999.

 

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http://babelaoquadrado.blogspot.com/p/exposicao-do-livro-michelangelo-la.html

http://folhadesala.blogspot.com

 

 

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Geralmente, temos pena, de Lisboa ainda ficar tão longe e de não podermos assistir ou visitar as exposições do Mestre Nadir Afonso, mas nem por isso nos podemos lamentar, pois o Mestre tem mantido sempre Chaves a par da sua obra com as exposições que por cá realiza.

 

Dia 8 de Julho, temos mais uma, esta, em jeito de homenagem, com inauguração marcada para as 11 horas, na Biblioteca Municipal e integrada no programa das “festas” da cidade e da Bienal de Arte de Chaves.

 

Aqui ao lado, em Boticas, ficamos a saber que

 

Já arrancaram as obras de construção do “Centro de Artes Nadir Afonso”, um espaço que perpetuará a ligação do Mestre Nadir Afonso, um dos maiores expoentes da pintura contemporânea portuguesa, ao Concelho de Boticas, de onde era natural a sua mãe (mais propriamente da aldeia de Sapelos), e que permitirá elevar a oferta cultural de Boticas, colmatando a ausência de um espaço cultural condigno e constituindo uma importantíssima mais-valia para o Concelho, para a região do Alto Tâmega e até para o norte do país, assumindo-se ainda como um projecto inovador que atrairá público nacional e estrangeiro, contribuindo para a criação de novas dinâmicas e maior visibilidade de Boticas.

O “Centro de Artes Nadir Afonso” resultará da construção de um edifício de raíz, cujo... Siga o link para ler o resto da notícia: http://www.cm-boticas.pt/noticias/default.php?id=we

 

Já agora, será uma boa oportunidade para perguntar:

 

E em Chaves, quando iniciam as obras da Fundação Nadir Afonso?

2011, está à porta!

 

Mais logo, temos aqui Crónicas Segundárias.

 

 

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