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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

12
Jul10

Crónicas Segundárias - Bebedeiras e Rentes ao Faustino

 

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Os domingos são os dias em que escrevo estas crónicas secundárias. O domingo, em princípio, seria um bom dia para escrever crónicas porque é um dia sossegado em que não há muito para fazer. Só que a minha costela copofónica fode-me a disposição para a escrita, porque antes de um domingo há sempre uma noitada de sábado à espera da minha alma de bebedolas. Na verdade, nem bebo muito, mas com a coisa do trabalho, o sábado é aquele dia que dá jeito para beber, e para beber aquilo que não se pode nos dias anteriores mais o que apetece beber a um sábado. Não é? No jantar de sábado, botei abaixo uma garrafinha de um bom shiraz australiano (era para ser só meia, mas...), depois fui-me com amigos a beber mais cerveja australiana, mais umas bejecas holandesas, e no domingo de manhã (a fugir para a tarde...) acordei a pensar: olaralalá, hoje é que vou estar com disposição para escrever crónicas, ui ui ui! À tarde fui beber chá com amigos, depois fui ver a grande final do campeonato do mundo da bola, e ainda depois fui celebrar com amigos espanhóis, com quem acabei a cenar. Llegué a casa à uma da matina. Como já não tinha nem tempo nem disposição para pensar numa crónica, estou a fazer aquilo que é mais fácil: escrever a direito, escrever sobre a vida, neste caso, a vidinha copofónica.

 

Mas a copofonia fez-me lembrar (deve ser coisa das amstel holandesas que bebi) que há uns tempos tinha pedido autorização ao J. Rentes de Carvalho para publicar textos seus, aqui, no blogue de Chaves, e em especial um sobre a Adega Faustino. Que maravilha, já não tenho que me preocupar com a crónica, pensei! Faço uma introdução a brincar com as minhas bebedices, a seguir meto o texto do Rentes, e já está, já posso ir para a caminha curar-me. E até fico bem visto porque os leitores vão pensar que o que estou a fazer é divulgar a boa literatura portuguesa. Também, mas não só. Porque o que quero é cama, nem me apetece pensar em livros!

Tirando estas brincadeiras todas, porque o Rentes de Carvalho merece ser muito bem tratado, o que se passa é que eu sou, desde há uns anos, grande fã da literatura dele, e por isso que lhe pedi para publicar alguns textos dele aqui.

 

O Rentes de Carvalho é um escritor curioso, é muito conhecido na Holanda, onde já vendeu mais de meio milhão de livros, mas é quase desconhecido em Portugal. Lá está, é incrível como as nossas pobres terrinhas são especialistas em ignorar as poucas pessoas de qualidade, especialmente se estas vão viver para fora. Quem perde somos nós.
O meu livro favorito dele é o Ernestina, que se encontra por aí à venda numa nova edição da Quetzal. É um livro fabuloso, é passado em Trás-os-Montes, e vale a pena ser lido, especialmente se se é transmontano. Se alguém quiser seguir o seu blogue, o Tempo Contado, ou ouvir uma entrevista sua na TSF, aí estão os links.

 

O texto do Rentes de Carvalho sobre a conhecida adega flaviense, li-o no blogue do Francisco José Viegas, outra pessoa que tem uma costela flaviense. Está ilustrado com fotografias do Fernando, do Dinis, e do Eduardo Pinto.

 

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Talvez na próxima crónica eu me encontre menos ressacado e escreva uma crónica melhor sobre outra coisa qualquer. Gostei bastante dos comentários dos leitores à última. Tenho aprendido bastante com os comentadores. Não se acanhem, comentem, eu gosto muito. E se o desejarem, também podem sugerir temas que gostassem de ver aqui falados. Que é que achais, já chega de presunto, mudo o disco?

 

Até à próxima, fiquem com o texto do Rentes de Carvalho:

 

«… Se entro num café, também nunca falha que um dos bêbedos presentes me tome por alvo do seu interesse. Ora se é grande a minha piedade para com os doentes do espírito, e vasta a paciência que tenho com bêbedos, há entre estes últimos um tipo que facilmente me irrita: aquele que insiste em me contar a sua vida e os seus problemas. E que quando recuso ouvi-lo se torna inconveniente. Para depois, agressivo, desatar aos berros, às patadas no chão, e finalmente ameaçador, arregaçar as mangas pronto para o soco.

 

Devo dizer que só por inadvertência deixarei as coisas chegar a esse ponto. Em regra, quando ele vai a meio da sua biografia, arranjo modo de discretamente me safar. Acontece, porém, que alguns passam com tal rapidez de uma fase para a outra que, quando me dou conta, já eles seguram a garrafa pelo gargalo e exigem que lhes preste atenção ou me racham a meio.
Por isso a minha frequência dos cafés se tornou esporádica e foi sem entusiasmo que, tempos atrás, em Chaves, acompanhei um amigo a uma taberna. Para me convencer tinha ele usado um argumento de peso: tratava-se de “Faustino & Filhos”, a maior taberna de Portugal.
De facto logo de entrada me surpreenderam as dimensões e a particularidade do recinto ser redondo. O tecto é sustentado por enormes vigas de ferro forjado que vão das paredes para o centro, onde pousam numa gigantesca roda do mesmo material. Tudo na construção aponta para os fins do século dezanove, época áurea do consumo do vinho, e da taberna como centro da vida social.

 

Nessa tarde bebiam ali umas cem pessoas, mas sem aperto se acomodariam duas mil ou mais. Atrás do balcão estão cinco tonéis, cada um para cinco mil litros de vinho. Na adega, escondida atrás de uma porta, guardam-se as reservas: dois tonéis de quinze mil litros cada, e outro, verdadeiro monumento, que leva dezassete mil e quinhentos litros. Todos três tão colossais que, para os lavar por dentro, o pessoal precisa de escadotes.

 

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Surpreenderam-me as dimensões de tudo, como me surpreendeu também a paz que ali reinava. Numa prateleira onde se esperaria a televisão, estava um velho rádio, empoeirado e silencioso. Os grupos conversavam em murmúrios, bebiam calmamente o seu vinho, iam ao balcão buscar mais.

 

Ouviam-se alguns risos, mas ninguém gargalhava. Faustino Júnior, bisneto do fundador, explicou-me que era sempre assim: umas vezes mais gente, outras vezes menos, nos domingos e dias de festa casa cheia, mas por tradição bebia-se ali em harmonia e sem barulho.
Nos quase cem anos de existência não havia notícia de jamais lá se ter dado uma zaragata. E quando alguém se embebedava, levavam-no discretamente para a rua antes que fizesse distúrbios.

 

Esse ambiente de desacostumada serenidade e as dimensões monumentais do interior e dos tonéis, tinham resultado numa curiosa alcunha.

 

– Sabe como chamam cá ao nosso estabelecimento? – perguntou o proprietário. Eu ignorava.

 

– É a igreja do Faustino.»

 

 


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