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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

16
Jul10

Discursos Sobre a Cidade - Por José Carlos Barros

 

.

 

 

Somos nós que pertencemos aos lugares


 

texto de José Carlos Barros


 

 

 

Todos temos um lugar que julgamos pertencer-nos. E no entanto somos nós que pertencemos aos lugares: às suas ruas ou às suas casas, às suas nascentes ou árvores, aos seus largos, aos seus tanques, aos seus muros e às sombras dos muros. É verdade que uma paisagem é quase sempre o resultado do que fizemos dela: do modo como desviámos ou represámos águas, arroteámos florestas, cortámos pedra e erguemos paredes. Mas é a força dos lugares – mesmo depois do primeiro olhar de um homem sobre as encostas e os vales, mesmo depois da primeira mão modeladora, mesmo quando do que eram ficou um irreconhecível retrato – o que prevalece e impõe. O que prevalece sobre a obstinação e a vontade; o que se impõe sobre a coragem, o esforço, a audácia de procurar afeiçoar a um corpo o que vem de mais longe que a mão e a ideia de construir uma casa e um terraço virado aos dias de Verão. Deus, provavelmente, é a resposta (uma resposta) a esse incontornável poder dos lugares sobre os homens.

 

Todos tivemos lugares que julgámos pertencerem-nos para sempre. A Avenida do Eiró: uma alameda de plátanos, a terra batida, ramos e folhas de construir cabanas de aventura contra os muros altos das propriedades (cortaram as árvores). A Relva: os primeiros vidoeiros e os seus troncos brancos contra o verde do chão protegido pelo pequeno bosque marginal, os viveiros de abetos e camacíperas, a pedra na curva do rio onde se entrava para mergulhar, um ringue de patinagem, um tanque de águas gélidas nos dias claros de Julho (vieram os automóveis). Uma cozinha na Granja: a pedra da lareira e o louceiro, a mesa com uma toalha de plástico, a sombra do Inverno quando se fechavam as portas e não havia uma única janela por onde entrasse outra luz além do lume dos paus de carvalho (deixámos de caber lá dentro).


Continuamos a procurar. Procuramos sempre. Ou os lugares nos procuram. Antigua muito cedo de manhã: os vulcões erguendo-se num eixo que prolonga ruas com casas de um único piso (amarelas, de um vermelho escuro, azuis, cor de laranja), as ruínas de São Jerónimo e a memória permanente dos desastres, um pátio descoberto por detrás de grades de ferro, as crianças a correr na Praça, a roupa colorida das mulheres. Um alpendre longe da Rua Obispo, longe das praças dos retratos: panetelas e rum, a fruta com muitas cores, uma guitarra, poemas, as histórias que nos juntam e fazem maior a nossa sombra espalhada no chão quando nos levantamos e deixamos a mesa dos encontros.


Há lugares a que acabamos por pertencer. O jardim de uma casa em Cacela: os medronheiros e as tamargueiras, a alfazema e o alecrim, os malmequeres e as petúnias, um freixo e dois cupressos erguidos a direito contra a horizontalidade do pomar, uma açoteia, a tijoleira de Santa Catarina, as alfarrobeiras e o seu cheiro intenso nos primeiros dias de Setembro. A encosta dos lameiros de Cerdedo: linhas de água oblíquas em ligeiro declive, uma vereda por entre os matos virados ao Sul, o céu muito azul recortado contra o ondulado do horizonte. A Rua de Santa Maria: no Inverno, num dia sem uma nuvem, uma réstia de luz agarrada ao granito das casas, o vermelho, o azul, o amarelo dos pormenores das fachadas, as varandas, a memória de um tempo que vem de D. Teresa, que vem dos anos do Liceu, que vem do mês de Novembro do ano passado. A Rua de Santa Maria e o silêncio quando anoitece e a rua fica deserta

 

comigo lá dentro.

 

 

 


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