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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

28
Jul10

Hoje há feijoada, à transmontana...

Há dias num post entitulado  «Já nem sei que dizer» - onde eu referia que talvez estivesse errado em querer ver as aldeias com vida, com crianças, gente, animais… a um comentário desse post, de autoria da Joaninhas, prometi uma resposta alargada.

 

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Dizia-me a Joaninhas em comentário:

 

« (…) não entendo duas coisas. Se tantas saudades porque não vai o Fernando viver para essas aldeias lindíssimas .
Outra coisa, se todos nós fossemos morar para as aldeias que seria da cidade? Não ficava ela, também ao abandono, com esses encantos e recantos lindos lindos?
Acaba por também ela estar abandonada.

E todos nós somos cúmplices disso, não acha Fernando?

É bom tirar fotos, mas o melhor seria exigir melhores acessos a essas aldeias, e lutar sempre. (…)»

 

Pois aqui fica, como prometido, a resposta a essas questões, com um pouco de mim (em jeito de introdução) para melhor se entenderem os porquês mas também dando continuidade à discussão lançada por António Chaves na sua última Crónica Segundária.

 

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Em tempos, já não sei precisar, disse aqui neste blog que nasci em Chaves por mero acaso, pois poderia ter nascido numa vila ou numa aldeia. Numa vila, terra da minha mãe (Montalegre) ou numa aldeia, terra de meu pai (Parada de Aguiar – Vila Pouca), também poderia ter nascido em Vila Verde da Raia, ou noutra terra, aldeia, vila, ou numa cidade qualquer. Nasci em Chaves e como tal sou flaviense. Mas o ser flaviense não é tão simples assim e, não é por ter nascido em Chaves que o sou, pois nem sempre somos da terra onde nascemos, mas, isso sim, da terra onde aprendemos os primeiros passos, onde aprendemos a andar de bicicleta, onde aprendemos as primeiras letras, onde aprendemos a nadar, onde fizemos os primeiros amigos (os verdadeiros e para todo o sempre), onde roubamos a fruta madura da árvores, onde demos o primeiro beijo, onde lamentámos as primeiras ausências, onde levámos as primeiras negas, onde casamos, onde tivemos os nossos filhos, onde ao dobrar da esquina há sempre um amigo e, onde – sobretudo isso – optamos por viver e temos um lugar, uma casa que nos acolhe, com família lá dentro, onde regressamos sempre nem que seja num único dia do ano, aquele em que todos queremos estar juntos para consoar o Natal ou, no derradeiro momento que, com toda a nobreza de uma vida, se volta à terra para receber sepultura – Essa, é a nossa verdadeira terra.

 

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Pois eu, no meu ser flaviense, à excepção de ter cumprido a vida, tenho tudo isso, mas muito mais, pois também tenho a minha aldeia que herdei do meu pai e a minha vila que herdei da minha mãe e, não é apenas por eles terem nascido lá, mas porque também as vivi e continuo a viver pela simples razão de, tal como eu sou flaviense, o meu pai sempre foi da aldeia dele e a minha mãe da sua vila porque (infelizmente eles)  não tiveram a minha sorte de ter o todo ou tudo da terra onde nascemos e ter ainda um pedaço na aldeia e vila de onde descendemos, onde também se passaram natais e havia avós, tios, primos, amigos e as velhas casas que também eram nossas.

 

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Mas o ter nascido em Chaves não é tão simples como parece, pois os meus pais poderiam ter optado por fixar residência na aldeia ou na vila de onde eram naturais. Contrariando a vontade natural (estou em crer) de “puxar” para as sua terras, optaram pela cidade mais próxima das suas raízes, cidade pequena mas cidade, onde havia escolas, hospital, trabalho e as necessidades mínimas para uma vida mais ou menos digna que numa aldeia ou vila não poderiam dar no seu todo aos filhos… e aqui entramos no cerne de todas as questões ligadas ao despovoamento das aldeias, pois todas elas foram despovoadas para alcançar uma vida melhor, não só para os despovoadores mas sobretudo para os filhos.


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Parece ficar assim explicado o despovoamento das aldeias e do meio rural, mas não fica. Pois tudo poderia ser diferente desde que houvesse condições para as pessoas, os casais e os filhos, ficassem (por opção) nas terras onde nasceram, podendo ter nelas uma vida digna, com trabalho e um modo de ganhar a vida mas, com acesso fácil a tudo que existisse nas cidades, mas para isso, teria de ser necessário desmontar todas as políticas praticadas até hoje  e que actualmente são cada vez mais agressivas com a(s) modernidade(s) e o centralismos em que as pessoas, os valores e os lugares pouco interessam, pois tudo é visto sobre o prisma dos interesses, dos cifrões traduzidos em tabelas de Excel e gráficos comparativos de puras matemáticas… valores, saberes, sabores, culturas, povo, tradições, usos e costumes, não contabilizam nessas tabelas e gráficos…Eia, eia lá… a globalização centralizada é que é da modernidade, a identidade do povo  – para dizer bem e depressa – que se foda! O povo e o interior que aguente e, quantos menos forem, maior será o desprezo, pois apenas são contabilizadas cabeças que valem votos – as pessoas, a gente, os valores, sabores e saberes do povo de nada valem se não houver número suficiente de cabeças para fazer crescer os gráficos e eleger pavões para o poder… que lhes interessa a eles a terra ou a casa onde nascemos, os nossos amigos, a nossa família, onde passamos ou não o natal!. Que lhes interessam a eles os nossos sentimentos, os nossos gostos, as nossas opções… somos apenas números, um por cada cabeça, para eles, é esse apenas o nosso valor – uma unidade, ou seja – pouco ou nada valemos.

 

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Claro, Joaninhas, que tenho saudades das antigas aldeias lindíssimas, sobretudo porque tinham gente, crianças, animais e casas com gente dentro, que vivia nelas, faziam filhos e consoavam natais onde os filhos e parentes ausentes regressavam sempre e as vilas e cidades, mais pequenas é certo, também existiam, também com casas com gente lá dentro, que faziam filhos e natais e enchiam as ruas de vida com gente e crianças…

 

Custa e revolta ver as aldeias despovoadas, com as velhas casas sem gente, sem vida, sem crianças quando bastava, no tempo certo, proporcionar às populações rurais meios e condições para se manterem nas suas terras, tendo as cidades como apoio com os serviços, a saúde a educação a cultura o lazer e ponto de promoção e venda dos seus produtos. Mas tudo isto, para garantir a sua sustentabilidade, teria de ser trabalhado e ter apoio estatal e autárquico sério e responsável onde os apoios comunitários teriam caído como ouro sobre azul…mas não, olhou-se ao lucro rápido e fácil onde todos tentaram ganhar o seu, sem qualquer cuidado, sem pensar o futuro e a sua sustentabilidade.

 

Certo que o despovoamento das aldeias já não é de hoje, pois o grande boom do abandono começou a ocorrer nos anos sessenta do século passado, mas com uma diferença. Antes abandonavam as aldeias para um dia mais tarde regressar. Hoje, o abandono não tem regresso marcado e tudo porque não há motivos ou razões para se regressar, a não ser o tal sentimento do regresso à terra, mas até esse desfalece quando a terra dos filhos dos que partiram, passaram a ser outras terras nas longínquas cidades para onde os pais partiram.

 

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Mas continuo a insistir que tudo poderia ter acontecido de outra maneira se tivesse havido políticas certas para reter as populações rurais, modernizando (a sério) a agricultura, tirando partido da floresta, da pecuária e de tudo que estas actividades está associada, como é o caso do presunto que o António Chaves tão bem tem trazido à baila nas suas crónicas segundárias, e quem diz o presunto e tudo que está associado aos recos, diz a madeira da floresta e toda uma indústria transformadora, diz a agricultura com os nossos produtos de qualidade e toda uma gama de pequenas e médias indústrias que se poderiam desenvolver à sua volta, sem esquecer a riqueza da nossa gastronomia, as nossas paisagens e montanhas e um turismo temático e de qualidade que poderia estar ligado ao nosso ser interior, às nossas termas e às montanhas, onde, aí sim, com tudo isso a funcionar, resolveríamos os problemas de trabalho dos nossos jovens bem como garantiríamos o seu regresso às origens após estarem formados, pois com tudo a funcionar, iríamos precisar de técnicos e gente formada para dar apoio a toda uma população e eles próprios avançarem com os seus negócios e empresas, mas não, tal não acontece e nunca houve vontade, ou habilidade ou inteligência por parte dos nossos governantes para que tal acontecesse, e neste capítulo dos governantes, com muita culpa para os políticos locais que sempre lhes faltou visão, inteligência e falta de amor à terra e aos seus habitantes, que nunca souberam travar o despovoamento rural e promover (ou defender) os nossos produtos e as nossas coisas. Uma cambada de ignorantes que atingiu o poder e a partir daí, lá do alto e tal como os pavões, abriram as penas da cauda em leque e puseram-se a gerir e mal,  contas correntes, a imitar às vezes, sem inovar, apostando fraco e mal, sem a importante união com os concelhos vizinhos onde poderiam arranjar poder de reivindicação com o todo de uma região igual e com os mesmos problemas… mas não, cada um por si, com as suas incompetências e o resultado está à vista, aos poucos, vamos perdendo tudo. Começou pela população das aldeias, depois foi o comboio, que além da locomotiva, aos poucos, foi levando outras carruagens, sendo a última o hospital…mas tudo isto até poderia ser nada se houvessem oportunidades para os nossos jovens formados regressarem (por opção), por cá terem trabalho e futuro.


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Como eu dizia no post que deu origem a este - já nem sei que dizer – talvez eu esteja errado e este esvaziamento do interior seja natural e se caminhe a curto prazo para uma grande cidade chamada Lisboa, outra Chamada Porto e outra chamada Algarve para passar férias e tudo o resto seja paisagem com pequenos grupos de resistentes a viverem à margem como se de indígenas ou reservas se tratassem…

 

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Para rematar este post, vamos lá dar resposta às perguntas da Joaninhas – Porque não vai o Fernando viver para uma dessas aldeias lindíssimas e a de nós sermos todos cúmplices. Pois é assim, eu vivo numa aldeia que fica juntinha à cidade, é certo, mas a resposta correcta é, eu vivo na minha aldeia que dá pelo nome de Chaves e por isso, eu não sou cúmplice do despovoamento e a testemunhar isso, é o eu estar aqui, em Chaves, porque é a minha terra e porque optei viver nela e nela constitui família. Optei pela minha terra e é aqui que quero cumprir a minha vida e, por muitas faltas que Chaves tenha foi a terra onde nasci, onde aprendi os primeiros passos, onde aprendi a andar de bicicleta, onde aprendi as primeiras letras, onde aprendi a nadar, onde fiz os primeiros amigos (os verdadeiros e para todo o sempre), onde roubei a fruta madura da árvores, onde dei o primeiro beijo, onde lamentei as primeiras ausências, onde levei as primeiras negas, onde casei, onde tive os meus filhos, onde ao dobrar da esquina tenho sempre um amigo e, onde – sobretudo isso – optei por viver e tenho um lugar, uma casa que me acolhe, com família lá dentro, onde regresso sempre todos os dias e todos os dia é natal. Falta-me cumpri o resto da vida para nesta terra receber sepultura. Por tudo isso, vivo na minha aldeia, sou um resistente e não sou cúmplice de todos os disparates que têm feito connosco.  Eu cumpro a minha parte, falta aos que têm de cumprir, os do poder, cumprir com a sua parte em prol de Chaves, das suas freguesias mas também da região, com amor e inteligência,  porque afinal esta doença, não afecta só Chaves e o concelho, mas todo o interior, onde o interior Norte é e sempre foi mais castigado, não só em oportunidades mas também com todas a dificuldades geograficas das montanhas e dos 9 meses de inverno e 3 de inferno.

 

É nisto que dá um jejum de palavras!

 

 

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